sexta-feira, 31 de julho de 2026

Elegia à Terra que arde

Há dores que não se gritam. Ficam suspensas no ar, como o fumo que sobe devagar depois de tudo ter ardido. Hoje, essa dor é a da terra e a dos seres que nela viviam sem pedir nada, apenas queriam existir.
Cada incêndio é uma ferida aberta no mundo. Não é só a árvore que cai, nem só a sombra que desaparece. É o ninho que nunca mais será reconstruído, o olhar de um animal que corre até onde já não há saída, a vida pequena que não conhece maldade e, mesmo assim, é engolida pelo fogo.
Há um silêncio que fica depois das chamas. Um silêncio pesado, feito de ausência. Nele cabem os animais domésticos que não puderam fugir, os selvagens que tentaram, os que ficaram presos no destino que não escolheram.
E nós, que assistimos, ficamos com esta dor que não se explica. Porque sabemos que podia ter sido aqui, na nossa terra, na nossa horta, no nosso quintal, onde cada árvore tem nome, onde cada pássaro é vizinho, onde cada vida conta.
Não escrevo para acusar. A justiça não funciona com o impulso do coração. Escrevo porque a dor precisa de ser dita, para não se transformar em cinza dentro de nós.
Escrevo porque amar a natureza não é admirá-la de longe. É sentir o golpe quando ela cai. É perceber que cada vida perdida nos diminui um pouco. É saber que a terra não é cenário – é a nossa casa.
Inclino-me, em silêncio, perante todas as vidas que partiram. As grandes e as pequenas. As que vimos nas reportagens e as que ninguém filmou. As que tinham dono e as que só tinham o mundo.
Que a chuva abrace a terra ferida. Que o vento leve o fumo sem levar a memória. Que nós, humanos, aprendamos finalmente que proteger a natureza é proteger aquilo que, no fundo, sempre nos sustentou.
Porque o coração – o meu, o vosso, o de todos – sempre viveu nela.
Imagem da net

A casa onde mora a ternura

Há casas que não se medem pelas paredes, mas pela forma como acolhem quem chega. E há pessoas que são casas – não porque tenham portas ou janelas, mas porque guardam dentro de si uma ternura que não se anuncia, apenas se oferece.
A generosidade mora nessas casas invisíveis.
É uma luz que não se acende para ser vista, mas para que o outro não tropece na escuridão. É um gesto que não se explica, mas que se repete como quem sabe que o bem, para existir, precisa de constância.
E porque não gosto de me evidenciar, caminho pelo mundo com esse respeito silencioso por aqueles que têm o dom raro de se darem, sem se darem a conhecer. Observo-os como quem observa o voo de um pássaro: não para o aplaudir, mas para aprender com a sua direção.
A verdadeira generosidade é sempre discreta como a água que corre por baixo da terra alimentando raízes que ninguém vê, mas sustenta florestas inteiras.
Há mulheres e homens assim: que chegam devagar, que falam pouco, mas fazem muito. Que não se colocam no centro, mas que, sem querer, se tornam o eixo onde tudo se organiza.
Eles são a mão que segura o balde quando a água está pesada, o ombro que ampara sem perguntar, a palavra certa dita no momento em que o silêncio já não basta.
São aqueles que, quando partem, deixam o mundo mais habitável do que o encontraram.
E eu reconheço essa grandeza com pudor. Não me coloco ao lado deles, não me comparo, não me elogio. Apenas agradeço.
Quem sabe agradecer sem se engrandecer carrega dentro de si uma humildade que não se aprende nos livros, mas na vida vivida com verdade.
Este texto é dedicado a todas as mulheres e homens que possuem o dom de darem de si sem esperarem retorno, que não se evidenciam mas têm o raro talento de ver o brilho dos outros sem se aproximarem demasiado da luz.
Há nisso uma profunda beleza. A beleza que não se exibe, mas permanece. Como a casa onde mora a ternura.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Raízes de silêncio

Há momentos na vida em que o silêncio se adensa tanto que deixa de ser ausência: torna se matéria. Podemos quase pousar-lhe a mão, como quem toca numa parede antiga que guarda histórias. Nesse silêncio, percebemos que a vida não se explica, revela-se. Revela-se nos gestos que ninguém viu, nas palavras que nunca encontraram voz, nas memórias que regressam mesmo quando o corpo já não tem força para lhes abrir a porta.
Com o tempo aprendi que ele não é uma linha esticada entre o que fomos e o que seremos. O tempo é um círculo. E nesse círculo cabem as vozes dos nossos pais chamando-nos para dentro de casa ao anoitecer, o cheiro da terra molhada depois da chuva, o eco das nossas mãos a arrumar canetas sobre a secretária, como quem tenta alinhar também o que ficou desalinhado dentro da alma.
A profundidade não mora no pensamento. Mora no instante em que o pensamento se cala e o coração, finalmente, fala. É aí que descobrimos que a vida não nos pede grandeza: pede-nos verdade. A verdade humilde dos que amam sem fazer barulho. A verdade silenciosa dos que carregam responsabilidades que ninguém vê, mas que sustentam o mundo. A verdade dos que sabem que cada pessoa é uma história inteira feita de perdas, de pequenos milagres, de resistências que nunca foram celebradas.
E então percebemos que existir é uma espécie de oração contínua, mesmo para quem não reza. Uma oração feita de passos, de escolhas, de memórias que se tornam raízes. O que realmente importa não é o que conquistámos, mas o que permanecemos apesar das tempestades, das noites longas, das feridas que o tempo não fechou.
Profundidade é aceitar a fragilidade sem desistir de ser quem somos; é reconhecer que somos finitos, mas amar como se não fôssemos; é saber que o mundo muda, mas guardar dentro de nós aquilo que nunca deve mudar – a bondade, a lealdade, o silêncio que nos devolve ao essencial.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Escrever é o meu modo preferido de conversar

Há noites em que a minha casa parece respirar comigo. O silêncio não é ausência – é companhia. E eu, sentado na varanda do quintal, deixo que o ar fresco me conte aquilo que o dia não teve tempo de dizer.
O chão sob os meus pés guarda passos de décadas, memórias que não pedem licença para regressar. A penumbra desce sobre o quintal e sobre os regos da horta que reguei, ainda húmidos; as aves já recolheram e o rumor distante da natureza nunca abandona quem nela cresceu.
Há sempre um instante – breve, mas intenso – em que sinto que tudo o que fui, tudo o que fiz, tudo o que perdi e ganhei, cabe dentro deste aproximar da noite. Como se a vida, por um momento, se deixasse tocar.
A Maria Manuela está na sala dobrando a roupa que recolheu do estendal e arrumando-a num cesto para depois engomar. O Manel, o Pedro, as netas – todos eles são presenças que não precisam de estar para se sentirem. A Beirã tem esse dom: guarda as pessoas dentro dos corações, mesmo quando estão longe.
E eu escrevo, porque é o meu modo preferido de conversar com o mundo. Escrevo devagar, como quem colhe fruta madura ao fim da tarde. Escrevo porque a memória é uma casa que só se mantém de pé quando alguém acende a luz.
E quando a noite enfim se instala, mansa e inteira, deixo que o silêncio se estenda sobre tudo o que amo. Há uma paz antiga que desce sobre a casa, como se viesse da serra, como se viesse de muito antes de mim.
Penso na Maria Manuela, companheira de tantos anos, que arruma a roupa com a serenidade de quem sabe que cada gesto também é amor. Penso nos meus filhos e nas minhas netas que iluminam a nossa vida mesmo quando não estão aqui.
Penso nos amigos de sempre, nos que a vida me deu e nos que a vida me devolveu, e sinto que a noite os abraça a todos, um a um, como se chamasse cada nome em silêncio.
E desejo-lhes paz. Uma paz simples, daquelas que não fazem barulho: a paz de uma horta regada, de um quintal arrumado, de uma casa que respira com quem nela vive. A paz de saber que, apesar das distâncias e das ausências, há laços que não se desfazem.
Esta é também a hora em que o rouxinol de vez em quando me visita ao fim do dia. Imagino-o a pousar no bordo do balde de água que renovo todas as tardes, talvez porque alguém lhe contou que aqui encontraria sempre um lugar seguro. Talvez tenha sido uma rola, um melro ou um pardal – todos sabem reconhecer quem cuida deles.
Nessa confiança da passarada encontro também a confiança das pessoas que fazem parte da minha vida. Da família que me acompanha desde sempre, e dos amigos. Cada um deles, tal como o rouxinol, chega quando quer, pousa onde precisa e traz consigo a luz que me ilumina o dia.
A todos desejo uma noite serena. Uma noite que desça devagar, como a brisa que passa entre as oliveiras. Uma noite que traga descanso aos que trabalham, sossego aos que se inquietam e ternura aos que amam.
Que a tranquilidade encontre cada um onde estiver, que o silêncio lhes seja leve e que a madrugada os receba com esperança. Boa noite.

Negar as alterações climáticas é ignorar a ciência

Continuar a negar as alterações climáticas já não é apenas um erro intelectual: é um fator ativo de risco. É ignorar décadas de dados observacionais, milhares de artigos revistos por pares e medições que mostram, sem ambiguidade, que o planeta está a entrar numa era de incêndios extremos.
A narrativa do “sempre fez calor” não resiste a uma análise mínima das séries históricas. As ondas de calor atuais têm intensidade, duração e frequência estatisticamente anómalas. E culpar só a mão criminosa é cientificamente insuficiente: a ignição explica o início, mas não explica a violência.
Os incêndios de grande escala são sistemas físicos alimentados por três variáveis: ignição, combustível e condições meteorológicas. É neste último ponto que o colapso climático se torna decisivo. O aumento da temperatura média global reduz a humidade do solo, intensifica a evapotranspiração, e prolonga as secas severas.
Esses processos convertem ecossistemas inteiros em biomassa altamente inflamável, elevando o índice de perigo de incêndio para valores que ultrapassam os registos históricos.
A ciência documenta ainda a alteração dos padrões atmosféricos: ventos mais erráticos, ar mais seco, instabilidade térmica mais frequente. Tais condições favorecem incêndios de alta intensidade capazes de gerar pirocúmulos, pirotornados e colunas convectivas que criam microclimas próprios.
E quando isso acontece, o combate humano deixa de ser uma operação de contenção do fogo e passa a ser uma tentativa de sobrevivência.
A faísca provocada intencionalmente por mão humana pode iniciar o evento, mas é o reforço radiativo provocado pelas emissões de gases com efeito de estufa que determina a escala, a velocidade e a imprevisibilidade do desastre.
Ignorar este mecanismo físico é negar a realidade.
Tratar estes incêndios como incidentes isolados ou como meros crimes individuais é uma falha política grave. A evidência científica exige redução acelerada de emissões, transição energética, gestão inteligente do território, reforma dos sistemas alimentares e adaptação climática robusta.
Cada hectare queimado é um indicador empírico de que o sistema climático está a ultrapassar limites críticos e a normalização destes eventos não é apenas perigosa, é irracional. A ciência não deixa espaço para desculpas. Sem ação estrutural, a tendência é clara: mais incêndios, mais extremos, maior destruição.
Foto da net

Caminhar, sorrir, viver

Hoje acordei de ânimo mais tranquilo. Não porque a saudade tivesse diminuído, mas porque reconheci que o amor dos que já partiram não nos pede que fiquemos curvados.
Pede-nos que continuemos.
Nestes últimos dias deixei que a memória da minha mãe me tocasse fundo. Senti-me murcho, como uma planta que perde um pouco de sol. Mas hoje percebo que essa nostalgia é também uma forma de amor.
É o corpo a lembrar o que o coração nunca esquece.
Guardo a sua memória como quem guarda uma chama pequena, mas firme. Não para viver no passado, mas para iluminar o caminho à frente.
Ela e o meu pai, ensinaram-me a levantar a cara, a seguir adiante, a não me perder em tristezas que não constroem. E hoje faço exatamente isso: honro-os caminhando, sorrindo, vivendo.
A saudade fica comigo, mas não me prende. Acompanha-me como uma sombra boa, como presença silenciosa. E eu sigo inteiro, sereno, com a luz que eles deixaram acesa dentro de mim.
Hoje é dia de caminhar. Dia de respirar fundo. Dia de continuar o exemplo que recebi: viver com dignidade, com verdade, com a cara levantada.
PS:
Na foto não pareço lá muito animado, mas não é defeito, é feitio. Sou mesmo assim.

Uma vida que me acompanha

Nesta pequena montra repousa a minha vida fardada de 1969 a 2003, como quem pousa o chapéu depois de uma longa marcha.
À direita, o rapaz que partiu voluntário para Angola, levando mais coragem do que idade. À esquerda, o sargento em formação, já com o peso da responsabilidade a assentar nos ombros como uma segunda pele.
As quatro medalhas são as quatro moradas do meu caminho: Batalhão Nº3 de Évora, onde aprendi a disciplina; a Escola Prática, onde me fiz graduado; CIP/Portalegre, onde servi com o coração inteiro; e o velho Batalhão de Cavalaria 3871, que me levou à guerra e me ensinou a regressar.
Tudo junto – retratos, livros, metal e memória – são o eco de uma vida de serviço, camaradagem e honra.
Uma vida que ainda hoje me acompanha, como o cheiro da terra molhada depois da rega ao anoitecer.
Texto e foto

Não é sobre mim é sobre o meu caminho

Há objetos que não foram feitos para enfeitar prateleiras. Foram feitos para guardar silêncio. Estas peças de prata não são troféus nem sinais de vaidade. São apenas testemunhos de um percurso vivido com outros homens, lado a lado, na estrada da Guarda.
Cada uma delas traz o peso leve de um gesto: um comandante que quis agradecer o percurso que fiz sob o seu comando, alguns camaradas que quiseram reconhecer o meu empenho, um momento em que alguém achou que eu havia de trazer para casa um símbolo do seu respeito.
Não as vejo como conquistas. Vejo-as como memórias, como pequenas âncoras de um tempo em que servir era o centro de tudo, em que a camaradagem valia mais do que o brilho de qualquer metal.
Repousam aqui, sobre a renda da casa, não para serem admiradas, mas para me lembrarem que o que realmente importa nunca foi a prata, foi o caminho, as pessoas, e a honra tranquila de ter feito o que devia.
Texto e foto

terça-feira, 28 de julho de 2026

Oração ao fim do dia

Que este findar de mais um dia me envolva com a sua luz mansa, essa luz que não exige, não fere, não apressa. Que eu possa senti-la pousar sobre mim como um lençol leve que a natureza estende para me lembrar que o dia está a recolher-se e que também eu posso recolher-me.
Que o calor que ainda paira no ar não me perturbe o espírito, mas me ensine a aceitar aquilo que não controlo, a respirar mesmo quando o ar é pesado, a encontrar serenidade mesmo quando o mundo parece inquieto.
Que eu saiba agradecer o que vivi hoje, mesmo que tenha sido difícil, mesmo que tenha trazido preocupações, mesmo que tenha exigido de mim mais força do que eu julgava ter. Que eu reconheça que cada esforço, cada palavra dada, cada gesto oferecido, é parte da minha humanidade.
Que eu me lembre dos que ainda caminham comigo, dos que me moldaram, dos que me ensinaram a ser quem sou. Que eu honre a memória dos que partiram e a presença dos que permanecem. Que eu seja capaz de ver em cada rosto uma história, uma fragilidade, uma esperança.
Que eu pense nos que hoje precisam de coragem porque atravessam batalhas silenciosas que ninguém vê, mas que pesam tanto. Que eu possa ser-lhes apoio, palavra boa, companhia sincera, sem esperar retorno, porque a bondade é sempre um caminho de ida.
Que a fragilidade humana não me assuste, mas me torne mais atento, mais humilde, mais capaz de compreender o outro. Que eu aceite que somos todos feitos de um fio muito fino, e que é precisamente esse fio que nos permite amar, cuidar, aproximar-nos.
Que a noite que se aproxima traga descanso ao corpo e serenidade ao pensamento, sabendo que fiz o que podia, que fui quem devia ser, que caminhei com honestidade.
E que a paz se sente ao meu lado, como um velho amigo que me diz em silêncio que a vida, apesar de breve, é bela quando vivida com verdade.
Texto e foto que fiz a um por no sol no
Penedo Monteiro em Castelo de Vide.

Mãe...

Às vezes pergunto-me quantos anos terias hoje, mas logo percebo que isso pouco importa. O que permanece é a tua força tranquila, a tua bondade, a coragem com que atravessaste a vida e aquele teu riso fácil que iluminava até os dias mais duros. É assim que te guardo: inteira, simples, verdadeira.
Muito do que sei veio de ti, não dos livros, mas dos gestos. Não podias ensinar-me a ler ou a escrever, mas ensinaste-me coisas maiores: a honestidade, o cuidado, o respeito pelos outros, o valor de trabalhar com brio. Foste sempre dona de uma casa arrumada e de um coração ainda mais organizado. Ajudaste todos, sem nunca te queixares, e foste o pilar firme da nossa família.
A tua honradez era tão natural que quem te conhecia ainda hoje te recorda com carinho. E eu, Mãe, lembro-me de ti todos os dias. A tua ausência marcou-me profundamente desde aquele 28 de julho de 2014. Mesmo sabendo que o fim se anunciava, descobri nesse dia que nunca estamos preparados para perder quem nos trouxe ao mundo.
A partida do pai doeu-me muito, mas a tua… essa abriu um vazio maior. Sei que ele, onde estiver, me compreende porque também perdeu a mãe, também conheceu essa dor.
Confesso que vou menos vezes ao cemitério do que deveria. Não por falta de amor, mas porque cada visita me deixa demasiado inquieto. Sempre fomos muito ligados, tu e eu. E talvez por isso o luto tenha ficado suspenso, como uma porta que não consigo ainda fechar.
Recordo com nitidez aquele momento na sala mortuária em que ficámos os dois, eu à tua cabeceira, rodeados de vizinhos e amigos. E foi ali que a dor que até então eu segurava, finalmente me venceu. Chorei como nunca tinha chorado. Lembro-me da vizinha Joaquina Brites a aproximar-se na sua bondade, a tentar consolar-me com a sua voz baixa e simples. Foi muito duro, Mãe. Muito duro.
Cá em casa o teu quarto permanece como o deixaste. Os teus santinhos e pequenas coisas continuam na cómoda e algumas acompanham-me no meu escritório. Talvez seja a minha forma de te manter perto, de te sentir ainda aqui.
Um dia, acredito, esta dor há de abrandar. O tempo tem maneiras discretas de nos ensinar a respirar outra vez. Até lá, sigo contigo perto de mim.
E sei que, quando chegar a minha vez, nos reencontraremos, dessa vez para sempre.

Entardecer

Respiro fundo. Sinto o ar quente, pesado. A cada inspiração, deixo que o corpo recorde que ainda está vivo, que ainda é capaz de acolher o mundo, mesmo quando o mundo chega cansado.
O dia já começa a recolher-se. A luz já não fere, apenas acaricia. As sombras alongam-se como braços amigos que conhecem bem o caminho da noite. E eu, sentado no meu lugar habitual, deixo que o silêncio me envolva como um manto leve.
Fecho os olhos por um instante e imagino os montes em redor da Beirã a perderem contorno, dissolvendo-se numa paleta de ocres e violetas. O calor, que durante o dia parecia um inimigo, torna-se agora apenas memória, uma presença que já não manda, apenas acompanha.
Sinto o corpo a abrandar. Os ombros descem. A respiração encontra o seu ritmo natural. O coração bate sem pressa, como se estivesse a conversar comigo no banco de alvenaria e mosaicos, na varanda do quintal.
Penso na minha gente. Nos que me criaram, nos que me moldaram, nos que me ensinaram a ser este homem que anima quem precisa ser animado, que acolhe dores alheias, que nunca vira a cara aos problemas.
Cada amigo é uma raiz. Cada memória é uma pedra firme no chão onde pouso os pés.
Agora, deixo o pensamento tornar-se leve. Não preciso de resolver nada. O entardecer é uma pausa, não uma tarefa. É o mundo a dizer-me: “Hoje fizeste o que podias. Agora descansa.”
Respiro outra vez. Sinto o ar a encher-me os pulmões como uma bênção discreta. Sinto-o a sair como quem liberta o peso do dia. A fragilidade humana, aquela que tantas vezes me visita nos amigos, na família, em mim próprio, transforma-se aqui em ternura. Somos frágeis, sim.
Mas é essa fragilidade que nos permite amar, cuidar, ser amigos, ser presença, ser porto seguro.
O entardecer é um convite à humildade. À gratidão. À consciência de que a vida é breve, mas bela. E que cada gesto de bondade – mesmo pequeno – ilumina o mundo mais do que qualquer sol de verão.
Fico assim mais um instante. Respiro devagar. E deixo que a paz me encontre, como sempre encontra ao fim do dia, os homens de consciência tranquila.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Que...

Que este findar de dia me encontre em paz. Que o calor que ainda pesa no ar não perturbe o meu espírito, e que o silêncio que chega com o entardecer me ensine a abrandar.
Que eu saiba agradecer o dia, mesmo que tenha sido duro, mesmo que tenha trazido preocupações, mesmo que tenha exigido de mim mais do que eu pensava ter.
Que eu me lembre dos que amo, dos que caminham comigo, dos que hoje precisam de força como aquele amigo que luta pela sua saúde, como tantos que atravessam batalhas invisíveis.
Que eu seja capaz de oferecer presença, palavra boa, gesto simples, sem esperar retorno. Porque é na bondade discreta que a humanidade se reconhece.
Que a fragilidade não me assuste, mas me torne mais atento, mais humilde, mais capaz de compreender o outro.
Que a noite que se aproxima traga descanso ao corpo e serenidade ao pensamento. E que eu possa descansar, como quem pousa a enxada ao fim do dia de trabalho, sabendo que fiz o que podia, que fui quem devia ser.
Que a paz me encontre. E que eu a saiba receber.
Texto e foto

Doze anos sem ti, Mãe


 IN MEMORIAM
Florinda da Conceição Lourenço

07.10.1926 / 27.07.2014

A saudade, depois o silêncio

Há ausências que não se explicam, apenas se habitam. Doze anos depois, descubro que a saudade não é uma ferida, mas uma casa onde a memória acende luzes inesperadas. E é nessa casa que a minha mãe continua a entrar, sem pedir licença, como fazia quando chegava da horta com o avental cheio de cheiros da terra.
Nos últimos dias da sua vida, o corpo já não lhe obedecia, mas havia ainda uma claridade no olhar que me desconcertava. Eu sabia – como quem sabe sem querer saber – que ela caminhava para o fim. E, no entanto, havia nela uma serenidade antiga, como se já tivesse feito as pazes com tudo o que a vida lhe deu e tirou.
Uma tarde, perguntei-lhe baixinho:
– Mãe, o que sente?
Ela sorriu com aquela simplicidade que era só dela, e disse:
– Sinto vontade de ir ter com o teu pai.
Não era lamento. Era despedida. Era reencontro anunciado.
Mas o que nunca esquecerei foi o que aconteceu depois. Como se a alma tivesse encontrado uma porta secreta, ela começou a falar alto, feliz, radiante, chamando por gente que eu nunca conheci, mas que lhe habitava a juventude. Ria como quem volta a ser menina. Conversava com vozes que só ela ouvia. Chamava por animais, por lugares, por sombras boas que a acompanhavam desde o tempo em que corria livre pelos montes.
E eu, sentado ao lado, era apenas testemunha de um milagre discreto: a memória a abrir janelas para que ela pudesse respirar antes de partir.
Durante horas – tantas que perdi a conta – ela viveu num mundo que não era o meu. E nunca me chamou. Nunca disse o meu nome. Não por esquecimento, mas porque naquele instante ela regressava a um tempo anterior a todos nós, ao lugar onde a vida lhe era leve e inteira.
Quando finalmente se calou, foi como se alguém tivesse apagado o candeeiro. Adormeceu exausta, mas em paz. E eu fiquei ali, a segurar-lhe a mão, tentando compreender o que tinha acontecido.
Dias depois, partiu. Partiu como quem cumpre um destino. Partiu com uma mão na minha e outra na da minha irmã Joaquina, com a nora Maria Manuela aos pés da cama, como se quisesse garantir que nenhum de nós ficava de fora da sua última viagem.
Hoje, doze anos passados, percebo que aquele episódio não foi delírio. Foi despedida. Foi bênção. Foi a vida a oferecer-lhe, antes do fim, a alegria que talvez lhe faltava. E foi também a prova de que a memória – essa companheira fiel – sabe sempre o caminho de casa.
A saudade é um mistério inexplicável, sim. Mas é também o lugar onde ela continua viva.
Beijinho, Mãe.

domingo, 26 de julho de 2026

A encerrar o Dia dos Avós

Há dias que terminam como quem fecha uma porta devagar, sem ruído, deixando apenas o perfume do que foi vivido. O entardecer na Beirã tem esse dom antigo: transforma o quotidiano em contemplação, o gesto simples em rito, a rotina em memória.
E eu, a regar a terra como quem conversa com ela, sei que cada gota de água é também uma forma de agradecer.
A noite chega sempre com uma espécie de sabedoria. Não exige nada, não cobra nada, não apressa nada. Apenas pousa sobre as coisas, como um manto que recolhe o que ficou espalhado pelo dia.
E é nessa hora que o pensamento se torna mais claro. As preocupações perdem volume. Os ruídos interiores abrandam. A alma encontra o seu lugar.
O ser humano – qualquer um – é feito desta alternância entre luz e sombra, entre ação e repouso, entre o que se faz e o que se sente.
A escrita, que tanto me acompanha, é apenas o reflexo disso: uma forma de ordenar o mundo, de lhe dar sentido, de lhe devolver a dignidade que às vezes o dia lhe rouba.
Escrever, para mim, é no fundo, regar a terra da memória. Cada frase é uma semente. Cada pausa é um silêncio fértil. Cada palavra é uma raiz que procura profundidade.
E tento escrever como quem caminha devagar, atento ao que a vida murmura. Não preciso de pressa, nem de artifícios. A minha escrita nasce da verdade, da experiência, da contemplação, da terra que cuido e das pessoas que estimo.
A noite, agora, está mais funda. Os sons diminuem. A terra repousa. E eu também.
É tempo de recolher o que o dia deixou: um gesto de amizade, uma palavra certa, um trabalho honesto, uma memória que se acendeu, uma planta que recebeu água, um silêncio que me ensinou qualquer coisa.
O dia de amanhã virá com a sua própria luz, com novas tarefas, novas conversas, novas palavras. Mas hoje, agora, neste instante, basta-me sentir esta paz que em mim se instala devagar, como se o mundo respirasse comigo.
Descansem, sonhem, sejam felizes. A noite é nossa amiga. E para mim, a escrita também.
Boa semana...
Texto e foto