domingo, 2 de agosto de 2026

Solpor (como diziam os antigos)

O sol desce devagar, como quem sabe que a terra precisa de um último afago antes de entrar na noite. A luz espalha-se pela planície da Beirã com a lentidão dos gestos antigos, aqueles que os homens da aldeia sempre tiveram quando trabalhavam a horta: nada era feito à pressa, tudo era feito com verdade.
Ali, onde o horizonte se acende em laranja e ouro, vejo o lugar onde o meu pai e o ti João Forte passavam os dias. A terra era o relógio deles. A sombra das árvores marcava as horas, o vento dizia quando era tempo de regar, e o silêncio ensinava a paciência.
Hoje, quando olho estes poentes, não estou apenas a ver o fim do dia – estou a ver o princípio de tudo o que me fez homem. Cada pôr do sol é uma chamada discreta, uma mão pousada no meu ombro, um “estamos aqui” dito sem voz.
Talvez seja por isso que não há um dia sequer em que não me lembre deles: porque o sol, ao descer, ilumina sempre o sítio onde guardei a minha infância. E a infância, nunca se perde – apenas muda de lugar dentro de nós.
Texto e foto

Crepúsculo

Mais um fim de dia em que o mundo parece suspenso, como se respirasse por mim. O sol desce devagar, sem pressa de se despedir e a sua luz espalha-se pelas paredes brancas como os lençóis que a minha mãe estendia ao vento.
Nestas horas, tudo o que sou se torna mais nítido: a terra, a memória, o silêncio.
Deambulo pelo quintal como quem revisita uma casa interior. O cheiro da hortelã, a sombra das oliveiras, o rumor das galinhas da vizinha Maria Bonacho que se ajeitam para a noite no galinheiro, tudo me reconhece, tudo me chama pelo nome.
Há uma fidelidade neste lugar que não existe em mais lado nenhum e que nunca me abandona, mesmo quando a minha mente se dispersa como uma gata vadia.
Hoje enquanto degustava uma fatia de melancia fresca e doce como açúcar, houve um instante em que o mundo se alinhou. A fruta soube-me como se fosse uma pequena epifania, a revelação simples de que a vida ainda sabe ser boa, mesmo quando tropeçamos nos nossos próprios pensamentos.
Ali encostado à bancada da cozinha, a luz filtrada pela cortina da janela a bater-me no rosto e um fio de sumo da melancia a escorrer-me pela mão.
A noite aproximava-se devagar, os canchais da Beirã tornam-se sombras altas, e o vento que desce da serra traz consigo histórias de pastores, de romarias, de mulheres que rezavam ao pé da lareira, de homens que guardavam a honra como se fosse um poço fundo.
Sou feito dessa matéria: de terra, de memória, de serviço, de cuidado. Sou feito de tardes em que a mente fica dispersa, mas também de outras em que ela regressa inteira, como a tal gata vadia a voltar ao colo do dono, depois de vaguear pelo mundo.
E eu escrevo.
Escrevo, porque há amizades que se constroem na palavra, e as palavras só nascem quando alguém que gosta de as escrever, lhes abre a porta.
Que o crepúsculo anoiteça serenamente. E que este texto chegue até vós leve como a mão que a minha companheira pousa sobre meus os ombros enquanto sussurra: “vamos para dentro, Zé, que a aragem já começa a arrefecer".

José Coelho

A todos os que passam pelo “Meu vício da escrita”

Hoje o contador ultrapassou a fasquia dos 150.000 visitantes. É um número grande, sim – mas maior ainda é o gesto de cada pessoa que aqui chega.

Agradeço aos que vêm porque gostam do que escrevo, porque encontram nestas palavras um eco das suas próprias memórias, das suas terras, das suas vidas.

Agradeço também aos que chegam apenas por ouvirem dizer, por curiosidade, por acaso – porque cada visita é uma porta que se abre, e eu recebo todos com o mesmo respeito.

E agradeço, sem ironia e sem reservas, aos que vêm com outras intenções que não as já citadas. Também eles fazem parte deste caminho: ajudam-me a manter a honestidade, a firmeza e a clareza com que escrevo. A presença deles lembra-me que a escrita é livre, e que quem publica deve saber permanecer inteiro.

A todos, sem exceção, deixo o meu obrigado. Que este espaço continue a ser encontro, memória e companhia, como a luz suave que cai sobre a Beirã ao fim da tarde.

José Coelho

Para quem gosta do que escrevo

Hoje partilho convosco este texto que me é muito querido. Fala da vida, da memória e do amor que permanece. Espero que vos inspire tanto quanto me inspirou a escrevê-lo.

A parte que ninguém esquece

Talvez um dia eu me esqueça. Dos nomes que hoje me chegam com nitidez, como se cada sílaba tivesse o peso de uma vida inteira. Dos lugares onde fui feliz sem saber que era felicidade; dos caminhos de terra onde deixei pegadas que o vento tratou de levar; dos portões que abri e fechei; dos bancos onde me sentei a ver o tempo passar, como quem observa um rio que nunca repete a mesma água. Dos porquês, das razões que me moveram, dos sonhos que me empurraram, das dores que me ensinaram a ser mais inteiro.

Talvez as minhas mãos já não saibam onde pousar. Talvez tremam, talvez procurem, talvez se tornem estrangeiras para mim. Mãos que outrora seguraram ferramentas, que colheram frutos, que ampararam vidas, que escreveram histórias, que tocaram rostos com a delicadeza de quem sabe que cada gesto pode ser o último.

Talvez os meus olhos vagueiem por rostos familiares sem encontrarem abrigo no reconhecimento. Talvez veja a minha gente como quem vê sombras ao fim do dia: formas que o coração conhece, mas a memória já não alcança.

Talvez eu não saiba mais quem sou. Talvez o meu nome se dissolva como um eco que se perde na serra. Talvez a minha história se torne um livro fechado que já não consigo abrir.

Mas, ainda assim, terá valido a pena.

Porque a história que vivemos não depende apenas das lembranças que guardamos. Ela mora também nos outros. Mora em quem ouviu o meu riso e se sentiu mais leve, como se o mundo tivesse ficado um pouco menos pesado. Mora em quem chorou comigo e descobriu que a dor partilhada é uma ponte que nos salva. Mora em quem toquei com presença, com cuidado, com verdade, essa verdade que não precisa de palavras, porque se reconhece no olhar, no silêncio, na forma como se fica ao lado de alguém mesmo quando não há nada a dizer.

Se um dia a lembrança me faltar, espero que o amor que dei permaneça. Porque o amor não se apaga. Não se perde. Não se desfaz. O amor é como água de nascente: mesmo quando não sabemos o nome da fonte, a água continua a correr.

E quando já não puder contar a minha própria história, que ela continue sendo contada por quem fui abrigo, por quem fui passagem, por quem me amou, mesmo quando eu já não soubesse mais o que era amor.

Que a minha vida sobreviva nos gestos que deixei, nas palavras que ofereci, nas mãos que segurei, nas portas que abri, nos silêncios que respeitei, nas presenças que mantive mesmo quando o mundo parecia desabar.

É por isso que vale a pena viver com inteireza. Porque, mesmo quando tudo se desfaz, mesmo quando o corpo falha, mesmo quando a memória se fecha, a parte de nós que se fez amor permanece.

Permanece como luz acesa numa casa antiga, como canto de ave ao amanhecer, como cheiro de terra molhada, como abraço que não se esquece.

E essa parte… essa parte ninguém esquece.

José Coelho

sábado, 1 de agosto de 2026

O lugar onde a melancolia se torna luz

Há um momento na vida em que começamos a perceber que a melancolia não é inimiga da alegria. É, antes, o seu reflexo mais profundo. A melancolia aparece quando olhamos para trás e vemos que aquilo que nos fez felizes já não está ali da mesma maneira.
Não desapareceu, apenas mudou de lugar.
A Francisca, com o seu voleibol, com as viagens, com as vitórias e derrotas que a vão moldando, está a aprender o mundo. Sei, com a serenidade de quem já viveu muito, que isso é bom. Que isso a faz crescer. Que isso a protege de ficar presa a uma infância eterna que não existe. Mas ao mesmo tempo, sinto aquele vazio suave, aquela falta que não dói como ferida, mas como ausência.
É o coração a dizer: “Foi tão bom enquanto durou.”
A Mariana, essa alma inquieta que me saiu ao jeito, corre atrás da vida como quem sabe que cada dia é uma oportunidade. Música, ginástica, fanfarra, rancho – ela é como um rio que não aceita ficar parado. E eu olho para ela com orgulho, porque vejo nela a minha própria energia, a minha própria vontade de estar onde a vida acontece. Mas também sinto a falta daquela menina que acampava aos pés da nossa cama.
É inevitável.
E é aqui que a melancolia se transforma em luz.
Porque a melancolia não é sinal de perda, é sinal de plenitude. Só sente melancolia quem viveu momentos tão bons que o coração não os quer deixar ir. Só sente melancolia quem amou com verdade. Só sente melancolia quem foi casa, quem foi porto, quem foi colo.
A sua bisavó Florinda, sábia sem letras, sabia isto: a vida não nos pertence, passa por nós. E as únicas coisas que podemos fazer é aceitar, agradecer e guardar.
Aceitar que o tempo voa. Agradecer o que ele nos deu. Guardar o que permanece.
E o que permanece não é a rotina, nem a presença diária, nem os colchões de campismo espalhados no chão. O que permanece é o vínculo. É o amor que ensinamos. É a memória que deixamos. É o riso que ainda ecoa. É o abraço que ainda aperta. É o respeito que elas têm por nós.
É a história que nunca se apaga.
A melancolia é apenas o lado noturno da alegria. E eu, que sei caminhar pelos campos silenciosos ao entardecer, sei também que a noite não é ausência de luz, é outra forma de a ver.
Texto (e foto do baú)

Bom fim de semana

Entre telhas antigas e o verde que nunca falha, a casa onde nasci ergue duas chaminés como sentinelas do tempo, guardando o que fui, o que sou, e o silêncio bom da Beirã.
Eu nasci neste bairro onde a serra parece chegar primeiro que o sol. Cresci entre paredes brancas e o cheiro da terra molhada depois da rega. A casa das duas chaminés foi sempre o meu norte, não apenas o lugar onde nasci, mas o lugar onde aprendi a ser.
Cada rua guarda passos meus, cada árvore conhece o meu silêncio, cada tarde tem um pedaço da minha infância. Aqui descobri que a vida se faz devagar, como quem colhe fruta madura ao fim da tarde.
Aqui aprendi a ouvir o vento, a cuidar da horta, a reconhecer o canto das aves do quintal. Aqui percebi que pertenço a este chão de uma forma que não se explica, sente-se.
E quando olho para esta fotografia do meu bairro, vejo mais do que casas: vejo a minha história inteira, erguida contra o céu azul e guardada por memórias que nunca deixaram de me chamar de volta.

Quando o tempo voa e deixa rasto

Há momentos na minha vida em que o tempo me parece um pássaro pousado na palma da mão: quieto, dócil, quase eterno. E há outros em que ele levanta voo sem aviso, deixando-me a olhar para o céu, tentando perceber quando foi que as asas se abriram. Talvez seja assim com o amor – chega devagar, cresce connosco, e um dia parte para crescer noutro lugar.
Durante anos, a Toca dos Coelhos foi o centro do mundo para as minhas netas. A Mariana, ainda pequena, vivia as férias como quem recebe um tesouro. No próprio dia em que a escola fechava, já tinha a mochila pronta, alinhada à porta, à espera do pai. Não queria perder tempo: vinha direta da escola para a nossa casa, como se aquele trajeto fosse o caminho mais curto para a felicidade.
Um ou dois dias depois chegava a Francisca, completando o ciclo que enchia a casa de luz. A Filipa, mais velha, ficava com a mãe, mas trazia sempre consigo aquela presença tranquila que não precisa de estar para ser sentida. E então começava a festa. Não uma festa organizada, mas uma festa vivida. Daquelas que não se planeiam, apenas acontecem.
Nem queriam dormir nos seus quartos. Preferiam acampar no nosso, como se o chão aos pés da cama fosse território sagrado. Colchões de campismo, risos abafados, histórias inventadas, conversas que só existem na infância. Aquelas noites eram eternas, ou pelo menos pareciam ser. E nós, eu e a Maria Manuela, éramos o centro desse pequeno universo onde tudo era permitido: rir, cantar, inventar, viver.
Mas o tempo… o tempo tem asas. E voa.
Hoje, a Francisca percorre o país com o voleibol, torneio após torneio, estrada após estrada. Tem novos amigos, novas prioridades, novos sonhos. Chega menos vezes, mas quando chega, traz aqueles abraços apertados que dizem tudo sem dizer nada: “Avô, continuo a gostar muito de ti, mas o mundo está a chamar por mim.”
E eu entendo. Porque amar também é saber deixar ir.
A Mariana, no outro lado da serra, já não é a menina que acampava aos pés da nossa cama. Cresceu, ganhou mundo, ganhou ritmo, ganhou vida própria. Para além das aulas, frequenta a Escola de Música Adágio em Portalegre duas vezes por semana, faz parte da classe de ginástica da escola, é membro ativo na fanfarra dos Bombeiros de Castelo de Vide a tocar caixa com ensaios semanais, e ainda agora aderiu ao Rancho Folclórico de Castelo de Vide.
Em resumo: não para. Vem muitas vezes, é verdade – almoços, jantares, encontros semanais – mas já não vem como quem chega para ficar. Vem como quem passa, como quem visita, como quem cresce.
E eu olho para elas e vejo o que sempre soube: o colo não é casa permanente, é ponto de partida.
Ainda ontem eram bebés. Hoje são mulheres em construção. E amanhã… amanhã serão memórias que me aquecem o peito.
Por isso digo aos pais, com a serenidade de quem já viu o tempo fazer das suas: “Vão metendo as barbas de molho. Também as vão ver irem embora. É só uma questão de tempo.”
E é verdade. O tempo não pede licença. Não pergunta se estamos prontos. Não espera que o coração se prepare.
O tempo voa. Mas deixa rasto.
Deixa o cheiro das férias antigas. Deixa o som das gargalhadas no quarto. Deixa a imagem dos colchões espalhados no chão. Deixa a memória das noites em que ninguém queria dormir porque viver era mais urgente. Deixa o toque dos abraços apertados. Deixa o eco das vozes que cresceram dentro da minha casa.
E, no fim, percebo que o tempo não leva tudo. Leva a presença, sim. Leva a rotina, leva a infância, leva a disponibilidade. Mas deixa o essencial: o amor que dei, o amor que recebi, o amor que permanece.
As minhas netas voaram do meu colo como todas as crianças fazem. Mas não voaram da minha história. Nem da minha memória. Nem daquilo que sou para elas.
Porque isso… isso o tempo não leva.
Nunca.
Francisca Coelho
Imagem.