Ontem à noite, quando me sentei à mesa com as minhas irmãs, senti logo que não era apenas um jantar. Era um regresso. Um reencontro com partes de mim que só acordam quando estamos juntos: eu, a Luz e a Joaquina. O mais velho, a que vem de longe, a que ficou sempre perto. Três vidas que começaram na mesma casa, no mesmo colo, no mesmo amor.
À nossa volta estavam também os meus: a minha Maria Manuela, o Manel, a Paula, as minhas netas Filipa e Mariana. Estava o meu cunhado e marido da Luz , António Martins, o José Nunes, marido da Joaquina, a Carmen Isabel, minha afilhada, e o pequeno Lorenzo, que corre pela sala como se trouxesse nos pés a alegria que nos falta nos dias mais pesados.
E enquanto falávamos, enquanto ríamos, enquanto repetíamos histórias que já sabemos de cor, eu sentia também a presença dos que não puderam vir: o Pedro, a Ana Sofia e a Francisca em Setúbal; a Ana Lúcia nas Caldas; e os filhos, genro e netos da Luz – Cristina, Luís, Leonardo, Gustavo, Xavier e o Guilherme, que já nasceu britânico – lá em Inglaterra.
Todos eles, mesmo longe, estavam ali comigo. Porque a família não precisa de estar inteira para estar presente.
Mas havia mais. Havia três presenças que não se veem, mas que se sentem como um calor no peito: o ti António Coelho, a ti Florinda Lourenço e a nossa irmã primogénita, a Adelina. Eu sei – senti – que estavam ali. Sentados na cabeceira invisível da mesa, a olhar para nós com aquele orgulho silencioso que só os que já partiram conseguem ter. A ti Florinda, com o seu jeito de mãe que nunca se perde. O ti António, com aquele aperto de mão que eu transformava sempre em dois beijos. E a Adelina, a primeira de todos nós, que continua a ser a primeira em tudo o que importa.
Foi então que me atravessou aquela verdade mansa, mas funda: estas ajuntadas são preciosas porque um dia, sem o sabermos, uma delas será a última para alguém. E não digo isto com tristeza, digo-o com gratidão. Porque cada vez que nos juntamos, vencemos o tempo. Vencemos a distância. Vencemos a vida que nos espalhou por Portugal, Inglaterra e pelo mundo.
Ontem à noite, a mesa foi mais do que mesa. Foi casa. Foi infância. Foi bênção.
E eu, que já sou o mais cota dos três, fiquei ali sentado, a olhar para as minhas irmãs e para os meus filhos e netas e a pensar: se esta fosse a última vez, já teria valido a pena. Porque o amor que nos une não cabe numa fotografia – cabe na eternidade.
E enquanto houver um reencontro, por mais raro que seja, sei que o ti António, a ti Florinda e a Adelina continuarão a sentar-se sempre conosco. Porque o amor, esse sim, nunca emigra.
Foto Manel Coelho




