terça-feira, 1 de setembro de 2026

Que a memória nunca esqueça

Em julho de 2021, quando o medo ainda pairava sobre o mundo, a fé encontrou forma de resistir. À porta da igreja, improvisámos um altar e deixámos que o vento fosse o nosso incenso.
Cantámos o salmo com o coração apertado, mas juntos. Rezámos à distância, mas unidos. E descobrimos que a fé não precisa de paredes e basta um olhar que acolhe, uma voz que se levanta, uma comunidade que não desiste.
Hoje, quando tudo parece ter voltado ao normal, corremos o risco de esquecer. Esquecer que fomos frágeis. Esquecer que precisámos uns dos outros. Esquecer que o essencial não está nas rotinas, mas na presença.
A pandemia ensinou-nos que o amanhã pode mudar num instante. Que o abraço negado dói mais do que qualquer febre. Que o silêncio das ruas pode também ser oração.
E que a vida, quando partilhada, é mais leve.
Não deixemos morrer a memória.
Porque o que vivemos foi mais do que medo, foi lição. E se um novo tempo difícil vier, que nos encontre como naquele dia à porta da igreja, juntos, atentos, humanos.
José Coelho
Foto: Eucaristia Solene de 16 de julho de 2021 à porta da igreja, em tempo de pandemia. A fé não se confinou; respirou ao ar livre, entre cadeiras distanciadas, mas corações próximos.

A água da Celorica

Há lugares que não se visitam: regressa‑se a eles. A Fonte da Celorica é um desses sítios onde a terra parece ter memória e onde a água, ao brotar, nos reconhece antes de nós a reconhecermos a ela. Quem ali chega não encontra apenas um caudal transparente a correr pela bica de ferro, encontra uma origem.

Uma verdade que não precisa de explicação.

Recordo a primeira vez que lá fui, ainda menino, levado pela mão firme do meu pai. A manhã estava fresca e o caminho parecia maior do que realmente era. Havia silêncio, mas não era o silêncio das ausências, era o silêncio das coisas que sabem o que são. O chão respirava, os castanheiros guardavam a sombra e a água brilhava como se tivesse sido acesa por dentro.

A sua nascente no cimo das fragas não se impõe, não tem porte de monumento, não tem a arrogância das obras humanas. É silenciosa, discreta, quase tímida. Mas quem se aproxima sente logo que ali há qualquer coisa de definitivo. A água sai da terra com uma franqueza que não se encontra nas pessoas: não mente, não disfarça, não promete o que não pode cumprir.

É fria como deve ser, pura como pode ser, constante como nós raramente somos.

Durante anos, ir à Celorica era um ritual. O cântaro de barro, o som da água a bater no fundo, o peso que aumentava devagar enquanto o cântaro se enchia. E depois o regresso, sempre mais leve do que a ida, porque a água traz consigo uma espécie de ordem. Quem carrega água carrega também um pedaço de mundo arrumado.

Ali aprendi que a água é destino.

Não apenas porque dá vida, mas porque nos ensina a olhar. A nascente pouco muda com as estações: no verão parece mais apressada, no inverno mais silenciosa, na primavera mais generosa. Mas nunca deixa de ser ela. Nunca falha. Nunca se esquece de aparecer.

Hoje quando volto à Celorica, já não levo cântaros. Levo memória. Levo o corpo que envelheceu, mas que ainda reconhece o frio da água como se fosse o primeiro toque. Levo também a certeza de que há lugares que nos moldam sem fazer barulho. Esta fonte e nascente é um deles. É uma lição de humildade: tudo começa num ponto pequeno, escondido, quase invisível.

E talvez seja isso que a torna tão grande. A água da Celorica não é apenas água. É origem. É caminho. É destino.

José Coelho

Fontes, curvas e memórias

Há caminhos que não se percorrem apenas com os pés ou com o carro. Percorrem-se com aquilo que se traz dentro, com o que se lembra, com o que se perdeu, com o que ainda se guarda como quem protege uma chama pequena. As estradas e caminhos da Beirã, com as suas fontes e curvas, são exatamente isso: um mapa da minha vida.
As fontes são lugares onde a memória bebe. E cada fonte tem uma história. A da Celorica, fria como uma verdade antiga. A da Murta, onde a água parece falar baixinho. Aquelas fontes que encontrava nas minhas deslocações de menino, quando a aldeia era maior do que o mundo e cada poça era aventura.
As fontes são como capítulos: umas claras, outras sombrias, outras quase esquecidas. Mas todas guardam o gesto de parar. E parar, na minha vida, foi sempre pensar. As curvas na serra, no desenho do tempo, não são apenas geografia. São ritmo. São pausa. São aquilo que obriga o corpo a ajustar-se e a mente a acompanhar.
Há curvas que me lembram o meu pai, caminhando com passo firme. Há curvas que me devolvem a imagem da minha mãe, com o seu avental e voz doce. Há curvas que me trazem a Maria Manuela, sentada ao meu lado, a comentar o mundo com aquela serenidade que só ela tem. E há curvas que me devolvem a mim próprio, ao homem que conduz sozinho, mas nunca vai só.
Cada curva é uma memória que se acende e eu transformo cada curva em narrativa.
Há um instante, sempre o mesmo, em que a estrada deixa de ser estrada e passa a ser pensamento. É quando o carro avança devagar, quando o vento muda de tom, quando a luz da serra se inclina. É aí que as memórias aparecem, não como fantasmas, mas como companhia.
A fonte que vejo há décadas. A curva onde me apercebi que estava a crescer. O lugar onde parei para respirar antes de dizer à avó Amélia que o avô Zé Lourenço tinha acabado de falecer no hospital de Portalegre. O sítio onde disse a mim mesmo: “Vai correr bem.”
As estradas e caminhos da Beirã não me levam apenas de um ponto ao outro. Levam-me de um tempo ao outro. Quando chego a casa depois de passar pelas fontes e curvas que conheço de cor, trago sempre qualquer coisa comigo: uma lembrança, uma frase, uma certeza, uma paz.
É como se a estrada me devolvesse ao essencial, ao que sou quando ninguém me está a ver.
E talvez seja isso que faz destas viagens pequenas uma espécie de ritual: não se trata de chegar, mas de recordar. Não se trata de andar, mas de reencontrar. As fontes são memória. As curvas são vida. E eu sou o personagem que as atravessa com a serenidade de quem sabe que cada quilómetro é também uma história.

O silêncio do amanhecer nas aldeias

Há silêncios que não se explicam, vivem-se. O das aldeias ao amanhecer é um desses silêncios que não pedem licença para existir. Chega antes de nós, instala-se na rua, pousa nas paredes, estende-se pelos quintais como um lençol de calma. E quem acorda cedo aprende a respeitá-lo, porque ali, naquele intervalo entre a noite e o dia, a aldeia revela o que tem de mais íntimo.
Ao amanhecer as casas ainda estão fechadas, mas já pensam. Há uma luz tímida que se insinua pelas frinchas das portadas, como se quisesse verificar se todos dormem. As telhas guardam o fresco da madrugada, e o ar tem aquele cheiro limpo que só existe quando o mundo ainda não começou a mexer.
Os primeiros sons são quase inaudíveis. Um galo distante, uma porta que range, o bater suave de um balde a pousar no chão. Nada disto perturba, pelo contrário, confirma que a aldeia está a acordar com a dignidade de quem não precisa de pressa. E depois, há o canto das aves. Não é ainda o concerto cheio do meio da manhã; é um ensaio discreto, como se os melros e as rolas testassem a voz antes de a oferecerem ao dia.
A terra também acorda. O cheiro da humidade levanta-se do chão como uma memória antiga. As hortas parecem suspensas, à espera da mão que vai chegar mais tarde para regar, colher, cuidar. E as videiras, quietas, deixam que o vento lhes toque as folhas com a delicadeza de quem sabe que o amanhecer não gosta de movimentos bruscos.
Há quem diga que o silêncio é ausência. Na aldeia, não é. O silêncio do amanhecer é presença, é o que fica quando tudo o que é supérfluo ainda não acordou. É o que permite ouvir o que normalmente se perde: o respirar das casas, o rumor da serra, o passo leve de alguém que sai cedo para trabalhar, a água que corre num tanque escondido.
E há também uma espécie de verdade nesse silêncio. A verdade de que a vida não precisa de espetáculo para começar. A verdade de que o dia, para ser dia, não exige ruído, exige sentido. E o sentido, na aldeia, nasce sempre assim: devagar, com pudor, com respeito pelo que dormiu.
Eu cresci a ver este amanhecer. A sentir que o mundo, antes de ser mundo, é silêncio. E ainda hoje, quando abro a porta manhã cedo, encontro essa mesma serenidade à minha espera, como um velho amigo que nunca falha.
O silêncio do amanhecer na minha Beirã não é apenas silêncio. É promessa. É raiz. É o primeiro gesto de cada dia.
Texto e foto

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O último artesão da aldeia

Durante muitos anos, a Beirã foi um pequeno mundo onde cada ofício tinha um rosto, um nome, uma história. Hoje, quando se fala do “último artesão”, não se fala apenas de um homem, fala-se de uma linhagem inteira que foi desaparecendo devagar, como a luz ao fim da tarde. Mas houve um que ficou até mais tarde: o barbeiro, senhor João Rabaça.
A barbearia dele era mais do que um lugar de cortes de cabelo. Era ponto de encontro, consultório, sala de conversas, tribunal de pequenas causas, jornal vivo da aldeia. O senhor João Rabaça tinha mãos firmes, seguras, mãos que sabiam pousar a tesoura com a delicadeza de quem segura uma confidência. E quando ele fechou a porta pela última vez, fechou-se também um capítulo da Beirã.
Mas antes dele houve tantos outros, cada um guardião de um saber que não volta.
Havia o sapateiro, senhor João Sarzedas, homem de poucas palavras e de muita paciência. A oficina dele cheirava a couro, a cola, a sola nova. O som do martelo era música de trabalho, e as botas que saíam das suas mãos duravam mais do que muitas vidas modernas. Ele não consertava apenas sapatos – consertava caminhos.
E havia o grande artesão no ofício da carpintaria senhor Francisco Olivença que partiu precocemente só Deus sabe as razões, autor de uma perfeição inigualável em obras públicas – como toda a panóplia de madeiramento desde o soalho aos bancos para os fiéis, e ao confessionário da nossa Igreja – que permanecem inteiros e funcionais até aos dias de hoje, muitas décadas depois.
Houve posteriormente ainda outro carpinteiro de Castelo de Vide cujo nome já me escapa, mas cuja presença não. E havia o seu filho, meu amigo de infância, o António Carpinteiro que cresceu entre tábuas, serras e pó de madeira. A carpintaria deles era uma catedral de madeira: portas, janelas, mesas, cruzes, brinquedos, tudo nascia ali, com a dignidade das coisas feitas para durar.
E três alfaiates, homens de agulha fina e olho atento: o senhor Manuel Barradas por cima da Sociedade Recreativa, o senhor Barradinhas nos baixos do Senhor Graça e ainda o senhor Baldeiras que tinha a alfaiataria na primeira casa lado esquerdo da Rua Vivas, unidos pelo mesmo talento. As suas mãos sabiam medir sem fita, cortar sem erro, coser sem falha. Os fatos que faziam não eram roupa, eram respeito. E quem vestia um fato deles sentia-se mais completo.
E havia também o meu pai, o ti António Coelho artesão da pedra, homem que falava com ela como quem fala com um velho amigo. A pedra obedecia-lhe. Ele sabia onde tocar, onde bater, onde esperar. Sabia que a pedra não se vence, convence-se. E as obras que deixou espalhadas pela freguesia são testemunho de uma força que não era só física: era moral.
E porque não mencionar também três artesãos autodidatas que foram pastores, camponeses, ceifeiros e cavadores de terra, mas nas suas horas vagas executavam verdadeiras obras de arte - carros de parelha com os respetivos muares, carroças, sóchas e sôchos, pássaros que moviam a cabeça e o rabo, bolotas entrançadas, garfos, facas e colheres, com pedaços de madeira ou de cortiça: o meu avô José Lourenço, o seu filho mais velho e meu tio Francisco Lourenço, e também o ti João Pereira que morava no Bairro da Misericórdia da Beirã, já todos na eternidade.
Todos esses homens e muitos outros mais, foram grandes e competentes artesãos. Todos foram últimos, cada um no seu tempo. E todos deixaram na aldeia uma marca que não se apagará nunca.
Hoje, quando se fala do “último artesão”, fala-se do senhor João Rabaça porque foi o último a fechar a porta. Mas a verdade é outra: o último artesão da aldeia será sempre aquele que ainda vive na memória de quem o viu trabalhar.

sábado, 29 de agosto de 2026

A bondade é um dom, não uma obrigação

Vivemos num tempo em que os valores parecem ter sido empurrados para o canto mais escuro da sala. As máscaras deixaram de ser exceção e tornaram se parte da indumentária diária de muita gente. E quem ainda acredita na transparência do coração acaba, demasiadas vezes, por se magoar não por ingenuidade, mas por medir os outros pela sua própria medida.
A bondade quando é verdadeira, não é fraqueza. Mas pode ser perigosa.
Hoje há quem se mova apenas pelos seus interesses, disposto a subir degraus custe o que custar, mesmo que para isso tenha de usar atalhos duvidosos ou vantagens indevidas. Nesse cenário, a lealdade é vista como obstáculo, e as relações humanas tornam se frágeis, descartáveis, quase utilitárias.
Apesar disso, ainda existe quem insista em acreditar no ser humano: na amizade que não se vende, no amor que não se disfarça, na afetividade que não calcula. Ainda há quem continue a viver com o propósito simples – e tão raro – de ser feliz sem ferir ninguém, de ajudar sem esperar retorno, de se colocar no lugar do outro antes de julgar.
Mas essa generosidade, quando confundida com obrigação, abre espaço para abusos. E quando o abuso se repete, o coração cansa.
Pessoas positivas perdoam com facilidade, porque acreditam na capacidade de mudança. Reconstroem, recomeçam, renovam a esperança. Mas há quem receba o perdão como se fosse direito adquirido, como se todos fossem obrigados a perdoar sempre, sem limites, sem reflexão, sem mudança.
Isso não é verdade.
Ninguém pode abusar da bondade alheia indefinidamente. Há um momento silencioso, mas definitivo em que a paciência se esgota, mesmo que ainda exista amor. Pessoas boas perdoam muitas vezes, mas quando desistem… desistem por completo.
E quando esse ponto chega, não há volta, nem remendo, nem nova oportunidade. Há apenas o fim, não por falta de carinho, mas por respeito próprio.
Este é o aviso: a bondade é um dom, não uma obrigação. E quem a recebe deve saber cuidar dela.
Bom fim-de-semana, cuidem-se, sejam felizes.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Mãos que sustentam a comunidade

Há comunidades que se mantêm de pé pelo empenho de algumas mãos que as habitam. Não são mãos famosas, não aparecem em fotografias, não escrevem discursos. São mãos que trabalham, que carregam, que arrumam, que rezam, que cozinham, que ajudam, que levantam o que caiu e seguram o que está prestes a cair. São mãos que a sustentam e fazem-no em silêncio.
Penso muitas vezes nas mãos que conheci desde menino. As mãos do homem que lavrava a terra com a paciência de quem sabe que o solo só dá a quem o respeita. As mãos da mulher que amassava o pão, com aquele gesto circular que parecia uma oração. As mãos do carpinteiro, escuras de pó, que transformavam tábuas em portas, bancos, cruzes, memórias. As mãos da vizinha que trazia figos ou pêssegos carecas, não por obrigação, mas porque a generosidade era o seu modo natural de estar no mundo.
Cada mão tem uma história. Os calos são capítulos. As rugas são parágrafos. E o toque, esse toque firme, quente, honesto, é a assinatura de uma vida inteira dedicada ao que importa.
Na aldeia, as mãos dizem mais do que as palavras. Quando alguém ajuda a levantar um muro, não está apenas a erguer pedras: está a erguer pertença. Quando alguém varre a igreja, não está apenas a limpar o chão: está a cuidar da fé de todos. Quando alguém leva um balde de batatas ao vizinho, não está apenas a oferecer comida: está a oferecer companhia, respeito, memória.
E há também as mãos invisíveis. As que ninguém vê, mas que fazem tudo. As mãos que acendem velas na igreja quando ninguém está. As que arrumam o adro depois de uma festa. As que carregam cadeiras, limpam bancos, lavam toalhas, preparam flores, organizam papéis, resolvem esquecimentos. Essas mãos são o coração secreto da comunidade, o motor silencioso que nunca falha.
Aprendi a reconhecer essas mãos. A agradecer-lhes sem palavras. A perceber que a aldeia não vive de discursos, vive de gestos. E que os gestos, quando são verdadeiros, nascem sempre das mãos.
Hoje, quando olho para as minhas próprias mãos, vejo nelas a continuação das mãos que vieram antes. Não são tão fortes como foram, não têm a rapidez de outros tempos, mas guardam a mesma vontade de servir. E talvez seja isso que define uma comunidade: a passagem discreta de mãos que fazem, para mãos que continuam a fazer.
As mãos que sustentam a comunidade não pedem reconhecimento. Pedem apenas que a aldeia permaneça. E a aldeia permanece porque elas existem.