Introdução:
1 – Para ti, meu querido primogénito, que chegaste ao mundo numa madrugada azul de maio e mudaste para sempre o rumo das nossas vidas. Este texto é a memória viva do caminho que te trouxe até nós, um caminho feito de amor, coragem, surpresa, lágrimas boas, e uma felicidade que nunca mais nos largou. Hoje, quase meio século depois, celebro-te como no primeiro dia: com o coração cheio e a alma agradecida.
2 – Para ti, mãe Maria Manuela, companheira de vida, força serena, coragem discreta. Foste tu quem carregou no ventre o nosso primeiro sonho, quem lhe deu o primeiro calor, o primeiro abrigo, o primeiro amor. Foste tu quem enfrentou dores, medos, noites longas e madrugadas frias para que o Manel chegasse ao mundo saudável e amado. És a raiz silenciosa de tudo o que construímos, a heroína que nunca pediu medalhas, mas que merece todas. Sem ti, nada disto existia. Esta história é dele, mas começa em ti.
/*\(-)/*\(-)/*\(-)/*\(-)/*\(-)/*\
Sem aviso, sem ensaio, apenas guiado pelo coração, olhei-a nos olhos e perguntei-lhe se queria casar comigo. Ficou suspensa no instante, surpreendida, como quem é apanhada pela vida no meio de um passo. Pediu um bocadinho para pensar.
Mas o amor não gosta de demoras. Meia hora depois, devolveu-me o olhar que eu lhe tinha dado e disse, com a serenidade de quem sabe o que quer:
– Sim. Quero casar-me contigo.
Nesse mesmo dia traçámos planos, sonhámos datas e marcámos o enlace para dali a sete meses, a 14 de agosto. O passo seguinte foi contar às famílias. O meu pai, esse homem de coração fácil, desatou num choro de felicidade e correu a abraçar a nora que tanto desejava:
– Dá cá um abraço, cachopa, que vais ser minha nora!
Assim se cumpriu o que a Vida já tinha escrito para nós. Regressei às Minas feliz, com o peito cheio, e tratei dos preparativos: anel de noivado, alianças, convites.
Num sopro chegou agosto, o casamento, a lua de mel em Madrid em visita aos cunhados, e depois o Gerês, sempre acompanhados pelos compadres do Porto, no seu Toyota novinho em folha.
Talvez por isso o nosso primogénito tenha alma espanhola – deve ter sido concebido nessa lua de mel madrileña, porque nove meses e onze dias depois chegou ao nosso colo.
Pedi à entidade patronal três semanas de licença sem vencimento para acompanhar o final da gravidez, o nascimento, o que fizesse falta. Concederam-nas sem descontar um centavo sequer do ordenado base. Só não me pagaram horas noturnas, porque não as fiz. Houve um tempo em que as empresas tinham consideração pelos seus trabalhadores.
Na manhã de 24 de maio de 1977, a Maria Manuela pegou num alguidar de roupa para ir ao lavadouro público. Não chegou lá. Rebentaram-lhe as águas e começaram as primeiras contrações. Chamámos o táxi do Zé Moura de Santo António das Areias e seguimos para a maternidade do Hospital Dr. José Maria Grande, em Portalegre.
Estava de serviço um médico amigo, competente e atento, que tomou conta dela com o cuidado de quem sabe o valor de uma vida prestes a nascer. Fui autorizado a acompanhá-la até às onze da noite. Vi o zelo incansável de todos – tão diferente dos dias de hoje.
Às onze tive de sair. Era a regra. Mas a sorte protege os que amam: a minha madrinha Jacinta, trabalhava naquele piso e entrava no turno da meia-noite.
– Toma a chave da minha casa e vai descansar. Eu tomo conta da tua Manuela. Do que houver, te direi.
Fui, mas dormir era impossível. A ansiedade, a esperança, o medo bom de quem vai ser pai pela primeira vez. Já de manhã, a madrinha ligou. Atendi num salto.
– Já aqui tens um belo cachopo à tua espera. Nasceu às duas da manhã e correu tudo muito bem. Anda para baixo, diz que és o pai, que te deixam entrar.
Desci a correr a Rua do Comércio mais feliz do que os pardais que debicavam migalhas das esplanadas. Numa loja de flores, uma senhora arrumava cravos… azuis. Nunca tinha visto tal coisa. Pedi-lhe um bouquet para a recém-mamã.
Quando entrei no quarto, uma enfermeira sorriu:
– O seu marido é um romântico! Vou buscar uma jarra para esses cravos.
A mãe sorria, entre dores e o nosso pequenito dormia ferrado no berço, com o lábio inferior escondido debaixo do superior. Fiquei com eles o dia inteiro. Depois tive de regressar à Beirã, a transbordar de felicidade, incredulidade e gratidão. Deus é bom.
O tempo passou, veloz. Em menos de nada já andava, já falava.
– Como te chamas, filho?
– Manãe. Chamo-me Manãe…
Hoje, 25 de maio de 2026, cumpres 49 primaveras. Pai, já és também. E eu continuo a amar-te incondicionalmente, desde o primeiro instante em que te segurei ao colo.
Parabéns, filho.
