Há momentos em que o silêncio me envolve com uma mansidão antiga, como se tivesse aprendido quando necessito dele. E nesses momentos, a memória senta-se também ao meu lado.
Sem
bater à porta e sem pedir licença, entra devagarinho, como um vizinho antigo
que já conhece os cantos à casa.
E
eu deixo.
O
silêncio, nunca incomoda.
Aconchega.
E
a memória traz-me à lembrança rostos que já não vejo, risos que o vento levou,
cheiros e momentos que só a infância sabe guardar.
A
voz da minha mãe a cantarolar enquanto acendia o lume para fazer a ceia, ao
cair da noite.
O
chiar da porta da cozinha.
O
lume a estalar, como se conversasse comigo.
E
percebo que tudo isso – o que vivi, o que perdi e o que ficou – ainda mora em
mim.
Não
como peso, mas como raiz.
O
passado, aqui no meu Alentejo, nunca se vai embora de verdade.
Fica
entranhado na terra, no silêncio, no corpo.
Fica
no modo como abrimos a porta, como pousamos o olhar, como respiramos devagar
para não assustar o tempo.
Tal
como os sulcos que se formam na terra lavrada, também as memórias traçam os
seus dentro de mim. Uns vêm nítidos, outras chegam baços como fotografias
antigas guardadas numa caixa de sapatos.
Mas
todos têm o seu lugar. Todos me lembram que sou feito de instantes que ficaram
agarrados à pele.
E
então entendo: este silêncio é um amigo cuja presença discreta, quase tímida,
se senta comigo nos dias cinzentos e me diz:
“Olha
o que viveste. Olha o que te fez ser quem és.”
O
passado não é um sítio onde a alma se perde. É o campo onde se semeia o
presente. E cada memória – boa ou dura – é uma pedra da calçada que me trouxe
até aqui.
Por
isso, quando a tarde cai e o dia encolhe, deixo que o silêncio me abrace. Não
para me prender, mas para me lembrar que sou feito de tempo, de encontros, de
despedidas, de risos que ainda ecoam.
Sou
feito daquilo que permanece, mesmo quando já partiu.
José Coelho
