quinta-feira, 11 de junho de 2026

A herança que também me coube

Aceito com naturalidade – e até com uma serenidade teimosa – tudo o que a vida me vai dando. Seja bom, menos bom, ou apenas aquilo que tem de ser. Vivo um dia de cada vez, sem sobressaltos, sem medos, sem complexos, como quem aprendeu que a vida não se vence aos gritos, mas com passo firme e alma quieta.
Até aos sessenta anos o meu corpo foi um companheiro leal. Nunca me deu trabalho, nunca me chamou à razão. A única vez que precisei de hospital antes dessa idade foi aos dezasseis, quando a apendicite resolveu fazer das suas. Uma operação simples, que mal deixou rasto na memória.
Mas ao aproximarem-se as seis décadas, começaram a bater à porta as heranças da família. Da mãe, a diabetes. Do pai, o adenoma na próstata. Coisas que não escolhi, mas que vieram comigo como vêm as feições, o jeito de andar, a maneira de olhar o mundo.
Houve que parar, refletir, aceitar e seguir em frente porque atrás vinha gente, e a vida não espera por ninguém.
Felizmente, hoje há fármacos que domam estes “bichinhos” silenciosos. São remendos modernos que nos permitem viver quase como sempre vivemos, com qualidade, com autonomia, com dignidade. É o meu caso. Tomar comprimidos todos os dias tornou-se tão natural como o pequeno-almoço, o almoço e o jantar.
São suplementos necessários, discretos, que me permitem até esquecer, por momentos, aquilo que carrego.
Dou graças a Deus por este espírito positivo que me concedeu. E porque o que não tem remédio, remediado está, sigo vivendo e aprendendo, como sempre ouvi aos mais velhos quando algo era inevitável: – Haja saúde e dinheiro pra vinho, que o pão compra-se.
A vida já é complicada quanto baste; o resto somos nós que complicamos.
Mas é justo dizer que dos meus pais não herdei apenas estes genes armadilhados. Herdei também o bom senso, a ousadia de lutar, a boa disposição, o amor ao próximo e talvez mais uns quantos, que me fizeram ser a pessoa positiva que sempre fui, sou e continuarei a ser.
Por isso obrigado queridos pais, avós e bisavós. Também vós fostes herdeiros da mesma herança. Se no vosso tempo existissem estes remendos que hoje tomo, talvez a vida vos tivesse sido mais leve: o Avô José Lourenço e a Mãe Florinda talvez não tivessem ficado cegos tão cedo; o Pai António Coelho talvez não tivesse vivido os últimos dez anos com uma algália; e talvez todos vós tivésseis ficado mais tempo conosco.
Mas tinha de ser assim. E aquilo que tem de ser, força humana alguma conseguirá mudar jamais.
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Nota: A caixinha dos comprimidos tem as doses que tomo ao pequeno almoço e depois ao jantar, em dois dias.

A culpa do bem e o peso da ingratidão

Há frases que atravessam séculos como lâminas de luz. Voltaire escreveu uma delas: “Todo o homem é culpado do bem que não fez.” Não é uma acusação; é um espelho. Um espelho que nos devolve a pergunta que evitamos: o que fizemos com as oportunidades de ser melhores?
Porque não basta não ferir. Não basta não roubar, não mentir, não levantar a mão. A neutralidade é apenas uma forma elegante de ausência. A ética verdadeira começa quando damos um passo em frente, quando estendemos a mão, quando fazemos o bem que poderíamos ter deixado por fazer.
O mal, muitas vezes, não nasce da crueldade – nasce da indiferença. E a indiferença é sempre confortável.
Mas há outro lado desta moeda moral, mais silencioso e mais duro: o homem que dá tudo o que pode – às vezes mais do que pode – e só recebe ingratidão.
Esse homem existe. Vive entre nós. Ao nosso lado.
É aquele que ajuda sem pedir, que oferece sem calcular, que se empenha sem esperar retorno. E, no entanto, o mundo nem sempre lhe devolve o que ele semeia. Há quem receba o bem como se fosse obrigação. Há quem transforme a bondade alheia em fraqueza. E há quem não saiba agradecer porque nunca aprendeu a olhar para além de si.
Então surge a pergunta que dói: Será também culpado o homem que sempre fez o bem e só recebeu ingratidão?
Não. Esse homem não é culpado, é apenas humano. A culpa não está em dar; está em não dar quando se pode. A ingratidão dos outros não diminui a nobreza do gesto, apenas revela a pobreza de quem o recebe.
Na sociedade de hoje – tão rápida, tão ruidosa, tão distraída – a indiferença tornou-se hábito e a gratidão tornou-se exceção. Mas ainda assim, quem age com bondade mantém acesa a luz que não depende do reconhecimento alheio.
É essa luz que impede o mundo de escurecer por completo.
E talvez a verdadeira ética seja isso: fazer o bem mesmo quando ninguém vê, mesmo quando ninguém agradece, mesmo quando dói. Porque o bem que não fazemos pesa mais do que o bem que fazemos e não é reconhecido.
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quarta-feira, 10 de junho de 2026

A solidão boa

Há uma solidão que não fere. Uma solidão que não nasce da falta, mas da abundância – da abundância de termos vivido o suficiente para sabermos que a companhia mais fiel é a que mora dentro de nós.
É essa solidão que chega em tardes como esta, quando a casa fica mais quieta porque a Maria Manuela foi cantar para o outro lado da fronteira, e eu fico com o eco dos meus próprios passos, o cheiro dos restolhos a secarem nos campos, a luz a pousar devagar nas paredes.
Não é abandono. É repouso.
A solidão boa não exige nada. Não cobra, não aperta, não chama. Limita-se a estar, como o meu velho canito Bolinhas se deitava aos meus pés, sem pedir atenção, apenas presença.
É nessa solidão que o pensamento se endireita, que a memória se acende, que o coração fala mais baixo, mas mais claro. É nela que percebemos que não precisamos de multidões, nem de ruído, nem de distrações para sermos felizes.
Basta-nos este intervalo, esta pausa, esta espécie de trégua que a vida nos oferece quando ninguém está a olhar.
A solidão boa é a que nos devolve ao essencial: ao quintal, à terra, ao silêncio da Tapada da Rabela, ao rumor distante de Espanha, ao tempo que passa sem pressa. É a solidão que não pesa porque não vem de falta, vem de plenitude.
E talvez seja isso que a torna tão rara: não é a solidão de quem está só, é a solidão de quem está consigo próprio.
Quem aprende a habitá-la nunca mais teme o silêncio. Porque descobre que, no fundo, o silêncio é apenas a casa onde a nossa alma respira.
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Pensa agora um bocadinho mais em ti

Há pessoas que vivem como se fossem nascidas para amparar o mundo. Não porque alguém lhes pediu, mas porque algo dentro delas se move sempre que se apercebem de uma dor, um silêncio, uma sombra.
São pessoas que carregam uma espécie de luz, que não se apaga mesmo quando o vento sopra forte. Pessoas que se inclinam para o outro com a mesma naturalidade com que o sol se inclina para a manhã.
Chegam antes de lhes ser pedido. Estendem a mão antes da queda. Oferecem o ombro antes da lágrima. E fazem-no sem alarde, sem medalhas, sem testemunhas.
Fazem-no porque é assim que gostam de viver: - cuidando dos outros.
Mas há um momento – e chega sempre – em que o corpo começa a falar mais alto. De um cansaço que não é só físico, mas existencial. Um silêncio que não é vazio, mas aviso. Um aperto que não é dor, mas fronteira.
É o instante em que a vida, com a sua sabedoria discreta, lhes sussurra:
- Pensa agora um bocadinho mais em ti.
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Quem já decidiu não entender, não vai ceder por mais que te expliques

É inevitável: quando o coração aprende a idade da alma, já não quer reboliço, quer é sossego. Já não procura multidões, procura verdade. Já não quer provar nada, quer apenas ser quem é.
Porque o tempo ensina que a paz não é luxo, é necessidade. E que a solidão vale mais do que uma companhia que nos fere.
Há batalhas que deixamos de travar não por desistência, mas por sabedoria, porque quem já decidiu não entender, não entenderá.
E então, devagar, tornamo-nos guardiões de nós mesmos. Aceitamos as nossas falhas como quem aceita cicatrizes que já não doem. Ao respeitarmos o que somos, aprendemos a respeitar o que os outros não conseguem ser.
E é nessa hora que percebemos que até a compaixão tem limites. Porque há quem, ferido, responda com agressividade à mão que o tenta erguer. Há quem confunda cuidado com obrigação, e amizade com porto de descarga.
E nós, por bondade, suportamos o que não devíamos suportar. Até que um dia o silêncio se torna a resposta mais justa. E então deixamos de alimentar razões, de explicar o que não querem ouvir, de justificar o que nunca será compreendido.
Respondemos com educação, mas não nos oferecemos. Mantemos a porta aberta, mas fechamos a ferida. E quem estava habituado ao nosso coração inquieta-se porque a nossa mudança já não o favorece.
Entramos sem cerimónia naquela decisão de deixarmos de nos importar, esse lugar secreto onde só entra quem já percebeu que a felicidade é simples, e que a leveza é uma forma de oração.
E assim seguimos, passo após passo, deixando cair o que nos pesa, libertando-nos do que nos prende, despedindo-nos do que escurece a nossa vida.
Porque tudo o que não é amor, cansa. E tudo o que não é verdade, cai. No fim, resta apenas um caminho limpo, um coração sereno, e a coragem de ser feliz sem pedir licença.
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Reflexão para mais um 10 de Junho

Viver em democracia é, por vezes, duro. E mais duro ainda é perceber certas interpretações da “nossa” democracia. Não me considero lerdo dos sentidos nem incapaz de entender a vida, mas confesso que percebo cada vez menos esta obsessão pelos direitos – direitos para cá, direitos para lá – quando, para cumprir alguns, atropelam-se outros tão ou mais essenciais: a ética, a saúde, o bem estar e a dignidade humana.
Pergunto-me: porque é que o direito reivindicativo há de valer mais do que qualquer outro?
Vemos greves em vários setores que, ao exercerem o seu direito, prejudicam milhares de pessoas que esperam meses – às vezes anos – por exames, cirurgias ou consultas. E, de repente, por causa de uma inesperada greve, ficam impedidas de exercer o seu próprio direito constitucional à saúde.
Quem vive em Lisboa, Porto ou Coimbra, ainda se desenrasca. Mas quem vive no fim do mundo, como eu, perde tudo: consultas, exames, transportes, dinheiro e paciência.
No tempo do António de Santa Comba morria-se por falta de assistência médica. No tempo da Santa Democracia morre-se, se preciso for, para que se cumpra o direito à greve.
Desde quando um aumento salarial é mais importante do que a saúde de quem precisa? Se nas Forças Armadas e de Segurança a greve é proibida por pôr em causa a soberania e a segurança, porque não se limita também o que põe em causa a vida e o bem estar de tantos?
Eu, por exemplo: diabético, com vigilância permanente, adenoma retirado e vigilância preventiva permanente também, insuficiência respiratória crónica herdada dos anos nas Minas da Panasqueira. Vivo de consulta em consulta, de exame em exame. Basta um deles falhar por motivo de greve para baralhar tudo o resto.
E ninguém responde por isso.
As reivindicações são justas? Muitas vezes são. Mas não deveriam nunca prejudicar terceiros, sobretudo no que toca à saúde.
Sou aposentado com 41 anos de descontos – 36 na Caixa Geral de Aposentações e 5 na Caixa Nacional de Pensões – pagos do meu bolso até ao último cêntimo por trabalho duro à chuva e ao sol desde os onze anos. E vejo, neste mesmo país, quem receba pensões e indemnizações obscenas por meia dúzia de anos de “altas” funções em sumptuosos gabinetes no ar condicionado.
E ainda tenho de ouvir governantes dizerem que é normal trabalhar até cada vez mais tarde para receber pensões cada vez mais baixas, quando muitos deles se aposentam na flor da idade com várias pensões acumuladas de milhares de euros.
É preciso ter lata.
Mas isto, dizem, é democracia. Para alguns, claro.
Cada tiro, cada melro.
As greves são cirurgicamente planeadas para causarem o máximo impacto: sextas-feiras, vésperas de feriados, pontes, natais, páscoas. O objetivo é pressionar o governo, custe o que custar. E a requisição civil, quando existe, muitas vezes não é cumprida.
Direitos, todos têm. Deveres, ninguém quer ter.
Vivi 22 anos em ditadura – não foi fácil. Vivo há 50 em democracia – também não tem sido grande coisa. Mudaram as moscas, mas a m***a ficou a mesma.
E, em muitas situações, não se notam grandes diferenças.
Tenho dito, dou a cara e assino por baixo.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Oração

Senhor, Tu que conheces o cansaço escondido nos meus ombros e a serenidade que procuro no silêncio, acolhe esta oração que nasce do fundo do meu caminho.
Tu sabes que os anos me ensinaram a escolher a paz em vez do tumulto, a verdade em vez do ruído, a solidão serena em vez da companhia que fere. Mostra-me, Senhor, que isso não é desistência, mas maturidade.
Dá-me a graça de compreender que quem já decidiu não entender, não entenderá, por mais que eu explique, por mais que eu me ofereça, por mais que eu tente curar o que não quer ser curado.
Guarda-me, Senhor, de gastar o meu coração onde ele não é acolhido. Livra-me de confundir compaixão com sacrifício, bondade com obrigação, amizade com porto de descarga.
Ensina-me a amar sem me ferir, a ajudar sem me perder, a estender a mão sem me deixar esmagar.
Quando o silêncio for a resposta mais justa, dá-me coragem para o manter. Quando a distância for proteção, dá-me serenidade para a aceitar. Quando a minha mudança inquietar os outros, dá-me firmeza para não voltar atrás.
Senhor, que eu entre no lugar dos que deixam ir, não por indiferença, mas por sabedoria. Que eu caminhe leve, sem pesos que não são meus, sem culpas que não me pertencem, sem feridas que já não quero carregar.
Purifica o meu caminho, serena o meu coração, e dá-me a coragem de ser feliz sem pedir licença a ninguém.
Amém.
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