A tempestade Kristin atravessou Portugal deixando um rasto de destruição material e expondo fragilidades no sistema de comunicação de risco e nas infraestruturas nacionais. É urgente analisar de forma crítica e construtiva o impacto do fenómeno, destacando a importância da hora em que ocorreu, as consequências evitadas por mero acaso, a vulnerabilidade da população e das infraestruturas, assim como as falhas na comunicação do risco.
A sua ocorrência durante a madrugada foi determinante para a minimização dos danos humanos. Com a maioria da população em casa a exposição ao risco foi consideravelmente reduzida. Escolas, empresas e transportes públicos encontravam-se inativos, o que evitou situações potencialmente trágicas em deslocações, ruas e espaços públicos. Este fator tempo funcionou como um escudo acidental, reduzindo o número de feridos e vítimas mortais.
Apesar do menor impacto humano, a tempestade deixou marcas profundas: infraestruturas danificadas, cortes de energia, estradas e pontes intransitáveis, árvores caídas e prejuízos em propriedades privadas e públicas. Os efeitos vão prolongar-se por vários dias, provavelmente semanas, meses até, dificultando a mobilidade, o acesso a serviços essenciais e a normalização do quotidiano, especialmente em zonas rurais e periféricas.
É fundamental refletir sobre o que teria acontecido se a tempestade tivesse atingido Portugal durante a meio do dia com escolas a funcionar, trânsito intenso e atividades económicas em pleno. O risco de feridos e vítimas mortais teria sido significativamente maior, tanto em deslocações como em locais de trabalho e ensino. O congestionamento de estradas e a concentração de pessoas em espaços públicos poderiam ter originado situações de pânico e caos, dificultando a resposta dos serviços de emergência e agravando seguramente o balanço final.
A comunicação do risco durante a tempestade revelou – mais uma vez – falhas preocupantes. Muitas populações receberam avisos genéricos, pouco claros ou tardios. E a repetição sucessiva de alertas sem quaisquer consequências graves em eventos anteriores, contribuiu para uma certa banalização das recomendações, levando muitos a subestimar o perigo real. A falta de coordenação entre entidades oficiais e a ausência de mensagens específicas para grupos mais vulneráveis agravaram a ineficácia da comunicação
A tempestade expôs fragilidades sérias em escolas, hospitais, redes de transporte e sistemas de resposta de emergência. Muitos edifícios não estão preparados para fenómenos meteorológicos extremos, com infiltrações, falhas de energia e ausência de planos de contingência eficazes. O colapso de algumas linhas de comunicação dificultou a atuação rápida das equipas de socorro, evidenciando a necessidade de reforçar a resiliência das infraestruturas críticas.
A redução do número de vítimas resultou mais do acaso, do que de uma preparação eficaz. É fundamental não confundir a sorte com a capacidade de resposta. É também fundamental melhorar a comunicação e investir em sistemas de alerta mais personalizados, claros e atempados, adaptados a diferentes públicos e canais de comunicação.
Modernizar infraestruturas, implementar simulacros regulares e envolver a sociedade civil na preparação para emergências. Articular entidades para garantir uma coordenação eficiente entre autoridades locais, nacionais e serviços de emergência, com planos de ação claros e testados. Educar e sensibilizar a população promovendo campanhas contínuas de como agir em situações de risco, para incentivar comportamentos preventivos e responsáveis.
A tempestade Kristin foi um aviso a sério para Portugal sobre as limitações da sua preparação para fenómenos extremos. O acaso puro do horário a horas mortas evitou uma tragédia maior, mas não pode servir de desculpa para a condescendência. Cabe por isso à sociedade e às autoridades aprender com o sucedido, reforçar a resiliência coletiva e garantir que, na próxima emergência, a competência prevaleça sobre a sorte.





