Conheci-a logo. Não foi preciso aprender a conhecê-la. Bastou-me nascer. E desde esse primeiro instante, ela tornou-se a minha primeira casa, o meu primeiro mundo, a primeira luz a ensinar-me que a vida, mesmo quando é dura, pode ser boa se houver mãos que a amparem.
A minha mãe era uma mulher do sítio do Muro perto da herdade do Matinho, na Freguesia de Santo António das Areias, que pouco depois de ela ser Florinda, passou a pertencer à Freguesia da Beirã.
E ser mulher do Muro, foi ser mais do que mulher: foi ser raiz, foi ser chão, foi ser força que não se anunciava, foi ser ternura que não se exibia, foi ser coragem que não precisava de testemunhas. Ela tinha tudo isso e tinha ainda aquela doçura que só aparece em quem aprendeu a amar sem fazer barulho.
Era pequena de corpo, mas grande de alma. Tinha um olhar que sabia ver longe, mesmo quando os olhos estavam cansados. Tinha uma maneira de estar que nunca pedia atenção, mas que a recebia sempre, porque a sua presença era daquelas que enchia a casa sem ocupar espaço.
A vida não lhe foi leve. Mas ela carregou-a como quem carrega água num cântaro: com equilíbrio, com cuidado, com dignidade. Nunca a vi desistir. Nunca a vi virar a cara ao que tinha de ser feito. Nunca a vi deixar alguém para trás.
E tinha um dom raro: sabia amar em silêncio.
Não era mulher de grandes discursos. Não era mulher de se queixar. Não era mulher de se exibir. Era mulher de gestos e os gestos dela diziam tudo.
O modo como arrumava a casa. O modo como cuidava da roupa para a fazer durar mais tempo porque os recursos eram escassos. O modo como olhava para nós quando pensava que ninguém estava a ver. O modo como esperava pelo meu pai ao fim da tarde, com aquele sorriso que era só para ele.
A minha mãe era também a memória viva da nossa terra. Sabia histórias que ninguém mais sabia. Sabia nomes que já não se dizem. Sabia rezas antigas, cantigas de roda, modos de fazer que hoje já não se fazem. E guardava tudo isso como quem guarda tesouros – não para si, mas para nós.
Nos últimos tempos da sua vida, quando o corpo já se rendia e a mente parecia afastar-se devagarinho do mundo, ela teve um momento que nunca esquecerei. Falou alto, riu, chamou por pessoas da sua juventude, como se tivesse sido chamada por alguém que só ela podia ouvir. O seu rosto iluminou-se de uma alegria tão pura que parecia impossível num corpo tão cansado.
Era como se tivesse regressado ao monte onde crescera, ao lugar onde fora menina e moça, ao tempo em que a vida ainda não lhe tinha pedido tanto. E eu, ali ao lado, assisti a tudo com espanto, com ternura, com aquela dor mansa que só aparece quando percebemos que alguém está a despedir-se devagar.
Depois calou-se. Adormeceu profundamente, como quem regressa de uma viagem longa e luminosa. E dias depois, partiu. Mas não levou tudo consigo. Deixou-me o essencial: o modo de amar, o modo de cuidar, o modo de estar, o modo de ser.
Hoje, quando passo pelos lugares onde ela passava, não vejo apenas o que ela via antes de a retinopatia diabética destruir a luz dos seus olhos. Vejo a mulher que aqui habitou. Vejo a força que não se exibia. Vejo a ternura que não se anunciava.
Vejo a mãe que conheci assim que dela nasci.
E percebo que há pessoas que não partem. Ficam. Ficam na memória, no gesto, na palavra, no silêncio. Ficam na terra que as viu viver. Ficam nos filhos que as amaram.
Ficam para sempre.
Texto.
Pedro Coelho.
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