Introdução:
Este texto teve origem na indignação que senti num momento de profunda dor quando uma pessoa da minha família se apresentou enfeitada e colorida como uma árvore de Natal no funeral de quem a ajudou a criar.
Há quem diga com a maior leveza: “Hoje o luto já não se usa.” Mas eu digo com toda a firmeza: O luto não é moda para “usar” ou “deixar de usar”. O luto é respeito. E o respeito nunca sai de moda.
Cresci no seio de gente humilde que não tinha estudos, mas tinha palavra. Gente que não tinha luxo, mas tinha honra. Gente que sabia que, quando alguém parte, não se acompanha à sua última morada todo “empampoulado” como se vai para uma festa.
E é isso que muitos jovens de hoje precisam de ouvir – não com paninhos quentes, mas com verdade:
Ir a um funeral vestido como quem vai para uma festa, não é modernidade. É desconsideração.
E não se trata de usar preto da cabeça aos pés. Não se trata de seguir tradições antigas. Trata-se de ter noção.
Noção que:
Um funeral não é palco – é despedida.
A dor merece respeito – não exibição.
A memória merece dignidade – não indiferença.
Quando alguém - como foi o caso - aparece no funeral de um ente querido muito próximo com roupa desadequada, a mensagem que passa, mesmo que não seja essa a intenção, é simples:
– Não entendo a importância deste momento.
E isso magoa. Magoa profundamente quem amou, quem cuidou, quem perdeu.
Eu vi a minha mãe faltar ao banquete do casamento do meu filho mais novo porque tinha perdido também o seu irmão mais novo – o tio Raimundo – dias antes. Não por obrigação. Não por tradição. Mas porque o seu coração não sentia que era dia de festa.
Hoje há quem faça luto público por um animal de estimação – e nada contra isso – mas não consiga vestir algo discreto quando perde um pai, uma avó, um irmão.
Há quem publique laços negros nas redes sociais, mas não tenha a sensibilidade de mostrar um simples gesto de respeito no momento da despedida de alguém a quem deve amor e respeito.
Isso não é evolução. É desligamento das raízes. É comodismo emocional. É falta de educação no sentido mais profundo da palavra.
E por isso afirmo, sem nenhum medo de ferir suscetibilidades:
O luto não acabou. O que está a acabar é a capacidade de sentir.
E isso é muito mais grave.
Quem ama, respeita.
Quem respeita, demonstra.
Quem demonstra, honra.
E honrar quem nos deu vida, quem nos criou, quem nos amou, não é opcional.
É o mínimo dos mínimos de tudo o que merece.






