sexta-feira, 1 de maio de 2026

Para ti, companheira dos nossos últimos 55 anos

Anteontem, mais do que nunca, percebi o que significa caminhar contigo uma vida inteira. Foram dois dias longos, noites quase sem sono, horas que pareciam não passar — mas eu estava ali, como sempre estive, como sempre estarei.
Quando te acompanhei até à Unidade de Intervenção Cardiovascular do “nosso” Lusíadas Lisboa e te levaram para te prepararem, senti o mundo a ficar mais pequeno. Mas três horas depois quando te vi acordar, senti-o a abrir-se de novo.
A tua força, mesmo frágil, é a casa onde vivo há cinquenta e cinco anos. E cuidar de ti não é um dever — é a continuação natural do projeto que começámos a construir quando ainda éramos dois jovens a aprender o mundo.
Hoje estamos já em casa. Tu a recuperar, eu a vigiar-te como quem guarda um tesouro antigo e insubstituível. E enquanto te olho, penso que a nossa história não se mede em datas, mas em gestos: o beijo antes da porta do hospital, a tua mão a procurar a minha, o silêncio que partilhámos sem precisar de palavras.
Se a vida nos deu este susto, também nos deu esta certeza: somos um do outro, e isso basta para atravessar qualquer noite.
Esta selfie que fizemos um minuto antes de entrarmos no hospital a sorrir como se fôssemos para uma festa, mostra bem a nossa resiliência e capacidade de encararmos até os momentos menos bons.
Somos humanos e por isso temos medo, sim. Mas avançamos, mesmo sentindo-o.

Beijinho do teu Zéi...