quarta-feira, 6 de maio de 2026

A farda que me escolheu


Tinha acabado de completar os dezassete anos quando decidi entregar-me ao destino que tantos evitavam. Não foi por bravura, nem por rebeldia, nem por falta de alternativas. Foi por convicção. Em 1969 apresentei-me voluntário para o serviço militar, ainda com a juventude a latejar no peito e a sensação ingénua de que o mundo se podia olhar de frente, sem hesitações.
A guerra esperava-me. E eu fui.
Em Angola aprendi depressa que a vida é frágil e que a camaradagem é a única âncora quando tudo o resto falha. A farda, que no início era apenas uniforme, tornou-se pele. Tornou-se identidade. Tornou-se destino.
Regressei em junho de 1974, carregado de memórias que não pedi e de uma maturidade que não tinha idade para ter. Mas o país que encontrei estava em convulsão. O 25 de Abril tinha mudado o regime, mas não mudara a dificuldade de quem procurava trabalho. Bati a muitas portas. Nenhuma se abriu.
Sem alternativas, deixei a minha terra e fui trabalhar para as Minas da Panasqueira. Ali, no subsolo, percebi que a terra pode ser tão implacável como a guerra. O perigo era diário, constante, silencioso. Mas era trabalho. Era sustento. Era o que havia.
A minha esposa, porém, via mais longe do que eu. Via o risco, via o desgaste, via o futuro que aquele trabalho não me podia dar. Foi por insistência dela – e talvez por um instinto que eu próprio não queria admitir – que decidi mudar de rumo.
Em janeiro de 1979 ingressei na Guarda Nacional Republicana. E foi como um regressar a casa depois de anos a vaguear.
Na GNR reencontrei aquilo que julgava ter deixado para trás: disciplina, camaradagem, propósito. Comecei como Soldado, com a humildade de quem sabe que nada se constrói sem base sólida. Quatro anos depois, concluí o Curso de Cabos. E logo a seguir, enfrentei as provas do 6.º Curso de Formação de Sargentos – escritas, físicas, psicotécnicas. Passei. E passei bem.
Foram mais dois anos de estudo intenso, noites mal dormidas e uma vontade inabalável de crescer. Quando fui graduado em Furriel, senti que estava a honrar não só a instituição, mas também o rapaz de 17 anos que um dia se ofereceu voluntário para servir o seu país.
Como Segundo e depois Primeiro-sargento comandei homens de valor em Nisa e em Castelo de Vide. Homens que ainda hoje estimo – e me estimam. Mais tarde, em Mafra e Queluz, aprofundei a formação que me levaria a Sargento-Ajudante cuja promoção me colocou em Portalegre, na Escola Prática da Guarda.
Ali desempenhei funções que me marcaram profundamente: chefiei durante oito anos a Secretaria da CCS, e nos últimos dois a Secretaria Geral da Unidade, acumulando sempre com as funções de Instrutor a formar instruendos nas disciplinas que moldam um militar – Armamento, Leis e Regulamentos Militares, Legislação Policial.
Ensinar é uma forma de continuar a servir. E eu servi com tudo o que tinha, desde a recruta no BC8, em Elvas em maio de 1971, até ao dia em que passei à reforma em novembro de 2003 no Centro de Formação de Portalegre, vivi dentro da instituição militar.
Recebi cinco louvores – de Major-general a Capitão – e três medalhas: a das Campanhas em Angola, a de Comportamento Exemplar grau prata e a de Mérito da Segurança Pública duas estrelas. Nada disso me foi dado. Tudo foi conquistado.
Por isso me custa admitir que ex-militares insultem, difamem e rebaixem camaradas. Quem assim procede não compreendeu nada do que é ser militar. A farda exige valores. E quem não os tem, não é digno de a vestir.
Como disse o General Octávio Costa:
“A farda não é uma veste que se despe com facilidade ou até com indiferença, mas uma segunda pele que adere à própria alma, irreversivelmente e para sempre.”
Não me considero mais do que ninguém. Mas também não me envergonho de nada do que fiz. O meu percurso foi duro, foi longo, foi honrado. Servi o meu país no Exército e na GNR com a única intenção que sempre me guiou:
BEM SERVIR.
E se hoje escrevo estas linhas é porque a minha história não é apenas minha. É a história de todos os que sabem que a farda não se veste – honra-se.
Texto e foto