Em 2012 era assim
Em 2026 está assim
Hoje vou escrever – uma vez mais – sobre o Ramal de Cáceres.
Não como linha férrea. Não como obra de engenharia. Escrevo como quem fala do coração de um velho amigo que deixou de bater, porque quando os comboios deixaram de passar não encerrou apenas um serviço público. Encerraram um capítulo inteiro das nossas vidas.
Nasci a ouvir o silvo rouco das antigas máquinas negras. Aquele vapor quente que invadia a aldeia como um nevoeiro vivo. A minha casa, pousada na colina sobre a Estação, é um miradouro para a linha férrea. De dia via-se o movimento. De noite, os holofotes rasgavam a escuridão até ao depósito das águas, lá no alto.
Toda a minha infância e juventude foram feitas desse filme.
Quando o comboio assomava ao Sesmo, vindo de Valência de Alcântara, o seu rugido chegava ao meu quarto como o de um animal familiar. E do lado oriente, no quarto dos meus pais, ouvi-os muitas vezes dizer:
– Vem aí mudança de tempo… esta noite ouviam-se os comboios logo da Atalaia.
O comboio era o nosso relógio. O nosso boletim meteorológico. O nosso mensageiro.
Também a casa dos meus avós vivia colada à linha. Na Cavalinha, as guardas das cancelas abriam e fechavam-nas para que as composições passassem em segurança. E eu, pequeno, seguia o meu avô Zé Lourenço pelos campos. Ele encostava o ouvido aos postes dos fios telefónicos e dizia-me:
– Escuta, rapaz… são as meninas a cantar.
E era verdade. Havia ali uma música que só quem a viveu a sabe reconhecer.
Depois veio a juventude. A primeira grande partida.
Aos 17 anos a viagem para Évora. Horas de carris, transbordos, estações desconhecidas. E ao longo de décadas o comboio foi sempre a ponte que me levou e trouxe: Elvas, Lisboa, Estremoz, Santa Margarida, Angola.
Foi ele que me devolveu à Beirã, são e salvo, depois de 27 meses de guerra.
Foi ele que me levou às Minas da Panasqueira. Foi ele que me transportou semana após semana quando quis subir na carreira. E como eu, milhares. Por isso custa tanto aceitar que tenham fechado este ramal como quem fecha uma porta sem olhar para trás.
Hoje o mato e as silvas engolem os carris. As estações definham. A memória esbate-se na bruma. Dizem que não era rentável. Mas quem decidiu isso? Quem nunca viajou nele, porque não sabia que a região inteira precisava deste transporte.
Quantos camiões TIR retiravam das estradas os potentes “mercadorias” com 30 vagões que circulavam dia e noite carregados de contentores, vagões silo de cereais, vagões-cisterna, vagões de automóveis, de eletrodomésticos, de comércio, de economia, de postos de trabalho?
Pergunto, com a tristeza de quem viveu tudo isto:
Não pagamos nós também impostos?
Não somos nós portugueses como os outros?
Ou só o somos quando chega a hora de encher as urnas?
O Ramal de Cáceres não era apenas uma linha. Era a espinha dorsal da região. E arrancaram-na sem anestesia.
Mas enquanto houver quem conte, enquanto houver quem se lembre, enquanto houver quem fale ou escreva … o Ramal de Cáceres não morre.
Texto e fotos

