A minha manhã não começa: nasce comigo. Entre as cinco e meia e as seis, quando o mundo ainda está a meio caminho entre o sonho e a luz, eu já estou desperto. Não porque o relógio manda, mas porque o campo me chama.
O primeiro som que ouço não é humano: é o arrulhar das rolas turcas, esse trru-trru-tu que parece vir de dentro da própria terra, como se a natureza respirasse ao meu lado.
Elas são as primeiras habitantes da minha manhã. Pousam nas laranjeiras do pomar, nos postes de iluminação, nos telhados vizinhos, e fazem da alvorada uma pequena missa campal.
Conheço-lhes o colarinho negro, fino como uma estola de padre, e sinto que o dia começa ali, naquele gesto discreto de presença.
Fico quieto para não acordar a minha companheira. Deixo que o canto delas me embale como quem recebe uma bênção.
Às sete, a casa desperta devagar. A luz entra pela sala de jantar, a sala que já viu vinte comensais, risos, aniversários, São Martinhos, vinho novo, e que agora guarda silêncio e memórias como um cofre antigo.
O sol que bate na parede traseira, aquece também o pomar da Quinta em frente, acende o verde das laranjeiras e o dourado das ervas altas já secas na Tapada da Rabela.
Os pardais fazem relatórios matinais no quintal. A lagartixa, sempre pontual, atravessa o muro como quem verifica se está tudo em ordem e vem ter comigo assim que ouve a água a murmurar nos tomateiros.
E as rolas turcas continuam o seu monótono diálogo comigo, incansáveis, como se fossem o motor secreto das minhas manhãs.
Leio os jornais no computador – CM, DN, Expresso, JN – não por inquietação, talvez pelo hábito de quem gosta de saber como acordou o mundo. Mas a verdade é esta: o mundo que mais me importa está aqui mesmo, à minha volta.
No pomar, nos campos sagrados da minha freguesia, no canto das aves, nesta paz abençoada que só a Beirã sabe dar.
A Toca dos Coelhos não é apenas a minha casa. É o meu ponto de equilíbrio. É onde a natureza me reconhece, onde a manhã me cumprimenta, onde a vida me chega sem pressa, sem ruído, sem exigências.
E enquanto teclo, ao compasso da rolinha turca, sinto que faço parte da sua música.
Não sou um mero espectador.
Tenham um excelente mês de julho – da nossa Padroeira – acautelem-se com os dez dias seguidos de calor extremo anunciado e que por aqui já se sente.