A chuva cai devagar, como se tivesse aprendido a respeitar o silêncio da casa. As gotas escorrem pela vidraça e desenham caminhos que não escolhi, mas reconheço – são os mesmos caminhos que a memória percorre dentro de mim quando o mundo abranda e me deixa ouvir o que ficou para trás.
Nesses instantes suspensos, percebo que a nostalgia não é tristeza. É antes um abrigo, um gesto antigo que me envolve os ombros como a manta que a minha mãe dobrava ao fim da tarde. É o calor discreto de tudo o que me formou e regressa para me lembrar que o passado não se perdeu: apenas repousa.
Vejo rostos que já não toco, ouço risos que o tempo afinou, sinto aromas que só a infância sabe guardar. Cada lembrança – nítida como um rosto ao sol ou difusa como um cheiro esquecido – é um fio do tecido que me veste a alma.
Sou feito disso: de fragmentos, de ecos, de pequenas eternidades que ficaram presas ao corpo como cicatrizes luminosas.
Tal como a chuva que inventa mapas no vidro, também as memórias se movem dentro de mim: umas suaves, outras intensas, mas todas vivas. Às vezes basta o tamborilar da água no telhado para que um dia inteiro de outro tempo se levante, intacto, como se nunca tivesse partido.
E então compreendo: a nostalgia não é um peso. É um laço invisível, firme e leve, que me prende ao que fui e ao que ainda sou.
Não dói – ilumina.
É uma presença silenciosa que se senta ao meu lado nos dias cinzentos e me recorda que cada gesto, cada escolha, cada encontro deixou uma marca que ainda pulsa.
O passado não é um país onde a alma se perde. É o terreno fértil onde crescem as raízes do presente. As memórias – as boas e as que custaram a passar – são pedras fundamentais na construção de quem me tornei.
E é na nostalgia que encontro a aceitação mansa de tudo o que vivi, como quem olha para um campo depois da colheita e reconhece: cada sulco teve o seu propósito.
Por isso, quando a chuva cai e o dia se torna cinzento, deixo que a memória me abrace. Permito que o passado se sente comigo, não como sombra, mas como claridade. E reconheço, com a serenidade de quem já caminhou muito: sou feito de tempo, de instantes, de perdas e de ternuras que ficaram.
Sou feito de tudo o que permanece, mesmo quando já partiu.
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