terça-feira, 3 de março de 2026

Gente fina é outra coisa.


Nasceram, como eu, na aldeia. Por isso irão ser, também como eu, provincianos até morrerem, por mais finos que queiram parecer. A vida levou-os para as grandes cidades e alguns de vez em quando regressam.
Herdaram ou compraram e restauraram as humildes casas dos pais ou dos avós, ou de algum conterrâneo amigo na aldeia, para virem depois passar temporadas, férias, ou apenas fins de semana.
E trazem com eles os seus cãezinhos e cãezões.
Porque gostam de animais.
E porque é chique.
De dia passeiam-nos com a trela, para darem o tal ar de gente fina. À noitinha, matreiramente, quando as pessoas recolhem para jantar, soltam os ditos cãezinhos ou cãezões para vaguearem sozinhos por onde lhes apetece e para, deliberadamente longe dos olhares dos seus ilustres donos, cagarem onde lhes apetece.
Normalmente - vá lá saber-se porquê - o sítio escolhido por eles é mesmo, mesmo, em frente à porta da casa, da garagem ou do portão dos vizinhos da mesma rua, da rua de trás, da rua do lado ou da rua da frente.
E os vizinhos, coitados, incautos e pouco ou nada habituados a tais porcarias, pisam inadvertidamente os montes de merda - perdoem-me o vernáculo aldeão - ficando com os sapatos cagados para a seguir também inadvertidamente cagarem o tapete, a passadeira, os mosaicos ou o sobrado da sua casa a rogarem pragas mortais e excomungando não os bichos, porque eles obviamente, não têm culpa.
Eu também sou aldeão e com muito orgulho. A vida não me levou para a grande cidade apesar de ter saído uns bons anos da aldeia. E também comprei a humilde casinha dos meus pais. Só não faço dela apenas casa de férias ou de fins-de-semana porque a habito com carácter definitivo há mais de três décadas.
Felizmente, sim, felizmente, continuo o mesmo de sempre. Sem peneiras, sem manias de grandeza, sem me armar em fino. E curiosamente, também tive cães. Dois. Um caniche puro que cabia debaixo do meu braço e mais uma cãozorra rafeiro-alentejana cruzada de pastor alemão que se calhar por isso mesmo era quase do tamanho de um burro.
Como não sou nem quero parecer uma uma pessoa fina, não os ia passear de trela. Mas eles iam à rua e cagavam como todos os outros. A cãozorra andava à solta no quintal e cada cagalhão que fazia enchia uma pá que no momento seguinte era apanhado e colocado num saco para posteriormente ir para o lixo devidamente acondicionado a fim de não meter nojo nem incomodar ninguém com o aspecto ou o cheiro.
O caniche ia à rua duzentas e trinta vezes por dia para mijar e cagar. Mais mijão que cagão como todos os caniches, fazia apenas uns caganitos que quase nem se viam. Mas que eu apanhava SEMPRE de forma adequada no momento seguinte, com um saco de plástico. E depositava-os em seguida no contentor do lixo mais próximo.
Jamais alguém alguma vez pisou ou pisará um cagalhão dos meus canitos.
Porque sim!
Gosto de ser assim, nada, nadinha mesmo, igual ou parecido a pessoas que se armam em elegantes, mas depois não sabem respeitar o direito mais elementar ao asseio e à higiene públicas dos seus conterrâneos e vizinhos.
Não estando perto dos cães quando eles cagam, permitem de forma tão deliberada como cobarde, que os animais espalhem uma autêntica sementeira de montes de merda por tudo quanto é rua, largo, parque ou travessa, da aldeia.
E não estando a vigiá-los, podem até fingir na sua medíocre elegância, que não dão conta do que os bichos fazem quando os mandam dar uma volta sozinhos à solta.
É caso para dizer, como dizem "nuestros hermanos Extremeños" aqui do lado, quando alguma coisa não lhes cai bem...
"La madre que los parió".
Tenho dito, curto e grosso.
Quem não gostar, ponha no bordo do prato...

segunda-feira, 2 de março de 2026

Esta incurável saudade

O lugar do Muro da Freguesia de Beirã onde nasceu a minha mãe e quase todos os seus irmãos e irmãs, era muito afastado de qualquer povoação, no meio dos canchais da raia onde viviam apenas três ou quatro famílias. Tinham, por isso mesmo, de ser autosuficientes.

Comiam do que semeavam nas hortas, dos galinheiros sempre cheio de aves, dos frutos sazonais dos pomares, e iam todos os meses moer o centeio aos moinhos do Sever lá para os lados das Amendoeiras, para obterem a farinha com que amassavam o pão.
Nesse tempo por todo o lado moravam camponeses, pastores ou mesmo assentadores do caminho de ferro pelas casetas dispersas por toda a linha férrea, da estação da Beirã até à ponte fronteiriça sobre o rio Sever.
Lembro também, como não, o asseio e a arrumação esmerada da casinha da minha avó Amélia na Cavalinha, quando ficaram só já os dois velhotes, depois de os filhos todos irem cada um à sua vida exceto o mais novo, o tio Raimundo que nunca casou e que, por ser guardador de cabras justo ao mês, só ia a casa mudar de roupa aos sábados.
As paredes da casa, a varanda e os poiais imaculadamente brancos pela insistente cal, a cantareira dos barros da cozinha meticulosamente alinhada, o cântaro sempre cheio de água fresca, os alumínios areados e brilhantes como espelhos, em resumo, a agradável sintonia que de tudo emanava e nos transmitia uma sensação de asseio, harmonia, paz e genuíno bem-estar.
Nunca mais saboreei comidinha tão saborosa como a que a avó cozinhava na sócha ao lado da casa em lume de chão e em panela de barro ou na sertã. A sócha fora feita pelo meu avô para poupar a brancura da lareira da cozinha, porque a avó não gostava de a ver mascarrada pelo lume e pelo fumo.
Quando decidiram formar família, os meus progenitores debatiam-se com os problemas comuns a todos os camponeses daquela época – famílias numerosas e escassez de meios de subsistência – exceto o da renda ao senhorio, porque a casa era deles. O meu sensato pai quando herdou dezoito contos de reis de uma tia-avó meio rica, não se deixou deslumbrar pela fartura de notas nas mãos – dezoito contos de reis em 1948 eram uma pequena fortuna – e gastou até ao último centavo na compra do terreno e construção do nosso ninho familiar.
Quatro pequenas divisões. Uma cozinha com uma bela lareira, uma sala e dois quartos. O dinheiro já não deu para as portas interiores, mas a minha mãe resolveu temporariamente o problema com umas cortinas de chita para o resguardo possível da sua privacidade, até conseguirem ir colocando as portas.
Era modesta, mas era deles.
Aqui nasci já eu e as minhas duas irmãs mais novas, a Luz e a Joaquina. A Adelina, a mais velha que já não está entre nós, nasceu três anos e meio antes de a casa estar construída. Hoje é o meu lar. Tive de ficar com ela por vontade e empenho absolutos do meu pai.
O tempo levou-mos já todos, entretanto. Avós, pais, e muitos outros entes queridos que moldaram a pessoa que me tornei. Entretanto foi necessário ampliar e modernizar a casa, mas fiz questão de manter intactas as primitivas quatro pequenas divisões dentro do novo projeto.
Só a bela lareira alentejana que existia na cozinha original teve de mudar de sítio e de feitio porque essa divisão foi promovida a salinha de estar.
Sou tão profundamente grato à memória de todos eles, santo Deus. Tudo quanto me ensinaram me fez falta e me ajudou a vencer inúmeros obstáculos, para atingir metas. Por isso, de todos eles, esta incurável saudade...

domingo, 1 de março de 2026

Rumo ao sol poente

Quando tomei a decisão de regressar definitivamente à Beirã tinham já passado mais de trinta primaveras a viver fora dela, pese embora nunca demasiado longe. Esse sonho nunca me abandonou desde que de tive de sair, a sete de maio de 1971, para assentar praça como recruta voluntário no então Batalhão de Caçadores Nº 8 em Elvas, até sete de outubro de 2003 quando, promovido a sargento-ajudante da GNR, essa promoção determinou a minha colocação no Agrupamento de Instrução em Portalegre, em funções administrativas,
Farto de andar com a casa às costas, foi mesmo essa situação que me impeliu a voltar definitivamente à terra para habitar a casa que tinha adquirido ao meu pai e reconstruído, com a firme intenção de nunca mais de cá sair. Foi exatamente o que fiz, deslocando-me diariamente de casa para o local de trabalho e vice-versa nos dez anos seguintes, até passar à situação de reforma.
O íntimo apelo destas paragens, destas ruas, destas pessoas, destes canchos e matagais, deste aroma das giestas em flor na primavera e da paz infinita que se respira por toda a parte o ano inteiro, nunca deixou de se fazer sentir no meu subconsciente, porque foi, é e será sempre para mim, o mais perfeito paraíso na terra.
Nunca encontrei lugar mais sedutor, apesar de ter conhecido algumas terras lindas de gente boa que nos recebeu e tratou sempre muito bem, onde estabelecemos por isso amizades genuínas, daquelas que são para durarem a vida toda.
Li já não sei onde, que os elefantes voltam sempre ao lugar onde nasceram quando sentem que se aproxima o fim. Provavelmente serei também portador desse instinto primário, porque nunca imaginei outra hipótese. Tanto assim é que há muito, muito tempo – tinha ainda só 45 anos – tratei de comprar a outra “casa” onde irei “morar” por toda a eternidade ao lado daquela onde “moram” já os meus queridos progenitores.
Recordo a reação e surpresa da família mais próxima, quando tal aconteceu. Mas não me demoveram dos meus propósitos. Nunca fui supersticioso e soube sempre muito bem o que queria, não tive por isso a menor hesitação em avançar com a aquela aquisição pela exclusiva razão de querer mesmo descansar eternamente ao lado dos dois entes queridos a quem devo a vida e tanto amei.
Sou homem de convicções fortes, determinado, com as ideias em ordem e muito bem resolvido, por isso entendi que estava apenas e atempadamente, por firme e lúcida decisão a adquirir – antes que outros o fizessem – aquele lugar onde e junto de quem quero descansar, quando chegar a hora de ir ao encontro deles.
Nem tudo foram rosas no decurso desses mais de trinta anos de ausência. Pelo contrário. A ida à guerra ensinou-me da pior forma o quanto é bom vivermos em paz, o intrínseco valor da vida e o quanto ela é frágil, imprevisível, fugaz. Nos piores momentos voltei-me sempre para a Mãe do Céu que deixara na Beirã muito perto da minha Mãe da Terra, tendo todas as razões e outras tantas convicções que se não fosse a sua divina proteção, talvez já não estivesse aqui.
Mas adiante, que essas deduções íntimas devem ser guardadas só mesmo para nós.
Abordei o assunto apenas para concluir que não foi a guerra em Angola o pior que vivi, mas também muitas outras misérias humanas que tive de enfrentar enquanto profissional; nas Minas da Panasqueira vi morrerem camaradas entaipados nas profundezas da terra esmagados por desabamentos de tetos instáveis – ao saberem isso, quer a minha mãe, quer a mãe dos meus filhos, não descansaram enquanto não me convenceram a sair de lá.
Ingressei na GNR, a tal vida presumivelmente melhor que a de mineiro, para ter de lidar com pais que mataram filhos, filhos que batiam nas mães, famílias desfeitas em acidentes de viação, violência doméstica das mais perversas formas, roubos e vigarices com mais ou menos perversidade, chefes que se julgavam deuses e pisavam sem compaixão quem tinham ao alcance dos pés, enfim, um sem número de coisas que me foram sempre ensinando a valorizar cada vez mais a minha tranquila e tão bem frequentada aldeia.
Daí o anseio pelo regresso cada dia – e foram mesmo muitos – de ausência.
Não imaginava que o meu sonho de uma vida inteira viria a ser tão doloroso como começou a sê-lo no dia que a aldeia do meu coração foi injustamente condenada ao abandono. Não estando porém ao meu alcance reverter ou modificar tão funesto veredicto, tenho de viver com ele, que remédio.
Como disse o poeta, “todo o mundo é composto de mudança”.
Sigo assim a minha caminhada pelo outono da vida, rumo ao sol poente. Serenamente, triste às vezes, conformado outras e esperando o dia em que ele não voltará a nascer para mim.

Gratidão


Do mesmo modo em que um dia chegamos sem nada trazer, virá outro em que iremos embora sem nada levar também, porque o tempo que a cada um de nós é concedido, vem com princípio e fim.

Sem dramas, sem receios e sem qualquer amargura, sei que o meu naturalmente se vai aproximando do término da jornada, porque sinto o raciocínio, a agilidade, a força, a energia e as capacidades cognitivas a diminuírem, cada dia que passa.
Não terei sido tão feliz quanto desejava, mas fui com toda a certeza o suficiente para reconhecer que valeu a pena ter nascido.
Não tive tudo o queria, mas tive o bastante para hoje olhar para trás e com toda a honestidade agradecer:
- Obrigado Vida por tudo o que me deste.
01. 03. 2026

O que a vida trouxe, a vida levou

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Bom Fim de Semana


Hoje quando o passado me bate à porta não o atendo mais, não paro sequer para lhe responder e continuo o meu caminho sem lhe prestar atenção.

Aprendi que quando tudo desaba e a vida me desafia está apenas a lembrar-me que o tempo que me resta é para ser vivido e não desperdiçado.

Tenho anos suficientes para saber que o passado não é um peso para carregar, mas sim uma lição para aprender.

Não se vive dele. Cresce-se com ele.

Não apago o que fui nem nego o que vivi, mas aprendi que há guerras que só vencemos quando temos coragem de as abandonar.

E que a verdadeira sabedoria é…  

Seguir em frente.

                                       José Coelho

Princípio e fim. Tão natural um, como o outro.

No dia 16 de julho do corrente ano irão cumprir-se oitenta e três anos que esta Ilustre Senhora e o Seu Divino Filho vieram “viver” para a Beirã. Na sua igreja fui batizado há 73 e há 68 comecei a trabalhar na Sua Casa, investido nas funções de acólito pelo padre Joaquim Caetano a quem até hoje me liga um vínculo muito forte de respeito e amizade apesar de ele já não se encontrar entre nós.
Foi a sua bondade e exigente postura que me ajudou a ser um homem de bem. Ser-lhe-ei por isso grato e reverenciarei a sua memória enquanto viver.
A Vida levou-me muito jovem para longe desta minha segunda Mãe por períodos mais ou menos longos. Ainda assim só mesmo os 8.000 km de distância resultantes da mobilização para o outro lado do mar, me impediram de estar presente no dia 16 de julho, naqueles dois longuíssimos anos de 1972 e 1973.
Mesmo tão longe nunca a Senhora se separou de mim, quer do íntimo do meu coração, quer porque andava no meu bolso dia e noite na forma de uma estampa de cartolina plastificada que me acompanha até hoje, já meio desfeita pelo uso e enorme quantidade de tempo que, entretanto, passou pela estampa e por mim.
Quando em 1993 regressei definitivamente “a casa”, nunca mais arredei pé de junto dela e tenho-me esforçado por dar o meu melhor nas celebrações litúrgicas como salmista, leitor e coro paroquial, assim como no Conselho Económico Paroquial ao qual fui chamado desde 1999.
Sinto-me por isso muito em paz e de coração tranquilo cada vez que contemplo o sereno rosto da Divina Mãe que docemente me contempla lá do alto. Infelizmente, como em tudo o resto nesta aldeia, também ali se sente já o rarear da presença humana, quer nas celebrações semanais quer nas festivas, que antigamente juntavam em seu redor centenas de devotos.
Às vezes, em dias mais inquietos, necessito ir ter com Ela. Porque tenho uma chave da igreja e porque infelizmente deixou de ser seguro mantê-la permanentemente aberta para que pudesse livremente entrar quem quisesse ir rezar a qualquer hora, como antes, desço a rua e vou lá. Entro, e, a sós com Ela, fico longos momentos naquele reconfortante silêncio, bastando-me a proximidade do seu meigo olhar para que o meu espírito se aquiete e a paz desça sobre mim.
Não sou, obviamente, indiferente à presença do Senhor Jesus no sacrário e sei, porque me foi meticulosamente ensinado em muitas horas de formação cristã nos últimos anos, que em qualquer templo onde esteja presente o Santíssimo Sacramento do Altar é Ele que deve ser sempre adorado e exaltado em primeiro lugar, antes de qualquer outra presença divina, seja a Sua Mãe Santíssima, seja qualquer outro Santo ou Beato.
Porém e pese embora todos esses ensinamentos, o Senhor que me perdoe – sei que perdoa – todos nós ao entrarmos na igreja damos de caras com o terno olhar da Senhora Sua Mãe e não conseguimos – por mim deduzo – pensar primeiro no Senhor Jesus que ali está também no sacrário
Escrevi no primeiro parágrafo deste texto que ando por ali há já 68 anos. É de facto muito tempo. A minha geração que em 1958 enchia o templo de orações, de vida e atividades, partiu já quase toda para a eternidade. Não estará por isso muito distante a minha vez de ir ter com eles.
É absolutamente normal, porque, sendo pó, ao pó regressaremos. Sem dramas, sem espantos, sem medo algum. Cumpre-se apenas o ciclo – princípio e fim – natural de toda a vida terrena, do qual temos perfeito conhecimento e para o qual devemos estar permanentemente prontos e preparados.
E eu, estou.
Nota:
A imagem que ilustra este escrito foi da autoria do reverendo Pároco e meu digníssimo Amigo Luís Ribeiro – já falecido – por ocasião do 70º Aniversário da Inauguração da Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Carmo - Beirã, que me o ofereceu em mão no dia 16. 07. 2013.