segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

(Matur)idade


A nossa vida muda com a idade. Deixamos de aceitar conflitos e de dar explicações seja a quem for.

Optamos por rodear-nos de cada vez menos pessoas, começamos a eleger o silêncio e a escolher a ausência para nos dedicarmos apenas ao que nos concede paz.
Começamos a ver as coisas como elas são e cada vez menos como parecem, a preservar o melhor de nós só para quem nos conhece e estima.
Aprendemos a ficar calados e a abrir mão de muitas coisas, a selecionar o útil e o fútil porque tudo o que é inútil deixa de nos importar.
Livramo-nos de muitas coisas: palavras, pessoas e objetos para ficarmos apenas com o que nos torna melhores.
Em resumo aprendemos a deixar ir o que tem de ir e a aceitar o que veio para ficar.

Porque...


Nem o tempo volta, nem a vida se repete.
Boa semana, sejam felizes...

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Não entendo e muito menos aceito


Sempre ambicionei passar o resto da minha vida exatamente onde me encontro. Mas também nunca, nem pela mais remota hipótese podia imaginar que as coisas iam descambar desta forma e iria ficar por cá quase sozinho. Se é natural que a vida siga o seu ciclo geracional porque sempre assim foi, já não é, de todo, natural que esse ciclo, como aqui, se esteja a extinguir porque não nasce vida nova que venha substituir a que vai partindo.
Se em pouco mais de duas décadas tudo ficou desta maneira, como será daqui a outro tanto tempo? Há tempos fui com a minha companheira dar um passeio à Herdade do Pereiro e à Fadagosa, dois dos bonitos locais da nossa infância e juventude. Aquilo que vimos sem qualquer surpresa, é de tal modo deprimente e desolador que um de nós desabou em lágrimas. Não fui eu quem chorou, mas imaginei imediatamente que daqui a não muitos mais anos, na Beirã também haverá casas assim, em ruínas.
É só uma questão de tempo e oxalá me engane.
A única hipótese de nos sentirmos vivos e de ver alguma vida ou movimento é sairmos da Beirã com alguma regularidade. Por isso vamos até à cidade ou vila que elegemos na hora, de vez em quando. Mas até as vilas, até a cidade, já não são as mesmas. Pouca gente nas ruas e praças, porque a onda de abandono alastra um pouco por toda a parte. Na cidade e nas vilas mais próximas, como na minha aldeia, há também casas fechadas um pouco por todas as ruas.
Quem e como irá conseguir reverter esta situação?
Obviamente, ninguém!
Não consigo perceber por mais que tente. Porque é que há 50 anos sob a tão amaldiçoada ditadura havia gente por toda a parte, trabalho para todas as profissões e negócios, e ainda, apesar dos baixíssimos salários, muito mais oportunidades de trabalho do que existem agora na tão falada democracia que tudo trouxe em velocidade de cruzeiro mas ainda mais velozmente tudo tem ido levando, deixando milhares de pessoas desempregadas ciclicamente e uma geração inteira sem grandes perspetivas de futuro que por isso mesmo começou a emigrar em massa mais uma vez, repetindo-se o êxodo das décadas de 60/70 do século passado.
E o desfile imparável, infindável, de falcatruas públicas cometidas por quem deveria ser exemplo? E a impunidade de tantas e tantas dessas falcatruas já denunciadas e provadas, mas cuja culpa morre quase sempre solteira? E o compadrio, a corrupção vergonhosa, os arranjinhos em prejuízo da competência e do direito à igualdade de oportunidades? Será esta a vida, a sociedade, o futuro, que os nossos filhos e netos necessitam e merecem?
Quantos pais e avós vivem inquietos com as mesmíssimas interrogações que eu vivo? Todos nós fomos educados num tempo em que havia respeito pelas regras da vida e da ordem social. Para onde foram esses valores? Aposto que a maior percentagem de pessoas com a minha idade não é feliz com o estado a que as coisas chegaram. Já ninguém se sente seguro.
Os empregos de repente viram desemprego. As reformas descontadas uma vida inteira em vez de crescerem encolhem pela subida sistémica do custo de vida que de anual passou a mensal. Até as poupanças de uma vida de trabalho e sacrifícios podem inesperadamente desaparecer de um qualquer banco que também abre falência mercê da ganância e irresponsabilidade de quem os gere.
Algum de vocês entende tanta impunidade, tanta aldrabice, tanta irresponsabilidade, tanta falta de competência para devolver segurança, tranquilidade e paz de espírito a quem ama o seu país e nele sempre viveu, a ele deu sempre o seu melhor, e por fim, depois de uma vida inteira de luta, de trabalho e sacrifícios, nele queria, merecia e deveria envelhecer rodeado de paz, de respeito e de humana dignidade?
Eu não.
Não consigo entender e muito menos aceitar.

José Coelho

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Bom fim de semana



Escolher ficar em silêncio é uma opção de último recurso quando o meu equilíbrio e tranquilidade emocionais decidem deixar de tentar entender coisas que nunca estiveram ao alcance da minha compreensão e aceito isso, por mais que me custe.
Cedo ou tarde, o meu silêncio acabará por ser também entendido como uma resposta clara e definitiva.

Da dureza do passado à serenidade do presente


A vida apresenta-se muitas vezes um caminho marcado por desafios e obstáculos. Há quem veja as dificuldades como motivo para lamentações. Outros porém aprendem desde cedo que levantar-se após cada queda é uma parte essencial do processo de crescimento. Esta minha reflexão pretende abordar a importância da resiliência, da autossuficiência e da autenticidade na formação do carácter, exemplificada através de experiências pessoais e familiares.
Não sou e nunca fui dado à pieguice. A época em que nasci e me criei era tão dura e agreste que assim que aprendi a andar em pé tive logo de aprender também a levantar-me sozinho cada vez que tropeçava. Ninguém ia a correr dar-me mimo ou colo. “Caíste? Levanta-te, filho!” Esta frase comum à minha infância não era sinal de falta de afeto, mas uma lição de vida transmitida com carinho. Os meus pais ensinaram-me que cair faz parte do percurso e que o essencial é levantar e enfrentar cada adversidade com coragem e ousadia.
Cresci, aprendi e formei-me nessa disciplina de uma forma tão sólida que me valeu para a vida toda. Procurei transmitir aos meus filhos esses mesmos valores: levantarem-se após cada tombo, serem prudentes para não tropeçarem duas vezes na mesma pedra, evitarem caminhos acidentados e inseguros, porque esses princípios são fundamentais para se sobreviver num mundo cada vez mais complexo, conferindo força e lucidez diante das tempestades da vida.
Viver não é fácil nem sequer para quem nada lhe falta. A abundância material nem sempre garante felicidade; há quem viva rodeado de riquezas, mas na solidão, sem amor ou afetos. A imprevisibilidade da vida exige atenção e preparação para o inesperado. Basta um olhar à nossa volta para percebermos as contradições e desigualdades que nos rodeiam.
Recordo os tempos em que andava descalço por falta de sapatos e tinha de esperar embrulhado numa manta ao lume que a minha roupa secasse, porque só tinha aquela. Na mesma freguesia existiam grandes herdades e palácios, hoje em ruínas porque os seus herdeiros não têm meios para os conseguir conservar. Ao contrário deles, com muito esforço e poupança eu consegui transformar a humilde casa onde nasci numa moradia capaz de acolher toda a família. Essa conquista foi fruto da persistência e da recusa em desistir perante as dificuldades.
Tudo o que escrevo ou digo está profundamente ligado à minha história, à minha família e às experiências que vivi. Recuso-me a preocupar-me com as opiniões alheias porque não devo nada a ninguém, por isso sou livre para dizer o que penso. Os tombos da vida deixaram muitas marcas, principalmente aqueles que foram provocados por rasteiras traiçoeiras que me feriram mais a alma do que o corpo. Contudo, todas as vezes que me faziam cair me levantava mais resiliente, persistente e determinado a seguir o meu caminho.
Vivo hoje em paz, tranquilo e blindado contra qualquer tentativa de perturbação. Quem pense o contrário, desengane-se. Ninguém tem poder ou força suficientes para abalar a serenidade que conquistei através de tantas lutas e superações.
É esta tranquilidade, fruto da coragem de conseguir levantar-me sempre, da honestidade de viver para mim e para os meus, da sabedoria de ignorar aquelas vozes que nada acrescentavam ao meu percurso, que desejo também para todos vós.