domingo, 3 de maio de 2026

Adulto antes do tempo

A gente muda. Muda tanto. E quase nunca por vontade própria – é a vida que nos empurra, que nos dobra, que nos obriga a reinventar o que pensávamos ser definitivo. São os tombos que nos arrancam a inocência, os abanões que nos tiram o chão, as certezas que se desfazem como pó entre os dedos, as injustiças vindas de quem menos esperaríamos, as ausências que deixam um eco que nunca mais se cala. Tudo isso abre fendas, desloca alicerces, derruba convicções que julgávamos eternas.
E então só há dois caminhos possíveis: ou o sofrimento nos tempera e solidifica, tornando-nos mais resistentes ao desassossego e mais seguros de nós, ou nos parte em fragmentos, deixando-nos frágeis, apáticos, conformados com uma nova ordem das coisas para a qual já não temos ânimo de lutar.
Na minha meninice e adolescência fui alguém muito distante do homem que hoje sou. Até ir para a tropa era um rapaz alegre, bem disposto, cheio de sonhos e de planos. Nem a humildade do meu camponês berço, nem a precaridade das minhas habilitações literárias me diminuíam a esperança de uma vida melhor. Eu queria ir à luta. Sabia, porém, que havia um obstáculo intransponível entre mim e o futuro que ambicionava – e esse obstáculo não era a pobreza, nem a pouca instrução.
Chamava-se tropa.
No final dos anos sessenta com a guerra de África no auge, ter o serviço militar resolvido era meio caminho para qualquer jovem tentar reinventar o seu destino. A idade da incorporação parecia ainda distante, até ao dia em que um Edital, afixado na vitrina da Junta de Freguesia da Beirã a convocar os mancebos apurados nas sortes de 1968. Aquele papel timbrado com o escudo da República acendeu em mim uma inquietação que já não mais me largou.
Provinciano e ingénuo que pouco saíra da minha aldeia, nada sabia de tropa, do mundo e muito menos de guerra. Mas decidi que era tempo de enfrentar aquele obstáculo que se erguia entre mim e o meu futuro. O Edital falava também da possibilidade de requerer incorporação voluntária – e isso bastou para me incendiar o espírito.
Com 17 anos recém cumpridos, pedi ao meu pai que me autorizasse a ir como voluntário. Naquele tempo só se era dono do próprio destino aos 21. Depois de vencer os protestos da tia Florinda que não compreendia a pressa do seu menino em ir sofrer para a tropa, lá fui com o meu pai – grande e inesquecível amigo – a Marvão, na “camioneta da carreira”, entregar os papéis que ele teve de assinar com o dedo, porque não sabia escrever.
Estávamos em meados de 1969.
Pouco depois chegou a convocatória para a Inspeção Médica no Regimento de Infantaria 16, em Évora. Fui apurado sem surpresa. Em maio do ano seguinte fiz a recruta no BC8 de Elvas, depois a especialidade de transmissões no BC5 em Campolide, onde as boas notas me valeram a promoção a 1.º Cabo.
Mal terminara a especialização quando fui mobilizado para o BCav3871. Passámos por Estremoz, por Santa Margarida, até embarcarmos num Boeing 747 rumo à guerra em Angola. O destino: Belize e as profundezas do Maiombe, no enclave de Cabinda – a floresta do povo fiote, do abacaxi doce, do pau-preto, do petróleo da americana Gulf Oil, do mini-mosquito miruim, das jiboias, dos gorilas, do calor sufocante e do cacimbo pegajoso.
A Zona de Ação do BCav3871 era atravessada por uma única estrada alcatroada, recém inaugurada, que ligava o Miconje a Cabinda. De ambos os lados, a segunda maior floresta do mundo: árvores colossais, mato denso, picadas pantanosas onde os Unimogs se atolavam e carreiros invisíveis onde os guerrilheiros do MPLA, da UPA ou da UNITA se escondiam, colocavam minas, armadilhas, emboscadas.
Ali, cada dia podia ser o último.
Aquele inferno na terra mudou para sempre o rapaz ingénuo que quis ser adulto antes do tempo e para isso vestiu a farda. Foi o alto preço pago pela minha sonhadora pressa de chegar ao futuro.
Felizmente os meus dois rapazes não tiveram de o conhecer…
Foto: Estúdio Cardinho Ramos.
Castelo de Vide -1968