domingo, 8 de março de 2026

Quem não gostar, ponha no bordo do prato

Para que conste, esta minha fotografia foi deliberadamente feita agora mesmo para aqui ser ser colocada, dando a cara pelo que vou escrever e assinar, acerca do que penso e sinto, porque nunca me escondi ou esconderei sob pseudónimos ou outras subtis formas de cobarde anonimato.
Até à integração de Portugal na então CEE, a minha Beirã sempre foi uma aldeia linda e cheia de vida, trabalho e futuro, para centenas de pessoas, de onde ninguém precisava migrar ou emigrar, porque aqui e em tudo à volta havia trabalho para toda a gente.
Nasci nesta aldeia, freguesia e concelho e cá moro ainda setenta e quase quatro depois. Mas quem me dera não morar, porque é muito certo aquele ditado que diz que "penas que não se vêem, não se sentem". E ver morrer a minha terra antes de mim, é contranatura.
Fui aqui tão feliz no meio da maior humildade, tão mais feliz do que sou hoje no meio desta abundância podre que dá tudo a alguns e quase nada à maior parte.
A Beirã sempre foi maioritariamente rural porque 60% das pessoas eram camponeses. Porém, ironia do catano, éramos tão mais felizes! Qualquer gaiato assim que saía da escola com a 4ª classe feita ia trabalhar no dia seguinte como aconteceu comigo, para ajudar nas despesas da casa e para aprender a ser adulto.
Hoje, nesta liberdade que cada vez entendo menos por ver esquecidos todos os valores que aprendi na ditadura, ensinados pelos meus pais e avós apesar de analfabetos. Os filhos são hoje dependentes dos pais até aos 30 anos – alguns a vida toda – seja para acabarem os cursos superiores, seja por não quererem trabalhar e preferirem viver à pala dos velhos.
E mais.
Proibiram-se os jovens de trabalhar enquanto menores por terem de fazer a escolaridade obrigatória e continuarem depois os estudos para engenheiros ou doutores e assim passarem os tais 30 anos – no mínimo – a expensas dos pais, mas que, depois de um montão de dinheiro por eles gasto, muitas vezes não fazem nem ideia onde aplicar a engenheirice ou doutorice a não ser que tenham algum padrinho que lhes arranje um tacho, preferencialmente na política.
Mais ainda.
Quando era jovem havia tantos perigos à espreita em todas as esquinas – nunca os vi, mas pronto – que não se podia falar ou escrever tudo o que a gente pensava como eu estou a fazer neste momento, porque ia logo preso. Mas havia respeito, educação, honestidade, princípios e valores que em nome da liberdade foram convenientemente passando de moda.
E deram lugar a esta nova forma de convivência em sociedade na qual para se ter sucesso é necessário fazer uso de malabarismos como a corrupção, o compadrio, o oportunismo, a falta de ética, a desonestidade, a falsidade e muitos outros argumentos sujos.
Os alunos respeitavam e os pais confiavam nos professores. Hoje os alunos batem-lhes e os pais movem-lhes processos por danos morais se ousarem proibir os seus meninos de, por exemplo, brincarem com o telemóvel numa aula.
Na minha aldeia havia tanta gente e tantas crianças que em vez de uma, havia duas escolas. Para ser ainda mais direto, havia cá de tudo. Ninguém precisava de sair daqui o ano inteiro para ter tudo quanto precisava para viver tranquilamente. Nem sequer faltava trabalho, desde cavar à enxada no campo até aos senhores doutores da alfândega da Estação.
Convido quem quiser vir ver o que temos cá hoje, o que o progresso da CEE trouxe à minha terra, à minha freguesia e ao meu concelho. Tudo o que eram postos de trabalho e atividades económicas desapareceu. Nem uma triste lojinha existe já para comprar um pacote de sal.
Porquê?
Porque, para vender uma garrafa de óleo, uma lata de feijão ou um quilo de açúcar nas aldeias do interior profundo, qualquer loja, tal como as de Lisboa ou Porto, tem de ter, entre outras obrigatoriedades, balcões e prateleiras de aço inoxidável e arcas frigoríficas.
É minha profunda convicção que os ilustres senhores governantes dos últimos 50 anos conseguiram dividir o meu país em várias classes, de um extremo ao outro. Oito para uns, oitenta para os outros, no que toca a direitos fundamentais. Existe hoje um país de 1ª classe para os privilegiados com chorudos ordenados e mordomias sem fim. Os CEO's, os Administradores e similares, e, obviamente, a classe política que tratou de legislar nesse sentido em sede própria e em seu próprio proveito.
Mas não só.
Também os seus protegidos prosperam mais. Fortunas que vão surgindo ninguém sabe de onde, nem como. Muitas delas, dizem as más-línguas, foram conseguidas à custa de esquemas ardilosos que captam os milhões vindos de Bruxelas e só são acessíveis a um punhado de eleitos, mas sempre os mesmos.
Porém e porque são precisos votos, alguma da raia miúda também vai debicando aqui e ali pequenas migalhas, para, em tempo oportuno, não se esquecer de votar e de também angariar votos a quem lhas concedeu. Essa é a 2ª classe que mama daqui e dali porque é familiar, amigo, afilhado ou protegido de algum "colarinho branco".
A 3ª classe é para quem não passa ainda fome e tem uma vida assim assim, nem carne, nem peixe comámim, que usufruo de uma pensãozeca mais ou menos, apesar de o fisco ter inventado descontos tais que retém logo à cabeça um terço da mesma!
De 4ª classe em diante são a esmagadora maioria dos portugueses de hoje, infelizmente. Desemprego, pensões miseráveis, precaridade, dívidas, fome em muitas casas num desinteresse vergonhoso, ultrajante e indigno, de quem tem o poder de fazer mais e melhor por TODOS os Portugueses e não apenas por alguns, e, pior ainda, os tais mesmos de sempre.
Alguns, muitos mesmo e à semelhança dos anos 60 – como fez a minha irmã Maria da Luz e o meu cunhado António Zacarias – debandaram para o estrangeiro com filhos e netos.
Provavelmente muitos nunca mais voltarão a este país que a incompetência dos seus governantes tacitamente expulsou. Já não acreditam na democracia, na liberdade, no 25 de abril. Porque nada de bom trouxe às suas vidas. Hoje este país é uma pálida sombra daquilo que nos foi profusamente prometido em 1974.
Perseguiu-se e acossou-se tanta gente de todas as formas porque eram da pide, porque eram fascistas, porque eram cobras e lagartos. Hoje vemos, ouvimos e lemos, todos os dias, barbaridades cometidas em prejuízo de milhares de pessoas, desde falência de bancos a empresas que todos os dias engrossam o rol de famílias sem o seu ganha-pão, esquemas esquisitos de enriquecimento ilícito que lesaram e lesam ainda o erário público.
E ninguém é responsabilizado por isso!
É fácil pedir sacrifícios aos outros, quando se tem uma conta choruda no banco, automóvel e motorista por conta do estado, cama, mesa e roupa lavada, mais um ordenado de vários milhares de euros por mês. É fácil cortar no acesso aos cuidados de saúde de cidadãos maioritariamente carentes por velhice ou invalidez, quando se tem dinheiro para levar a família toda aos hospitais particulares onde são imediata e convenientemente atendidos.
É ainda também muito fácil falar de fome, quando se tem a barriga cheia. Sinto vergonha de ter nascido num país que gerou gente assim, porque tenho plena consciência de ter cumprido com dedicação e lealdade todos os meus deveres cívicos e profissionais. Durmo por isso todas as noites em paz comigo e com o mundo inteiro, mas sinto pena de ter ensinado os meus filhos a serem homens honestos, íntegros, sérios e decentes, porque sei que assim eles nunca se irão safar.
E tenho dito.
Quem não gostar, ponha no bordo do prato.

sábado, 7 de março de 2026

Bom fim de semana


Não me importa que me critiquem, exatamente como não me importa nada quando me elogiam. Tanto me faz que uma pessoa me elogie como que me censure, porque considero aquilo como uma opinião pessoal e não comparo com coisa nenhuma pois eu próprio não tenho opinião pessoal a meu respeito. Não me sinto nem herói, nem criminoso, sinto que vivo, sinto que sou.

Memória


Cumprem-se hoje 54 anos que numa noite gelada e chuvosa, fazendo parte da CCS/BCav3871 partimos de Lisboa por cerca das 23:00 horas num Boing 707 com destino Luanda - Angola. A gente nunca mais esquece...

Foto já no Belize - Cabinda

sexta-feira, 6 de março de 2026

Era uma vez a Páscoa

Na imparável roda do tempo mais uma festa de flores – como os nossos avós lhe chamavam – se aproxima a passos largos. A festa maior da primavera outrora caracterizada por exéquias religiosas que enchiam de gente as ruas e fé as igrejas em solenes celebrações litúrgicas levadas muito a sério desde o Domingo de Ramos até Sábado Santo, era também, como ainda é hoje se bem que com muito menor expressão, pretexto para a visita quase obrigatória dos familiares distantes que juntava à mesa pais, avós, filhos e netos, em festivos almoços.

Porém, também ela, a velhinha Páscoa, como quase tudo o resto que já conheci, está a caminho da extinção. Pelo menos por aqui, neste mundo em que eu habito.
Não há muitos anos os comboios traziam de longe as carruagens cheias de familiares e gente amiga que cumprimentávamos e nos cumprimentavam com amizade na rua e a aldeia rescendia ao suave aroma dos bolos fintos a cozerem nos fornos de lenha, assim como do balir dos borregos e cabritos a caminho do seu inevitável sacrifício em honra da familiar tradição pascal. Em Castelo de Vide terra do meu pai e de ancestrais costumes de raiz judaica, até merecem, esses animais, honras de benzedura, antes de serem sacrificados.
Embora eu também aprecie o culto da família, entendo que não deveria ser essa a parte mais importante de cada Páscoa, porque a essência dela é muito mais além. Mas é irreversível o geral desinteresse pelo culto religioso que foi substituindo a solenidade do sacrifício de Jesus por estes novos e muito mais rentáveis valores do consumismo que têm transformando a Semana Santa – e também os nossos hábitos – na semana do sarapatel, ou do cabrito e do borrego, ou da chocalhada da aleluia, ou da procissão dos cavalos com bandeiras e estandartes.
Para turista ver, claro. Fé? Qual quê! Folclore do mais genuíno para gerar e alimentar os negócios da região. E pouco mais. É o que eu acho, mas respeito qualquer outra opinião, obviamente.
Não sei como é noutros lugares mas na Beirã e na missa de Quinta-feira Santa comparecíamos 8 ou 9 pessoas. Depois na Via Sacra de Sexta-feira Santa, éramos 10 ou 11. Pois! É verdade! Na Beirã também já quase não moram muitas mais. Em consequência de tão modesto número de participantes o Revº Pároco juntou todas as essas santas celebrações apenas na paróquia da sede do concelho até à celebração da vigília pascal e ali se reúnem os paroquianos das quatro paróquias concelhias que podem e querem estar presentes desde então.
Enquanto foi amor novo, era a igreja a abarrotar de gente vinda de todo o concelho e também muitos turistas. Centenas de participantes encapuçados nas exéquias e procissões como a do Enterro do Senhor, depois a Aleluia e chocalhada na noite de Sábado Santo, numa euforia que durou... três, quatro anos, para logo ir diminuindo pouco a pouco, contando-se atualmente essa participação por apenas algumas dezenas de pessoas.
Já na Vigília Pascal e chocalhada d'Aleluia da vila ao lado, que é à mesma hora, juntam-se todos os anos não centenas, mas milhares de pessoas. Hotéis e restaurantes cheios pois muita gente não está já para ter trabalho com tachos ao lume e loiça para lavar. Há quem tire até uns dias de férias para vir com o chocalho em riste engrossar a multidão deste autêntico arraial que até termina com fogo de artifício e tudo.
Os valores e princípios herdados dos nossos antepassados que tinham um incomensurável sentido de união e partilha foram-se sumindo para darem lugar a estes novos costumes atípicos, vazios de conteúdo humano e religioso que visam apenas protagonismo mediático e lucro.
Já sei. Estou a ficar velho e ranzinza, mas não consigo rever-me nem aceitar como boa, a futilidade destas modernices em que se transformaram os nossos costumes e tradições. Mais penso até que, se os nossos antepassados cá voltassem, não iam gostar nada destas modernices em completa degeneração.

José Coelho

quarta-feira, 4 de março de 2026

Não lembra nem ao diabo


Seria pacífico entender que as leis visam sempre o bem comum e são criadas para esse fim. Pena é que no nosso país temos uma “diarreia legislativa” – como afirmava o senhor capitão e meu professor de direito penal e processual nos cursos de formação a cabo e sargento que frequentei – tal é o volume de leis, decretos e decretos-lei, que os nossos legisladores produzem sucessivamente.

A “coisa” é de tal ordem exagerada que muitas vezes quando uma lei é publicada num Diário da República, já está a ser votada outra para alterar aquela no Parlamento. Por isso qualquer agente policial nunca pode deixar de ler e de estar atento para se sentir informado, seguro e apto a agir em conformidade quando e se necessário.
Precisamente por isso eu tinha o cuidado de ler todos os diários da república e as muitas diretivas internas emanadas da cadeia hierárquica do comando, para me atualizar permanentemente e ministrar instrução adequada uma vez por semana a todo o efetivo do Posto que comandava, pois um comportamento não alinhado com a lei pode conformar o crime de abuso de autoridade e complicar a vida de qualquer agente da mesma.
Pese embora o respeito que me merece a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, vulgo ASAE que no meu tempo se chamava Inspeção-Geral das Atividades Económicas, vulgo IGAE, com quem trabalhei algumas vezes, passar do oito para o oitenta sempre foi uma característica muito nossa, infelizmente. Mas há coisas que no meu entender deveriam ser muito bem ponderadas antes de colocadas em execução.
Sei, por experiência própria, que os agentes que a compõem não atuam por parâmetros pessoais e ao gosto de cada um. Cumprem a lei e cumprem também ordens superiores. Não creio por isso que o erro esteja na sua atuação, mas sim na inflexibilidade da aplicação da lei.
O resultado visível que não deixa margem para dúvidas é o facto de ter encerrado milhares de pequenos estabelecimentos que mais do que servirem para enriquecer os seus proprietários eram um serviço de utilidade pública por estas pequenas e remotas aldeias longe de quase tudo.
Na minha Beirã chegou a haver dois talhos, um restaurante, duas casas de dormidas, dois cafés, um clube recreativo para os mais abastados, uma sociedade recreativa para os mais pobres, cinco tabernas-mercearias, uma padaria, um barbeiro, uma cabeleireira, dois alfaiates, uma carpintaria.
Porém, a tão festejada adesão ao mercado único europeu e consequente encerramento da estação fronteiriça, deu-lhe o golpe de misericórdia. Centenas de pessoas tiveram de mudar de rumo nas suas vidas e a aldeia começou a murchar como papoila ao sol ardente do verão. E as pessoas, tal como as pétalas das papoilas, foram também voando.
Ainda assim duas ou três mercearias foram resistindo e sobrevivendo. Tenho quase a certeza que os lucros mal dariam para as suas despesas correntes, quanto mais para enriquecer quem as mantinha a funcionar. Ali se comprava o pão diariamente, fruta e mercearias, gás, artigos de limpeza.
Davam muito jeito, particularmente a pessoas viúvas ou sozinhas e sem transporte próprio para as suas comprinhas do dia a dia, até que o governo entendeu fazer cumprir as diretivas europeias por um lado e combater a fuga aos impostos por outro, numa ânsia incontida de encher de dinheiro os cofres do Estado.
Com tantas exigências e colocada no terreno tão acérrima fiscalização, encerraram definitivamente um a um estes pequenos estabelecimentos que se viram na obrigação de adquirirem, com vultuosos investimentos, equipamentos caríssimos – balcões frigoríficos e vitrines inox, câmaras de frio individuais para carnes e pescado, legumes e frutas, cujo custo nunca iriam conseguir recuperar dado o fraco volume de negócio que detinham há décadas.
Será isto cuidar das pessoas? Serão estas políticas as corretas? Será bem pensado equiparar as aldeiazinhas do interior aos grandes centros urbanos na aplicação de tais leis? Será adequado que uma pequena mercearia que presta um quase serviço público seja equiparada a um Continente, Modelo ou Pingo Doce? Onde fica o bom senso, a tão proclamada proteção das pessoas deste tão maltratado interior de Portugal, de norte a sul?
Sinceramente, ele há coisas que… não lembram ao diabo!
Conquistámos, com essas políticas cegas, um galardão que diz tudo da sua eficácia. Somos o território mais desertificado de Portugal continental, com apenas onze habitantes por quilómetro quadrado. Uma enorme honra para nós e um orgulho imenso para todos os decisores deste estado de coisas, dos últimos cinquenta anos.

terça-feira, 3 de março de 2026

Gente fina é outra coisa.


Nasceram, como eu, na aldeia. Por isso irão ser, também como eu, provincianos até morrerem, por mais finos que queiram parecer. A vida levou-os para as grandes cidades e alguns de vez em quando regressam.
Herdaram ou compraram e restauraram as humildes casas dos pais ou dos avós, ou de algum conterrâneo amigo na aldeia, para virem depois passar temporadas, férias, ou apenas fins de semana.
E trazem com eles os seus cãezinhos e cãezões.
Porque gostam de animais.
E porque é chique.
De dia passeiam-nos com a trela, para darem o tal ar de gente fina. À noitinha, matreiramente, quando as pessoas recolhem para jantar, soltam os ditos cãezinhos ou cãezões para vaguearem sozinhos por onde lhes apetece e para, deliberadamente longe dos olhares dos seus ilustres donos, cagarem onde lhes apetece.
Normalmente - vá lá saber-se porquê - o sítio escolhido por eles é mesmo, mesmo, em frente à porta da casa, da garagem ou do portão dos vizinhos da mesma rua, da rua de trás, da rua do lado ou da rua da frente.
E os vizinhos, coitados, incautos e pouco ou nada habituados a tais porcarias, pisam inadvertidamente os montes de merda - perdoem-me o vernáculo aldeão - ficando com os sapatos cagados para a seguir também inadvertidamente cagarem o tapete, a passadeira, os mosaicos ou o sobrado da sua casa a rogarem pragas mortais e excomungando não os bichos, porque eles obviamente, não têm culpa.
Eu também sou aldeão e com muito orgulho. A vida não me levou para a grande cidade apesar de ter saído uns bons anos da aldeia. E também comprei a humilde casinha dos meus pais. Só não faço dela apenas casa de férias ou de fins-de-semana porque a habito com carácter definitivo há mais de três décadas.
Felizmente, sim, felizmente, continuo o mesmo de sempre. Sem peneiras, sem manias de grandeza, sem me armar em fino. E curiosamente, também tive cães. Dois. Um caniche puro que cabia debaixo do meu braço e mais uma cãozorra rafeiro-alentejana cruzada de pastor alemão que se calhar por isso mesmo era quase do tamanho de um burro.
Como não sou nem quero parecer uma uma pessoa fina, não os ia passear de trela. Mas eles iam à rua e cagavam como todos os outros. A cãozorra andava à solta no quintal e cada cagalhão que fazia enchia uma pá que no momento seguinte era apanhado e colocado num saco para posteriormente ir para o lixo devidamente acondicionado a fim de não meter nojo nem incomodar ninguém com o aspecto ou o cheiro.
O caniche ia à rua duzentas e trinta vezes por dia para mijar e cagar. Mais mijão que cagão como todos os caniches, fazia apenas uns caganitos que quase nem se viam. Mas que eu apanhava SEMPRE de forma adequada no momento seguinte, com um saco de plástico. E depositava-os em seguida no contentor do lixo mais próximo.
Jamais alguém alguma vez pisou ou pisará um cagalhão dos meus canitos.
Porque sim!
Gosto de ser assim, nada, nadinha mesmo, igual ou parecido a pessoas que se armam em elegantes, mas depois não sabem respeitar o direito mais elementar ao asseio e à higiene públicas dos seus conterrâneos e vizinhos.
Não estando perto dos cães quando eles cagam, permitem de forma tão deliberada como cobarde, que os animais espalhem uma autêntica sementeira de montes de merda por tudo quanto é rua, largo, parque ou travessa, da aldeia.
E não estando a vigiá-los, podem até fingir na sua medíocre elegância, que não dão conta do que os bichos fazem quando os mandam dar uma volta sozinhos à solta.
É caso para dizer, como dizem "nuestros hermanos Extremeños" aqui do lado, quando alguma coisa não lhes cai bem...
"La madre que los parió".
Tenho dito, curto e grosso.
Quem não gostar, ponha no bordo do prato...

segunda-feira, 2 de março de 2026

Esta incurável saudade

O lugar do Muro da Freguesia de Beirã onde nasceu a minha mãe e quase todos os seus irmãos e irmãs, era muito afastado de qualquer povoação, no meio dos canchais da raia onde viviam apenas três ou quatro famílias. Tinham, por isso mesmo, de ser autosuficientes.

Comiam do que semeavam nas hortas, dos galinheiros sempre cheio de aves, dos frutos sazonais dos pomares, e iam todos os meses moer o centeio aos moinhos do Sever lá para os lados das Amendoeiras, para obterem a farinha com que amassavam o pão.
Nesse tempo por todo o lado moravam camponeses, pastores ou mesmo assentadores do caminho de ferro pelas casetas dispersas por toda a linha férrea, da estação da Beirã até à ponte fronteiriça sobre o rio Sever.
Lembro também, como não, o asseio e a arrumação esmerada da casinha da minha avó Amélia na Cavalinha, quando ficaram só já os dois velhotes, depois de os filhos todos irem cada um à sua vida exceto o mais novo, o tio Raimundo que nunca casou e que, por ser guardador de cabras justo ao mês, só ia a casa mudar de roupa aos sábados.
As paredes da casa, a varanda e os poiais imaculadamente brancos pela insistente cal, a cantareira dos barros da cozinha meticulosamente alinhada, o cântaro sempre cheio de água fresca, os alumínios areados e brilhantes como espelhos, em resumo, a agradável sintonia que de tudo emanava e nos transmitia uma sensação de asseio, harmonia, paz e genuíno bem-estar.
Nunca mais saboreei comidinha tão saborosa como a que a avó cozinhava na sócha ao lado da casa em lume de chão e em panela de barro ou na sertã. A sócha fora feita pelo meu avô para poupar a brancura da lareira da cozinha, porque a avó não gostava de a ver mascarrada pelo lume e pelo fumo.
Quando decidiram formar família, os meus progenitores debatiam-se com os problemas comuns a todos os camponeses daquela época – famílias numerosas e escassez de meios de subsistência – exceto o da renda ao senhorio, porque a casa era deles. O meu sensato pai quando herdou dezoito contos de reis de uma tia-avó meio rica, não se deixou deslumbrar pela fartura de notas nas mãos – dezoito contos de reis em 1948 eram uma pequena fortuna – e gastou até ao último centavo na compra do terreno e construção do nosso ninho familiar.
Quatro pequenas divisões. Uma cozinha com uma bela lareira, uma sala e dois quartos. O dinheiro já não deu para as portas interiores, mas a minha mãe resolveu temporariamente o problema com umas cortinas de chita para o resguardo possível da sua privacidade, até conseguirem ir colocando as portas.
Era modesta, mas era deles.
Aqui nasci já eu e as minhas duas irmãs mais novas, a Luz e a Joaquina. A Adelina, a mais velha que já não está entre nós, nasceu três anos e meio antes de a casa estar construída. Hoje é o meu lar. Tive de ficar com ela por vontade e empenho absolutos do meu pai.
O tempo levou-mos já todos, entretanto. Avós, pais, e muitos outros entes queridos que moldaram a pessoa que me tornei. Entretanto foi necessário ampliar e modernizar a casa, mas fiz questão de manter intactas as primitivas quatro pequenas divisões dentro do novo projeto.
Só a bela lareira alentejana que existia na cozinha original teve de mudar de sítio e de feitio porque essa divisão foi promovida a salinha de estar.
Sou tão profundamente grato à memória de todos eles, santo Deus. Tudo quanto me ensinaram me fez falta e me ajudou a vencer inúmeros obstáculos, para atingir metas. Por isso, de todos eles, esta incurável saudade...