Havia dias em que o mundo parecia caber dentro do nosso quintal. Não era metáfora: era verdade. O sol nascia sem pressa, como se soubesse que ali ninguém corria para lado nenhum. A luz entrava pela manhã com a delicadeza de quem pede licença, pousando nas flores que a minha mãe plantava com devoção – cada cor, cada pétala, cada cheiro era uma forma de cuidar da casa, da família e do tempo.
As galinhas riscavam o chão com a curiosidade antiga de quem conhece todos os segredos da terra. Havia nelas uma sabedoria que não se aprende nos livros: sabiam quando vinha chuva, quando o dia ia ser quente, quando o ribeiro da Cavalinha começava a engrossar lá ao fundo. E a cadela Toiota, companheira fiel do meu pai, guardava o caminho com aquela serenidade que só os animais bons possuem. Era presença, era companhia, era parte da casa.
A casa dos meus pais antes de ser Toca dos Coelhos era bem mais pequenina, mas tinha o tamanho exato da felicidade possível. As paredes guardavam histórias, o quintal guardava trabalho, guardava memórias e risos.
A avó Amélia vivia perto, no meio do campo, numa casa que parecia ter sido desenhada pelo silêncio. Era uma casa por onde o vento passava como quem visita um velho amigo; o ribeiro ali ao lado, murmurava histórias que só ela entendia; e nós, quando lá íamos, sentíamos que o mundo ficava mais lento, mais macio, mais verdadeiro.
A avó Amélia tinha o dom de transformar o tempo em colo. O seu coração era leve não por falta de problemas, mas porque o tempo tinha outra textura.
Caminhava-se devagar, como quem sabe que cada passo é uma forma de agradecer. O café quente feito em lume de chão, num “puchero” de barro, o cheiro da terra molhada, o rumor das folhas ao vento, tudo era suficiente. Tudo era verdadeiro. A vida não era perfeita, mas era boa.
E isso bastava.
Hoje quando o mundo parece correr mais do que viver, é fácil esquecer essa leveza que um dia nos habitou. A urgência tomou o lugar da contemplação e a pressa substituiu o silêncio.
As casas tornaram-se maiores, mas os corações, mais apertados. Os caminhos são mais rápidos, mas as chegadas, mais raras.
Há memórias que não são apenas lembradas, são também sentidas. E a da da casa dos meus pais antes de ser Toca dos Coelhos é uma delas. Tem cheiro, tem sons, tem luz própria. Tem tudo o que faz o coração leve.
E talvez seja isso que o meu coração procura, não para voltar atrás, mas para reencontrar o caminho onde a vida era simples.
E para mim esse caminho começa sempre no quintal dos meus pais e dos meus avós, onde o mundo era pequeno, mas a felicidade, enorme.
Tenham um excelente dia.
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