Naquele
instante, o tempo abrandou. Não foi apenas o elogio que me comoveu – foi o que
ele representava. Nos olhos dela, vi refletida a história viva da nossa comunidade:
as tradições que resistem, os gestos que se repetem, os rostos que envelhecem,
mas não se apagam. Havia ali a confirmação de que a minha escrita não é apenas
um exercício literário; é um serviço à memória coletiva, uma forma de preservar
aquilo que, sem registo, se perderia no silêncio dos dias.
Escrevo
para pessoas como ela e sei disso. Para quem reconhece valor nas pequenas
coisas, para quem encontra beleza nos rituais simples que nos unem, para quem
lê com o coração e não apenas com os olhos. Aquelas palavras, ditas com a
humildade de quem viveu muito e aprendeu a agradecer o essencial, tocaram-me
porque me mostraram que o que faço tem sentido.
Que
a minha voz ecoa onde deve ecoar.
A
verdade é que a escrita, quando nasce da terra, tem esse poder de criar pontes
entre gerações. Eu escrevo sobre o que vejo, mas também sobre o que herdei: os
modos de viver, as histórias contadas ao entardecer, os costumes que moldaram a
identidade de todos nós. E quando alguém me diz que se reconhece nas minhas
palavras, que encontra nelas um espelho das suas próprias vivências, isso é
mais do que reconhecimento – é pertença.
Aquela
senhora Beiranense mas que não vive cá, com a sua gratidão tão genuína, ofereceu-me um dos maiores
presentes que um (aprendiz de) escritor pode receber: a certeza de que a
palavra, quando é verdadeira, chega ao coração de quem a merece. E eu que tenho
na minha terra e na minha gente a maior paixão da minha já longa vida, recebi
esse gesto como se recebe um abraço sentido: com emoção, com respeito, com a
consciência de que certos momentos ficam para sempre.
Este
encontro ficará guardado em mim como testemunho de que vale a pena continuar.
Vale a pena escrever para quem reconheça na minha
escrita a dignidade do que somos, quem encontre nas minhas crónicas a memória
que não quer perder.
Bem haja, querida senhora, pelo seu generoso gesto. Enquanto houver quem leia com o coração e eu tenha lucidez, continuarei a dar voz à terra que amamos e nos fez aos dois.
A si e a mim.
José
Coelho
Foto Maria Coelho






