Há terras que não são apenas lugares: são pátria, dentro da Pátria, são sangue dentro do sangue, são voz dentro da voz.
O interior do meu país é uma delas. E por isso, quando o ferem, eu sangro. Quando o abandonam, eu grito. Quando o esquecem, eu escrevo. E quando tentam calá-lo, eu levanto-me.
Porque há séculos que estas terras seguram o país às costas. Foram elas que alimentaram cidades, que deram homens à guerra, que deram pão às mesas, que deram silêncio aos poetas e coragem aos que ficaram.
E agora querem que morram em silêncio?
Não. Enquanto eu estiver vivo, não.
O abandono não foi acidente. O interior não morreu de velhice. Não morreu de cansaço. Não morreu de falta de gente.
O interior morreu de decisões.
Decisões tomadas por mãos que nunca tocaram terra. Por olhos que nunca viram uma casa ruir. Por ouvidos que nunca escutaram o silêncio de uma aldeia ao fim da tarde. Por cabeças que nunca precisaram de um comboio para chegar ao trabalho.
Quando fecharam o Ramal de Cáceres, não fecharam só uma linha. Fecharam vidas. Fecharam horizontes. Fecharam a porta a quem dependia daquele movimento para sobreviver.
E quando as fronteiras fecharam, o interior ficou encurralado como um animal ferido. Sem saída. Sem futuro. Sem voz.
Foi o caos. Famílias no desemprego. Filhos a estudar sem saberem como pagar livros. Casas com prestações que não esperavam. E houve quem morresse cedo demais, não de doença, mas de angústia. Sim, a angústia matou.
Eu vi isso acontecer na Beirã. E nunca mais me saiu da alma.
Quantas Beirãs há neste País? Quantas casas perderam telhados? Quantos fornos comunitários estão a ruir? Quantas estações ferroviárias ficaram às moscas? Quantas escolas fecharam porque “não compensa mantê-las abertas”? Quantos serviços desapareceram porque “não há população suficiente”?
E quantas vezes repetiram essas frases até que ela se tornassem sentenças? Até que o interior fosse tratado como um velho incómodo, um peso morto, um lugar para deixar cair porque já não serve?
Mas eu digo: não.
Não aceito. Não consinto. Não me calo.
Porque a raiva justa também é amor.
Há quem confunda resistência com teimosia. Mas quem vive aqui sabe que resistir é amar as nossas raízes, o nosso chão, as nossas memórias.
É amar a terra que nos fez. É amar os avós que nos ensinaram dignidade. É amar as casas que ainda tentam ficar de pé. É amar o silêncio que não é vazio, é pertença.
E é amar tanto, que dói.
Dói ver cair o que era nosso. Dói ver partir quem não queria partir. Dói ver morrer quem não devia morrer. Dói ver o país esquecer-se de metade dele.
Enquanto eu conseguir falar e escrever, a minha terra não morre!
Porque eu não me calo. Nunca me calarei.
Porque enquanto houver uma aldeia, um forno antigo, uma árvore que resiste ao vento, uma memória que insiste em viver, haverá país.
E enquanto eu tiver voz, essa memória não morre. Enquanto eu respirar, esta terra não cai. Enquanto eu resistir, o meu chão não será ruína.
O interior não pede nem necessita de esmolas. Pede e necessita de respeito. Pede e necessita de justiça. Pede e necessita que o deixem existir.
Enquanto eu viver, não deixarei que o matem em silêncio.




