segunda-feira, 11 de maio de 2026

Ovelhas voadoras


Nos anos 80, quando começaram os subsídios por cabeça de gado, instalou se um autêntico carnaval rural. Como o controlo era fraco e os animais ainda não tinham brincos de identificação, bastava apresentar o número certo no dia da fiscalização.
E assim, as mesmas ovelhas faziam carreira: hoje no curral do vizinho, amanhã no do outro, sempre a serem contadas e recontadas como artistas em tournée.
Os técnicos avisavam sempre a visita com dias de antecedência, o que ajudava à festa. Oficialmente havia cinco mil ovinos no concelho; na realidade, talvez três mil. O resto eram… empréstimos.
Uma manhã, já eu comandante do posto de Nisa, aparece-me um agricultor aflito:
- Senhor guarda, roubaram-me trinta ovelhas esta noite!
Trinta. Não três. Trinta.
Pensei logo: Isto para levar exige camioneta, barulho, rastos… alguma coisa há-de ter ficado no chão.
Seguimos para o local. E o que encontrei? Nada. Nem rodados, nem pegadas, nem fechadura forçada, nem sinais de luta. Nem um único indício de que ali tivesse passado alguém a pé, de carro ou de asa delta.
Olhei para o homem. Ele evitava os meus olhos, torcia as mãos, engolia em seco.
Com um sorriso, arrisquei:
Ó senhor fulano… as suas ovelhas não foram roubadas. Devem ter levantado voo, porque aqui não há rastos de nada.
Ele suspirou, derrotado:
- Pois… o pior é que os fiscais vêm cá hoje contá-las. E agora faltam-me trinta. O senhor tem de me passar um papel “em conforme” foram roubadas.
Bingo! A verdade estava ali, nua e crua como o curral ao sol.
De volta ao posto, expliquei-lhe com calma que aquilo era um falso alarme, uma denúncia inventada e que podia meter-se num sarilho sério só para receber uns contos de réis a mais.
Depois de muito engolir em seco, confessou:
- É mentira. Não me roubaram nada. Eu é que declarei as trinta a mais…
O problema é que a queixa já estava registada e comunicada pelo sitrep rádio. A Guarda não podia fingir que não existia. E assim lá seguiu para o Ministério Público um auto de denúncia… sobre o roubo das primeiras ovelhas voadoras da história de Nisa.
Tenham uma excelente semana, mesmo cinzenta, fria e chuvosa...
Texto e foto

domingo, 10 de maio de 2026

A mesa que ainda nos espera


Houve um tempo, não tão distante quanto parece, em que a grande mesa da nossa sala de jantar ficava pequena para tanta vida. As oito cadeiras eram sempre poucas e era preciso acrescentar outras, improvisar lugares, abrir espaço onde já não havia. 

E, no entanto, cabíamos todos. 

Cabíamos sempre.

Lembro-me desse convívio como quem recorda um abraço antigo: quente, cheio, inteiro. Era ali, naquela mesa apertada, que a família respirava junta. E mesmo agora, sendo já menos os que se sentam comigo, um domingo sem família em casa deixa um silêncio que não é de paz, é de falta.

Não consigo, nem quero, deixar morrer a tradição que herdei do meu pai. Ele, que tinha tão pouco, parecia ter tudo quando nos via à volta da sua mesa. Os olhos dele brilhavam mais do que qualquer iguaria que se pudesse servir. 

A comida era simples - legumes da horta, frutos colhidos com as próprias mãos, aves do galinheiro, carnes do fumeiro - mas nunca foi isso que importou. 

O essencial era estarmos juntos. 

E isso bastava sempre.

Foi nesse cenário de simplicidade luminosa que aprendi o que realmente sustenta uma vida: o amor fraterno, a união, a presença. Foi ali que percebi que os valores não se ensinam, vivem-se. 

E quem aprende a amar os seus, aprende a amar o mundo.

Hoje, porém, o mundo mudou. Os pais trabalham os dois, as crianças crescem em instituições que cuidam, mas não acolhem como o colo dos avós. E os próprios avós acabam os seus dias longe da família, entregues a mãos que os tratam, mas não amam.

É a vida moderna, dizem. 

E talvez seja. 

Mas dói na mesma.

Por isso, enquanto puder, continuarei a fazer o que sempre vi fazer: abrir a porta, pôr a mesa, acender o lume, cozinhar os petiscos antigos que já poucos sabem preparar. Continuarei a chamar os meus, a reunir quem amo, a manter viva a chama que recebi do meu pai, essa chama que nunca se apagou dentro de mim.

Porque é assim que honro os que já partiram. 

É assim que abraço os que ainda tenho. 

É assim que permaneço fiel àquilo que me fez ser quem sou...

Tenham, se puderem, um tranquilo resto de fim de semana.

José Coelho

O que realmente importa

Com o tempo aprendi que as relações – todas elas – só valem a pena quando assentam em quatro pilares simples: respeito mútuo, educação verdadeira, honestidade nas atitudes e gratidão pelos gestos que recebemos sem os pedir. O resto é ruído, pressa, necessidade de preencher vazios que não me pertencem.

O respeito é a base de tudo.

Não é reverência, não é submissão, não é formalidade. É apenas a capacidade de reconhecer o outro como alguém com tempo próprio, limites próprios, vida própria. Quem não entende isto, não entende nada do que é viver em paz.

A educação, essa, não se finge. Ou existe, ou não existe. Não é feita de palavras bonitas, mas de gestos simples: saber esperar, saber ouvir, saber chegar devagar. A educação verdadeira não invade, não exige, não atropela. Aproxima-se com cuidado.

A honestidade é o que separa a presença da intenção. Não preciso que me digam tudo; preciso apenas que o que digam seja verdadeiro. A vida já me ensinou a distinguir quem vem por bem de quem vem por necessidade. E eu prefiro sempre a verdade simples à simpatia apressada.

E depois há a gratidão – essa forma silenciosa de reconhecer o que nos é dado sem que o tenhamos pedido. A gratidão não se anuncia, sente-se. É o gesto de quem sabe que nada é garantido e que cada ajuda, cada palavra, cada presença tem valor.

É isto que procuro. É isto que ofereço. O resto… passa-me ao lado.

José Coelho

Texto e foto com Maria Coelho

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Amigos como só eles

Há imagens que não são fotografias nem desenhos – são memórias que se acendem dentro de nós. Esta imagem da internet, de um homem e de um cão lado a lado à luz da lua, podia muito bem ter sido tirada na Beirã, num daqueles finais de tardes em que eu chegava do trabalho, lanchava qualquer coisa e saía logo a seguir com o Rex.

O Rex… Negro como uma amora madura, forte, dócil, inteligente. O meu companheiro de quatro patas, que só lhe faltava falar.

Caminhávamos juntos pelos campos até ao anoitecer. Eu falava, ele ouvia. E havia momentos – muitos – em que, se alguém nos visse de longe, diria que éramos exatamente esta imagem: dois amigos lado a lado, iluminados pela lua, partilhando um silêncio que dizia tudo.

Mas um dia a leshmaniose chegou. Nos anos 90 pouco se sabia, não havia vacinas, e o veterinário, receoso, disse-me que era melhor acabar com o sofrimento dele porque já tinha feridas incuráveis. 

Veio ter comigo assim que o chamei.

A família refugiou-se no primeiro andar. Eu fiquei cá em baixo, sozinho com o meu amigo.

Sentei-me no chão da tapada e disse-lhe:

– Rex, deita aqui.

E ele deitou-se. 

Pousou a cabeça no meu colo com a confiança de sempre. E naquele instante, mesmo com o veterinário a preparar a seringa, mesmo com o peso da decisão, mesmo com as lágrimas a caírem-me pela cara abaixo, senti que estávamos outra vez naquela imagem: eu e ele, lado a lado, iluminados por uma luz que não era a da lua, mas parecia.

O veterinário fez o que tinha de ser feito. O Rex suspirou fundo, como quem finalmente descansa. E partiu.

Fiquei com ele até o corpo arrefecer. Depois cavei uma cova funda na tapada, sepultei-o ali mesmo, e protegi o lugar com silvas e pedras grandes para que nenhum animal selvagem o profanasse. Era o mínimo que podia fazer por quem me tinha dado tudo.

Vieram depois outros amigos: a Sacha, o Bolinhas, a Suri. Todos eles passaram pela nossa vida como bênçãos breves. Todos eles partiram como partem os que amamos mais.

E um dia, depois da Suri – que que se foi na Sexta-Feira Santa de 2022 – decidimos que não queríamos mais passar por esse desgosto.

Mas a verdade é que... desde então falta qualquer coisa nesta casa. Falta aquela amizade que nenhum ser humano consegue dar. Falta a presença silenciosa, fiel, inteira.

Falta o Rex. Faltam todos eles.

E talvez por isso, desde que a Suri partiu, nunca mais tive amigos como só eles.

José Coelho

Bom fim de semana


Foto José Coelho
 

O templo do amor silencioso do meu pai

No princípio, antes de eu saber quem era, esta era uma casa pequenina. Não era apenas uma casa: era o primeiro mundo onde vivi. Ali cabíamos todos – nós os seis – e ainda quem chegasse, porque esta casa tinha o dom antigo de se alargar por dentro, como se tivesse um coração próprio.
O meu pai ergueu-a pedra a pedra, como os antigos heróis que levantavam muralhas para proteger o seu povo. As mãos dele não eram mãos de homem comum: eram mãos que sabiam transformar o chão em abrigo, o esforço em destino.
Ele não falava de amor – construía-o.
E eu cresci dentro desse silêncio fundador, sem perceber que vivia numa obra sagrada. O meu pai era duro, seco, sem beijos nem carícias. Mas havia nele uma força que não se explicava: uma força que sustentava a casa, a família, o tempo.
Um dia, inesperadamente, já de idade avançada, chamou-me. E com a voz que não pedia – decretava – disse-me que a casa ficava para mim. Não era herança. Era investidura. Era o momento em que o herdeiro recebe o legado do proprietário anterior.
Nesse instante percebi o que nunca tinha visto: que o amor dele era tão grande que só podia ser silencioso. Que eu era o escolhido para continuar a sua história. Que aquela casa pequenina era o altar onde ele depositava em mim a sua confiança.
Nesse dia ergueu-se no meu peito um propósito maior do que eu. Decidi que a casa não podia ficar assim pequena. Que tinha de crescer, de se abrir, de se tornar capaz de acolher todos os que antes se apertavam nela. E sonhei esta casa três vezes maior, não por grandeza, mas por missão.
E cumpri.
Ergui um casarão como quem ergue um templo de memória. Cada parede nova era um cântico ao meu pai. Cada divisão ampliada era uma oferenda. Cada janela aberta era uma promessa de que a sua linhagem continuaria.
Mas o tempo – esse deus invisível que tudo leva – começou a recolher os seus. Os meus pais partiram. A minha avó partiu. Os meus tios partiram. A minha irmã mais velha foi também ter com eles.
Os meus filhos seguiram o seu caminho.
E agora no grande casarão que construí com as minhas mãos e o meu destino, restamos apenas dois: eu e a minha companheira de quase toda a vida.
Dois guardiões do que foi um reino de união e fraternidade.
Às vezes, ao entardecer, sento-me na sala de jantar. A luz entra filtrada pelas persianas e pelos cortinados como se fosse uma divindade antiga a visitar-me.
A penumbra é suave, quase ritual.
A luz não ilumina – abençoa.
O silêncio não é vazio – é presença ancestral.
E nesses instantes suspensos, vejo tudo: a casa pequenina onde o meu mundo começou, o meu pai a erguer cada pedra como quem ergue um universo, o gesto dele a entregar-me o legado, a casa que fiz crescer para acolher todos e a saudade que agora caminha comigo como uma sombra fiel.
A casa continua grande e o que me falta não é espaço.
É o coro dos que partiram para o outro lado do tempo.
E mesmo assim, há algo que permanece invencível:
Esta casa continua a ser o templo do amor silencioso do meu pai – e eu sou o guardião da sua chama.

O dia em que o coração se cansou

Há um momento na vida em que deixamos de acreditar que tudo se resolve com mais um perdão. Eu demorei anos a perceber isso. Talvez porque sempre fui feito daquela matéria antiga – que acredita nas pessoas, que dá tempo, que dá espaço, que dá o que tem e o que não tem. Cresci a ver a minha gente a viver assim: com palavra, com honra, com a mão estendida antes de qualquer julgamento.

E por isso perdoei muito. Perdoei mais do que devia. Perdoei até quando já não havia nada para recuperar.

Não por ingenuidade, mas porque sempre achei que o ser humano podia ser melhor do que aquilo que mostrava. Que um erro podia ser só um tropeço. Que uma falha podia ser só cansaço. Que uma desilusão podia ser só um mau dia. E assim fui deixando que me ferissem, acreditando que da próxima vez seria diferente.

Mas a vida tem uma forma curiosa de nos ensinar: primeiro sussurra, depois fala, e por fim grita.

E um dia, sem aviso, o coração cansou-se.

Não houve drama. Não houve porta a bater. Não houve discussão.

Houve apenas um silêncio daqueles que não pede, nem quer, explicações.

Um silêncio que disse: “Já chega.”

Finalmente percebi que há pessoas que confundem bondade com obrigação, cuidado com serviço, presença com disponibilidade eterna. Pessoas que acham que o mundo lhes deve tudo e que nunca se perguntam o que têm para oferecer em troca. Pessoas que recebem o perdão como quem recebe o troco de um café: automático, garantido.

E eu que sempre tentei ver o melhor nos outros, aprendi à força que nem todos querem ser melhores. Alguns querem apenas continuar iguais, desde que alguém aguente as frustrações deles.

Foi aí que o meu coração – esse velho companheiro que já me salvou e já me perdeu tantas vezes – decidiu fechar a porta.

Não por raiva, mas por respeito e amor-próprio.

Não por orgulho, mas por paz. 

Não por desistência, mas por lucidez.

E quando uma pessoa desiludida fecha a porta, fá-lo com uma serenidade que não tem volta.

Não deixa frestas.

Não deixa promessas.

Não deixa esperança pendurada no ar.

Segue. Vai-se embora. Simplesmente.

E quem fica para trás só então percebe o valor do que perdeu – não porque era perfeito, mas porque era raro.

Hoje olho para trás sem rancor.

As cicatrizes ficam, é verdade, mas já não doem. 

São apenas marcas do caminho, lembretes de que a bondade não é infinita e que o coração, por mais generoso que seja, também precisa de respeito.

Aprendi isso tarde, mas aprendi bem: perdoar é bonito, mas saber ir embora é necessário.

José Coelho