A minha saudade chega como a luz da Beirã ao entardecer: devagar, inclinada, pousando nos telhados como quem conhece cada pedra pelo nome. É um silêncio que fala dentro de mim, uma presença antiga que nunca se ausenta verdadeiramente.
Carrego-a desde menino. Vem das ruas da aldeia, do cheiro da terra quente, das vozes que se ouviam antes de se verem, das tardes longas em que o tempo parecia ter a delicadeza de não correr. Vem da casa dos meus pais, onde a luz amarela da cozinha era abrigo, promessa e mundo inteiro.
Nasce dos que partiram, mas que ficaram. Ficaram no modo como olho para os meus filhos e para as minhas netas. Ficaram no meu gesto, na minha palavra, no meu respeito pelas coisas simples, porque há heranças que não se guardam em caixas, guardam-se no coração.
E quando a tarde cai – essa hora em que a Beirã fica mais verdadeira – sinto que a minha saudade não é ausência.
É presença.
É perfume de um tempo que passou, mas que continua a acender luzes dentro de mim.
É o eco das vozes que amei, das mãos que me ensinaram, dos passos que caminharam ao meu lado.
É uma saudade que não me entristece, engrandece-me.
Porque só quem sente assim é quem viveu com verdade, quem recebeu dos seus uma educação feita de bondade, de trabalho, de silêncio bonito e a transmitiu como quem passa uma chama que não se apaga.
Eu sou esta saudade. Sou feito dela. Sou o que fui, sou o que continuo a ser, sou o que guardo e o que honro.
E quando falo da minha saudade, não o faço para me lamentar. Faço-o para agradecer. Porque ela é a prova mais serena de que a minha vida valeu – e continua a valer – a pena.

.jpg)



