sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Vou, frequentemente, onde a saudade me leva... (II)

 Tubérculos de açucena que há mais de 40 anos continuam a reproduzir-se a 
cada primavera, vencendo o mato que quase os sufocam - Foto José Coelho

(…)

Viver numa aldeia deste Portugal profundo que só é visitado pela malta do poder de quatro em quatro anos e vocês sabem porquê nem preciso dizê-lo, tem muitas limitações, muitos inconvenientes, mas tem também algumas vantagens, como, por exemplo, poder comer-se fruta directamente da árvore sem qualquer perigo de contaminação por químicos. Quando muito, haverá a possibilidade de o fruto conter algum "marisco" hospedeiro mas que também precisa alimentar-se e tem direito à vida. Além disso, já dizia o meu avô, "mal do bicho que vai para a barriga d’outro".

Caminho de vez em quando pelos campos ao redor da minha Beirã e sei exactamente onde eram as hortas e onde continuam a lutar valentemente pela sua sobrevivência muitas das velhinhas árvores de fruto plantadas pela mão de gente boa que conheci e recordo com saudade. Uma dessas pessoas foi o meu pai, exímio hortelão que tudo o que plantava na terra se multiplicava milagrosamente. As parreiras e oliveiras do nosso quintal foram plantadas por ele, a figueira pingo de mel foi obra do avô Faustino Coelho, pai do meu pai que a plantou no sítio onde está, tinha eu 17 anos.

Na horta do Cancho de Ruivo - Foto José Coelho

Na horta do Cancho de Ruivo há pereiras e macieiras, parreiras moscatel e figueiras de várias raças que são mais velhas "ca mim". E lá continuam a lutar com as silvas e a dar frutos, ano após ano. Nas margens do ribeiro da Cavalinha já não se vislumbra a terra das velhas hortas, mas em muitos locais ainda se podem ver as videiras já bravias, pereiras, figueiras, nogueiras, macieiras e romãzeiras. Junto às casetas da via férrea do velhinho Ramal de Cáceres, como por exemplo na do Maxial que já nem telhado tem, continuam de pé as cerejeiras, a darem flores e frutos cada primavera, marmeleiros e pereiras, todas enleadas nas silvas que sem o conseguirem tentam sufocá-las. 



Mais admiráveis ainda são as flores plantadas pelas mãos sábias das mulheres, esposas e mães d'outrora, pois até essas continuam a vencer o tempo e a florir ano após ano sem se deixarem morrer. As ruínas da caseta do Maxial que referi no parágrafo anterior estão cercadas de roseiras (foto acima feita por mim) de duas ou três castas, sendo uma delas a de alexandria, que, dizem, dá a rosa mais perfumada de todas as rosas, também famosa numa quadra de cariz popular do meu tempo que reza assim:

A rosa para ser rosa, 
tem de ser de Alexandria. 
A mulher para ser formosa, 
tem de chamar-se Maria.

No pico da primavera é admirável aquele bucólico quadro que exibe em simultâneo as tristes ruínas da esventrada casa e o contraste oposto de vida e beleza com todas aquelas roseiras floridas em seu redor a exalarem o seu inigualável perfume ano após ano, década após década, indiferentes ao abandono a que foram votadas.

Olá açucena da Avó Amélia! - Foto José Coelho

Mas não é só no Maxial que se desenrola este milagre da vida. Também no antigo jardim da casa da minha avó Amélia junto à passagem de nível da Cavalinha, as açucenas que ela plantou há mais de 40 anos continuam a nascer, a crescer e a florir em cada primavera. Vou vê-las sempre. Acaricio-as com as mãos como se contivessem nelas as santas mãos que as plantaram e eu amava tanto. E a minha surpresa não tem fim. Como é possível uma planta aparentemente tão frágil não morrer, sem ser tratada e regada sob os tórridos verões, no meio daquele matagal que cerca a casa? 

Sei que é uma fantasia nascida da saudade imensa que muitas vezes me atormenta o espírito, mas aquela flor é como se fosse a minha avó a vir visitar-me uma vez por ano. Tão alva e delicada, denominada também de bordão de S. José, foi obra das suas mãos. Foi ela quem a plantou e regou durante parte da sua vida. Não é por acaso que sou tão apegado àquele lugar. 

Mas...

Este texto foi originado por uns pingos de chuva que caíram inesperadamente após o almoço. Despistei-me, ou deixei-me envolver pela melancolia da tarde silenciosa.

Desculpem!


Publicação original - José Coelho às 16:14 do dia 17.09.18

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Coisas que escrevi...

Julho 1974


Democracia zarolha

Regressei à Beirã vindo da guerra no dia 8 de Junho de 1974 quase em vésperas dos santos populares e das fogueiras de rosmaninho que cada família fazia à sua porta para alegres convívios e sardinhadas à mistura com o uns pezinhos de dança ao som de gira-discos ou gravadores de cassetes.

Era tudo o que eu mais necessitava para matar as saudades por tão longa e sofrida ausência, esquecer os maus bocados vividos e reencontrar a harmonia interior na abençoada paz da família e aldeia que muitas vezes temera não voltar a ver. A Beirã desse tempo tinha um grande grupo de jovens e era uma comunidade muito viva, actuante e participativa.

Aos serões a malta de ambos os sexos juntava-se em grupos por aí. No Clube, na Sociedade, no Largo da Fonte, à porta da Loja Grande. Havia quem tivesse uma viola, havia até quem cantasse muito bem, havia, enfim, um estilo de vida completamente salutar e diferente do actual em que a amizade, a camaradagem e o espírito de grupo imperavam, dando origem a uma juventude unida, equilibrada e muito, muito feliz.

Quase ninguém tinha ainda televisão em casa. Qualquer programa de maior interesse era visionado pela população nas salas públicas acima referidas que tinham esse dispositivo para utilização colectiva de quem o quisesse usufruir, o que, de algum modo, contribuía também muito para a juventude reunir e conviver quase diariamente.

Contudo, os ecos da recente revolução de Abril foram entretanto cá chegando, mais ou menos ruidosos. E começaram infelizmente as tendências negativas da "partidarite" que por sua vez começou a dividir em claques os simpatizantes de cada partido. E muitas pessoas amigas começaram a olhar-se de lado como se de súbito se tivessem tornado inimigas.

Começou ali a nova era que, em meu modesto entender e como muito tenho escrito, não trouxe nem pouco mais ou menos o que se perspectivava e se prometeu quer em termos de futuro, quer em termos de riqueza ou de bem-estar colectivos. Muito e muito pelo contrário. Por cá, a Beirã, a menina dos olhos do concelho de Marvão, iniciou por essa altura o seu retrocesso, a sua decadência imparável e irreversível.

Os primeiros excomungados imediatamente da comunidade foram os agentes da PIDE/DGS com as suas famílias. Vizinhos e amigos nossos independentemente daquilo que os ligasse ao anterior regime ou ao que faziam no exercício da sua profissão, eram habitantes iguais a todos os outros e com as quais convivíamos em paz e harmonia, de quem não tínhamos qualquer razão ou motivo de queixa.

Depois… Depois, foi o processo de integração de Portugal na União Europeia. Com a fronteira livre a alfândega fechou e a circulação ferroviária reduziu de tal modo que mais de dois terços dos funcionários da CP foram colocados noutras estações longe daqui. Os escritórios dos despachantes oficiais também deixaram de ser necessários e a sombra do desemprego começou a pairar sem lugar a dúvidas sobre as famílias que ali tinham o seu ganha-pão há décadas.

Alguns que não eram de cá foram simplesmente embora em busca das suas raízes para tentarem reconstruir as vidas desfeitas. Logo a seguir foi extinta a guarda-fiscal. Golpe sobre golpe. E a Beirã entrou na lenta e imparável agonia de que nunca mais recuperou. Quem nos havia de dizer, a todo os que continuamos ainda teimosamente por cá agarrados aos canchos e rústicas paisagens tão enraizados dentro de nós como o nosso próprio sangue, que iríamos assistir impotentes ao definhar da nossa amada Beirã.

Mas não foram só os funcionários da estação que foram “expulsos” pelo “progresso” da revolucionária mudança da política nacional. Antes dessa sangria humana que levou consigo quase toda a vida da aldeia, eu fui também um dos primeiros Beiranenses pós-revolução a ter que “emigrar” para outras paragens porque a oferta de trabalho até mesmo na agricultura começou por aqui a escassear. Mas não só. Outros perversos motivos me “empurraram” de cá para fora. Motivos que muito me magoaram e desiludiram mas que, ao mesmo tempo, muito me ensinaram acerca da imprevisibilidade da índole humana, até a de quem julgamos conhecer bem.

Eu apenas queria constituir a minha família, casar e assentar de vez mas precisava de um trabalho certo conforme vinha idealizando desde novo. Fora exactamente esse o motivo que me levara a ir voluntário para a tropa apesar de plenamente consciente também que seria mobilizado para a guerra,  fardo inultrapassável que fazia parte do destino de todos os jovens do meu tempo. Graças a Deus, coragem, força e determinação, nunca me faltaram. E nem as lágrimas de aflição da minha mãe me demoveram.

Mas, como vinha escrevendo antes deste último parágrafo, tive inesperadamente que “emigrar” à força e ir trabalhar para as Minas da Panasqueira no coração da Beira Baixa onde permaneci nos cinco anos seguintes até 1979 quando ingressei nas forças de segurança. E a principal causa da minha necessidade de partir para tão longe à procura de trabalho não foi, como já escrevi, apenas a falta de oferta de emprego por estas bandas. Foi também e sobretudo a tal "partidarite" analfabeta e vesga que se transformou em fanatismo puro e duro para muita gente, pessoas que até ali considerava excelentes amizades de toda a minha vida mas que não toleravam o meu livre e democrático direito de optar por “cores” diferentes das suas.

Cedo me dei conta que Abril de 1974 nos libertou de facto da velha e caduca ditadura do Estado Novo, mas também que, para muitos recém-democratas das remotas aldeias como a minha neste Portugal profundo, quem não militasse na sua “cor” partidária, era um alvo a abater. Democratas tão inteligentes e bem formados que sem se darem conta estavam a praticar exactamente a odiosa política totalitária do regime de Salazar do “quem não é por mim, é contra mim”.

Sofri bastante com tudo isso àquela época, confesso. Nunca desejei mal algum a quem tentou por diversas formas – algumas bem sujas e cobardes – prejudicar-me. Mas o tempo encarregou-se de colocar todas as coisas no seu devido lugar, enquanto eu fui sobejamente compensado com o privilégio de conhecer as gentes boas da Beira Baixa, de trabalhar e conviver cinco belíssimos anos ao lado daqueles íntegros e generosos beirões e beirãs que tudo repartiam comigo. Com eles aprendi o verdadeiro sentido e valor da solidariedade, da amizade e da generosidade. 

Guardo ainda hoje, guardarei enquanto viver, a mais profunda gratidão. Por isso, na beleza e simplicidade do seu falar, endereço a todos eles, um sentido:

 - Bem hajam…


José Coelho in Histórias do Cota
(Adaptado)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Cidade (aldeia) do meu andar...

Foto José Coelho

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...

Mario Quintana

quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Uso e abuso da caridade...

Foto José Coelho

Para vigilância e controle das minhas fragilidades na saúde faço desde 2016 viagens periódicas à capital do reino nos auto-expressos entre Portalegre e Sete Rios ou vice-versa. Quase sempre, porque é mais cómodo e muito mais económico também.

Sete-Rios e a sua estação intermodal de transportes públicos é simultaneamente um ponto diário de convergência de milhares de pessoas de todas as nacionalidades que chegam e partem em direção a todos os pontos cardeais deste jardim à beira mar plantado, tal é a diversidade na oferta de destinos.

Foi numa das minhas últimas viagens de 2019 em finais do verão que me foi dado observar o que hoje me ocorre escrever. Passava pouco das quatro da tarde quando aportámos eu e a minha companheira ao sempre muito concorrido bar que fica do lado oposto da gare, junto da passadeira para peões.

Quase sempre ali somos abordados por um sem-número de aparentes indigentes (também das mais diversas nacionalidades) que com os seus semblantes teatral e deliberadamente contritos para causarem mais dó suplicam uma moeda porque…

“Ainda hoje não comi nada!”

É absolutamente notória a forma como vestem e calçam roupas mais ou menos asseadas, mais ou menos desleixadas, fazendo talvez tudo aquilo parte da “encenação” para ludibriar as pessoas mais caridosas, mais incautas ou menos atentas. De ambos os sexos, são tantos a abordar-nos assim que nos apeamos do autocarro que é evidente que aquilo não é feito por indigência mas sim como forma de vida.

Na tarde quente, acomodámo-nos numa mesa da esplanada a beber algo fresco enquanto aguardávamos a hora de partida do “nosso” Expresso para o regresso a casa. Imediatamente fomos abordados já pela segunda ou terceira vez em poucos minutos, por um dos “pedintes” a quem também pela segunda ou terceira vez respondi com um seco “não tenho moedas”. Foi um modo de me ver livre dele, mas não tinha mesmo.

Numa das mesas ao nosso lado, duas senhoras de ar cândido lanchavam placidamente enquanto nos observavam também. E ao darem conta da minha recusa em ajudar com uma moeda aquele “pobrezinho”, quiçá indignadas pela minha “insensibilidade”, imediatamente o chamaram:

- Psst… Psst… Ó senhor, chegue aqui!

E ele acercou-se. Convidaram-no a sentar-se coisa que ele não fez, enquanto uma das senhoras se levantou e dirigiu ao balcão a pedir uma sanduiche e uma bebida para o “infeliz”. Todos estes movimentos estavam a ser observados por um dos empregados de mesa que por ali andam sempre atentos para não permitirem que aqueles falsos “pedintes” incomodem os clientes.

A senhora no seu acto caridoso regressou do balcão e pousou sobre a mesa o prato com a sanduiche mais a lata do refrigerante. O “pedinte” retrucou um sumido “preferia uma moedinha” enquanto pegava na sanduiche e na lata para em seguida se afastar.

Logo a seguir, ainda dentro do alcance visual de todos os presentes e antes de desaparecer pela escada abaixo em direção à gare dos comboios, atirou a sanduíche e a lata do refrigerante para o contentor do lixo, sem as ter aberto sequer. As caridosas senhoras exclamaram um desolado “oooohhh” enquanto o rapaz das mesas as consolava no seu acentuado sotaque brasileiro:

- São uns “cafagestxes”…

Não sei se para se confortar a si própria, se em jeito de resposta ao rapaz das mesas, a senhora que tão generosamente tentou "matar a fome" ao “desgraçado” murmurou:

- Fiz o meu dever e isso é que me importa.

Prezo muito a minha forma de estar na vida na qual sempre dou, dei e darei supremacia absoluta ao respeito e amor pelo próximo entre outras, mas tento também nunca me deixar “comer por parvo”.

Ah pois…   

José Coelho
15.01.2020

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Hoje passei a tarde convosco, meus queridos...


À porta da igreja da Beirã  - Janeiro de 1976


Os meus avós maternos – com quem me criei – viviam o seu dia a dia numa tão tranquila simplicidade que ainda hoje os recordo carinhosamente, com imensa saudade. Nunca passaram fome e a minha avó Amélia nunca deveu um tostão a ninguém, conseguindo pelo contrário, amealhar o pezinho-de-meia que tinha sempre guardado para prevenir eventuais ou inesperadas vicissitudes.

Era uma senhora pequenina de trato meigo e muito carinhosa. Qual formiguinha trabalhadeira arranjava sempre algo para fazer nas suas lides domésticas. Ia e voltava a pé da Cavalinha ao mercado de Santo António das Areias todos os sábados para “mercar” muitas vezes apenas algum queijo, mais dois ou três litros de milho para as suas galinhas poedeiras.

O meu avô José Lourenço (mais conhecido por ti Zé Cabreiro) grande e querido amigo não só de mim como de todos os seus netos, muito novo ficou quase cego dos dois olhos – tal como aconteceu depois às suas duas filhas, a minha mãe e a minha madrinha Jacinta – e por isso raramente deixava o seu cantinho na Cavalinha. Faleceu inesperadamente aos 67 anos vítima de uma bronquite asmática. Foi a mim que calhou, nessa triste manhã, levar à sua companheira de quase toda a sua vida a má notícia do seu falecimento no hospital de Portalegre onde se encontrava havia duas semanas em estado crítico.

A partir daí todos os fins de semana ia visitá-la porque adorava a sua companhia e saborear as deliciosas comidas que ela cozinhava nas panelas ou tachos de barro em lume de chão e para o qual eu ia sempre buscar-lhe dois ou três feixes de lenha que nunca mais deixei que lá se lhe acabassem. Mais tarde, já muito perto dos 90 anos, recolhi-a definitivamente em minha casa onde a sua filha mais velha e minha mãe também já morava e dela cuidou amorosamente até ao dia em que a tia Amélia decidiu ir ao encontro do seu Zé Lourenço.

A pequena casa onde viviam junto ao ribeiro da Beirã por detrás da caseta da passagem de nível da Cavalinha era imaculadamente branca por dentro e por fora. Todas as divisões da casa e aquela magnífica varanda estavam sempre meticulosamente caiadas e esfregadas à mão, num asseio exemplar. Sobre a porta de entrada, uma frondosa e fresca latada que dava uns deliciosos cachos moscatel brancos. No parapeito da grande janela da sala alinhavam-se vasos com manjericos, cravos e flores de cera que impregnavam com o seu perfume tudo em redor. E havia ainda outro canteiro com flores de noiva, dálias, açucenas e também um cheiroso alecrim no ajardinado canto existente entre a varanda da casa e a cancela que dava para o caminho.

Aquela modesta e branca casinha era um pequeno paraíso de paz e harmonia, habitado por duas criaturas maravilhosas com quem dava gosto conviver porque eram o exemplo perfeito da honradez da honestidade e da perfeição humanas. Nunca tínhamos pressa de os deixar. E quando por fim tínhamos que vir embora de ao pé deles trazia-mos sempre vontade de lá voltar o mais depressa possível.


O meu avô era também um hábil artesão. Mesmo sem ver quase nada, fazia uns pássaros em cortiça muito bonitos, os quais, por meio de uma guita com um chumbo na ponta, fazia com que os pássaros ganhassem vida baixando alternadamente a cabeça ou o rabo ao ritmo do vaivém do pêndulo. Havia também aquela melodiosa escaravela de lata em frente da casa com uns pequenos badalos de madeira em tamanhos vários dispostos no seu eixo, que, ao rodarem movidos pelo vento, produziam uma música engraçada. Consoante o tamanho de cada badalo, ao baterem na chapa um após o outro, faziam mais ou menos assim: 

- Tec-tac-toc-tec-tac-toc… Tec-tac-toc-tec-tac-toc… 

Sempre que podia, ia passar com eles dias inteiros. E nem dava pelo passar das horas! O meu avô, para além de um grande companheiro era também um grande contador de histórias. Da guerra civil espanhola e de muitas outras peripécias que viveu e sabia. Tinha um dom tão especial para as contar que nos prendia a atenção por completo. Ao ouvi-lo no mais profundo silêncio era como se estivéssemos a "ver" tudo o que ele ia narrando.

Quando eu era pequenito às vezes acompanhava-o no pastoreio pelas tapadas onde ele guardava o gado. E recordo perfeitamente um dia, na Tapada dos Três Pontões, os dois sentados na parede da linha férrea. Ao ouvir o zumbido dos cabos telefónicos que bordejavam a linha, perguntei-lhe, admirado:

- O que é que soa, avô? 

Ele pegou-me na mão, levou-me ao poste que sustentava as canecas dos fios de cobre e mandou-me encostar lá o ouvido. E o tal zumbido que ao longe era discreto, ali, com o ouvido encostado, transformava-se numa contínua e melodiosa algazarra:

-  Ziiinnng-zeennng-zoonnnng…

- Sabes o que estás a ouvir? Perguntou-me a sorrir, divertido.

- Parece música. Respondi eu.

- Ah pois é! São meninas a cantar! Concluiu rindo da minha cara de espanto, ainda mais divertido.

É curioso como nunca mais me esqueci de tal coisa! E não teria decerto mais de 3 ou 4 anitos. Ainda hoje lá estão os pontões, a parede e o poste de ferro a olhar para o céu mas já sem os fios. Não sei se foram retirados quando encerrou o ramal, ou se terão sido roubados. Porém, cada vez que lá passo, basta-me cerrar os olhos para ir ao encontro da voz e do riso do meu querido avô:

- "São meninas a cantar"...

Partiram há muito tempo na sua viagem sem regresso. Inevitavelmente com eles foi um enorme pedaço de mim. A casa onde moravam está agora em ruínas. Mas aos olhos do meu coração continua branquinha e acolhedora. E eles permanecem lá. Vivos na minha memória e no meu amor, incapaz de os esquecer. Consigo até vislumbrar a avó Amélia sentada na sua cadeirinha de bunho na empena da casa, a costurar ao sólinho da tarde. E o meu avô sentado na parede aparando pedaços de cortiça para construir os seus animados passarocos. As rosas de alexandria e as perfumadas açucenas do velho canteiro ajardinado conseguem milagrosamente sobreviver há décadas e continuam a florir em cada primavera por entre o emaranhado de silvas e outro matagal que já quase cobrem as ruínas da casa.

Inventei uma maneira de os conservar mais perto de mim. Antes que a velha parreira da latada da varanda secasse fui lá buscar um garfo que pus no meu quintal e que por sorte pegou.  Já comi dela os doces cachos moscatel. E como não tenho a habilidade do avô Zé para as fazer, comprei no Mercado Franco em Castelo de Vide uma escaravela de lata parecida com as que ele fazia e até tem no meio uns arames que ao rodarem movidos pelo vento fazem um barulho parecido àquele que fazia a dele, ainda que muito menos musical. Limita-se a um monótono tec-tec-tec… tec-tec-tec… Dá, contudo, para sentir os dois mais próximos de mim. 

Sei que um dia voltaremos a ficar todos juntos. Mas às vezes é complicado gerir tantas perdas, tantas ausências, tanta falta dos afectos puros e genuínos que a Vida me foi levando...

José Coelho in Histórias do Cota
(Adaptado) 

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Meu vício de ler...

O meu entretém preferido 
Foto Maria Coelho

Cantiga do tempo novo


Deixei de olhar para quem fui
Do passado estou ausente
Às vezes mais vale a pena
Rir de tudo o que faz pena
Na alma triste da gente
Vou lançar mãos à aventura
Correr noutra direção
Quanto mais nos lamentamos
Ainda mais presos ficamos
E nos dói o coração
A nossa vida é um mar
Com muitas marés e vagas
Não temos nada a perder
O melhor mesmo é viver
Combatendo as nossas mágoas
Tenho o mundo à minha espera
Há ilhas por descobrir
E há uma vontade nova
Um vento que se renova:
Novo amor que vai surgir

Paulo Ribeiro

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Nova página...

Auto-retrato em finais do ano 2019

Eis-nos em 2020. Pela parte que me toca sem grandes euforias e sem grandes expectativas, sendo a chegada do novo ano apenas mais um virar de página no livro da vida.  Deixei há muito tempo de acreditar em milagres e muito menos em promessas. Por isso, mais discurso menos discurso, mais palavra menos palavra, tudo me cheira e tresanda a banha-da-cobra, hipocrisia, segundas intenções e segundos, terceiros, quartos, quintos, sextos, sétimos, “... ad infinitum …" interesses pessoais, políticos, comerciais e outros que tais.

2019 não foi um ano particularmente bom para nós, porque os últimos dias de 2018 fizeram o favor de pregar uma dolorosa partida à dona da casa que ao sofrer uma aparatosa queda doméstica fraturou as vértebras L1 e L2 causando-lhe um ano inteiro de dores intensas, consultas, exames, raios x, ecografias e até análises ao sangue, todos eles inúteis tratamentos periféricos que nunca detetaram a gravidade da lesão, a qual só veio a ser diagnosticada nove meses depois em consulta particular de Ortopedia no Hospital Lusíadas-Lisboa e onde apenas 15 minutos bastaram para que uma TAC imediatamente realizada “retratasse” a preocupante lesão. Já nada havia, porém, a fazer, para minimizar a situação.

Se houvesse sido detetada atempadamente nos primeiros três meses após a queda, teria sido possível (ou talvez não, nunca saberemos) reconstruir as vértebras com uma intervenção cirúrgica adequada. E muito sofrimento teria sido debelado porque a lesionada chegou a andar de gatas por não conseguir caminhar de pé, tantas e tão agudas eram as dores.  Nove meses depois, nem sequer uma infiltração de cimento ósseo foi já possível, apesar de o impecável cirurgião-ortopedista ter equacionado essa hipótese para suprimir algumas dores. Contudo, um segundo e mais completo exame através de ressonância magnética, confirmou já não ser sequer também aconselhável essa intervenção, pois nada iria já remediar.

É esta a saúde que temos em Portugal. Os governos - todos sem exceção seja qual for o emblema que usam na lapela dos casacos - só se preocupam com o défice. Cortes daqui - TACs então, nem pensar - cortes dacolá, só não cortam nas suas mordomias porque é com elas que ganham mais que o suficiente para não terem que utilizar os hospitais públicos para cuidarem da sua rica saúde. Porém, com tantos cortes a provocarem uma mais que deficiente assistência a todos os níveis hospitalares, as pessoas em vez de lá se curarem morrem de infeções bacterianas, ou nos exagerados tempos de espera  sobre as macas dos corredores das urgências e salas de espera, ou até mesmo em suas casas enquanto aguardam pela sua vez para as consultas das especialidades que, se fossem realizadas a tempo e horas, lhes teriam provavelmente salvo a vida. 

Ah! Mas o défice, essa mítica caixa de pandora das contas públicas, salvou-se.
E o Novo Banco também... 
Portugueses há muitos, seus palermas. 
Défices é que só há um. 
E Novo Banco idem idem, aspas aspas (por enquanto, o diabo seja surdo).

Saúde, Paz, Amor, declamam com comedida beatitude, os “Boss's” de todas as chafaricas públicas ou privadas, nas suas natalinas mensagens.

Mas aos meus ouvidos, chega assim:

- Bláblábláblá

Mais considerações, para quê?

Todos sabemos o que se passa e o que tem sido feito por muitos daqueles que deveriam ser exemplo.

Por essas e por outras, a época festiva que está prestes a terminar há muito que para mim deixou de ter a importância que tinha outrora. Guardo dela as mais doces memórias mas já não lhe dou o valor que antes dava. Além disso, na nossa família, fazemos natal muitas vezes no ano pois sempre que possível confraternizamos para desfrutarmos em pleno a companhia uns dos outros. De modo geral entendemos que o natal (amor fraterno) deve ser praticado todos os dias. Por isso também, querer-mo-nos bem e sermos amigos uns dos outros, deve ser praticado minuto a minuto, enquanto por cá andamos.

Depois…

Bem, depois, ficam as tais doces e indeléveis lembranças.

E também a consciência tranquila.

Ainda assim e apesar da minha relutância em acreditar nas boas intenções de meio mundo, respeito quem nelas acredita ou com elas se sente feliz.

Que cada um de vós, Familia e Amizades, consiga alcançar os seus objectivos sejam eles quais forem, neste novo ano que ontem começou.

José Coelho
02.01.20