terça-feira, 11 de agosto de 2026

Reflexão sobre a ética e a escrita

Imagem da net

Há quem escreva para ser visto. Há quem escreva para ser ouvido. E há quem escreva – como eu escrevo – para ser coerente consigo mesmo. A ética na escrita não é um adorno, nem uma bandeira moral. É uma forma de estar no mundo. É a decisão íntima de não trair aquilo que se sabe, aquilo que se vive, aquilo que se é.
A verdade, quando entra na escrita, não faz barulho. Não precisa de trombetas, nem de explicações, nem de notas de rodapé. A verdade é silenciosa, mas reconhece-se. E quem a lê, sente-a.
A escrita ética nasce de um princípio simples: não inventar o que não se viveu, não afirmar o que não se sabe, não fingir o que não se sente. Não é uma questão de moralismo. É uma questão de respeito por si mesmo, pelo leitor, pela própria palavra.
A palavra é como a água do poço: se vem turva, ninguém bebe; se vem limpa, mata a sede.
E eu escrevo assim: puxo a água com a corda certa, trago o caldeirão cheio, e ofereço ao leitor um gole de autenticidade. Não há truques. Não há artifícios. Não há pose.
Nas redes sociais a ética é testada todos os dias. Há quem confunda opinião com verdade, rumor com facto, vaidade com conhecimento. E há, sobretudo, quem confunda escrever com falar alto.
Ontem escrevi, mais uma vez, sobre a corda e o caldeirão, uma metáfora antiga, dessas que vêm da vida real, dos poços do Alentejo, dos gestos humildes que sustentaram gerações. Hoje, um leitor manifestou estranheza. Disse que percorreu a região, que a conhece e que não encontrou referência alguma à corda e ao caldeirão.
Sorri. Não se procuram metáforas com mapas na mão.
Expliquei-lhe que a verdade da escrita não está nos livros, mas na experiência. A corda e o caldeirão não pertencem à geografia: pertencem à memória dos homens que tiravam água do poço para darem de beber ao gado e aos ganadeiros. São companheiros inseparáveis, como certas pessoas – eu e a minha companheira por exemplo – que não passam uma sem a outra.
Sem a corda, o caldeirão não chega à água; sem o caldeirão, a corda não tem destino. Mostrei-lhe a fotografia. Não para humilhar, mas para lembrar que a verdade, quando é vivida, dispensa explicações.
E disse-lhe, com a serenidade de quem sabe o peso da palavra: “Tudo o que eu escrevo nasce da verdade das coisas, sempre.”
A verdade na escrita não é apenas o conteúdo. É também o gesto. É o modo como se responde. É a serenidade com que se explica. É a firmeza com que se mantém o que se sabe ser certo. A ética na escrita é, no fundo, a ética da vida. Quem vive com verdade, escreve com verdade. Quem vive com humildade, escreve com humildade. Quem vive com atenção, escreve com atenção.
A minha escrita procura sempre essa marca: não dramatiza, não exagera, não inventa grandezas. É uma escrita que sabe o valor das coisas simples e que não precisa de adornos para ser profunda.
A corda e o caldeirão, são isso mesmo: objetos humildes que carregam uma sabedoria antiga. Transformei-os em metáfora porque a verdade mora nas coisas simples, não nas teorias complicadas.
A ética na escrita não é apenas dizer a verdade. É também como se diz. A serenidade é uma forma de ética. A clareza é uma forma de ética. A gratidão é uma forma de ética.
Quem escreve sem verdade pode até fazer barulho. Mas quem escreve com verdade, esse deixa marca. E essa marca não está no número de leitores. Está na qualidade da consciência. Está na fidelidade ao que se vive.
Está na coragem de dizer:
- Eu escrevo o que sei, escrevo o que vi, escrevo o que sou.

O dia da corda e do caldeirão – na primeira pessoa

Hoje foi um daqueles dias longos, em que a vida pede mais do que o costume. Saí de casa às nove e meia da manhã, já com a cabeça cheia de tarefas e o coração cheio daquele sentido de responsabilidade que não se aprende, nasce connosco.
Primeiro fui ao banco. Tinha de fazer a transferência da conta da igreja para a conta do pintor que a renovou antes da festa. Era um dever simples, mas importante, porque há coisas que têm de ser feitas com rigor, para que tudo fique em ordem.
Quando terminei, ainda ali no balcão, liguei ao Senhor Padre: – O valor da pintura da igreja já está na conta de quem a fez. E ele respondeu, com aquela voz serena que lhe conheço: Obrigado. Um abraço.
Foi um abraço curto, mas cheio de significado. A igreja está pintada, está digna, está pronta, e eu fiz a minha parte.
Depois rumámos a Portalegre. A “corda” tinha feito uma ecografia renal na semana passada e era preciso ir buscar o exame. Chegados à clínica, a máquina das marcações estava avariada. Fila grande, gente à espera, tempo a escorrer devagar. Ficámos ali, pacientemente, como quem sabe que a vida também se faz de esperas.
Quando finalmente saímos, já se faziam horas de almoço. Fomos ao Continente de Portalegre comer qualquer coisa e aproveitar para fazer umas compras. Nada de extraordinário, apenas o quotidiano a pedir o seu lugar.
De regresso, ainda passámos pelo Centro de Saúde de Castelo de Vide para mostrar o exame à médica. Não estava. Consulta só dia 19. Respirei fundo. Há dias assim: a corda estica, o caldeirão pesa, mas seguimos.
Voltámos a casa às cinco da tarde. O Citroën C3 – modesto como o dono – salvou-nos do calor com o seu ar condicionado fiel. Chegados, arrumámos as compras, comi uma fruta para enganar o estômago, reguei o quintal, preparei o jantar… e só então me sentei.
E nesse instante, saiu-me aquele “Uffffff…” que não é queixa – é verdade. É o corpo a falar. É a alma a descansar. É o dia a fechar-se.
E enquanto respirava fundo, pensei na nossa metáfora: a corda e o caldeirão. Hoje fomos os dois outra vez. Eu a puxar, a segurar, a orientar; e a vida, pesada mas necessária, a pedir que eu a carregasse com cuidado.
E carreguei. Carreguei tudo. Carreguei bem. Porque é assim que sou. E é assim que quero continuar a ser.
Maria Coelho a corda.
José Coelho o caldeirão.
Texto e foto

domingo, 9 de agosto de 2026

Só Deus sabe

Há lugares que me conhecem melhor do que eu a eles. Percorri-os a pé, sozinho e acompanhado, desde menino. Nunca precisei de rodas para conhecer o mundo, bastavam-me os pés e um livro ao domingo, o único dia de descanso.
Enquanto os outros aceleravam nas bicicletas e motorizadas, eu aprendia que a família era a primeira prioridade.
Marchava a pé por esses bardalhais horas a fio, na companhia do sol e do vento. As veredas eram tão seguras como estradas e nelas eu sabia onde morava cada obstáculo. Hoje, nem com óculos graduados as vejo tão bem, mas o instinto ainda recorda o caminho. E que bem sabia o sossego dos campos, o furtivo deslizar das raposas, o gorjeio dos melros e dos rouxinóis, o canto dos grilos e dos ralos.
Era o meu mundo de paz, onde me sentia completo.
Passados tantos sóis, continuo a visitá-lo, as pernas a refilarem, os pés a pesarem mais. Na última vez fui com a minha companheira de vida; demos conta de que estávamos longe demais para as nossas energias, mas o coração ficou leve.
Antes de iniciar o regresso a casa acariciei as giestas e pensei: Será que aqui voltarei mais alguma vez?
Uma vitela curiosa aproximou se e logo seguiu o seu caminho quando percebeu que não lhe trazíamos feno nem ração. O ar estava sereno, perfumado pelos pastos a secarem ao sol.
O cenário levou me à meninice, ao toco negro do sobreiro que um raio rasgou quando eu era pastor, ainda lá, indiferente ao tempo.
Mais adiante, na Tapada da Lagem Alta, fotografei o velho cancho de onde saltava sem parar naquela manhã em que o lacrau, escondido debaixo dele, me ferrou num dedo do pé, enquanto a minha mãe mondava milho.
Fotografei-o com emoção porque ali repousa aquele susto e a dor da ferroada, mas também a bênção da infância.
Não é viver no passado, é agradecer ao tempo por ter guardado estes testemunhos da minha meninice e juventude abençoadas, mesmo com trovoadas e ferroadas de escorpiões.
Se puder, quero lá voltar. Pelo menos mais uma vez. Ou duas...
Mas isso, só Deus sabe.
Texto e foto

As mulheres da água e do fogo

Na minha Beirã, as mulheres como a minha avó e a minha mãe, não eram apenas mulheres. Eram água e fogo, duas forças antigas que se encontravam nelas como se o mundo tivesse decidido que só elas sabiam equilibrar o que arde e o que corre.
De manhã, eram água. Iam ao tanque com a roupa no alguidar à cintura, falavam baixinho, riam alto, lavavam como quem reza. A água batia no sabão, escorria pelos panos, levava a sujidade e trazia de volta a dignidade das coisas limpas. E elas, de mãos na água fria, sabiam segredos que não se contam: quem estava doente, quem ia casar, quem precisava de ajuda. O tanque era mais do que tanque – era confissão, era encontro, era mundo.
À tarde, eram fogo. Acendiam o lume com o jeito de quem acende memória. Sabiam o ponto da lenha, o tempo da chama, o calor certo para a panela. O fogo obedecia-lhes como se reconhecesse nelas uma autoridade antiga. E dali saía o pão, a sopa, o guisado, o cheiro que enchia a casa e fazia da cozinha o coração da aldeia.
As mulheres da água e do fogo tinham mãos pequenas, mas faziam tudo. Amassavam o pão, coziam a roupa, remendavam calças, curavam febres, embalavam crianças, guardavam silêncios. E tinham uma força que não se via, só se sentia. Uma força que não precisava de palavras, porque vivia nos gestos.
Falavam pouco, mas diziam muito. Um “come mais um bocadinho” era amor. Um “não vás por aí” era proteção. Um “Deus te guarde” era bênção. E cada frase vinha carregada de verdade.
Havia nelas uma paciência que hoje quase desapareceu. Sabiam esperar pela água que aquecia, pela massa que levedava, pela roupa que secava, pela vida que acontecia devagar. E nunca reclamavam do tempo, trabalhavam com ele.
Quando uma mulher da água e do fogo morria, não se perdia só uma pessoa. Perdia-se uma forma de estar no mundo. Perdia-se o lume certo, a sopa certa, o conselho certo, o silêncio certo. Perdia-se alguém que sabia que a casa não é só paredes, é também cuidado.
Eu cresci a vê-las. A ouvir o bater da roupa no tanque a vinte metros da minha casa, a sentir o cheiro do pão quente, a aprender que o amor não se diz, faz-se. E hoje, quando fecho os olhos, ainda vejo as mãos delas: pequenas, rápidas, firmes, incansáveis.
E cá dentro, onde mora a memória, continuo a acreditar que essas mulheres seguraram a aldeia inteira. Com água. Com fogo. Com vida.

sábado, 8 de agosto de 2026

Recomeços

No decorrer da nossa vida há sempre aqueles dias em que o caminho se estreita e nos obriga a parar. Não por capricho do destino, mas por decisões que não devem ser adiadas, mudanças que têm de acontecer, medos que exigem ser olhados de frente.
Cada um desses instantes chega como uma espécie de visita inevitável: não bate à porta, entra. E, ao entrar, transforma-nos.
São solidões que se instalam ao nosso lado como sombras. No início assustam, mas com o tempo percebemos que são apenas lugares onde a alma precisa de se recolher para que a possamos ouvir.
Há lágrimas que não conseguimos evitar – e talvez nem devêssemos – porque são elas que lavam o que ficou turvo dentro de nós. E há recomeços silenciosos, quase imperceptíveis, que começam a germinar no fundo do peito muito antes de nos darmos conta.
A vida ensinou-me que tudo isso faz parte do mesmo movimento: o de nos tornarmos quem realmente somos. E que, mesmo quando acreditamos que já não aguentamos mais nada, o tempo acaba por revelar a verdade que sempre lá esteve: somos muito mais fortes, mais resistentes e mais corajosos do que alguma vez imaginámos.
A coragem não é ausência de medo; é seguir adiante, apesar dele. E ter força, não é nunca cair; é levantar e continuar a caminhar, cada vez que caímos.
Assim descobrimos que cada dor foi mais uma semente, cada silêncio foi mais uma raiz, cada lágrima foi a água que que alimentou e fez florir a nossa vida, quando menos o esperávamos.
Texto e foto

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Memórias da minha aldeia

Na minha Beirã, a noite não chegava de repente. Chegava devagar, como quem entra em casa em silêncio para não acordar ninguém. Primeiro, o céu ficava mais fundo. Depois, as sombras cresciam nas paredes. E por fim, a aldeia inteira parecia suspender a respiração.
As ruas estreitas ganhavam outra alma. O que de dia era caminho, de noite era mistério. O que de dia era ruído, de noite era memória. E cada pedra parecia guardar histórias que só a escuridão sabia ouvir.
Os cães começavam a ladrar ao longe, não por medo mas por hábito. Era o seu modo de dizer que estavam ali, que guardavam o que era deles, que a noite não lhes metia respeito. E o eco desses latidos percorria a aldeia como se fosse uma conversa antiga entre casas.
O cheiro da lenha acesa saía pelas chaminés e misturava-se com o frio que descia da serra. Era um cheiro que não se confundia: madeira, lume, casa, vida. Um cheiro que dizia que o dia acabou, mas a aldeia continua.
As janelas iluminadas eram pequenas ilhas de calor. Cada luz acesa era uma família reunida, uma sopa ao lume, uma conversa baixa, uma reza, um silêncio. E quem passava na rua sabia, sem ver, quem estava acordado e quem já tinha recolhido.
A igreja, à noite, parecia maior. O sino calado tinha uma presença que não precisava de som. E a torre, recortada contra o céu, era como um dedo apontado para Deus, não a pedir, mas a agradecer.
Havia também um silêncio especial. Não era ausência de ruído, era presença de paz. Um silêncio que deixava ouvir o vento nas giestas, o bater de uma porta ao longe, o passo de alguém que chegava tarde, o ranger de um portão antigo. Um silêncio que não assustava, acolhia.
A lua, quando vinha cheia, pousava nos telhados como quem pousa a mão no ombro de um amigo. E a aldeia ficava prateada, quase mágica, quase outra. As sombras tornavam-se mais suaves, as paredes mais claras, os caminhos mais visíveis. E parecia que tudo respirava melhor.
Eu cresci a ver a aldeia à noite. A sentir aquele frio bom que não magoa. A ouvir os sons que só existem quando o dia acaba. A perceber que a noite não é ausência, é revelação.
E hoje, quando fecho os olhos, ainda vejo a aldeia iluminada por meia dúzia de lâmpadas amareladas, ainda ouço os cães ao longe, ainda sinto o cheiro da lenha, ainda reconheço o silêncio que me ensinou a pensar.
Porque a aldeia à noite não é só escuridão. É memória. É abrigo. É verdade. E cá dentro, onde mora a saudade, a aldeia à noite continua a ser o lugar onde tudo faz sentido, mesmo o que não se explica.
Foto:
Pedro Coelho

Uma promoção que o respeito concede

Na minha terra, os velhos não são apenas velhos. São também ti – uma sílaba curta que carrega décadas de vida, de trabalho, de chão.
Ti Jaquim, ti Manel, ti Antónho, ti Zéi, ti Tónha, ti Chica, ti Catrina, ti Tomásia… Nomes que não apenas se dizem: são.
O “ti” não é título, nem cortesia, nem parentesco. É uma promoção que o respeito concede. Uma condecoração silenciosa atribuída a quem já faz parte da paisagem, como oliveiras centenárias que resistem ao tempo e às secas.
Os, e as ti, da minha terra, tinham mãos que sabiam tudo: o peso da enxada, o segredo da horta, o jeito da lenha, o ponto certo da sopa, o remendo que dura anos, o toque certo para acalmar uma criança.
E tinham uma autoridade que não precisava de explicação: bastava um olhar, um “ó rapaz”, um “ó menina”, um “não vás por aí”, e o mundo ficava mais direito.
Falavam pouco, mas diziam muito. Sabiam rezar pelos outros antes de rezar por si. Sabiam sofrer sem fazer barulho. Sabiam amar sem fazer alarde. E sabiam esperar pela chuva, pelo filho, pela carta, pela vida.
Quando um ti morria, não se perdia só uma pessoa. Perdia-se uma maneira de estar no mundo. Perdia-se uma voz que sabia dizer “Deus te guarde” com verdade. Perdia-se uma presença que fazia falta, mesmo quando estava calada.
Quem nasce numa aldeia nunca mais a larga. Pode ir viver para a cidade, aprender outras maneiras, habituar-se a outras delicadezas, mas por dentro continua sempre a ser aldeia. Porque há terras que ficam para trás, e há terras que vão conosco para onde quer que vamos.
A Beirã andou comigo por onde quer que eu andei: na maneira de dizer bom dia, boa tarde ou boa noite a toda a gente conhecida e desconhecida; na fala com o meu sotaque raiano; no gosto pelas pessoas; nos usos e costumes.
Seguiu-me na forma como considero os velhos, não como passado, mas como raízes. Seguiu-me na minha escrita, no cheiro das giestas em flor, no ritmo dos longos dias de verão.
E quando alguém me chama “ti Zé”, eu sorrio. Porque sei que esse “ti” vem deles, dos homens que me ensinaram o peso da enxada e das mulheres que me ensinaram o peso da ternura. Vem das mãos que me pegaram, das vozes que me guiaram, das vidas que me antecederam.
E cá dentro, onde mora a verdade, a autenticidade, a raiz, continuo a ser o que sempre fui: um homem da Beirã – o mê Zéi da minha mãe... e de mim mesmo.
Texto e foto