quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Podia – à boa maneira portuga – ter sido ainda pior


A tempestade Kristin atravessou Portugal deixando um rasto de destruição material e expondo fragilidades no sistema de comunicação de risco e nas infraestruturas nacionais. É urgente analisar de forma crítica e construtiva o impacto do fenómeno, destacando a importância da hora em que ocorreu, as consequências evitadas por mero acaso, a vulnerabilidade da população e das infraestruturas, assim como as falhas na comunicação do risco.

A sua ocorrência durante a madrugada foi determinante para a minimização dos danos humanos. Com a maioria da população em casa a exposição ao risco foi consideravelmente reduzida. Escolas, empresas e transportes públicos encontravam-se inativos, o que evitou situações potencialmente trágicas em deslocações, ruas e espaços públicos. Este fator tempo funcionou como um escudo acidental, reduzindo o número de feridos e vítimas mortais.
Apesar do menor impacto humano, a tempestade deixou marcas profundas: infraestruturas danificadas, cortes de energia, estradas e pontes intransitáveis, árvores caídas e prejuízos em propriedades privadas e públicas. Os efeitos vão prolongar-se por vários dias, provavelmente semanas, meses até, dificultando a mobilidade, o acesso a serviços essenciais e a normalização do quotidiano, especialmente em zonas rurais e periféricas.
É fundamental refletir sobre o que teria acontecido se a tempestade tivesse atingido Portugal durante a meio do dia com escolas a funcionar, trânsito intenso e atividades económicas em pleno. O risco de feridos e vítimas mortais teria sido significativamente maior, tanto em deslocações como em locais de trabalho e ensino. O congestionamento de estradas e a concentração de pessoas em espaços públicos poderiam ter originado situações de pânico e caos, dificultando a resposta dos serviços de emergência e agravando seguramente o balanço final.
A comunicação do risco durante a tempestade revelou – mais uma vez – falhas preocupantes. Muitas populações receberam avisos genéricos, pouco claros ou tardios. E a repetição sucessiva de alertas sem quaisquer consequências graves em eventos anteriores, contribuiu para uma certa banalização das recomendações, levando muitos a subestimar o perigo real. A falta de coordenação entre entidades oficiais e a ausência de mensagens específicas para grupos mais vulneráveis agravaram a ineficácia da comunicação
A tempestade expôs fragilidades sérias em escolas, hospitais, redes de transporte e sistemas de resposta de emergência. Muitos edifícios não estão preparados para fenómenos meteorológicos extremos, com infiltrações, falhas de energia e ausência de planos de contingência eficazes. O colapso de algumas linhas de comunicação dificultou a atuação rápida das equipas de socorro, evidenciando a necessidade de reforçar a resiliência das infraestruturas críticas.
A redução do número de vítimas resultou mais do acaso, do que de uma preparação eficaz. É fundamental não confundir a sorte com a capacidade de resposta. É também fundamental melhorar a comunicação e investir em sistemas de alerta mais personalizados, claros e atempados, adaptados a diferentes públicos e canais de comunicação.
Modernizar infraestruturas, implementar simulacros regulares e envolver a sociedade civil na preparação para emergências. Articular entidades para garantir uma coordenação eficiente entre autoridades locais, nacionais e serviços de emergência, com planos de ação claros e testados. Educar e sensibilizar a população promovendo campanhas contínuas de como agir em situações de risco, para incentivar comportamentos preventivos e responsáveis.
A tempestade Kristin foi um aviso a sério para Portugal sobre as limitações da sua preparação para fenómenos extremos. O acaso puro do horário a horas mortas evitou uma tragédia maior, mas não pode servir de desculpa para a condescendência. Cabe por isso à sociedade e às autoridades aprender com o sucedido, reforçar a resiliência coletiva e garantir que, na próxima emergência, a competência prevaleça sobre a sorte.

Meu Alto Alentejo de outrora

Foto da Beirã nos anos 60 do séc. XX

Na época em que nasci e cresci o quotidiano do meu Alto Alentejo era marcado por uma dureza que moldava o carácter e a vida de quem cá nascia e crescia. Os tempos eram difíceis sobretudo para aqueles – e eram mesmo muitos – que dependiam do amanho da terra à força de braços para sobreviver.
As suas mãos calejadas pelo trabalho duro e os rostos queimados pelo sol, eram testemunhos silenciosos das inúmeras dificuldades que enfrentavam diariamente.
Apesar da adversidade havia algo que tornava a vida mais leve: a solidariedade entre vizinhos. As casas viviam de portas abertas, sinal de confiança e de proximidade. E os vizinhos não eram apenas aqueles que moravam ao lado, mas uma extensão da família, alguém com quem se podia contar nos bons e maus momentos.
A escassez de recursos nunca foi motivo para o egoísmo. Pelo contrário, partilhava-se o pouco que havia: o pão, o silêncio e o cuidado. Uma merenda ao fim da tarde, uma conversa sussurrada à sombra de uma oliveira, ou um gesto de cuidado para com os mais velhos.
Tudo era motivo para unir, para fortalecer laços e para construir uma comunidade onde ninguém se sentia isolado ou só.
Não era preciso esperar pelo calendário para celebrar a generosidade. No meu Alto Alentejo de outrora, a entreajuda fazia do quotidiano um natal todos os dias. Pequenos gestos como ajudar na apanha da azeitona, oferecer uma sopa quente a quem chegava cansado, eram a expressão de uma humanidade profunda e genuína.
Essas memórias desse meu Alto Alentejo deviam servir de exemplo e inspiração. Num tempo em que o individualismo muitas vezes se sobrepõe ao coletivo, recordar a importância da partilha e da entreajuda seria fundamental para manter vivos os valores que realmente humanizam e unem mais as pessoas.
Neste Alto Alentejo dos meus pais e avós aprendi que mesmo na escassez é possível encontrar abundância no espírito de comunidade.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Raridades

Prioridades em tempos de crise

A história recente em Portugal e noutros países europeus revela um padrão claro em que nos momentos de crise financeira, o Estado tem agido de forma rápida e determinada para proteger bancos e grandes empresas. Estas intervenções justificadas pelo interesse económico e pela estabilidade do sistema financeiro, envolveram, por vezes, a requisição de salários, bens e serviços.
Paralelamente, assistimos também à imposição de requisições civis em setores como a enfermagem ou os transportes, mesmo quando tal afetou trabalhadores em greve, sempre com o argumento do interesse público.
Contudo, perante a atual emergência humanitária, com milhares de pessoas sem proteção adequada nas suas habitações, a atuação do Estado parece restringir-se a avisos e recomendações. Falta a mesma determinação que se verificou no resgate de bancos ou na imposição de serviços mínimos em setores estratégicos.
As soluções apresentadas são, na sua maioria, paliativas – distribuição de lonas, campanhas de sensibilização – enquanto a mobilização efetiva de meios permanece por concretizar.
É difícil compreender a inação do Estado quando existem hotéis vazios e abundância de recursos quer humanos, quer materiais, no setor da construção. A capacidade instalada das grandes construtoras – gruas, camiões, cimento, telhas e trabalhadores especializados – permanece subaproveitada. Enquanto isso, inúmeras famílias enfrentam diariamente condições precárias, expostas à intempérie e à insegurança.
O paradoxo torna-se ainda mais evidente ao observarmos que, apesar da crise habitacional, milhares de trabalhadores continuam a construir moradias de luxo e hotéis para grandes fundos imobiliários. Este contraste denuncia uma inversão de prioridades: privilegia-se o lucro de alguns em detrimento do direito fundamental à habitação digna de muitos. O mesmo Estado, célere na defesa da propriedade privada das grandes empresas e da banca, mostra-se hesitante quando está em causa o lar das famílias.
A defesa da propriedade privada tem sido um argumento central na política económica. No entanto, quando está em causa a propriedade mais básica – a casa de cada cidadão – a resposta oficial é tímida e insuficiente. Os defensores acérrimos da propriedade privada parecem ausentes quando o assunto é garantir a habitação digna para todos, revelando uma preocupante seletividade na aplicação deste princípio.
A emergência habitacional que atravessamos exige mais do que discursos e recomendações: requer ação concreta, mobilização imediata dos recursos disponíveis e, se for preciso, a requisição dos meios necessários ao setor da construção. O Estado não pode continuar a abdicar do seu dever de proteger os mais vulneráveis, sobretudo quando as soluções existem e apenas falta vontade política para as implementar.
É tempo de agir com a mesma firmeza demonstrada na defesa dos interesses financeiros, mas agora em prol das pessoas. Que a mão do Estado não trema para defender o direito fundamental à habitação digna, como nunca tremeu para proteger a banca e as grandes empresas.

PS
Este texto não é da minha autoria e desconheço o seu autor, mas assino também por baixo:

José Coelho

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Para o homem recto nascerá uma luz (M. Luís)

SALMO RESPONSORIAL DO DOMINGO V DO TEMPO COMUM

Um aviso da natureza


A Kristin não foi apenas uma violenta tempestade. Foi também a prova incontestável da nossa insignificância perante a força da mãe natureza.
Por mais avançados que sejam os métodos de construção e engenharia, por mais sofisticados que sejam os sistemas de proteção e prevenção, em breves momentos tudo o que parecia tão sólido e inabalável se revelou de tal maneira frágil que se desmoronou qual castelo de cartas.
O seu poder destruidor veio mostrar-nos de forma totalmente inesperada e dolorosa que acreditar que estamos preparados para enfrentar os elementos naturais em fúria, é pura ilusão.
As imagens devastadoras da destruição maciça deixadas pela Kristin são o mais convincente testemunho da vulnerabilidade humana. Edifícios que durante décadas foram considerados seguros, bem como outras infraestruturas que aparentavam ser robustas e indestrutíveis, sucumbiram numa questão de segundos, perante a força bruta dos ventos.
E não foram só telhados, paredes e outras estruturas físicas que sucumbiram, mas também as nossas convicções, autoconfiança e certezas na tecnologia e no controlo sobre o ambiente.
O cenário avassalador não nos deixou apenas ruínas. Deixou-nos também um sério aviso para a necessidade urgente de maior humildade e mais respeito pela natureza.
A arrogância humana levou-nos a subestimar os riscos, a acreditar que dominávamos os elementos, que somos capazes de prever e controlar tudo.
Fenómenos naturais como este provam inequivocamente e da pior forma que não só existem forças que nos ultrapassam, como também as nossas certezas ficaram reduzidas a zero.
Perante tamanha devastação prudente seria tomarmos consciência plena de que jamais dominaremos a natureza, porque só ela, só mesmo ela domina tudo, como, quando e onde quer.
Que esta dura e destrutiva lição sem paralelo nos sirva de alerta para repensarmos a nossa relação com o mundo que nos cerca e habitamos.
Que sejamos mais atentos, cautelosos, prudentes e preparados, mas sobretudo reconhecendo também os nossos limites e a nossa imensurável pequenez no universo.
É nessa consciencialização que reside a verdadeira sabedoria, pois só agindo assim se construirão sociedades mais preparadas e mais respeitadoras dos ciclos naturais que gerem a natureza e a vida de todas as espécies, incluindo a humana.

José Coelho 

Foto da net

domingo, 1 de fevereiro de 2026

É a imprevisibilidade que nos molda

Ao longo da vida, somos inevitavelmente confrontados com desafios que podem transformar radicalmente o nosso percurso. Raramente estas mudanças surgem por escolha própria e na maioria das vezes são impostas pelas circunstâncias, pelo desenrolar dos acontecimentos ou por forças que ultrapassam a nossa capacidade de controlo.
O crescimento pessoal é frequentemente impulsionado pelas adversidades. As dores, perdas e choques que experienciamos marcam-nos, provocando um abalo nas nossas certezas e levando-nos a questionar convicções que antes considerávamos inabaláveis.
Mudamos porque a vida assim exige e é nas quedas e nos recomeços que aprendemos as lições mais duradouras.
Cada tombo ensina-nos a levantar. Os abanões alertam-nos para realidades antes ignoradas. A injustiça e a deslealdade, especialmente quando surgem de onde menos esperamos, podem fazer-nos duvidar dos outros e de nós próprios.
Ainda assim, é através destas experiências que se abrem novas perspetivas para podermos reequacionar a nossa visão sobre o mundo.
A ausência e a perda daqueles que amamos deixam marcas profundas e indeléveis. Estas experiências têm o poder de transformar irreversivelmente a nossa forma de estar, abalam convicções e provocam por vezes o colapso total de estruturas que sustentavam a nossa existência.
O que antes era certo torna-se incerto, o que parecia seguro revela-se instável e perante a adversidade podemos seguir diferentes caminhos, muitas vezes sem termos plena consciência da escolha.
Algumas pessoas conseguem transformar a dor em força. Tornam-se mais resistentes, confiantes e capazes de enfrentar as dificuldades com maior serenidade. As cicatrizes passam a ser símbolos de superação e cada obstáculo vencido reforça a autoconfiança.
Para outras, as adversidades têm o efeito contrário, estilhaçando convicções e enfraquecendo a vontade. A apatia e a resignação podem instalar-se, tornando o mundo mais difícil de suportar e esbatendo as cores da vida.
Temos de reconhecer que muitas vezes não somos nós que escolhemos o percurso que trilhamos perante as adversidades, mas sim a vida que nos encaminha para trajetos desconhecidos e nos obriga a adaptarmo-nos e a reconstruirmo-nos.
Aceitar a nossa vulnerabilidade é um passo essencial para aprendermos com as experiências, permitindo-nos, gradualmente, reerguer convicções e encontrar novos significados para a nossa existência.
Sim, mudamos e muito. O que nos distingue não é o simples facto de mudarmos, mas a forma como reagimos às mudanças impostas pela vida. Quer nos fortaleçamos, quer nos fragilizemos, o essencial é nunca perder de vista que a vida é feita de ciclos e que cada transformação encerra em si a oportunidade de um novo começo.
Os desafios da vida têm, na sua essência, o poder de nos moldar. Por mais dolorosa que seja a adversidade, é nela que se esconde a possibilidade de crescimento e de renovação.
Ao aceitarmos a imprevisibilidade da vida e ao aprendermos com cada experiência, tornamo-nos capazes de recomeçar mais sábios, mais fortes ou, pelo menos, com uma nova perspectiva sobre o que realmente importa.