Há momentos na vida em que o mundo nos obriga a parar. Não por escolha, mas por excesso. Excesso de dor, de injustiça, de perguntas que não encontram resposta fácil.
Nos
últimos tempos, dei por mim a olhar para tudo isto – guerras, sofrimento,
abandono, solidão – e a sentir a fé tremer dentro de mim. Não desaparecer, mas
tremer. E percebi que não sou o único.
Este
texto nasceu desse lugar: não da certeza, não da revolta, mas da necessidade de
compreender o que ainda pode fazer sentido quando o mundo parece perder o seu.
Partilho-o
porque talvez alguém, como eu, precise de o ler.
Há
dias em que o mundo pesa mais do que o corpo e o espírito conseguem suportar.
Dias em que a dor dos outros se entranha na nossa, em que a injustiça parece
maior do que qualquer explicação, em que o sofrimento dos inocentes se torna um
grito que não sabemos onde pousar.
É
nesses dias que a alma, cansada, levanta a pergunta que atravessa séculos e
corações:
“Se
Deus existe… porque é que o mundo continua a arder?”
Esta
pergunta não nasce da descrença. Nasce do amor. Só quem ama profundamente a
vida, a justiça e a dignidade humana, sente esta ferida aberta.
Vivemos
num tempo em que as guerras devoram cidades inteiras. Em que líderes sem alma
transformam crianças, mulheres, velhos, comunidades inteiras, em números. Em que hospitais são destruídos, escolas
silenciadas, famílias desfeitas.
E,
mais perto de nós, há dores que não aparecem no telejornal, como aquele amigo acamado há
dez anos, entregue ao amor exausto da mulher, porque o sistema falha onde devia
ser mais humano; vidas que se gastam devagar, sem que ninguém as veja.
Perante
isto, a pergunta não é “onde está Deus?”.
A
pergunta é: como é possível que o coração humano suporte tanto?
E,
no entanto, suporta. E continua a amar. E continua a cuidar. E continua a
resistir.
Talvez
seja aí que Deus se esconde: não no poder que impede o mal, mas na força que
impede que o mal nos destrua por dentro.
A
fé profunda não é a fé que nunca duvida. É a fé que atravessa a dúvida sem se
perder de si mesma.
A
fé profunda não é a fé que explica o sofrimento. É a fé que se senta ao lado
dele e murmura: “Eu não te entendo, mas não te abandono.”
A
fé profunda não é a fé que vê Deus em tudo. É a fé que O procura mesmo quando
não O vê em lado nenhum.
E
então, o que fazer quando o mundo parece demasiado cruel para caber na ideia de
Deus?
Fazer
silêncio. Não o silêncio que foge, mas o silêncio que escuta. Respirar devagar.
Aceitar que a alma também se cansa. Permitir-se duvidar sem culpa. Reconhecer
que a pergunta é parte do caminho, não o fim dele.
Porque a fé não é uma resposta. A fé é uma direção.
E
quem continua a caminhar, mesmo ferido, mesmo baralhado, mesmo revoltado… já
está a rezar, ainda que sem palavras.
Se
Deus existe – e cada um descobre isso à sua maneira – talvez não esteja no
gesto que impede o mal, mas no gesto que impede que o mal nos apague. Talvez
não esteja no milagre que muda o mundo, mas na força que nos permite mudá-lo um
pouco, todos os dias. Talvez não esteja no céu que parece não responder, mas no
coração que insiste em perguntar.
E
talvez a fé profunda seja isso mesmo – não ter certezas, mas não desistir.
Que
cada um de nós encontre, no meio da dúvida e da dor, a pequena luz que ainda nos
faz caminhar.
José Coelho
Foto: Gentileza de uma amiga, na leitura da Reflexão numa Estação da Via Sacra.
