Ao cair da tarde, quando a luz se torna mais macia e o mundo parece suspender a respiração, há memórias que regressam como quem bate à porta devagar. Esta imagem que ontem me chegou – tão simples, tão terna, tão parecida com o quintal dos meus pais e avós – abriu em mim uma janela antiga. E por essa janela entrou, sem pedir licença, a vida daquele tempo.
Uma vida que era mesmo assim: não havia quase nada, mas também nada nos faltava. Porque o possível, era suficiente. E esse possível tinha uma grandeza que hoje reconheço com nitidez.
As flores da minha mãe e da minha avó davam ao mundo um ar de asseio, de cuidado, de harmonia. Não eram apenas flores: eram gestos. Eram a forma delas dizerem que, apesar da dureza dos dias, havia beleza para oferecer. Havia cor para pôr na vida, havia delicadeza para semear no quintal.
Entrávamos em casa e tudo estava limpo, arrumado, como se cada objeto tivesse o seu lugar na ordem do universo. As louças alinhadas na estante, o branco da cal nas paredes, os vasos com mangericos, as flores de noiva, as despedidas de verão roxas ou brancas… tudo era simples, mas tudo era cuidado. Era uma humildade asseada, digna, luminosa.
E nós, crianças, vivíamos nesse cenário sem perceber a sua preciosidade. Corríamos pelo quintal, brincávamos com as galinhas, víamos a água do ribeiro da Cavalinha subir em tempo de cheias e quase inundar a casa da avó, mas achávamos tudo normal. Era a vida. Era o mundo. Era o que havia.
Só hoje entendo: éramos felizes e não sabíamos. A felicidade não estava nas coisas grandes, estava nestas pequenas. No cheiro da cal fresca. No alinhamento das louças. No cuidado das flores. Na voz da minha mãe a chamar-nos para dentro. Na avó Amélia a sorrir quando nos via chegar. Na casa pequena que sempre foi pobre, mas digna. A felicidade era isso: uma soma de pequenos milagres que não reconhecíamos como tal.
Hoje, quando o mundo corre mais do que vive, percebo que aquela simplicidade era uma forma de abundância. Não tínhamos quase nada, mas tínhamos tudo o que importava. E é por isso que, ao cair da tarde, basta uma imagem para que o coração volte a esse lugar onde a vida era pequena, mas a alma, enorme.



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