sexta-feira, 25 de novembro de 2022

quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Um amigo de verdade


Esta foto tem dez anos e simboliza a amizade que me dedicava o meu inseparável amigo Bolinhas quando por fim lhe peguei. Era novembro de 2012 e a minha netinha Francisca, com apenas nove mesinhos de vida, tinha vindo com os papás visitar-nos para passarem esse fim de semana connosco.

Habituado a todas as minhas atenções e mimos, teve obviamente de as ceder, bem como o meu colo, à pequenina e querida visita, postando-se especado na minha frente quando eu a tinha no colo, como que a perguntar:

- E eu?

No domingo seguinte, depois do almoço, as visitas rumaram a sua casa e só então pude dar ao Bolinhas mais alguma atenção. Assim que se apanhou de novo no meu colo deu um enorme suspiro - de alívio acho eu - e encostou a sua cabecita à minha como a foto documenta, como que a dizer:

- Até que enfim...

O Bolinhas já não está connosco pois morreu de velhice dois anos depois pacificamente, assistido pela sua amiga veterinária Dra Rute, rodeado de mimo e de conforto.

Mas deixou saudades.
Muitas saudades.
- Novembro 2012

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Contos da lua cheia...

A minha lua de barro a esconder-se na trepadeira da varanda.  

Gosto da lua. E a prová-lo, tenho duas réplicas dela cá em casa. A de barro que ilustra este escrito e outra mais sofisticada a sorrir para três estrelas no outro lado do "seu" céu, num espelho dourado pintado à mão que tem por função compor a chaminé da lareira na nossa sala. Nunca tive receio dos lobisomens ou dos vampiros que ressuscitam nas noites de lua cheia e se alimentam de gente. Pelo contrário. Sempre adorei passear à sua límpida e suave luminosidade que faz a noite parecer dia e conseguir vislumbrar-se quase tudo até ao longe. Cresci a saltar pedras e barrancos à sua luz, primeiro na "retouça" quando gaiato, depois a fazer alguns biscates de contrabando já zagal, e, por fim, nas visitas semanais a casa das namoradas antes de ir p'ra tropa. 

Era muito bom poder ver onde punha os pés nessas noites de namorico quando tinha que atravessar tapadas e canchais desde a Beirã até aos Cabeçudos, ou até aos Aires, ou até à Torre para lá do Pereiro. É verdade que já nesse tempo havia as estradas que há hoje embora não tão boas, mas caminhando pelos "atravessos" que havia por toda a parte, tornava os percursos bem mais curtos e menos cansativos, porque a brincar a brincar, eram sempre alguns quilómetros para calcorrear. 

Posso afirmar com quase cem por cento de certeza que o senhor Conde Drácula e a sua Transilvânia não seriam por aqui ainda conhecidos naquele tempo. Já os lobisomens sim. Havia até por cá alguns pobres de cristo que, coitados, por serem feios ou mal encarados, ou por terem mais mau feitio, ganhavam fama de o serem. Eram por isso olhados de lado e esconjurados pelas más línguas, que, essas sim, deviam ter pacto com o demo para lhes infernizarem a vida com a sua coscuvilhice maldosa. Havia também por aqui muitas outras histórias de medos, com ou sem culpas da lua.

Por exemplo aquela da galinha com pintos que "aparecia" nas proximidades do cemitério e que seriam um bando d'almas penadas a pedirem rezas às pessoas que por lá passavam. A propósito disso, uma bela noite, quatro e tal de uma madrugada enluarada na trincheira da estrada depois das Chorilhas, vinha eu de ter ido levar a moça a casa no fim de um baile, quando ouvi um estranho resmalhar. Ressshhhh.... Ressshhhhh... Depois aquilo parava. E eu parava também. Não com medo, mas intrigado, decidido a ver e a entender que raio era aquilo. Uma rabanada de vento e outra vez... Ressshhhh... 
- Mau! Pensei. 
Com alguma ironia (porque sinceramente não acreditava na tal "história") brinquei: 
- Q'ués ver qué a galinha c'os pintos? 
E mentalmente, continuando a brincar com a situação, chamei: 
- Pipi... pipi... pipi... 
Conforme via a minha mãe fazer a chamar as nossas galinhas para lhes dar o milho. 

De súbito e enquanto eu cogitava naquelas parvoíces todas, um novo ressshhh... quase, quase, ao pé de mim. Olhei. Prestei atenção. E vi. E percebi. 
E...

- Eureka! Pensei para comigo.
- Tal é cá o misterioso "resmalhar"?
- Homessa!
- E assim se inventa um medo...

Eram apenas algumas folhas secas dos enormes choupos que ladeavam naquele tempo a estrada. Era outono, as árvores estavam a desfolhar-se. As folhas encarquilhadas, secas e levadas pelo vento, ao serem arrastadas pelo alcatrão, faziam o estranho barulho que o silêncio da madrugada ampliava, tornando-o estranho e de certo modo inexplicável, pelo sossego da hora. Caminhei ao seu encontro e pisei-as, para me certificar. Era mesmo aquilo. Um sopro mais vivo do vento e lá atrás aprontaram-se outras irmãs daquelas que eu tinha pisado para a sua viagem sobre o alcatrão até encontrarem abrigo e se acomodarem nalguma fisga dos canchos. 

Ressshhh... Ressshhh...

Há outras histórias. Tantas histórias mais. Vou contar só mais uma. E desta ainda gosto mais. Nunca me canso de a recordar. 

Eheheh...

Foi com o meu filho caçula, o Pedro, tinha ele a idade que tem agora a sua filhota, a nossa linda Francisca. Era também uma noite de lua cheia. De Julho. E de festa na aldeia. Fomos todos ao baile. Mas às tantas, o João Pestana começou a atormentar o pequenito Pedro. O mano Manel já um homem com sete anitos, a mãe, a avó e as tias obviamente não queriam ir para a cama tão cedo. Era a festa. E só havia uma vez por ano. 

- Sem problema, filho. O pai também já lhe tá a apetecer ir deitar-se... Vamos embora os dois!

E de mãos dadas, lá viemos tagarelando até casa. A porta da frente ficara fechada à chave, mas a porta da cozinha no quintal ficara só ao trinco, já prevendo que alguém precisasse vir fazer alguma coisa. Abrimos a cancela que dava acesso ao quintal, contornámos a casa e...

- Upssss... 

Uma sorrateira visita foi apanhada em flagrante!

Passo a explicar melhor:

Em casa dos meus progenitores sempre houve animais domésticos. Cães, gatos, aves de capoeira, suinos para a matança e até uma cabrita que seguia o meu pai para todo o lado como se fora um cão. Era por isso comum, a nossa convivência com essa bicharada toda. Mas não só. Como o nosso quintal faz a sua divisão com as tapadas cheias de canchos e matos que se estendem por aí fora até Espanha, é normal vermos alguns animais selvagens do outro lado da parede. 

Raposas e saca-rabos, tourões ou texugos, javalis, e até mesmo já uma vez um veado aqui chegou porque deve ter fugido da reserva de caça do Tira-calças do outro lado do rio. Criada e toda a vida mulher do campo, a minha mãe amava e protegia tudo quanto fosse "um ser vivente" como ela lhes chamava. E apercebendo-se certo dia de uma raposita a rondar a parede do quintal cheia de fome, começou por lhe atirar alguns restos de comida e passou pouco depois a deixar-lhe um caneco com o jantarito na varanda do quintal passando a sortuda raposita a fazer parte dos cuidados diários da minha mãe que nunca ia para a cama sem ali deixar o jantar da sua vizinha.

Naquela noite, a da festa, não sabendo nada do baile nem do soninho do Pedro, a raposa degustava tranquilamente o petisco que a amiga Florinda ali lhe tinha deixado. De súbito e inesperadamente surgimos nós na entrada da varanda. Eu vi-a logo, porque o luar banhava por completo todo o quintal. A raposa viu-nos também, mas, apesar de ali ir jantar todas as noites, não era dada a confianças. E não tinha mais por onde fugir senão por onde nós entrávamos. De um pulo atirou-se por entre as nossas pernas provocando-me na pressa um arranhão no tornozelo. O Pedrito deu um grito sem perceber o que era aquilo, nem o que estava a acontecer. 

A raposa saltou lesta para a tapada e desapareceu no mato. Abri a porta de casa e acendi a luz da varanda. O arranhão na minha perna, feito pelas unhas da nervosa vizinha, sangrava ligeiramente. Comentei com o pequenito:
-  Foi a raposa. Arranhou-me, a magana! Viste-a, filho?

Resposta pronta:

- Vi sim, pai. Era branca...
- Branca? Perguntei divertido.
- Branco ficaste tu com o susto, meu tontinho. Vamos mas é para a cama que são horas...

Um dia destes, quando me lembrar, contar-vos-ei mais coisas da lua cheia. Até lá sejam felizes, que a vida é curta. Ah! Faltou dizer apenas que, ainda hoje, já meio gasto pelo passar de tantíssimas luas, continuo a gostar muito de me sentar na varanda a olhar para a tapada quando ela está toda banhada pelo luar. Nas noites geladas do inverno então parece que o seu brilho é ainda mais intenso e quase por magia os cristais da geada refletem-no como se fossem diamantes...

José Coelho

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Tentem conseguir também

 
... e boa semana!

Coisas que leio e gosto

Foto José Coelho

Era uma tarde do fim de Novembro, já sem nenhum Outono.

A cidade erguia as suas paredes de pedras escuras. O céu estava alto, desolado, cor de frio. Os homens caminhavam empurrando-se uns aos outros nos passeios. Os carros passavam depressa.

Deviam ser quatro horas da tarde de um dia sem sol nem chuva.

Havia muita gente na rua naquele dia. Eu caminhava no passeio, depressa. A certa altura encontrei-me atrás de um homem muito pobremente vestido que levava ao colo uma criança loira, uma daquelas crianças cuja beleza quase não se pode descrever. É a beleza de uma madrugada de Verão, a beleza de uma rosa, a beleza do orvalho, unidas à incrível beleza de uma inocência humana.

Instintivamente o meu olhar ficou um momento preso na cara da criança. Mas o homem caminhava muito devagar e eu, levada pelo movimento da cidade, passei à sua frente. Mas ao passar voltei a cabeça para trás para ver mais uma vez a criança.

Foi então que vi o homem. Imediatamente parei. Era um homem extraordinariamente belo, que devia ter trinta anos e em cujo rosto estavam inscritos a miséria, o abandono, a solidão. O seu fato, que tendo perdido a cor tinha ficado verde, deixava adivinhar um corpo comido pela fome. O cabelo era castanho-claro, apartado ao meio, ligeiramente comprido. A barba por cortar há muitos dias crescia em ponta. Estreitamente esculpida pela pobreza, a cara mostrava o belo desenho dos ossos. Mas mais belos do que tudo eram os olhos, os olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. No próprio instante em que eu o vi, o homem levantou a cabeça para o céu.

Como contar o seu gesto?

Era um céu alto, sem resposta, cor de frio. O homem levantou a cabeça no gesto de alguém que, tendo ultrapassado um limite, já nada tem para dar e se volta para fora procurando uma resposta: A sua cara escorria sofrimento. A sua expressão era simultaneamente resignação, espanto e pergunta. Caminhava lentamente, muito lentamente, do lado de dentro do passeio, rente ao muro. Caminhava muito direito, como se todo o corpo estivesse erguido na pergunta. Com a cabeça levantada, olhava o céu. Mas o céu eram planícies e planícies de silêncio.

Tudo isto se passou num momento e, por isso, eu, que me lembro nitidamente do fato do homem, da sua cara, do seu olhar e dos seus gestos, não consigo rever com clareza o que se passou dentro de mim. Foi como se tivesse ficado vazia olhando o homem.

A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.

Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa, mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos, como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim às vezes nos sonhos queremos agir e não podemos.

O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido da multidão.

Sentia a cidade empurrar-me e separar-me do homem. Ninguém o via caminhando lentamente, tão lentamente, com a cabeça erguida e com uma criança nos braços rente ao muro de pedra fria.

Agora eu penso no que podia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso estava ali parada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu horas.

Lembrei-me de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que não viam o homem começavam a ver-me a mim. Era impossível continuar parada.

Então, como o nadador que é apanhado numa corrente desiste de lutar e se deixa ir com a água, assim eu deixei de me opor ao movimento da cidade e me deixei levar pela onda de gente para longe do homem.

Mas enquanto seguia no passeio rodeada de ombros e cabeças, a imagem do homem continuava suspensa nos meus olhos. E nasceu em mim a sensação confusa de que nele havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia.

Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vívido. Desenrolei para trás o filme do tempo. As imagens passaram oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias. Mas a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada que olhava o céu com uma expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.

E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis, apareceram as palavras:

– Pai, Pai, por que me abandonaste?

Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho. A sua imagem era exactamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando eu li:

– Pai, Pai, por que me abandonaste?

Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o abandono, aquela a solidão.

Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a prova do último suplício: o silêncio de Deus.

E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.

Voltei para trás. Subi contra a corrente o rio da multidão. Temi tê-lo perdido. Havia gente, gente, ombros, cabeças, ombros. Mas de repente vi-o.

Tinha parado, mas continuava a segurar a criança e a olhar o céu.

Corri, empurrando quase as pessoas. Estava já a dois passos dele. Mas nesse momento, exactamente, o homem caiu no chão. Da sua boca corria um rio de sangue e nos seus olhos havia ainda a mesma expressão de infinita paciência.

A criança caíra com ele e chorava no meio do passeio, escondendo a cara na saia do seu vestido manchado de sangue.

Então a multidão parou e formou um círculo à volta do homem. Ombros mais fortes do que os meus empurram-me para trás. Eu estava do lado de fora do círculo.

Tentei atravessá-lo, mas não consegui. As pessoas apertadas umas contra as outras eram como um único corpo fechado. À minha frente estavam homens mais altos do que eu que me impediam de ver. Quis espreitar, pedi licença, tentei empurrar, mas ninguém me deixou passar. Ouvi lamentações, ordens, apitos. Depois veio uma ambulância. Quando o círculo se abriu, o homem e a criança tinham desaparecido.

Então a multidão dispersou-se e eu fiquei no meio do passeio, caminhando para a frente, levada pelo movimento da cidade.

**

Muitos anos passaram. O homem certamente morreu. Mas continua ao nosso lado. Pelas ruas.


Sophia de Mello Breyner Andresen - In Contos Exemplares

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

De volta

Foto Pedro Coelho - 13.11.2022

Depois desta ausência de uma semana por motivo de avaria na linha 
da fibra óptica muito difícil de detectar, cá estamos de novo!

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Boa semana


Vigia os teus pensamentos, porque eles transformam-se em palavras. Vigia as tuas palavras, porque elas transformam-se em ações. Vigia as tuas ações, porque elas transformam-se em hábitos. Vigia os teus hábitos porque eles transformam-se no teu carácter. Vigia o teu carácter, porque ele vai transformar-se no teu destino.
Lao-Tsé

- 14.11.2022

Excertos...


Familiares e Amigos mineiros que vieram ao nosso casamento.
(Quatro deles já não estão entre nós)


"Naquele tempo as Minas da Panasqueira pareciam ser no fim do mundo. Tinha que ir de autocarro da Beirã até Portalegre. Ali mudava para outro que ia para Nisa. Em Nisa mudava para outro que ia para Castelo Branco. Em Castelo Branco apanhava o comboio até ao Fundão. No Fundão tinha que esperar pelo autocarro de São Jorge da Beira que fazia todas aquelas aldeias e passava na Barroca Grande onde está sediada a empresa mineira inglesa Beralt Tin & Wolfram que suponho ainda hoje detém aquela exploração mineira, ainda que mais reduzida.

Eram dez horas de viagem e uma pessoa chegava lá mais moído do que carne picada. Mas valeu a pena. E como valeu! Foi o lugar onde mais gostei de estar em toda a minha vida. As pessoas eram simplesmente fabulosas. O primo João Gaspar, a esposa Maria José e os seus dois rapazes, o António e o Zé Manel. O primo Antero, a esposa e as filhas. O José Mouro e toda a sua família. E muitos outros. Marvanenses dos quatro costados, gente de bem e profundamente solidária que me receberam e acarinharam como se de um filho deles se tratasse. Há coisas que nunca mais se esquecem na vida e favores que jamais conseguiremos retribuir por mais anos que vivamos.

Bem se diz que na sua terra ninguém é profeta. Lá tão longe fui acolhido de braços abertos por pessoas sumamente generosas e solidárias. Algumas eram da minha família sim, mas outras, apesar de serem conterrâneas, nunca as tinha conhecido na minha vida. De tal modo foi gratificante aquela radical mudança no meu dia-a-dia que mais uma vez senti no mais profundo do meu íntimo que Deus estava de novo a escrever direito por linhas tortas.

O trabalho era algo duro e arriscado. Mas esse pormenor era irrelevante perante todo um cenário que me trazia tudo quanto eu mais necessitava. Estabilidade. Trabalho certo e bem remunerado, um vencimento mensal três vezes superior àquele que se praticava no concelho de Marvão, amizade, camaradagem, solidariedade. Vivia plenamente feliz cada dia. Os mineiros eram uma enorme e imensa família. E eu senti-me como se lá tivesse vivido sempre. Nunca mais na minha vida senti tamanha ventura e tão íntimo bem-estar. Foi onde aprendi alguns novos valores humanos que são infinitamente mais valiosos e importantes do que todo o dinheiro do mundo.

Naquele início de 1975 éramos mais de dois mil os trabalhadores da Beralt. Os mineiros que trabalhávamos no interior da terra, os operários da lavaria – mecanismo de lavagem dos minérios à boca da mina – os camionistas e maquinistas exteriores, os funcionários dos escritórios, do hospital particular da empresa, do clube de recreio e de toda a panóplia no apoio logístico que à época era um autêntico luxo, tendo em conta a precaridade de condições existentes noutra qualquer empresa nacional desse tempo. Os ingleses não brincavam em serviço e cuidavam primorosamente do bem-estar de todos os seus funcionários, desde o administrador da empresa até às senhoras da limpeza.

A mina e a lavaria laboravam 24 sobre 24 horas em 3 turnos rotativos de 8 horas. E todos fazíamos os 3 turnos à semana. Um das zero às oito da manhã, outro das oito às dezasseis e outro das dezasseis às zero. Nas encostas envolventes da Barroca Grande tinham sido construídos um moderno hospital, uma igreja, uma escola, um clube recreativo, um campo de futebol e um ringue de patinagem, além de vários e excelentes bairros habitacionais onde residiam mais de quinhentas famílias dos mineiros. 

No vale adjacente foram implantados um refeitório self-service e quatro imensos dormitórios, cada um com vinte quartos, cada quarto com capacidade para quatro mineiros devidamente equipados com aquecimento central e instalações sanitárias individuais com duche de água quente para acomodar os mineiros que como eu lá não tinham a sua família mas usufruíam na mesma maneira de todas as comodidades..."

José Coelho 
in Histórias do Cota

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

Boa noite...

Foto Pedro Coelho - 08.10.2011

E por vezes
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão-Ferreira

Lugares, usos e costumes, que povoam a minha memória

A casa, o estábulo e a eira da Meirinha 
Foto José Coelho
O lugar da Meirinha fica para lá da Murta, a seguir à Anta e quase encostada à Estrada da Herdade como a gente por aqui lhe chama. Foi moradia de famílias durante décadas. A última, lembro-me bem apesar de ser ainda cachopo, foi a família do Senhor João Alexandre e da Senhora Maria José Viegas mais os seus filhos. O Senhor João trabalhava à jorna na Beirã e a esposa tinha de vir a pé trazer-lhe o almoço todos os dias. Como os filhos eram pequenos, não devia ser fácil para a senhora pois o lugar dista ainda uns bons dois quilómetros. Por isso, assim que arranjaram casa, mudaram-se para a aldeia. E depois que essa família de lá saiu, não me recordo de morar lá mais ninguém.
Já agora um pouco de história social, ainda que reduzida, à dimensão dos meus conhecimentos. Chamava-se "à jorna" o trabalho que era pago ao dia sem qualquer outro vínculo que não fosse apenas os dias e ordenado "ajustados" pelas duas partes, trabalhador e patrão. Tanto podia ser um dia só, como uma semana, ou duas ou três, dependendo do tempo necessário para a execução do serviço. Normalmente eram tarefas exclusivamente agrícolas e sazonais. Cavar ou semear um quintal, uma horta ou uma vinha, arrancar ou colher legumes, sachar um jardim ou uma belga de qualquer coisa, ceifar uma seara, gadanhar feno de alguma tapada.
Por sua vez os trabalhadores com vínculos mais duradouros recebiam ao mês, não só o ordenado combinado com o patrão como também as "comedias" por ambos ajustadas. Não confundir com comédias. Eram mesmo "comedías" porque se tratava de "coisas de comer", géneros alimentares que eram pagos juntamente com o ordenado, do qual faziam parte integrante. A estes assalariados permanentes chamavam-se "os justos" e os ajustes destes trabalhadores eram firmados apenas verbalmente e aceites por ambas as partes, sendo tão ou mais respeitados do que são hoje os contratos de trabalho que se fazem por escrito. Tinham normalmente a duração de um ano que se iniciava e terminava de S. Pedro a S. Pedro, ou seja, de 29 de Junho do ano do ajuste a 29 de Junho do ano seguinte, sendo sucessiva e normalmente renovados por igual período de tempo enquanto as partes assim o quisessem.
O meu avô José Lourenço, bem como os seus filhos e meus tios maternos enquanto solteiros, tiveram sempre esse vínculo de "justos" e assim se mantiveram assalariados por anos sucessivos, décadas até, quase sempre por conta do mesmo patrão. O tio Chico da Silva.
Os ordenados eram pequenos pois cada lavrador pagava o que conseguia. Para compensar depois essas fracas "pagas" e serem capazes de manter por meses ou anos os guardadores dos gados, os ganhões do amanho das terras, os carreteiros das carretas de bois e os carreiros dos carros de bestas, acresciam aos ordenados as tais "comedías" que normalmente se compunham de um saco de centeio em grão para moagem e fabrico do pão - nesse tempo só os patrões comiam pão de farinha de trigo - uma almotolia com azeite, alguns litros de grão de bico ou de feijão frade - um alqueire normalmente - e dois ou três queijos secos. Sei isso, porque eram essas as "comedías" que o meu avô trazia para casa no fim do mês juntamente com a sua mesada em dinheiro, como "justo" na Herdade do Matinho, Beirã.
Logo no dia seguinte lá iam as suas mulheres de "talêgo" de centeio à cabeça a caminho dos moinhos no rio Sever para trazerem a farinha do pão que alimentava a família todo o mês seguinte. Curiosamente, as pessoas eram aparentemente felizes e não faltava trabalho a ninguém, um pouco por toda a parte. Bem diferente dos dias de hoje. Todas as casas em todos os lugares, por mais ermos que fossem, como essa da foto na Meirinha que ilustra esta prosa, eram habitadas. Não se consegue ver na imagem, mas ao lado direito da casa está também anexo um forno a lenha onde era cozido o pão. Poucas são as casas por esses campos que não têm um forno e uma eira ao lado, porque eram essenciais à sobrevivência dos seus moradores. E também uma horta com uma fonte, um tanque ou um poço nas redondezas, para abastecimento de água potável para o seu consumo e regadio dos legumes que metiam na panela para as suas refeições.
Basta-me fechar os olhos e pensar um pouco: na Murta, a eira é também muito perto da estrada antes das casas e o forno era ao lado da casa principal. Um pouco mais acima, na Anta, a eira é no cimo de uma laje e o forno em frente da casa. No Penedo da Rainha a eira faz parede com a estrada e o forno é ao lado da queijeira. Na Tapada do Cabeço a eira fica a dez metros da Estrada do Pereiro e o forno na empena da casa. No Cancho de Ruivo, na Torre, no Pereiro, na Broca, no Maxial, no Vale do Cano, no Cabril, na Bica...
Em tantos outros lugares da minha freguesia existem estas estruturas para um imprescindível apoio doméstico às antigas donas de casa, quase sempre mães de numerosas proles. Jazem hoje por aí abandonadas, quase todas em ruínas, principalmente os fornos de lenha que vão abatendo por força das intempéries e do abandono. Já as circunferenciais eiras, onde, ano após ano, foram sendo amontoados e debulhados searas e grão, porque construídas sobre o imortal granito, ficarão, como as antas ou dólmens milenares que por aí abundam também, a testemunhar pelos séculos fora os usos e costumes das humildes gentes que por estas bandas conseguiram sobreviver do que a terra dava e ser felizes com o que tinham.
Refém de memórias tão queridas, a minha alma só irá deixar de lamentar estas perdas no dia que se fecharem definitivamente os meus olhos.
José Coelho

Pelo S.Martinho, castanhas e vinho...



Longe vai já o tempo em que nesta casa e nesta noite nos juntávamos mais de trinta comensais na sala de jantar para celebrarmos a Noite de S. Martinho. Sopa da pedra, vinho novo da casa, maçãs assadas no forno de lenha, marmelos cozidos em calda de açúcar, dióspiros, nozes e avelãs, biscoitos escaldados, castanhas e jeropiga. E um grande lume na lareira para aquecer e tornar ainda mais acolhedor o ambiente de festa e de harmonia. Mas, sobretudo, aquela união de toda a família próxima e distante desde os progenitores que já partiram, às irmãs, cunhados, sobrinhos e primos até à terceira geração. Porque é que as coisas realmente boas têm de ser sempre assim tão breves?

José Coelho - Texto e fotos

É fácil dizer que um fardo é leve...


 ... quando o peso não está nas suas costas.
Selfie José Coelho - 05.11.2022

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Coisas que leio...

Foto José Coelho - Por do sol na Lagem Alta - Beirã

Nunca te esqueças de olhar em volta. Por mais apressados que sejam os teus dias. O mundo tem belezas ímpares e, por vezes, andamos tão embrenhados em pensamentos inúteis, em preocupações, em angústias, que nos esquecemos de apreciar as coisas belas da vida. 

Não é o pôr-do-sol que vai terminar com os nossos problemas, é certo. Mas quando foi a última vez que paraste para o ver? É um espetáculo tão belo que pode, pelo menos, colocar um sorriso no teu rosto por breves instantes. 

Quando foi a última vez que paraste para brincar com uma criança? São tão puras e sinceras que o seu sorriso pode fazer-nos acreditar que vale a pena viver. 

Quando foi a última vez que te sentaste na relva e descalças-te os sapatos? Ou que caminhaste descalço à beira-mar? 

Não tens tempo, dizes tu... Mas basta um minuto para te sentires renovado.

Se não tirares um minuto por dia para olhar em volta e apreciar as coisas simples e belas deste mundo, todos os problemas te parecerão maiores. Se tirares um minuto, não estarás a perder tempo: estarás a deixar a tua alma respirar.

Às vezes deixamos as coisas para amanhã porque hoje estamos demasiado ocupados a resolver problemas... 

Quem nos garante que o amanhã chegará? 

Aproveita o hoje. Não vivas apenas. 

Aproveita a vida. 

E aproveita cada minuto da companhia dos que estão contigo.


Nami 
Palavras feitas de vento

terça-feira, 8 de novembro de 2022

Coisas (lindas) que encontro...


Meu Alentejo

Guardo-te
 aninho-te

no coração
 em ninho feito de aromas
 alfazema rosmaninho e alecrim

guardo-te
 aninho-te

em searas douradas de trigo
 entre os meus (a) braços

guardo-te
 aninho-te

na minha voz
 a força das papoilas vermelhas
 entre os trigais

guardo-te
 aninho-te

no meu olhar
 onde brilha o teu sol
 quente e acolhedor

guardo-te
 aninho-te

Porque esquecer-me de ti

Ester Cid

Amor-próprio e sensatez


Há um momento na tua vida em que percebes o que 
deixaste para trás e não o lamentas. Agradeces.

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Gosto do cheiro...

Foto José Coelho

A principal fonte de aquecimento durante o inverno em minha casa é o lume de lenha, no solo de uma bela lareira da nossa sala de estar, situada desde a sua remodelação onde anteriormente se situava a cozinha dos meus pais, quase, quase, no mesmo sítio daquela sua anterior congénere alentejana que tão bem nos aqueceu sempre, nos longos e gelados invernos de antigamente. 

Feita por encomenda e medida, de granito branco primorosamente esculpido por sábias mãos de uma célebre família de canteiros de Gáfete, tenha embora um ar algo mais fino e elegante, é tão eficiente como a sua rústica antecessora. E tal como ela nunca expeliu qualquer fumo para fora da sua zona de combustão, por mais insignificante que fosse. Para certificá-lo basta observar as paredes da sala de uma brancura imaculada, o que não seria possível se houvesse fugas indesejadas de fumos, por mínimas que fossem. 

Herdei dos meus pais e avós este gosto pelo lume de chão ao vivo e ao natural. E estou convicto que os meus dois filhos o herdaram também, pois, tal como o pai, não o trocam por quaisquer outros aquecimentos mais modernos e menos geradores de cinzas ou sobrantes.

O hábito faz o monge? Talvez. O meu avô José Lourenço (de quem herdei o nome) não dispensava sentar-se ao seu lume durante todo o outono e inverno, entrando até muitas vezes pela primavera dentro. E à minha avó Amélia, nunca lhe conheci qualquer fogão ou fogareiro, fosse a carvão, a petróleo ou a gás. Tudo o que cozinhava (e que comidinhas tão saborosas fazia) fosse inverno ou verão, era sempre em lume de lenha, na sertã ou nas panelas e tachos de barro.

Por seu lado, mal se mudou para a nossa casa aos 80 anos para viver connosco até ao fim da sua vida, o avô Faustino, pai do meu pai (não conheci a minha avó Adelina porque faleceu antes de eu a poder conhecer) imediatamente marcou, como território seu, o canto direito da chaminé com o seu banquinho de madeira, já que o outro, o esquerdo, foi toda a vida o canto do lume do dono da casa e meu saudoso pai. 

Um de um lado, outro do outro, não causavam porém qualquer problema, porque o espaço entre os dois era mais que suficiente para lá cabermos ainda todos, já que a chaminé ia quase de canto a canto da cozinha, tendo sido deixado apenas espaço para uma pequena despensa. Era aquela a zona vip da casa. Ali cozinhava a minha mãe todas as nossas refeições e ali se reunia a família todas as noites para se aquecer e confraternizar num harmonioso aconchego, conforto e paz, geradores de uma concórdia e felicidade indescritíveis.

Quando cada um de nós, os quatro irmãos, constituímos as nossas próprias famílias pelo matrimónio, levámos connosco, obviamente, aqueles hábitos simples e saudáveis. E mais tarde, os nossos filhos, também. Eu não troco o lume na lareira por nenhum outro aquecimento. Há lá melhor calorzinho que este? Assim que a gente entra em casa vindo do cortante frio da rua, é como que entra para o céu. Somos acolhidos por um ambiente tão confortável e naturalmente aquecido que é capaz de revigorar qualquer espírito por mais gelado que venha.

Os meus filhos, idem. O Pedro com a esposa e a filha vivem num agradável apartamento de uma grande cidade, mas têm também na sua bonita sala de jantar uma excelente lareira aberta com lume de chão não muito diferente da minha e que acendem diariamente durante todo o inverno. E o filho Manel também, pese embora a dele seja fechada com uma porta de vidro, daquelas que aproveita o calor da combustão ventilando-o simultaneamente para a sala e para os quartos no primeiro andar, aquecendo assim toda a casa. 

- Gosto do cheiro... 
  
Comentou, recentemente, uma vizinha e querida amiga, num post que publiquei no facebook no dia 1 de Novembro pp com a imagem da minha chaminé a fumegar ao vento. A mesma que ilustra hoje esta crónica. Entendi imediatamente que aquele "gosto do cheiro", não significava gostar de cheirar o fumo, mas, obviamente, do cheiro a lume e implicitamente a conforto, que o vento espalha sempre pelo ar.

Só poderia ser esse o sentido. 

O "gosto do cheiro" que a minha estimada vizinha comentou e eu subscrevi na íntegra é, para além das palavras em meu entender, um sentimento muito mais profundo. Aquele "gosto do cheiro" é algo que habita na nossa memória e refere-se ao odor da lenha a aquecer todos os lares habitados com lareiras acesas que se disseminava pela aldeia inteira quando ela era fervilhante de vida e de gente, noutros tempos. 

Refere uma realidade que aos poucos se tem extinguido. 

E significa para mim, entre muitas outras coisas, a vida que vivi. A saudade imensa de um tempo que se foi. Os vizinhos, amigos e conterrâneos que fizeram parte do que hoje sou. Finalmente e mais do que qualquer outro sentimento, significa a minha família, e, pelo meio, a que já partiu e não voltarei a ver enquanto viver. 

Que ao menos esse fumo branco e sinal de vida que sai da minha chaminé em cada inverno, leve com ele o amor que continuo a sentir por todos eles e suba tão alto, tão alto, que consiga alcançá-los onde eu sinceramente acredito que se encontram e um dia, já não muito longínquo, voltaremos a estar novamente todos juntos. Para sempre.

José Coelho

Boa semana

domingo, 6 de novembro de 2022

Divagando...

A Murta, ao longe, na solitária imensidão da raia

Sentado no alto de um cancho sobranceiro à imensa raia delimitada pelo vale por onde corre o rio Sever, a circundar toda a minha freguesia da Beirã até ao termo de Castelo de Vide lá para os lados da Defesa, conheço tudo quanto a minha vista alcança. Cada canchal, cada fisga no meio deles, cada volta dos regatos e ribeiros, cada barroca e cada fonte, cada palheiro ou antiga casa de habitação. Até do outro lado do rio, em Espanha, conheço aquele casario branco lá ao longe. São as Gagas, onde o tio Joaquim - irmão mais novo do avô materno - guardava as cabras, naquela "finca" para onde eu ia passar as férias grandes com os primos António e Joaquim, ambos quase da minha idade, mas que infelizmente não poderei nunca mais voltar a abraçar.

Detenho o olhar na casinha em ruínas da avó Amélia e do avô-padrinho José Lourenço, do qual herdei o nome, ali juntinho ao ribeiro da Cavalinha. E basta-me cerrar as pálpebras para reconstruir em pensamento os dias maravilhosos que lá vivi com aquelas duas santas criaturas. Éramos tão felizes e não sabíamos! Consolava mais aquela sopinha de batatas feita ao lume na sertã e no refogado de pingo do toucinho, propositadamente frito para dele se aproveitar o unto, do que consolam os manjares modernos que hoje são tão fáceis de degustar em qualquer mesa de qualquer casa, até mesmo das mais modestas.

É tão fácil “ver” mentalmente a avó Amélia a dar os seus pontinhos nas roupas coçadas sempre a precisarem de amanho, sentada num "tropeço" de cortiça ao sol da tarde, na empena da casa, enquanto o avô Zé se afadigava nas suas artes de construir uns lindos pássaros de cortiça que moviam a cabeça e o rabo ao ritmo do pêndulo de chumbo que ele habilmente inventara para lhes dar vida e movimento… E a cerejeira enorme, carregada de cerejas pretas e doces como açúcar! E a sua vizinhança tão boa. A guarda da passagem de nível mais a família, a ti Ana do Galacho mais o filho Zé Jaquim, e um bocadinho mais à frente o ti Zé Tomé, que Deus os tenha a todos na sua glória.

Entre o matagal que agora cerca a casa, nuns restos do antigo jardim, as flores de noiva e as açucenas da avó Amélia continuam teimosamente até hoje a romper viçosas e a florir nos finais de cada inverno, indiferentes ao mato que quase as sufoca mas que elas conseguem vencer. E a cancela cor de rosa lá continua de pé. Inútil, mas firme e hirta, no seu posto. O telhado já ruiu em parte, a cozinha da casa foi vandalizada e retiradas as pedras de granito da lareira, não sei se roubadas, se com ordem do dono. Mas também quem é que quer saber de uma casa em ruínas rodeada de mato? Só eu mesmo, porque ali vivi momentos felizes e de profunda paz num tempo de enorme pobreza geral mas de muitos valores que infelizmente hoje já pouco se usam.

Mais para a direita, na solitária paisagem, o Monte da Murta. Lindo e antigo, em boa hora totalmente restaurado por uma família abastada com raízes na Beirã. E canchos, canchos e mais canchos, orlados de sobreiros, azinheiras e carvalhos, até onde a terra toca o céu, na linha do horizonte. Por aqueles canchos caminhei, muitas vezes, com contrabando às costas, a caminho da Loja espanhola do Batão ou do Bravo, do outro lado do rio. Levávamos café em grão, dúzias de ovos e outras coisas, trazíamos no regresso a casa as belíssimas "miganas" (pão espanhol) toucinho salgado, peças de louça de pirex, bombazina a metro e algum chocolatito dos mais baratos, na volta. Algumas vezes fugi na frente dos guardas-fiscais, mas aos carabineiros nunca vi. Eles sabiam que íamos levrr-lhes coisas que por lá eram escassas devido à sua guerra civil e que em troca trazíamos produtos que eles precisavam vender. 

Estou a lembrar-me daquele jarro com seis copos de vidro que era a prenda de anos para a namorada e que atirei para detrás de uma parede mal vi os guardas à nossa espera no caminho. Eram o senhor Gonçalves e o senhor Correia. Só que eles toparam-me a deitar fora o embrulho…

- O que é que deitaste fora meu malandro? Perguntou o senhor Gonçalves com ar zangado.

- Nada, nada! Respondi-lhe aflito.

Mas ele foi ver e encontrou logo o embrulho da prenda de anos já preparada pela tia Joaquina do Bravo, com o laço e tudo.

- Ó senhor Gonçalves, não me tire isso que é um jogo de copos para dar à minha namorada que faz anos amanhã! Supliquei.

E quem não chora, não mama... 

Boa pessoa, o senhor Gonçalves devolveu-me o embrulho dizendo num tom severo:

- Leva lá então isso, mas para a outra vez ficas sem ele, para não te armares em esperto…

Tantas recordações. 

Tantas e tão boas. 

Eram tempos difíceis sim, mas havia trabalho com fartura por todo o lado, toda a gente se governava. Não havia desemprego nem subsídios. Nem eram necessários. Começava-se a trabalhar mal se acabava a quarta classe na escola. Quem diria como isto era e como está hoje. Muita gente que eu ainda conheci cá nasceu, cá viveu e morreu, sem nunca daqui ter saído. Se os nossos pais e avós voltassem hoje, seguramente não iam gostar desta vida moderna, mas vazia de bons princípios e valores, nem iam ser felizes como foram no seu tempo. Como eu já não consigo ser. Este não é, de todo, o meu mundo...

José Coelho