terça-feira, 25 de agosto de 2026

Uma saudade que me acompanha sempre

A minha saudade chega como a luz da Beirã ao entardecer: devagar, inclinada, pousando nos telhados como quem conhece cada pedra pelo nome. É um silêncio que fala dentro de mim, uma presença antiga que nunca se ausenta verdadeiramente.
Carrego-a desde menino. Vem das ruas da aldeia, do cheiro da terra quente, das vozes que se ouviam antes de se verem, das tardes longas em que o tempo parecia ter a delicadeza de não correr. Vem da casa dos meus pais, onde a luz amarela da cozinha era abrigo, promessa e mundo inteiro.
Nasce dos que partiram, mas que ficaram. Ficaram no modo como olho para os meus filhos e para as minhas netas. Ficaram no meu gesto, na minha palavra, no meu respeito pelas coisas simples, porque há heranças que não se guardam em caixas, guardam-se no coração.
E quando a tarde cai – essa hora em que a Beirã fica mais verdadeira – sinto que a minha saudade não é ausência.
É presença.
É perfume de um tempo que passou, mas que continua a acender luzes dentro de mim.
É o eco das vozes que amei, das mãos que me ensinaram, dos passos que caminharam ao meu lado.
É uma saudade que não me entristece, engrandece-me.
Porque só quem sente assim é quem viveu com verdade, quem recebeu dos seus uma educação feita de bondade, de trabalho, de silêncio bonito e a transmitiu como quem passa uma chama que não se apaga.
Eu sou esta saudade. Sou feito dela. Sou o que fui, sou o que continuo a ser, sou o que guardo e o que honro.
E quando falo da minha saudade, não o faço para me lamentar. Faço-o para agradecer. Porque ela é a prova mais serena de que a minha vida valeu – e continua a valer – a pena.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

As crianças da minha infância

Na minha infância, as crianças não eram apenas crianças. Eram rumor, eram luz, eram pressa, eram vida a acontecer sem pedir licença.
Corriam pelas ruas como quem corre dentro de casa. Sabiam onde cada pedra estava, onde cada sombra começava, onde cada cão dormia ao sol. Tinham joelhos esfolados, mãos sujas de terra, cabelos desalinhados pelo vento e uma liberdade que hoje já não se fabrica.
O mundo era pequeno, mas era completo. A rua era campo de futebol, era pista de corridas, era sala de brincadeiras, era lugar de descobertas. E cada esquina guardava um segredo que só elas sabiam.
As crianças da minha infância tinham uma coisa que hoje quase desapareceu: sabiam brincar sem nada. Um pau era espada, uma corda era serpente, uma lata era tambor, uma pedra era tesouro.
E tudo era suficiente.
Sabiam também respeitar o tempo dos adultos. Quando passavam por elas, paravam. Quando a mãe chamava, obedeciam.Quando a avó ralhava, baixavam os olhos.
Não por medo mas por respeito.
Havia uma alegria que não se explicava. O cheiro da terra molhada depois da chuva. O sino da igreja a marcar o fim da tarde. O pão com marmelada embrulhado em papel. O verão que parecia não acabar nunca.
E havia também uma inocência que não se repetirá: a primeira vez que se viu o mar, a primeira vez que se entrou na cidade, a primeira vez que se percebeu que o mundo era maior do que a aldeia – mas nunca melhor.
As crianças da minha infância cresceram depressa, mas cresceram bem. Aprenderam a dureza do trabalho, a importância da palavra dada, o valor da família, o peso da verdade. E levaram tudo isso consigo para onde quer que foram.
Eu fui uma dessas crianças. E quando hoje olho para trás, vejo-me a correr de pés descalços pelas ruas estreitas, a subir muros, a inventar mundos, a aprender a vida sem saber que a estava a aprender.
E cá dentro, onde mora a memória, continuo a ser aquela criança da Beirã que acreditava que a aldeia era o centro do mundo e que, de certa forma, ainda acredita.

Outono a espreitar

Aproxima-se, a passos firmes e silenciosos, aquela estação do ano que sempre reconheço como minha: o outono. Talvez seja pela melancolia que lhe está entranhada, essa melancolia que não pesa mas acompanha e que em mim encontra terreno fértil. Ainda faltam duas ou três semanas para ele se instalar por completo, mas já o sinto a rondar a casa como um velho amigo que chega antes da hora.
Os dias encolhem, como se tivessem pressa de se recolher. E as folhas – as primeiras mensageiras da mudança – começam a ganhar tons dourados nos ramos dos choupos do ribeiro, dos ulmeiros, dos plátanos, das figueiras e de todas as árvores de folha caduca que vejo do alto do meu quintal, até onde o céu se debruça sobre a terra na linha do horizonte. E as parras da nossa latada queimadas pelo rigor de mais um verão inclemente, decidiram começar a abandonar os ramos antes de tempo, como quem desiste de lutar contra o calor.
Esta tarde, depois de regar as plantas – esse gesto que me liga à terra como uma oração – sentei-me na varanda do quintal para assistir ao momento em que o sol se despede dos cumes graníticos orlados de copas de sobro, carvalho e azinho, lá para os lados da Herdade dos Pombais. Amanhã, esses mesmos cumes serão os primeiros a recebê-lo, quando ele se erguer para acender o novo dia.
A nossa casa, desenhada pelo meu pai – fundador, arquiteto e poeta da pedra – foi orientada para nascente e poente. Uma fachada recebe o sol ao nascer; a outra entrega-o ao ocaso. Nada foi por acaso. Nunca era por acaso nos planos desses mestres antigos. As empenas ficaram viradas ao norte e ao sul, para suportarem, uma, a nortada fria e cortante do inverno, e a outra, as chuvas generosas que chegam do sul.
O pôr do sol, já o disse tantas vezes, é o meu instante de eleição.
Fico suspenso no encanto destas paisagens que me viram nascer e que reconheço como únicas, irrepetíveis, quase sagradas. Há algo de misterioso nos minutos que antecedem o ocaso: a natureza parece deter-se por completo. É sempre assim. Todos os dias. Uns breves instantes de imobilidade absoluta.
Sentada ao meu lado na varanda, a minha companheira notou o silêncio:
– Que sossego, Zé! Nem os pássaros se ouvem.
– É verdade – respondi. E acrescentei: – Até o cãozarrão ali em baixo que passa o dia e a noite a ladrar como se estivesse zangado com o mundo inteiro, se calou.
– Que estranho, não? – Volveu ela, antes de se entregar também ao silêncio.
A luz tomou então um brilho amarelado, baço, como se o sol estivesse a apagar-se devagar. Os calhaus e o montado ao longe pareciam iluminados por holofotes, como as muralhas de Marvão quando a noite as abraça. Depois, lentamente, a luz extinguiu-se. No instante seguinte, a barra cinzento-escura da noite avançou, envolvendo tudo o que minutos antes ainda brilhava.
Sinceramente, acho que é neste momento que Deus desce à terra. E por isso toda a natureza – toda a Sua criação – se prostra em silêncio.
Nesses instantes de harmonia absoluta, invade-me uma paz difícil de explicar. Uma tranquilidade íntima, tão doce, que fecho os olhos e agradeço: por ter nascido, por ainda estar vivo, por toda a vida que me foi dada.
Texto e foto

domingo, 23 de agosto de 2026

A maratona de quem está sempre disponível

Foram três dias cheios. De serra, de gente, de fé, de mesa e de serviço. Três dias em que fui cicerone, companheiro, ensaiador, amigo.
Sem alarde, sem medalhas, sem palco. Apenas com aquela disponibilidade que não se aprende: nasce.
Dias que não se medem pelo relógio, mas pelo coração. Estive ausente daqui, é verdade, não por esquecimento, mas apenas porque a vida me chamou para aquilo que considero essencial: dizer "presente" a quem solicita apoio.
Na sexta e no sábado fui cicerone de um amigo do norte que veio conhecer Marvão. Acompanhei-o pelas localidades, pela serra, pelas ruas antigas, pelas vistas que nunca se repetem. Mostrei-lhe a minha terra como quem apresenta um lugar querido da alma.
Não houve pressa, não houve obrigação, apenas o gosto de bem receber.
Hoje, o dia foi diferente, mas da mesma natureza: serviço. Fui ao Porto da Espada, do outro lado da serra, apoiar as senhoras do coro na preparação da missa da festa da Senhora das Dores que será celebrada no dia 30.
Eu e a Maria Manuela fomos como sempre vamos: se alguém convida, nós aparecemos. É simples. É assim que entendo a vida comunitária.
Entre ensaios e conversas, ainda houve tempo para o almoço no belíssimo Restaurante A Adega: galinha do campo tostadinha, salada de rúcula, batatas fritas e uma tarte de café que é segredo da casa.
Pequenos prazeres que sabem melhor quando acontecem depois do dever cumprido. E antes de regressar a casa ainda passámos pela padaria, onde o pão acabado de sair do forno nos recebeu como um abraço.
Voltámos cansados, mas daquele cansaço bom que só aparece quando os dias valem a pena. Cheios de serra, de amigos, de fé, de mesa e de gratidão.
Faltava apenas uma coisa: vir aqui cumprimentar os amigos das palavras que me acompanham tantas vezes.
Cá estou de novo.

Gratidão

Magnífica obra de arte comemorativa dos nossos 50 anos de matrimónio, oferecida pela minha irmã Joaquina Coelho, concebida pela competência profissional e perfeição da amiga Elia Magro.

O nosso muito obrigado, às duas.

14 de agosto de 2026


Aprendi a abrandar

Eu vivi muitos anos a correr. A vida moderna empurra-nos, exige, aperta.
Mas a terra – essa professora antiga – ensinou-me outra coisa.
Aprender a abrandar.
Abrandar é olhar com atenção.
É perceber que cada planta tem o seu tempo, que cada pessoa carrega uma história, que cada silêncio traz uma lição.
Abrandar é educar o coração.
É trocar a urgência pela presença, o ruído pela escuta, a pressa pela calma.
E quando abrando, descubro que a serenidade não é falta de problemas.
É só a capacidade de lhes tocar com mãos firmes e alma tranquila.
Hoje sei que abrandar não me atrasou.
Abrandar salvou-me.
Bom domingo, pessoal.
Cuidem-se...

Canto à generosidade

Existem pessoas que trazem nos seus gestos uma claridade, como se tivessem nascido com uma nascente dentro delas. Não falam de si, não se exibem, não reclamam nenhum lugar, mas onde passam, o mundo fica mais leve.
A generosidade é um dom que não se anuncia, uma força que não precisa de palco, uma luz que não pede testemunhas.
As pessoas generosas são como água que corre: não escolhem quem saciam, não perguntam quem merece, não fazem contas ao que dão.
Apenas fluem.
E há quem os veja e pense que é simples, que é natural, que é fácil. Mas não é. A generosidade verdadeira é rara como chuva certa em ano seco.
É uma bênção que não se aprende, revela-se.
Essas pessoas têm um modo de estar no mundo que lembra as árvores antigas da Beirã: firmes, silenciosas, oferecendo sombra sem perguntar quem se senta debaixo delas.
São homens e mulheres que guardam o bem como quem guarda água num cântaro. Que dão tempo, dão presença, dão cuidado, sem nunca dizer “olhem para mim”.
E quem não gosta de se evidenciar, reconhece esse dom nos outros com uma humildade que também é rara. Porque só quem não procura luz para si consegue ver a verdadeira luz nos outros.
A generosidade é um canto que não se canta para si próprio. É sempre para o outro. É sempre para quem precisa. É sempre para quem chega cansado, disperso, perdido, e encontra alguém que lhe diz: “senta-te, descansa, serve-te e leva contigo o que te fizer falta.”
As pessoas generosas não guardam o melhor para si. Guardam o melhor para o momento em que alguém precisa. E quando dão, não se esvaziam, multiplicam-se.
Há quem tenha esse dom. E quem sabe reconhecê-lo sabe honrá-lo sem se colocar no centro. Sabe agradecer sem se engrandecer. Sabe ver o brilho sem se aproximar demais da luz.
Por isso este canto é para os que dão sem pedir, para os que ajudam sem anunciar, para os que fazem do mundo um lugar mais habitável sem nunca dizer que o fizeram.
E também é para os que não se evidenciam porque têm o dom raro de reconhecer a grandeza alheia sem nunca se colocarem acima de ninguém.
A generosidade é deles. A gratidão silenciosa é nossa. E ambas, juntas, fazem do mundo um lugar um pouco mais humano.