sexta-feira, 22 de maio de 2026

Guardião de memórias

Há pessoas que pertencem à terra como as raízes pertencem às árvores. Não porque estejam presas, mas porque dali tiram a força, a memória e o sentido.
Crescer num lugar é uma coisa; ser moldado por ele é outra. A terra onde se nasce pode ser apenas cenário, ou pode ser mãe, mestra, companheira de jornada.
Quem ama a terra como eu amo a minha, não a vê apenas com os olhos:
Vê-a com o coração.
Vê o valor das fontes antigas, o milagre de uma lagartixa que caiu no balde e foi salva, a dignidade de uma cobra que só necessita atravessar o caminho e merece ser deixada em paz, a nobreza silenciosa da manada de javalis que passa com a família em procissão.
A ligação à terra não se explica – vive-se.
É feita de gestos pequenos, quase invisíveis, de amor pela natureza: parar o carro para não ferir um animal, recolher um pássaro caído, respeitar o silêncio dos campos, agradecer a sombra de uma árvore.
Quem age assim é guardião.
Guardião da memória, da vida, da beleza que ainda resiste.
E talvez seja por isso que a terra nos conhece. Porque há homens que passam por ela, e há homens que a honram.
A ligação à terra é um pacto silencioso entre aquilo que fomos, o que somos e o que deixamos para os que virão.
E quem vive assim, não envelhece – aprofunda-se.
Texto e foto