segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O último artesão da aldeia

Durante muitos anos, a Beirã foi um pequeno mundo onde cada ofício tinha um rosto, um nome, uma história. Hoje, quando se fala do “último artesão”, não se fala apenas de um homem, fala-se de uma linhagem inteira que foi desaparecendo devagar, como a luz ao fim da tarde. Mas houve um que ficou até mais tarde: o barbeiro, senhor João Rabaça.
A barbearia dele era mais do que um lugar de cortes de cabelo. Era ponto de encontro, consultório, sala de conversas, tribunal de pequenas causas, jornal vivo da aldeia. O senhor João Rabaça tinha mãos firmes, seguras, mãos que sabiam pousar a tesoura com a delicadeza de quem segura uma confidência. E quando ele fechou a porta pela última vez, fechou-se também um capítulo da Beirã.
Mas antes dele houve tantos outros, cada um guardião de um saber que não volta.
Havia o sapateiro, senhor João Sarzedas, homem de poucas palavras e de muita paciência. A oficina dele cheirava a couro, a cola, a sola nova. O som do martelo era música de trabalho, e as botas que saíam das suas mãos duravam mais do que muitas vidas modernas. Ele não consertava apenas sapatos – consertava caminhos.
E havia o grande artesão no ofício da carpintaria senhor Francisco Olivença que partiu precocemente só Deus sabe as razões, autor de uma perfeição inigualável em obras públicas – como toda a panóplia de madeiramento desde o soalho aos bancos para os fiéis, e ao confessionário da nossa Igreja – que permanecem inteiros e funcionais até aos dias de hoje, muitas décadas depois.
Houve posteriormente ainda outro carpinteiro de Castelo de Vide cujo nome já me escapa, mas cuja presença não. E havia o seu filho, meu amigo de infância, o António Carpinteiro que cresceu entre tábuas, serras e pó de madeira. A carpintaria deles era uma catedral de madeira: portas, janelas, mesas, cruzes, brinquedos, tudo nascia ali, com a dignidade das coisas feitas para durar.
E três alfaiates, homens de agulha fina e olho atento: o senhor Manuel Barradas por cima da Sociedade Recreativa, o senhor Barradinhas nos baixos do Senhor Graça e ainda o senhor Baldeiras que tinha a alfaiataria na primeira casa lado esquerdo da Rua Vivas, unidos pelo mesmo talento. As suas mãos sabiam medir sem fita, cortar sem erro, coser sem falha. Os fatos que faziam não eram roupa, eram respeito. E quem vestia um fato deles sentia-se mais completo.
E havia também o meu pai, o ti António Coelho artesão da pedra, homem que falava com ela como quem fala com um velho amigo. A pedra obedecia-lhe. Ele sabia onde tocar, onde bater, onde esperar. Sabia que a pedra não se vence, convence-se. E as obras que deixou espalhadas pela freguesia são testemunho de uma força que não era só física: era moral.
E porque não mencionar também três artesãos autodidatas que foram pastores, camponeses, ceifeiros e cavadores de terra, mas nas suas horas vagas executavam verdadeiras obras de arte - carros de parelha com os respetivos muares, carroças, sóchas e sôchos, pássaros que moviam a cabeça e o rabo, bolotas entrançadas, garfos, facas e colheres, com pedaços de madeira ou de cortiça: o meu avô José Lourenço, o seu filho mais velho e meu tio Francisco Lourenço, e também o ti João Pereira que morava no Bairro da Misericórdia da Beirã, já todos na eternidade.
Todos esses homens e muitos outros mais, foram grandes e competentes artesãos. Todos foram últimos, cada um no seu tempo. E todos deixaram na aldeia uma marca que não se apagará nunca.
Hoje, quando se fala do “último artesão”, fala-se do senhor João Rabaça porque foi o último a fechar a porta. Mas a verdade é outra: o último artesão da aldeia será sempre aquele que ainda vive na memória de quem o viu trabalhar.

sábado, 29 de agosto de 2026

A bondade é um dom, não uma obrigação

Vivemos num tempo em que os valores parecem ter sido empurrados para o canto mais escuro da sala. As máscaras deixaram de ser exceção e tornaram se parte da indumentária diária de muita gente. E quem ainda acredita na transparência do coração acaba, demasiadas vezes, por se magoar não por ingenuidade, mas por medir os outros pela sua própria medida.
A bondade quando é verdadeira, não é fraqueza. Mas pode ser perigosa.
Hoje há quem se mova apenas pelos seus interesses, disposto a subir degraus custe o que custar, mesmo que para isso tenha de usar atalhos duvidosos ou vantagens indevidas. Nesse cenário, a lealdade é vista como obstáculo, e as relações humanas tornam se frágeis, descartáveis, quase utilitárias.
Apesar disso, ainda existe quem insista em acreditar no ser humano: na amizade que não se vende, no amor que não se disfarça, na afetividade que não calcula. Ainda há quem continue a viver com o propósito simples – e tão raro – de ser feliz sem ferir ninguém, de ajudar sem esperar retorno, de se colocar no lugar do outro antes de julgar.
Mas essa generosidade, quando confundida com obrigação, abre espaço para abusos. E quando o abuso se repete, o coração cansa.
Pessoas positivas perdoam com facilidade, porque acreditam na capacidade de mudança. Reconstroem, recomeçam, renovam a esperança. Mas há quem receba o perdão como se fosse direito adquirido, como se todos fossem obrigados a perdoar sempre, sem limites, sem reflexão, sem mudança.
Isso não é verdade.
Ninguém pode abusar da bondade alheia indefinidamente. Há um momento silencioso, mas definitivo em que a paciência se esgota, mesmo que ainda exista amor. Pessoas boas perdoam muitas vezes, mas quando desistem… desistem por completo.
E quando esse ponto chega, não há volta, nem remendo, nem nova oportunidade. Há apenas o fim, não por falta de carinho, mas por respeito próprio.
Este é o aviso: a bondade é um dom, não uma obrigação. E quem a recebe deve saber cuidar dela.
Bom fim-de-semana, cuidem-se, sejam felizes.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Mãos que sustentam a comunidade

Há comunidades que se mantêm de pé pelo empenho de algumas mãos que as habitam. Não são mãos famosas, não aparecem em fotografias, não escrevem discursos. São mãos que trabalham, que carregam, que arrumam, que rezam, que cozinham, que ajudam, que levantam o que caiu e seguram o que está prestes a cair. São mãos que a sustentam e fazem-no em silêncio.
Penso muitas vezes nas mãos que conheci desde menino. As mãos do homem que lavrava a terra com a paciência de quem sabe que o solo só dá a quem o respeita. As mãos da mulher que amassava o pão, com aquele gesto circular que parecia uma oração. As mãos do carpinteiro, escuras de pó, que transformavam tábuas em portas, bancos, cruzes, memórias. As mãos da vizinha que trazia figos ou pêssegos carecas, não por obrigação, mas porque a generosidade era o seu modo natural de estar no mundo.
Cada mão tem uma história. Os calos são capítulos. As rugas são parágrafos. E o toque, esse toque firme, quente, honesto, é a assinatura de uma vida inteira dedicada ao que importa.
Na aldeia, as mãos dizem mais do que as palavras. Quando alguém ajuda a levantar um muro, não está apenas a erguer pedras: está a erguer pertença. Quando alguém varre a igreja, não está apenas a limpar o chão: está a cuidar da fé de todos. Quando alguém leva um balde de batatas ao vizinho, não está apenas a oferecer comida: está a oferecer companhia, respeito, memória.
E há também as mãos invisíveis. As que ninguém vê, mas que fazem tudo. As mãos que acendem velas na igreja quando ninguém está. As que arrumam o adro depois de uma festa. As que carregam cadeiras, limpam bancos, lavam toalhas, preparam flores, organizam papéis, resolvem esquecimentos. Essas mãos são o coração secreto da comunidade, o motor silencioso que nunca falha.
Aprendi a reconhecer essas mãos. A agradecer-lhes sem palavras. A perceber que a aldeia não vive de discursos, vive de gestos. E que os gestos, quando são verdadeiros, nascem sempre das mãos.
Hoje, quando olho para as minhas próprias mãos, vejo nelas a continuação das mãos que vieram antes. Não são tão fortes como foram, não têm a rapidez de outros tempos, mas guardam a mesma vontade de servir. E talvez seja isso que define uma comunidade: a passagem discreta de mãos que fazem, para mãos que continuam a fazer.
As mãos que sustentam a comunidade não pedem reconhecimento. Pedem apenas que a aldeia permaneça. E a aldeia permanece porque elas existem.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O perdão sem barulho

Durante muito tempo caminhei ao lado de um amigo que via em mim porto seguro. Fui-lhe abrigo, palavra certa, mão estendida. Com o tempo, talvez por fragilidade ou descuido, ele começou a trazer até mim dias pesados que não eram só dele: eram dias que despejava em mim como se eu tivesse obrigação de suportá-los.
A indelicadeza repetida deixa de ser acidente: torna-se hábito. E eu, que sempre escolhi a delicadeza, senti esse hábito a pesar. Não fiz escândalo. Não fiz discurso. Não fiz despedida.
Calei-me.
O silêncio foi a minha forma de amor próprio. A maneira de dizer: “Não quero continuar a ser desconsiderado por quem devia ter respeito por mim.”
Passaram meses em que o meu coração, apesar de magoado, não endureceu, porque não sei abandonar ninguém. Sou dos que guardam, dos que esperam, dos que acreditam que as pessoas podem aprender.
Até que, numa tarde qualquer, ele regressou. Não voltou com exigências. Não voltou com desculpas vazias. Não voltou com o mesmo vinagre de antes.
Voltou com respeito, educação e humildade.
Percebeu que a amizade não é um direito, é um privilégio. E que não é com vinagre que se apanham moscas. O perdão começa quando se reconhece que o outro mudou.
Mas perdoar não é esquecer. Não é fingir que nada aconteceu. Não é abrir a porta como se nada tivesse sido partido. Perdoar é cautela. É reserva. É prudência. É dizer: “Vejo que voltaste melhor, mas ainda estou a aprender a confiar de novo.”
Isso não é fraqueza, é sabedoria. Porque o perdão não se reconstrói num dia. Constrói-se devagar: gesto a gesto, palavra a palavra.
O meu silêncio ensinou-lhe mais do que qualquer sermão. Mostrou-lhe que a minha amizade é valiosa, mas exige cuidado. E voltou porque sentiu a falta da minha presença.
Porque percebeu que a minha ausência não era castigo, era consequência. Porque entendeu que a minha calma não era fraqueza, era força.
E eu, ao aceitar o regresso com cautela, fiz o que os prudentes fazem: deixei a relação renascer sem apagar a memória do que a feriu.
O perdão é isso: abrir espaço ao regresso sem abdicar da paz que foi conquistada. Fiz isso sem barulho, sem vingança, sem dureza.

A fragilidade humana

Há momentos em que a vida se torna tão leve que quase parece quebrar-se ao menor toque. Basta um diagnóstico, uma chamada ao fim da tarde e aquilo que parecia sólido revela-se frágil como o vidro das janelas da Beirã.
A fragilidade humana não é fraqueza. É condição. É o lembrete silencioso de que caminhamos todos sobre um chão que não é nosso, que nos pode faltar sem aviso.
Um amigo e militar como eu, homem de coragem e de serviço, enfrenta agora essa vulnerabilidade que nenhum uniforme protege. O corpo, que tantas vezes foi instrumento de força, torna-se território de batalha.
E ao ouvi-lo, ao animá-lo com a minha voz encorajadora e amiga, torno-me parte dessa resistência que não se faz com armas, mas com presença.
A fragilidade humana revela-se também nos gestos pequenos: no modo como alguém respira mais devagar, no silêncio que se instala depois de uma situação difícil, na mão que procura outra sem dizer nada. É aí que a grandeza aparece.
Porque a fragilidade não nos diminui, aproxima-nos. Faz-nos irmãos. Faz-nos compreender que a vida é um empréstimo precioso, que cada dia é uma dádiva, que cada amizade é uma âncora.
Sei isso melhor do que muitos. Vivi perdas, vi partidas inesperadas, carrego memórias que ainda hoje me entristecem e doem. E, mesmo assim, continuo a ser o homem que se levanta e tenta sempre ajudar, que anima, incute coragem e não vira a cara ao sofrimento dos outros.
A fragilidade humana é o que nos torna humanos. E é também o que nos permite ser generosos. Por isso mesmo não me assusta, pelo contrário torna-me mais atento, mais humilde, mais capaz de compreender o outro.
Força, amigo!

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Gosto, ponto

Há gostos que não são simples preferências: são maneiras de estar no mundo. Quando digo que gosto de pessoas honestas e generosas, não falo de virtudes decorativas, daquelas que se penduram na lapela para parecer bem.
Falo de gente cuja palavra nasce do mesmo lugar que o olhar e por isso coincide com ele. Há uma verdade silenciosa em quem não precisa de ajustar o discurso para agradar; basta-lhes ser.
Gosto de pessoas coerentes, dessas que não vivem em contradição consigo próprias. São raras. São as que fazem corresponder o gesto ao pensamento, o pensamento à palavra, e a palavra à vida.
Não precisam de explicações longas, nem de justificações apressadas. Basta observá-las um instante para perceber que aquilo que fazem é, simplesmente, aquilo que são.
Gosto de quem escreve com autenticidade, sem truques, sem máscaras. Palavras que coincidem com o pensamento são como portas abertas: deixam entrar luz, deixam ver o interior sem receio. Há uma beleza particular na escrita que não tenta impressionar, mas apenas dizer a verdade possível de cada um.
Gosto de lealdade, essa virtude discreta que não faz barulho, mas sustenta tudo. A lealdade não se proclama; demonstra-se. Está nos pequenos gestos, na presença silenciosa, na mão que não falha quando o mundo falha.
Gosto de sinceridade. Daquela sinceridade que não fere, mas ilumina. Que não é brutalidade, mas clareza. Que não se usa como arma, mas como ponte.
E gosto, ponto. De pessoas que carregam consigo uma espécie de transparência moral, uma integridade que não precisa de ser anunciada.
Gosto de quem vive com verdade suficiente para que os outros se sintam à vontade, como se entrassem numa casa onde tudo está no lugar certo.
Talvez, no fundo, esta lista de gostos seja apenas uma forma de dizer que continuo a acreditar na humanidade que vale a pena.
Naquela que não se mede por títulos, mas por carácter. Naquela que não se exibe, mas se revela. Naquela que, quando passa por nós, deixa qualquer coisa melhor do que encontrou.
E é isso:
Gosto de quem faz do mundo um lugar mais claro, mesmo que seja só à escala de um olhar.

Não é por acaso que algumas amizades resistem

As amizades que resistem não são as que nunca falham, são as que voltam. São as que atravessam mal-entendidos, afastamentos, dias pesados, e ainda assim encontram o caminho de regresso. Não porque tudo seja perfeito, mas porque há verdade suficiente para continuar.
Uma amizade que resiste não vive de presença constante. Vive de lealdade silenciosa. Vive de saber que, mesmo quando o mundo aperta, há alguém que não vira costas. Vive de gestos pequenos: uma mensagem curta, um olhar que entende, um “estou aqui” dito sem espetáculo.
Com o tempo, percebi que as amizades mais fortes não são as mais barulhentas, são as mais consistentes. São aquelas que não exigem explicações longas, que não cobram ausências, que não dramatizam silêncios. São as que reconhecem que cada um tem a sua vida, as suas dores, os seus ritmos e ainda assim escolhem ficar.
A amizade que resiste também sabe pedir desculpa. Sabe reconhecer quando falhou. Sabe regressar com humildade. Sabe que o orgulho é inimigo da ligação verdadeira.
E, ao mesmo tempo, sabe perdoar. Sabe olhar para o outro e ver o que vale, não apenas o que doeu. Sabe que ninguém é perfeito, mas alguns são essenciais.
As amizades que resistem são raras. São como aquelas pedras antigas da Beirã: gastas pelo tempo, mas firmes; marcadas pela vida, mas de pé; silenciosas, mas fundamentais.
E quando uma amizade resiste, não é por acaso.
É porque houve respeito. É porque houve cuidado. É porque houve verdade. É porque, apesar de tudo, houve reciprocidade.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Uma saudade que me acompanha sempre

A minha saudade chega como a luz da Beirã ao entardecer: devagar, inclinada, pousando nos telhados como quem conhece cada pedra pelo nome. É um silêncio que fala dentro de mim, uma presença antiga que nunca se ausenta verdadeiramente.
Carrego-a desde menino. Vem das ruas da aldeia, do cheiro da terra quente, das vozes que se ouviam antes de se verem, das tardes longas em que o tempo parecia ter a delicadeza de não correr. Vem da casa dos meus pais, onde a luz amarela da cozinha era abrigo, promessa e mundo inteiro.
Nasce dos que partiram, mas que ficaram. Ficaram no modo como olho para os meus filhos e para as minhas netas. Ficaram no meu gesto, na minha palavra, no meu respeito pelas coisas simples, porque há heranças que não se guardam em caixas, guardam-se no coração.
E quando a tarde cai – essa hora em que a Beirã fica mais verdadeira – sinto que a minha saudade não é ausência.
É presença.
É perfume de um tempo que passou, mas que continua a acender luzes dentro de mim.
É o eco das vozes que amei, das mãos que me ensinaram, dos passos que caminharam ao meu lado.
É uma saudade que não me entristece, engrandece-me.
Porque só quem sente assim é quem viveu com verdade, quem recebeu dos seus uma educação feita de bondade, de trabalho, de silêncio bonito e a transmitiu como quem passa uma chama que não se apaga.
Eu sou esta saudade. Sou feito dela. Sou o que fui, sou o que continuo a ser, sou o que guardo e o que honro.
E quando falo da minha saudade, não o faço para me lamentar. Faço-o para agradecer. Porque ela é a prova mais serena de que a minha vida valeu – e continua a valer – a pena.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

As crianças da minha infância

Na minha infância, as crianças não eram apenas crianças. Eram rumor, eram luz, eram pressa, eram vida a acontecer sem pedir licença.
Corriam pelas ruas como quem corre dentro de casa. Sabiam onde cada pedra estava, onde cada sombra começava, onde cada cão dormia ao sol. Tinham joelhos esfolados, mãos sujas de terra, cabelos desalinhados pelo vento e uma liberdade que hoje já não se fabrica.
O mundo era pequeno, mas era completo. A rua era campo de futebol, era pista de corridas, era sala de brincadeiras, era lugar de descobertas. E cada esquina guardava um segredo que só elas sabiam.
As crianças da minha infância tinham uma coisa que hoje quase desapareceu: sabiam brincar sem nada. Um pau era espada, uma corda era serpente, uma lata era tambor, uma pedra era tesouro.
E tudo era suficiente.
Sabiam também respeitar o tempo dos adultos. Quando passavam por elas, paravam. Quando a mãe chamava, obedeciam.Quando a avó ralhava, baixavam os olhos.
Não por medo mas por respeito.
Havia uma alegria que não se explicava. O cheiro da terra molhada depois da chuva. O sino da igreja a marcar o fim da tarde. O pão com marmelada embrulhado em papel. O verão que parecia não acabar nunca.
E havia também uma inocência que não se repetirá: a primeira vez que se viu o mar, a primeira vez que se entrou na cidade, a primeira vez que se percebeu que o mundo era maior do que a aldeia – mas nunca melhor.
As crianças da minha infância cresceram depressa, mas cresceram bem. Aprenderam a dureza do trabalho, a importância da palavra dada, o valor da família, o peso da verdade. E levaram tudo isso consigo para onde quer que foram.
Eu fui uma dessas crianças. E quando hoje olho para trás, vejo-me a correr de pés descalços pelas ruas estreitas, a subir muros, a inventar mundos, a aprender a vida sem saber que a estava a aprender.
E cá dentro, onde mora a memória, continuo a ser aquela criança da Beirã que acreditava que a aldeia era o centro do mundo e que, de certa forma, ainda acredita.

Outono a espreitar

Aproxima-se, a passos firmes e silenciosos, aquela estação do ano que sempre reconheço como minha: o outono. Talvez seja pela melancolia que lhe está entranhada, essa melancolia que não pesa mas acompanha e que em mim encontra terreno fértil. Ainda faltam duas ou três semanas para ele se instalar por completo, mas já o sinto a rondar a casa como um velho amigo que chega antes da hora.
Os dias encolhem, como se tivessem pressa de se recolher. E as folhas – as primeiras mensageiras da mudança – começam a ganhar tons dourados nos ramos dos choupos do ribeiro, dos ulmeiros, dos plátanos, das figueiras e de todas as árvores de folha caduca que vejo do alto do meu quintal, até onde o céu se debruça sobre a terra na linha do horizonte. E as parras da nossa latada queimadas pelo rigor de mais um verão inclemente, decidiram começar a abandonar os ramos antes de tempo, como quem desiste de lutar contra o calor.
Esta tarde, depois de regar as plantas – esse gesto que me liga à terra como uma oração – sentei-me na varanda do quintal para assistir ao momento em que o sol se despede dos cumes graníticos orlados de copas de sobro, carvalho e azinho, lá para os lados da Herdade dos Pombais. Amanhã, esses mesmos cumes serão os primeiros a recebê-lo, quando ele se erguer para acender o novo dia.
A nossa casa, desenhada pelo meu pai – fundador, arquiteto e poeta da pedra – foi orientada para nascente e poente. Uma fachada recebe o sol ao nascer; a outra entrega-o ao ocaso. Nada foi por acaso. Nunca era por acaso nos planos desses mestres antigos. As empenas ficaram viradas ao norte e ao sul, para suportarem, uma, a nortada fria e cortante do inverno, e a outra, as chuvas generosas que chegam do sul.
O pôr do sol, já o disse tantas vezes, é o meu instante de eleição.
Fico suspenso no encanto destas paisagens que me viram nascer e que reconheço como únicas, irrepetíveis, quase sagradas. Há algo de misterioso nos minutos que antecedem o ocaso: a natureza parece deter-se por completo. É sempre assim. Todos os dias. Uns breves instantes de imobilidade absoluta.
Sentada ao meu lado na varanda, a minha companheira notou o silêncio:
– Que sossego, Zé! Nem os pássaros se ouvem.
– É verdade – respondi. E acrescentei: – Até o cãozarrão ali em baixo que passa o dia e a noite a ladrar como se estivesse zangado com o mundo inteiro, se calou.
– Que estranho, não? – Volveu ela, antes de se entregar também ao silêncio.
A luz tomou então um brilho amarelado, baço, como se o sol estivesse a apagar-se devagar. Os calhaus e o montado ao longe pareciam iluminados por holofotes, como as muralhas de Marvão quando a noite as abraça. Depois, lentamente, a luz extinguiu-se. No instante seguinte, a barra cinzento-escura da noite avançou, envolvendo tudo o que minutos antes ainda brilhava.
Sinceramente, acho que é neste momento que Deus desce à terra. E por isso toda a natureza – toda a Sua criação – se prostra em silêncio.
Nesses instantes de harmonia absoluta, invade-me uma paz difícil de explicar. Uma tranquilidade íntima, tão doce, que fecho os olhos e agradeço: por ter nascido, por ainda estar vivo, por toda a vida que me foi dada.
Texto e foto

domingo, 23 de agosto de 2026

A maratona de quem está sempre disponível

Foram três dias cheios. De serra, de gente, de fé, de mesa e de serviço. Três dias em que fui cicerone, companheiro, ensaiador, amigo.
Sem alarde, sem medalhas, sem palco. Apenas com aquela disponibilidade que não se aprende: nasce.
Dias que não se medem pelo relógio, mas pelo coração. Estive ausente daqui, é verdade, não por esquecimento, mas apenas porque a vida me chamou para aquilo que considero essencial: dizer "presente" a quem solicita apoio.
Na sexta e no sábado fui cicerone de um amigo do norte que veio conhecer Marvão. Acompanhei-o pelas localidades, pela serra, pelas ruas antigas, pelas vistas que nunca se repetem. Mostrei-lhe a minha terra como quem apresenta um lugar querido da alma.
Não houve pressa, não houve obrigação, apenas o gosto de bem receber.
Hoje, o dia foi diferente, mas da mesma natureza: serviço. Fui ao Porto da Espada, do outro lado da serra, apoiar as senhoras do coro na preparação da missa da festa da Senhora das Dores que será celebrada no dia 30.
Eu e a Maria Manuela fomos como sempre vamos: se alguém convida, nós aparecemos. É simples. É assim que entendo a vida comunitária.
Entre ensaios e conversas, ainda houve tempo para o almoço no belíssimo Restaurante A Adega: galinha do campo tostadinha, salada de rúcula, batatas fritas e uma tarte de café que é segredo da casa.
Pequenos prazeres que sabem melhor quando acontecem depois do dever cumprido. E antes de regressar a casa ainda passámos pela padaria, onde o pão acabado de sair do forno nos recebeu como um abraço.
Voltámos cansados, mas daquele cansaço bom que só aparece quando os dias valem a pena. Cheios de serra, de amigos, de fé, de mesa e de gratidão.
Faltava apenas uma coisa: vir aqui cumprimentar os amigos das palavras que me acompanham tantas vezes.
Cá estou de novo.

Gratidão

Magnífica obra de arte comemorativa dos nossos 50 anos de matrimónio, oferecida pela minha irmã Joaquina Coelho, concebida pela competência profissional e perfeição da amiga Elia Magro.

O nosso muito obrigado, às duas.

14 de agosto de 2026


Aprendi a abrandar

Eu vivi muitos anos a correr. A vida moderna empurra-nos, exige, aperta.
Mas a terra – essa professora antiga – ensinou-me outra coisa.
Aprender a abrandar.
Abrandar é olhar com atenção.
É perceber que cada planta tem o seu tempo, que cada pessoa carrega uma história, que cada silêncio traz uma lição.
Abrandar é educar o coração.
É trocar a urgência pela presença, o ruído pela escuta, a pressa pela calma.
E quando abrando, descubro que a serenidade não é falta de problemas.
É só a capacidade de lhes tocar com mãos firmes e alma tranquila.
Hoje sei que abrandar não me atrasou.
Abrandar salvou-me.
Bom domingo, pessoal.
Cuidem-se...