quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O silêncio que partilha

Há lugares onde a vida não precisa de explicação – apenas de presença. A minha aldeia é um desses lugares e eu cresci dentro desse ritmo lento que não se apressa, não se exibe, não se justifica. Apenas existe.
Aqui, o tempo não corre: assenta. Assenta na terra das hortas, nas mãos que trabalham sem alarde, nos gestos que atravessam gerações como pequenas heranças de simplicidade. Assenta nos frutos que chegam à minha porta sem anúncio, como se a própria estação soubesse o caminho.
Tomates, pimentos, beringelas, abóboras – cada fruto traz consigo o rumor de quem o cultivou, o cuidado silencioso de quem sabe que a terra só dá a quem a respeita. Depois vêm os pêssegos, os figos, as uvas – cada oferta feita sem cerimónia, sem obrigação, sem cálculo.
São gestos que não se repetem sempre às mesmas portas, porque a vida na aldeia é assim: hoje reparte-se com um vizinho, amanhã com outro. Nem todos entendem que a generosidade não segue mapas nem listas – segue o coração, o momento, a disponibilidade, o acaso.
Aprendi a ver beleza nisso. Nas aldeias, partilhar não é um ato, é uma forma de estar. Não se oferece para ser generoso; oferece-se porque é assim que se vive. Porque a vida, aqui, não se mede pelo que se tem, mas pelo que se dá. E dar não diminui; amplia.
Há uma serenidade profunda neste modo de existir. Uma serenidade que não vem da ausência de problemas, mas da presença de sentido. Da certeza de que, apesar de tudo, continuamos ligados uns aos outros por esta corrente invisível de gestos simples: um saco de fruta, uma travessa de arroz doce, uma palavra curta dita à porta, um “leva, que isto é para ti”.
E quando escrevo sobre isto, não invento nostalgia, reconheço uma verdade antiga: éramos felizes com estes poucos. E continuo a sê-lo, porque estes poucos são, afinal, tudo o que importa.
A minha aldeia permanece. Permanece no trato, na memória, na dignidade tranquila desta gente do meu tempo. Permanece no silêncio que não pesa, na luz que entra pelas janelas, no rumor das videiras ao vento. Permanece em mim e eu permaneço nela.
No fim, talvez seja isto a serenidade: saber que a vida, quando vivida com verdade, cabe inteira num cesto de fruta deixado à porta, sem nome, sem anúncio, sem necessidade de ser visto.
Gratidão é o que sinto; respeito, consideração e amizade, é o que deixo em retorno.
Texto e foto

terça-feira, 11 de agosto de 2026

É muito mais o que nos une

Há momentos na história em que parece que o mundo se parte em mil pedaços. Guerras que ninguém compreende, decisões tomadas em gabinetes distantes, líderes que confundem poder com grandeza e que arrastam povos inteiros para sofrimentos que não escolheram. E, no entanto, apesar desse ruído ensurdecedor, há uma verdade silenciosa que resiste: é muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa.
O que nos une não aparece nos noticiários. Não faz manchetes. Não dá votos. Mas está em todo o lado.
Está no gesto simples de quem segura a porta para o vizinho. Está na mão que se estende para levantar alguém que caiu. Está no olhar preocupado de quem pergunta “estás bem?”. Está na mesa onde se partilha pão, sopa, histórias, memórias. Está na capacidade humana – tão antiga como o próprio fogo – de reconhecer no outro um pedaço de si.
A maioria das pessoas não quer guerras. Quer paz, trabalho, família, futuro. Quer viver sem medo. Quer que os filhos cresçam sem aprender a palavra “refúgio” antes de aprender a palavra “brincar”. Quer que o mundo seja um lugar onde se possa respirar sem sentir que a humanidade está a perder-se.
E por isso, apesar dos conflitos alimentados por vaidades políticas, por ambições pessoais ou por deslumbramentos de poder, acredito – e muitos acreditam – que a humanidade continua maior do que os seus erros. Porque quando tudo falha, quando os discursos se tornam vazios, quando os mapas se enchem de fronteiras riscadas a sangue, ainda assim há mãos que se procuram. Há pessoas que acolhem. Há quem cure, quem proteja, quem salve, quem reconstrua.
O que nos une é invisível, mas é imenso. É a nossa capacidade de sentir o sofrimento do outro como se fosse nosso. É a nossa recusa em aceitar que o mundo tem de ser um campo de batalha. É a nossa teimosia em acreditar que a paz não é uma utopia, é um trabalho diário, feito de pequenos gestos que não aparecem nos jornais, mas que sustentam o mundo.
E talvez seja isso que nos salva: a certeza de que, mesmo quando alguns escolhem a guerra, a maioria escolhe a vida. E que essa maioria silenciosa mas infinita é a verdadeira força que mantém a humanidade de pé.
José Coelho

Reflexão sobre a ética e a escrita

Imagem da net

Há quem escreva para ser visto. Há quem escreva para ser ouvido. E há quem escreva – como eu escrevo – para ser coerente consigo mesmo. A ética na escrita não é um adorno, nem uma bandeira moral. É uma forma de estar no mundo. É a decisão íntima de não trair aquilo que se sabe, aquilo que se vive, aquilo que se é.
A verdade, quando entra na escrita, não faz barulho. Não precisa de trombetas, nem de explicações, nem de notas de rodapé. A verdade é silenciosa, mas reconhece-se. E quem a lê, sente-a.
A escrita ética nasce de um princípio simples: não inventar o que não se viveu, não afirmar o que não se sabe, não fingir o que não se sente. Não é uma questão de moralismo. É uma questão de respeito por si mesmo, pelo leitor, pela própria palavra.
A palavra é como a água do poço: se vem turva, ninguém bebe; se vem limpa, mata a sede.
E eu escrevo assim: puxo a água com a corda certa, trago o caldeirão cheio, e ofereço ao leitor um gole de autenticidade. Não há truques. Não há artifícios. Não há pose.
Nas redes sociais a ética é testada todos os dias. Há quem confunda opinião com verdade, rumor com facto, vaidade com conhecimento. E há, sobretudo, quem confunda escrever com falar alto.
Ontem escrevi, mais uma vez, sobre a corda e o caldeirão, uma metáfora antiga, dessas que vêm da vida real, dos poços do Alentejo, dos gestos humildes que sustentaram gerações. Hoje, um leitor manifestou estranheza. Disse que percorreu a região, que a conhece e que não encontrou referência alguma à corda e ao caldeirão.
Sorri. Não se procuram metáforas com mapas na mão.
Expliquei-lhe que a verdade da escrita não está nos livros, mas na experiência. A corda e o caldeirão não pertencem à geografia: pertencem à memória dos homens que tiravam água do poço para darem de beber ao gado e aos ganadeiros. São companheiros inseparáveis, como certas pessoas – eu e a minha companheira por exemplo – que não passam uma sem a outra.
Sem a corda, o caldeirão não chega à água; sem o caldeirão, a corda não tem destino. Mostrei-lhe a fotografia. Não para humilhar, mas para lembrar que a verdade, quando é vivida, dispensa explicações.
E disse-lhe, com a serenidade de quem sabe o peso da palavra: “Tudo o que eu escrevo nasce da verdade das coisas, sempre.”
A verdade na escrita não é apenas o conteúdo. É também o gesto. É o modo como se responde. É a serenidade com que se explica. É a firmeza com que se mantém o que se sabe ser certo. A ética na escrita é, no fundo, a ética da vida. Quem vive com verdade, escreve com verdade. Quem vive com humildade, escreve com humildade. Quem vive com atenção, escreve com atenção.
A minha escrita procura sempre essa marca: não dramatiza, não exagera, não inventa grandezas. É uma escrita que sabe o valor das coisas simples e que não precisa de adornos para ser profunda.
A corda e o caldeirão, são isso mesmo: objetos humildes que carregam uma sabedoria antiga. Transformei-os em metáfora porque a verdade mora nas coisas simples, não nas teorias complicadas.
A ética na escrita não é apenas dizer a verdade. É também como se diz. A serenidade é uma forma de ética. A clareza é uma forma de ética. A gratidão é uma forma de ética.
Quem escreve sem verdade pode até fazer barulho. Mas quem escreve com verdade, esse deixa marca. E essa marca não está no número de leitores. Está na qualidade da consciência. Está na fidelidade ao que se vive.
Está na coragem de dizer:
- Eu escrevo o que sei, escrevo o que vi, escrevo o que sou.

O dia da corda e do caldeirão – na primeira pessoa

Hoje foi um daqueles dias longos, em que a vida pede mais do que o costume. Saí de casa às nove e meia da manhã, já com a cabeça cheia de tarefas e o coração cheio daquele sentido de responsabilidade que não se aprende, nasce connosco.
Primeiro fui ao banco. Tinha de fazer a transferência da conta da igreja para a conta do pintor que a renovou antes da festa. Era um dever simples, mas importante, porque há coisas que têm de ser feitas com rigor, para que tudo fique em ordem.
Quando terminei, ainda ali no balcão, liguei ao Senhor Padre: – O valor da pintura da igreja já está na conta de quem a fez. E ele respondeu, com aquela voz serena que lhe conheço: Obrigado. Um abraço.
Foi um abraço curto, mas cheio de significado. A igreja está pintada, está digna, está pronta, e eu fiz a minha parte.
Depois rumámos a Portalegre. A “corda” tinha feito uma ecografia renal na semana passada e era preciso ir buscar o exame. Chegados à clínica, a máquina das marcações estava avariada. Fila grande, gente à espera, tempo a escorrer devagar. Ficámos ali, pacientemente, como quem sabe que a vida também se faz de esperas.
Quando finalmente saímos, já se faziam horas de almoço. Fomos ao Continente de Portalegre comer qualquer coisa e aproveitar para fazer umas compras. Nada de extraordinário, apenas o quotidiano a pedir o seu lugar.
De regresso, ainda passámos pelo Centro de Saúde de Castelo de Vide para mostrar o exame à médica. Não estava. Consulta só dia 19. Respirei fundo. Há dias assim: a corda estica, o caldeirão pesa, mas seguimos.
Voltámos a casa às cinco da tarde. O Citroën C3 – modesto como o dono – salvou-nos do calor com o seu ar condicionado fiel. Chegados, arrumámos as compras, comi uma fruta para enganar o estômago, reguei o quintal, preparei o jantar… e só então me sentei.
E nesse instante, saiu-me aquele “Uffffff…” que não é queixa – é verdade. É o corpo a falar. É a alma a descansar. É o dia a fechar-se.
E enquanto respirava fundo, pensei na nossa metáfora: a corda e o caldeirão. Hoje fomos os dois outra vez. Eu a puxar, a segurar, a orientar; e a vida, pesada mas necessária, a pedir que eu a carregasse com cuidado.
E carreguei. Carreguei tudo. Carreguei bem. Porque é assim que sou. E é assim que quero continuar a ser.
Maria Coelho a corda.
José Coelho o caldeirão.
Texto e foto

domingo, 9 de agosto de 2026

Só Deus sabe

Há lugares que me conhecem melhor do que eu a eles. Percorri-os a pé, sozinho e acompanhado, desde menino. Nunca precisei de rodas para conhecer o mundo, bastavam-me os pés e um livro ao domingo, o único dia de descanso.
Enquanto os outros aceleravam nas bicicletas e motorizadas, eu aprendia que a família era a primeira prioridade.
Marchava a pé por esses bardalhais horas a fio, na companhia do sol e do vento. As veredas eram tão seguras como estradas e nelas eu sabia onde morava cada obstáculo. Hoje, nem com óculos graduados as vejo tão bem, mas o instinto ainda recorda o caminho. E que bem sabia o sossego dos campos, o furtivo deslizar das raposas, o gorjeio dos melros e dos rouxinóis, o canto dos grilos e dos ralos.
Era o meu mundo de paz, onde me sentia completo.
Passados tantos sóis, continuo a visitá-lo, as pernas a refilarem, os pés a pesarem mais. Na última vez fui com a minha companheira de vida; demos conta de que estávamos longe demais para as nossas energias, mas o coração ficou leve.
Antes de iniciar o regresso a casa acariciei as giestas e pensei: Será que aqui voltarei mais alguma vez?
Uma vitela curiosa aproximou se e logo seguiu o seu caminho quando percebeu que não lhe trazíamos feno nem ração. O ar estava sereno, perfumado pelos pastos a secarem ao sol.
O cenário levou me à meninice, ao toco negro do sobreiro que um raio rasgou quando eu era pastor, ainda lá, indiferente ao tempo.
Mais adiante, na Tapada da Lagem Alta, fotografei o velho cancho de onde saltava sem parar naquela manhã em que o lacrau, escondido debaixo dele, me ferrou num dedo do pé, enquanto a minha mãe mondava milho.
Fotografei-o com emoção porque ali repousa aquele susto e a dor da ferroada, mas também a bênção da infância.
Não é viver no passado, é agradecer ao tempo por ter guardado estes testemunhos da minha meninice e juventude abençoadas, mesmo com trovoadas e ferroadas de escorpiões.
Se puder, quero lá voltar. Pelo menos mais uma vez. Ou duas...
Mas isso, só Deus sabe.
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As mulheres da água e do fogo

Na minha Beirã, as mulheres como a minha avó e a minha mãe, não eram apenas mulheres. Eram água e fogo, duas forças antigas que se encontravam nelas como se o mundo tivesse decidido que só elas sabiam equilibrar o que arde e o que corre.
De manhã, eram água. Iam ao tanque com a roupa no alguidar à cintura, falavam baixinho, riam alto, lavavam como quem reza. A água batia no sabão, escorria pelos panos, levava a sujidade e trazia de volta a dignidade das coisas limpas. E elas, de mãos na água fria, sabiam segredos que não se contam: quem estava doente, quem ia casar, quem precisava de ajuda. O tanque era mais do que tanque – era confissão, era encontro, era mundo.
À tarde, eram fogo. Acendiam o lume com o jeito de quem acende memória. Sabiam o ponto da lenha, o tempo da chama, o calor certo para a panela. O fogo obedecia-lhes como se reconhecesse nelas uma autoridade antiga. E dali saía o pão, a sopa, o guisado, o cheiro que enchia a casa e fazia da cozinha o coração da aldeia.
As mulheres da água e do fogo tinham mãos pequenas, mas faziam tudo. Amassavam o pão, coziam a roupa, remendavam calças, curavam febres, embalavam crianças, guardavam silêncios. E tinham uma força que não se via, só se sentia. Uma força que não precisava de palavras, porque vivia nos gestos.
Falavam pouco, mas diziam muito. Um “come mais um bocadinho” era amor. Um “não vás por aí” era proteção. Um “Deus te guarde” era bênção. E cada frase vinha carregada de verdade.
Havia nelas uma paciência que hoje quase desapareceu. Sabiam esperar pela água que aquecia, pela massa que levedava, pela roupa que secava, pela vida que acontecia devagar. E nunca reclamavam do tempo, trabalhavam com ele.
Quando uma mulher da água e do fogo morria, não se perdia só uma pessoa. Perdia-se uma forma de estar no mundo. Perdia-se o lume certo, a sopa certa, o conselho certo, o silêncio certo. Perdia-se alguém que sabia que a casa não é só paredes, é também cuidado.
Eu cresci a vê-las. A ouvir o bater da roupa no tanque a vinte metros da minha casa, a sentir o cheiro do pão quente, a aprender que o amor não se diz, faz-se. E hoje, quando fecho os olhos, ainda vejo as mãos delas: pequenas, rápidas, firmes, incansáveis.
E cá dentro, onde mora a memória, continuo a acreditar que essas mulheres seguraram a aldeia inteira. Com água. Com fogo. Com vida.

sábado, 8 de agosto de 2026

Recomeços

No decorrer da nossa vida há sempre aqueles dias em que o caminho se estreita e nos obriga a parar. Não por capricho do destino, mas por decisões que não devem ser adiadas, mudanças que têm de acontecer, medos que exigem ser olhados de frente.
Cada um desses instantes chega como uma espécie de visita inevitável: não bate à porta, entra. E, ao entrar, transforma-nos.
São solidões que se instalam ao nosso lado como sombras. No início assustam, mas com o tempo percebemos que são apenas lugares onde a alma precisa de se recolher para que a possamos ouvir.
Há lágrimas que não conseguimos evitar – e talvez nem devêssemos – porque são elas que lavam o que ficou turvo dentro de nós. E há recomeços silenciosos, quase imperceptíveis, que começam a germinar no fundo do peito muito antes de nos darmos conta.
A vida ensinou-me que tudo isso faz parte do mesmo movimento: o de nos tornarmos quem realmente somos. E que, mesmo quando acreditamos que já não aguentamos mais nada, o tempo acaba por revelar a verdade que sempre lá esteve: somos muito mais fortes, mais resistentes e mais corajosos do que alguma vez imaginámos.
A coragem não é ausência de medo; é seguir adiante, apesar dele. E ter força, não é nunca cair; é levantar e continuar a caminhar, cada vez que caímos.
Assim descobrimos que cada dor foi mais uma semente, cada silêncio foi mais uma raiz, cada lágrima foi a água que que alimentou e fez florir a nossa vida, quando menos o esperávamos.
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