A vizinha Joaquina Brites partiu aos 93 anos, deixando atrás de si uma vida inteira de bondade, de fé, de trabalho e de afetos. Para mim não foi apenas uma vizinha: foi quase uma segunda mãe, uma presença firme e doce, sempre atenta, sempre próxima, sempre verdadeira.
Fui recebido no mundo pelas mãos dela. Foi a vizinha Joaquina quem me deu o primeiro banho, naquele tempo em que as crianças nasciam em casa, rodeadas pelas mulheres da vizinhança e pela sabedoria das parteiras.
A minha mãe fez o mesmo por ela quando nasceu o seu primeiro filho, que não sobreviveu. Depois veio a filha e nossa vizinha de toda a vida também, selando entre as duas um laço que ultrapassava a amizade: tornaram se comadres, quase família, unidas por gestos de cuidado e de vida.
Cresci a sentir o seu carinho. Era um afeto simples, genuíno, daqueles que se mostram tanto num abraço como numa palmada educativa quando eu me portava mal. Nunca duvidei que gostava de mim. Nunca duvidei da sua presença. Era uma mulher boa, daquelas que fazem falta ao mundo.
Há poucas semanas, fui visitá-la ao lar onde estava acolhida. Assim que me viu, o seu rosto iluminou-se e exclamou, com aquela alegria pura que só vem de uma amizade antiga: “Olha o meu Coelhinho…”
Tratava-me assim e naquele diminutivo havia toda a ternura de uma vida inteira. Agarrou-me a mão e nunca mais a largou.
As assistentes vieram buscá-la para a missa do Domingo de Ramos, como ela tinha pedido. Desolada e sem me largar, murmurou: “Ohhhh… mas agora tenho aqui as visitas…”
Crente e cumpridora da sua profunda fé toda a vida, naquele momento porém, preferia ficar comigo. Disse-lhe ao ouvido que fosse, tranquila, que nós voltaríamos. E ela foi, sempre a acenar, sempre a olhar para trás, até desaparecer pela porta da sala.
Mal sabíamos nós que seria aquele o nosso último encontro.
Hoje ao despedir-me dela senti que perdi uma amiga da vida inteira. Mas sinto também uma profunda gratidão por tudo o que me deu, por tudo o que foi, por tudo o que deixou em mim.
A vizinha Joaquina partiu, mas fica a sua memória. A memória de uma mulher simples e extraordinária, generosa, trabalhadora, bondosa, que marcou vidas com os seus pequenos e amorosos gestos.
Que descanse em paz. E que saiba, onde quer que esteja, que deixou muito do seu amor espalhado por este mundo e nas pessoas que, como eu, tiveram o privilégio de merecer um lugarzinho no seu coração.
