Há
imagens que não são fotografias nem desenhos – são memórias que se acendem
dentro de nós. Esta imagem da internet, de um homem e de um cão lado a lado à
luz da lua, podia muito bem ter sido tirada na Beirã, num daqueles finais de tardes em
que eu chegava do trabalho, lanchava qualquer coisa e saía logo a seguir com o
Rex.
O
Rex… Negro como uma amora madura, forte, dócil, inteligente. O meu companheiro
de quatro patas, que só lhe faltava falar.
Caminhávamos
juntos pelos campos até ao anoitecer. Eu falava, ele ouvia. E havia momentos –
muitos – em que, se alguém nos visse de longe, diria que éramos exatamente esta
imagem: dois amigos lado a lado, iluminados pela lua, partilhando um silêncio
que dizia tudo.
Mas um dia a leshmaniose chegou. Nos anos 90 pouco se sabia, não havia vacinas, e o veterinário, receoso, disse-me que era melhor acabar com o sofrimento dele porque já tinha feridas incuráveis.
Veio ter comigo assim que o chamei.
A
família refugiou-se no primeiro andar. Eu fiquei cá em baixo, sozinho com o meu
amigo.
Sentei-me
no chão da tapada e disse-lhe:
–
Rex, deita aqui.
E ele deitou-se.
Pousou a cabeça no meu colo com a confiança de sempre. E naquele
instante, mesmo com o veterinário a preparar a seringa, mesmo com o peso da
decisão, mesmo com as lágrimas a caírem-me pela cara abaixo, senti que
estávamos outra vez naquela imagem: eu e ele, lado a lado, iluminados por uma
luz que não era a da lua, mas parecia.
O
veterinário fez o que tinha de ser feito. O Rex suspirou fundo, como quem
finalmente descansa. E partiu.
Fiquei
com ele até o corpo arrefecer. Depois cavei uma cova funda na tapada,
sepultei-o ali mesmo, e protegi o lugar com silvas e pedras grandes para que
nenhum animal selvagem o profanasse. Era o mínimo que podia fazer por quem me
tinha dado tudo.
Vieram
depois outros amigos: a Sacha, o Bolinhas, a Suri. Todos eles passaram pela
nossa vida como bênçãos breves. Todos eles partiram como partem os que amamos mais.
E
um dia, depois da Suri – que que se foi na Sexta-Feira Santa de 2022 – decidimos
que não queríamos mais passar por esse desgosto.
Mas
a verdade é que... desde então falta qualquer coisa nesta casa. Falta aquela
amizade que nenhum ser humano consegue dar. Falta a presença silenciosa, fiel,
inteira.
Falta
o Rex. Faltam todos eles.
E
talvez por isso, desde que a Suri partiu, nunca mais tive amigos a sério.
José Coelho





