terça-feira, 21 de julho de 2026

Sou assim

Não sou – nunca fui – movido por interesses pessoais, nem por ambições escondidas. Tudo o que escrevo sobre a minha aldeia, a Beirã; sobre o Ramal de Cáceres; sobre os vestígios arqueológicos que atravessam milénios; tudo o que faço na igreja; tudo o que fiz nas iniciativas culturais – o grupo de cantares, os teatros – a minha candidatura à Junta e tantas outras coisas em que me envolvi quase desde criança, nasceu por uma única razão: É assim que eu sou.
Desde pequeno aprendi a olhar para a minha terra com responsabilidade. Não como palco. Não como oportunidade. Não como caminho para qualquer vantagem. Olhei sempre para a Beirã como quem olha para a sua própria casa: se precisa de cuidado, cuida-se; se precisa de voz, fala-se; se precisa de defesa, defende-se.
Ao longo da vida, envolvi-me em tudo o que senti que podia ajudar a comunidade.
Criei o Grupo de Cantares da Beirã em 1995, que se extinguiu dois ou três anos depois porque os elementos mais velhos foram partindo – a D. Zita, o Senhor José Serras, entre outros. Ofereci à Tuna Sénior de Marvão, quando dela fiz parte e onde é também um sucesso, algum do melhor espólio do Grupo de Cantares da Beirã, como por exemplo: Aurora tem um menino, conforme a ouvia cantar à minha mãe; Senhora Cegonha, do Grupo de Cantares de Portel; Saias à moda antiga, da minha autoria; Mariazinha, Noite Feliz, entre outras.
Criei, com a D. Amália Baldeiras, o grupo de teatro que tanto fez rir a aldeia, e mais tarde aquele outro espetáculo que se realizou no adro da igreja. Fiz tudo isso porque acredito que a cultura mantém viva a alma de um povo e impede que a aldeia adormeça no esquecimento.
Defendo o Ramal de Cáceres porque sei que uma linha férrea não é apenas ferro: é futuro, é ligação, é dignidade. Fotografo e publico vestígios arqueológicos porque a história não é propriedade de ninguém, mas responsabilidade de todos.
Sirvo a igreja porque a fé, para mim, é caminho, é pertença, é forma de estar. E é por isso que, quando falta quem cante o salmo, sou eu que subo ao ambão. Não por protagonismo, não por vaidade, mas porque mais ninguém o sabe fazer. Faço-o como sempre fiz tudo na minha vida: para que nada falhe, para que a comunidade não fique sem voz, para que a celebração siga inteira. Ali, diante da assembleia, não estou a representar nada - estou apenas a ser quem sou.
Candidatei-me à Junta de Freguesia porque surgiu um projeto turístico com o apoio dos governos de Portugal e Espanha na altura, que iria devolver os comboios aos carris a partir de Cáceres, com ligação à Linha do Leste até Badajoz e Mérida. Entendi que podia contribuir para ajudar a agilizar esse projeto – não porque precisasse de qualquer benefício, mas porque vi ali uma oportunidade de devolver vida ao ramal e esperança à região.
Convém acrescentar aqui que já tinha sido convidado três vezes para cabeça de lista em eleições anteriores e recusei sempre, apesar de ter ficado grato pela confiança em mim depositada. Só ao quarto convite, a mera hipótese – porque nunca foi uma certeza – de voltar a ver os comboios nos carris do Ramal de Cáceres me seduziu a aceitar esse desafio.
Muita gente zombou sem se preocupar minimamente em tentar saber do que se tratava, optando pelo mais fácil – o bota-abaixo. Contra ventos e marés dei a cara, consciente de que, não sendo a antiga ligação Lisboa–Madrid, seria pelo menos uma forma de voltar a dar alguma utilidade ao Ramal de Cáceres para que ele não morresse definitivamente.
Nunca procurei nada para mim. Nunca precisei. Nunca quis.
A minha forma de estar na vida é simples: servir a comunidade civil da qual faço parte e a comunidade cristã à qual pertenço. Não sou nenhum herói – rejeito completamente esse título. Não sou vítima de coisa nenhuma – nunca me coloquei nesse lugar.
Sou apenas e só aquilo que sempre fui: um homem que acredita que a sua terra merece ser cuidada, que a sua gente merece ser respeitada, que a sua história merece ser preservada. E tudo o que faço nasce APENAS dessa raiz. Não de interesses. Não de cálculos. Única e simplesmente da minha maneira de ser.
Sei – tenho absoluta certeza – que atrás de mim não virá quem melhor fará, porque cada dia mais cada pessoa só está preocupada com o seu umbigo. E não há volta a dar.
Pedro Coelho
Foto

Cante Alentejano à Senhora do Carmo

Na tarde quente do passado dia 16 de julho na Beirã, quando o sol escorria pelas paredes brancas da aldeia como ouro antigo, estava eu, diante da igreja cheia, sentindo o coração bater mais depressa do que a respiração.
A Senhora do Carmo brilhava no seu altar, rodeada de flores e de uma luz que parecia vir de dentro dela. E eu sabia que o momento se aproximava, aquele instante em que a minha voz ficaria sozinha, exposta, frágil, entregue.
O silêncio caiu. E comecei.
“Senhora… que és Padroeira… da nossa terra… hospitaleira.”
Sempre que canto estes versos, sinto a alma tremer. Há um aperto que me sobe à garganta, uma emoção que ameaça quebrar-me a meio. Mas avanço. Avanço porque não canto sozinho: canto com a fé de todos, canto com a história da aldeia, canto com a Senhora a olhar para mim.
Alonguei o “hospitaleeeeiiiraaa” como quem estende a mão à assembleia. E então aconteceu o milagre de todos os anos: o coro e a igreja inteira levantaram-se numa só voz.
“Nossa senho-o-o-ra do Carmo… que está-á no seu altar…”
Aquele momento não se explica, vive-se. A igreja vibrou. As velas estremeceram. As paredes respiraram. E eu senti que a aldeia inteira estava ali, unida, como se cada pessoa tivesse deixado à porta o peso da vida para entrar só com a fé.
O Senhor Bispo e os dois reverendos Padres voltaram-se para a Senhora e cantaram conosco. Não como autoridades, mas como homens tocados pela mesma luz.
E isso, para mim, foi uma bênção silenciosa.
Depois, o silêncio voltou.
E eu, sozinho outra vez, retomei o cante:
“Pedi-i-mos… a uma vó-óz… Nossa Senho-o-ra, rogai por nós.”
A voz embargou-se, mas não caiu. O coração apertou, mas não me traiu. E quando terminei, estava lavado em incontíveis lágrimas.
Como sempre.
Lágrimas de devoção, de felicidade e de missão cumprida.
Naquele dia, não fui apenas tenor. Fui ponte. Fui oferenda. Fui o homem que deu voz ao que todos traziam no peito.
E a Senhora do Carmo ouviu.
Texto e foto

quarta-feira, 15 de julho de 2026

O antigo ritual dos ordenados na mesa (para o meu amigo Mário Francisco)

Havia, antigamente, um gesto que não se ensinava – herdava-se. Um gesto simples, quase sagrado, que atravessava casas pobres e casas remediadas, como se fosse uma lei escrita no silêncio das famílias.
O filho chegava do trabalho, ainda com o cheiro da oficina, da lavoura, da escola onde dava explicações, e pousava na mesa da cozinha tudo o que tinha ganho. Não era muito. Às vezes eram cento e cinquenta escudos, outras vezes três mil, mas o valor não estava na quantia, estava na entrega.
A mãe olhava as notas como quem olha o futuro. O pai sorria devagar, com aquele orgulho que não se diz, apenas se respira. E fazia-se silêncio. Um silêncio cheio de sacrifícios, de noites mal dormidas, de pão contado, de sonhos adiados para que o filho pudesse avançar.
Era assim em muitas casas da Beirã, da Beira Baixa, do Alentejo, de Cascais, em todo o país onde a dignidade era maior do que o dinheiro. O ordenado na mesa era mais do que salário: era respeito. Era reconhecimento. Era amor sem palavras.
O menino que entregava 150 escudos sabia que estava a devolver ao mundo um pouco do que o mundo lhe tinha dado através dos pais. O menino que entregava 3.417 escudos sabia que estava a honrar o esforço do pai que ganhava 1.900, e a serenidade da mãe que via ali, naquela mesa, a prova de que a vida tinha valido a pena.
E ambos – o menino pobre e o menino “rico” – aprendiam cedo a mesma verdade: o valor das coisas não está no que se recebe, mas no que se entrega.
Hoje, quando olhamos para trás, percebemos que aquele ritual antigo era a forma mais pura de gratidão. Era a vontade de ajudar. Era o respeito pelos sacrifícios dos pais. Era a memória a nascer no gesto.
E talvez por isso, quando escrevo, avivo em alguns amigos essa lembrança: a mesa da cozinha, as notas pousadas, o silêncio feliz, e o menino – qualquer menino – que aprendeu o valor do mundo antes de o mundo lhe dar valor.
Um abraço, amigo Mário. Tchim-tchim, à nossa! Somos uma geração como já não haverá outra, nunca mais.
15. 07. 2026

O menino que aprendeu o valor do mundo antes de o mundo lhe dar valor

Mesmo quando o tempo tenta levá-las devagar, há memórias que não se apagam. Ficam ali, como pedras antigas aquecidas pelo sol, prontas a serem tocadas sempre que o coração precisa de recordar de onde veio. A minha começa numa aldeia pobre, onde a chuva não era apenas chuva: era ausência de trabalho, ausência de pão, ausência de dinheiro. Uma semana de céu fechado era uma semana de mesa curta, e ainda assim as mães camponesas punham a mesa todos os dias, como se a esperança fosse também um alimento.
A mãe Florinda punha a mesa para seis. Todas as outras mães punham e algumas para oito, para dez. Era um gesto que não se discutia, não se lamentava, não se dramatizava. Fazia se. E nesse fazer havia uma grandeza silenciosa que só quem viveu a pobreza verdadeira consegue compreender.
Não era heroísmo. Era sobrevivência. Era amor. Era dignidade.
Naquele tempo, os merceeiros eram quase santos sem altar. Nunca negavam um avio, fosse farinha, azeite, arroz, sabão ou açúcar. Sabiam que a pobreza não era falha moral, era destino. Sabiam que o freguês voltaria, que pagaria até ao último centavo assim que o sol deixasse trabalhar a terra. Havia uma ética antiga entre pobres e pobres: ninguém ficava para trás.
Essa confiança mútua foi, talvez, a primeira forma de solidariedade que aprendi a reconhecer.
Foi nesse mundo que a Mestra Vicência me ensinou a ler, a escrever e a contar. E, sem saber, abriu-me uma porta que nunca mais se fechou. A leitura tornou-se abrigo, a escrita tornou-se casa, os números tornaram-se ferramenta. Enquanto os filhos dos funcionários públicos tinham brinquedos, roupas novas e mesas fartas, eu tinha livros emprestados por eles e, sem perceber, tinha o mundo inteiro dentro deles.
A leitura e a escrita eram o meu refúgio. Não para fugir da vida, mas para a compreender. Era a forma de me erguer acima das ausências, de construir dentro de mim aquilo que faltava fora. Talvez por isso tenha nascido tão cedo o "meu vicio da escrita”: porque escrever era a única coisa que não dependia da chuva, do patrão, da colheita, da carteira vazia. Escrever era liberdade.
Aos onze anos, quando entreguei à minha mãe os meus primeiros cento e cinquenta escudos mensais, senti uma alegria que ainda hoje me aquece. Não era dinheiro, era dignidade. Era poder ajudar. Era perceber que, mesmo pequeno, já podia aliviar um pouco o peso que ela carregava sozinha. E essa consciência precoce moldou-me mais do que qualquer escola, mais do que qualquer livro, mais do que qualquer lição.
Cresci a saber que a vida não nos deve nada. Que o que temos, damos. Que o que falta, inventamos. Que o que dói, escrevemos. E que o que amamos, guardamos.
Hoje, quando olho para trás, vejo o menino que fui: pobre, sim, mas rico de vontade; com pouco, mas cheio de mundo; sem brinquedos, mas com palavras; sem luxos, mas com uma ânsia enorme de ser útil. E penso nos homens de trinta anos de hoje que ainda dependem dos pais para tudo. Não os julgo, apenas reconheço a diferença de tempos, de urgências, de vidas.
Aquele menino da aldeia, que entregava cento e cinquenta escudos com orgulho, ainda vive dentro de mim. É ele que me lembra que a grandeza não está no que se possui, mas no que se reparte. É ele que me diz que a pobreza não rouba carácter – revela-o. É ele que me ensina que a dignidade nasce muitas vezes daquilo que falta, e não daquilo que sobra.
Por isso escrevo. Porque a memória não é só passado, é também espelho. E eu continuo a ver naquele menino a melhor parte de mim.

Foto na minha profissão de fé, com 10 anos. A mãe Florinda punha-me sempre uma gravatinha, mas neste dia - comunhão solene - tive direito a um papilon, provavelmente costurado por ela.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Feitos de instantes

Às vezes o mundo parece-me suspenso, como se precisasse de respirar devagar para não perturbar o principal habitante da minha Beirã: o silêncio.
Sentado à mesa onde vou escrevendo tantas memórias, percebo agora que a vida é feita de camadas: umas que brilham, outras que doem, outras que apenas existem, como o murmúrio distante do rio Sever, a correr entre fragas sem pedir testemunhos.
A verdade é que caminhamos sempre entre o que fomos e o que ainda tentamos ser. E nesse intervalo tão estreito, tão humano, cabe tudo: o cheiro da melancia fresca, a voz da Manuela a chamar-me, o riso das netas que devolve ao mundo a inocência que julgávamos perdida, a igreja limpa e arrumada com as nossas próprias mãos, como quem arruma também a sua própria alma.
A vida não é um enigma para decifrar. É uma presença para escutar.
E quando a escutamos com atenção percebemos que ela nos fala sempre da mesma coisa: da beleza discreta que se esconde nos gestos pequenos, da força que nasce da humildade, da eternidade que cabe num domingo em família.
Talvez a maior sabedoria seja essa: aceitar que somos feitos de instantes e que cada instante por mais breve que seja, deixa em nós uma marca que o tempo não apaga.
Tenham uma excelente terça-feira.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Beirã

A manhã ergue-se devagar sobre os telhados da Beirã. O sol, ainda tímido, pousa nos campos como quem pousa a mão no ombro de um velho amigo.
E eu caminho entre memórias e futuros, trazendo no bolso histórias que só os homens leais sabem guardar.
Beirã.
Onde o silêncio sabe o nome das pedras, onde cada caminho guarda passos antigos e onde o meu coração encontra sempre o regresso.
Aqui, a vida não passa, repousa.
Texto e foto

Cinquenta anos de nós dois

Há memórias que não se contam: acendem-se. E quando penso nos nossos cinquenta anos de vida a dois, sinto que cada lembrança é uma pequena chama que insiste em permanecer acesa, mesmo quando vento sopra forte.
Lembro-me do início, tão simples, tão despretensioso, como quem encontra um caminho sem saber ainda que seria o caminho de toda a vida. Éramos jovens, com mais sonhos do que certezas, mas havia já em ti uma serenidade que me prendia, e em mim uma vontade de te acompanhar para onde fosse preciso. Não sabíamos nada do futuro, mas sabíamos um do outro.
E isso bastou.
Os anos foram chegando como chegam as estações na Beirã: sem pressa, mas com marca. Houve primaveras de entusiasmo, verões de trabalho duro, outonos de mudança, invernos de silêncio. E em cada um deles fomos aprendendo a arte difícil de permanecer. Permanecer mesmo quando o mundo parecia querer arrancar-nos do lugar. Permanecer mesmo quando a vida nos pedia mais do que julgávamos ter para dar.
A verdade é que crescemos juntos. Crescemos na casa que fomos construindo com as nossas mãos e com os nossos gestos. Crescemos nos domingos em família, onde o cheiro dos petiscos herdados dos nossos pais parecia sempre trazer de volta quem já partiu. Crescemos nas conversas longas, nas discussões breves, nos perdões que nunca foram ditos, mas sempre foram dados.
E crescemos, sobretudo, no silêncio. No silêncio bom, aquele que só existe entre duas pessoas que se conhecem tão profundamente que já não precisam de palavras para se entender. O silêncio de quem olha e sabe. O silêncio de quem partilha o mesmo cansaço, a mesma esperança, a mesma fé discreta que tantas vezes nos levou à igreja da Beirã, onde desde menino arrumei bancos e acendi luzes como quem arruma também o coração.
Cinquenta anos…
É estranho como o tempo, quando é vivido lado a lado, deixa de ser uma linha e passa a ser uma tapeçaria. Cada fio é um dia, cada nó é uma dificuldade, cada cor é uma alegria. E quando olho para essa tapeçaria, vejo que não é perfeita, mas é nossa.
E isso basta para ser bela.
Hoje, quase a celebrarmos as Bodas de Ouro, percebo que o amor não é aquilo que sentimos no início. O amor é aquilo que resistiu. É aquilo que ficou depois das tempestades, depois das perdas, depois das noites longas. É aquilo que permanece quando tudo o resto muda.
E permanece em ti. No modo como me chamas pelo nome que só tu sabes dizer. No modo como ajeitas a casa para receber quem amamos. No modo como olhas para mim, não com a paixão de outrora, mas com a ternura profunda de quem caminhou comigo metade de uma vida.
Cinquenta anos…
E eu continuo a agradecer-te. Pelo que fomos, pelo que somos, pelo que ainda seremos enquanto houver tempo, enquanto houver memória, enquanto houver esta forma tão nossa de amar.