Meu vicio da escrita...
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
quarta-feira, 2 de setembro de 2026
O tempo leva
O abandono e a esperança de quem insiste em viver no interior
Portugal
é um país de contrastes que se sentem na pele. No litoral, tudo parece mover-se
depressa: cidades cheias, oportunidades que se multiplicam, cultura à mão de
semear, serviços públicos que funcionam com outra cadência. No interior, porém,
o tempo corre de forma diferente não por ser mais lento, mas porque é cada vez
mais vazio. A desertificação não é apenas estatística: é humana, social,
afetiva. É o silêncio que cresce onde antes havia vida.
O
abandono do interior não começou ontem. É o resultado de décadas de políticas
que nunca olharam verdadeiramente para estes territórios. Desde meados do
século XX, as populações rurais partiram – umas para o litoral, outras para o
estrangeiro – procurando aquilo que a terra já não conseguia oferecer-lhes. A
industrialização concentrou-se onde havia densidade populacional, deixando para
trás uma economia agrícola envelhecida, frágil e sem defesa.
As
políticas públicas, quase sempre desenhadas a partir das cidades, pouco fizeram
para contrariar esta erosão. Infraestruturas, saúde, educação, cultura, tudo
chegou tarde, pouco, ou simplesmente não chegou. A ferrovia foi sendo
desmantelada, os centros de saúde encerrados, as maternidades desapareceram, as
escolas primárias foram agregadas até ao ponto de deixarem de existir. Cada
serviço que fechava era mais um empurrão para quem ainda resistia.
A
desertificação do interior é, antes de tudo, a desertificação das pessoas. A
população envelhece, rareia, e em muitos concelhos os nascimentos são tão
poucos que já não justificam uma escola aberta. As praças e ruas das aldeias
ficam desertas durante a semana, ganhando vida apenas ao domingo, quando
regressam filhos, netos e amigos, numa romaria de saudade que dura apenas
algumas horas.
Este
vazio humano reflete-se na economia. O comércio tradicional fecha porque já não
há quem compre. Os pequenos agricultores não têm escoamento para os seus
produtos. A indústria transformadora quase desapareceu. E as empresas que
resistem lutam para atrair mão-de-obra qualificada que não quer viver onde tudo
parece longe.
A
paisagem também sofre: campos incultos, mato que avança, florestas
desordenadas, incêndios que encontram terreno fértil na ausência de quem cuide
da terra.
Para
quem como eu, insiste em ficar, o interior não é apenas um lugar, é uma herança
afetiva, uma forma de estar no mundo. Há um orgulho silencioso em manter viva a
casa dos pais, em preservar tradições, em caminhar pelos mesmos trilhos da
infância. Mas este apego não esconde as dificuldades.
A
saúde é um desafio diário: uma consulta implica dezenas de quilómetros,
transportes públicos escassos, tempos de espera que podem ser críticos. Na
educação, as crianças percorrem longos trajetos para chegar à escola, perdendo
tempo que deveria ser de família, de comunidade, de brincadeira. E o isolamento
social pesa sobretudo nos mais velhos, que vivem sozinhos, dependentes de
vizinhos ou de serviços sociais que não chegam a todos. A solidão é talvez a
face mais cruel deste abandono.
Ainda
assim, há esperança. Ela vive em quem fica, em quem cuida, em quem resiste. O
interior não é apenas o que falta, é também o que permanece.
José Coelho
terça-feira, 1 de setembro de 2026
Que a memória nunca esqueça
A água da Celorica
Há lugares que não se visitam: regressa‑se a eles. A Fonte da Celorica é um desses sítios onde a terra parece ter memória e onde a água, ao brotar, nos reconhece antes de nós a reconhecermos a ela. Quem ali chega não encontra apenas um caudal transparente a correr pela bica de ferro, encontra uma origem.
Uma
verdade que não precisa de explicação.
Recordo
a primeira vez que lá fui, ainda menino, levado pela mão firme do meu pai. A
manhã estava fresca e o caminho parecia maior do que realmente era. Havia
silêncio, mas não era o silêncio das ausências, era o silêncio das coisas que
sabem o que são. O chão respirava, os castanheiros guardavam a sombra e a água
brilhava como se tivesse sido acesa por dentro.
A
sua nascente no cimo das fragas não se impõe, não tem porte de monumento, não
tem a arrogância das obras humanas. É silenciosa, discreta, quase tímida. Mas
quem se aproxima sente logo que ali há qualquer coisa de definitivo. A água sai
da terra com uma franqueza que não se encontra nas pessoas: não mente, não
disfarça, não promete o que não pode cumprir.
É
fria como deve ser, pura como pode ser, constante como nós raramente somos.
Durante
anos, ir à Celorica era um ritual. O cântaro de barro, o som da água a bater no
fundo, o peso que aumentava devagar enquanto o cântaro se enchia. E depois o
regresso, sempre mais leve do que a ida, porque a água traz consigo uma espécie
de ordem. Quem carrega água carrega também um pedaço de mundo arrumado.
Ali
aprendi que a água é destino.
Não
apenas porque dá vida, mas porque nos ensina a olhar. A nascente pouco muda com
as estações: no verão parece mais apressada, no inverno mais silenciosa, na
primavera mais generosa. Mas nunca deixa de ser ela. Nunca falha. Nunca se
esquece de aparecer.
Hoje
quando volto à Celorica, já não levo cântaros. Levo memória. Levo o corpo que
envelheceu, mas que ainda reconhece o frio da água como se fosse o primeiro
toque. Levo também a certeza de que há lugares que nos moldam sem fazer
barulho. Esta fonte e nascente é um deles. É uma lição de humildade: tudo
começa num ponto pequeno, escondido, quase invisível.
E
talvez seja isso que a torna tão grande. A água da Celorica não é apenas água.
É origem. É caminho. É destino.
José Coelho






