sábado, 28 de abril de 2018

A saudade é lixada...

Foto by José Coelho


ABANDONADAS

 A velha casa, onde eu morei outrora
e que há muito está desabitada,
silenciosa envolveu-me, ao ver-me agora,
num triste olhar de amante abandonada.

Com que amargor no íntimo lhe chora
uma alma sensitiva e ignorada,
que não tem voz para queixar-se, embora
se veja só, de todos olvidada!

Casa deserta e fria, que envelheces
ao desamparo sem uma afeição,
bem sinto que me vês, que me conheces

e relembras os dias que lá vão…
Eu esqueci-te, amiga, e tu pareces
toda magoada dessa ingratidão.

 Roberto de Mesquita

sexta-feira, 27 de abril de 2018

In memoriam...

Francisco Alegria Alvarrão Coelho



Soube da tua partida pela internet, primo-irmão Chico Alegria. Curiosamente, foi nela também que te encontrei há já alguns anos quando comentaste um artigo que escrevi no meu blogue Toca dos Coelhos que hoje já nem existe. Nunca nos vimos pessoalmente mas a partir dessa altura conversávamos às vezes pelo telefone, outras vezes pelo skype, pelo Watsap ou pelo Messenger.

Falávamos sempre da nossa família atual, mas também dos nossos avós, tios e primos, nossa árvore genealógica e nossas raízes, de tudo o que nos unia apesar de termos um oceano inteiro a separar-nos. Praticavas como eu, o sagrado culto da Família. E perguntavas, perguntavas, perguntavas. E eu respondia a tudo o que podia e sabia. Mas também me deste a conhecer muitas coisas da nossa família que eu desconhecia por completo.

Um dia disseste-me que tinhas um problema e talvez necessitasses fazer um transplante. Mais sugeriste que te ajudasse a seres tratado em Portugal porque no Brasil a lista de espera era infinita. Falei com quem de direito, tratei de tudo e sim, era possível ajudar-te, porque continuavas a ser Castelovidense apesar de residires no Brasil há mais de 50 anos. 

Falavas constantemente em voltar à tua terra quando chegasse a aposentadoria que já estava próxima e eu tinha a mais profunda convicção que iria conhecer-te e dar-te um abraço em breve. Contudo, achei muito estranho que de repente desaparecesses do contacto permanente que mantínhamos e mandei-te várias mensagens a que nunca respondeste. E enviei-te o meu livro que se mantém em Curitiba desde 19 de Março sem ser levantado.

Sei agora porque não podias responder-me, nem levantar o livro que te enviei para a Rua Artur Bernardes (...) que me indicaste naquele que foi o nosso último contacto, em meados de Março. Estavas na UCI a lutar pela vida. E não deu tempo de avisar. A tua mulher e os teus filhos não nos conhecem, a nossa relação era primo com primo apenas, e, a tua mãe, a tia Ana, na sua idade avançada, não deve ter ja capacidade para me contactar. Por isso ninguém me disse nada.

Vi a notícia nas redes sociais. Primeiro não percebi bem, pensei que eras tu a recordar o teu pai, o tio Abílio Coelho, e pensei que seria a data aniversaria da sua morte. Meti um like no sentido de dar-te força, porque sei as saudades que também tenho do meu, o teu tio António Coelho. Minutos depois fui informado pela mana Maria da Luz que em Inglaterra se deu conta que TU é que tinhas falecido. 

Fiquei siderado e não contive as lágrimas porque gostava muito de ti. Estava plenamente convencido que em breve iríamos conhecer-nos pessoalmente. Era quase uma certeza. Mas, como alguém escreveu,  quando julgamos conhecer todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas. Essa mesma vida que eu aprendi a respeitar e me ensina cada vez mais que nada é certo, nada é seguro, nada é definitivo. E que, por isso mesmo, devemos viver um dia de cada vez, aproveitando ao máximo cada segundo.

Estás agora junto do teu pai e do meu, primo Chico. E de quase toda a nossa Família Coelho. Lá nos iremos encontrar um dia para te dar aquele abraço que durante tanto tempo planeámos mas não tivemos tempo de concretizar. 


Descansa em paz, primo-irmão

quarta-feira, 11 de abril de 2018

A beleza do Cante Alentejano...

Fonte da Murta - Beirã 
Foto by José Coelho


Fui à fonte beber água

Fui à fonte beber água
Ao rio para te falar
Nem na fonte nem no rio
Nem na fonte nem no rio
Te consegui encontrar
Dá-me uma gotinha de água
Dessa que eu ouço correr
Entre pedras e pedrinhas
Entre pedras e pedrinhas
Alguma gota há-de haver
Alguma gota há-de haver
Quero molhar a garganta
Quero cantar como a rola
Quero cantar como a rola
Como a rola ninguém canta
Fui à fonte beber água
Achei um raminho verde
Quem o achou tinha amores
Quem o achou tinha amores
Quem o perdeu tinha sede
Dá-me uma gotinha de água
Dessa que eu ouço correr
Entre pedras e pedrinhas
Entre pedras e pedrinhas
Alguma gota há-de haver
Alguma gota há-de haver
Quero molhar a garganta
Quero cantar como a rola
Quero cantar como a rola
Como a rola ninguém canta

Fonte: Cancioneiro popular alentejano

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Entardeceres... (dos dias, da vida e das comunidades)

Foto by José Coelho

Imagem inesperada do magnífico anoitecer de sexta feira 8 de abril de 2018 que captei quando circulava de carro a caminho de Portalegre para mais uma reunião de CEPs com o senhor bispo da diocese. Mais uma, a somar a tantas outras, onde apenas eu compareço. Algumas vezes sózinho, quase sempre com a minha companheira de vida e de vez em quando com a irmã, em nome desta paróquia que não é apenas nossa, mas da qual somos os únicos que nos dispomos sempre a representá-la, nessas andanças. Mais ninguém se chega à frente. Uns/umas porque não podem, outros/outras porque não querem - quase todos/todas  e não muitos/muitas - limitam a sua actividade paroquial a assistirem à missa uma vez por semana se podem. Cada um faz como entende e nada mais se pode exigir.

Adiante...

Saímos (eu, a Maria Manuela e a Joaquina Coelho, pra variar) sob um céu de negras nuvens e intensa chuva. Para evitar o habitual nevoeiro dos Alvarrões, optei por dar a volta pela estação de Castelo de Vide. É ligeiramente mais longe, mas muito melhor caminho. E normalmente sem nevoeiro. Acendia-se a iluminação publica da vila quando a circundávamos pela estrada da circunvalação em direcção à rotunda dos bombeiros, debaixo de um estranhíssimo céu a pairar sobre nós. Do lado esquerdo, grossas e negras nuvens roçavam a serra e os telhados das casas. Do lado direito, o sol poente espreitava por uma aberta nas nuvens. E ao centro, quase por cima de nós, um largo e multicolorido arco-íris. 

Estranho e espetacular cenário...

Tenho que fotografar isto! Pensei. E, assim que pude, já nas proximidades da estação ferroviaria, encostei na berma e fiz, entre outras, a foto que ilustra este texto. O céu parecia cobrir-se de ouro à medida que o sol se escondia atrás do horizonte. Momentos raros de uma beleza que poucas vezes na vida consegui observar. Durou só uns breves minutos porque a seguir escureceu. E a hora marcada para o inicio dos trabalhos estava a aproximar-se. A chuva parou e a serenidade desceu sobre toda a natureza. Seguimos viagem. Só mais tarde, já em casa, pude verificar que tinha captado aquelas cores surpreendentes e apressei-me a partilhar a imagem com todos.  Famíliares e amigos. O que é bom e bonito deve ser partilhado. Nem que seja para ajudar alguém que esteja mais sozinho, a sentir-se um pouco mais acompanhado.

Quanto à reunião...

Um salão confortavelmente climatizado do seminário aguardava os participantes do arciprestado de Portalegre que se atreveram a doar um pouco do seu tempo em prol da sua comunidade, sob a presidência do seu bispo. Apenas uma paróquia não esteve representada mas não vou dizer qual foi. A intenção é uniformizar procedimentos para que em toda a diocese se façam as coisas da mesma forma. É bom. É útil. É necessário. Pena que sejamos, há décadas, sempre as mesmas caras nestas reuniões. É pena também que apesar de pequenas, envelhecidas e cada vez mais escassas de eventos, as nossas comunidades não sejam mais unidas, participantes e interventivas. E é ainda pena que nunca ninguém se preocupe em ajudar aqueles poucos que voluntária e generosamente se dispõem a cuidar daquilo que pertence a todos.

E é pena, sobretudo, haver quem, para além de não ajudar em nada, ainda critique, sentencie, mande abébias parvas, injustas e descabidas. Quem se acha capaz de fazer mais e melhor, porque não se chega à frente?

Disse.

domingo, 8 de abril de 2018

De surpresa em surpresa...


Que  mais vos posso dizer, Ana, Pedro, e Marta Silva do CM? 
Obrigado, obrigado, obrigado

sexta-feira, 6 de abril de 2018

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Passo a palavra...


    Muitas têm sido as pessoas que me contactam a solicitar a aquisição das minhas memórias agora publicadas no livro "Histórias do Cota". 

    Tenho informado que a edição desse livro foi uma oferta/surpresa dos filhos no dia do meu aniversário sem que eu imaginasse sequer o que eles andavam a preparar há meses. Porém, como o número de exemplares, apenas cinquenta, foi limitado devido aos custos que eles decidiram suportar na íntegra, estou a reservá-los para oferecer apenas à família.

    Vai surgir contudo a hipótese de todas as pessoas que estejam interessadas poderem dar uma "olhadela", porquanto o prestigiado jornal Correio da Manhã vai publicar, no próximo domingo dia 8 de Abril, na sua rubrica semanal "A minha guerra", um excerto das "Histórias do Cota" no capítulo onde descrevi a minha estadia na guerra em Angola.


    Obrigado