quarta-feira, 17 de junho de 2026

Fruto de gente boa

A grandeza não está nos grandes feitos, como muita gente pensa. A vida ensina, devagar, que a verdadeira força mora nas pequenas fidelidades: no cuidado diário, no respeito silencioso, na forma como tratamos quem nos rodeia.
Ser dedicado aos afetos não é fraqueza, é coragem. É escolher, todos os dias, ser presença, ser apoio, ser porto seguro. É saber que a família, os amigos, os vizinhos, os conterrâneos não são apenas pessoas: são raízes que nos seguram quando o mundo abana.
E quando amamos a nossa terra – a aldeia, o campo, o vento, a chuva, o sol – não é apenas nostalgia. É reconhecimento. É gratidão por tudo o que nos moldou e nos fez ser quem somos.
A dignidade, o respeito, a educação, a integridade de carácter… não se aprendem em discursos. Aprendem-se no berço, no exemplo, na vida vivida com verdade.
E por isso, quem agradece antes de adormecer não está a cumprir um ritual. Está a honrar a própria história.

Está a dizer ao mundo: “Sou fruto de gente boa e quero continuar a merecer essa herança.”
Texto e foto

Reflexão a encerrar o dia de ontem

Há dias que nos pedem mais do que parece possível. Dias que começam antes da madrugada acordar, que nos levam longe, que nos puxam pela memória, pelo corpo, pela coragem. E no fim, quando regressamos a casa, percebemos que não foi apenas cansaço, foi também caminho.
Ontem, cumpri esse caminho.
Há uma verdade simples que só quem vive muito entende: o corpo cansa, mas a alma cresce. Cresce no silêncio da estrada, cresce na espera dos consultórios, cresce na gratidão que se renova quando percebemos que a vida nos deu mais um ano, mais um capítulo, mais uma oportunidade de sermos nós mesmos.
A noite teve de inevitavelmente ser repouso. Deixei que ela me envolvesse devagar, como quem fecha um livro com cuidado, porque sabe que a história continua no dia seguinte.
E lembra-nos, cada ano, que aquilo que carregamos não é um peso, é uma prova. Prova que vencemos, que resistimos, que continuamos de pé, inteiros, lúcidos, gratos.
Descansei.
E hoje, quando a vida voltou a chamar por mim, como sempre, soube responder-lhe.
Grato a quem me enviou mensagens, cumprimentos amigos, apoio. Àqueles a quem o cansaço já não permitiu dar resposta, peço desculpa.
A nossa amizade, contudo, mantém-se inteira.
Sempre.
Um abraço, com estima.
José Coelho
Texto e foto
17. 06. 2026

Quando a Natureza nos diz: bem-vindo

Há regressos que não se planeiam, acontecem. Vêm ao nosso encontro como um gesto amigo, como um aceno silencioso de quem nos conhece desde sempre.
Hoje, ao fim do dia, foi a própria Natureza que me chamou pelo nome, quando parei na berma da estrada para guardar este instante de ouro.
O sol, já cansado - como eu vinha também - inclinava-se devagar sobre a colina da Broca, como um velho amigo que se despede sem pressa. A luz espalhava-se pelo campo com a delicadeza de quem estende um manto sobre os ombros de quem chega.
E eu, ali parado, fui testemunha deste abraço que só a terra sabe dar.
Esta fotografia que fiz quase a chegar a casa, não é apenas uma imagem – é pertença. É o momento exato em que o mundo me diz: “Já estás em casa".
As árvores não se moviam, mas acolheram-me. O vento não falava, mas reconheceu-me. E até o silêncio tinha o meu nome gravado na respiração da paisagem.
Há lugares que não são apenas geografia: são memória, raiz, promessa. E eu voltei ao meu, ao sítio onde o horizonte se deita devagar, onde o tempo não corre, onde cada pedra parece guardar histórias que só eu sei ouvir.
Regressar assim, foi um privilégio raro. Foi sentir que a vida, apesar das curvas e das poeiras do caminho, ainda sabe oferecer-nos estes pequenos milagres ao fim da tarde.
E eu, com o telemóvel na mão e o coração aberto, quis recebê-lo.
Porque a Natureza, essa minha amiga fiel, não me disse apenas: “bem-vindo”.
Disse-me algo maior: “Ainda és daqui. Ainda és meu.”
Texto e foto

Agradeço

Hoje, 16 de junho de 2026, celebro dez anos de algo que não se mede apenas em tempo: mede-se em vida. Há datas que não se esquecem porque marcam o antes e o depois – e esta é uma delas.
Agradeço à Vida, que me permitiu continuar o caminho. Agradeço a todas as Divindades do Universo, forças visíveis e invisíveis que me sustentaram quando o medo apertou.
Agradeço, com respeito profundo, ao distinto cirurgião Dr. João Varregoso e à excelente equipa do Hospital Lusíadas Lisboa, que hoje me recebeu pela décima vez para o meu check up anual.
Foi ali, há dez anos, que dele ouvi a frase que nenhum homem quer escutar: “Vamos ter de operar.” E foi ali também que encontrei competência, humanidade e a serenidade necessária para confiar.
Hoje, regressar àquele hospital não foi um peso, foi uma celebração. Dez anos de sucesso. Dez anos de qualidade de vida. Dez anos de gratidão silenciosa por tudo o que poderia ter sido diferente… mas não foi.
Ainda sou eu. E sou, talvez, um pouco mais: mais consciente, mais grato, mais atento ao milagre discreto de cada dia.
Deixo ainda uma palavra para todos os que hoje se confrontam com diagnósticos duros, inesperados, capazes de abalar o mais firme dos espíritos.
Sei bem o que é sentir o chão fugir debaixo dos pés, por instantes.
Mas também sei que a esperança é uma força real, concreta, que transforma destinos.
Acreditem: tudo é possível quando se junta a ciência, a fé – seja ela qual for – e a vontade profunda de continuar.
Nunca desistam. Nunca deixem de acreditar. A vida tem uma capacidade extraordinária de nos surpreender quando menos esperamos.
Texto e foto

Ainda sou eu

Há rotinas que um país nunca deveria impor aos seus cidadãos. Acordar às quatro da manhã, ainda com a noite inteira pousada sobre os ombros e percorrer 238 quilómetros até Lisboa para chegar a tempo de uma consulta marcada para as nove, não é uma escolha: é uma prova silenciosa da desigualdade.
Quem vive no interior conhece bem esta coreografia cansativa de preparar tudo na véspera, sair de casa muito antes do sol, enfrentar a estrada longa, chegar à capital já com metade do dia gasto e metade da energia consumida. E tudo isso para cumprir um direito básico: cuidar da saúde, acompanhar os seus, garantir que ninguém fica para trás.
É nesta distância – física, emocional e política – que se revela a verdadeira falha do país. Não é apenas a estrada que separa o interior de Lisboa; é a sensação de que a vida de uns, vale mais tempo, mais conforto, mais atenção, do que a vida de outros. E é a partir desta consciência, tantas vezes engolida em silêncio, que nasce a indignação justa que sustenta o texto que se segue.
Foi precisamente numa dessas madrugadas, igual a tantas outras, mas nunca fáceis, que o despertador o encontrou já acordado. Acordou antes de o ouvir. Não porque estivesse ansioso, mas porque o corpo, habituado a décadas de madrugadas, já não precisava de ser chamado. Eram quatro da manhã.
A casa estava mergulhada num silêncio espesso, daqueles que só existem quando o mundo ainda dorme. Levantou-se devagar, sentindo cada articulação como se fosse uma dobradiça antiga que precisava de ser persuadida a mexer-se. No espelho as rugas não o surpreenderam. Eram velhas conhecidas.
Cada uma contava uma história: o trabalho duro, as noites mal dormidas, as preocupações que nunca se dizem em voz alta, as perdas que o tempo impõe, as vitórias discretas que ninguém vê. Não havia vergonha delas. Havia dignidade.
Vestiu-se com calma, como quem se prepara para uma jornada que não escolheu, mas que aceita. A estrada esperava-o, longa, repetida, necessária. Duzentos e trinta e oito quilómetros para lá, outros tantos para cá. Uma rotina que já não impressionava ninguém, mas que exigia mais do corpo do que este tinha já para dar.
Saiu de casa quando o céu ainda era apenas uma sombra. O ar fresco da madrugada bateu-lhe no rosto, acordando-o por completo. Entrou no carro, ligou o motor, e a estrada abriu-se à sua frente como um corredor silencioso. Conduziu em silêncio, deixando que os pensamentos se arrumassem sozinhos. Não havia pressa. Havia apenas o dever.
Chegou ao destino ainda cedo. O edifício onde ia ser atendido tinha aquele cheiro característico dos sítios onde se trata do corpo: desinfetante, papel, metal, e uma certa ansiedade que paira sempre no ar. De guichet em guichet, de sala em sala, foi cumprindo o ritual. Entregava documentos, respondia a perguntas, esperava.
A espera era talvez a parte mais difícil, não pelo tempo, mas pela consciência de que cada minuto ali era mais um lembrete de que o corpo já não era o que fora. Ainda assim, não havia revolta. Havia apenas a serenidade de quem sabe que viver é também isto: cuidar das peças que se vão desgastando, aceitar que o tempo cobra, mas também oferece.
O almoço foi simples, quase apressado. Uma refeição sem história, tomada num daqueles sítios onde ninguém se demora. Depois, voltou para a estrada. A tarde já ia avançada e o percurso parecia mais longo no regresso. O corpo pesava, os olhos ardiam, mas havia uma força antiga que o empurrava para casa – uma força feita de hábito, de resiliência, de uma espécie de teimosia que só quem viveu muito, conhece.
Os quilómetros foram passando devagar. O sol começou a descer, tingindo o céu de cores que ele já vira milhares de vezes, mas que nunca deixavam de o comover. A vida, pensou, é feita destes pequenos instantes que ninguém regista, mas que ficam gravados na memória como fotografias silenciosas.
Quando finalmente chegou, dezoito horas depois de ter saído, sentiu o corpo desabar num cansaço profundo. Mas sentiu também outra coisa: uma leveza interior, uma espécie de paz que só existe quando se cumpre o que tem de ser feito. Não era heroísmo. Não era sacrifício. Era apenas a vida – a sua vida – vivida com decência.
E então, apesar do cansaço, sorriu. Um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas verdadeiro.
Um sorriso que dizia:
“Ainda cá estou. Ainda caminho. Ainda sou eu.”

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A serenidade aprende-se


Existirá sempre um momento na vida em que vamos deixar de procurar a serenidade fora de nós. Em que percebemos, finalmente, que ela não está no silêncio da aldeia, nem no canto das aves, nem no descanso depois de um dia cheio, embora tudo isso ajude.

A serenidade verdadeira nasce dentro de nós, num lugar que ninguém vê, mas que sustenta tudo o que somos. A serenidade não é ausência de problemas. É a capacidade de olhar para eles sem nos perdermos.

É saber que o mundo pode agitar-se, que as pessoas podem falhar, que o tempo pode levar o que amamos e, ainda assim, manter o coração firme, como uma árvore antiga que já enfrentou todas as estações.

A serenidade aprende-se.

Aprende-se com a idade, com as perdas, com os dias difíceis, com as noites em que o sono não chega. Aprende-se quando percebemos que não controlamos tudo e que não precisamos de controlar tudo.

Aprende-se quando deixamos de lutar contra a vida e começamos a caminhar com ela.

A serenidade é uma forma de sabedoria. É saber distinguir o que merece a nossa energia do que apenas merece o nosso silêncio. É compreender que nem todas as batalhas são nossas, que nem todas as palavras precisam de resposta, que nem todos os ruídos merecem atenção.

E, sobretudo, a serenidade é um gesto de confiança: confiança na vida, confiança no tempo, confiança em Deus, essa força discreta que nos acompanha desde o berço humilde, onde se aprenderam os valores que ainda hoje nos guiam.

Ser sereno não é ser indiferente. É sentir tudo, mas sem se deixar arrastar por nada. É cuidar dos outros sem se esquecer de si. É amar sem medo, porque sabe que o amor, quando é verdadeiro, não se perde.

A serenidade é, no fundo, a casa interior onde regressamos quando o mundo cansa. E quem a encontra, mesmo que por instantes, descobre que a vida tem um ritmo próprio mais lento, mais sábio, mais humano.

José Coelho
Texto e foto

Natal no Maiombe

Havia dias em que o Maiombe parecia não ter fim. A selva erguia-se à nossa volta como uma muralha viva, feita de sombras, cheiros húmidos e um rumor constante que nunca se calava. Era um mundo que engolia o horizonte e nos lembrava, a cada passo, que ali não mandávamos em nada.
Eu tinha vinte anos. Vinte apenas e já com a farda marcada pelo suor, a pele endurecida pelo medo e o coração cheio de uma saudade que não sabia explicar. A Beirã parecia tão longe que às vezes duvidava se ainda existia. Mas bastava fechar os olhos para ouvir a voz da minha mãe, o riso dos amigos no Largo da Fonte, o sino da igreja a marcar as horas como quem diz: “Ainda estás ligado a nós.”
Foi num desses dias que a RTP apareceu no aquartelamento. Uma câmara grande, pesada, que parecia deslocada naquele cenário de terra vermelha e árvores gigantes. Disseram-nos que iríamos gravar mensagens de Natal para as famílias. Eu ri-me. Natal ali? No meio daquele inferno verde e calor sufocante? Mas quando me chamaram, senti um aperto no peito.
Segurei o microfone com mãos que queriam parecer firmes. Atrás de mim, a floresta respirava. À frente, a lente fria esperava por mim. E eu, quase uma criança, tentei parecer homem.
Disse “Feliz Natal” com a voz mais segura que consegui. Mas dentro de mim, o que eu queria mesmo era voltar a casa, sentir o cheiro dos madeiros da Missa do Galo no adro da igreja, ouvir o meu pai dizer “o nosso Zéi está bem”, ver a minha mãe enxugar os olhos com o avental.
Naquele instante, percebi que a saudade não é ausência, é presença. É o que fica quando tudo o resto nos é tirado.
O Maiombe ensinou-me isso.
Ensinou-me o valor de um abraço que não se pode dar, de uma aldeia que continua a existir dentro de nós mesmo quando o mundo à volta se torna selva. Ensinou-me que a juventude é frágil, mas teimosa. E que, mesmo no meio da guerra, há sempre um fio de luz que insiste em sobreviver.
Hoje, quando olho para esta fotografia – o rapaz de vinte anos, o microfone na mão, o olhar ainda limpo – vejo alguém que não sabia o que o esperava, mas que nunca deixou de acreditar que voltaria.
E voltei.
Voltei para contar a história.
Voltei para honrar os que ficaram pelo caminho.
Voltei para dizer, com a serenidade que só o tempo dá, que os Natais no Maiombe foram os mais duros… e os mais verdadeiros da minha vida.