sexta-feira, 31 de março de 2023

Bom início de Semana Santa

O Penedo da Rainha e o Ramal de Cáceres na Beirã

No meu tranquilo habitat quotidiano

O meu bairro a espreguiçar-se ao sol da tarde de ontem.
Fotos José Coelho - 30.03.2023

quinta-feira, 30 de março de 2023

A dignidade de chegar a velho


Quando nasci o meu pai contava já 42 anos. Casou tarde, aos 36, pese embora a minha mãe tivesse apenas 20. Tão mais jovem do que ele, deduzo que se terá deixado encantar por aquele modo meigo e afável que o caracterizavam e com o qual conquistava a amizade de quase toda a gente que com ele lidava. Cresci por isso a ver surgirem no seu rosto as primeiras rugas e no seu farto cabelo os primeiros fios prateados.
Treze anos mais tarde fui integrar a sua equipa de trabalho na pedreira da Lajem do Sapato da qual ele era o subempreiteiro por conta do Engº Ventura e também ali todos os seus camaradas eram como ele cinquentões. Foi com esses dignos mestres que aprendi o ofício de cabouqueiro e também seguramente entre eles colhi ensinamentos que me moldaram para a vida adulta.
Influenciado pela sã vivência com essa geração grisalha de muito bom senso, habituei-me a ver o mundo pelos prismas deles, mas, sobretudo, a estimar e respeitar os mais velhos, aqueles a quem, por ser mais fino ou menos agressivo se definem hoje idosos. Mas eu continuo a chamar-lhes velhos como sempre chamei e como prefiro que me chamem a mim também, porque entendo que a velhice não é vergonha nem castigo para ser "maquilhada" com brandas denominações e ser mais bem aceite.
Chegar a velho em meu entender é um privilégio, uma recompensa da Vida, uma bênção para quem consegue alcançá-la.
Os rostos enrugados dos anciãos, os cabelos prateados e a sabedoria adquirida no decurso das suas vidas merecem todo o respeito e consideração seja de quem for. Admiro a sua inquestionável dignidade, paciência e conformismo, mas, sobretudo, a enorme generosidade com que aceitam ser esquecidos, assim como a subtil nobreza como desculpam os familiares que passam meses sem os visitar nos lares onde por conveniência própria os depositaram para lá passarem o resto dos seus dias.
É vulgar ouvir da sua boca os gentis argumentos com que defendem tão indesculpável abandono:
- Coitados! Não podem cá vir, têm lá as vidas deles…
Na sua enorme bondade não só aceitam como perdoam e ainda acham que coitados são quem, por absoluto desamor, se esquece que eles ainda estão vivos. Em meu entender também, o abandono de mãe ou de pai, de irmão ou irmã, de avós ou de outros parentes próximos, é uma vergonha, um desmazelo, uma ingratidão, uma injustiça, uma falta de compaixão, de solidariedade, de respeito e de carácter.
Quantos desses velhos se sacrificaram para darem tudo o que podiam, até mais do que podiam, para que nada faltasse àqueles que depois assim os ignoram...
Não foram esses os valores e princípios que lhes ensinaram, muito mais pelo exemplo do que por palavras, porque outrora o tempo era escasso para as palavras pois havia que mourejar desde o romper da aurora até muito depois do sol-posto.
Não deve ter havido no mundo um pai menos conversador do que o meu. Ainda assim eu colhi dele quase tudo o que sou, através do seu exemplo no dia a dia. Sem grandes discursos e sem grandes mimos, porque dele quem mais colo colheu foram depois os netos que manifestamente ele adorava e o adoravam também.
Estou completamente à vontade e em absoluto sossego de consciência para criticar tais comportamentos porque acolhi em minha casa durante vários anos a minha mãe e dela cuidei amorosamente até ao fim dos seus dias, com o permanente e precioso auxílio da minha esposa e da minha irmã mais nova, após uma retinopatia diabética a ter cegado por completo. Também o meu pai e o pai dele o avô Faustino, assim como a avó Amélia mãe da minha mãe, os três partiram desta minha casa para a eternidade, rodeados de carinho e de cuidados de quem amavam e os amava também a eles.
Só a avó Adelina mãe do meu pai não tive o privilégio de conhecer porque faleceu aos 51 anos com um ataque cardíaco, quando eu estava para nascer. Porém, mesmo sem nunca a ter conhecido, aprendi a amá-la por muito dela ter ouvido falar. Também o querido avô José Lourenço o meu mais velho e saudoso amigo a quem devo o nome e muitas outras coisas boas, partiu inesperadamente sem de nós se despedir acometido de grave insuficiência respiratória no hospital de Portalegre onde fora internado de urgência poucos dias antes. Tinha apenas 67 anos.
Quisera eu ter podido tê-los também junto de mim, acolhidos em minha casa para deles cuidar, como cuidei dos outros…
José Coelho in Histórias do Cota
*Excerto
Imagem:
A única foto que tenho da Avó Adelina, mãe do meu pai. Onde estiveres avó, um beijo.

quarta-feira, 29 de março de 2023

Faz boa letra...

Da esquerda para a direita em cima: O meu Pai, a minha Mãe, a Avó Amélia e o Avô José Lourenço. Em baixo: A minha irmã mais nova Joaquina e a mais velha Adelina. Não sei porque não ficou também a irmã Luz. Foto de 1973 da autoria da minha amiga de infância Maria do Rosário Carvalho que me a enviou de surpresa pelo correio para Angola no meu 21º aniversário.

Já escrevi inúmeras vezes que a mais valiosa herança que recebi dos meus pais e avós não foi dinheiro ou outros bens materiais. Porquê? Porque muito mais valiosos que quaisquer outras riquezas foram os valores e princípios que enalteço e sempre os vi praticar, pelo que naturalmente me foram sendo ensinados no dia a dia através do seu continuado exemplo.
Com eles aprendi ainda entre muitas outras coisas, a estar disponível para ajudar, dentro das possibilidades, quem de ajuda necessite.
Ouvi aos meus avós contarem como ajudaram sempre, apesar dos seus limitados recursos, aqueles fugitivos da guerra civil espanhola que com medo de serem capturados por agentes da falange inimiga para os fuzilarem em praças públicas, se escondiam pelos canchos e matagais do Muro e do Monte Velho durante o dia e que para sobreviver lhes batiam à porta pela calada da noite a suplicar algum alimento.
Nenhuma dessas desconhecidas e amedrontadas almas de lá saiu alguma vez sem ser socorrida com algum pedaço de pão centeio, alguma caneca de café de cevada quente ou tigela de leite de cabra, do pouco que tinham para repartir.
De igual modo procediam os meus pais. Éramos uma família humilde na aldeia como eram quase todas as outras nossas vizinhas, na sua grande maioria gente do campo como nós. Mas também à nossa casa recolhiam os irmãos da minha mãe com as suas mulheres e filhos sempre que necessitaram de teto para se abrigarem temporariamente por motivos diversos. Aqui eram sempre acolhidos com carinho e instalados como era possível, dada a exiguidade da nossa casa nas suas quatro pequenas divisões.
Nunca ninguém ficou desamparado.
Do mesmo modo se repartia o quase-nada que havia com quem batia à nossa porta a pedir ajuda. As “malpiqueiras” – pedintes oriundas de Malpica – que pediam cinco tostões por um molho de chá de salva brava e “um bocadinhe de pã”, a ti Felicidade do Miguel da burra porque o homem bebia demais lhe batia e a punha na rua, a vizinha que estava de cama doente e por viver sozinha não tinha ninguém que lhe fosse levar um caldo quente, a senhora com um bébé ao colo que vinha no Lusitânia mas por não trazer passaporte foi posta fora do comboio na estação e deixada ao frio, e tantas, tantas outras pessoas que por um motivo ou outro acabaram acolhidas e sentadas ao nosso lume…
É a tudo isso que eu me refiro quando escrevo e reescrevo sobre valores e princípios ou sobre a antiga solidariedade, até mesmo entre as pessoas desta aldeia – e de todas as outras em redor – naquele tempo de tanta pobreza, porque hoje que já vivemos todos muito melhor pouco ou nada nos importamos uns com os outros.
Sem vaidade ou presunção sei que também sou, como os meus pais e avós, uma pessoa solidária e atenta ao meu semelhante, sempre pronto a dar a mão a quem dela necessita. Mas por outro lado não me preocupa minimamente o que faz ou deixa de fazer da sua vida o meu vizinho, porque ser solidário não quer dizer ser-se intrometido, abelhudo ou coscuvilheiro.
Estar atento ao próximo não é ser inconveniente. Pelo contrário, é agir com discrição, prestar auxílio se necessário, mas sem achar que por isso tem direito a dar sentenças ou palpites.
Cada pessoa sabe de si e só Deus sabe de todos.
Por isso respeito toda a gente e espero sempre que da mesma forma proceda “toda a gente” para comigo. Mantenho a verticalidade de princípios e valores que me foram incutidos, faço a minha vida sem sobressaltos e sem alterar o rumo do meu comportamento completamente indiferente aos juízos bons ou maus que de mim possam fazer A, B, ou C.
Do meu saudoso e querido pai que não sabia ler nem escrever, guardo este sábio conselho que eu entendi precioso e passei a praticar como lema de vida:
- Faz boa letra filho e o diabo que a leia…

José Coelho in Histórias do Cota (excerto)

terça-feira, 28 de março de 2023

Pessoa, no seu melhor



Navega, descobre tesouros,
mas não os tires do fundo do mar,
o lugar deles é lá.
Admira a Lua,
sonha com ela,
mas não queiras trazê-la para a Terra.
Goza a luz do Sol,
deixa-te acariciar por ele.
O calor é para todos.
Sonha com as estrelas,
apenas sonha,
elas só podem brilhar no céu.
Não tentes deter o vento,
ele precisa correr por toda a parte
e tem pressa de chegar sabe-se lá onde.
As lágrimas?
Não as seques,
elas precisam correr na minha, na tua, em todas as faces.
O sorriso!
Esse, deves segurar,
não o deixes ir embora, agarra-o!
Quem amas?
Guarda dentro de um porta-joias, tranca-o e perde a chave!
Quem amas é a maior e mais valiosa joia que possuis.
Não importa se a estação do ano muda, se o século vira,
conserva a vontade de viver,
não se chega a parte nenhuma sem ela.
Abre todas as janelas que encontrares e as portas também.
Persegue o sonho, mas não o deixes viver sozinho.
Alimenta a tua alma com amor, cura as tuas feridas com carinho.
Descobre-te todos os dias,
deixa-te levar pelas tuas vontades,
mas não enlouqueças por elas.
Procura!
Procura sempre o fim de uma história,
seja ela qual for.
Dá um sorriso àqueles que esqueceram como isso se faz.
Olha para o lado, há alguém que precisa de ti.
Abastece o teu coração de fé, não a percas nunca.
Mergulha de cabeça nos teus desejos e satisfá-los.
Agoniza de dor por um amigo,
só sairás dessa agonia se conseguires tirá-lo também.
Procura os teus caminhos, mas não magoes ninguém nessa procura.
Arrepende-te, volta atrás,
pede perdão!
Não te acostumes com o que não te faz feliz,
revolta-te quando julgares necessário.
Enche o teu coração de esperança, mas não deixes que ele se afogue nela.
Se achares que precisas de voltar atrás, volta!
Se perceberes que precisas seguir, segue!
Se estiver tudo errado, começa novamente.
Se estiver tudo certo, continua.
Se sentires saudades, mata-as.
Se perderes um amor, não te percas!
Se o achares, segura-o!
Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala.
"O mais é nada"
Fernando Pessoa

segunda-feira, 27 de março de 2023

Preso por ter cão, preso por o não ter

Foto: Estúdio Cardinho Ramos 1979 - Castelo de Vide 

 

A colocação no Posto de Portalegre depois de terminado o curso de formação de guardas que naquele tempo se chamava “alistamento” em Junho de 1979, deu-me finalmente a oportunidade de conhecer ao vivo e em direto a tão falada Reforma Agrária. Aquela – em meu entender – deplorável asneira político-partidária resultante da Revolução de Abril que opunha ferozmente os donos das herdades àqueles que irregularmente as tinham invadido e ocupado.

No meio da contenda para mediar o conflito – nem sempre de forma isenta – cabia à Guarda estar presente a fim de evitar desacatos, proteger os técnicos do Ministério da Agricultura ou seus delegados, e, em suma, fazer cumprir a Lei, mesmo que algumas vezes inevitavelmente tivesse que usar a força para o conseguir.

Para aquela missão eram diariamente escalados vários militares de cada Posto da área, que formavam uma secção ou um pelotão de manutenção da ordem pública, variando o dispositivo em função da probabilidade prevista de risco de conflito no local programado.

Eram dias muito atribulados a percorrer caminhos de terra batida aos saltos dentro dos velhos e duros Land-Rover, a comer pó e com os nervos à flor da pele, a ouvir insultos, apupos e muitas vezes até o arremeço contra nós de tudo o que lhes vinha à mão, porque aquela gente não entendia ou fazia que não entendia que estávamos ali a cumprir ordens vindas do próprio governo.

Miminhos verbais como “cabrões” ou “filhos de puta” eram o nosso dia-a-dia. Em muitas dessas entregas houve mesmo desacatos a sério, originando tomadas de posição de força e retaliação para repor a ordem que resultavam em confrontos físicos ferozes e feridos. E foi num desses apertos, na cidade de Ponte de Sor junto ao tribunal que um identificado e na altura muito conhecido ativista, ali mesmo na minha frente, olhos nos olhos, me vociferou furioso:

- Quando a gente deixar de trabalhar, vais comer espingardas, bastões, jipes e cães-polícias, porco fascista…

Nem sequer foram as palavras que ele proferiu o que mais me impressionou. Foi a forma enviesada de ódio puro como me olhou a faiscar nos seus olhos.

Nós estávamos instruídos, mais que recomendados e fortemente mentalizados para nunca ripostarmos individualmente. Ninguém abria a boca, fazia qualquer gesto agressivo ou tomava qualquer atitude, fosse ela qual fosse ou em que circunstância fosse, sem ser para isso dada ordem por quem detinha o comando da força no local.

Aqueles insultos deviam ser considerados como sendo dirigidos à Guarda no seu todo e não individualmente a cada um dos guardas que ali estavam no desempenho de uma missão como qualquer outra. Por isso nenhuma reação a título individual seria tolerada. A nossa função primeira era evitar conflitos e não provocá-los, muito menos ser parte deles.

Foram assim “do caraças” muitos dias, semanas e meses.  No meu espírito a perturbação instalou-se algumas vezes, com tão estranha contradição.  Apenas meia dúzia de semanas atrás, era eu insultado e enxovalhado pelos comandantes de pelotão por eles acharem que eu era um comunista infiltrado:

- Levante esse punho só à altura do ombro enquanto marcha, senhor Coelho. Guarde a vontade de levantar o punho mais alto lá para os comícios do seu sindicato… Vociferava o tenente a enxovalhar-me perante o pelotão inteiro.

E o sargento que o coadjuvava, ainda era mais agressivo. Já morreram os dois faz tempo, já pagaram. Que a terra lhes seja leve… Contudo, ainda há por aí muitos camaradas vivos e de boa saúde que podem testemunhar estas verdades todas que escrevo e que são mesmo a verdade, só a verdade, apenas a verdade.

Naquele dia, depois de tão censurável humilhação, um excelente camarada d’armas que era de Montargil e que nunca mais vi depois do alistamento, veio ter comigo para me dizer à sucapa, não fosse mais alguém ouvir:

- Não sei como tu aguentas isto, Coelho. Eu já me tinha ido embora e mandava-os foder a todos. Mas não me ia embora sem primeiro partir os cornos a um…

Agradeci-lhe a sua bondosa solidariedade e respondi tranquilo:

- Isso é precisamente o que eles querem, amigo! Se eu o fizesse, eles ficariam felizes por o terem conseguido e ainda por cima o culpado ia ser eu, por desistir a meu pedido. Não tenho medo, não fiz mal a ninguém e quem não deve não teme. Se quiserem pôr-me na rua, terão que ter tomates e serem eles a expulsar-me, justificando muito bem a causa legal dessa expulsão...

A duras penas, mercê de muito querer e fazendo da razão da minha força, a força da minha razão, consegui, mercê de sucessivas notas altas em todos os testes semanais, que, do primeiro até ao penúltimo, foram sempre acima dos 17 valores, catapultando-me para o primeiro lugar na classificação geral. E só não fui o primeiro classificado do curso porque, no último teste, de topografia, os meus queridos “chefes” atribuíram-me apenas 13 valores àquele teste que me tinha corrido tão bem como os anteriores, mas assim, aqueles quatro ou cinco valores premeditadamente roubados, fizeram-me baixar a média das notas para o segundo lugar. Na sua enviesada mentalidade, conseguiram dessa fraudulenta forma impedir “o comunista” de subir à tribuna a receber o galardão de primeiro classificado.

Essa foi, entre outras, a mais grave filhadeputice que me fizeram, logo no início da minha carreira nas forças de segurança.

Então e não é que, algumas semanas depois, já na tal Reforma Agrária, no justo e cabal desempenho das minhas funções profissionais, continuei a ser  insultado e enxovalhado...

...mas desta vez pelos comunistas,  porque era GNR?

- Vai lá vai…

Preso por ter cão, preso por o não ter.

Dasss…

José Coelho in Histórias do Cota

domingo, 26 de março de 2023

Boa semana

Quantas vezes eu já escrevi e repeti esta afirmação? Sou desse tempo e ainda que "poco queda ya de eso", mantenho e cumpro a mesma honradez. Para mim a palavra dada, vale mais que qualquer escritura. Serei assim até morrer (ou enquanto o meu juízo for perfeito).

Foto da net 

Família - Raízes, ramos e folhas

Tudo o que mais amo na vida, está contido nesta foto

Muito novo tomei consciência do quão dura é a vida por ter nascido numa família humilde onde os princípios básicos elementares como a honestidade e a integridade de carácter constituíram sempre a mais exigente e inquebrável regra. Foi a minha mãe a nossa principal educadora, também ela educada pela sua progenitora a saudosa avó Amélia, santa velhinha que me ajudou a criar. Formada assim na escola da vida pela mão da mais virtuosa mestra, foi por isso mesmo também a pessoa certa que nos soube transmitir os mesmos valores e princípios que recebera do berço.

Lembro-me também com enorme carinho do avô José Lourenço, o mais paciente e bondoso ser humano que me foi dado conhecer até hoje, trajando quase sempre umas calças e casacos remendados pela minha avó que tudo aproveitava até poder. Só nos casamentos das filhas mais novas e ainda no de alguns netos, inclusive no meu, o vi aperaltado com um impecável fato de cerimónia e gravata. Sei que nunca deveram nem um centavo a ninguém. Com as suas modestas jornas e mais tarde com as suas ainda mais modestas pensões, conseguiam amealhar, tostão a tostão, algumas poupanças, o suficiente para terem uma vida minimamente digna e tranquila. 

Íntegros até à medula e por isso por toda a gente respeitados e estimados, era mais fácil o dinheiro não chegar para roupas novas do que faltar para as suas obrigações como a renda da casa ou outras. Sei que nunca passaram fome, mas comiam quase só do que a horta e o galinheiro produziam, até porque, para além da jorna de justo ao mês, o meu avô recebia para além do ordenado ajustado em dinheiro, também alguns géneros alimentares designados por “comedias” que consistiam em centeio em grão, feijão frade, queijos secos e azeite. Comedías eram as “coisas de comer” e por isso lhes chamavam assim.

Antes de conhecer e de casar com o meu pai, um dia por mês todos os meses, a minha mãe, filha mais velha de oito irmãos, 4 raparigas e 4 rapazes, tinha de carregar com o talego do centeio em grão à cabeça e calcorrear a pé os seis quilómetros que separavam o sítio do Muro onde moravam, até ao moinho do Tira-calças no rio Sever, quase ao pé das Amendoeiras, onde o centeio em grão era moído e se transformava na farinha que de novo à sua cabeça regressava ao Muro, para a minha avó amassar semanalmente e fazer o pão que comiam. 

O Muro era um sítio afastado de qualquer povoação no meio dos canchais da raia onde viviam apenas três ou quatro famílias. Tinham de, por isso, ser autosuficientes. Felizmente nesse tempo não havia ermos porque por todo o lado moravam camponeses, pastores ou mesmo assentadores do caminho de ferro pelas casetas junto à linha férrea desde a estação da Beirã até à ponte sobre o rio Sever.

Lembro ainda também, como não, do asseio e arrumação esmerada da casinha da minha avó na Cavalinha, quando ficaram só já os dois velhotes, depois de os filhos todos irem cada um à sua vida exceto o mais novo, o tio Raimundo que nunca casou e que, por ser guardador de cabras justo ao mês, só ia a casa aos sábados. 

Aquelas paredes, varanda e poiais imaculadamente brancos pela insistente cal, a cantareira de barros na cozinha meticulosamente alinhada, o cântaro sempre cheio de água fresca, os alumínios areados e brilhantes como espelhos, em resumo, a agradável sintonia que de tudo emanava e nos transmitia uma doce sensação de paz, de genuína tranquilidade e bem-estar. 

Nunca mais comi comidinha tão saborosa como aquela que a minha avó cozinhava numa sócha ao lado da casa em lume de chão, em panela de barro ou na sertã. A sócha fora feita pelo meu avô para poupar a brancura da lareira da cozinha da casa, porque a avó não gostava de a ver mascarrada pelo lume e pelo fumo.

Quando decidiram formar família, os meus progenitores debatiam-se com os mesmos problemas comuns a toda a gente pobre daquela época – famílias numerosas e escassez de meios de subsistência – exceto o da renda ao senhorio, porque a casa era deles. O meu sensato pai quando herdou dezoito contos de reis de uma tia-avó meio rica, não se deixou deslumbrar com a fartura de dinheiro nas mãos – dezoito contos de reis em 1948 eram uma pequena fortuna – e, em vez disso, gastou até ao último centavo na compra de um terreno e na construção deste seu ninho familiar. 

Quatro pequenas divisões. Uma cozinha com uma bela lareira onde passávamos os serões, uma sala e dois quartos. O dinheiro já não deu para as portas interiores mas a minha mãe resolveu o problema com umas cortinas de chita em cada uma, para o resguardo possível da sua privacidade, até conseguirem ir colocando as portas.

Era modesta mas era deles.

Aqui nasci já eu e as minhas duas irmãs mais novas, a Luz e a Joaquina. A Adelina, a mais velha que já não está entre nós, nasceu três anos e meio antes de esta casa estar construída. Hoje é o meu lar. Tive de ficar com ela por vontade e empenho absolutos do meu pai. O tempo levou-os já a todos, entretanto. Avós, pais, e muitos outros entes queridos que moldaram a pessoa que sou. Entretanto foi necessário ampliar e modernizar a casa, mas fiz questão de manter intactas as primitivas quatro pequenas divisões dentro do novo projeto. 

Só a bela lareira alentejana que existia na cozinha original teve de mudar de sítio e de feitio porque essa divisão foi promovida a sala de estar.

Sou tão profundamente grato à memória de todos eles, santo Deus. Tudo quanto me ensinaram me fez falta e ajudou a vencer obstáculos para conquistar metas. Por isso sinto esta incurável saudade. Não tive uma vida fácil quase desde que nasci, é verdade, mas tive uma vida decente, de muitas lutas e obstáculos sempre com muita dignidade vencidos e que me conduziram ao sucesso pessoal e profissional que me propus alcançar.

Uma vida intensa, mas feliz. 

José Coelho

sexta-feira, 24 de março de 2023

Bom fim de semana

Foto José Coelho

Como algumas vírgulas conseguem mudar uma frase, também algumas atitudes conseguem mudar uma história.

quinta-feira, 23 de março de 2023

Gente fina é outra coisa...



Nasceram como eu na aldeia e por isso irão ser como eu provincianos até morrerem, por mais finos que queiram parecer. A vida levou-os as grandes cidades e alguns anos depois regressaram.

Herdaram, compraram e restauraram as humildes casas dos pais ou dos avós, ou dos avós de um conterrâneo amigo na aldeia, para virem depois passar temporadas, férias, ou apenas fins de semana.

E trazem com eles os seus cãezinhos e cãezões.

Porque gostam de animais e porque é chique.

De dia passeiam-nos com a trela, para darem o tal ar de gente fina. À noitinha, matreiramente, quando as pessoas recolhem para jantar, soltam os ditos cãezinhos ou cãezões para vaguearem sozinhos por onde lhes apetece e para, deliberadamente longe dos olhares dos seus ilustres donos, cagarem onde lhes apetece.

E normalmente, o sítio escolhido por eles, é mesmo, mesmo, em frente à porta da casa, da garagem ou do portão dos vizinhos da mesma rua, da rua de trás, da rua do lado ou da rua da frente.

E os vizinhos, coitados, incautos e pouco ou nada habituados a tais porcarias, pisam inadvertidamente os montes de merda, ficando com os sapatos cagados para a seguir também inadvertidamente cagarem o tapete, a passadeira, os mosaicos ou o sobrado da sua casa a rogarem pragas mortais e excomungando não os bichos, porque eles obviamente, não têm culpa.

Eu também sou aldeão e com muito orgulho. A vida não me levou para a grande cidade apesar de ter saído uns bons anos da aldeia. E também comprei a humilde casinha dos meus pais. Só não faço dela apenas casa de férias ou de fins-de-semana porque a habito com carácter definitivo há mais de três décadas.

Felizmente, sim, felizmente, continuo o mesmo de sempre. Sem peneiras, sem manias de grandeza, sem me armar em fino. E curiosamente, também tive cães. Dois. Um caniche puro que cabia debaixo do meu braço e mais uma cãozorra rafeiro-alentejana cruzada de pastor alemão que se calhar por isso mesmo era quase do tamanho de um burro.

Como não sou nem quero parecer uma uma pessoa fina, não os ia passear de trela. Mas eles iam à rua e cagavam como todos os outros. A cãozorra andava à solta no quintal e cada cagalhão que fazia enchia uma pá que no momento seguinte era apanhado e colocado num saco para posteriormente ir para o lixo devidamente acondicionado a fim de não meter nojo nem incomodar ninguém com o aspecto ou o cheiro.

O caniche ia à rua duzentas e trinta vezes por dia para mijar e cagar. Mais mijão que cagão como todos os caniches, fazia apenas uns caganitos que quase nem se viam. Mas que eu apanhava SEMPRE de forma adequada no momento seguinte, com um saco de plástico. E depositava-os em seguida no contentor do lixo mais próximo.

Jamais alguém alguma vez pisou ou pisará um cagalhão dos meus canitos. 

Porque sim!

Gosto de ser assim, nada, nadinha mesmo, igual ou parecido a pessoas que se armam em elegantes, mas depois não sabem respeitar o direito mais elementar ao asseio e à higiene públicas dos seus conterrâneos e vizinhos. Não estando perto dos cães quando eles cagam, permitem de forma tão deliberada como cobarde que os animais espalhem uma autêntica sementeira de montes de merda por tudo quanto é rua, largo, parque ou travessa, da aldeia. 

E não estando a vigiá-los, podem até fingir na sua medíocre elegância, que não dão conta do que os bichos fazem quando os mandam dar uma volta sozinhos e à solta. 

É caso para dizer, como dizem "nuestros hermanos Extremeños" aqui do lado, quando alguma coisa não lhes cai bem... 

Madre que los parió.

José Coelho

quarta-feira, 22 de março de 2023

Branco Toca dos Coelhos 2022

Maturação - Agosto 2022

Vindima - Setembro 2022

Mosto - Setembro 2022

Fermentação - Setembro 2022

Desfega e engarrafamento - Março 2023

Obrigado a quem desta forma me ensinou a aproveitar as uvas do quintal para fazer este belíssimo néctar caseiro sem adição de quaisquer produtos químicos, apenas pela fermentação dos açúcares das uvas como faziam os nossos ancestrais. Que descanse em paz e um abraço daqui até ao céu.

Fotos José Coelho

terça-feira, 21 de março de 2023

O primo do Juiz

Foto José Coelho

Havia em Arêz um indivíduo muito conflituoso e agressivo com quase toda a gente. Era meio corcunda. Não sei se por ter aquela deformidade física, era de facto mau e não se dava com ninguém. Criava conflitos com toda a vizinhança por tudo e por nada e se algumas vezes as patrulhas tinham de intervir era certo e sabido que tinha de haver também sempre chatices porque ele não se coibia de responder mal e agressivamente fosse a quem fosse.

Tinha o indivíduo meia dúzia de vacas de raça turina que explorava como modo de vida, pastoreando-as por ali e vendendo depois o leite que lhe rendia algum dinheiro. Até aqui tudo bem, era uma forma de subsistência como outra qualquer. O grande e principal problema porém, era que ele não tinha terrenos nem pastos suficientes para pastorear as vacas o ano inteiro e invadia as propriedades dos vizinhos a torto e a direito indiferente aos protestos deles, maltratando-os e ameaçando-os verbalmente sempre que estes reclamavam, tendo mesmo chegado a agredir fisicamente alguns mais idosos com quem se atrevia melhor.

Foi a sua apetência para transgredir os preceitos de boa vizinhança e por achar seus, os pastos dos outros, que me levou ao confronto com ele. Após a enésima queixa de mais um vizinho, mandei, pela enésima vez também, a patrulha de intervenção avisá-lo que não podia invadir aquele terreno com as vacas. Como já se previa, o indivíduo para além de receber a patrulha com a maior insolência como era seu uso e costume, retrucou que “aquilo não eram terrenos da guarda nem do Estado e que por isso nós não tínhamos nada com isso...”

Em ato contínuo o Cabo Bugalho comandante da referida patrulha e um dos mais competentes graduados do efetivo do posto, contactou-me via rádio a dar conta da situação. Como não achei que aquela manifestação de pura ruindade pudesse conformar um crime de desobediência passível de detenção assim à priori, disse-lhe pela mesma via que o notificasse oficialmente e por escrito para comparecer no dia seguinte a determinada hora no posto para eu tentar de uma vez por todas elucidar o indivíduo que tinha que respeitar a lei e a ordem como qualquer outro cidadão

O “gajo” era bruto de facto, mas de parvo não tinha nada e no dia seguinte à hora que lhe tinha sido indicada lá estava a deitar fumo pelas ventas à minha frente no meu gabinete. Nem me deu tempo de lhe explicar nada. Começou logo por me “avisar” que era primo direito do doutor juiz – de quem eu era bastante amigo por sinal – e que me pusesse a pau que ele “tirava-me a farda”. Depois, nos mesmos modos irados, fez-me notar, como se isso não fosse visível, que era deficiente e que por isso tinha mais direitos do que as pessoas perfeitas porque essas podiam “fazer pela vida” melhor do que ele. 

Ia continuar a sua verborreia mas teve azar porque eu tinha já perdido a paciência e dei-lhe um berro:

- CALE-SE…

O meu tom de voz não augurava já nada de pacífico.

Mas, velhaco como as cobras, o indivíduo não se intimidou. Qual quê! Cresceu ainda mais para mim, encostou quase o seu nariz ao meu. E provocantemente, perguntou-me num tom zombeteiro:

- Quer bater-me?

- Quer?

- Vá! Bata-me…  

- Ande lá, bata-me…

 Záááás…

Afifei-lhe um bofetão com tanta genica que o infeliz balançou.

Em seguida respondi-lhe, no mesmo tom de voz que ele utilizara:

- Não, por acaso não queria bater-lhe. Não estava minimamente nos meus planos. Mas o senhor insistiu tanto que não pude deixar de lhe fazer a vontade… Ou o senhor cuida que por ter uma pequena deficiência física pode fazer e dizer tudo quanto lhe dá na gana enquanto nós somos todos obrigados a ter muita pena do coitadinho do corcundinha? Como vê, comigo pia fininho ou saem-lhe as contas erradas...

O energúmeno empalideceu primeiro, depois ficou vermelho e a seguir ameaçou:

- Vou agora mesmo fazer queixa de si ao meu primo juiz que ele já lhe faz a folha…

Não fiquei minimamente preocupado porque conhecia suficientemente bem o senhor doutor juiz e ele conhecia-me também a mim de igual modo. Não era meu hábito negar fosse que episódio fosse. Se ele me chamasse dir-lhe-ia toda a verdade sem omitir nada e sem qualquer receio ou hesitação porque sempre assumi a responsabilidade dos meus atos fosse em que circunstância fosse.

Porém, tal não foi necessário, muito pelo contrário.

Passada meia hora o dito-cujo compareceu de novo no posto muito mais calminho mandado pelo seu primo, o qual, ao contrário do que ele esperava ouvir lhe terá respondido, conforme mais tarde me contou o próprio senhor doutor juiz:

- Se o sargento te deu uma bofetada é porque de certeza tu já merecias duas, pois eu conheço muito bem o homem. Volta lá e pede-lhe desculpa, escuta o que ele tem para te dizer que deve ser para teu bem, antes que tenhas problemas maiores e mais sérios...

E ali estava. E conversámos. E dali para a frente as chatices com ele diminuíram drasticamente.

Não tenho qualquer dúvida. Se não fosse a excelente colaboração entre a instituição que eu servia e todas as outras instituições públicas de Nisa, todo o meu trabalho e empenho, bem como o de todos os militares que comigo dedicadamente se empenhavam dia e noite, nunca teria alcançado tais resultados. E o desfecho deste episódio revela a confiança absoluta que existia entre nós, neste caso concreto, entre o Tribunal e a Guarda.

Outros tempos... Que bons e velhos tempos esses! E que falta fazia que continuasse a ser assim.


José Coelho in Histórias do Cota

(Excerto)

Salmo do V Domingo da Quaresma

Passando a palavra

O Revº Pároco Marcelino Marques solicitou, na Eucaristia Vespertina do passado sábado, para se divulgar a quem possa estar interessado em participar, que a Celebração Penitencial desta Quaresma 2023 será celebrada quarta-feira dia 22 de Março, pelas 18:20 na Igreja de Nossa Senhora do Carmo da Beirã.

segunda-feira, 20 de março de 2023

Quando vier a Primavera

Foto José Coelho - Toca dos Coelhos

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.


       Fernando Pessoa

Uma "prenda de anos" diferente

Os ditos-cujos que ainda guardo e deram azo a esta história

Dez de Março. Dia do meu aniversário natalício. O carteiro trouxe algumas cartas. Uma delas remetida pelo responsável ou dono – não sei o que é – de uma Óptica numa das travessas de acesso à Praça dos Restauradores, na capital do reino.

Lá dentro, agrafado a um cartão pessoal muito simples e conciso, vinha um cheque com determinada quantia. Pouco relevante o seu montante, mas muito relevante o seu contexto, por evidenciar a intrínseca honestidade de quem o emitiu e me o enviou.

Porquanto…

Só nos tínhamos visto uma vez na vida, mais precisamente a 5 de Dezembro daquele ano da graça.

A minha Maria Manuela sofre de um problema crónico de saúde e necessitamos deslocar-nos a Santa Maria periodicamente para ser avaliada em cirurgia vascular. Entretanto, aproveitamos sempre também para uns dias antes rumarmos a Setúbal e passarmos um tempinho com os filhotes caçulas, até porque, por norma, o Pedro acompanha-nos no dia da consulta.

E foi num desses dias que não sei como nem porquê se partiu inesperadamente a ponte em titânio “inquebrável” dos meus óculos. A gente só se apercebe da falta que essas coisas nos fazem quando ficamos sem elas. E assim me aconteceu a mim que pareço logo um cegueta sem o dito cujo acessório. Ou não transportasse eu em mim os malandros genes da geração Lourenço, quase todos a braços com sérios problemas de visão.

Fiquei sem conseguir enxergar nada! Nem as letras do jornal, nem as do computador ou os números do telemóvel. E em Setúbal nenhuma óptica trabalhava com a marca caríssima toda xpto e dinamarquesa, no tal titânio que segundo a publicidade que lhes é feita para justificar o seu elevado preço as apelida de inquebráveis, quase à prova de bomba. 

Eis senão quando um excelente amigo dos Caçulas que trabalha nos Restauradores em Lisboa, sabendo que no dia seguinte iríamos a Santa Maria, nos indicou uma óptica onde talvez me resolvessem o problema. Assim fizemos. Mal nos despachámos da consulta médica rumámos à baixa pombalina onde sem grande dificuldade encontrámos a casa indicada.

Começámos logo por ser impecavelmente atendidos. Posto em seguida o problema, prontamente foi resolvido, uma vez que, ali sim, trabalhavam também com a marca Lindberg de fabrico dinamarquês. Foi mesmo só esperar o tempo necessário para o diligente senhor substituir a ponte partida por outra nova. Trabalho executado paguei, obviamente aliviado e já de novo “equipado” com os "quatro olhos" e muitíssimo satisfeito pois faziam-me mais falta os óculos na cara do que os euros na carteira.

Entretanto o senhor que tão impecavelmente me atendeu informou-me ainda cordialmente que os óculos eram mesmo de titânio supostamente inquebrável e não uma qualquer cópia fatela ou falsificação como eu estava a suspeitar, e que, por serem daquela prestigiada marca, ia enviar a peça partida para a fábrica na Dinamarca. Mais disse ainda que eles iriam reenviar-lhe gratuitamente a peça para substituição. 

E que, logo que tal se verificasse, me iria devolver o montante que eu acabara de liquidar. Para esse efeito, solicitou-me o meu contacto telefónico, bem como o endereço postal, dos quais tomou a devida nota.

Passaram 3 meses. Nunca mais eu me lembrei de tal coisa, até ao dia em que através de chamada telefónica o senhor da óptica de quem eu nem sabia sequer o nome – e agora sei porque vinha no cheque – pediu a confirmação dos meus dados a fim de emitir o cheque com o valor a devolver, tal como havia previsto e prometido.

Nos tempos que correm, em meu entender, tal atitude é uma completa excepção à regra! Jamais eu pensei que alguma vez aquele dinheiro me iria ser devolvido, não só pela raridade da situação, como também pelo facto de não nos conhecermos de lado nenhum, pois se não fosse a necessidade de consertar os óculos, nunca nos teríamos cruzado nas nossas vidas.

São estes louváveis e extremamente belos comportamentos humanos que me surpreendem pela positiva e me fazem gostar de ser gente, porque acredito sinceramente que haverá mais pessoas com esta lisura de carácter e indiscutível idoneidade, merecedoras da nossa confiança e do mais profundo respeito.

Fiquei tão sensibilizado que no minuto seguinte estava a escrever àquele ilustre senhor a agradecer o seu honrado gesto mais valioso para mim do que propriamente o montante do cheque, apesar de não ser assim também uma quantia tão pequena, tão pequena, que a tornasse insignificante. 

Eram algumas dezenas de euros.

E foi, sem dúvida alguma, das mais inesperadas prendas de aniversário que recebi em toda a minha vida, quer pelo seu elevado valor moral, quer por ter sido protagonizada por alguém que me era completamente desconhecido.

Dou graças a Deus por me ter concedido a oportunidade de conhecer este Ser Humano portador de tão valiosos princípios. São mestres assim que me incentivam e que tento sempre imitar, pois foi também entre pessoas desse calibre e craveira que cresci, aprendi, e me fiz gente. 

Obrigado, desconhecido senhor. Foi uma honra sem tamanho ter-me cruzado consigo pelo caminho da vida...


José Coelho in Histórias do Cota