No maio luminoso abre‑se este sagrado
manto florido, estendido pelos deuses da terra.
A velha casa de campo – outrora
lar de numerosas famílias que viviam do sol, da ceifa e do rumor das estações –
ergue‑se agora como ancestral fortaleza, guardiã de segredos que só o vento
ousa repetir.
Lá ao fundo, onde o horizonte se
dissolve nas terras de Espanha, a fronteira parece uma linha traçada por
gigantes, mais antiga do que qualquer reino.
Sob esta vastidão dormem cinco
milénios de humanidade: antas que vigiam a noite como sentinelas de pedra,
menires que apontam o caminho das estrelas, lagaretas talhadas pelos primeiros
artesãos do mundo, e povoados alto‑medievais que ainda murmuram o eco de passos
esquecidos.
Aqui, onde a terra respira mito,
cada flor é um sinal, cada sombra é uma memória, e cada sopro de vento traz
consigo a voz dos que por aqui caminharam antes.
Neste lugar, o tempo não passa – o
tempo ajoelha‑se.
José Coelho
