segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Contrabandistas

Trilhos da raia Beiranense - Foto José Coelho


Onde há raia houve com certeza contrabando e contrabandistas. E houve também, como não podia deixar de ser, muitas peripécias contadas pelas pessoas que na escuridão da noite caminhavam pelas veredas entre matos e canchais em direcção à fronteira, a qual na nossa freguesia é toda limitada pelo rio Sever.

Tive a sorte de conhecer muitos desses valentes, alguns da minha família mais próxima, por sinal homens respeitáveis, sérios, de poucas falas e ainda menos sorrisos. Sei muitas histórias que ouvia deliciado, narradas por essa gente simples e pura que deliberadamente infringia as leis, mas com a única e julgo que aceitável intenção de ganharem o sustento das numerosas proles de seis, sete, oito e às vezes mais filhos a seu cargo, e, por isso mesmo, sem qualquer intenção malévola, premeditada ou criminosa, de desafiarem à toa a autoridade do Estado.

Para eles, transportarem aquelas pesadas cargas às costas no escuro da noite, debaixo de bom tempo ou de invernia, terem ainda que atravessar as correntes e enchentes do rio Sever semi-nus com carga e roupa sobre a cabeça para não as molharem, mais não era que uma “profissão” bastante arriscada, e que, por isso mesmo, era muito mais bem paga do que qualquer outro serviço rural que pudessem desempenhar por estas terras pobres onde a agricultura foi quase sempre de subsistência.

Eu próprio e a minha irmã mais velha fomos também contrabandistas ainda que em pequena escala e por conta exclusiva dos nossos pais que nos mandavam levar para Espanha certos produtos – 3 ou 4 dúzias ovos por exemplo – em   troca de coisas que trazíamos na volta para cá, essencialmente víveres de primeira necessidade como por exemplo latas de azeite, toucinho a granel, pão e conservas. Também uma boa parte dos enxovais das minhas irmãs – louças de pirex, esmaltes, sertãs e outros utensílios de cozinha – vieram de Espanha por essa via. Aos poucochinhos. Numa semana trazíamos o tacho, na outra semana a cafeteira, depois a frigideira…

Porém os profissionais das madrugadas caminhavam curvados pelo peso de 30 kg de carga, acompanhados sempre pelo receio de serem detectados pelos guardas fiscais portugueses ou pelos guardas-civis espanhóis. Com os olhos tinham que vigiar o caminho e com os ouvidos escutar atentamente qualquer ruído que os pudesse alertar da proximidade dos fardados para que não lhes saltassem ao caminho, porque, se tal acontecesse, era largar a carga, desatar a fugir e esconderem-se logo que pudessem. Perdiam o fôlego, perdiam a carga, perdiam a jorna da noite, perdiam também o esforço de muitas horas de caminho. Mas outras viriam! O que interessava era não se deixarem “ganfar” pelos guardas porque seriam imediatamente presos e teriam mesmo problemas mais sérios.

Era assim por todas estas aldeias e lugarejos da raia. Beirã, Cabril, Bica, Pereiro, Barretos, Vales, Vale de Milho, Ranginha, Cabeçudos, Relva da Asseiceira, Aires, Tapadão de Mato e muitos outros, porque nesse tempo era tudo habitado onde quer que houvesse uma casinha, por mais isolado que fosse o lugar. Ao escurecer formavam-se os grupos no local de encontro que só eles sabiam, traçavam-se os percursos, vigiavam-se os movimentos dos guardas e desaparecia-se na noite para se ganhar o preço previamente negociado.  Assim que os mais novos tinham forças para “alombarem” com as cargas e pernas para caminharem longas distâncias, entravam para o grupo. Era assim com eles, porque assim tinha sido com os seus pais e avós, assim seria provavelmente também mais tarde com os seus filhos e netos.

Mulheres contrabandistas também as havia e muitas, se bem que com cargas mais leves. E também elas atravessavam rios e ribeiros nas noites de chuva ou de bom tempo para ajudarem no sustento das casas se fosse preciso. Muitas vezes vi a minha mãe e as minhas tias enrolarem-se em peças de “pana” aquilo a que hoje chamamos bombazina para assim passarem, debaixo das suas roupas, metro a metro, peças inteiras do tecido que iam trazendo aos poucos das lojas do outro lado do rio; da loja "do Batão", da "do Bravo", ou "da do Pinadas", que eram fornecidas directamente aos alfaiates das aldeias para as transformarem em calças, casacos ou fatos completos muito apreciados nesse tempo por serem mais quentes e durarem muito mais tempo que os tecidos portugueses.

Vi, "com estes dois olhos que a terra há-de comer" alguns vizinhos guardas fiscais e guardas-civis espanhóis também, a ajeitarem um quilo do café em grão da marca “Guapa” em cada um dos bolsos laterais dos casacos das suas fardas, na loja do sr. João Batista e na loja da Ti Zabel, minutos antes de embarcarem nos comboios que iam patrulhar entre a estação da Beirã e a de Valência de Alcântara. Eles próprios praticavam o contrabando – eu vi, como já afirmei, ninguém me contou – provavelmente porque os seus ordenados não seriam por aí além muito famosos.

Contrabandeava-se um pouco de tudo nesse vaivém constante pela raia. Mas o contrabando puro e duro eram as cargas de volfrâmio – nas barreiras do rio Sever perto do Matinho ainda se podem ver os buracos deixados pela exploração desse minério – também de especiarias como a canela e os cominhos, de relógios de pulso, de tabaco, de papel de fumar, de máquinas de costura e até de gado, sendo essas práticas as que estavam sob a mira mais atenta das autoridades.

É preciso não esquecer que esta comunhão entre os dois países não fez passar apenas pela raia cargas às costas, fez também passar todo o tipo de contactos e intercâmbios pessoais e culturais. A minha sogra nasceu na aldeia de S. Pedro da comarca de Valência de Alcántara em Espanha e casou com o meu sogro, natural dos Barretos-Beirã-Portugal. Os irmãos do meu avô materno são todos espanhóis pois só ele casou por cá com a minha avó. Mas também a toponímia e a linguagem ganharam pronúncias próprias porque muitas palavras portuguesas "espanholaram-se" enquanto muitas palavras espanholas se "aportuguesaram". Até a gastronomia misturou sabores do lado de cá e do lado de lá da fronteira.

O contrabando foi ainda, como já disse, feito de muitas histórias. Cada contrabandista, cada guarda-fiscal, cada guarda-civil e cada caminho percorrido por estas gentes, tem as suas. De dia era terra de camponeses, à noite de contrabandistas. Na mesma aldeia viviam, lado a lado, guardas fiscais e contrabandistas, as duas faces antagónicas do contrabando. Conviviam e ocupavam os mesmos espaços quer nas aldeias, quer nos caminhos percorridos. Espreitavam-se com astúcia e engenho tentando cada um, na defesa do seu mister, enganar o outro.

Ambos conheciam os caminhos - muitos guardas fiscais eram desta zona, filhos até de contrabandistas e, na sua adolescência, antes de ingressarem naquele organismo policial, teriam andado por aí com algumas cargas às costas também, sabendo, por experiência própria, muitos dos truques e estratagemas que agora lhes eram úteis, mas por motivos diferentes. Assim, enquanto uns vigiavam atentamente caminhos e veredas, os outros percorriam-nos, conseguindo ludibriar sorrateiramente tal vigilância, trazendo e levando mercadorias que alimentavam o comércio de ambos os países. 

Curiosamente, esses caminhos eram o sustento de todos. De uns e dos outros.

Hoje já não há contrabando, pelo menos o praticado nos moldes aqui referidos porque deixou de haver necessidade de vigiar a fronteira. Os guardas fiscais foram extintos, os contrabandistas envelheceram e os caminhos deixaram de ser percorridos, nada mais restando desses trilhos. O silêncio da noite por esses canchais só é perturbado agora pela actividade dos javalis, dos saca-rabos e raposas que por aí vagueiam em busca de alimento.

Acabaram-se pois as aventuras e as histórias. Inevitavelmente as memórias de tudo isso ir-se-ão perdendo. Memórias comuns a todas as aldeias e lugares da nossa zona raiana onde existiu esse contrabando, que foi, acima de tudo, o pão que alimentou muitas bocas. E os contrabandistas foram protagonistas relevantes desse período não ainda muito distante da nossa história colectiva que seria justo preservar. 

José Coelho in Histórias do Cota

Leveza nas relações humanas


Valorizo profundamente a simplicidade e a autenticidade, pois são qualidades que tornam as relações humanas verdadeiras.

Pessoas que conseguem ser elas próprias, sem artifícios e sem máscaras, têm o poder de criar ambientes acolhedores e de transformar momentos comuns em experiências especiais.
A sua presença dá tranquilidade e faz com que o nosso coração se sinta em casa, independentemente do lugar em que estejamos. É com quem compartilha essa maneira de ser que a vida se torna mais bonita.
Não é a grandiosidade das ocasiões que nos marca, mas a companhia de quem nos faz sentir em paz e desperta o melhor que há em nós.
Estar perto de pessoas sinceras que querem o nosso bem de verdade, é o que dá sentido aos dias e faz com que a vida brilhe mais intensamente.
Boa semana, bom Entrudo e bom início da Quaresma 2026.
Cuidem-se…

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Bom fim de semana



Tente sempre entender que algumas pessoas são imprevisíveis e decepcionantes.

Nunca ponha a mão no lume por ninguém, porque o facto de você ser incapaz de fazer mal seja a quem for, não vai impedir que haja quem seja capaz de o fazer consigo.

É doloroso, é cobarde, mas acredite que o fazem, mesmo.

* 14. 02. 2026

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Um cenário irreversível

Discorre-se extensivamente sobre alterações climáticas, contudo, na prática, o debate permanece circunscrito à esfera mediática, funcionando sobretudo como combustível para ciclos noticiosos. Constata-se uma marcada falta de empenho na implementação de soluções tangíveis, sendo que líderes de grandes potências frequentemente minimizam o tema e consideram os alertas como meramente especulativos e infundados.
Embora se registe um elevado volume de discussões e a publicação de inúmeros relatórios, subsiste uma lacuna substancial entre a retórica e a ação. Conferências internacionais acumulam compromissos, mas a concretização de medidas estruturais é sistematicamente adiada devido a interesses económicos e divergências ideológicas. Tal contexto alimenta uma perceção generalizada de impotência coletiva perante fenómenos ambientais cada vez mais alarmantes, para os quais pouco ou nada tem sido efetivamente prevenido.
É recorrente a utilização do provérbio: “quem vier atrás que feche a porta”, ilustrando a tendência para adiar responsabilidades para gerações vindouras.
Todavia, esta postura de transferência de responsabilidades revela uma ausência de visão estratégica relativamente ao impacto das decisões atuais sobre o futuro. O ciclo do adiamento perpetua problemáticas e agrava desafios ambientais, sublinhando a urgência de uma mudança de paradigma que privilegie a ação imediata e a solidariedade entre gerações.
O funcionamento das grandes potências agrícolas – entre outros setores – assenta na necessidade de escoamento de excedentes, prática facilitada pelo impulso consumista. Se cada indivíduo produzisse aquilo que consome, como outrora, tornar-se-ia desnecessária a aquisição de produtos provenientes de cadeias produtivas internacionais, particularmente europeias, que procuram responder a todas as necessidades dos consumidores.
Este modelo perpetua uma abundância artificial e o lucro de curto prazo, frequentemente sacrificando o equilíbrio ambiental. A dependência de cadeias globais de produção fragiliza a resiliência das comunidades, tornando-as suscetíveis a crises e a fenómenos extremos, cuja frequência tem vindo a aumentar.
O universo vegetal, independentemente da espécie, enfrenta crescentes dificuldades de sobrevivência, havendo registo de perdas inclusivamente em espécies tradicionalmente resilientes como o sobreiro, incapaz de resistir às temperaturas elevadas e à escassez de humidade dos verões atuais.
Esta realidade deveria traduzir-se num esforço contínuo e sistemático de preservação dos ecossistemas naturais.
É, por conseguinte, essencial fomentar práticas sustentáveis e implementar políticas que protejam a biodiversidade. Apenas deste modo será possível mitigar os efeitos das alterações climáticas e salvaguardar recursos essenciais, como a água e as árvores, para as gerações futuras.
Assim, os custos associados ao consumo de água agravam-se durante o verão, tornando-se um esforço, por vezes infrutífero, para evitar a perda de árvores, especialmente aquelas que representam legado familiar e testemunho histórico de cada região.
Por último, testemunha-se o surgimento de padrões de temperatura cada vez mais anómalos ao longo do ano, potenciando incêndios devastadores ou precipitações intensas que provocam inundações sem precedentes, num cenário climático de extremos cuja mudança se revela progressivamente irreversível.
E, apesar de tudo isso, persiste a tendência para ignorar o problema.
Imagem da net

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Tudo o que necessito

Crescer no seio da humildade, para muitos é sinónimo de privações; para mim foi fonte de ensinamentos que transcenderam o valor material. A vivência humilde ensinou-me a relativizar a importância do vil metal e a reconhecer felicidade noutras pequenas coisas.

Aprendi cedo que a riqueza não se mede pelo dinheiro que se tem na carteira ou no banco, mas pelo calor humano e pelos laços familiares que se criam. Foi na simplicidade dos dias e na ausência de bens supérfluos que descobri o verdadeiro significado de partilha e solidariedade, lições que continuam hoje ainda a nortear o meu caminho.
Para quem não viveu essa realidade pode parecer impossível conseguir ser feliz onde há pouco. No entanto em nossa casa a abundância era de alegria e boa disposição. A minha mãe com seu sorriso sempre pronto a servir, tornava qualquer tarefa diária – fosse a fazer o jantar, ou a remendar as nossas roupas – em momentos alegres e luminosos.
Era nesses instantes que se construía uma cumplicidade inabalável entre nós. O tempo parecia abrandar todas as dificuldades quotidianas para nos oferecer a oportunidade de rirmos, conversarmos e, acima de tudo, estarmos verdadeiramente presentes uns para os outros.
Pensamos que a vida melhorou, mas será que, de facto, somos agora mais felizes? Com tanto conforto e tecnologia que nos rodeiam noto que muita gente perdeu a capacidade de se maravilhar com as coisas simples.
Por isso olho sem certeza se este “agora” é realmente superior ao “d’antes”. Sinto falta das pequenas alegrias, como ver a minha Florinda sentadinha de mantinha sobre as pernas aconchegada no sofá da sala, ceguinha pela retinopatia diabética mas com ouvido muito apurado, a cantarolar e a bater ritmadamente os pés ao som das músicas que a tv emitia e lhe eram familiares.
A memória desses momentos aquece-me o coração e recorda-me que mesmo diante das adversidades é possível encontrar motivos para sorrir e agradecer. A força e a ternura dos mais velhos ensinam-nos a dar valor ao essencial: a saúde, a presença, o afeto.
Gestos simples, quase invisíveis na altura, são agora tesouros de saudade, provas de que a felicidade pode florescer mesmo numa vida marcada pela velhice e perdas físicas como eu vi na minha mãe que mesmo sem vislumbrar a mais ínfima centelha de luz continuava a sorrir, a cantarolar e a bater o seu pezinho ao ritmo das melodias que a alegravam.
Desse ambiente herdei o meu estado de espírito tranquilo e uma gratidão imensa. Sou completamente desapegado do dinheiro e de bens materiais dispensáveis, que muita gente considera essenciais. Não me preocupo com luxos, marcas ou tendências de roupas, visto o que me agrada, comprado na feira ou numa loja de marca.
Esse desapego libertou-me de muitas ansiedades e permitiu-me perceber que o verdadeiro luxo é viver sem pressa, mas principalmente sem a constante necessidade da aprovação dos outros. A liberdade de sermos autênticos vale mais que qualquer etiqueta.
Prioridades para mim, são outras coisas muito mais banais: jantar em casa com a família vale mais do que qualquer experiência gastronómica num restaurante com estrelas michelin; aprecio mais a simplicidade de umas belas migas de pão extremenhas com sardinhas fritas, do que qualquer mariscada. O modo simples como cresci moldou esta minha forma de ser e de viver pela qual dou graças todos os dias da minha vida.
Vivemos, infelizmente para todos nós, tempos complexos, incertos e imprevisíveis, não faz sentido tornar a vida ainda mais difícil com preocupações que não nos acrescentam nenhum valor. Sabemos quanto ela é breve, mas insistimos em viver como se fossemos eternos, perseguindo riquezas materiais em detrimento da verdadeira felicidade.
Para mim e por enquanto a vida mantém-se serena, rodeada de tranquilidade. A sua chave está no olhar atento a tudo o que me rodeia e na valorização do que realmente me importa que não é tão pouco como parece, porque é tudo o que necessito para ser feliz.