quarta-feira, 4 de março de 2026

Não lembra nem ao diabo


Seria pacífico entender que as leis visam sempre o bem comum e são criadas para esse fim. Pena é que no nosso país temos uma “diarreia legislativa” – como afirmava o senhor capitão e meu professor de direito penal e processual nos cursos de formação a cabo e sargento que frequentei – tal é o volume de leis, decretos e decretos-lei, que os nossos legisladores produzem sucessivamente.

A “coisa” é de tal ordem exagerada que muitas vezes quando uma lei é publicada num Diário da República, já está a ser votada outra para alterar aquela no Parlamento. Por isso qualquer agente policial nunca pode deixar de ler e de estar atento para se sentir informado, seguro e apto a agir em conformidade quando e se necessário.
Precisamente por isso eu tinha o cuidado de ler todos os diários da república e as muitas diretivas internas emanadas da cadeia hierárquica do comando, para me atualizar permanentemente e ministrar instrução adequada uma vez por semana a todo o efetivo do Posto que comandava, pois um comportamento não alinhado com a lei pode conformar o crime de abuso de autoridade e complicar a vida de qualquer agente da mesma.
Pese embora o respeito que me merece a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, vulgo ASAE que no meu tempo se chamava Inspeção-Geral das Atividades Económicas, vulgo IGAE, com quem trabalhei algumas vezes, passar do oito para o oitenta sempre foi uma característica muito nossa, infelizmente. Mas há coisas que no meu entender deveriam ser muito bem ponderadas antes de colocadas em execução.
Sei, por experiência própria, que os agentes que a compõem não atuam por parâmetros pessoais e ao gosto de cada um. Cumprem a lei e cumprem também ordens superiores. Não creio por isso que o erro esteja na sua atuação, mas sim na inflexibilidade da aplicação da lei.
O resultado visível que não deixa margem para dúvidas é o facto de ter encerrado milhares de pequenos estabelecimentos que mais do que servirem para enriquecer os seus proprietários eram um serviço de utilidade pública por estas pequenas e remotas aldeias longe de quase tudo.
Na minha Beirã chegou a haver dois talhos, um restaurante, duas casas de dormidas, dois cafés, um clube recreativo para os mais abastados, uma sociedade recreativa para os mais pobres, cinco tabernas-mercearias, uma padaria, um barbeiro, uma cabeleireira, dois alfaiates, uma carpintaria.
Porém, a tão festejada adesão ao mercado único europeu e consequente encerramento da estação fronteiriça, deu-lhe o golpe de misericórdia. Centenas de pessoas tiveram de mudar de rumo nas suas vidas e a aldeia começou a murchar como papoila ao sol ardente do verão. E as pessoas, tal como as pétalas das papoilas, foram também voando.
Ainda assim duas ou três mercearias foram resistindo e sobrevivendo. Tenho quase a certeza que os lucros mal dariam para as suas despesas correntes, quanto mais para enriquecer quem as mantinha a funcionar. Ali se comprava o pão diariamente, fruta e mercearias, gás, artigos de limpeza.
Davam muito jeito, particularmente a pessoas viúvas ou sozinhas e sem transporte próprio para as suas comprinhas do dia a dia, até que o governo entendeu fazer cumprir as diretivas europeias por um lado e combater a fuga aos impostos por outro, numa ânsia incontida de encher de dinheiro os cofres do Estado.
Com tantas exigências e colocada no terreno tão acérrima fiscalização, encerraram definitivamente um a um estes pequenos estabelecimentos que se viram na obrigação de adquirirem, com vultuosos investimentos, equipamentos caríssimos – balcões frigoríficos e vitrines inox, câmaras de frio individuais para carnes e pescado, legumes e frutas, cujo custo nunca iriam conseguir recuperar dado o fraco volume de negócio que detinham há décadas.
Será isto cuidar das pessoas? Serão estas políticas as corretas? Será bem pensado equiparar as aldeiazinhas do interior aos grandes centros urbanos na aplicação de tais leis? Será adequado que uma pequena mercearia que presta um quase serviço público seja equiparada a um Continente, Modelo ou Pingo Doce? Onde fica o bom senso, a tão proclamada proteção das pessoas deste tão maltratado interior de Portugal, de norte a sul?
Sinceramente, ele há coisas que… não lembram ao diabo!
Conquistámos, com essas políticas cegas, um galardão que diz tudo da sua eficácia. Somos o território mais desertificado de Portugal continental, com apenas onze habitantes por quilómetro quadrado. Uma enorme honra para nós e um orgulho imenso para todos os decisores deste estado de coisas, dos últimos cinquenta anos.

terça-feira, 3 de março de 2026

Gente fina é outra coisa.


Nasceram, como eu, na aldeia. Por isso irão ser, também como eu, provincianos até morrerem, por mais finos que queiram parecer. A vida levou-os para as grandes cidades e alguns de vez em quando regressam.
Herdaram ou compraram e restauraram as humildes casas dos pais ou dos avós, ou de algum conterrâneo amigo na aldeia, para virem depois passar temporadas, férias, ou apenas fins de semana.
E trazem com eles os seus cãezinhos e cãezões.
Porque gostam de animais.
E porque é chique.
De dia passeiam-nos com a trela, para darem o tal ar de gente fina. À noitinha, matreiramente, quando as pessoas recolhem para jantar, soltam os ditos cãezinhos ou cãezões para vaguearem sozinhos por onde lhes apetece e para, deliberadamente longe dos olhares dos seus ilustres donos, cagarem onde lhes apetece.
Normalmente - vá lá saber-se porquê - o sítio escolhido por eles é mesmo, mesmo, em frente à porta da casa, da garagem ou do portão dos vizinhos da mesma rua, da rua de trás, da rua do lado ou da rua da frente.
E os vizinhos, coitados, incautos e pouco ou nada habituados a tais porcarias, pisam inadvertidamente os montes de merda - perdoem-me o vernáculo aldeão - ficando com os sapatos cagados para a seguir também inadvertidamente cagarem o tapete, a passadeira, os mosaicos ou o sobrado da sua casa a rogarem pragas mortais e excomungando não os bichos, porque eles obviamente, não têm culpa.
Eu também sou aldeão e com muito orgulho. A vida não me levou para a grande cidade apesar de ter saído uns bons anos da aldeia. E também comprei a humilde casinha dos meus pais. Só não faço dela apenas casa de férias ou de fins-de-semana porque a habito com carácter definitivo há mais de três décadas.
Felizmente, sim, felizmente, continuo o mesmo de sempre. Sem peneiras, sem manias de grandeza, sem me armar em fino. E curiosamente, também tive cães. Dois. Um caniche puro que cabia debaixo do meu braço e mais uma cãozorra rafeiro-alentejana cruzada de pastor alemão que se calhar por isso mesmo era quase do tamanho de um burro.
Como não sou nem quero parecer uma uma pessoa fina, não os ia passear de trela. Mas eles iam à rua e cagavam como todos os outros. A cãozorra andava à solta no quintal e cada cagalhão que fazia enchia uma pá que no momento seguinte era apanhado e colocado num saco para posteriormente ir para o lixo devidamente acondicionado a fim de não meter nojo nem incomodar ninguém com o aspecto ou o cheiro.
O caniche ia à rua duzentas e trinta vezes por dia para mijar e cagar. Mais mijão que cagão como todos os caniches, fazia apenas uns caganitos que quase nem se viam. Mas que eu apanhava SEMPRE de forma adequada no momento seguinte, com um saco de plástico. E depositava-os em seguida no contentor do lixo mais próximo.
Jamais alguém alguma vez pisou ou pisará um cagalhão dos meus canitos.
Porque sim!
Gosto de ser assim, nada, nadinha mesmo, igual ou parecido a pessoas que se armam em elegantes, mas depois não sabem respeitar o direito mais elementar ao asseio e à higiene públicas dos seus conterrâneos e vizinhos.
Não estando perto dos cães quando eles cagam, permitem de forma tão deliberada como cobarde, que os animais espalhem uma autêntica sementeira de montes de merda por tudo quanto é rua, largo, parque ou travessa, da aldeia.
E não estando a vigiá-los, podem até fingir na sua medíocre elegância, que não dão conta do que os bichos fazem quando os mandam dar uma volta sozinhos à solta.
É caso para dizer, como dizem "nuestros hermanos Extremeños" aqui do lado, quando alguma coisa não lhes cai bem...
"La madre que los parió".
Tenho dito, curto e grosso.
Quem não gostar, ponha no bordo do prato...

segunda-feira, 2 de março de 2026

Esta incurável saudade

O lugar do Muro da Freguesia de Beirã onde nasceu a minha mãe e quase todos os seus irmãos e irmãs, era muito afastado de qualquer povoação, no meio dos canchais da raia onde viviam apenas três ou quatro famílias. Tinham, por isso mesmo, de ser autosuficientes.

Comiam do que semeavam nas hortas, dos galinheiros sempre cheio de aves, dos frutos sazonais dos pomares, e iam todos os meses moer o centeio aos moinhos do Sever lá para os lados das Amendoeiras, para obterem a farinha com que amassavam o pão.
Nesse tempo por todo o lado moravam camponeses, pastores ou mesmo assentadores do caminho de ferro pelas casetas dispersas por toda a linha férrea, da estação da Beirã até à ponte fronteiriça sobre o rio Sever.
Lembro também, como não, o asseio e a arrumação esmerada da casinha da minha avó Amélia na Cavalinha, quando ficaram só já os dois velhotes, depois de os filhos todos irem cada um à sua vida exceto o mais novo, o tio Raimundo que nunca casou e que, por ser guardador de cabras justo ao mês, só ia a casa mudar de roupa aos sábados.
As paredes da casa, a varanda e os poiais imaculadamente brancos pela insistente cal, a cantareira dos barros da cozinha meticulosamente alinhada, o cântaro sempre cheio de água fresca, os alumínios areados e brilhantes como espelhos, em resumo, a agradável sintonia que de tudo emanava e nos transmitia uma sensação de asseio, harmonia, paz e genuíno bem-estar.
Nunca mais saboreei comidinha tão saborosa como a que a avó cozinhava na sócha ao lado da casa em lume de chão e em panela de barro ou na sertã. A sócha fora feita pelo meu avô para poupar a brancura da lareira da cozinha, porque a avó não gostava de a ver mascarrada pelo lume e pelo fumo.
Quando decidiram formar família, os meus progenitores debatiam-se com os problemas comuns a todos os camponeses daquela época – famílias numerosas e escassez de meios de subsistência – exceto o da renda ao senhorio, porque a casa era deles. O meu sensato pai quando herdou dezoito contos de reis de uma tia-avó meio rica, não se deixou deslumbrar pela fartura de notas nas mãos – dezoito contos de reis em 1948 eram uma pequena fortuna – e gastou até ao último centavo na compra do terreno e construção do nosso ninho familiar.
Quatro pequenas divisões. Uma cozinha com uma bela lareira, uma sala e dois quartos. O dinheiro já não deu para as portas interiores, mas a minha mãe resolveu temporariamente o problema com umas cortinas de chita para o resguardo possível da sua privacidade, até conseguirem ir colocando as portas.
Era modesta, mas era deles.
Aqui nasci já eu e as minhas duas irmãs mais novas, a Luz e a Joaquina. A Adelina, a mais velha que já não está entre nós, nasceu três anos e meio antes de a casa estar construída. Hoje é o meu lar. Tive de ficar com ela por vontade e empenho absolutos do meu pai.
O tempo levou-mos já todos, entretanto. Avós, pais, e muitos outros entes queridos que moldaram a pessoa que me tornei. Entretanto foi necessário ampliar e modernizar a casa, mas fiz questão de manter intactas as primitivas quatro pequenas divisões dentro do novo projeto.
Só a bela lareira alentejana que existia na cozinha original teve de mudar de sítio e de feitio porque essa divisão foi promovida a salinha de estar.
Sou tão profundamente grato à memória de todos eles, santo Deus. Tudo quanto me ensinaram me fez falta e me ajudou a vencer inúmeros obstáculos, para atingir metas. Por isso, de todos eles, esta incurável saudade...

domingo, 1 de março de 2026

Rumo ao sol poente

Quando tomei a decisão de regressar definitivamente à Beirã tinham já passado mais de trinta primaveras a viver fora dela, pese embora nunca demasiado longe. Esse sonho nunca me abandonou desde que de tive de sair, a sete de maio de 1971, para assentar praça como recruta voluntário no então Batalhão de Caçadores Nº 8 em Elvas, até sete de outubro de 2003 quando, promovido a sargento-ajudante da GNR, essa promoção determinou a minha colocação no Agrupamento de Instrução em Portalegre, em funções administrativas,
Farto de andar com a casa às costas, foi mesmo essa situação que me impeliu a voltar definitivamente à terra para habitar a casa que tinha adquirido ao meu pai e reconstruído, com a firme intenção de nunca mais de cá sair. Foi exatamente o que fiz, deslocando-me diariamente de casa para o local de trabalho e vice-versa nos dez anos seguintes, até passar à situação de reforma.
O íntimo apelo destas paragens, destas ruas, destas pessoas, destes canchos e matagais, deste aroma das giestas em flor na primavera e da paz infinita que se respira por toda a parte o ano inteiro, nunca deixou de se fazer sentir no meu subconsciente, porque foi, é e será sempre para mim, o mais perfeito paraíso na terra.
Nunca encontrei lugar mais sedutor, apesar de ter conhecido algumas terras lindas de gente boa que nos recebeu e tratou sempre muito bem, onde estabelecemos por isso amizades genuínas, daquelas que são para durarem a vida toda.
Li já não sei onde, que os elefantes voltam sempre ao lugar onde nasceram quando sentem que se aproxima o fim. Provavelmente serei também portador desse instinto primário, porque nunca imaginei outra hipótese. Tanto assim é que há muito, muito tempo – tinha ainda só 45 anos – tratei de comprar a outra “casa” onde irei “morar” por toda a eternidade ao lado daquela onde “moram” já os meus queridos progenitores.
Recordo a reação e surpresa da família mais próxima, quando tal aconteceu. Mas não me demoveram dos meus propósitos. Nunca fui supersticioso e soube sempre muito bem o que queria, não tive por isso a menor hesitação em avançar com a aquela aquisição pela exclusiva razão de querer mesmo descansar eternamente ao lado dos dois entes queridos a quem devo a vida e tanto amei.
Sou homem de convicções fortes, determinado, com as ideias em ordem e muito bem resolvido, por isso entendi que estava apenas e atempadamente, por firme e lúcida decisão a adquirir – antes que outros o fizessem – aquele lugar onde e junto de quem quero descansar, quando chegar a hora de ir ao encontro deles.
Nem tudo foram rosas no decurso desses mais de trinta anos de ausência. Pelo contrário. A ida à guerra ensinou-me da pior forma o quanto é bom vivermos em paz, o intrínseco valor da vida e o quanto ela é frágil, imprevisível, fugaz. Nos piores momentos voltei-me sempre para a Mãe do Céu que deixara na Beirã muito perto da minha Mãe da Terra, tendo todas as razões e outras tantas convicções que se não fosse a sua divina proteção, talvez já não estivesse aqui.
Mas adiante, que essas deduções íntimas devem ser guardadas só mesmo para nós.
Abordei o assunto apenas para concluir que não foi a guerra em Angola o pior que vivi, mas também muitas outras misérias humanas que tive de enfrentar enquanto profissional; nas Minas da Panasqueira vi morrerem camaradas entaipados nas profundezas da terra esmagados por desabamentos de tetos instáveis – ao saberem isso, quer a minha mãe, quer a mãe dos meus filhos, não descansaram enquanto não me convenceram a sair de lá.
Ingressei na GNR, a tal vida presumivelmente melhor que a de mineiro, para ter de lidar com pais que mataram filhos, filhos que batiam nas mães, famílias desfeitas em acidentes de viação, violência doméstica das mais perversas formas, roubos e vigarices com mais ou menos perversidade, chefes que se julgavam deuses e pisavam sem compaixão quem tinham ao alcance dos pés, enfim, um sem número de coisas que me foram sempre ensinando a valorizar cada vez mais a minha tranquila e tão bem frequentada aldeia.
Daí o anseio pelo regresso cada dia – e foram mesmo muitos – de ausência.
Não imaginava que o meu sonho de uma vida inteira viria a ser tão doloroso como começou a sê-lo no dia que a aldeia do meu coração foi injustamente condenada ao abandono. Não estando porém ao meu alcance reverter ou modificar tão funesto veredicto, tenho de viver com ele, que remédio.
Como disse o poeta, “todo o mundo é composto de mudança”.
Sigo assim a minha caminhada pelo outono da vida, rumo ao sol poente. Serenamente, triste às vezes, conformado outras e esperando o dia em que ele não voltará a nascer para mim.

Gratidão


Do mesmo modo em que um dia chegamos sem nada trazer, virá outro em que iremos embora sem nada levar também, porque o tempo que a cada um de nós é concedido, vem com princípio e fim.

Sem dramas, sem receios e sem qualquer amargura, sei que o meu naturalmente se vai aproximando do término da jornada, porque sinto o raciocínio, a agilidade, a força, a energia e as capacidades cognitivas a diminuírem, cada dia que passa.
Não terei sido tão feliz quanto desejava, mas fui com toda a certeza o suficiente para reconhecer que valeu a pena ter nascido.
Não tive tudo o queria, mas tive o bastante para hoje olhar para trás e com toda a honestidade agradecer:
- Obrigado Vida por tudo o que me deste.
01. 03. 2026

O que a vida trouxe, a vida levou

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Bom Fim de Semana


Hoje quando o passado me bate à porta não o atendo mais, não paro sequer para lhe responder e continuo o meu caminho sem lhe prestar atenção.

Aprendi que quando tudo desaba e a vida me desafia está apenas a lembrar-me que o tempo que me resta é para ser vivido e não desperdiçado.

Tenho anos suficientes para saber que o passado não é um peso para carregar, mas sim uma lição para aprender.

Não se vive dele. Cresce-se com ele.

Não apago o que fui nem nego o que vivi, mas aprendi que há guerras que só vencemos quando temos coragem de as abandonar.

E que a verdadeira sabedoria é…  

Seguir em frente.

                                       José Coelho