segunda-feira, 11 de maio de 2026

Quando a farda pesa mais do que o erro

Há momentos em que o país parece viver num estado permanente de sobressalto moral. Basta um vídeo tremido, uma manchete apressada, um rumor que se espalha mais depressa do que a verdade e de repente ergue-se um tribunal invisível, feito de cliques, indignação e certezas instantâneas. Um tribunal onde ninguém pede contexto, ninguém espera investigação, ninguém distingue. Julga-se primeiro; pensa-se depois.

Já vimos este mecanismo cruel a funcionar com os padres: a queda de alguns transforma-se, nas redes sociais, numa sentença contra todos. E agora assistimos ao mesmo com as forças de segurança – PSP e GNR – homens e mulheres que carregam no corpo uma farda que, para muitos, deixou de ser símbolo de autoridade e passou a ser alvo de desconfiança.
Sim, há casos que ferem. Há abusos de poder, violência gratuita, tortura em esquadras, emigrantes explorados em campos do Alentejo sob o olhar cúmplice de quem devia proteger. Há agentes que nunca deveriam ter vestido a farda, porque confundem lei com força bruta, serviço com domínio, autoridade com soberba. Isto é verdade e negar seria uma forma de cobardia.
Mas há outra verdade, mais silenciosa, menos fotogénica, raramente partilhada: a esmagadora maioria dos agentes cumpre o seu dever com dignidade, risco e sacrifício. São profissionais que saem de casa sem saber se regressam, que enfrentam noites que não acabam, agressões que não se contam, misérias humanas que não cabem em relatórios. E esses – os que honram a farda – são arrastados para a lama sempre que um prevaricador decide manchar o uniforme que veste.
A sociedade tem um vício antigo: quando não sabe como resolver um problema, culpa todos os que lhe estão próximos. É mais fácil assim. É mais rápido. É mais cómodo. E sobretudo evita o trabalho difícil – o trabalho moral – de distinguir. Mas a facilidade nunca foi sinónimo de justiça.
A farda não deve proteger criminosos. Quem usa a autoridade para humilhar, ferir ou explorar deve responder por isso, sem desculpas, sem corporativismos, sem silêncios cúmplices. Mas a farda também não deve ser transformada num alvo. Não deve ser sinónimo de culpa automática, nem motivo para insulto, ódio ou generalização. A justiça separa; a fúria mistura. E nós, enquanto povo, temos vivido demasiado tempo na fúria.
A justiça não é um grito. Não é um post viral. Não é um vídeo de vinte segundos fora de contexto. A justiça exige rigor, coragem moral e a capacidade – tão rara hoje – de olhar para cada caso como único, sem arrastar inocentes para o mesmo saco. Porque quando condenamos todos, absolvemos ninguém. E quando deixamos de distinguir, deixamos de ser um país adulto.
No fim, tudo se resume a isto: cada prevaricador deve responder pelos seus atos; cada profissional íntegro deve ser protegido da sombra que não merece. E nós, enquanto sociedade, temos a obrigação moral de não contribuir para a cegueira coletiva que transforma erros individuais em culpas universais.
Um país que não sabe distinguir não sabe ser justo. E um povo que não sabe ser justo não sabe ser livre.
Texto e foto