quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Verão de 2026

Há verões que passam por nós como uma estação. E há verões – como este – que passam por nós como uma prova.

O verão de 2026 não foi apenas quente. Foi excessivo, desmesurado, quase insolente. Junho e julho quebraram todos os registos desde que há memória, como se o sol tivesse decidido aproximar-se mais um pouco da terra, num capricho antigo, sem aviso e sem remorso. As manhãs nasceram já cansadas, as tardes tornaram-se intermináveis, e as noites deixaram de cumprir a sua função de descanso.

Era como se o calor tivesse tomado posse do ar, das casas, das serras, dos corpos.

E no meio deste calor anormal, quase indecente, surgiu o velho fantasma do verão português: os incêndios. Mas este ano, houve algo diferente – algo que inquieta até quem já viu muito. As ignições surgiram em horas improváveis, em locais onde não passa ninguém, como se a serra tivesse aprendido a arder sozinha.

Fogos que começam às três da manhã, no cimo de um monte inacessível. Fogos que aparecem em linha reta, como se alguém tivesse desenhado um mapa de destruição. Fogos que já quase consideramos “normais”, e isso talvez seja o sinal mais perigoso de todos: quando o absurdo se torna rotina, a alma perde a capacidade de se espantar.

A serra arde, o país arde, e nós ficamos a olhar, impotentes, com aquela sensação de que o verão deixou de ser uma estação e passou a ser um adversário.

Mas o verão não é só isto. O verão é também o tempo das férias, esse intervalo tão necessário para quem trabalha o ano inteiro, para quem luta por um salário que encolhe mês após mês, apertado pela guerra que não é nossa, pelos bloqueios no Estreito de Ormuz que fazem subir o custo de vida como se fosse uma maré imparável.

Tudo aumenta: o pão, o combustível, a eletricidade, a carne, o peixe. Só não aumenta o salário, porque esse parece ter ficado preso num inverno que não passa.

E mesmo assim, apesar de tudo, as pessoas tentam descansar. Tentam encontrar um pedaço de sombra, um fim de tarde fresco, um mergulho que alivie a alma. Tentam esquecer por uns dias a luta diária, a conta que não fecha, o futuro que se adia.

Há quem vá para o litoral, em busca de maresia. Há quem fique pelas aldeias, onde o silêncio ainda tem valor. Há quem reencontre a família, os amigos, os lugares da infância. E nesses momentos breves, preciosos, o verão parece quase normal. Quase benigno. Quase como antigamente.

Mas basta olhar para o céu, para o termómetro, para as notícias, para o preço do gasóleo, para o mapa dos incêndios… e percebemos que este verão não é como os outros. Este verão é um aviso. Um sinal. Uma fronteira.

Agora, em agosto, o verão começa a perder força. As tardes já têm uma luz mais oblíqua, mais dourada, mais triste. O vento, quando aparece, traz uma promessa de mudança. E nós, que vivemos estes meses abrasadores, ficamos com a sensação de que a estação não passou por nós – atravessou-nos.

O verão de 2026 não foi apenas vivido. Foi suportado.

E talvez seja por isso que o seu fim traz uma espécie de alívio silencioso. Como quem fecha uma porta pesada. Como quem termina uma travessia difícil. Como quem diz: “Chega. Agora basta.”

Que o outono venha com chuva, mas daquela que cai devagar, sem violência. Que a terra respire. Que as serras tenham descanso. Que o mundo abrande. E que cada um de nós encontre, finalmente, um pouco da serenidade que este verão nos negou.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Memórias que o coração procura

Havia dias em que o mundo parecia caber dentro do nosso quintal. Não era metáfora: era verdade. O sol nascia sem pressa, como se soubesse que ali ninguém corria para lado nenhum. A luz entrava pela manhã com a delicadeza de quem pede licença, pousando nas flores que a minha mãe plantava com devoção – cada cor, cada pétala, cada cheiro era uma forma de cuidar da casa, da família e do tempo.
As galinhas riscavam o chão com a curiosidade antiga de quem conhece todos os segredos da terra. Havia nelas uma sabedoria que não se aprende nos livros: sabiam quando vinha chuva, quando o dia ia ser quente, quando o ribeiro da Cavalinha começava a engrossar lá ao fundo. E a cadela Toiota, companheira fiel do meu pai, guardava o caminho com aquela serenidade que só os animais bons possuem. Era presença, era companhia, era parte da casa.
A casa dos meus pais antes de ser Toca dos Coelhos era bem mais pequenina, mas tinha o tamanho exato da felicidade possível. As paredes guardavam histórias, o quintal guardava trabalho, guardava memórias e risos.
A avó Amélia vivia perto, no meio do campo, numa casa que parecia ter sido desenhada pelo silêncio. Era uma casa por onde o vento passava como quem visita um velho amigo; o ribeiro ali ao lado, murmurava histórias que só ela entendia; e nós, quando lá íamos, sentíamos que o mundo ficava mais lento, mais macio, mais verdadeiro.
A avó Amélia tinha o dom de transformar o tempo em colo. O seu coração era leve não por falta de problemas, mas porque o tempo tinha outra textura.
Caminhava-se devagar, como quem sabe que cada passo é uma forma de agradecer. O café quente feito em lume de chão, num “puchero” de barro, o cheiro da terra molhada, o rumor das folhas ao vento, tudo era suficiente. Tudo era verdadeiro. A vida não era perfeita, mas era boa.
E isso bastava.
Hoje quando o mundo parece correr mais do que viver, é fácil esquecer essa leveza que um dia nos habitou. A urgência tomou o lugar da contemplação e a pressa substituiu o silêncio.
As casas tornaram-se maiores, mas os corações, mais apertados. Os caminhos são mais rápidos, mas as chegadas, mais raras.
Há memórias que não são apenas lembradas, são também sentidas. E a da da casa dos meus pais antes de ser Toca dos Coelhos é uma delas. Tem cheiro, tem sons, tem luz própria. Tem tudo o que faz o coração leve.
E talvez seja isso que o meu coração procura, não para voltar atrás, mas para reencontrar o caminho onde a vida era simples.
E para mim esse caminho começa sempre no quintal dos meus pais e dos meus avós, onde o mundo era pequeno, mas a felicidade, enorme.
Tenham um excelente dia.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

A verdade na escrita

Há quem pense que a escrita é apenas um exercício de palavras: juntar frases, escolher imagens, alinhar ideias. Mas a verdade – a verdadeira verdade – não mora na técnica. Mora no autor. Mora na forma como ele olha o mundo e na responsabilidade com que decide nomeá-lo.
A verdade na escrita não se inventa. Reconhece-se.
Reconhece-se no tom, que não precisa de levantar a voz para ser firme. Reconhece-se na humildade, que não se confunde com fraqueza, mas com respeito. Reconhece-se na memória, que não é adorno, mas raiz. Reconhece-se no gesto de quem escreve para comunicar, não para impressionar.
Escrever com verdade é não fingir o que não se viveu, não adornar o que já é belo, não dramatizar o que basta ser dito com simplicidade. É aceitar que a palavra tem peso e que esse peso deve ser honrado.
A verdade na escrita também se revela na relação com o leitor. O leitor sente quando o autor está a ser ele próprio. Sente quando a frase vem de dentro e não de um palco. Sente quando há chão por baixo das palavras.
E é por isso que a verdade não precisa de ser defendida, basta ser praticada.
Quem escreve com verdade não precisa de explicar quem é. A verdade está lá no ritmo, na escolha das imagens, na forma como se agradece, na maneira como se olha o outro.
Está lá no silêncio entre frases, naquele intervalo onde mora a autenticidade.
Escrever com verdade é escrever com responsabilidade. É saber que cada palavra é uma pedra colocada no caminho de alguém. E que esse caminho deve ser seguro, honesto, humano.
A verdade na escrita não é um estilo. É uma postura. É uma ética. É uma forma de estar no mundo. E quando a verdade está presente, o texto deixa de ser apenas texto.
Torna se companhia.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Testemunho de gratidão à minha família

Bodas de Ouro – agosto de 2026
Há dias em que a vida se ajoelha diante de nós e nos diz baixinho: “Vê como foste amado.” O meu dia de ontem foi assim. A igreja encheu-se de flores – mais de mil - como se cada pétala fosse uma memória, um gesto, um sorriso amigo, uma prova silenciosa de que cinquenta anos não se medem no calendário, medem-se no cuidado.
Os meus filhos, esses companheiros de estrada, ergueram a celebração com as suas vozes, com as leituras que atravessaram o silêncio, com a mensagem que abriu a cerimónia como quem abre uma porta para a eternidade.
E disseram, sem medo de sentir: “Que sorte tivemos em ser vossos filhos.” Não há medalha maior.
As minhas netas – três luzes vivas – acolitaram como quem dança com o sagrado. A Francisca, firme e doce, fez a segunda leitura com a coragem dos que sabem que a fé também é herança. A Mariana, ao lado dela, foi o eco perfeito dessa harmonia familiar.
E a Filipa… a nossa Filipa foi a menina das alianças, a guardiã do instante em que renovámos os votos, a ponte entre o amor que começou em 1976 e o amor que continua a crescer em 2026. Com aquele gesto simples e luminoso, ela levou até nós não apenas ouro, mas a certeza de que a família é o nosso sacramento.
Eu entoei o salmo e o aleluia como tenho feito há trinta e três anos, não por hábito, mas por amor. E a Maria Manuela, serena, leu a Oração dos Fiéis com a simplicidade das coisas verdadeiras.
Depois, o bolo da minha irmã Joaquina, doce como a infância, belo como o tempo que passa sem quebrar. Os presentes maravilhosos oferecidos pelos filhos mais novos, a viagem pela Espanha da nossa juventude oferecida pelos mais velhos, com Madrid a chamar-nos outra vez, como se dissesse: “Voltem ao início, porque o amor ainda vos reconhece.”
E no final, o meu discurso foi a última pedra desta construção de afetos. Pareis duas vezes, sim, porque o coração às vezes sobe à garganta para lembrar que está vivo. E a assembleia percebeu. E o padre percebeu. E eu consegui.
Foi um dia inteiro de emoção, um dia para nunca mais esquecer, um dia em que o clã Coelho não celebrou apenas duas vidas, celebrámo-nos uns aos outros.
E por tudo isto, família, deixamos aqui a nossa gratidão:
Obrigado por nos amarem com gestos, com presenças, com palavras, com flores, com fé, com tudo o que são.
Obrigado por fazerem das nossas Bodas de Ouro um dia onde o tempo parou para nos abraçar.

Foto Pedro Coelho

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Cinquenta anos se cumpriram



E percebo que o amor não é aquilo que sentimos no início. O amor é aquilo que permanece agora: na forma como me olhas, na forma como me falas, na forma como ajeitas a mesa, a casa, a vida, na forma como continuamos a escolher-nos, mesmo quando o tempo mudou tudo à nossa volta.
É por isso que esta celebração hoje dia 14 de agosto, não será apenas uma festa. Será um agradecimento. Um agradecimento à vida, ao tempo, à coragem de permanecer, à delicadeza de amar sem alarde, à memória que nos sustenta, à esperança que ainda nos visita.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

A felicidade que não sabíamos

Ao cair da tarde, quando a luz se torna mais macia e o mundo parece suspender a respiração, há memórias que regressam como quem bate à porta devagar. Esta imagem que ontem me chegou – tão simples, tão terna, tão parecida com o quintal dos meus pais e avós – abriu em mim uma janela antiga. E por essa janela entrou, sem pedir licença, a vida daquele tempo.
Uma vida que era mesmo assim: não havia quase nada, mas também nada nos faltava. Porque o possível, era suficiente. E esse possível tinha uma grandeza que hoje reconheço com nitidez.
As flores da minha mãe e da minha avó davam ao mundo um ar de asseio, de cuidado, de harmonia. Não eram apenas flores: eram gestos. Eram a forma delas dizerem que, apesar da dureza dos dias, havia beleza para oferecer. Havia cor para pôr na vida, havia delicadeza para semear no quintal.
Entrávamos em casa e tudo estava limpo, arrumado, como se cada objeto tivesse o seu lugar na ordem do universo. As louças alinhadas na estante, o branco da cal nas paredes, os vasos com mangericos, as flores de noiva, as despedidas de verão roxas ou brancas… tudo era simples, mas tudo era cuidado. Era uma humildade asseada, digna, luminosa.
E nós, crianças, vivíamos nesse cenário sem perceber a sua preciosidade. Corríamos pelo quintal, brincávamos com as galinhas, víamos a água do ribeiro da Cavalinha subir em tempo de cheias e quase inundar a casa da avó, mas achávamos tudo normal. Era a vida. Era o mundo. Era o que havia.
Só hoje entendo: éramos felizes e não sabíamos. A felicidade não estava nas coisas grandes, estava nestas pequenas. No cheiro da cal fresca. No alinhamento das louças. No cuidado das flores. Na voz da minha mãe a chamar-nos para dentro. Na avó Amélia a sorrir quando nos via chegar. Na casa pequena que sempre foi pobre, mas digna. A felicidade era isso: uma soma de pequenos milagres que não reconhecíamos como tal.
Hoje, quando o mundo corre mais do que vive, percebo que aquela simplicidade era uma forma de abundância. Não tínhamos quase nada, mas tínhamos tudo o que importava. E é por isso que, ao cair da tarde, basta uma imagem para que o coração volte a esse lugar onde a vida era pequena, mas a alma, enorme.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

O silêncio que partilha

Há lugares onde a vida não precisa de explicação – apenas de presença. A minha aldeia é um desses lugares e eu cresci dentro desse ritmo lento que não se apressa, não se exibe, não se justifica. Apenas existe.
Aqui, o tempo não corre: assenta. Assenta na terra das hortas, nas mãos que trabalham sem alarde, nos gestos que atravessam gerações como pequenas heranças de simplicidade. Assenta nos frutos que chegam à minha porta sem anúncio, como se a própria estação soubesse o caminho.
Tomates, pimentos, beringelas, abóboras – cada fruto traz consigo o rumor de quem o cultivou, o cuidado silencioso de quem sabe que a terra só dá a quem a respeita. Depois vêm os pêssegos, os figos, as uvas – cada oferta feita sem cerimónia, sem obrigação, sem cálculo.
São gestos que não se repetem sempre às mesmas portas, porque a vida na aldeia é assim: hoje reparte-se com um vizinho, amanhã com outro. Nem todos entendem que a generosidade não segue mapas nem listas – segue o coração, o momento, a disponibilidade, o acaso.
Aprendi a ver beleza nisso. Nas aldeias, partilhar não é um ato, é uma forma de estar. Não se oferece para ser generoso; oferece-se porque é assim que se vive. Porque a vida, aqui, não se mede pelo que se tem, mas pelo que se dá. E dar não diminui; amplia.
Há uma serenidade profunda neste modo de existir. Uma serenidade que não vem da ausência de problemas, mas da presença de sentido. Da certeza de que, apesar de tudo, continuamos ligados uns aos outros por esta corrente invisível de gestos simples: um saco de fruta, uma travessa de arroz doce, uma palavra curta dita à porta, um “leva, que isto é para ti”.
E quando escrevo sobre isto, não invento nostalgia, reconheço uma verdade antiga: éramos felizes com estes poucos. E continuo a sê-lo, porque estes poucos são, afinal, tudo o que importa.
A minha aldeia permanece. Permanece no trato, na memória, na dignidade tranquila desta gente do meu tempo. Permanece no silêncio que não pesa, na luz que entra pelas janelas, no rumor das videiras ao vento. Permanece em mim e eu permaneço nela.
No fim, talvez seja isto a serenidade: saber que a vida, quando vivida com verdade, cabe inteira num cesto de fruta deixado à porta, sem nome, sem anúncio, sem necessidade de ser visto.
Gratidão é o que sinto; respeito, consideração e amizade, é o que deixo em retorno.
Texto e foto