Na quietude da reforma, quando o relógio deixa de mandar e os dias se estendem como sombras longas ao fim da tarde, descobrimos que o descanso tão sonhado não é um porto, mas um espelho. Entre memórias de trabalho duro, lutas silenciosas e pequenas vitórias, confrontamo-nos com o vazio inesperado da liberdade total. As ruas já não ecoam risos, os comboios já não gritam nos carris, e o mundo parece ter mudado de lugar.
Esta narrativa é uma reflexão íntima sobre o tempo, a solidão, a persistência da vida e a estranha nostalgia de tudo o que já fomos.
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Quantas vezes pensámos nela como um oásis prometido depois de tantas estradas? Não por desejo de envelhecer, mas pela esperança de um lugar onde o corpo descansa e a alma, finalmente, se senta à sombra.
Imaginamos mil gestos livres, mil manhãs sem dono, mil tardes sem pressa. Mas o tempo – esse velho artesão – sorri do alto da sua sabedoria e deixa-nos acreditar no que quisermos, até ao dia em que nos mostra a verdade.
Quando crianças, corremos atrás do futuro. Quando adultos, perseguimos o topo. E quando o topo chega, descobrimos que o coração quer apenas voltar ao princípio, onde tudo era simples e o mundo cabia num bolso.
Foi assim comigo.
Trabalhei desde os onze anos, com a inocência nas mãos e a coragem nos pés. Atravessei dias duros, gente dura, silêncios duros. Nunca respondi com violência, preferi erguer a minha vida como resposta. Não é vaidade; é o orgulho tranquilo de quem construiu o seu próprio destino como quem levanta uma casa, pedra a pedra.
E então, um dia, a reforma chegou. A tão sonhada. A tão merecida. E, como um fruto demasiado maduro, depressa se desfez.
Os primeiros meses foram um bálsamo: noites sem hora, manhãs sem despertador, o relógio finalmente manso. Tomava o pequeno-almoço e ia para o quintal como quem vigia um reino secreto. Nenhuma erva ousava nascer sem que eu a arrancasse. Quase precisava de uma lupa para vigiar a vida que insistia em brotar.
Até que percebi: – não se pode impedir a terra de ser terra, nem o tempo de ser tempo. E os meus dias começaram a alongar-se, belos, mas vazios, como aquelas sombras que se estendem no fim da tarde.
– Rais’parta a reforma – murmurava.
Somos estranhos: ansiamos sempre pelo que não temos, como se a alma fosse feita de vento.
Agora, no entardecer da minha vida, o silêncio pesa mais do que o cansaço. Já não há risos de crianças na rua, nem mães a chamar pelos seus Zéis como a minha chamava por mim. Calaram-se também os comboios, nos carris adormecidos que se estendem da Beirã à Torre das Vargens, e mais além, até Valência de Alcântara.
E eu fico a olhar o mundo, que deu tantas voltas, tantas cambalhotas, que quase deixou de se parecer com o meu.
Texto e foto
