Três
amigos caminham lado a lado pelas terras da Beirã, como se o destino os tivesse
alinhado desde sempre, embora só aqui, neste estreito vale, se tenham
finalmente encontrado. Cada um nasceu do mundo à sua maneira, em tempos
diferentes, mas todos aprenderam a reconhecer-se pelo simples acto de seguir
adiante.
O
mais novo deles, leve e curioso, é o Ramal de Cáceres, nascido em 1878. Vê‑lo
ali, a passar sobre o muro do lado direito, como um rapaz que ainda não perdeu
o gosto de explorar cada curva do caminho. Traz no passo a pressa dos que sabem
que o mundo é grande e que Espanha começa logo ali adiante.
O
segundo, mais maduro, é o Caminho da Retorta. Já era homem feito quando o Ramal
veio ao mundo. Desce entre o choupo seco e o lado esquerdo da paisagem, com a
serenidade de quem conhece cada sombra, cada pedra, cada dobra do terreno. É um
caminho que não se apressa: observa, escuta, recorda.
E
ao centro, correndo desde tempos que ninguém sabe contar, segue o mais velho
dos três, o Ribeiro da Cavalinha. Não tem idade que se escreva em papel. Terá
milhares de anos, talvez tantos quantos tem o próprio mundo. É o ancião que
murmura histórias antigas, que leva no seu curso a memória de tudo o que já
passou por estas margens.
Durante
longos troços, caminham apenas à vista uns dos outros, cada qual no seu leito,
no seu ritmo, no seu destino. Mas é aqui, nesta garganta estreita moldada pelo
capricho do terreno, que finalmente se tocam. Encostam-se, apertam-se, cedem
espaço uns aos outros para caberem os três – como velhos companheiros que,
depois de anos de distância, se reencontram num abraço inevitável.
Passado
o aperto, seguem juntos até ao Muro. Ali, o Caminho da Retorta e o Ribeiro da
Cavalinha continuam lado a lado até à Várzea da Retorta, onde ambos encontram o
seu fim. O Ramal de Cáceres, esse, segue em frente: atravessa o Matinho,
inclina à direita para as várzeas da Herdade dos Pombais e das Amendoeiras, e
entra em Espanha pela Ponte do Rio Sever, rumo a Valência de Alcântara, Cáceres
e Madrid. É o mais novo, mas é o que vai mais longe.
Conheço os três como quem conhece irmãos. Sei-lhes os passos, os segredos,
as manhas. Cresci com eles, fiz-me homem ao lado deles, e com eles estou a
envelhecer. Enquanto viver, serei parte destas paisagens – parte dos seus
silêncios, das suas histórias, daquilo que só quem aqui nasceu consegue
verdadeiramente entender.
José
Coelho
Texto e foto
