domingo, 31 de maio de 2015

Vítimas do regime; os reformados. Ora leiam...



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1)  “Está tudo bem. Mas vamos cortar pensões”

MARIANA MORTÁGUA  -  In JN - Opinião – 26.05.2015


Estava lá, no Programa de Estabilidade aprovado e apresentado pela maioria PSD/CDS: uma "poupança" de 600 milhões de euros no valor gasto com pensões já em 2016. Como e a quem? Não se sabe. Pormenores só depois das eleições que é sempre bom deixar espaço para diferentes interpretações, dado o momento político.

Maria Luís Albuquerque sustenta a sua posição afirmando que a solução mais justa é a repartição do esforço entre atuais e futuros pensionistas. E afirma-o depois de ter apresentado a sua intenção de reduzir a TSU (contribuição das empresas para a Segurança Social) no mesmo documento em que anunciava a inevitabilidade de cortes nas pensões.

O Governo apresenta, e usa, a suposta insustentabilidade da Segurança Social como se algo de inevitável se tratasse. Há um dado que talvez valha a pena introduzir neste debate: até 2012 a Segurança Social teve saldo positivo durante 11 anos seguidos e contribuiu para o equilíbrio orçamental do Estado. O "buraco" nas contas das pensões foi o Governo que o criou com a destruição de quase meio milhão de postos de trabalho, a emigração de outros tantos e a quebra nos salários.


Esta é a verdadeira irresponsabilidade. PSD e CDS criaram, com a sua política de austeridade, problemas estruturais no país. E para disfarçar a asneira não têm qualquer pejo em cortar direitos, nem mesmo o mais básico, como a garantia que todo o trabalhador receberá no futuro a pensão para a qual descontou e nem um tostão a menos.


Impressionante é a forma quase compungida com que o fazem. O primeiro-ministro afirma: "não queremos cortar nas pensões", e a ministra das Finanças acrescenta, sobre as suas noções ético-morais: "fazer a promessa de que não fazemos nada para aqueles que já são pensionistas e que vamos fazendo tudo sobre os que lá chegarão no futuro é de uma enorme injustiça". Quanto ao CDS, depois de ter aprovado o corte de 600 milhões, vem agora dizer que se "distancia". É todo um irrevogável programa.

Já que o assunto veio à baila, justiça justiça, seria dizerem ao país, antes das eleições, quanto, quando e como vão cortar nas pensões. Se o fazem com alegria ou o mais profundo pesar é absolutamente igual ao litro.


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2) O infinito e mais além

(Pedro Adão e Silva, in Expresso, 30/05/2015)

O que se tem passado com as pensões é o melhor observatório político dos últimos 4 anos. Estamos mesmo perante um caso em que a expressão “ir além da troika” é desadequada. Em matéria de segurança social, o Governo foi “ao infinito e mais além” da troika. Nada como ler o Memorando. Na sua versão inicial, o tema pensões era praticamente ausente. Para BCE, Comissão e FMI, com a reforma de 2007, Portugal tinha passado a ser um dos países onde o risco de sustentabilidade financeira do sistema de pensões era menor.

No que toca a pensões, o Memorando previa apenas uma redução das pensões acima dos 1500 euros, congelamento do seu valor e englobamento do rendimento das pensões para efeitos de IRS. Depois, o Governo iniciou a sua caminhada imparável rumo ao experimentalismo económico, concentrou uma dose excessiva da austeridade no primeiro exercício orçamental e os resultados são conhecidos: colapso da economia, brutal aumento de impostos para compensar o falhanço e cortes sem critério nos maiores agregados da despesa, à cabeça as pensões. Estimativas conservadoras apontam para uma perda de 9 mil milhões de euros na segurança social neste período, resultado combinado da queda das contribuições e do aumento da despesa com subsídio de desemprego

Sem nenhuma reflexão e, pior, sem qualquer planeamento, o sistema previdencial tornou-se, num ápice, vítima privilegiada da degradação económica e da deterioração do contexto demográfico. Com consequências: a confiança (um ativo fundamental de qualquer sistema de segurança social) ficou ferida, as clivagens geracionais foram cavalgadas politicamente e as condições para alterações negociadas e passíveis de estabilizar as regras do sistema saíram diminuídas. É esse o legado deste desgoverno na segurança social.

O reforço da sustentabilidade da segurança social precisa, acima de tudo, de recuperação económica e de uma retoma da confiança, mas requer também uma repartição do esforço, que não pode recair só nos atuais ativos, e muito menos apenas na contribuição do fator trabalho. Ao mesmo tempo que uma estratégia de reforma tem de incidir também no regime não contributivo e nas pensões mínimas. Infelizmente, por culpa do atual Governo, as condições para um compromisso amplo são, hoje, muito escassas.

Agora a situação é de facto de rutura, como reconheceu a ministra das Finanças: se continuarmos a escavacar a economia, a destruir emprego ao ritmo dos últimos anos (mais de 400 mil postos de trabalho), a incentivar os jovens qualificados a saírem da sua zona de conforto e a emigrarem (outros 400 mil) e a fazer colapsar as contribuições e a aumentar a despesa com proteção no desemprego, não há segurança social que resista. Aliás, não há nada que seja sustentável: nem pensões, nem sistema educativo, nem serviço nacional de saúde, nem sequer as mais elementares funções de soberania.

terça-feira, 26 de maio de 2015

A Beirã em que eu nasci, fui criança e me fiz homem...

Encontrei esta foto por acaso na internet e desconheço o autor
Deduzo que será dos finais da década de 40

Foto publicada no Facebook pelo Prof. Dr. Jorge Oliveira

Postal da década de 50 à venda nas lojas da época.
Uma das lavadeiras é a senhora minha mãe 

Cinzento, vazio... (mas transparente como sempre foi)


... assim se sente muitas vezes,
o meu (já) velho coração!

sábado, 23 de maio de 2015

Tenham, se possível, um excelente fim de semana...



Pôr do sol na Lagem Alta - Beirã  
Foto by José Coelho

Da terra do meu pai...


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Vamos à Praça

Nasce o sol, junto ao pelourinho montam-se os tabuleiros e dispõem-se os produtos para venda.
A ti Catrina levanta-se cedo, quer ser a primeira a mercar.
- Tenho que encontrar “Jospiros” a minha Zefa está de esperanças e tem desejos.
 De Alpalhão chega o grão, feijão, arroz, ervilhas que são despejados ao monte no lajeado onde vão ser vendidos ao litro. O dinheiro da venda irá servir para comprar os tecidos que a mulher vai transformar em roupa. O riscado para as ceroulas, a ganga calças de trabalho, fazenda de lã para as calças mais finas e coletes, a chita e a popelina usadas em aventais e blusas, o cretone para a colcha da filha que vai casar e pano-cru para o que calhar.
O peixe veio de comboio, chegou de madrugada à estação, foi transportado até à vila de carroça e vai ser agora vendido por fresco. “Pexelim”, carapau, sardinha e cação são os mais cobiçados para o almoço.
Tudo se vende, tudo se compra.
A queijeira também conhecida por roupeira devido às suas roupas alvas ao tratar do produto é indagada:
- O queijo é bom?
-Oh freguesa, leve à vontade, é de leite de gente de confiança.
Entre um raminho de cheiros e um molho de salva brava, lá se vai continuando.
Galinhas e coelhos vivos nas cestas, e os ovos?
- Dê-me ai uma dúzia, mas só de galinha preta.
- E eu sei lá quais são os da galinha preta!
- Olhe, são os maiores!
Tudo se vende, tudo se compra
Os da Póvoa vêm à vila e deixam a bucha e o avio nas lojas para não andarem carregados.
As abóboras são mogangos.
Os mogangos são morangos.
Os morangos, moranguinhos.
Os barros do dia-a-dia vieram de Flor da Rosa e são vendidos pelos “paneleiros” (triste sina a de quem vende panelas). Alguidares para amassar e para as matanças, panelas pra cozinhar no lume, cafeteiras, “enfusas” e potes para adoçar as azeitonas.
Marcha uma massa frita do Ti João da Linha e um café de “escolateira” já agora, que a manhã ainda é longa.
Se era novidade lançava-se um Pregão:
Faz-se saber que no tabuleiro do Sr. Jaquim do Brejo estão à venda as primeiras cerejas da época…
- E são doces? Não têm bicho?
- Se não têm buraco é porque não têm bicho e se tiverem buraco é porque o bicho já saiu.
Carne fresca e enchidos também têm lugar nesta amálgama de cores, cheiros e sabores.
Tudo se vende, tudo se compra.
Entre um copo de 3 e um carapau frito tratam-se de negócios.
- Manel quanto queres por um alqueire de azeite? E a cabra já está prenha?
- Olha que de barriga é mais cara, pelo menos 5 notas.
Hora de almoço, baixam-se os preços para não levar restos para casa.
Levantam-se os tabuleiros. Termina o mercado
Os negócios continuam nas tascas.
Tudo se vende, tudo se compra.


Glória Montinho 
Maio 2015
(In Notícias de Castelo de Vide) 

A minha segunda vila preferida...


Foto by José Coelho
Quase todos os meses lá vamos. E nunca deixaremos de ir, enquanto pudermos. Foi um dos lugares onde vivemos alguns anos que mais fortemente permanece não só no meu coração mas também nos corações da minha família. É tão bom encontrar velhas amizades e tomar um cafezinho debitando saudades enquanto se vão recordando bons momentos vividos num passado muito feliz que teima em não se deixar esquecer...

sábado, 16 de maio de 2015

Bom domingo d'Ascensão...


Foto by Maria Manuela Coelho

Desculpe, senhor presidente, mas não concordo consigo...


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Não só não concordo, como acho inadmissível. O senhor presidente que me desculpe, mas não se pode brincar assim com a vida das pessoas. Em 2012, com a maior cara de pau, o nosso senhor primeiro ministro afirmou com todas as letras e sem se engasgar ou gaguejar, que, quem não conseguia arranjar emprego "cá dentro", devia procurá-lo "lá fora". Porque a Europa era muito grande. E muita gente foi. Teve que ir. Que remédio. Até a minha irmã Luz já com muito mais de cinquenta anos. Ela, o meu cunhado Zacarias e os seus filhos e meus sobrinhos, genro e netos. E não foram para "obedecerem" ao nosso primeiro, mas porque não tiveram outra opção.

Arrumaram os tarecos numa garagem, entregaram as casas ao banco ou ao senhorio, desfizeram todos os seus sonhos de uma vida digna, mantida até ali pelo habitual salário decente e fruto do seu honrado trabalho, que, entretanto, inesperadamente se evaporou por falência da empresa, ou outro motivo qualquer e que, numa inevitável consequência, os impediu de continuarem a pagar, como sempre tinham feito regularmente até então, a prestação ao banco, ou a renda ao senhorio. E, mais aflitivo ainda, de poderem colocar pão na mesa para si e para os seus. Alguém imagina tamanha angústia? 

E os jovens? 
Fortunas gastas pelos pais e famílias em cursos, mestrados e doutoramentos. 
Para quê? 
Para, na melhor das hipóteses, conseguirem um part-time nas caixas ou como arrumadores de prateleiras de um qualquer centro comercial da zona, a recibos verdes.
Ah pois...  

Vi eu e viram todos vocês nos telejornais, muitos familiares desses jovens (e não só) lavados em lágrimas nas despedidas, quando os iam acompanhar aos aeroportos. Quantos de vocês que estão a ler as minhas letras, não têm ninguém "lá fora"? São poucas as famílias que não tiveram que engrossar essa lista negra de emigrantes à força, por falta de trabalho e de condições mínimas de sobrevivência no nosso país. Culpa da crise, culpa da troika, culpa da puta que pariu quem ou o que que quer que fosse que originou a sangria desatada de tanta gente que teve que "fugir" para longe, para poder ganhar o pão de cada dia e para dar de comer à sua família.

Políticos não foi nenhum. Qual quê. Esses têm todas as mordomias, todas as condições e oh que condições para poderem continuar descansados no seu bem-bom, a gozarem no ativo ou fora dele os chorudos rendimentos concebidos e aprovados por eles próprios e pelos seus antecessores dando-lhes forma de leis e regulamentos a fim de assegurarem o "resguardo" de si próprios. Pudera! Pelo sim, pelo não, tais benesses foram sempre sendo atualizadas para melhor os protegerem de quaisquer crises como a atual ou outra que possa surgir no futuro. Até ao fim das suas vidas. Tudo ou quase tudo neste país se tornou precário, menos as mordomias dos senhores políticos, sejam de que partido forem. 

Chamem-lhes lá parvos! 

Metia nojo ouvir as "bacoradas" de alguns "crâneos" quando falavam da necessidade de se cortar aqui ou ali para acertar o défice. Nas prestações sociais dos desempregados, e, entre muitas outras barbaridades, nos gastos com os cuidados de saúde. Do zé povinho, claro. Porque para "eles", os "tais", há sempre os hospitais privados onde não há contenção de despesas, nem listas de espera para cirurgias urgentes, nem fita verde no pulso para esperar vinte e tal horas até se ser (muitas vezes mal e porcamente) atendido.

Nunca na minha vida imaginei que iria um dia assistir a tanta indignidade junta. A doença da minha falecida mãe e a necessidade contínua que nos levou varias vezes a necessitar de cuidados médicos, mostrou-nos em toda a sua crueldade o quanto a vida humana deixara de fazer sentido para quem decidia esses cortes, essas contenções. As frias estatísticas meramente economicistas substituiram o mais elementar bom senso. A crueza, a falta de humanidade total e completa, era o rosto dos corredores dos SO dos hospitais, que mais pareciam antecâmeras de Awschwitz. Nem na guerra e no meio do mato vi cenas tão revoltantes e comoventes. Quem ia acompanhar um doente ao banco de urgências vinha de lá doente também com aquilo que lá presenciava.

Os senhores que levaram o país à falência por governação ruinosa ou outras obscuras razões deveriam ser condenados, no mínimo, a nunca mais terem um ordenado superior ao mínimo nacional até ao fim da sua vida ativa. Depois, a sua reforma ser também o montante médio da maioria dos reformados deste país. 

Ao contrario do que aconselha o excelentíssimo senhor presidente, eu aconselho a quem, como alguma da minha família, teve que emigrar, que não queira voltar para cá tão cedo. As condições de trabalho continuam precárias e os ordenados para o pouco emprego que se consegue arranjar não são nada aliciantes. Por isso, em bom português, a "porcaria" continua a mesma. Melhorias só nas estatísticas. Mas não conferem com aquilo que a gente vê e sente. Um país vazio, apático. A única coisa que provoca alguns apelos patéticos é, não tenham dúvidas, a necessidade dos votos lá para outubro. Depois, ganhe quem ganhar, vira o disco e toca o mesmo. 

Milagres?

Não me amolem...

quarta-feira, 13 de maio de 2015

13 de Maio de 2015 na igreja paroquial da Beirã...



A foto, o arranjo e concepção deste trono em honra da Senhora de Fátima, são da autoria e empenho da minha irmã Joaquina Coelho que há mais de 40 anos vem dedicando uma boa parte da sua vida a cuidar desta igreja. Para que conste...

segunda-feira, 11 de maio de 2015

quinta-feira, 7 de maio de 2015

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Um dia inesquecível...





O 3º aniversário da princesinha Francisca

Obrigado pela visita Amigo...



Quase seis décadas tem a nossa amizade, meu excelentíssimo e ilustre amigo. É muita fruta! Dos bancos da escola primário nos idos de 50 do século XX até hoje, dezena e meia de anos já no século XXI, ambos com o cabelo a ficar branco. És inquestionavelmente o meu amigo nº 1, porque a antiguidade e o sincero afeto de quase irmãos que nos une desde a infância, assim o determinam.

A tua visita foi o melhor que me podia ter acontecido por estes dias. E a longa conversa em que nos embrenhámos oito horas seguidas trouxe-me o alento, o conselho amigo que eu estava mesmo a precisar e só tu sabes transmitir na sábia eloquência que a vida, nem sempre boa para ti, te ensinou. Sim, Amigo. Considero-te um sábio. E um lutador. És ainda também um dos doutores mais puros que conheço. Tudo em ti é genuíno, com aquele toque muito teu de discreta e encantadora simplicidade.

Assimilo cada palavra e explicação tuas com a maior atenção e enlevo, porque, nessa particularidade que tanto te carateriza pela positiva, usas de um discurso fluente, facilmente entendível seja por quem for, seja ele um letrado doutor como tu, ou um leigo pouco culto como eu. Subscrevo na íntegra aquela afirmação que foi deixada por alguém que como eu muito te deve admirar e estimar, numa publicação tua, algures: "Vindo do professor (...) só podia ser assim algo de muito belo". 

Obrigado por essa tua amizade e consideração que retribuo, se tanto for possível, a 1000%. É para mim uma honra sem tamanho. Oxalá possamos cumprir daqui a 20 anos, aquilo que combinámos ontem ao cair da tarde, naquela amena tranquilidade que nos envolvia aos três na varanda do meu quintal: Tu, eu, e a minha companheira de também já 40 anos, dado que a tua não te pôde acompanhar por motivos profissionais. Espero ainda este ano ter os dois em minha casa para mais uns bons momentos de convívio e sincera amizade.

Nunca te esqueças daquilo que eu nunca me canso de te dizer, meu ilustre e querido Amigo: A minha casa é também a tua, a vossa casa...

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Maio couveiro não é vinhateiro...


O campo ainda se compôs assim com as gravanadas de Abril

Estávamos nós já imensamente felizes a pensar que o bom tempo finalmente estava de chegada e a esconjurar o frio invernoso que tanto nos fustigou com os seus nóveis frios polares nunca antes tão agrestes! Tá bem, abelha. Ainda há dias escrevi acerca das laranjeiras que tenho em frente da porta no outro lado da rua, todas vestidas das suas alvas e perfumadas flores, por trazerem aromas de paraíso a este canto da aldeia. É vê-las agora, pobres coitadas. Sacudidas pelo vendaval e fustigadas pelas bátegas das valentes trochadas de água que amiúde desabam das negras nuvens em verdadeiras cascatas, as delicadas pétalazitas brancas jazem inertes e enxovalhadas aos montes pelo chão todas salpicadas de lama. Olho para esta autêntica profanação da primavera e no mais alentejano dos desabafos, resmungo desolado: 

- Ora porra!

Será possível que já nem o tempo é como era? Se eu fosse as laranjeiras, desistia de dar laranjas. Foi sumamente esquisito no passado mês de novembro, quando as temperaturas cálidas do verãozinho de são martinho "enganaram" as pobres árvores fazendo-as pensar que vinha chegando a primavera. E elas, trabalhadoras, prontamente se dispuseram a florir como umas doidas, ansiosas por darem os seus frutos e sem se aperceberem que estavam fora d'época. Mal podiam imaginar que daí a mais duas ou três semanas os gelos do inverno iam queimar todo o seu empenho. Nunca tal tinha visto na minha vida. Laranjeiras em flor (a do meu quintal também) em meados de novembro. Depois, em meados de dezembro, foi ver o solo, por baixo delas, todo coberto de bolinhas pretas. As laranjinhas precoces queimadas pelas agressivas geadas das noites.

Mas não só. 

Nos tenros rebentos das parreiras do meu quintal e dos quintais vizinhos, avessas a qualquer humidade mal começam a abrir as novas parras, logo o míldio e o oídio começam também a tomar posse delas. E é ver como apresentam já aquela cor amarelada ou com manchas escuras e a "encarquilharem" doentes. Sulfatar nem vale a pena porque na hora a seguir vem outra caqueirada d'água e lá se vai a calda para o maneta. Ou muito me engano, ou este ano não vai haver cachos de qualidade. A ver vamos. Por essas e por outras tenho tanta estima em tudo aquilo que o meu pai me ensinou. E muitas vezes lhe ouvi dizer que maio couveiro não é vinhateiro. Não sei se sabem que na gíria do campo "couveiro" quer dizer "chuvoso". Sem saber ler nem escrever foi ele inequivocamente o meu melhor mestre. Sabia mais destas coisas da natureza que qualquer enciclopédia da national geographic. E eu adorava ouvi-lo falar de tudo aquilo que ele sabia. E aprendi mais com ele do que com todos os livros que já li. Não é por acaso que tenho sempre tantas saudades. Dele e de tudo o que foi a minha vida.

O uivar do vento nas fisgas das venezianas das janelas faz pensar que voltámos outra vez ao mês do natal. Tão depressa brilha um raio de sol como parece que vai anoitecer de repente com a aproximação de mais um céu de chumbo e o rugir de mais uma carga d'água que encharca tudo outra vez. Puta de sorte. Vá lá que já colhi as ervilhas tortas e essas já estão acondicionadas à espera dos ovos escalfados e do chouriço. Falta ainda colher as favas que esta ventania já fez o favor de tombar todas. Mais parece que um cilindro passou pelo quintal e sobre elas. E lá dizia o meu pai (outra vez ele) que a vida do agricultor é muito arriscada. Nunca sabe se vai ter abundância ou falta dela. Tudo a depender sempre do bom ou mau humor do tempo. Mas nunca o vi desistir. Se o vento derrubava, ele erguia de novo. Se a sementeira não fundia bem, ele semeava outra vez. Que falta me fazes ainda hoje, pai. Já não tenho quem me aconselhe e ajude como tu tão bem sabias fazê-lo na tua humilde mas sábia sensatez.

Porque é que a gente tem que se separar de quem ama de verdade e assim nos ama também a nós? Ah e tal, é a lei da vida, temos que levar com paciência, coisa e tal, pardais ao ninho... Pois! Mas fica um vazio do catano. Na nossa vida e no nosso coração. Tão grande, que a gente nunca mais se recompõe, nem consegue, por mais que tente, voltar a ser o que era. Mas é melhor mudarmos de assunto! Lá vêm mais uns raiozinhos de sol a quererem animar a minha tarde. Mau... Já se está a esconder outra vez. Que falta de coerência a sua, ó senhor tempo! Anda também (como eu) muito baralhado, não? Hum... Mas não, não deve andar, porque, se o meu saudoso Mestre Pechorra sabia que havia assim maios couveiros, com certeza que há 100 anos já o tempo pregava partidas destas. Pois! Se ainda estivesse connosco, ele já teria 104 anos. E porque não? O nosso estimado vizinho Vitorino Antunes vai a caminho dos 103 e eram rapazes do mesmo tempo.

Como é que eu não hei-de estar também a ficar velho? Tanta coisa já vivi. E aprendi. E perdi...

domingo, 3 de maio de 2015

Hoje não posso agradecer nem dar um beijinho à minha mãe, mas...

...vou agradecer e deixar aqui um beijinho à Mãe dos meus filhos, às Mães das minhas amadas netinhas, às Mães minhas irmãs, a todas as Mães da minha família, a todas as Mães minhas amigas e vizinhas, e também, porque não, a todas as Mães do mundo!

O meu primeiro Dia da Mãe, já sem ti...



... mas o meu beijinho vai na mesma ter contigo, onde quer que estejas, Mãezinha.


sexta-feira, 1 de maio de 2015