quinta-feira, 14 de maio de 2026

Não era apenas uma linha

Em 2012 era assim
Em 2026 está assim 

Hoje vou escrever – uma vez mais – sobre o Ramal de Cáceres.
Não como linha férrea. Não como obra de engenharia. Escrevo como quem fala do coração de um velho amigo que deixou de bater, porque quando os comboios deixaram de passar não encerrou apenas um serviço público. Encerraram um capítulo inteiro das nossas vidas.
Nasci a ouvir o silvo rouco das antigas máquinas negras. Aquele vapor quente que invadia a aldeia como um nevoeiro vivo. A minha casa, pousada na colina sobre a Estação, é um miradouro para a linha férrea. De dia via-se o movimento. De noite, os holofotes rasgavam a escuridão até ao depósito das águas, lá no alto.
Toda a minha infância e juventude foram feitas desse filme.
Quando o comboio assomava ao Sesmo, vindo de Valência de Alcântara, o seu rugido chegava ao meu quarto como o de um animal familiar. E do lado oriente, no quarto dos meus pais, ouvi-os muitas vezes dizer:
– Vem aí mudança de tempo… esta noite ouviam-se os comboios logo da Atalaia.
O comboio era o nosso relógio. O nosso boletim meteorológico. O nosso mensageiro.
Também a casa dos meus avós vivia colada à linha. Na Cavalinha, as guardas das cancelas abriam e fechavam-nas para que as composições passassem em segurança. E eu, pequeno, seguia o meu avô Zé Lourenço pelos campos. Ele encostava o ouvido aos postes dos fios telefónicos e dizia-me:
– Escuta, rapaz… são as meninas a cantar.
E era verdade. Havia ali uma música que só quem a viveu a sabe reconhecer.
Depois veio a juventude. A primeira grande partida.
Aos 17 anos a viagem para Évora. Horas de carris, transbordos, estações desconhecidas. E ao longo de décadas o comboio foi sempre a ponte que me levou e trouxe: Elvas, Lisboa, Estremoz, Santa Margarida, Angola.
Foi ele que me devolveu à Beirã, são e salvo, depois de 27 meses de guerra.
Foi ele que me levou às Minas da Panasqueira. Foi ele que me transportou semana após semana quando quis subir na carreira. E como eu, milhares. Por isso custa tanto aceitar que tenham fechado este ramal como quem fecha uma porta sem olhar para trás.
Hoje o mato e as silvas engolem os carris. As estações definham. A memória esbate-se na bruma. Dizem que não era rentável. Mas quem decidiu isso? Quem nunca viajou nele, porque não sabia que a região inteira precisava deste transporte.
Quantos camiões TIR retiravam das estradas os potentes “mercadorias” com 30 vagões que circulavam dia e noite carregados de contentores, vagões silo de cereais, vagões-cisterna, vagões de automóveis, de eletrodomésticos, de comércio, de economia, de postos de trabalho?
Pergunto, com a tristeza de quem viveu tudo isto:
Não pagamos nós também impostos?
Não somos nós portugueses como os outros?
Ou só o somos quando chega a hora de encher as urnas?
O Ramal de Cáceres não era apenas uma linha. Era a espinha dorsal da região. E arrancaram-na sem anestesia.
Mas enquanto houver quem conte, enquanto houver quem se lembre, enquanto houver quem fale ou escreva … o Ramal de Cáceres não morre.
Texto e fotos

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O silêncio é um amigo

Há momentos em que o silêncio me envolve com uma mansidão antiga, como se tivesse aprendido quando necessito dele. E nesses momentos, a memória senta-se também ao meu lado.

Sem bater à porta e sem pedir licença, entra devagarinho, como um vizinho antigo que já conhece os cantos à casa.

E eu deixo.

O silêncio, nunca incomoda.

Aconchega.

E a memória traz-me à lembrança rostos que já não vejo, risos que o vento levou, cheiros e momentos que só a infância sabe guardar.

A voz da minha mãe a cantarolar enquanto acendia o lume para fazer a ceia, ao cair da noite.

O chiar da porta da cozinha.

O lume a estalar, como se conversasse comigo.

E percebo que tudo isso – o que vivi, o que perdi e o que ficou – ainda mora em mim.

Não como peso, mas como raiz.

O passado, aqui no meu Alentejo, nunca se vai embora de verdade.

Fica entranhado na terra, no silêncio, no corpo.

Fica no modo como abrimos a porta, como pousamos o olhar, como respiramos devagar para não assustar o tempo.

Tal como os sulcos que se formam na terra lavrada, também as memórias traçam os seus dentro de mim. Uns vêm nítidos, outras chegam baços como fotografias antigas guardadas numa caixa de sapatos.

Mas todos têm o seu lugar. Todos me lembram que sou feito de instantes que ficaram agarrados à pele.

E então entendo: este silêncio é um amigo cuja presença discreta, quase tímida, se senta comigo nos dias cinzentos e me diz:

“Olha o que viveste. Olha o que te fez ser quem és.”

O passado não é um sítio onde a alma se perde. É o campo onde se semeia o presente. E cada memória – boa ou dura – é uma pedra da calçada que me trouxe até aqui.

Por isso, quando a tarde cai e o dia encolhe, deixo que o silêncio me abrace. Não para me prender, mas para me lembrar que sou feito de tempo, de encontros, de despedidas, de risos que ainda ecoam.

Sou feito daquilo que permanece, mesmo quando já partiu.

José Coelho

Respeito – o pilar que sustenta tudo o resto

Quem me conhece sabe que detesto mentiras e gente falsa. Para mim, sinceridade, humildade e respeito, não são apenas palavras bonitas, são princípios de vida. E quem não entende o peso delas, dificilmente poderá ter a minha amizade. 

Vivemos num tempo em que a aparência vale, muitas vezes, mais do que a essência. É fácil encontrar quem escolha a mentira ou a falsidade para alcançar objetivos rápidos.

Mas eu acredito, sem hesitar, que a verdade é o único alicerce sólido de qualquer relação, seja de amizade, familiar ou profissional. A mentira até pode render ganhos imediatos, mas corrói o que há de mais precioso: a confiança. E essa, todos sabemos, demora uma vida a construir e perde‑se num instante.

Ser sincero não é ser bruto, nem magoar quem está à nossa frente. É agir com honestidade e transparência, dizendo o que se pensa com respeito. A sinceridade exige coragem – porque nem sempre é fácil mostrar o que sentimos ou pensamos – mas é ela que dá profundidade às relações e as torna verdadeiras.

A humildade, essa, é reconhecer que ninguém é perfeito. É saber aprender, admitir erros, pedir desculpa quando é preciso e aceitar críticas que nos fazem crescer. A pessoa humilde não se coloca acima de ninguém; trata todos com igualdade, independentemente da origem, posição ou opinião.

E depois há o respeito, o pilar que sustenta tudo o resto. Respeitar é aceitar diferenças, ouvir com atenção, procurar compreender antes de julgar. Sem respeito, não há confiança, não há diálogo, não há caminho conjunto.

A amizade, para mim, não é só partilhar alegrias. É saber que nos momentos difíceis existe alguém que permanece honesto, mesmo quando a verdade dói. Por isso não abdico dos meus princípios: quem não valoriza sinceridade, humildade e respeito, não terá lugar no meu círculo de amigos.

Escolher rodear‑me de pessoas verdadeiras é um ato de amor‑próprio. Prefiro poucos, mas autênticos, do que muitos, mas vazios. É minha profunda convicção que as relações construídas sobre valores firmes, são as que realmente importam e tornam a vida mais leve, mais digna e mais nossa.

José Coelho

terça-feira, 12 de maio de 2026

Salvé Raínha


 A treze de maio, na Cova da Iria...
Avé Maria, cheia de graça...
Toca dos Coelhos

Lugar onde o tempo não passa - ajoelha-se

Casa da Meirinha - Freguesia de Beirã

No maio luminoso abre‑se este sagrado manto florido, estendido pelos deuses da terra.

A velha casa de campo – outrora lar de numerosas famílias que viviam do sol, da ceifa e do rumor das estações – ergue‑se agora como ancestral fortaleza, guardiã de segredos que só o vento ousa repetir.

Lá ao fundo, onde o horizonte se dissolve nas terras de Espanha, a fronteira parece uma linha traçada por gigantes, mais antiga do que qualquer reino.

Sob esta vastidão dormem cinco milénios de humanidade: antas que vigiam a noite como sentinelas de pedra, menires que apontam o caminho das estrelas, lagaretas talhadas pelos primeiros artesãos do mundo, e povoados alto‑medievais que ainda murmuram o eco de passos esquecidos.

Aqui, onde a terra respira mito, cada flor é um sinal, cada sombra é uma memória, e cada sopro de vento traz consigo a voz dos que por aqui caminharam antes.

Neste lugar, o tempo não passa – o tempo ajoelha‑se.

José Coelho

O tempo já não me engana

Há dias em que acordo e sinto que o tempo deixou de correr. Já não foge, já não me empurra, já não me desafia. Caminha ao meu lado como um velho conhecido que perdeu a pressa e a vaidade. A maturidade ensinou-me que a vida não se mede em décadas, mede-se em lembranças. Momentos que ficaram, palavras que ficaram, pessoas que ficaram… e outras que partiram sem sequer fecharem a porta.

A velhice, dizem, é um inverno. Eu não acredito nisso. Para mim, a velhice parece-se mais com o fim de uma tarde de verão alentejano: ainda está calor, mas já não queima; a luz ainda brilha, mas já não cega; e o silêncio ganha uma profundidade que antes não sabíamos escutar. Agora já não me iludo com promessas – nem as minhas, nem as dos outros.

Há verdades que só se revelam tarde, como certas flores que só abrem ao anoitecer.

Durante muitos anos, acreditei que os filhos seriam o meu porto seguro. Que a velhice seria uma mesa cheia, vozes pela casa, passos no corredor. Mas a vida tem o seu próprio ritmo – e o ritmo deles não é o meu. Hoje sei que os filhos não são âncoras. São barcos.

Partem. E é justo que partam.

A solidão que dói não é a ausência deles. É a ausência de mim próprio, quando me esqueço de que ainda existo para lá das memórias que guardo. Com o avançar da idade, aprendi que a solidão não é inimiga, é um espelho.

E às vezes custa olhar.

Nesta idade, o corpo fala. Fala baixinho, mas fala sempre. Um joelho que protesta, uma lombar que se queixa, um cansaço que chega sem pedir licença. Mas também há uma sabedoria nova: a de agradecer cada manhã em que me levanto sem nenhuma dor, cada passo que ainda dou, cada respiração que não custa. A saúde já não é garantia, é empréstimo.

E eu aprendi a tratá-la com a delicadeza de quem segura algo frágil, sabendo que um dia terá de o devolver.

Durante anos, imaginei o Estado como um pai distante: falhava, mas no fim aparecia. Mas ao reformar-me percebi que o Estado não é pai de ninguém. É uma máquina e as máquinas não têm compaixão. A reforma chega curta. Os preços chegam longos. E no meio desta matemática cruel, descobri que a dignidade é um ato de resistência.

Não espero milagres. Espero apenas que me deixem viver com o pouco que tenho e com o muito que ainda sou.

Há quem envelheça para baixo, como se a idade fosse um peso que os puxasse para o chão. Eu escolhi envelhecer para dentro. A velhice não me tornou fraco – tornou-me lúcido. Já não me queixo por hábito.

A queixa é uma forma de desistir. E eu ainda não desisti de mim.

O passado é uma tentação. Brilha mais do que brilhou, cheira melhor do que cheirou, parece mais fácil do que foi. Mas o passado é um país onde já não moro. Por isso aprendi a viver no presente, não porque ele seja perfeito, mas porque é o único lugar onde ainda posso fazer alguma coisa.

Por mim e pelos outros, como foi sempre meu timbre.

E se o tempo já não me engana, é porque finalmente aprendi a caminhar ao lado dele, sem medo de ficar para trás e sem pressa de chegar a lado nenhum. O que me resta não é pouco: é o essencial – estar vivo, estar lúcido e ser ainda capaz de sentir o mundo com a mesma profundidade com que sempre o vivi.

José Coelho

Nostalgia – um abraço do tempo

A chuva cai devagar, como se tivesse aprendido a respeitar o silêncio da casa. As gotas escorrem pela vidraça e desenham caminhos que não escolhi, mas reconheço – são os mesmos caminhos que a memória percorre dentro de mim quando o mundo abranda e me deixa ouvir o que ficou para trás.
Nesses instantes suspensos, percebo que a nostalgia não é tristeza. É antes um abrigo, um gesto antigo que me envolve os ombros como a manta que a minha mãe dobrava ao fim da tarde. É o calor discreto de tudo o que me formou e regressa para me lembrar que o passado não se perdeu: apenas repousa.
Vejo rostos que já não toco, ouço risos que o tempo afinou, sinto aromas que só a infância sabe guardar. Cada lembrança – nítida como um rosto ao sol ou difusa como um cheiro esquecido – é um fio do tecido que me veste a alma.
Sou feito disso: de fragmentos, de ecos, de pequenas eternidades que ficaram presas ao corpo como cicatrizes luminosas.
Tal como a chuva que inventa mapas no vidro, também as memórias se movem dentro de mim: umas suaves, outras intensas, mas todas vivas. Às vezes basta o tamborilar da água no telhado para que um dia inteiro de outro tempo se levante, intacto, como se nunca tivesse partido.
E então compreendo: a nostalgia não é um peso. É um laço invisível, firme e leve, que me prende ao que fui e ao que ainda sou.
Não dói – ilumina.
É uma presença silenciosa que se senta ao meu lado nos dias cinzentos e me recorda que cada gesto, cada escolha, cada encontro deixou uma marca que ainda pulsa.
O passado não é um país onde a alma se perde. É o terreno fértil onde crescem as raízes do presente. As memórias – as boas e as que custaram a passar – são pedras fundamentais na construção de quem me tornei.
E é na nostalgia que encontro a aceitação mansa de tudo o que vivi, como quem olha para um campo depois da colheita e reconhece: cada sulco teve o seu propósito.
Por isso, quando a chuva cai e o dia se torna cinzento, deixo que a memória me abrace. Permito que o passado se sente comigo, não como sombra, mas como claridade. E reconheço, com a serenidade de quem já caminhou muito: sou feito de tempo, de instantes, de perdas e de ternuras que ficaram.
Sou feito de tudo o que permanece, mesmo quando já partiu.
Texto e foto