O dia mais santo do ano – segundo a ti Florinda Lourenço, Senhora Minha Mãe – era o Dia do Corpo de Deus. Tão santo que, dizia ela, muito séria e convicta, “até as folhas das oliveiras se cruzavam ao meio‑dia em ponto, a saudarem a Cruz de Cristo”. Nunca conheci mulher mais devota. E nunca me cansei de ouvir as suas crenças, quase sempre acompanhadas de algum “caso” que tinha acontecido a fulano ou beltrano por não respeitar tais preceitos.
Não podia ir à missa todos os domingos. Mãe de quatro filhos e esposa de um camponês, passava a semana inteira nos campos. Ao domingo o seu “dia de descanso” era limpar a casa, lavar a roupa de todos, coser um rasgão aqui, outro ali. Um descanso mais duro do que mondar o trigo, que mal lhe deixava tempo para si.
Compensou depois. Na última década da sua vida, já viúva e com os filhos criados, não faltou a um só domingo, a um só dia santo, a um só mês de Maria ou procissão. Ia a todas. Nunca frequentou qualquer catequese mas sabia rezar melhor do que muitas beatas. Sabia rezas para o pão crescer, para o pão cozer, para se levantar, para se deitar, para atravessar caminhos ermos. Sabia dezenas delas. Era uma sábia, a minha Florinda.
Nunca me esqueço dela, mas é nestes rituais que a sinto mais perto. Claro que as folhas das oliveiras não se cruzam. Mas ainda assim vou sempre ver. Não por acreditar no milagre, mas porque era crença da minha Mãe e isso aproxima‑me da sua memória.
Ai de quem ousasse dizer‑lhe que aquilo não era assim: “A gente, mesmo que nã acredite, nã deve dizer mal…”
Este ano, como sempre, irei espreitar as oliveiras do quintal. Ou melhor: irei visitar as memórias que ela cá me deixou. Cruz nenhuma verei. Apenas ramos viçosos, carregados de flores – o alentejano candeio. Assim chamavam os nossos antepassados camponeses aos cachos de flores que pendem das oliveiras nesta época. Era pelo aspeto desse “candeio” que previam se o ano seria farto em azeite.
Adoro os usos, os costumes e os falares da minha região. Do meu povo, na sua simplicidade, autenticidade e pureza. Gente humilde no trato, mas riquíssima em idoneidade. Assim é a minha terra. Assim eram os meus pais, os meus avós, todos os meus antepassados. Pessoas que não sabiam ler nem escrever, mas eram sábias e dignas. Aprenderam à custa das suas sacrificadas vidas e ensinaram‑nos mais do que muitas escolas.
Obrigado, Mãe.
Não quero – de modo algum – duvidar das tuas crenças, mas ainda não será este ano que verei as folhas das oliveiras em cruz, como tu acreditavas.
E voltarei a pensar: Qual será o meio‑dia verdadeiro? O de verão ou o de inverno? O solar ou o dos relógios?
Pois… Se calhar é isso.
Ainda nunca acertámos com o meio‑dia do Corpo de Deus.
Quem sabe, um dia, acertemos...
(Com saudades tuas, minha Florinda.)
José Coelho
