quarta-feira, 13 de maio de 2026

Respeito – o pilar que sustenta tudo o resto

Quem me conhece sabe que detesto mentiras e gente falsa. Para mim, sinceridade, humildade e respeito, não são apenas palavras bonitas, são princípios de vida. E quem não entende o peso delas, dificilmente poderá ter a minha amizade. 

Vivemos num tempo em que a aparência vale, muitas vezes, mais do que a essência. É fácil encontrar quem escolha a mentira ou a falsidade para alcançar objetivos rápidos.

Mas eu acredito, sem hesitar, que a verdade é o único alicerce sólido de qualquer relação, seja de amizade, familiar ou profissional. A mentira até pode render ganhos imediatos, mas corrói o que há de mais precioso: a confiança. E essa, todos sabemos, demora uma vida a construir e perde‑se num instante.

Ser sincero não é ser bruto, nem magoar quem está à nossa frente. É agir com honestidade e transparência, dizendo o que se pensa com respeito. A sinceridade exige coragem – porque nem sempre é fácil mostrar o que sentimos ou pensamos – mas é ela que dá profundidade às relações e as torna verdadeiras.

A humildade, essa, é reconhecer que ninguém é perfeito. É saber aprender, admitir erros, pedir desculpa quando é preciso e aceitar críticas que nos fazem crescer. A pessoa humilde não se coloca acima de ninguém; trata todos com igualdade, independentemente da origem, posição ou opinião.

E depois há o respeito, o pilar que sustenta tudo o resto. Respeitar é aceitar diferenças, ouvir com atenção, procurar compreender antes de julgar. Sem respeito, não há confiança, não há diálogo, não há caminho conjunto.

A amizade, para mim, não é só partilhar alegrias. É saber que nos momentos difíceis existe alguém que permanece honesto, mesmo quando a verdade dói. Por isso não abdico dos meus princípios: quem não valoriza sinceridade, humildade e respeito, não terá lugar no meu círculo de amigos.

Escolher rodear‑me de pessoas verdadeiras é um ato de amor‑próprio. Prefiro poucos, mas autênticos, do que muitos, mas vazios. É minha profunda convicção que as relações construídas sobre valores firmes, são as que realmente importam e tornam a vida mais leve, mais digna e mais nossa.

José Coelho

terça-feira, 12 de maio de 2026

Salvé Raínha


 A treze de maio, na Cova da Iria...
Avé Maria, cheia de graça...
Toca dos Coelhos

Lugar onde o tempo não passa - ajoelha-se

Casa da Meirinha - Freguesia de Beirã

No maio luminoso abre‑se este sagrado manto florido, estendido pelos deuses da terra.

A velha casa de campo – outrora lar de numerosas famílias que viviam do sol, da ceifa e do rumor das estações – ergue‑se agora como ancestral fortaleza, guardiã de segredos que só o vento ousa repetir.

Lá ao fundo, onde o horizonte se dissolve nas terras de Espanha, a fronteira parece uma linha traçada por gigantes, mais antiga do que qualquer reino.

Sob esta vastidão dormem cinco milénios de humanidade: antas que vigiam a noite como sentinelas de pedra, menires que apontam o caminho das estrelas, lagaretas talhadas pelos primeiros artesãos do mundo, e povoados alto‑medievais que ainda murmuram o eco de passos esquecidos.

Aqui, onde a terra respira mito, cada flor é um sinal, cada sombra é uma memória, e cada sopro de vento traz consigo a voz dos que por aqui caminharam antes.

Neste lugar, o tempo não passa – o tempo ajoelha‑se.

José Coelho

O tempo já não me engana

Há dias em que acordo e sinto que o tempo deixou de correr. Já não foge, já não me empurra, já não me desafia. Caminha ao meu lado como um velho conhecido que perdeu a pressa e a vaidade. A maturidade ensinou-me que a vida não se mede em décadas, mede-se em lembranças. Momentos que ficaram, palavras que ficaram, pessoas que ficaram… e outras que partiram sem sequer fecharem a porta.

A velhice, dizem, é um inverno. Eu não acredito nisso. Para mim, a velhice parece-se mais com o fim de uma tarde de verão alentejano: ainda está calor, mas já não queima; a luz ainda brilha, mas já não cega; e o silêncio ganha uma profundidade que antes não sabíamos escutar. Agora já não me iludo com promessas – nem as minhas, nem as dos outros.

Há verdades que só se revelam tarde, como certas flores que só abrem ao anoitecer.

Durante muitos anos, acreditei que os filhos seriam o meu porto seguro. Que a velhice seria uma mesa cheia, vozes pela casa, passos no corredor. Mas a vida tem o seu próprio ritmo – e o ritmo deles não é o meu. Hoje sei que os filhos não são âncoras. São barcos.

Partem. E é justo que partam.

A solidão que dói não é a ausência deles. É a ausência de mim próprio, quando me esqueço de que ainda existo para lá das memórias que guardo. Com o avançar da idade, aprendi que a solidão não é inimiga, é um espelho.

E às vezes custa olhar.

Nesta idade, o corpo fala. Fala baixinho, mas fala sempre. Um joelho que protesta, uma lombar que se queixa, um cansaço que chega sem pedir licença. Mas também há uma sabedoria nova: a de agradecer cada manhã em que me levanto sem nenhuma dor, cada passo que ainda dou, cada respiração que não custa. A saúde já não é garantia, é empréstimo.

E eu aprendi a tratá-la com a delicadeza de quem segura algo frágil, sabendo que um dia terá de o devolver.

Durante anos, imaginei o Estado como um pai distante: falhava, mas no fim aparecia. Mas ao reformar-me percebi que o Estado não é pai de ninguém. É uma máquina e as máquinas não têm compaixão. A reforma chega curta. Os preços chegam longos. E no meio desta matemática cruel, descobri que a dignidade é um ato de resistência.

Não espero milagres. Espero apenas que me deixem viver com o pouco que tenho e com o muito que ainda sou.

Há quem envelheça para baixo, como se a idade fosse um peso que os puxasse para o chão. Eu escolhi envelhecer para dentro. A velhice não me tornou fraco – tornou-me lúcido. Já não me queixo por hábito.

A queixa é uma forma de desistir. E eu ainda não desisti de mim.

O passado é uma tentação. Brilha mais do que brilhou, cheira melhor do que cheirou, parece mais fácil do que foi. Mas o passado é um país onde já não moro. Por isso aprendi a viver no presente, não porque ele seja perfeito, mas porque é o único lugar onde ainda posso fazer alguma coisa.

Por mim e pelos outros, como foi sempre meu timbre.

E se o tempo já não me engana, é porque finalmente aprendi a caminhar ao lado dele, sem medo de ficar para trás e sem pressa de chegar a lado nenhum. O que me resta não é pouco: é o essencial – estar vivo, estar lúcido e ser ainda capaz de sentir o mundo com a mesma profundidade com que sempre o vivi.

José Coelho

Nostalgia – um abraço do tempo

A chuva cai devagar, como se tivesse aprendido a respeitar o silêncio da casa. As gotas escorrem pela vidraça e desenham caminhos que não escolhi, mas reconheço – são os mesmos caminhos que a memória percorre dentro de mim quando o mundo abranda e me deixa ouvir o que ficou para trás.
Nesses instantes suspensos, percebo que a nostalgia não é tristeza. É antes um abrigo, um gesto antigo que me envolve os ombros como a manta que a minha mãe dobrava ao fim da tarde. É o calor discreto de tudo o que me formou e regressa para me lembrar que o passado não se perdeu: apenas repousa.
Vejo rostos que já não toco, ouço risos que o tempo afinou, sinto aromas que só a infância sabe guardar. Cada lembrança – nítida como um rosto ao sol ou difusa como um cheiro esquecido – é um fio do tecido que me veste a alma.
Sou feito disso: de fragmentos, de ecos, de pequenas eternidades que ficaram presas ao corpo como cicatrizes luminosas.
Tal como a chuva que inventa mapas no vidro, também as memórias se movem dentro de mim: umas suaves, outras intensas, mas todas vivas. Às vezes basta o tamborilar da água no telhado para que um dia inteiro de outro tempo se levante, intacto, como se nunca tivesse partido.
E então compreendo: a nostalgia não é um peso. É um laço invisível, firme e leve, que me prende ao que fui e ao que ainda sou.
Não dói – ilumina.
É uma presença silenciosa que se senta ao meu lado nos dias cinzentos e me recorda que cada gesto, cada escolha, cada encontro deixou uma marca que ainda pulsa.
O passado não é um país onde a alma se perde. É o terreno fértil onde crescem as raízes do presente. As memórias – as boas e as que custaram a passar – são pedras fundamentais na construção de quem me tornei.
E é na nostalgia que encontro a aceitação mansa de tudo o que vivi, como quem olha para um campo depois da colheita e reconhece: cada sulco teve o seu propósito.
Por isso, quando a chuva cai e o dia se torna cinzento, deixo que a memória me abrace. Permito que o passado se sente comigo, não como sombra, mas como claridade. E reconheço, com a serenidade de quem já caminhou muito: sou feito de tempo, de instantes, de perdas e de ternuras que ficaram.
Sou feito de tudo o que permanece, mesmo quando já partiu.
Texto e foto

O coração da minha casa

Esta é a minha sala de jantar onde o tempo pousa e entra devagar, como quem entra num lugar sagrado.
A luz filtrada pelas cortinas, ilumina-a de uma forma tão suave que parece ter aprendido a respeitar o silêncio.
Não ilumina: acaricia.
É uma luz que conhece a casa há décadas, que já viu rostos que partiram e outros que cresceram e que agora pousa apenas onde deve, como uma bênção discreta.
A mesa, coberta pela toalha branca, é o centro deste pequeno universo. Não é apenas o lugar das refeições – é o lugar das presenças.
Os castiçais erguidos guardam a memória de mãos que já não estão e a terrina ao centro parece guardar um calor que não se perdeu, apenas mudou de forma.
As cadeiras vazias não são ausência. São testemunhas. Cada uma guarda o peso leve de quem ali se sentou, de quem riu, de quem discutiu, de quem amou. São lugares onde o tempo ainda repousa.
A cristaleira envidraçada com o serviço de copos alinhados nas suas prateleiras, é um relicário doméstico. Ali não há apenas louça – há domingos, há festas, há vozes que ecoam baixinho quando a casa está quieta.
É um altar de recordações.
E o lustre, suspenso sobre a mesa, é como um pequeno céu de cristais. Não brilha – vigia. É o guardião silencioso da sala, como se estivesse ali desde sempre, a observar tudo com paciência.
Nesta sala o tempo não passa: pousa.
Pousa nos móveis, nas paredes, nos objetos, mas sobretudo em mim. Porque sou eu que dou sentido a este espaço. Sou eu que o mantenho vivo. Sou eu que o transformo num templo onde o amor silencioso dos meus pais e avós ainda respira.
Quando me sento aqui, nunca estou sozinho.
Estou acompanhado por tudo o que fui, por tudo o que vivi, por todos os que amei e amo ainda a sua memória. Esta sala acolhe-me como um velho amigo que não precisa de falar para me compreender.
Esta sala é mais do que um lugar. É uma herança viva. É o coração da casa. É o sítio onde a memória se senta comigo e me diz, sem palavras:
“Ainda aqui estamos.”
Texto e foto

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Quando a farda pesa mais do que o erro

Há momentos em que o país parece viver num estado permanente de sobressalto moral. Basta um vídeo tremido, uma manchete apressada, um rumor que se espalha mais depressa do que a verdade e de repente ergue-se um tribunal invisível, feito de cliques, indignação e certezas instantâneas. Um tribunal onde ninguém pede contexto, ninguém espera investigação, ninguém distingue. Julga-se primeiro; pensa-se depois.

Já vimos este mecanismo cruel a funcionar com os padres: a queda de alguns transforma-se, nas redes sociais, numa sentença contra todos. E agora assistimos ao mesmo com as forças de segurança – PSP e GNR – homens e mulheres que carregam no corpo uma farda que, para muitos, deixou de ser símbolo de autoridade e passou a ser alvo de desconfiança.
Sim, há casos que ferem. Há abusos de poder, violência gratuita, tortura em esquadras, emigrantes explorados em campos do Alentejo sob o olhar cúmplice de quem devia proteger. Há agentes que nunca deveriam ter vestido a farda, porque confundem lei com força bruta, serviço com domínio, autoridade com soberba. Isto é verdade e negar seria uma forma de cobardia.
Mas há outra verdade, mais silenciosa, menos fotogénica, raramente partilhada: a esmagadora maioria dos agentes cumpre o seu dever com dignidade, risco e sacrifício. São profissionais que saem de casa sem saber se regressam, que enfrentam noites que não acabam, agressões que não se contam, misérias humanas que não cabem em relatórios. E esses – os que honram a farda – são arrastados para a lama sempre que um prevaricador decide manchar o uniforme que veste.
A sociedade tem um vício antigo: quando não sabe como resolver um problema, culpa todos os que lhe estão próximos. É mais fácil assim. É mais rápido. É mais cómodo. E sobretudo evita o trabalho difícil – o trabalho moral – de distinguir. Mas a facilidade nunca foi sinónimo de justiça.
A farda não deve proteger criminosos. Quem usa a autoridade para humilhar, ferir ou explorar deve responder por isso, sem desculpas, sem corporativismos, sem silêncios cúmplices. Mas a farda também não deve ser transformada num alvo. Não deve ser sinónimo de culpa automática, nem motivo para insulto, ódio ou generalização. A justiça separa; a fúria mistura. E nós, enquanto povo, temos vivido demasiado tempo na fúria.
A justiça não é um grito. Não é um post viral. Não é um vídeo de vinte segundos fora de contexto. A justiça exige rigor, coragem moral e a capacidade – tão rara hoje – de olhar para cada caso como único, sem arrastar inocentes para o mesmo saco. Porque quando condenamos todos, absolvemos ninguém. E quando deixamos de distinguir, deixamos de ser um país adulto.
No fim, tudo se resume a isto: cada prevaricador deve responder pelos seus atos; cada profissional íntegro deve ser protegido da sombra que não merece. E nós, enquanto sociedade, temos a obrigação moral de não contribuir para a cegueira coletiva que transforma erros individuais em culpas universais.
Um país que não sabe distinguir não sabe ser justo. E um povo que não sabe ser justo não sabe ser livre.
Texto e foto