terça-feira, 10 de março de 2026

Viver é aprender e às vezes dói


Quanto mais (sobre)vivo mais aprendo e certifico que a Vida é uma luta constante, uma incógnita permanente que nos obriga a espavilar, a arregaçar as mangas, a enfrentar obstáculos, a vencê-los com determinação e a aceitar o que é humanamente possível. E, ainda que esse possível fique muitas vezes aquém das nossas expectativas, vezes haverá também em que elas se excederão e nos irão surpreender pela positiva.
Sei do que falo, podem apostar.
Viver nem sempre é fácil. Para mim então, nunca foi. Sei hoje, sem sombra de dúvida, que nunca será. Aprendi a esperar, muito novo ainda, quando tinha de ficar sentado ao lume embrulhado num cobertor até que enxugasse a roupa que a minha mãe tinha lavado, porque só tinha aquela.
Aprendi que é preciso andar atento, cada vez que fiquei sem a cabeça um dos dedos dos pés por tropeçar nalguma pedra, porque andava descalço. Continuei a aprender que a solidariedade existe, quando, já rapazote, tinha de ler livros emprestados pelos meus amigos, porque a minha mãe não os podia comprar.
Aprendi ainda também existem prioridades, cada vez que não pude associar-me aos amigos da minha idade nos petiscos aos domingos na Sociedade Recreativa, apesar de, feitas as contas, "tocarem" só três escudos a cada um já incluídas as bebidas, porque a minha diminuta jorna semanal fazia falta à minha mãe para comprar pão.
A década de 50 do séc. XX foi para nascer e fazer a escola primária, a de 60 foi a de andar atrás do cu das ovelhas e das vacas do tio José Bonacho nos Pavios do Cabeço de Seixo, embrulhado em sacas de serapilheira que em vez de me resguardarem da chuva no inverno ficavam ensopadas como esponjas, pesadas como chumbo e molhavam ainda mais do que a chuva, porque nessa época ainda não havia as de plástico, bem mais leves e impermeáveis.
Depois, mesmo, mesmo, a findar os anos 60 e início da década de 70 foi a fase decisiva do resto da minha vida. Todo o futuro imediato, próximo e distante, ali se definiu. Do final de 1969 ao final de 1979 ingressei nas forças armadas como voluntário, fiz o curso de transmissões, fui promovido a cabo, fui à guerra, casei, fui pai, fui mineiro, entrei para a GNR.
O objetivo das minhas "pressas" é facilmente explicável. Queria deixar a vida dura do campo, das ovelhas, das vacas e as pedras do meu pai. Mas à época, sem o serviço militar resolvido, ninguém tinha hipótese. E eu queria ser, imaginem... carteiro! Vestir uma farda igual à do senhor João Sapage, - que Deus já lá tem - para andar de porta em porta a levar boas notícias. Foi por isso que decidi escalar aquele muro chamado tropa que me impedia de lá chegar.
Contra todas as expectativas que algumas vezes toldaram a minha esperança de voltar para casa são e salvo, voltei. Infelizmente (ou felizmente, não sei bem) o serviço militar resolvido não me abriu as tais portas dos CTT que tanto ambicionara alcançar.
A revolução dos cravos estava no auge quando aterrámos de novo no aeroporto da Portela a 9 de junho de 1974 depois daqueles longos 27 meses de sustos e receios. A revolução "fechara" qualquer possibilidade de ingresso em qualquer empresa civil ou do Estado porque a prioridade era o "povo está com o MFA".
Fiz à mesma os requerimentos, mas…
"Com os melhores cumprimentos lamentamos informar que não se encontra em curso a admissão de novos funcionários nesta empresa."
Sacrifício inútil? Talvez sim, talvez não. Sofri, é verdade. Mas também amadureci. Fiz-me o homem que hoje sou. Conheci o melhor e o pior que a Vida pode dar e ensinar a cada um de nós. Foi, grosso modo, o meu "doutoramento" sem direito a canudo. Duro, exigente, cheio de obstáculos que foi necessário contornar e vencer. Estava escrito que tinha de ser assim.
Dizia depois e se calhar com alguma razão, a minha família: - Se não tivesses ido voluntário, nem sequer ias à guerra...
Porque, entretanto, a revolução entregou África aos africanos e acabou a guerra colonial.
- Se...
Dizemos todos muitas vezes.
Mas eu pergunto.
Não será toda a nossa vida uma inevitável sucessão de “ses” que, mesmo doendo às vezes, nos moldam e ajudam não só a crescer, como também a aprender?

José Coelho

segunda-feira, 9 de março de 2026

Está decidido


Enquanto me importo, não vou embora. Mas se decidir ir embora, já deixei de me importar.

José Coelho

Decididamente

Decididamente, este já não é o meu velho e querido País. Aquele Portugal de gente alegre e genuína na sua maneiras de viver tão diferenciada quanto o eram as tradições usos e costumes de cada província e região. A alegria que sempre nos caracterizou, foi aos poucos sendo substituída por semblantes fechados em consequência de inúmeras e sucessivas preocupações. O desemprego no seu sobe e desce, a precaridade laboral e os seus baixos salários, as miseráveis pensões de reforma da esmagadora maioria dos pensionistas, o galopante custo de vida em contraciclo com os míseros aumentos salariais, as pandemias, as guerras, e, enfim, esta incerteza no dia de amanhã que permanentemente se abate sobre as nossas vidas.
Decididamente, e só não vê quem não quer, porque tem, ou teve, para si ou para algum dos seus, interesse, proveito ou lucro com as políticas que nas últimas décadas foram sendo despejadas a cachão sobre as nossas cabeças, principalmente os resistentes que teimamos em continuar a viver no interior do território luso, cada vez mais abandonado e sem os recursos necessários ao comum bem-estar, apesar de não ser também já muito famosa a situação daqueles que noutro tempo julgaram oportuno debandarem para o litoral ou para os grandes centros urbanos.
Decididamente, é aberrante termos de assistir ao desfilar de sucessivos escândalos públicos e indignidades sem tamanho, protagonizadas na sua esmagadora maioria por figuras públicas e de tal forma frequentes que acabamos por já nem fazer caso e encolher de ombros, como se todas essas aberrações fossem normais. Que sociedade é esta construída nas últimas décadas, onde alguns navegam em oceanos de dinheiro que se desconfia não ser de origem lícita, enquanto outros vivem no limiar da dignidade humana a "revoltearem" contentores do lixo pela calada da noite para conseguirem alguma coisa com que possam matar a fome?
Decididamente, não aceito e não entendo, que se atribuam pensões com menos de metade do valor do ordenado mínimo nacional, à maior parte das pessoas que se reformam atualmente, que trabalharam e descontaram uma vida inteira. Será que essas pessoas passam a comer só já metade do que comiam, a pagar apenas metade de renda da casa, ou deixam de necessitar de roupa, de calçado, de medicamentos, a partir do dia em que se reformam? Porque é que 40 anos de descontos ou mais, dão direito a tão pouco, mas aos políticos bastam 12 anos para terem chorudas subvenções vitalícias? Será que eles quando se reformam passam a comer o dobro e a pagar também o dobro pelas suas compras no supermercado?
Decididamente, nunca entendi nem entenderei os cortes na saúde para poupar na despesa dos orçamentos de estado, enquanto vi muitos milhares de milhões serem, sem qualquer dificuldade, injetados na banca para proteger os interesses dos seus acionistas.
Decididamente, tenho vergonha de haver nascido num país que tem parido gente capaz desta e de tantíssimas outras indignidades em nome de políticas com vista a um pretenso bem comum. Porque não poupam primeiro nas suas obscenas mordomias? Porque vivem os mentores destas decisões no luxo e conforto onde nada falta aos seus filhos, nem aos seus pais, nem aos seus afilhados ou padrinhos?
É esse o exemplo que dão?
Quem já viu um senhor ministro, um senhor deputado, um simples senhor secretario de estado, um CEO, um Administrador ou afins, na fila de espera da urgência de qualquer hospital público durante doze ou mais horas com uma pulseira de plástico enfiada num dos pulsos?
Decididamente, não era assim o meu País quando eu nasci, onde cresci e vivi a vida toda, trabalhei com dedicação e cumpri à letra as minhas obrigações fiscais, cívicas, profissionais e de cidadania, porque sempre me empenhei em ser honesto e íntegro por lealdade aos princípios e valores que do berço recebi. Será que os mentores destas iniquidades que definem e condicionam a vida de todos nós, alguma vez deles terão sequer ouvido falar?
José Coelho

Boa semana

domingo, 8 de março de 2026

Quem não gostar, ponha no bordo do prato

Para que conste, esta minha fotografia foi deliberadamente feita agora mesmo para aqui ser ser colocada, dando a cara pelo que vou escrever e assinar, acerca do que penso e sinto, porque nunca me escondi ou esconderei sob pseudónimos ou outras subtis formas de cobarde anonimato.
Até à integração de Portugal na então CEE, a minha Beirã sempre foi uma aldeia linda e cheia de vida, trabalho e futuro, para centenas de pessoas, de onde ninguém precisava migrar ou emigrar, porque aqui e em tudo à volta havia trabalho para toda a gente.
Nasci nesta aldeia, freguesia e concelho e cá moro ainda setenta e quase quatro depois. Mas quem me dera não morar, porque é muito certo aquele ditado que diz que "penas que não se vêem, não se sentem". E ver morrer a minha terra antes de mim, é contranatura.
Fui aqui tão feliz no meio da maior humildade, tão mais feliz do que sou hoje no meio desta abundância podre que dá tudo a alguns e quase nada à maior parte.
A Beirã sempre foi maioritariamente rural porque 60% das pessoas eram camponeses. Porém, ironia do catano, éramos tão mais felizes! Qualquer gaiato assim que saía da escola com a 4ª classe feita ia trabalhar no dia seguinte como aconteceu comigo, para ajudar nas despesas da casa e para aprender a ser adulto.
Hoje, nesta liberdade que cada vez entendo menos por ver esquecidos todos os valores que aprendi na ditadura, ensinados pelos meus pais e avós apesar de analfabetos. Os filhos são hoje dependentes dos pais até aos 30 anos – alguns a vida toda – seja para acabarem os cursos superiores, seja por não quererem trabalhar e preferirem viver à pala dos velhos.
E mais.
Proibiram-se os jovens de trabalhar enquanto menores por terem de fazer a escolaridade obrigatória e continuarem depois os estudos para engenheiros ou doutores e assim passarem os tais 30 anos – no mínimo – a expensas dos pais, mas que, depois de um montão de dinheiro por eles gasto, muitas vezes não fazem nem ideia onde aplicar a engenheirice ou doutorice a não ser que tenham algum padrinho que lhes arranje um tacho, preferencialmente na política.
Mais ainda.
Quando era jovem havia tantos perigos à espreita em todas as esquinas – nunca os vi, mas pronto – que não se podia falar ou escrever tudo o que a gente pensava como eu estou a fazer neste momento, porque ia logo preso. Mas havia respeito, educação, honestidade, princípios e valores que em nome da liberdade foram convenientemente passando de moda.
E deram lugar a esta nova forma de convivência em sociedade na qual para se ter sucesso é necessário fazer uso de malabarismos como a corrupção, o compadrio, o oportunismo, a falta de ética, a desonestidade, a falsidade e muitos outros argumentos sujos.
Os alunos respeitavam e os pais confiavam nos professores. Hoje os alunos batem-lhes e os pais movem-lhes processos por danos morais se ousarem proibir os seus meninos de, por exemplo, brincarem com o telemóvel numa aula.
Na minha aldeia havia tanta gente e tantas crianças que em vez de uma, havia duas escolas. Para ser ainda mais direto, havia cá de tudo. Ninguém precisava de sair daqui o ano inteiro para ter tudo quanto precisava para viver tranquilamente. Nem sequer faltava trabalho, desde cavar à enxada no campo até aos senhores doutores da alfândega da Estação.
Convido quem quiser vir ver o que temos cá hoje, o que o progresso da CEE trouxe à minha terra, à minha freguesia e ao meu concelho. Tudo o que eram postos de trabalho e atividades económicas desapareceu. Nem uma triste lojinha existe já para comprar um pacote de sal.
Porquê?
Porque, para vender uma garrafa de óleo, uma lata de feijão ou um quilo de açúcar nas aldeias do interior profundo, qualquer loja, tal como as de Lisboa ou Porto, tem de ter, entre outras obrigatoriedades, balcões e prateleiras de aço inoxidável e arcas frigoríficas.
É minha profunda convicção que os ilustres senhores governantes dos últimos 50 anos conseguiram dividir o meu país em várias classes, de um extremo ao outro. Oito para uns, oitenta para os outros, no que toca a direitos fundamentais. Existe hoje um país de 1ª classe para os privilegiados com chorudos ordenados e mordomias sem fim. Os CEO's, os Administradores e similares, e, obviamente, a classe política que tratou de legislar nesse sentido em sede própria e em seu próprio proveito.
Mas não só.
Também os seus protegidos prosperam mais. Fortunas que vão surgindo ninguém sabe de onde, nem como. Muitas delas, dizem as más-línguas, foram conseguidas à custa de esquemas ardilosos que captam os milhões vindos de Bruxelas e só são acessíveis a um punhado de eleitos, mas sempre os mesmos.
Porém e porque são precisos votos, alguma da raia miúda também vai debicando aqui e ali pequenas migalhas, para, em tempo oportuno, não se esquecer de votar e de também angariar votos a quem lhas concedeu. Essa é a 2ª classe que mama daqui e dali porque é familiar, amigo, afilhado ou protegido de algum "colarinho branco".
A 3ª classe é para quem não passa ainda fome e tem uma vida assim assim, nem carne, nem peixe comámim, que usufruo de uma pensãozeca mais ou menos, apesar de o fisco ter inventado descontos tais que retém logo à cabeça um terço da mesma!
De 4ª classe em diante são a esmagadora maioria dos portugueses de hoje, infelizmente. Desemprego, pensões miseráveis, precaridade, dívidas, fome em muitas casas num desinteresse vergonhoso, ultrajante e indigno, de quem tem o poder de fazer mais e melhor por TODOS os Portugueses e não apenas por alguns, e, pior ainda, os tais mesmos de sempre.
Alguns, muitos mesmo e à semelhança dos anos 60 – como fez a minha irmã Maria da Luz e o meu cunhado António Zacarias – debandaram para o estrangeiro com filhos e netos.
Provavelmente muitos nunca mais voltarão a este país que a incompetência dos seus governantes tacitamente expulsou. Já não acreditam na democracia, na liberdade, no 25 de abril. Porque nada de bom trouxe às suas vidas. Hoje este país é uma pálida sombra daquilo que nos foi profusamente prometido em 1974.
Perseguiu-se e acossou-se tanta gente de todas as formas porque eram da pide, porque eram fascistas, porque eram cobras e lagartos. Hoje vemos, ouvimos e lemos, todos os dias, barbaridades cometidas em prejuízo de milhares de pessoas, desde falência de bancos a empresas que todos os dias engrossam o rol de famílias sem o seu ganha-pão, esquemas esquisitos de enriquecimento ilícito que lesaram e lesam ainda o erário público.
E ninguém é responsabilizado por isso!
É fácil pedir sacrifícios aos outros, quando se tem uma conta choruda no banco, automóvel e motorista por conta do estado, cama, mesa e roupa lavada, mais um ordenado de vários milhares de euros por mês. É fácil cortar no acesso aos cuidados de saúde de cidadãos maioritariamente carentes por velhice ou invalidez, quando se tem dinheiro para levar a família toda aos hospitais particulares onde são imediata e convenientemente atendidos.
É ainda também muito fácil falar de fome, quando se tem a barriga cheia. Sinto vergonha de ter nascido num país que gerou gente assim, porque tenho plena consciência de ter cumprido com dedicação e lealdade todos os meus deveres cívicos e profissionais. Durmo por isso todas as noites em paz comigo e com o mundo inteiro, mas sinto pena de ter ensinado os meus filhos a serem homens honestos, íntegros, sérios e decentes, porque sei que assim eles nunca se irão safar.
E tenho dito.
Quem não gostar, ponha no bordo do prato.

sábado, 7 de março de 2026

Bom fim de semana


Não me importa que me critiquem, exatamente como não me importa nada quando me elogiam. Tanto me faz que uma pessoa me elogie como que me censure, porque considero aquilo como uma opinião pessoal e não comparo com coisa nenhuma pois eu próprio não tenho opinião pessoal a meu respeito. Não me sinto nem herói, nem criminoso, sinto que vivo, sinto que sou.

Memória


Cumprem-se hoje 54 anos que numa noite gelada e chuvosa, fazendo parte da CCS/BCav3871 partimos de Lisboa por cerca das 23:00 horas num Boing 707 com destino Luanda - Angola. A gente nunca mais esquece...

Foto já no Belize - Cabinda