sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Para o homem recto nascerá uma luz (M. Luís)

SALMO RESPONSORIAL DO DOMINGO V DO TEMPO COMUM

Votos sinceros

Voltarei, se puder


Conheço de cor cada recanto da minha freguesia por mais longínquos que sejam da aldeia, porque os percorri a pé, umas vezes sozinho, outras acompanhado, inúmeras vezes. Nunca tive bicicleta quando a maior parte dos amigos da minha idade até já motorizadas tinham e nunca me senti diminuído por as não poder ter.
Cedo me foi ensinado e compreendi que a vida tem prioridades. E que a família é, entre todas, a primeira. O pouco que ganhava da minha magra jorna fazia falta para essas prioridades e não havia sobras para esses luxos. Por isso sozinho ou acompanhado, quase sempre com algum livro a tiracolo, marchava pelos campos e perdia-me horas a fio na companhia do vento até ao pôr do sol e quantas vezes a noite me rodeou ainda longe de casa.
Havia veredas tão seguras como as estradas e nelas eu sabia onde estava cada obstáculo a contornar. Hoje nem com óculos e à luz do dia os vejo já bem, mas naquele tempo, no meio do mato, mesmo no escuro das noites cerradas via a vereda, os contornos de tudo ao meu redor e os obstáculos. Mais do que uma boa visão aquilo era puro instinto.
E que bem sabia o sossego dos campos, a companhia das furtivas raposas, o monótono piar dos mochos ou o gorjeio dos pássaros, o cantar dos grilos e dos ralos. Só não achava muita graça ao grito agourento das corujas que tinham o péssimo costume de soltar o seu gu-ru-ru algo sinistro quando me sentiam passar mesmo por baixo das pernadas e ramos onde espreitavam os movimentos de algum rato imprudente no solo, para o seu jantar.
O meu viver foi na sua maior parte por estas rústicas paisagens. Depois de tantos sóis já passados, venho ainda visitá-las, mesmo com as pernas já a doerem e os pés a pesarem mais. Ontem voltei ao antigo povoado do Monte Velho, acompanhado pela minha inseparável companheira. Fomos demasiado longe mas apesar do cansaço valeu a pena o esforço.
Enchi de beleza os olhos e a alma, de harmonia e serenidade o coração. Após demorada visita ao pouco que dele resta, porque o granito das suas ancestrais paredes tem sido furtivamente “desviado” para os alicerces das modernas vivendas da atualidade mas não só, encetámos o regresso a casa acariciando as primeiras alvas e delicadas maias que já começam a despontar pelas giestas, pensando com alguma nostalgia:
- Será que aqui voltarei mais alguma vez?
Dissemos olá a uma bonita vitela que assim que nos viu logo se encaminhou para nós pregando um monumental susto à minha companheira que pensou que ia levar uma marrada.
Mas claro que não. Este gado é manso e muito pacífico quase sempre.
- Não tenhas medo! Tranquilizei-a…
A vitela pastoreava com mais duas ou três irmãs, e, habituada a que os donos lhes levem sempre algum miminho em forma de feno ou granulado de ração, dirigiu-se a nós à espera do seu “presente”.
Quando viu que não lhe levávamos nada, seguiu o seu caminho e nós o nosso.
Estava uma tarde ensolarada e no ar pairavam já por toda a parte os primeiros aromas primaveris. Aqueles cenários transportaram-me à minha meninice quando passei pelo carcomido toco do sobreiro que um raio derrubou quase ao meu lado quando eu era pastor.
Vencido pelos temporais e perpetuamente negro pela descarga incandescente que o derrubou, lá continua, indiferente ao tempo e às minhas memórias.
Logo a seguir passámos pela Tapada da Lagem Alta, mesmo ao lado da pedra de onde eu pulava na brincadeira e me picou um lacrau no dedo gordo de um pé, enquanto mais abaixo a minha mãe mondava milho na companhia da tia Ana Galinhas e da tia Maria José Meia que no céu estejam as três.
São tão doces e sabem tão bem estes encontros reais com as nossas memórias...
- Se puder, vou voltar. Decidi.
Foto que fiz a um marco na sua colocação original ainda não vandalizado no povoado do Monte Velho - Beirã.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Seja quem é

Ao longo da nossa vida, somos constantemente impulsionados a seguir caminhos já traçados por outros, a atender expectativas alheias e a ignorar os desejos mais profundos do nosso coração.
Existe, no entanto, uma força poderosa em acreditar e ter fé no caminho que você decidiu seguir.
Ouvir o próprio coração é um ato de coragem. Significa aceitar opiniões apenas quando elas contribuem para o seu crescimento e agregam valor à sua vida. Não permita que outros ditem como você deve viver, amar ou sentir.
Cada pessoa tem uma essência única, e ferir essa verdade em busca de aprovação é afastar-se de si mesmo. Seja sempre fiel à sua verdade e escolha ser a pessoa que deseja ser, não aquela que esperam que você seja.
Crescer, evoluir e aprender são processos que acontecem no tempo de cada um. Não há necessidade de pressa, nem de comparação com o ritmo dos outros. Orgulhe-se das conquistas, das superações e da pessoa que você se tornou ao longo da sua trajetória.
Ame-se mais a cada dia e reconheça o valor de ser autêntico.
A vida é feita de mudanças, perdas e aprendizagem. Não tenha medo de mudar, de recomeçar ou de transformar os desafios em lições valiosas. O perdão, seja a si mesmo ou aos outros, é uma escolha que liberta e permite seguir em frente com leveza.
Cada passo dado, cada decisão tomada, são capítulos importantes da sua história.
Permita-se escrever uma história que o preencha, o orgulhe e que valha a pena ser contada. Escolha viver de maneira plena, abraçando tudo aquilo que o faça feliz. Antes de partir, que a sua trajetória seja marcada pela autenticidade, coragem e amor próprio.
Porque a vida é única e merece ser vivida de acordo com os seus sonhos e princípios.
Mais do que seguir padrões permita-se ser, sentir e viver aquilo que o faz feliz. Escolha, diariamente ser protagonista da sua própria história. Permita-se tudo aquilo que faz seu coração vibrar e que traz sentido à sua existência.
Seja quem é, e sempre quis ser, sem remorso, sem culpa e sem medo.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Podia – à boa maneira portuga – ter sido ainda pior


A tempestade Kristin atravessou Portugal deixando um rasto de destruição material e expondo fragilidades no sistema de comunicação de risco e nas infraestruturas nacionais. É urgente analisar de forma crítica e construtiva o impacto do fenómeno, destacando a importância da hora em que ocorreu, as consequências evitadas por mero acaso, a vulnerabilidade da população e das infraestruturas, assim como as falhas na comunicação do risco.

A sua ocorrência durante a madrugada foi determinante para a minimização dos danos humanos. Com a maioria da população em casa a exposição ao risco foi consideravelmente reduzida. Escolas, empresas e transportes públicos encontravam-se inativos, o que evitou situações potencialmente trágicas em deslocações, ruas e espaços públicos. Este fator tempo funcionou como um escudo acidental, reduzindo o número de feridos e vítimas mortais.
Apesar do menor impacto humano, a tempestade deixou marcas profundas: infraestruturas danificadas, cortes de energia, estradas e pontes intransitáveis, árvores caídas e prejuízos em propriedades privadas e públicas. Os efeitos vão prolongar-se por vários dias, provavelmente semanas, meses até, dificultando a mobilidade, o acesso a serviços essenciais e a normalização do quotidiano, especialmente em zonas rurais e periféricas.
É fundamental refletir sobre o que teria acontecido se a tempestade tivesse atingido Portugal durante a meio do dia com escolas a funcionar, trânsito intenso e atividades económicas em pleno. O risco de feridos e vítimas mortais teria sido significativamente maior, tanto em deslocações como em locais de trabalho e ensino. O congestionamento de estradas e a concentração de pessoas em espaços públicos poderiam ter originado situações de pânico e caos, dificultando a resposta dos serviços de emergência e agravando seguramente o balanço final.
A comunicação do risco durante a tempestade revelou – mais uma vez – falhas preocupantes. Muitas populações receberam avisos genéricos, pouco claros ou tardios. E a repetição sucessiva de alertas sem quaisquer consequências graves em eventos anteriores, contribuiu para uma certa banalização das recomendações, levando muitos a subestimar o perigo real. A falta de coordenação entre entidades oficiais e a ausência de mensagens específicas para grupos mais vulneráveis agravaram a ineficácia da comunicação
A tempestade expôs fragilidades sérias em escolas, hospitais, redes de transporte e sistemas de resposta de emergência. Muitos edifícios não estão preparados para fenómenos meteorológicos extremos, com infiltrações, falhas de energia e ausência de planos de contingência eficazes. O colapso de algumas linhas de comunicação dificultou a atuação rápida das equipas de socorro, evidenciando a necessidade de reforçar a resiliência das infraestruturas críticas.
A redução do número de vítimas resultou mais do acaso, do que de uma preparação eficaz. É fundamental não confundir a sorte com a capacidade de resposta. É também fundamental melhorar a comunicação e investir em sistemas de alerta mais personalizados, claros e atempados, adaptados a diferentes públicos e canais de comunicação.
Modernizar infraestruturas, implementar simulacros regulares e envolver a sociedade civil na preparação para emergências. Articular entidades para garantir uma coordenação eficiente entre autoridades locais, nacionais e serviços de emergência, com planos de ação claros e testados. Educar e sensibilizar a população promovendo campanhas contínuas de como agir em situações de risco, para incentivar comportamentos preventivos e responsáveis.
A tempestade Kristin foi um aviso a sério para Portugal sobre as limitações da sua preparação para fenómenos extremos. O acaso puro do horário a horas mortas evitou uma tragédia maior, mas não pode servir de desculpa para a condescendência. Cabe por isso à sociedade e às autoridades aprender com o sucedido, reforçar a resiliência coletiva e garantir que, na próxima emergência, a competência prevaleça sobre a sorte.

Meu Alto Alentejo de outrora

Foto da Beirã nos anos 60 do séc. XX

Na época em que nasci e cresci o quotidiano do meu Alto Alentejo era marcado por uma dureza que moldava o carácter e a vida de quem cá nascia e crescia. Os tempos eram difíceis sobretudo para aqueles – e eram mesmo muitos – que dependiam do amanho da terra à força de braços para sobreviver.
As suas mãos calejadas pelo trabalho duro e os rostos queimados pelo sol, eram testemunhos silenciosos das inúmeras dificuldades que enfrentavam diariamente.
Apesar da adversidade havia algo que tornava a vida mais leve: a solidariedade entre vizinhos. As casas viviam de portas abertas, sinal de confiança e de proximidade. E os vizinhos não eram apenas aqueles que moravam ao lado, mas uma extensão da família, alguém com quem se podia contar nos bons e maus momentos.
A escassez de recursos nunca foi motivo para o egoísmo. Pelo contrário, partilhava-se o pouco que havia: o pão, o silêncio e o cuidado. Uma merenda ao fim da tarde, uma conversa sussurrada à sombra de uma oliveira, ou um gesto de cuidado para com os mais velhos.
Tudo era motivo para unir, para fortalecer laços e para construir uma comunidade onde ninguém se sentia isolado ou só.
Não era preciso esperar pelo calendário para celebrar a generosidade. No meu Alto Alentejo de outrora, a entreajuda fazia do quotidiano um natal todos os dias. Pequenos gestos como ajudar na apanha da azeitona, oferecer uma sopa quente a quem chegava cansado, eram a expressão de uma humanidade profunda e genuína.
Essas memórias desse meu Alto Alentejo deviam servir de exemplo e inspiração. Num tempo em que o individualismo muitas vezes se sobrepõe ao coletivo, recordar a importância da partilha e da entreajuda seria fundamental para manter vivos os valores que realmente humanizam e unem mais as pessoas.
Neste Alto Alentejo dos meus pais e avós aprendi que mesmo na escassez é possível encontrar abundância no espírito de comunidade.