Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
domingo, 31 de maio de 2026
Quando a vida já vai longa, o tempo começa a afinar contas
Abrigo de afetos
sábado, 30 de maio de 2026
Enquanto houver quem leia com o coração
Naquele
instante, o tempo abrandou. Não foi apenas o elogio que me comoveu – foi o que
ele representava. Nos olhos dela, vi refletida a história viva da nossa comunidade:
as tradições que resistem, os gestos que se repetem, os rostos que envelhecem,
mas não se apagam. Havia ali a confirmação de que a minha escrita não é apenas
um exercício literário; é um serviço à memória coletiva, uma forma de preservar
aquilo que, sem registo, se perderia no silêncio dos dias.
Escrevo
para pessoas como ela e sei disso. Para quem reconhece valor nas pequenas
coisas, para quem encontra beleza nos rituais simples que nos unem, para quem
lê com o coração e não apenas com os olhos. Aquelas palavras, ditas com a
humildade de quem viveu muito e aprendeu a agradecer o essencial, tocaram-me
porque me mostraram que o que faço tem sentido.
Que
a minha voz ecoa onde deve ecoar.
A
verdade é que a escrita, quando nasce da terra, tem esse poder de criar pontes
entre gerações. Eu escrevo sobre o que vejo, mas também sobre o que herdei: os
modos de viver, as histórias contadas ao entardecer, os costumes que moldaram a
identidade de todos nós. E quando alguém me diz que se reconhece nas minhas
palavras, que encontra nelas um espelho das suas próprias vivências, isso é
mais do que reconhecimento – é pertença.
Aquela
senhora Beiranense mas que não vive cá, com a sua gratidão tão genuína, ofereceu-me um dos maiores
presentes que um (aprendiz de) escritor pode receber: a certeza de que a
palavra, quando é verdadeira, chega ao coração de quem a merece. E eu que tenho
na minha terra e na minha gente a maior paixão da minha já longa vida, recebi
esse gesto como se recebe um abraço sentido: com emoção, com respeito, com a
consciência de que certos momentos ficam para sempre.
Este
encontro ficará guardado em mim como testemunho de que vale a pena continuar.
Vale a pena escrever para quem reconheça na minha
escrita a dignidade do que somos, quem encontre nas minhas crónicas a memória
que não quer perder.
Bem haja, querida senhora, pelo seu generoso gesto. Enquanto houver quem leia com o coração e eu tenha lucidez, continuarei a dar voz à terra que amamos e nos fez aos dois.
A si e a mim.
José
Coelho
Foto Maria Coelho
Oração
sexta-feira, 29 de maio de 2026
Bom fim de semana
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Amigos que conheço como se fôssemos irmãos
Três
amigos caminham lado a lado pelas terras da Beirã, como se o destino os tivesse
alinhado desde sempre, embora só aqui, neste estreito vale, se tenham
finalmente encontrado. Cada um nasceu do mundo à sua maneira, em tempos
diferentes, mas todos aprenderam a reconhecer-se pelo simples acto de seguir
adiante.
O
mais novo deles, leve e curioso, é o Ramal de Cáceres, nascido em 1878. Vê‑lo
ali, a passar sobre o muro do lado direito, como um rapaz que ainda não perdeu
o gosto de explorar cada curva do caminho. Traz no passo a pressa dos que sabem
que o mundo é grande e que Espanha começa logo ali adiante.
O
segundo, mais maduro, é o Caminho da Retorta. Já era homem feito quando o Ramal
veio ao mundo. Desce entre o choupo seco e o lado esquerdo da paisagem, com a
serenidade de quem conhece cada sombra, cada pedra, cada dobra do terreno. É um
caminho que não se apressa: observa, escuta, recorda.
E
ao centro, correndo desde tempos que ninguém sabe contar, segue o mais velho
dos três, o Ribeiro da Cavalinha. Não tem idade que se escreva em papel. Terá
milhares de anos, talvez tantos quantos tem o próprio mundo. É o ancião que
murmura histórias antigas, que leva no seu curso a memória de tudo o que já
passou por estas margens.
Durante
longos troços, caminham apenas à vista uns dos outros, cada qual no seu leito,
no seu ritmo, no seu destino. Mas é aqui, nesta garganta estreita moldada pelo
capricho do terreno, que finalmente se tocam. Encostam-se, apertam-se, cedem
espaço uns aos outros para caberem os três – como velhos companheiros que,
depois de anos de distância, se reencontram num abraço inevitável.
Passado
o aperto, seguem juntos até ao Muro. Ali, o Caminho da Retorta e o Ribeiro da
Cavalinha continuam lado a lado até à Várzea da Retorta, onde ambos encontram o
seu fim. O Ramal de Cáceres, esse, segue em frente: atravessa o Matinho,
inclina à direita para as várzeas da Herdade dos Pombais e das Amendoeiras, e
entra em Espanha pela Ponte do Rio Sever, rumo a Valência de Alcântara, Cáceres
e Madrid. É o mais novo, mas é o que vai mais longe.
Conheço os três como quem conhece irmãos. Sei-lhes os passos, os segredos,
as manhas. Cresci com eles, fiz-me homem ao lado deles, e com eles estou a
envelhecer. Enquanto viver, serei parte destas paisagens – parte dos seus
silêncios, das suas histórias, daquilo que só quem aqui nasceu consegue
verdadeiramente entender.
José
Coelho
Texto e foto
Na calma dos meus dias
Esta
é, seguramente, a fase mais tranquila da minha vida, onde tudo é feito sem
pressa, mas sempre com a mesma benévola intenção.
Cada
escolha, cada palavra e cada silêncio, são guiados pela vontade de desfrutar os
meus dias de forma autêntica e consciente.
Viver
com serenidade é ter sabedoria para apreciar o que temos, sem ansiedade pelo
futuro, ou apego ao passado.
É
saber que o tempo é precioso e que tudo o que é verdadeiro permanece, mesmo que
demore a florescer.
E é nesta calma dos meus dias simples que a felicidade se faz presente, e a vida se revela em toda a sua plenitude.
José Coelho com Maria Coelho
Texto e foto
Saudade não é doença – é colo
Muito
se diz sobre o peso das saudades – se curam, se ferem, se prendem quem não quer
largar o passado. Eu, porém, gosto delas. De todas. Do que tive, do que perdi,
do que ficou a meio caminho entre a infância e o tempo que me fez homem. Não é
tristeza, nem sombra, nem doença. É apenas isto: saudades.
E
sei que não caminho sozinho. Há muitos que, como eu, guardam no peito o eco dos
dias antigos: o riso dos pais, o colo dos avós, o cheiro da casa, o lume aceso,
o dia em que casámos, o instante em que os filhos chegaram ao mundo como luz
que se acende sem pedir licença.
Que
mal pode haver em fechar os olhos e deixar que a memória – essa guardiã
paciente – nos devolva intactos os instantes que nos moldaram?
Recuso-me
a acreditar que recordar os meus pais me faça mal. Recuso-me a aceitar que
revisitar os lugares onde fui feliz seja ferida ou fraqueza. Ainda hoje passo
pela Tapada da Lagem Alta, onde um escorpião me marcou o dedo gordo do pé e a
minha mãe sachava milho, de lenço na cabeça, como quem semeia também o futuro
dos filhos. Vejo a pedra onde eu saltava, ouço a voz da Mãe Florinda: – Não
andes a pular das pedras que há p’raí alacraus… E basta-me cerrar os olhos para
que tudo volte: a minha mãe no meio do milho, a tia Maria José Meia, a tia Ana
Galinhas, e o mundo inteiro ainda por acontecer.
A
saudade não é doença. É um colo. Um regresso breve ao lugar onde fomos
inteiros.
Ontem,
na caminhada, passei pelas terras onde os meus pais lançavam feijão-frade à
terra. Doía ver o telhado caído, como se a casa também tivesse saudades de quem
a habitou. Do outro lado, a Casa da Meirinha inclina-se devagar para o chão,
como quem se despede. Mais dois invernos e o tempo cumpre o seu ofício.
Ali
viveram famílias que quase ninguém recorda. Mas eu lembro-me. Lembro-me
sobretudo dos pais do meu grande amigo de infância, aquele que partiu aos vinte
anos, enquanto eu estava na guerra em Angola. Nunca imaginei, naquele março de
1972, que o nosso adeus seria o último.
Que
mal me faz ter saudades dele, cinquenta anos depois? Chorei como se chora um
irmão, no silêncio quente do Maiombe, quando o aerograma da minha mãe me trouxe
a notícia. Éramos irmãos, não de sangue, mas de vida. E isso basta para doer
para sempre.
Acredito
que só sente saudades quem foi feliz. E ser feliz nunca foi ter muito. Eu, como
tantos filhos de camponeses, tive pouco, mas nunca me faltou o suficiente.
Hoje
há dificuldades, como sempre houve. Mas antes trabalhava-se “de sol a sol”,
ganhava-se pouco, descansava-se ao domingo, e começava-se cedo, aos dez anos,
porque a infância era curta e o trabalho longo. Os rapazes guardavam ovelhas,
as raparigas iam servir. As virtudes maiores eram simples: ser honesto, ser
trabalhador.
Agora
a roda do tempo virou. Há mais subsídios do que empregos, mais espera do que
obra feita. Mas a vida é roda e as rodas, ao girar, encontram sempre o ponto de
partida.
Por
isso acredito que tudo o que damos, o bem e o mal, um dia regressa a nós.
E
penso muitas vezes: se eu tenho a bênção de guardar tantas memórias doces, que
os meus filhos e as minhas netas possam um dia guardar as suas. Que também eles
e elas, na sua velhice, sintam vontade de regressar, de vez em quando, ao lugar
onde foram felizes.
José Coelho
A longa sombra dos dias
Beirã: A aldeia onde a história respira devagar
quarta-feira, 27 de maio de 2026
Manifesto íntimo
Não sou
homem de depressões. A minha expressão até pode às vezes sugerir sombras, mas
não carrego no coração nenhuma escuridão que me derrube. Carrego melancolia,
essa forma silenciosa de lucidez que observa o mundo sem filtros e não a
escondo, não a nego, não a temo. Ela é a minha forma de sentir fundo sem me
perder.
A minha
vida nunca foi simples. Nada me chegou por facilidade, nada me foi dado sem
esforço. Vivi cada conquista como quem atravessa terreno irregular: atento,
resistente, consciente de que cada passo tem peso. Os últimos anos foram os
mais duros, mas passaram. Não preciso de os enumerar para lhes reconhecer o
impacto. O que importa é que não me quebraram.
Continuar
é o meu modo de existir. Não por heroísmo, mas por coerência. Continuar não é
esquecer, nem fingir, nem anestesiar. Continuar é aceitar que a dor existe, que
a vida fere, que o tempo não apaga tudo, mas suaviza o suficiente para que o
próximo passo seja possível. E isso basta.
O silêncio
é o meu território de cura. Preciso de recolhimento, de introspeção, de estar
comigo. Não para me lamentar, mas para me reorganizar. Os nós que a vida aperta
não se desfazem em voz alta. Desatam-se na solidão, onde o pensamento respira e
a alma se recompõe.
Caminho
sozinho porque assim tem de ser. Não por orgulho, mas por verdade. Há dores que
não se explicam, há quedas que não se partilham, há feridas que não se exibem.
Entre tombos houve momentos felizes, sim, mas não suficientes para apagar o que
ficou gravado. A cura – se vier – será com o tempo. Até lá, avanço devagar, sem
pressa, sem ilusões, mas com firmeza.
Não me
alimento de frases feitas. “Uma pessoa morre quando deixa de sonhar.” Talvez.
Mas quem já foi esmagado pela vida sabe que há momentos em que sonhar é luxo,
acreditar é esforço e lutar é sobrevivência. E mesmo assim continuamos. Não por
glória, mas por necessidade.
Já estive
sem chão. Já me perguntei: “porquê eu”, “que sentido tem isto”, “o que fiz para
merecer”. Não encontrei respostas. E aprendi que a vida não responde a quem
pergunta de joelhos. A vida responde a quem se levanta, mesmo sem entender.
Não mexo
nas feridas. Não por medo, mas por sabedoria. O passado não precisa de ser
reaberto para ser reconhecido. Basta-me saber que existiu, que doeu, que marcou,
mas que não me parou.
Sou
melancólico, sim. Mas não sou derrotado. Sou alguém que continua. Alguém que
resiste. Alguém que se recusa a desaparecer dentro da própria dor.
Este é o
meu manifesto: Não dramatizo o que vivi. Não nego o que senti. Não fujo do que
sou. Caminho. Mesmo quando dói. Mesmo quando cansa. Mesmo quando não sei para
onde. Caminho porque viver é isso: avançar com as cicatrizes à mostra, a
melancolia ao lado e a dignidade inteira.
José Coelho
Rota do Megalítico
A
Anta da Cabeçuda é um importante monumento megalítico situado na Tapada da
Cabeçuda, na freguesia da Beirã, concelho de Marvão.
A cerca de 3 km da aldeia e já muito
perto da fronteira espanhola, este dólmen caracteriza-se pela sua câmara
poligonal regular e corredor curto.
Câmara poligonal com dimensões
aproximadas de 3,20 x 3,60 m.
Foi alvo de trabalhos de recuperação em
1991 e encontra-se protegida por um muro de delimitação de propriedades.
Espólio:
Os objetos votivos e artefactos
recolhidos neste local estão em exposição no Museu Municipal de Marvão.
Recolha de dados e foto:
José Coelho
terça-feira, 26 de maio de 2026
A beleza de quem tenta, sempre.
Há
uma beleza rara nas pessoas que tentam sempre – ajudar, ou seja o que for. Não
naquelas que tentam porque é fácil, mas nas que tentam mesmo quando tudo à
volta parece dizer que não vale a pena.
A
beleza de quem tenta não está no resultado – está no gesto. No impulso de
estender a mão, de oferecer presença, de acreditar que talvez, só talvez, o
outro consiga finalmente respirar.
Há
quem tente levantar alguém que vive há anos a cair. Quem tente iluminar um
coração habituado à escuridão. Quem tente ser porto para quem só conheceu
tempestades. E esse esforço, mesmo quando não é acolhido, é uma forma de
grandeza.
A
beleza de quem tenta está na coragem de não endurecer. De não deixar que a
dureza do outro contamine a sua própria ternura. De continuar a ser inteiro,
mesmo quando o mundo à volta se parte.
Há
quem diga que é ingenuidade. Mas não é.
É
força. É maturidade emocional. É a prova de que o coração, apesar das feridas,
ainda sabe escolher a luz.
A
beleza de quem tenta, está também no momento que percebe que já fez tudo o que
podia e mesmo assim não se arrepende. Porque tentar é sempre melhor do que
virar a cara. Porque tentar é uma forma de cuidar, mesmo quando não é
correspondido.
E
quando chega a hora de se afastar, quem tentou não leva culpa consigo. Leva
apenas a serenidade de quem sabe que deu o melhor de si. E isso basta para que
o coração permaneça limpo.
A
beleza de quem tenta é esta: mesmo quando não consegue salvar o outro, salva-se
a si próprio. Porque não traiu a sua essência. Porque não deixou de ser bom.
Porque não deixou de ser luz.
Num
mundo onde tanta gente desiste cedo demais, quem tenta, mesmo que falhe, é
sempre, sempre, um discreto milagre.
José Coelho
Setenta e quatro anos depois
Quando deixamos a luz entrar
Há momentos em que o mundo parece pesar mais do que devia. Não porque os outros nos falhem, mas porque, sem perceber, colocamos nos seus ombros o peso das nossas expectativas. E quando não correspondem, o coração encolhe um pouco.
Mas
há uma verdade suave que aprendi a reconhecer: a vida torna-se mais leve quando
deixamos de pedir aos outros que sejam faróis e começamos a descobrir a luz que
já existe dentro de nós.
Cada
pessoa caminha ao seu próprio ritmo, carrega as suas próprias sombras, e
oferece o que consegue – nem sempre o que desejamos, mas quase sempre o que
pode.
Quando
aceitamos isso, algo muda. O mundo não se torna perfeito, mas torna-se mais
respirável.
Há
uma beleza discreta em esperar menos dos outros e mais da própria vida. É como
abrir uma janela e perceber que o vento entra por si, sem que o chamemos.
E
então começamos a reparar nas pequenas coisas: nos gestos que chegam sem aviso,
nas presenças que não pedem palco, nas pessoas que ficam porque querem, não
porque lhes pedimos.
A
reciprocidade, quando acontece, é um milagre simples. E os milagres não se
exigem, acolhem-se.
No
fim, descobrimos que a esperança não está em controlar o que recebemos, mas em
cultivar o que damos. Porque quem dá com verdade nunca perde: se não recebe de
volta, recebe de si mesmo. E isso basta para iluminar um caminho inteiro.
A
vida é generosa com quem caminha leve. E quando deixamos de esperar tanto,
abrimos espaço para que o inesperado – o bom, o luminoso, o que fica – nos
encontre.
José Coelho










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