quarta-feira, 6 de maio de 2026

Valores que o tempo nunca deveria apagar

Vivemos numa época de transformações profundas, em que muitos dos valores que sustentaram famílias e comunidades durante gerações parecem perder terreno perante novos hábitos, prioridades e modos de viver. Para quem cresceu ancorado em princípios sólidos, esta mudança traz um sentimento de estranheza — quase de desalinhamento — sobretudo quando a experiência de vida é recebida com correções ou críticas vindas das gerações mais novas.

Durante décadas, ensinamentos como humildade, simplicidade, sabedoria, honestidade, generosidade, educação, disciplina, respeito e fraternidade foram transmitidos como um legado natural. Hoje, porém, muitos destes valores são vistos como ultrapassados, como se o mundo moderno tivesse decretado que a integridade é coisa de outros tempos. O que antes era motivo de orgulho tornou-se, por vezes, alvo de reparo, como se a vivência e o bom-senso tivessem perdido validade.

Este fenómeno pesa sobretudo sobre quem sempre procurou viver e transmitir esses princípios, e que agora sente a dor de ser corrigido com o argumento de que “hoje já nada é assim”. Mas a convicção permanece: não é errado viver segundo aquilo que nos ensinaram; errado seria abdicar da honestidade e do caráter só porque o mundo anda apressado.

Há cinquenta anos, a vida era dura e a abundância escassa. Hoje, há quase tudo em excesso — menos aquilo que realmente importa: amor ao próximo, amizade verdadeira, honestidade, generosidade, educação, disciplina, respeito, delicadeza, sinceridade, humildade e fraternidade. Estes valores, cada vez mais raros, continuam a ser os únicos capazes de construir uma sociedade justa, solidária e verdadeiramente humana.

A falta deles é visível sobretudo nas esferas de poder, onde o exemplo deveria ser regra. Em vez disso, multiplicam-se casos de corrupção, compadrio e ganância, que acabam por contaminar o olhar da sociedade. Mesmo no seio das famílias, das amizades ou do trabalho, apesar de ainda existirem pessoas de bons princípios, cresce o individualismo, a inveja e a competição desmedida. O sucesso alheio, tantas vezes fruto de esforço e sacrifício, desperta ressentimento em vez de admiração.

Para quem sempre viveu com honestidade, superando dificuldades sem atalhos, é difícil aceitar que a integridade seja desvalorizada em favor do imediatismo ou da sorte. Mas é precisamente essa capacidade de transformar adversidades em força que deve ser motivo de orgulho. Dizer a verdade, olhar nos olhos, recusar a hipocrisia e manter coerência entre palavras e ações são ensinamentos que não envelhecem.

Manter vivos esses valores, pode parecer, aos olhos de alguns, estar “fora de moda”. Mas num tempo marcado por instabilidade, violência, corrupção e degradação das instituições, importa reafirmar que a honestidade, a idoneidade e o respeito continuam a ser pilares essenciais. São eles que podem restaurar a confiança, a harmonia e a dignidade social.

Não devemos abdicar dos princípios que recebemos das gerações anteriores. O tempo muda costumes e mentalidades, mas não muda a essência do caráter. Que saibamos resistir à superficialidade e ao imediatismo, mantendo acesa a chama da bondade, da verdade e do respeito mútuo — por nós e por quem virá depois.

José Coelho