sexta-feira, 31 de julho de 2026

Elegia à Terra que arde

Há dores que não se gritam. Ficam suspensas no ar, como o fumo que sobe devagar depois de tudo ter ardido. Hoje, essa dor é a da terra e a dos seres que nela viviam sem pedir nada, apenas queriam existir.
Cada incêndio é uma ferida aberta no mundo. Não é só a árvore que cai, nem só a sombra que desaparece. É o ninho que nunca mais será reconstruído, o olhar de um animal que corre até onde já não há saída, a vida pequena que não conhece maldade e, mesmo assim, é engolida pelo fogo.
Há um silêncio que fica depois das chamas. Um silêncio pesado, feito de ausência. Nele cabem os animais domésticos que não puderam fugir, os selvagens que tentaram, os que ficaram presos no destino que não escolheram.
E nós, que assistimos, ficamos com esta dor que não se explica. Porque sabemos que podia ter sido aqui, na nossa terra, na nossa horta, no nosso quintal, onde cada árvore tem nome, onde cada pássaro é vizinho, onde cada vida conta.
Não escrevo para acusar. A justiça não funciona com o impulso do coração. Escrevo porque a dor precisa de ser dita, para não se transformar em cinza dentro de nós.
Escrevo porque amar a natureza não é admirá-la de longe. É sentir o golpe quando ela cai. É perceber que cada vida perdida nos diminui um pouco. É saber que a terra não é cenário – é a nossa casa.
Inclino-me, em silêncio, perante todas as vidas que partiram. As grandes e as pequenas. As que vimos nas reportagens e as que ninguém filmou. As que tinham dono e as que só tinham o mundo.
Que a chuva abrace a terra ferida. Que o vento leve o fumo sem levar a memória. Que nós, humanos, aprendamos finalmente que proteger a natureza é proteger aquilo que, no fundo, sempre nos sustentou.
Porque o coração – o meu, o vosso, o de todos – sempre viveu nela.
Imagem da net

A casa onde mora a ternura

Há casas que não se medem pelas paredes, mas pela forma como acolhem quem chega. E há pessoas que são casas – não porque tenham portas ou janelas, mas porque guardam dentro de si uma ternura que não se anuncia, apenas se oferece.
A generosidade mora nessas casas invisíveis.
É uma luz que não se acende para ser vista, mas para que o outro não tropece na escuridão. É um gesto que não se explica, mas que se repete como quem sabe que o bem, para existir, precisa de constância.
E porque não gosto de me evidenciar, caminho pelo mundo com esse respeito silencioso por aqueles que têm o dom raro de se darem, sem se darem a conhecer. Observo-os como quem observa o voo de um pássaro: não para o aplaudir, mas para aprender com a sua direção.
A verdadeira generosidade é sempre discreta como a água que corre por baixo da terra alimentando raízes que ninguém vê, mas sustenta florestas inteiras.
Há mulheres e homens assim: que chegam devagar, que falam pouco, mas fazem muito. Que não se colocam no centro, mas que, sem querer, se tornam o eixo onde tudo se organiza.
Eles são a mão que segura o balde quando a água está pesada, o ombro que ampara sem perguntar, a palavra certa dita no momento em que o silêncio já não basta.
São aqueles que, quando partem, deixam o mundo mais habitável do que o encontraram.
E eu reconheço essa grandeza com pudor. Não me coloco ao lado deles, não me comparo, não me elogio. Apenas agradeço.
Quem sabe agradecer sem se engrandecer carrega dentro de si uma humildade que não se aprende nos livros, mas na vida vivida com verdade.
Este texto é dedicado a todas as mulheres e homens que possuem o dom de darem de si sem esperarem retorno, que não se evidenciam mas têm o raro talento de ver o brilho dos outros sem se aproximarem demasiado da luz.
Há nisso uma profunda beleza. A beleza que não se exibe, mas permanece. Como a casa onde mora a ternura.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Raízes de silêncio

Há momentos na vida em que o silêncio se adensa tanto que deixa de ser ausência: torna se matéria. Podemos quase pousar-lhe a mão, como quem toca numa parede antiga que guarda histórias. Nesse silêncio, percebemos que a vida não se explica, revela-se. Revela-se nos gestos que ninguém viu, nas palavras que nunca encontraram voz, nas memórias que regressam mesmo quando o corpo já não tem força para lhes abrir a porta.
Com o tempo aprendi que ele não é uma linha esticada entre o que fomos e o que seremos. O tempo é um círculo. E nesse círculo cabem as vozes dos nossos pais chamando-nos para dentro de casa ao anoitecer, o cheiro da terra molhada depois da chuva, o eco das nossas mãos a arrumar canetas sobre a secretária, como quem tenta alinhar também o que ficou desalinhado dentro da alma.
A profundidade não mora no pensamento. Mora no instante em que o pensamento se cala e o coração, finalmente, fala. É aí que descobrimos que a vida não nos pede grandeza: pede-nos verdade. A verdade humilde dos que amam sem fazer barulho. A verdade silenciosa dos que carregam responsabilidades que ninguém vê, mas que sustentam o mundo. A verdade dos que sabem que cada pessoa é uma história inteira feita de perdas, de pequenos milagres, de resistências que nunca foram celebradas.
E então percebemos que existir é uma espécie de oração contínua, mesmo para quem não reza. Uma oração feita de passos, de escolhas, de memórias que se tornam raízes. O que realmente importa não é o que conquistámos, mas o que permanecemos apesar das tempestades, das noites longas, das feridas que o tempo não fechou.
Profundidade é aceitar a fragilidade sem desistir de ser quem somos; é reconhecer que somos finitos, mas amar como se não fôssemos; é saber que o mundo muda, mas guardar dentro de nós aquilo que nunca deve mudar – a bondade, a lealdade, o silêncio que nos devolve ao essencial.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Escrever é o meu modo preferido de conversar

Há noites em que a minha casa parece respirar comigo. O silêncio não é ausência – é companhia. E eu, sentado na varanda do quintal, deixo que o ar fresco me conte aquilo que o dia não teve tempo de dizer.
O chão sob os meus pés guarda passos de décadas, memórias que não pedem licença para regressar. A penumbra desce sobre o quintal e sobre os regos da horta que reguei, ainda húmidos; as aves já recolheram e o rumor distante da natureza nunca abandona quem nela cresceu.
Há sempre um instante – breve, mas intenso – em que sinto que tudo o que fui, tudo o que fiz, tudo o que perdi e ganhei, cabe dentro deste aproximar da noite. Como se a vida, por um momento, se deixasse tocar.
A Maria Manuela está na sala dobrando a roupa que recolheu do estendal e arrumando-a num cesto para depois engomar. O Manel, o Pedro, as netas – todos eles são presenças que não precisam de estar para se sentirem. A Beirã tem esse dom: guarda as pessoas dentro dos corações, mesmo quando estão longe.
E eu escrevo, porque é o meu modo preferido de conversar com o mundo. Escrevo devagar, como quem colhe fruta madura ao fim da tarde. Escrevo porque a memória é uma casa que só se mantém de pé quando alguém acende a luz.
E quando a noite enfim se instala, mansa e inteira, deixo que o silêncio se estenda sobre tudo o que amo. Há uma paz antiga que desce sobre a casa, como se viesse da serra, como se viesse de muito antes de mim.
Penso na Maria Manuela, companheira de tantos anos, que arruma a roupa com a serenidade de quem sabe que cada gesto também é amor. Penso nos meus filhos e nas minhas netas que iluminam a nossa vida mesmo quando não estão aqui.
Penso nos amigos de sempre, nos que a vida me deu e nos que a vida me devolveu, e sinto que a noite os abraça a todos, um a um, como se chamasse cada nome em silêncio.
E desejo-lhes paz. Uma paz simples, daquelas que não fazem barulho: a paz de uma horta regada, de um quintal arrumado, de uma casa que respira com quem nela vive. A paz de saber que, apesar das distâncias e das ausências, há laços que não se desfazem.
Esta é também a hora em que o rouxinol de vez em quando me visita ao fim do dia. Imagino-o a pousar no bordo do balde de água que renovo todas as tardes, talvez porque alguém lhe contou que aqui encontraria sempre um lugar seguro. Talvez tenha sido uma rola, um melro ou um pardal – todos sabem reconhecer quem cuida deles.
Nessa confiança da passarada encontro também a confiança das pessoas que fazem parte da minha vida. Da família que me acompanha desde sempre, e dos amigos. Cada um deles, tal como o rouxinol, chega quando quer, pousa onde precisa e traz consigo a luz que me ilumina o dia.
A todos desejo uma noite serena. Uma noite que desça devagar, como a brisa que passa entre as oliveiras. Uma noite que traga descanso aos que trabalham, sossego aos que se inquietam e ternura aos que amam.
Que a tranquilidade encontre cada um onde estiver, que o silêncio lhes seja leve e que a madrugada os receba com esperança. Boa noite.

Negar as alterações climáticas é ignorar a ciência

Continuar a negar as alterações climáticas já não é apenas um erro intelectual: é um fator ativo de risco. É ignorar décadas de dados observacionais, milhares de artigos revistos por pares e medições que mostram, sem ambiguidade, que o planeta está a entrar numa era de incêndios extremos.
A narrativa do “sempre fez calor” não resiste a uma análise mínima das séries históricas. As ondas de calor atuais têm intensidade, duração e frequência estatisticamente anómalas. E culpar só a mão criminosa é cientificamente insuficiente: a ignição explica o início, mas não explica a violência.
Os incêndios de grande escala são sistemas físicos alimentados por três variáveis: ignição, combustível e condições meteorológicas. É neste último ponto que o colapso climático se torna decisivo. O aumento da temperatura média global reduz a humidade do solo, intensifica a evapotranspiração, e prolonga as secas severas.
Esses processos convertem ecossistemas inteiros em biomassa altamente inflamável, elevando o índice de perigo de incêndio para valores que ultrapassam os registos históricos.
A ciência documenta ainda a alteração dos padrões atmosféricos: ventos mais erráticos, ar mais seco, instabilidade térmica mais frequente. Tais condições favorecem incêndios de alta intensidade capazes de gerar pirocúmulos, pirotornados e colunas convectivas que criam microclimas próprios.
E quando isso acontece, o combate humano deixa de ser uma operação de contenção do fogo e passa a ser uma tentativa de sobrevivência.
A faísca provocada intencionalmente por mão humana pode iniciar o evento, mas é o reforço radiativo provocado pelas emissões de gases com efeito de estufa que determina a escala, a velocidade e a imprevisibilidade do desastre.
Ignorar este mecanismo físico é negar a realidade.
Tratar estes incêndios como incidentes isolados ou como meros crimes individuais é uma falha política grave. A evidência científica exige redução acelerada de emissões, transição energética, gestão inteligente do território, reforma dos sistemas alimentares e adaptação climática robusta.
Cada hectare queimado é um indicador empírico de que o sistema climático está a ultrapassar limites críticos e a normalização destes eventos não é apenas perigosa, é irracional. A ciência não deixa espaço para desculpas. Sem ação estrutural, a tendência é clara: mais incêndios, mais extremos, maior destruição.
Foto da net

Caminhar, sorrir, viver

Hoje acordei de ânimo mais tranquilo. Não porque a saudade tivesse diminuído, mas porque reconheci que o amor dos que já partiram não nos pede que fiquemos curvados.
Pede-nos que continuemos.
Nestes últimos dias deixei que a memória da minha mãe me tocasse fundo. Senti-me murcho, como uma planta que perde um pouco de sol. Mas hoje percebo que essa nostalgia é também uma forma de amor.
É o corpo a lembrar o que o coração nunca esquece.
Guardo a sua memória como quem guarda uma chama pequena, mas firme. Não para viver no passado, mas para iluminar o caminho à frente.
Ela e o meu pai, ensinaram-me a levantar a cara, a seguir adiante, a não me perder em tristezas que não constroem. E hoje faço exatamente isso: honro-os caminhando, sorrindo, vivendo.
A saudade fica comigo, mas não me prende. Acompanha-me como uma sombra boa, como presença silenciosa. E eu sigo inteiro, sereno, com a luz que eles deixaram acesa dentro de mim.
Hoje é dia de caminhar. Dia de respirar fundo. Dia de continuar o exemplo que recebi: viver com dignidade, com verdade, com a cara levantada.
PS:
Na foto não pareço lá muito animado, mas não é defeito, é feitio. Sou mesmo assim.

Uma vida que me acompanha

Nesta pequena montra repousa a minha vida fardada de 1969 a 2003, como quem pousa o chapéu depois de uma longa marcha.
À direita, o rapaz que partiu voluntário para Angola, levando mais coragem do que idade. À esquerda, o sargento em formação, já com o peso da responsabilidade a assentar nos ombros como uma segunda pele.
As quatro medalhas são as quatro moradas do meu caminho: Batalhão Nº3 de Évora, onde aprendi a disciplina; a Escola Prática, onde me fiz graduado; CIP/Portalegre, onde servi com o coração inteiro; e o velho Batalhão de Cavalaria 3871, que me levou à guerra e me ensinou a regressar.
Tudo junto – retratos, livros, metal e memória – são o eco de uma vida de serviço, camaradagem e honra.
Uma vida que ainda hoje me acompanha, como o cheiro da terra molhada depois da rega ao anoitecer.
Texto e foto