quarta-feira, 27 de maio de 2026

Manifesto íntimo


Não sou homem de depressões. A minha expressão até pode às vezes sugerir sombras, mas não carrego no coração nenhuma escuridão que me derrube. Carrego melancolia, essa forma silenciosa de lucidez que observa o mundo sem filtros e não a escondo, não a nego, não a temo. Ela é a minha forma de sentir fundo sem me perder.

A minha vida nunca foi simples. Nada me chegou por facilidade, nada me foi dado sem esforço. Vivi cada conquista como quem atravessa terreno irregular: atento, resistente, consciente de que cada passo tem peso. Os últimos anos foram os mais duros, mas passaram. Não preciso de os enumerar para lhes reconhecer o impacto. O que importa é que não me quebraram.

Continuar é o meu modo de existir. Não por heroísmo, mas por coerência. Continuar não é esquecer, nem fingir, nem anestesiar. Continuar é aceitar que a dor existe, que a vida fere, que o tempo não apaga tudo, mas suaviza o suficiente para que o próximo passo seja possível. E isso basta.

O silêncio é o meu território de cura. Preciso de recolhimento, de introspeção, de estar comigo. Não para me lamentar, mas para me reorganizar. Os nós que a vida aperta não se desfazem em voz alta. Desatam-se na solidão, onde o pensamento respira e a alma se recompõe.

Caminho sozinho porque assim tem de ser. Não por orgulho, mas por verdade. Há dores que não se explicam, há quedas que não se partilham, há feridas que não se exibem. Entre tombos houve momentos felizes, sim, mas não suficientes para apagar o que ficou gravado. A cura – se vier – será com o tempo. Até lá, avanço devagar, sem pressa, sem ilusões, mas com firmeza.

Não me alimento de frases feitas. “Uma pessoa morre quando deixa de sonhar.” Talvez. Mas quem já foi esmagado pela vida sabe que há momentos em que sonhar é luxo, acreditar é esforço e lutar é sobrevivência. E mesmo assim continuamos. Não por glória, mas por necessidade.

Já estive sem chão. Já me perguntei: “porquê eu”, “que sentido tem isto”, “o que fiz para merecer”. Não encontrei respostas. E aprendi que a vida não responde a quem pergunta de joelhos. A vida responde a quem se levanta, mesmo sem entender.

Não mexo nas feridas. Não por medo, mas por sabedoria. O passado não precisa de ser reaberto para ser reconhecido. Basta-me saber que existiu, que doeu, que marcou, mas que não me parou.

Sou melancólico, sim. Mas não sou derrotado. Sou alguém que continua. Alguém que resiste. Alguém que se recusa a desaparecer dentro da própria dor.

Este é o meu manifesto: Não dramatizo o que vivi. Não nego o que senti. Não fujo do que sou. Caminho. Mesmo quando dói. Mesmo quando cansa. Mesmo quando não sei para onde. Caminho porque viver é isso: avançar com as cicatrizes à mostra, a melancolia ao lado e a dignidade inteira.

José Coelho

Rota do Megalítico

A Anta da Cabeçuda é um importante monumento megalítico situado na Tapada da Cabeçuda, na freguesia da Beirã, concelho de Marvão.

A cerca de 3 km da aldeia e já muito perto da fronteira espanhola, este dólmen caracteriza-se pela sua câmara poligonal regular e corredor curto.

 Detalhes do Monumento:

 Estrutura:

Câmara poligonal com dimensões aproximadas de 3,20 x 3,60 m.

 Estado atual:

Foi alvo de trabalhos de recuperação em 1991 e encontra-se protegida por um muro de delimitação de propriedades.

Espólio:

Os objetos votivos e artefactos recolhidos neste local estão em exposição no Museu Municipal de Marvão.

 O concelho de Marvão é riquíssimo em monumentos deste tipo, integrando a Anta da Cabeçuda um vasto conjunto de cerca de duas dezenas de antas e menires espalhados pelo território.

Recolha de dados e foto:

José Coelho

terça-feira, 26 de maio de 2026

A beleza de quem tenta, sempre.


Há uma beleza rara nas pessoas que tentam sempre – ajudar, ou seja o que for. Não naquelas que tentam porque é fácil, mas nas que tentam mesmo quando tudo à volta parece dizer que não vale a pena.

A beleza de quem tenta não está no resultado – está no gesto. No impulso de estender a mão, de oferecer presença, de acreditar que talvez, só talvez, o outro consiga finalmente respirar.

Há quem tente levantar alguém que vive há anos a cair. Quem tente iluminar um coração habituado à escuridão. Quem tente ser porto para quem só conheceu tempestades. E esse esforço, mesmo quando não é acolhido, é uma forma de grandeza.

A beleza de quem tenta está na coragem de não endurecer. De não deixar que a dureza do outro contamine a sua própria ternura. De continuar a ser inteiro, mesmo quando o mundo à volta se parte.

Há quem diga que é ingenuidade. Mas não é.

É força. É maturidade emocional. É a prova de que o coração, apesar das feridas, ainda sabe escolher a luz.

A beleza de quem tenta, está também no momento que percebe que já fez tudo o que podia e mesmo assim não se arrepende. Porque tentar é sempre melhor do que virar a cara. Porque tentar é uma forma de cuidar, mesmo quando não é correspondido.

E quando chega a hora de se afastar, quem tentou não leva culpa consigo. Leva apenas a serenidade de quem sabe que deu o melhor de si. E isso basta para que o coração permaneça limpo.

A beleza de quem tenta é esta: mesmo quando não consegue salvar o outro, salva-se a si próprio. Porque não traiu a sua essência. Porque não deixou de ser bom. Porque não deixou de ser luz.

Num mundo onde tanta gente desiste cedo demais, quem tenta, mesmo que falhe, é sempre, sempre, um discreto milagre.

José Coelho

Setenta e quatro anos depois

Ó Beirã, terra serena, guardiã do meu viver,
Entre pedras e caminhos, passa o vento a cantar.
No teu silêncio nasci e aqui me viste crescer,
Fiz da tua luz destino, fiz do teu chão o meu lar.

Ó Beirã, minha raiz, meu abrigo, meu sonhar,
No teu nome há primavera, há saudade e calor.
Berço que hoje embala, meu tempo de repousar,
Minha aldeia verdadeira, eterno e simples amor.

No meu bairro, cada porta, é a história a sorrir,
Setenta e quatro anos depois e continuas igual.
A minha casa tão antiga, as roseiras a florir,
Beleza que nunca enfada, abrigo e porto final.

Foto e poema

Quando deixamos a luz entrar

Há momentos em que o mundo parece pesar mais do que devia. Não porque os outros nos falhem, mas porque, sem perceber, colocamos nos seus ombros o peso das nossas expectativas. E quando não correspondem, o coração encolhe um pouco.

Mas há uma verdade suave que aprendi a reconhecer: a vida torna-se mais leve quando deixamos de pedir aos outros que sejam faróis e começamos a descobrir a luz que já existe dentro de nós.

Cada pessoa caminha ao seu próprio ritmo, carrega as suas próprias sombras, e oferece o que consegue – nem sempre o que desejamos, mas quase sempre o que pode.

Quando aceitamos isso, algo muda. O mundo não se torna perfeito, mas torna-se mais respirável.

Há uma beleza discreta em esperar menos dos outros e mais da própria vida. É como abrir uma janela e perceber que o vento entra por si, sem que o chamemos.

E então começamos a reparar nas pequenas coisas: nos gestos que chegam sem aviso, nas presenças que não pedem palco, nas pessoas que ficam porque querem, não porque lhes pedimos.

A reciprocidade, quando acontece, é um milagre simples. E os milagres não se exigem, acolhem-se.

No fim, descobrimos que a esperança não está em controlar o que recebemos, mas em cultivar o que damos. Porque quem dá com verdade nunca perde: se não recebe de volta, recebe de si mesmo. E isso basta para iluminar um caminho inteiro.

A vida é generosa com quem caminha leve. E quando deixamos de esperar tanto, abrimos espaço para que o inesperado – o bom, o luminoso, o que fica – nos encontre.

José Coelho

A vida não se mede em anos, mede-se em momentos que nos enchem o coração

Ontem, no jantar comemorativo do 49.º aniversário do meu primogénito, senti isso como quem sente o sol romper as nuvens: uma luz inesperada que aquece por dentro e nos lembra que estamos vivos.
À mesa, entre o brilho dos copos e o murmúrio das conversas, havia também lugares que não estavam ocupados – mas estavam presentes. Presentes na memória, na saudade boa, na distância que não diminui o amor. Presentes no pensamento, no silêncio que guarda nomes queridos, no carinho que não conhece fronteiras.
O meu filho falou deles com a emoção de quem ama com verdade, com a lealdade de quem sabe que a vida se faz tanto dos que caminham ao nosso lado, como dos que, por algum motivo, não puderam estar ali.
E nesse gesto, nessa ternura, vi mais uma vez a grandeza do seu coração: generoso, fiel, capaz de acolher o mundo inteiro.
Enquanto o observava, senti aquele orgulho antigo e sempre novo que só um pai conhece. Orgulho não apenas no homem que ele se tornou, mas no ser humano luminoso que é – e que continua a ser, mesmo quando a vida o desafia.
Obviamente, lembrei-me também do meu outro filho que não pôde estar presente, mas cuja presença sinto sempre, como quem sente o calor de uma lareira mesmo quando não vê a chama. O amor de pai tem esta magia: alcança distâncias, atravessa silêncios, abraça mesmo quando os braços não chegam.
Porque amar um filho – amar os filhos – é isto: vê-los crescer por dentro, vê los ser casa para os outros, vê los carregar memórias, ausências, presenças e afetos com a mesma delicadeza com que se segura um pássaro na mão.
Vivamos com verdade, com a consciência de que cada segundo é irrepetível. Que cada abraço é um abrigo. Que cada riso é um bálsamo. Que cada reencontro – mesmo que apenas no coração – é uma dádiva.
O tempo não espera por ninguém, mas nós podemos escolher não o desperdiçar.
Que cada dia nos encontre mais leves, mais inteiros, mais atentos à beleza que insiste em acontecer, mesmo nos silêncios, mesmo nas ausências, mesmo na distância.
E que os meus filhos sintam sempre que são e serão enquanto eu viver, a parte mais bonita da minha existência. E que a Vida, com toda a sua beleza e imperfeições, me permita continuar a caminhar ao lado deles para os amar. Sempre.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Meu ponto de equilíbrio

Hoje, ao abrir os olhos, senti o coração regressar ao princípio de tudo. Quarenta e nove anos passaram desde o dia em que me tornei pai pela primeira vez e ainda hoje essa alegria primeira continua a viver dentro de mim intacta, luminosa, como uma chama que nunca se apagou.

Depois veio o segundo filho e a vida, generosa como sempre foi comigo, voltou a acender outra luz. E assim, sem alarde, fui-me tornando um homem mais inteiro.
O Manel e o Pedro são parte do que tenho de mais precioso. Com a Francisca, a Mariana e a Filipa, descobri que o amor tem uma capacidade infinita de se multiplicar. Cada uma delas é um ramo novo da árvore que plantámos, uma continuação suave daquilo que fomos construindo ao longo dos anos.
Há, no entanto, uma verdade que preciso escrever com toda a clareza: nada disto existiria sem a mulher que caminha comigo há mais de cinquenta anos.
A mulher que me ensinou que o amor não é feito de grandes gestos, mas de gestos certos.
A mulher que soube ser mãe com uma força silenciosa e agora é avó com uma ternura que desarma.
A mulher que me deu os filhos, que me deu tantas vezes colo, que me deu a paz.
A mulher que, mesmo nos dias mais difíceis, nunca deixou de ser o meu lugar seguro.
Com ela aprendi que o amor verdadeiro não precisa de espetáculo. Precisa de presença. De mãos que se procuram no escuro. De olhares que dizem “estou aqui” mesmo quando o mundo parece demasiado grande. De uma vida inteira a dois, onde cada um se torna melhor porque o outro existe.
Chego a esta fase da minha vida com uma serenidade que só o tempo concede. Aprendi a viver devagar, a ouvir mais, a falar apenas o necessário, a perceber que o que é verdadeiro permanece, mesmo quando demora a florir.
E hoje vivo com intenção. Com gratidão. Com a consciência de que a felicidade não está no extraordinário, mas no que é vivido com verdade.
A minha vida encontrou o seu ponto de equilíbrio no amor que construímos juntos. Nos filhos que criámos. Nas netas que agora nos prolongam. E, acima de tudo, na mulher que sempre soube ser casa – a minha casa.
Se há algo que aprendi, foi isto: a vida revela-se por inteiro quando deixamos de a perseguir e começamos, simplesmente, a caminhar ao seu lado. E eu tive a sorte de caminhar ao lado da mulher certa.
Com amor, serenidade e gratidão,