segunda-feira, 18 de maio de 2026

Quando permitimos que nos desrespeitem

Quase sempre percebemos tarde demais que fomos nós que abrimos a porta ao desrespeito. Não porque o merecêssemos, mas porque acreditámos demais. Porque confiámos demais. Porque demos crédito a quem não merecia estar na nossa vida.
O desrespeito raramente começa de repente. Começa primeiro com uma piada que magoa, mas deixamos passar. Depois um limite que é ultrapassado, mas achamos que não vale a pena fazer caso. A seguir um gesto egoísta que justificamos com um “não deve ter percebido”.
E assim, sem darmos conta, vamos dando azo a que nos tratem pior a nós, do que nós tratamos os outros.
A verdade é dura, mas libertadora: ninguém nos desrespeita sem que, antes, tenhamos permitido isso um pouco. Não por fraqueza, mas por esperança. Por querermos acreditar que as pessoas que estimamos não nos farão mal. Por medo de as perdermos. Por querermos manter a paz, mesmo quando isso custa a nossa.
E quando percebemos que a pessoa não vale mesmo nada, dói. Dói porque a deceção mais profunda vem de alguém que achávamos que não seria capaz de nos magoar. Dói porque percebemos que demos o melhor de nós a quem só devolveu má paga. Dói porque vemos com uma clareza brutal, que só nós é que éramos o amigo, porque do outro lado nunca houve amizade nenhuma.
Mas há um lado luminoso nesta dor: ela ensina-nos a fechar portas que nunca deviam ter sido abertas. Ensina-nos a marcar limites. Ensina-nos a escolher melhor as pessoas, a eleger melhor as amizades e a sermos melhores conosco próprios.
Sobretudo ensina-nos que o respeito que aceitamos dos outros, começa, deve começar sempre, no respeito que temos por nós mesmos.
Quando finalmente percebemos isso, deixamos de aceitar migalhas. Deixamos de consentir faltas de consideração e de respeito. Deixamos de nos encolher para cabermos na vida de quem nunca se esforçou para caber na nossa.
E é nesse dia – exatamente nesse dia – que recuperamos algo que nunca devíamos ter perdido: a dignidade de sermos tratados como tratamos os outros e todos merecemos.