sexta-feira, 15 de maio de 2026

Quando a alma pergunta e o céu parece não responder


Há momentos na vida em que o mundo nos obriga a parar. Não por escolha, mas por excesso. Excesso de dor, de injustiça, de perguntas que não encontram resposta fácil.

Nos últimos tempos, dei por mim a olhar para tudo isto – guerras, sofrimento, abandono, solidão – e a sentir a fé tremer dentro de mim. Não desaparecer, mas tremer. E percebi que não sou o único.

Este texto nasceu desse lugar: não da certeza, não da revolta, mas da necessidade de compreender o que ainda pode fazer sentido quando o mundo parece perder o seu.

Partilho-o porque talvez alguém, como eu, precise de o ler.

Há dias em que o mundo pesa mais do que o corpo e o espírito conseguem suportar. Dias em que a dor dos outros se entranha na nossa, em que a injustiça parece maior do que qualquer explicação, em que o sofrimento dos inocentes se torna um grito que não sabemos onde pousar.

É nesses dias que a alma, cansada, levanta a pergunta que atravessa séculos e corações:

“Se Deus existe… porque é que o mundo continua a arder?”

Esta pergunta não nasce da descrença. Nasce do amor. Só quem ama profundamente a vida, a justiça e a dignidade humana, sente esta ferida aberta.

Vivemos num tempo em que as guerras devoram cidades inteiras. Em que líderes sem alma transformam crianças, mulheres, velhos, comunidades inteiras, em números. Em que hospitais são destruídos, escolas silenciadas, famílias desfeitas.

E, mais perto de nós, há dores que não aparecem no telejornal, como aquele amigo acamado há dez anos, entregue ao amor exausto da mulher, porque o sistema falha onde devia ser mais humano; vidas que se gastam devagar, sem que ninguém as veja.

Perante isto, a pergunta não é “onde está Deus?”.

A pergunta é: como é possível que o coração humano suporte tanto?

E, no entanto, suporta. E continua a amar. E continua a cuidar. E continua a resistir.

Talvez seja aí que Deus se esconde: não no poder que impede o mal, mas na força que impede que o mal nos destrua por dentro.

A fé profunda não é a fé que nunca duvida. É a fé que atravessa a dúvida sem se perder de si mesma.

A fé profunda não é a fé que explica o sofrimento. É a fé que se senta ao lado dele e murmura: “Eu não te entendo, mas não te abandono.”

A fé profunda não é a fé que vê Deus em tudo. É a fé que O procura mesmo quando não O vê em lado nenhum.

E então, o que fazer quando o mundo parece demasiado cruel para caber na ideia de Deus?

Fazer silêncio. Não o silêncio que foge, mas o silêncio que escuta. Respirar devagar. Aceitar que a alma também se cansa. Permitir-se duvidar sem culpa. Reconhecer que a pergunta é parte do caminho, não o fim dele.

Porque a fé não é uma resposta. A fé é uma direção.

E quem continua a caminhar, mesmo ferido, mesmo baralhado, mesmo revoltado… já está a rezar, ainda que sem palavras.

Se Deus existe – e cada um descobre isso à sua maneira – talvez não esteja no gesto que impede o mal, mas no gesto que impede que o mal nos apague. Talvez não esteja no milagre que muda o mundo, mas na força que nos permite mudá-lo um pouco, todos os dias. Talvez não esteja no céu que parece não responder, mas no coração que insiste em perguntar.

E talvez a fé profunda seja isso mesmo – não ter certezas, mas não desistir.

Que cada um de nós encontre, no meio da dúvida e da dor, a pequena luz que ainda nos faz caminhar.

José Coelho

Foto: Gentileza de uma amiga, na leitura da Reflexão numa Estação da Via Sacra.