domingo, 23 de agosto de 2026

A maratona de quem está sempre disponível

Foram três dias cheios. De serra, de gente, de fé, de mesa e de serviço. Três dias em que fui cicerone, companheiro, ensaiador, amigo.
Sem alarde, sem medalhas, sem palco. Apenas com aquela disponibilidade que não se aprende: nasce.
Dias que não se medem pelo relógio, mas pelo coração. Estive ausente daqui, é verdade, não por esquecimento, mas apenas porque a vida me chamou para aquilo que considero essencial: dizer "presente" a quem solicita apoio.
Na sexta e no sábado fui cicerone de um amigo do norte que veio conhecer Marvão. Acompanhei-o pelas localidades, pela serra, pelas ruas antigas, pelas vistas que nunca se repetem. Mostrei-lhe a minha terra como quem apresenta um lugar querido da alma.
Não houve pressa, não houve obrigação, apenas o gosto de bem receber.
Hoje, o dia foi diferente, mas da mesma natureza: serviço. Fui ao Porto da Espada, do outro lado da serra, apoiar as senhoras do coro na preparação da missa da festa da Senhora das Dores que será celebrada no dia 30.
Eu e a Maria Manuela fomos como sempre vamos: se alguém convida, nós aparecemos. É simples. É assim que entendo a vida comunitária.
Entre ensaios e conversas, ainda houve tempo para o almoço no belíssimo Restaurante A Adega: galinha do campo tostadinha, salada de rúcula, batatas fritas e uma tarte de café que é segredo da casa.
Pequenos prazeres que sabem melhor quando acontecem depois do dever cumprido. E antes de regressar a casa ainda passámos pela padaria, onde o pão acabado de sair do forno nos recebeu como um abraço.
Voltámos cansados, mas daquele cansaço bom que só aparece quando os dias valem a pena. Cheios de serra, de amigos, de fé, de mesa e de gratidão.
Faltava apenas uma coisa: vir aqui cumprimentar os amigos das palavras que me acompanham tantas vezes.
Cá estou de novo.

Gratidão

Magnífica obra de arte comemorativa dos nossos 50 anos de matrimónio, oferecida pela minha irmã Joaquina Coelho, concebida pela competência profissional e perfeição da amiga Elia Magro.

O nosso muito obrigado, às duas.

14 de agosto de 2026


Aprendi a abrandar

Eu vivi muitos anos a correr. A vida moderna empurra-nos, exige, aperta.
Mas a terra – essa professora antiga – ensinou-me outra coisa.
Aprender a abrandar.
Abrandar é olhar com atenção.
É perceber que cada planta tem o seu tempo, que cada pessoa carrega uma história, que cada silêncio traz uma lição.
Abrandar é educar o coração.
É trocar a urgência pela presença, o ruído pela escuta, a pressa pela calma.
E quando abrando, descubro que a serenidade não é falta de problemas.
É só a capacidade de lhes tocar com mãos firmes e alma tranquila.
Hoje sei que abrandar não me atrasou.
Abrandar salvou-me.
Bom domingo, pessoal.
Cuidem-se...

Canto à generosidade

Existem pessoas que trazem nos seus gestos uma claridade, como se tivessem nascido com uma nascente dentro delas. Não falam de si, não se exibem, não reclamam nenhum lugar, mas onde passam, o mundo fica mais leve.
A generosidade é um dom que não se anuncia, uma força que não precisa de palco, uma luz que não pede testemunhas.
As pessoas generosas são como água que corre: não escolhem quem saciam, não perguntam quem merece, não fazem contas ao que dão.
Apenas fluem.
E há quem os veja e pense que é simples, que é natural, que é fácil. Mas não é. A generosidade verdadeira é rara como chuva certa em ano seco.
É uma bênção que não se aprende, revela-se.
Essas pessoas têm um modo de estar no mundo que lembra as árvores antigas da Beirã: firmes, silenciosas, oferecendo sombra sem perguntar quem se senta debaixo delas.
São homens e mulheres que guardam o bem como quem guarda água num cântaro. Que dão tempo, dão presença, dão cuidado, sem nunca dizer “olhem para mim”.
E quem não gosta de se evidenciar, reconhece esse dom nos outros com uma humildade que também é rara. Porque só quem não procura luz para si consegue ver a verdadeira luz nos outros.
A generosidade é um canto que não se canta para si próprio. É sempre para o outro. É sempre para quem precisa. É sempre para quem chega cansado, disperso, perdido, e encontra alguém que lhe diz: “senta-te, descansa, serve-te e leva contigo o que te fizer falta.”
As pessoas generosas não guardam o melhor para si. Guardam o melhor para o momento em que alguém precisa. E quando dão, não se esvaziam, multiplicam-se.
Há quem tenha esse dom. E quem sabe reconhecê-lo sabe honrá-lo sem se colocar no centro. Sabe agradecer sem se engrandecer. Sabe ver o brilho sem se aproximar demais da luz.
Por isso este canto é para os que dão sem pedir, para os que ajudam sem anunciar, para os que fazem do mundo um lugar mais habitável sem nunca dizer que o fizeram.
E também é para os que não se evidenciam porque têm o dom raro de reconhecer a grandeza alheia sem nunca se colocarem acima de ninguém.
A generosidade é deles. A gratidão silenciosa é nossa. E ambas, juntas, fazem do mundo um lugar um pouco mais humano.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Verão de 2026

Há verões que passam por nós como uma estação. E há verões – como este – que passam por nós como uma prova.

O verão de 2026 não foi apenas quente. Foi excessivo, desmesurado, quase insolente. Junho e julho quebraram todos os registos desde que há memória, como se o sol tivesse decidido aproximar-se mais um pouco da terra, num capricho antigo, sem aviso e sem remorso. As manhãs nasceram já cansadas, as tardes tornaram-se intermináveis, e as noites deixaram de cumprir a sua função de descanso.

Era como se o calor tivesse tomado posse do ar, das casas, das serras, dos corpos.

E no meio deste calor anormal, quase indecente, surgiu o velho fantasma do verão português: os incêndios. Mas este ano, houve algo diferente – algo que inquieta até quem já viu muito. As ignições surgiram em horas improváveis, em locais onde não passa ninguém, como se a serra tivesse aprendido a arder sozinha.

Fogos que começam às três da manhã, no cimo de um monte inacessível. Fogos que aparecem em linha reta, como se alguém tivesse desenhado um mapa de destruição. Fogos que já quase consideramos “normais”, e isso talvez seja o sinal mais perigoso de todos: quando o absurdo se torna rotina, a alma perde a capacidade de se espantar.

A serra arde, o país arde, e nós ficamos a olhar, impotentes, com aquela sensação de que o verão deixou de ser uma estação e passou a ser um adversário.

Mas o verão não é só isto. O verão é também o tempo das férias, esse intervalo tão necessário para quem trabalha o ano inteiro, para quem luta por um salário que encolhe mês após mês, apertado pela guerra que não é nossa, pelos bloqueios no Estreito de Ormuz que fazem subir o custo de vida como se fosse uma maré imparável.

Tudo aumenta: o pão, o combustível, a eletricidade, a carne, o peixe. Só não aumenta o salário, porque esse parece ter ficado preso num inverno que não passa.

E mesmo assim, apesar de tudo, as pessoas tentam descansar. Tentam encontrar um pedaço de sombra, um fim de tarde fresco, um mergulho que alivie a alma. Tentam esquecer por uns dias a luta diária, a conta que não fecha, o futuro que se adia.

Há quem vá para o litoral, em busca de maresia. Há quem fique pelas aldeias, onde o silêncio ainda tem valor. Há quem reencontre a família, os amigos, os lugares da infância. E nesses momentos breves, preciosos, o verão parece quase normal. Quase benigno. Quase como antigamente.

Mas basta olhar para o céu, para o termómetro, para as notícias, para o preço do gasóleo, para o mapa dos incêndios… e percebemos que este verão não é como os outros. Este verão é um aviso. Um sinal. Uma fronteira.

Agora, em agosto, o verão começa a perder força. As tardes já têm uma luz mais oblíqua, mais dourada, mais triste. O vento, quando aparece, traz uma promessa de mudança. E nós, que vivemos estes meses abrasadores, ficamos com a sensação de que a estação não passou por nós – atravessou-nos.

O verão de 2026 não foi apenas vivido. Foi suportado.

E talvez seja por isso que o seu fim traz uma espécie de alívio silencioso. Como quem fecha uma porta pesada. Como quem termina uma travessia difícil. Como quem diz: “Chega. Agora basta.”

Que o outono venha com chuva, mas daquela que cai devagar, sem violência. Que a terra respire. Que as serras tenham descanso. Que o mundo abrande. E que cada um de nós encontre, finalmente, um pouco da serenidade que este verão nos negou.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Memórias que o coração procura

Havia dias em que o mundo parecia caber dentro do nosso quintal. Não era metáfora: era verdade. O sol nascia sem pressa, como se soubesse que ali ninguém corria para lado nenhum. A luz entrava pela manhã com a delicadeza de quem pede licença, pousando nas flores que a minha mãe plantava com devoção – cada cor, cada pétala, cada cheiro era uma forma de cuidar da casa, da família e do tempo.
As galinhas riscavam o chão com a curiosidade antiga de quem conhece todos os segredos da terra. Havia nelas uma sabedoria que não se aprende nos livros: sabiam quando vinha chuva, quando o dia ia ser quente, quando o ribeiro da Cavalinha começava a engrossar lá ao fundo. E a cadela Toiota, companheira fiel do meu pai, guardava o caminho com aquela serenidade que só os animais bons possuem. Era presença, era companhia, era parte da casa.
A casa dos meus pais antes de ser Toca dos Coelhos era bem mais pequenina, mas tinha o tamanho exato da felicidade possível. As paredes guardavam histórias, o quintal guardava trabalho, guardava memórias e risos.
A avó Amélia vivia perto, no meio do campo, numa casa que parecia ter sido desenhada pelo silêncio. Era uma casa por onde o vento passava como quem visita um velho amigo; o ribeiro ali ao lado, murmurava histórias que só ela entendia; e nós, quando lá íamos, sentíamos que o mundo ficava mais lento, mais macio, mais verdadeiro.
A avó Amélia tinha o dom de transformar o tempo em colo. O seu coração era leve não por falta de problemas, mas porque o tempo tinha outra textura.
Caminhava-se devagar, como quem sabe que cada passo é uma forma de agradecer. O café quente feito em lume de chão, num “puchero” de barro, o cheiro da terra molhada, o rumor das folhas ao vento, tudo era suficiente. Tudo era verdadeiro. A vida não era perfeita, mas era boa.
E isso bastava.
Hoje quando o mundo parece correr mais do que viver, é fácil esquecer essa leveza que um dia nos habitou. A urgência tomou o lugar da contemplação e a pressa substituiu o silêncio.
As casas tornaram-se maiores, mas os corações, mais apertados. Os caminhos são mais rápidos, mas as chegadas, mais raras.
Há memórias que não são apenas lembradas, são também sentidas. E a da da casa dos meus pais antes de ser Toca dos Coelhos é uma delas. Tem cheiro, tem sons, tem luz própria. Tem tudo o que faz o coração leve.
E talvez seja isso que o meu coração procura, não para voltar atrás, mas para reencontrar o caminho onde a vida era simples.
E para mim esse caminho começa sempre no quintal dos meus pais e dos meus avós, onde o mundo era pequeno, mas a felicidade, enorme.
Tenham um excelente dia.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

A verdade na escrita

Há quem pense que a escrita é apenas um exercício de palavras: juntar frases, escolher imagens, alinhar ideias. Mas a verdade – a verdadeira verdade – não mora na técnica. Mora no autor. Mora na forma como ele olha o mundo e na responsabilidade com que decide nomeá-lo.
A verdade na escrita não se inventa. Reconhece-se.
Reconhece-se no tom, que não precisa de levantar a voz para ser firme. Reconhece-se na humildade, que não se confunde com fraqueza, mas com respeito. Reconhece-se na memória, que não é adorno, mas raiz. Reconhece-se no gesto de quem escreve para comunicar, não para impressionar.
Escrever com verdade é não fingir o que não se viveu, não adornar o que já é belo, não dramatizar o que basta ser dito com simplicidade. É aceitar que a palavra tem peso e que esse peso deve ser honrado.
A verdade na escrita também se revela na relação com o leitor. O leitor sente quando o autor está a ser ele próprio. Sente quando a frase vem de dentro e não de um palco. Sente quando há chão por baixo das palavras.
E é por isso que a verdade não precisa de ser defendida, basta ser praticada.
Quem escreve com verdade não precisa de explicar quem é. A verdade está lá no ritmo, na escolha das imagens, na forma como se agradece, na maneira como se olha o outro.
Está lá no silêncio entre frases, naquele intervalo onde mora a autenticidade.
Escrever com verdade é escrever com responsabilidade. É saber que cada palavra é uma pedra colocada no caminho de alguém. E que esse caminho deve ser seguro, honesto, humano.
A verdade na escrita não é um estilo. É uma postura. É uma ética. É uma forma de estar no mundo. E quando a verdade está presente, o texto deixa de ser apenas texto.
Torna se companhia.