Há profissões que nunca dormem. As forças de segurança – PSP, GNR e outras – são assim. Não conhecem descanso, pausa, feriado ou indulgência. O relógio roda, o calendário muda, mas a responsabilidade permanece sempre ali, imóvel, como uma sentinela silenciosa.
Enquanto o país se reúne à mesa, enquanto o bacalhau fumega no Natal e o cabrito assa na Páscoa, há homens e mulheres que passam essas mesmas horas nas ruas frias, nas estradas escuras, nas esquadras silenciosas. Não porque sejam diferentes – mas porque escolheram servir. E servir, para eles, significa estar onde é preciso, quando é preciso, mesmo que isso lhes custe noites, família, saúde ou paz.
E depois há quem diga, com uma leveza quase cruel: “Foram para lá porque quiseram. São pagos para isso.”
É fácil falar assim. Difícil é compreender o que significa viver sempre um passo antes do perigo. Difícil é perceber que por baixo da farda há um ser humano que treme, que sente, que falha, que sofre – e que, ainda assim, continua.
O que me dói – e dói mesmo – é ver a indulgência com que tratamos quem mata a sangue frio, quem destrói vidas sem hesitar, quem dispara para roubar uns trocos. Chamam lhes “indivíduos problemáticos”, investe-se milhares na sua reintegração, oferecem lhes compreensão infinita.
Mas quando um agente, no cumprimento da lei, tem de usar a arma que lhe foi confiada para proteger a sua vida ou a de terceiros, o país inteiro ergue-se para o julgar. Cada gesto é dissecado, cada segundo é escrutinado, cada decisão é transformada em espetáculo. E o agente – que agiu para salvar alguém – é crucificado na praça pública como se fosse ele o criminoso.
Os valores inverteram-se, ou talvez tivessemos deixado de saber o que realmente importa.
E quando isto acontece, quem defende o agente?
A hierarquia? Sim, para vir anunciar, com pompa e circunstância, a abertura de processos de averiguações.
A comunicação social? Não. Precisa da manchete, não da verdade.
A opinião pública? Pior ainda. Se uma voz grita “matem-no”, cem respondem “esfolem-no”.
E depois perguntam, com ar de espanto, porque será que o recrutamento de novos agentes não consegue sequer preencher já as vagas por aposentação, em virtude de não haver candidatos suficientes, quando, não há muitos anos, havia seis mil candidaturas para seiscentas vagas?
Mais preocupante ainda, porque será que tantos guardas e polícias se suicidam? Será difícil perceber?
Não são apoiados.
Não são valorizados.
Não são compreendidos.
E ganham salários que mal chegam ao fim do mês.
Eu sei o que isso é. Vivi isso. Estive lá, noite após noite, dia após dia, dentro das viaturas ou a pé à frente dos meus homens e não comodamente instalado atrás da secretária, no ar condicionado. Ensinei, incentivei, protegi – mas, acima de tudo, tentei sempre ser exemplo.
E também errei.
Porque estava a trabalhar.
Porque estava a tentar ajudar.
Porque sou humano.
Só nunca errei por abuso, por arrogância, por maldade ou por desleixo. Nunca.
Poderia falar da minha folha de serviços, limpa, reconhecida, honrada. Mas não preciso. Cumpri o meu dever e isso basta-me.
O que hoje mais paz me dá, é a consciência tranquila. E o que me move ainda é a solidariedade profunda por todos os que lá continuam noite após noite, dia após dia, a segurar o país com as próprias mãos, mesmo quando o país parece esquecer-se deles.