Numa resposta quase imediata, na semana seguinte uma equipa composta por pedreiros, carpinteiros e pintores, “assentaram praça” no quartel para começarem a restaurar o mais urgente. O telhado que metia água e em alguns sítios ameaçava ruir. Foram substituídas quase todas as traves e barrotes, bem como centenas de telhas partidas causadoras de infiltrações. Depois foi a cozinha que levou azulejos brancos nas paredes, um armário moderno e lavável, um lava louça inox e um chão de mosaicos, bem como uma adequada iluminação interior.
O velho, escuro e gordurento “buraco” sem quaisquer condições de higiene e salubridade transformou-se numa cozinha com um mínimo de condições por ser indispensável aos militares que eram de longe e ali tinham que confeccionar as suas refeições diariamente. E como estava ali mesmo ao lado, foi também completamente remodelado o posto de rádio que ficou muito mais digno e funcional. Depois, uma a uma, todas as dependências do velho edifício foram sendo restauradas a expensas exclusivas da câmara municipal de Nisa.
Adaptaram-se as divisões dentro do possível. Separou-se o posto da secção. Do lado direito ficou o gabinete do oficial comandante e a respetiva secretaria, do lado esquerdo o gabinete do plantão contíguo ao gabinete do comandante de posto.
Adaptou-se um velho compartimento em frente á arrecadação do material de guerra que conseguimos decorar usando para isso pouco mais que umas dezenas de rústicas tábuas costaneiras dos desperdícios da serração e cedidas gratuitamente que depois de devidamente aparadas dos lados e envernizadas fizeram uma acolhedora sala de convívio que servia simultaneamente para os dias de instrução semanal, com uma bonita lareira feita de raiz para aquecer o ambiente nos dias frios de inverno.
Construiu-se um corredor em tijolo para se poder atravessar todo o edifício sem ter de se passar pelo interior da caserna, a qual entretanto foi também restaurada, assim como a casa de banho anexa equipada com louças sanitárias novas, azulejos nas paredes e chuveiros com água quente.
O velho piso de tábuas partidas, habitat seguro de famílias inteiras de ratos, foi substituído por um bonito e funcional parquet de corticite lavável, que deu logo um aspeto digno e acolhedor àquele compartimento, local de resguardo e de repouso para quem ali permanecia dia e noite por motivo de ter a sua residência e família afastados de Nisa e por isso só podia ir visitar na folga semanal.
Era o mínimo dos mínimos que se lhes podia - e devia - conceder. Condições dignas, com higiene, conforto e privacidade adequadas.
Também a residência que me era destinada levou uma volta completa. A casa de banho só tinha uma sanita e um lavatório. Não tinha chuveiro nem banheira. Os meus antecessores deviam com certeza tomar banho num balde porque nem águas quentes canalizadas a residência possuía. Depois a instalação elétrica era do princípio do século, com aqueles tubos primitivos em chumbo a despegarem-se das paredes.
O único contributo da Guarda em toda aquela remodelação, eram os dois militares que, estando de piquete 24 horas consecutivas, vestiam um fato de zuarte para auxiliarem os mestres naquilo que fosse necessário, entre as oito e as cinco da tarde, assegurando eu com o meu motorista, tomarmos conta de todas as ocorrências que houvesse naquele período de tempo. Era fraco o contributo, mas o possível e de muito boa vontade.
Todo o efetivo se regozijava com as obras de restauro que tardavam em chegar. Por isso, voluntariamente, cada um se prontificava para fazer o que podia e sabia.
Os guardas eletricistas ajudavam os eletricistas, os guardas pedreiros auxiliavam os pedreiros, os guardas canalizadores idem idem, aspas aspas - porque os guardas são também grandes e competentes profissionais de todas essas especialidades que desempenhavam antes de ingressarem na guarda - e aqueles que nenhum desses ofícios sabiam davam serventia onde fosse preciso.
Seis meses depois o quartel de Nisa não parecia o mesmo, por fora e por dentro. A CMNisa reaproveitando e reciclando muitos materiais sobrantes de outras obras de restauro de edifícios públicos - traves, barrotes, telhas e outros materiais existentes no estaleiro municipal - mesmo assim investiu naquela reparação cerca de seiscentos contos.
Mas não só. Logo a seguir, o executivo municipal liderado nessa altura pelo Dr Basso, providenciou o local e a elaboração do projeto para ser construído de raiz um novo quartel e duas residências para acomodarem o oficial comandante do Destacamento e o comandante do posto, no Bairro da Cevadeira onde foi de facto construído poucos anos depois e funciona até hoje.
José Coelho in Histórias do Cota
Foto a tomar já café no novo mini-bar do posto que a Delta Cafés teve a gentileza de equipar para o pessoal que tinha de estar 24 horas de serviço no posto, sem poder sair.