sábado, 3 de outubro de 2026

Dedicatória

Neste sábado de quietude na Beirã, ao entrar na Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Carmo, lembrei-me, como sempre, dos muitos Beiranenses que guardam esta devoção mesmo vivendo noutros países, noutros continentes, noutros caminhos da vida.

A fé, porém, não conhece distância. Por isso deixo aqui esta fotografia que fiz hoje 3 de Outubro de 2026, na Eucaristia Vespertina do Domingo XXVII do Tempo Comum, como quem acende uma pequena luz para todos os que gostariam de estar presentes.

Que ela vos leve um pouco da paz, da memória e da devoção que aqui se vivem, e vos recorde que a Beirã vos guarda sempre.

José Coelho

Bom fim de semana

A chuva da noite deixou-a lavada, fresca, quase luminosa. Foi o meu pai, António Coelho, quem a plantou, com aquela bondade tranquila que punha em tudo o que tocava.
Chamava-lhe “maçanica” e dizia que as suas azeitonas davam para britar, retalhar ou adoçar no pote de barro, como quem guarda o sabor da casa durante todo o ano.
Hoje, quando a vejo assim, já pintada, pronta e a dizer “colhe-me”, sinto que ele ainda está aqui: no brilho das folhas, no cheiro da terra molhada, na promessa de que a vida continua quando é bem cuidada.
Acarinho esta oliveira como ele a acarinhava. E cada azeitona é uma pequena bênção da sua querida memória.
José Coelho

O meu quintal é um espelho da minha alma

Há lugares que não precisam de grandeza para serem importantes. O meu quintal é um deles. Não tem monumentos, não tem paisagens épicas, não tem a imponência das serras que rodeiam a Beirã. Mas tem algo que nenhuma serra, por mais alta que seja, consegue oferecer: intimidade.
O meu quintal é o lugar onde a minha alma se revela sem pressa.
De manhã, quando saio para ver as plantas, há sempre um instante em que o mundo parece suspenso. O ar ainda fresco, o cheiro da terra húmida de orvalho, o silêncio que só é quebrado pelo canto da passarada, tudo isso cria uma espécie de espaço interior onde o pensamento se organiza.
Os limões novos ainda pequenos, parecem olhar para mim como quem pergunta: “Vais cuidar de nós hoje?” E eu cuido. Com a paciência que a terra exige, com a humildade de quem sabe que nada cresce por imposição.
Regar é um gesto simples, mas tem qualquer coisa de sagrado. A água cai devagar, infiltrando-se na terra como quem devolve vida ao que a pede. E enquanto rego, percebo que aquele movimento repetido, quase sempre igual, é uma forma de meditação.
A mente abranda. O corpo acompanha. O quintal torna-se espelho e eu vejo-me ali, refletido naquilo que cultivo.
Há dias em que as plantas parecem crescer mais. Outros em que parecem estagnar. E eu aprendo com elas que a vida também é assim: feita de avanços e pausas, de dias férteis e silenciosos, de momentos em que tudo floresce e outros em que nada parece acontecer.
A natureza não tem pressa e talvez seja isso que mais me ensina.
A Maria Manuela passa muitas vezes ao meu lado a estender roupa no estendal que eu fiz, mas sem interromper. Ela sabe que aquele espaço é mais do que terra. É refúgio. É lugar de pensamento. É o sítio onde encontro respostas que não encontro em livros, nem em conversas.
À tarde, quando o sol começa a descer, a luz muda. Fica mais dourada, mais oblíqua, mais suave. E o quintal transforma-se numa espécie de sala de estar ao ar livre.
Sentado num dos bancos de alvenaria da varanda, olho para as plantas, para o céu, para o movimento lento do vento, e sinto que ali, naquele pedaço de terra, a vida se torna compreensível.
O meu quintal não é apenas um espaço. É metáfora. É o lugar onde percebo que tudo o que cresce precisa de cuidado, de tempo, de silêncio. E que a alma, tal como as plantas, só floresce quando é regada com atenção.
Às vezes penso que, se alguém quisesse saber quem eu sou, bastava olhar para o meu quintal. Ali está a minha paciência. Ali está a minha memória. Ali está a minha forma de estar no mundo. Ali está o meu ritmo lento, constante, sereno.
O meu quintal é o meu espelho. E eu, que tantas vezes vivi entre urgências e compromissos, ali encontro naquele pedaço de terra, uma verdade que me acompanha: a alma sossega melhor quando tem raízes.

José Coelho

Memórias de um “peixe miúdo”

Crónica de um tempo em que ajudar era perigoso

Nesta fotografia de 1974, o meu olhar não era de juventude – era de resistência. Carregava uma melancolia que não vinha da idade, mas das injustiças que me atingiam em cheio. O país mudava depressa, mas na minha freguesia a mudança ainda era suspeita. 

Entre o medo e a esperança, eu era apenas aquilo que muitos diziam: um peixe miúdo. E foi precisamente por ser pequeno que me tornaram alvo fácil.

Escrevo estas linhas sem procurar palco nem aplausos. Quero apenas deixar testemunho de um tempo em que ajudar alguém podia ser visto como crime. Os trabalhadores rurais da freguesia lutavam por direitos que mal sabiam nomear, e eu, que sabia escrever, emprestava-lhes a mão. Preenchia formulários, traduzia leis, dava voz a quem só tinha silêncio. 

O sindicato era composto por homens analfabetos, de origem humilde e honrada, como o meu pai. A minha ajuda não tinha cor partidária nem ambição. Era apenas humanidade. Mas num tempo em que a solidariedade era vista como luxo, esse gesto simples tornou-se suspeito.

Acompanhava frequentemente o “senhor doutor da alfândega”, homem respeitado e falador, que defendia abertamente os direitos dos trabalhadores. Ser seu amigo era, para mim, uma honra, mas também uma sentença. A hostilidade que não ousavam dirigir a ele caía sobre mim.

Eu era o mais fácil de atingir. O bode expiatório. O peixe miúdo. Sabia lá eu, em 1974, o que era “essa coisa” da política. E passados mais de cinquenta anos, pouco mais sei. O que aprendi foi isto: quando falta coragem aos grandes, sobra aos pequenos o peso da culpa.

Foi nesse tempo que surgiu a nova lei da Segurança Social, substituindo as antigas caixas de previdência. Pela primeira vez, trabalhadores que tinham servido durante décadas podiam requerer reforma com testemunhas e formulários simples. Era uma revolução silenciosa da lei, a servir os mais pobres.

Andei de casa em casa, de porta em porta, a informar os idosos dos seus direitos. Preenchi-lhes os requerimentos, fui testemunha número um, e levei os processos a Portalegre no carro do doutor. Pouco depois, todos receberam o deferimento e o dinheiro que lhes era devido. Alguns milhares de escudos quase todos.

Foi o dia em que vi a justiça chegar à aldeia, pela mão de um peixe miúdo.

O meu maior “crime” aos olhos dos patrões e lambe-botas mal-intencionados, foi ter ajudado a garantir o direito à reforma a quem a merecia. Custou aos patrões alguns milhares de escudos, talvez um carro de luxo a menos. E, aos lacaios lambe-botas, a oportunidade de mostrarem a sua mediocridade enquanto pessoas.

Mas deu aos velhos o que lhes pertencia: uma velhice menos penosa. Hoje, olho para a fotografia de 1974 e reconheço o que ela guarda: a tristeza de quem foi injustiçado e a serenidade de quem sabe que fez o que devia. Porque ajudar o próximo nunca foi crime. Foi – e será sempre – um ato de coragem e de humanidade.

José Coelho

Beirã, 1974 – lembrado em 2026

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Duas Estrelas

Há quem diga que os filhos são o reflexo do que fomos. Eu prefiro pensar que são o eco do que semeámos, e que, quando o eco é generoso, é porque a semente foi boa.
Hoje a “Toca dos Coelhos” viu chegar uma montanha de lenha e com ela, o peso do trabalho que parecia não ter fim. Mas antes que o cansaço se instalasse, apareceu o Manel, o filho mais velho, sem ser chamado, sem promessas, apenas movido por aquele instinto que nasce do amor e da gratidão.
Pegou no carrinho de mão, fez a parte mais dura, e deixou ao pai a tarefa de arrumar, como quem diz:
– Descansa, que eu trato disto.
O Pedro, longe mas sempre presente, já fez o mesmo noutras ocasiões. Entre os dois há uma constelação de gestos que não se apagam: ajuda, respeito, ternura, e essa luz discreta que só os filhos verdadeiramente bons sabem emitir.
Por isso, quando escrevo que tenho dois filhos que são duas estrelas, não é figura de estilo. É constatação. É orgulho. É amor em estado puro.
Obrigado, filhote Manel Coelho.
Gosto muito de ti.
Texto e foto

Logo que o Outono venha...

... arranja lenha! E cá tá ela...
Foto José Coelho

O ritual do pequeno-almoço

Há rituais que não se explicam, vivem-se. O pequeno almoço, na minha casa, é um deles. Não tem pompa, não tem invenção, não tem a exuberância das mesas de hotel. Tem apenas torradas de pão de mistura e café com leite. No entanto, esse gesto repetido, quase sempre igual, tem uma força que anima o dia inteiro.

A máquina do café com filtro de papel passa-o com a precisão com que se afina um instrumento. O leite aquece devagar, sem ferver, como se soubesse que o excesso estraga a harmonia. O pão, cortado com cuidado, entra na torradeira como quem entra num palco. E eu, sentado à mesa, espero aquele momento com uma serenidade que não encontro em mais lado nenhum.

O pequeno almoço não é apenas alimento. É uma espécie de ancoragem. É o ponto onde o dia começa a ganhar forma, onde o corpo desperta e a alma se organiza. É ali que percebo se o mundo está alinhado ou se vai exigir mais de mim.

Há quem acorde com pressa, com urgência, com o peso das tarefas. Eu aprendi a acordar com este ritual. As torradas chegam à mesa com o cheiro quente do pão acabado de transformar. O café com leite, na chávena branca, tem uma cor que me lembra sempre o início das coisas: nem escuro, nem claro, apenas começo de mais um dia.

Enquanto como, penso muitas vezes na importância das constâncias. O mundo muda depressa demais, as notícias atropelam-se, os compromissos acumulam-se. Mas no meu pequeno almoço, tudo é previsível, tudo é seguro, tudo é familiar. E essa familiaridade é uma forma de resistência. Uma forma de dizer ao dia: “Eu começo por mim, não por ti.”

Os odores do café acabado de fazer e do pão torrado com manteiga, dão-me uma dimensão quase espiritual. Não falam disso, não teorizam, não filosofam. Mas este ritual possui uma delicadeza que me adoça o espírito para o dia inteiro

Depois do pequeno almoço, há sempre um instante de pausa. A mesa fica com migalhas, a chávena ainda morna, o pano dobrado ao lado. E eu fico ali, por breves minutos, a olhar para tudo isto como quem contempla uma obra de simplicidade. Porque é na simplicidade que a vida se revela completa. E é nestes rituais que encontramos a força para enfrentar o que vem.

O pequeno almoço não é apenas rotina. É uma forma de estar no mundo. É a lembrança de que o dia começa melhor quando começa devagar. E eu encontro neste gesto repetido, a mais discreta das liberdades.

Tenham um excelente dia.

José Coelho