Há dores que não se gritam. Ficam suspensas no ar, como o fumo que sobe devagar depois de tudo ter ardido. Hoje, essa dor é a da terra e a dos seres que nela viviam sem pedir nada, apenas queriam existir.
Cada incêndio é uma ferida aberta no mundo. Não é só a árvore que cai, nem só a sombra que desaparece. É o ninho que nunca mais será reconstruído, o olhar de um animal que corre até onde já não há saída, a vida pequena que não conhece maldade e, mesmo assim, é engolida pelo fogo.
Há um silêncio que fica depois das chamas. Um silêncio pesado, feito de ausência. Nele cabem os animais domésticos que não puderam fugir, os selvagens que tentaram, os que ficaram presos no destino que não escolheram.
E nós, que assistimos, ficamos com esta dor que não se explica. Porque sabemos que podia ter sido aqui, na nossa terra, na nossa horta, no nosso quintal, onde cada árvore tem nome, onde cada pássaro é vizinho, onde cada vida conta.
Não escrevo para acusar. A justiça não funciona com o impulso do coração. Escrevo porque a dor precisa de ser dita, para não se transformar em cinza dentro de nós.
Escrevo porque amar a natureza não é admirá-la de longe. É sentir o golpe quando ela cai. É perceber que cada vida perdida nos diminui um pouco. É saber que a terra não é cenário – é a nossa casa.
Inclino-me, em silêncio, perante todas as vidas que partiram. As grandes e as pequenas. As que vimos nas reportagens e as que ninguém filmou. As que tinham dono e as que só tinham o mundo.
Que a chuva abrace a terra ferida. Que o vento leve o fumo sem levar a memória. Que nós, humanos, aprendamos finalmente que proteger a natureza é proteger aquilo que, no fundo, sempre nos sustentou.
Porque o coração – o meu, o vosso, o de todos – sempre viveu nela.
Imagem da net




