sábado, 20 de junho de 2026

Na escrita tento refletir a minha ética

Há quem escreva para ser visto. Há quem escreva para ser admirado. E há quem – como eu – escreva para ser coerente.
A minha escrita não nasce da vontade de impressionar. Nasce da vontade de ser justo comigo e com o mundo.
É por isso que ela carrega ética, mesmo quando não fala de moral. É por isso que ela tem serenidade, mesmo quando nasce da inquietação.
Escrever, para mim, é um exercício de alinhamento interior. É pôr cada pensamento no seu lugar, como quem arruma uma casa com cuidado e respeito.
É transformar o que sinto em algo que possa ser dito sem exagero, sem ruído, sem máscaras.
A ética aparece na escolha das palavras: as que não ferem sem necessidade, as que não exibem, as que não pedem aplauso.
Aparece também no que decido não escrever: as vaidades fáceis, os dramatismos inúteis, as sombras que não acrescentam verdade.
A minha escrita é uma forma de responsabilidade. Responsabilidade comigo, com a minha consciência, com a minha memória.
Responsabilidade com o mundo que observo atento, inquieto, sensível, mas sem me deixar arrastar pelo excesso ou pela tentação de me colocar no centro da narrativa.
E é por isso que a minha escrita é serenidade. Porque é coerente. Porque é limpa. Porque é fiel ao que sou.
A serenidade não vem de fora. Vem dos gestos interiores de nos colocarmos inteiros nas palavras, sem adornos, sem artifícios, sem necessidade de provar nada a ninguém.
A minha ética de vida, uma mistura de gratidão, justiça interior, humildade e lucidez, passa para o papel como quem passa a mão por uma superfície antiga para sentir a sua textura.
Não para a polir, mas para a reconhecer.
Escrever, para mim, é isso: um ato de verdade, um ato de memória, um ato de serenidade.
E quando a escrita e a ética se encontram, nascem textos que não pretendem ser grandes, pretendem apenas ser verdadeiros.
Texto e foto

Beirã: Onde o tempo fala comigo

Há lugares que não se escolhem – acontecem-nos. A Beirã é um desses lugares. Não nasceu comigo, mas moldou-me. E quanto mais os anos passam, mais percebo que esta terra não é apenas o sítio onde cresci: é o sítio onde continuo a aprender a ser.
A Beirã tem um silêncio próprio. Não é o silêncio vazio das cidades adormecidas, nem o silêncio tenso das estradas desertas. É um silêncio cheio: cheio de pedra, de vento, de memória, de passos que já não se ouvem, mas que ficaram gravados no chão.
É um silêncio que não pesa, acompanha.
Quando caminho pelos campos ou quando olho para a Tapada da Rabela desde o meu quintal, sinto que esta terra fala comigo numa língua que não se aprende nos livros.
É uma língua feita de cheiros a rosmaninho, a giesta, a terra quente. Feita de sons como o arrulhar das rolas, o farfalhar das folhas dos sobreiros ao lado da minha casa, o rumor distante de um trator que passa como quem cumpre um ritual antigo. Feita de luz, daquela luz dourada que só o Alto Alentejo sabe dar ao fim da tarde.
Mas a Beirã não é só beleza. É história. É cicatriz. É resistência.
Eu vi esta terra cheia de vida: ferroviários, guardas fiscais, despachantes, famílias inteiras que enchiam as ruas de movimento. Vi comboios chegar e partir, vi a estação ser coração, vi a alfândega ser fronteira viva. E depois vi tudo isso desaparecer devagar, como quem apaga uma vela com cuidado para não levantar fumo.
A Beirã perdeu gente, perdeu serviços, perdeu futuro. Mas não perdeu alma. Nunca perderá alma.
E é essa alma que me prende aqui. É essa alma que me faz cuidar do quintal como quem cuida de um pedaço de história. É essa alma que me faz falar com as rolas que me reconhecem, com a lagartixa que aparece sempre no mesmo muro, com as pedras que guardam mais memória do que muitos livros.
Há dias em que me sento à sombra da minha casa e penso: como é possível que um lugar tão pequeno contenha tanto de mim? E a resposta vem sempre da mesma forma: porque aqui, nesta terra amiga, eu nunca precisei de fingir. Aqui sou completo. Aqui sou conhecido. Aqui pertenço.
A Beirã ensinou-me a respeitar o tempo. O tempo das estações, o tempo das pessoas, o tempo das coisas que não voltam. Ensinou-me que há memórias que se guardam como se guardam sementes – não para as prender, mas para as deixar florescer quando chegar o momento.
E talvez seja por isso que, mesmo quando o mundo lá fora me cansa, quando me julgam sem saber, quando opinam sem conhecer, eu volto sempre a este chão. Porque aqui, entre pedras antigas e horizontes largos, encontro aquilo que nenhuma cidade me pode dar: a certeza de que pertenço a um lugar que me conhece melhor do que muitos humanos.
A Beirã não é apenas a minha terra. É o meu espelho. É o meu abrigo. É o meu princípio e o meu regresso. E enquanto eu puder escrever, caminhar, respirar e olhar este horizonte, sei que nunca estarei sozinho. Porque esta terra – antiga e maravilhosa – guarda-me como eu a guardo a ela.
Texto e foto

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Um país que esquece quem o sustenta

Hoje foi um dia em que a política mostrou o seu lado mais sombrio, e, paradoxalmente, um dia de alívio.
O que esteve prestes a acontecer na Assembleia da República não era uma reforma: era um retrocesso de meio século, um golpe silencioso na dignidade de quem trabalha, um atentado à espinha dorsal do país.
Porque um país não cresce sacrificando quem o sustenta. Nunca cresceu. Nunca crescerá.
Vivemos num território onde a corrupção se tornou rotina, onde a justiça cambaleia como um velho edifício cheio de rachas, onde a burocracia é uma muralha que trava quem quer produzir.
E, no meio deste caos, o grande desígnio político era… alterar cento e tal artigos do Código do Trabalho. Como se o problema em Portugal fossem os trabalhadores e não o sistema que os esmaga.
Os números são conhecidos: somos dos que mais horas trabalham e dos que menos recebem em toda a União Europeia. É uma equação cruel, quase obscena.
Querem produtividade? Então olhem para onde dói: uma justiça lenta que arrasta empresas para o abismo, custos de produção que sufocam qualquer tentativa de crescer – combustíveis, eletricidade, gás, portagens – tudo mais caro do que devia ser num país que se quer competitivo.
Baixem estes fardos e verão o milagre: empresas mais sólidas, salários mais dignos, trabalhadores mais motivados. A produtividade não nasce do chicote; nasce das condições.
Mas há quem prefira o caminho fácil: cortar direitos, apertar quem já vive apertado, satisfazer a ganância de quem confunde lucro com exploração. Esses não são empresários, são oportunistas.
Os verdadeiros empresários são os que lutam ao lado dos seus trabalhadores, não contra eles. São os que passam noites em claro para garantir que ninguém fica sem pão na mesa. São os que sabem que uma empresa só é forte quando quem lá trabalha consegue viver com dignidade.
Hoje evitou-se um desastre. Mas o simples facto de ter sido preciso evitá-lo diz muito sobre o país que somos e sobre o país que ainda precisamos ser.
19. 06. 2026

Porque se guardam as pedras e se esquecem as pessoas

Este texto não toca na arqueologia. Não belisca o trabalho científico. Não diminui o legado de quem dedicou décadas a estudar, preservar e compreender o passado.
Fala de outra coisa: da memória humana, da vida que não fica registada em pedra, daquilo que se perde porque ninguém anotou, ninguém fotografou, ninguém guardou.
Pretende apenas chamar a atenção para outra dimensão da lembrança: a das pessoas que ergueram esses monumentos e das gerações que, ao longo dos séculos, lhes deram continuidade com os seus gestos, os seus usos e os seus modos de viver.
A memória humana, tantas vezes esquecida, é tão essencial como a memória das pedras. É como elogiar o pão alentejano e esquecer os padeiros que, dia após dia, o trouxeram até nós.
Este texto é, por isso, um apelo à justiça da lembrança – não uma crítica à arqueologia, mas um complemento necessário à história.
Então, cá vai:
Há uma pergunta que me acompanha cada vez que olho para a minha terra: porque é que se escavam antas, menires, sepulturas antigas, porque é que se recolhem fragmentos de cerâmica e pontas de seta para os museus, e, no entanto, quase ninguém recolhe as vidas, os gestos, os usos e os costumes das pessoas que realmente fizeram este país?
As pedras são tratadas como tesouros. As pessoas como descartáveis.
E, no entanto, foram elas, as mães, os pais, os trabalhadores do campo, os criados, os jornaleiros, os pastores, que sustentaram a terra com o corpo e com a alma. Mas essas vidas não ficaram em vitrinas. Ficaram no esquecimento.
No Monte do Matinho onde a minha mãe cresceu, os patrões comiam numa divisão e os criados noutra. Os patrões tinham pão de trigo; os criados, pão de centeio. Era um apartheid rural, tão antigo e tão normalizado que ninguém lhe chamava injustiça, achavam até natural.
E essa naturalidade era talvez a maior violência de todas.
As pedras não revelam isto. As pedras não contam que havia mesas separadas, mundos separados, destinos separados. As pedras não dizem que houve gente que viveu sem nunca se sentar à mesa dos que mandavam.
As pedras são fáceis de admirar. As vidas são difíceis de encarar. Por isso se guardam umas e se esquecem as outras. A arqueologia das pedras não incomoda ninguém. A arqueologia das pessoas incomoda toda a gente.
Porque obriga a lembrar que houve pobreza que não era destino, era sistema. Que houve trabalho que não era escolha, era servidão. Que houve fé que não era fuga, era resistência. Que houve dignidade que nunca foi reconhecida.
A geração da mãe Florinda, do pai António, e de tantos outros, sabia pouco de letras, mas sabia ler o mundo com uma pureza que hoje quase não existe. Sabiam distinguir o bem do mal sem precisar de códigos. Sabiam trabalhar sem relógio, amar sem manual, sofrer sem alarde.
Sabiam viver com pouco e dar muito.
Mas como não deixaram livros, nem diários, nem monumentos, ficaram fora da história oficial. E, no entanto, foram eles que a fizeram.
A verdade é esta: as pedras são património porque não falam. As pessoas não são património porque, se falassem, o país teria de ouvir.
E ouvir implicaria reconhecer desigualdades, injustiças, silêncios, abusos, hierarquias que se prolongaram durante séculos. Implicaria admitir que a grandeza deste país foi construída sobre ombros que nunca tiveram nome.
Por isso é que quase ninguém escreve sobre eles. Por isso é que quase ninguém os eterniza. Por isso é que quase ninguém os leva para os museus.
Mas há uma coisa que as pedras não conseguem fazer: não conseguem amar.
E é por isso que a memória verdadeira – a que importa, a que salva, a que ilumina – só pode ser escrita por quem sente. Por quem viveu. Por quem herdou. Por quem sabe que a história de um povo não está só nos monumentos, mas também nas mãos calejadas que nunca chegaram a erguer monumento nenhum.
E eu escrevo isto porque acredito que a vida dos meus pais vale tanto como qualquer anta ou menir. Porque a fé deles é património. Porque a dignidade daquela geração é história. Porque os seus gestos, as suas crenças, os seus silêncios e a sua bondade merecem ser guardados com a mesma reverência com que se guardam pedras antigas.
E talvez um dia os vindouros percebam que, antes de escavar o chão, é preciso escavar o coração. Não escrevo para julgar o passado, mas para que a verdade não se perca, porque só quem honra as pessoas consegue, um dia, honrar a terra.
Texto e foto
Anta da Granja - Freguesia de Beirã.

Bom fim de semana

Mãos que me conhecem
Há gestos que não se inventam, nascem do tempo. As mãos da Maria Manuela pousadas nos meus ombros são um desses gestos: um instante que contém meio século de cumplicidade, de risos que se perderam no vento, de silêncios que se tornaram abrigo.
Ela toca-me como quem sabe o caminho. Não há pressa, nem cerimónia, apenas verdade. As suas mãos são memória e promessa, são o lugar onde o amor se faz simples, onde o quotidiano se transforma em eternidade.
Há quem procure o amor nas palavras, nós encontrámo-lo nos gestos. No modo como ela se aproxima, como me olha sem precisar de dizer nada, como me reconhece mesmo quando o mundo muda.
Essas mãos guardam o peso leve da vida partilhada: as manhãs em que o café tinha o sabor da esperança, as tardes em que o cansaço se tornava ternura, as noites em que bastava um toque para calar o medo.
E eu, quando sinto esses gestos, sei que não há solidão possível. Porque há uma presença que me acompanha, uma pureza que me devolve ao essencial, ao amor que não se exibe, mas permanece.
Nesta fotografia, há luz suficiente para ver o que importa: dois rostos serenos, duas vidas que se reconhecem. E nesse instante tudo se suspende, como se o tempo, por respeito, parasse para olhar.
As mãos dela sobre os meus ombros são o ponto final e o recomeço. São o sinal discreto que o amor, quando é verdadeiro, não envelhece – amadurece.
E continua a dizer, sem palavras: “Segue, que eu vou contigo.”

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Do silêncio que me criou, ao ruído que nos está a perder

Há um silêncio que me acompanha desde menino. Um silêncio de bolsos vazios, de caminhos de terra, de tardes inteiras a inventar o mundo com um pau, uma pedra, um riacho. Um silêncio que não era pobreza, era espaço. Espaço para crescer, para imaginar, para ouvir o próprio coração antes de ouvir o mundo.
Hoje olho para as crianças com os mesmos onze anos que eu tinha e vejo outra realidade. Bolsos cheios. Demasiado cheios. Cheios de smartphones, de roupas e calçado que dariam para vestir e calçar um mês inteiro sem repetir, de objetos que se acumulam sem que lhes conheçam o valor.
E não é inveja do passado. É preocupação pelo futuro.
Porque aquilo que antes nos faltava, obrigava-nos a crescer por dentro. Mas aquilo que hoje sobra, corre o risco de os deixar vazios por dentro.
Vejo crianças que já não sabem esperar. Que já não suportam o tédio. Que comem com o telemovel na mão, que recebem visitas sem levantar os olhos do ecrã, que vivem num mundo onde tudo é imediato, mas quase nada é profundo.
E pergunto-me, com a inquietação e a responsabilidade de homem que viu o país mudar: Que adultos estamos a formar quando lhes damos tudo, menos limites? Que carácter nasce, quando o desejo é satisfeito antes de amadurecer?
Não culpo as crianças. Elas são o que lhes damos. Culpo esta pressa moderna de substituir presença por objetos, atenção por tecnologia, amor por distração.
Quando eu era pequeno, o silêncio ensinava-nos a ouvir. Hoje, o ruído ensina-os a fugir.
Fugir da conversa à mesa. Fugir do convívio familiar. Fugir do desconforto de estar consigo próprios. Fugir até da realidade, refugiando-se num ecrã que lhes promete tudo e não lhes dá nada.
E nós, adultos, deixamos. Porque estamos cansados. Porque é mais fácil. Porque também nós fomos engolidos por esta máquina que transforma tudo em consumo, até a infância.
Mas ainda vamos a tempo.
Ainda podemos ensinar que um telemóvel não substitui um abraço. Que tantas legguin´s, tshirt’s e ténis, não valem uma tarde a conversar. Que a mesa é um altar de família, não um carregador de baterias. E que o mundo não se mede em likes, mas em gestos.
O silêncio que me criou, esse, nunca mais volta.
Mas podemos criar outro: o silêncio de desligar o telefone, o silêncio de ouvir um filho, o silêncio de jantar em conjunto, o silêncio de ensinar que a vida não cabe num ecrã.
Se não o fizermos, um dia estas crianças tão cheias de coisas descobrirão que cresceram vazias de tudo o que realmente importa.
E aí, já será tarde demais.
Texto e foto

quarta-feira, 17 de junho de 2026

A linha que conduziu a minha vida inteira

A minha vida não começou no dia em que nasci. Começou no dia em que percebi que era preciso ser homem antes do tempo.
Tinha onze anos quando recebi o meu primeiro ordenado: cento e cinquenta escudos. Cinco escudos por dia, a guardar ovelhas, a enfrentar o frio, o silêncio, a solidão dos campos. Não havia infância ali – havia responsabilidade.
Foi assim que cresci: não com brinquedos, mas com deveres; não com tempo livre, mas com trabalho; não com proteção, mas com coragem.
A vida foi muito dura comigo, sim. Antes de aprender a cair, tive de aprender a levantar-me. E foi esse levantar constante que me fez homem.
Mais tarde, quando a vida me pediu contas, eu respondi como sempre: com a minha presença a cuidar dos meus.
Foi isso a minha vida toda: uma linha contínua de responsabilidade, de entrega, de dignidade. Não porque eu fosse especial, mas porque era o que tinha de ser.
E agora, quando olho para trás, vejo que nunca tive descanso fácil. Mas tive sentido. Nunca tive abundância. Mas tive propósito. Nunca tive caminhos suaves. Mas tive direção.
E quando olho para a frente, sei que o mundo mudou. Sei que talvez não receba o mesmo cuidado que dei. Sei que talvez não haja mãos para me fecharem os olhos como eu fechei os do meu pai. Sei que a vida já não é feita da mesma massa.
Mas não digo isto com tristeza. Digo-o com lucidez.
O valor do que fiz não depende do que receberei. O amor que dei não perde dignidade se não voltar a mim na mesma forma. A minha vida não se mede pelo que me farão, mede-se pelo que fiz.
E fiz muito. Fiz tudo. Fiz o que era certo. Se um dia eu partir sozinho, não partirei vazio.
Levarei comigo o rapaz de 11 anos que aprendeu a ser homem cedo demais. Levarei comigo o filho que cuidou do pai. Levarei comigo o neto que cuidou da avó. Levarei comigo o homem que acompanhou a mãe até ao fim. Levarei comigo cada gesto de amor que dei, cada noite de vigília, cada silêncio que suportei, cada dor que transformei em força.
A minha vida não foi nada fácil. Mas foi inteira. E isso basta.
O que sou, não termina comigo. Fica nos que toquei, nos que cuidei, nos que amei. Fica nos gestos que deixei, nas marcas que plantei, na dignidade com que vivi.
Eu sou essa linha, dura, longa, firme, verdadeira. E quando chegar o fim, não será apagamento. Será apenas o ponto final de uma história que valeu a pena ser vivida.
Texto e foto