segunda-feira, 18 de maio de 2026

A cancela cor-de-rosa

Sentado em cima de um cancho, olho a paisagem que se estende à minha frente, marcada pelo rio Sever que circunda toda a freguesia da Beirã até aos limites de Castelo de Vide, lá para os lados da Defesa. Visto daqui, tudo me é familiar: cada cancho, cada fisga entre as pedras, cada volta dos regatos e das ribeiras, cada anta escondida, cada fonte fresca, cada palheiro ou antiga habitação.
Até do outro lado do rio, em Espanha, conheço todo aquele casario branco: são as Gagas, onde o tio Joaquim, o irmão mais novo do meu avô Zé Lourenço, guardava um rebanho de cabras nessa "finca" e onde eu passava as férias grandes com os primos António e Joaquim que Deus já chamou. Resta-me apenas a saudade desses tempos, pois a ambos não posso abraçar.
O meu olhar repousa - inevitavelmente - nas ruínas da casa da avó Amélia e do avô-padrinho de quem herdei o nome. Ali, junto ao ribeiro da Cavalinha. Basta fechar os olhos para reconstruir mentalmente os dias maravilhosos vividos com aquelas duas santas criaturas. Na nossa honrada pobreza, éramos felizes sem o saber. A sopa de batatas feita na sertã e o seu refogado no pingo de toucinho, sabia melhor do que qualquer manjar moderno.
A avó Amélia sentada ao sol num tropeço de cortiça, costurava as roupas gastas enquanto o avô se dedicava a moldar com a navalha os bocados de cortiça bruta com que construía os seus pássaros. Lembro-me da cerejeira carregada de negras e doces cerejas ao lado da caseta, mas também da boa vizinhança: a guarda da passagem de nível, a ti Ana Galacho e o filho Zé Jaquim, o ti Zé Tomé com a sua família…
Gente de bem, que Deus tem na sua glória.
Hoje a casa é uma ruína, mas a cancela de ferro cor-de-rosa do pátio de acesso permanece lá, firme, embora inútil. O telhado ruiu, a cozinha foi vandalizada, as pedras da lareira desapareceram. Pouco importa ao mundo, mas a mim, que ali conheci a paz e a felicidade em tempos difíceis, importa-me muito. A casa fala-me de valores e de um tempo em que tão pouco se tinha, mas tudo se valorizava.
À direita na paisagem solitária, ergue-se a Murta, restaurada por quem também ama estas terras. Os canchos multiplicam-se até ao horizonte, bordejados por sobreiros, azinheiras, carvalhos e mato rasteiro. Por esses caminhos andei muitas vezes, com contrabando às costas, rumo à loja espanhola do Batão ou do Bravo. Levávamos ovos e outras miudezas, regressavamos com miganas, toucinho salgado, algum chocolatito barato de vez em quando.
Fui perseguido pelos guardas-fiscais – lembro-me do dia em que atirei um presente de aniversário para a namorada para detrás de uma parede ao ver o senhor Gonçalves e o senhor Correia à nossa espera. Fui apanhado, mas, talvez por compaixão, o senhor Gonçalves - muito boa pessoa - com um raspanete devolveu-me o embrulho:
“Leva lá isso à namorada, mas para a outra vez ficas sem ele, para não te armares em esperto…”.
São tantas e tão boas as recordações! Foram tempos duros sim, mas havia trabalho para todos, não se falava em desemprego e ninguém dependia de subsídios. O trabalho começava mal se acabava a quarta classe. Muita gente viveu e morreu por aqui, sem nunca ter saído da sua terra.
Se os nossos pais e avós cá voltassem, dificilmente reconheceriam este mundo novo tão mais vazio de valores e princípios, incapaz de proporcionar aquela felicidade simples de outrora. A humildade deles seria hoje impraticável por já não existir na maior parte dos corações.
Olhando para trás percebo agora que a nossa verdadeira riqueza eram as pessoas, os afetos, o trabalho honesto e a comunhão com a terra. As paisagens mudaram, as casas envelheceram, as pessoas estão diferentes, mas a memória de tudo o que conheci, continua inalterável como aquela cancela cor-de-rosa dos meus dias felizes.
Texto e foto