terça-feira, 12 de maio de 2026

O coração da minha casa

Esta é a minha sala de jantar onde o tempo pousa e entra devagar, como quem entra num lugar sagrado.
A luz filtrada pelas cortinas, ilumina-a de uma forma tão suave que parece ter aprendido a respeitar o silêncio.
Não ilumina: acaricia.
É uma luz que conhece a casa há décadas, que já viu rostos que partiram e outros que cresceram e que agora pousa apenas onde deve, como uma bênção discreta.
A mesa, coberta pela toalha branca, é o centro deste pequeno universo. Não é apenas o lugar das refeições – é o lugar das presenças.
Os castiçais erguidos guardam a memória de mãos que já não estão e a terrina ao centro parece guardar um calor que não se perdeu, apenas mudou de forma.
As cadeiras vazias não são ausência. São testemunhas. Cada uma guarda o peso leve de quem ali se sentou, de quem riu, de quem discutiu, de quem amou. São lugares onde o tempo ainda repousa.
A cristaleira envidraçada com o serviço de copos alinhados nas suas prateleiras, é um relicário doméstico. Ali não há apenas louça – há domingos, há festas, há vozes que ecoam baixinho quando a casa está quieta.
É um altar de recordações.
E o lustre, suspenso sobre a mesa, é como um pequeno céu de cristais. Não brilha – vigia. É o guardião silencioso da sala, como se estivesse ali desde sempre, a observar tudo com paciência.
Nesta sala o tempo não passa: pousa.
Pousa nos móveis, nas paredes, nos objetos, mas sobretudo em mim. Porque sou eu que dou sentido a este espaço. Sou eu que o mantenho vivo. Sou eu que o transformo num templo onde o amor silencioso dos meus pais e avós ainda respira.
Quando me sento aqui, nunca estou sozinho.
Estou acompanhado por tudo o que fui, por tudo o que vivi, por todos os que amei e amo ainda a sua memória. Esta sala acolhe-me como um velho amigo que não precisa de falar para me compreender.
Esta sala é mais do que um lugar. É uma herança viva. É o coração da casa. É o sítio onde a memória se senta comigo e me diz, sem palavras:
“Ainda aqui estamos.”
Texto e foto