Vivemos um tempo estranho – talvez o mais desconcertante que a minha memória alcança. Não porque eu tenha mudado, mas porque o mundo se afastou das regras simples e firmes com que fui criado. Continuo a pensar, a dizer e a fazer o que aprendi com gente de mãos calejadas e alma limpa. Quem age segundo a sua consciência, a mais não é obrigado.
Hoje, porém, sobra quase tudo do que antes faltava, e falta quase tudo do que antes nos sustentava: o respeito, a palavra dada, a amizade que não se mede, a generosidade que não se exibe, a humildade que não precisa de palco. Falta carácter – essa matéria antiga que não se compra nem se aprende tarde.
Também eu conheci a inveja disfarçada de amizade. Quando, com poucas habilitações mas muita vontade, decidi subir na vida para dar melhor futuro aos meus, encontrei portas fechadas, armadilhas silenciosas, provocações calculadas.
Trabalhei até ao limite, chorei em silêncio, quase desisti. Mas resisti. Transformei o cansaço em disciplina, o desânimo em força, a injustiça em combustível.
E quando alcancei o que persegui durante anos, vieram estender‑me a mão os mesmos que me tinham difamado. Não lha apertei. Disse-lhes apenas: “Sou o mesmo homem que os vocês tentaram prejudicar. Passem bem e que Deus vos dê saúde.”
Fui educado assim: a dizer o que tem de ser dito na cara, a não alimentar cobardias, a não falar nas costas de quem quer que seja. Ensinei isso aos meus filhos e ensino às minhas netas. Não é a idade que me vai mudar.
Errado não sou eu. Errado é este tempo sem norte, onde a violência, a corrupção e a falta de vergonha se tornaram rotina. Mas nós – os que ainda seguimos as regras antigas, mesmo que já pareçam fora de moda – continuamos do lado certo. E isso basta.
José Coelho
