Há dias em que acordo e sinto que o tempo deixou de correr. Já não foge, já não me empurra, já não me desafia. Caminha ao meu lado como um velho conhecido que perdeu a pressa e a vaidade. A maturidade ensinou-me que a vida não se mede em décadas, mede-se em lembranças. Momentos que ficaram, palavras que ficaram, pessoas que ficaram… e outras que partiram sem sequer fecharem a porta.
A
velhice, dizem, é um inverno. Eu não acredito nisso. Para mim, a velhice
parece-se mais com o fim de uma tarde de verão alentejano: ainda está calor,
mas já não queima; a luz ainda brilha, mas já não cega; e o silêncio ganha uma
profundidade que antes não sabíamos escutar. Agora já não me iludo com
promessas – nem as minhas, nem as dos outros.
Há
verdades que só se revelam tarde, como certas flores que só abrem ao anoitecer.
Durante
muitos anos, acreditei que os filhos seriam o meu porto seguro. Que a velhice
seria uma mesa cheia, vozes pela casa, passos no corredor. Mas a vida tem o seu
próprio ritmo – e o ritmo deles não é o meu. Hoje sei que os filhos não são
âncoras. São barcos.
Partem.
E é justo que partam.
A
solidão que dói não é a ausência deles. É a ausência de mim próprio, quando me
esqueço de que ainda existo para lá das memórias que guardo. Com o avançar da
idade, aprendi que a solidão não é inimiga, é um espelho.
E
às vezes custa olhar.
Nesta
idade, o corpo fala. Fala baixinho, mas fala sempre. Um joelho que protesta,
uma lombar que se queixa, um cansaço que chega sem pedir licença. Mas também há
uma sabedoria nova: a de agradecer cada manhã em que me levanto sem nenhuma dor,
cada passo que ainda dou, cada respiração que não custa. A saúde já não é
garantia, é empréstimo.
E
eu aprendi a tratá-la com a delicadeza de quem segura algo frágil, sabendo que
um dia terá de o devolver.
Durante
anos, imaginei o Estado como um pai distante: falhava, mas no fim aparecia. Mas
ao reformar-me percebi que o Estado não é pai de ninguém. É uma máquina e as
máquinas não têm compaixão. A reforma chega curta. Os preços chegam longos. E
no meio desta matemática cruel, descobri que a dignidade é um ato de
resistência.
Não
espero milagres. Espero apenas que me deixem viver com o pouco que tenho e com
o muito que ainda sou.
Há
quem envelheça para baixo, como se a idade fosse um peso que os puxasse para o
chão. Eu escolhi envelhecer para dentro. A velhice não me tornou fraco –
tornou-me lúcido. Já não me queixo por hábito.
A
queixa é uma forma de desistir. E eu ainda não desisti de mim.
O
passado é uma tentação. Brilha mais do que brilhou, cheira melhor do que
cheirou, parece mais fácil do que foi. Mas o passado é um país onde já não
moro. Por isso aprendi a viver no presente, não porque ele seja perfeito, mas
porque é o único lugar onde ainda posso fazer alguma coisa.
Por
mim e pelos outros, como foi sempre meu timbre.
E
se o tempo já não me engana, é porque finalmente aprendi a caminhar ao lado
dele, sem medo de ficar para trás e sem pressa de chegar a lado nenhum. O que
me resta não é pouco: é o essencial – estar vivo, estar lúcido e ser ainda
capaz de sentir o mundo com a mesma profundidade com que sempre o vivi.
José Coelho
