sexta-feira, 1 de maio de 2026

Para ti, companheira dos nossos últimos 55 anos

Anteontem, mais do que nunca, percebi o que significa caminhar contigo uma vida inteira. Foram dois dias longos, noites quase sem sono, horas que pareciam não passar — mas eu estava ali, como sempre estive, como sempre estarei.
Quando te acompanhei até à Unidade de Intervenção Cardiovascular do “nosso” Lusíadas Lisboa e te levaram para te prepararem, senti o mundo a ficar mais pequeno. Mas três horas depois quando te vi acordar, senti-o a abrir-se de novo.
A tua força, mesmo frágil, é a casa onde vivo há cinquenta e cinco anos. E cuidar de ti não é um dever — é a continuação natural do projeto que começámos a construir quando ainda éramos dois jovens a aprender o mundo.
Hoje estamos já em casa. Tu a recuperar, eu a vigiar-te como quem guarda um tesouro antigo e insubstituível. E enquanto te olho, penso que a nossa história não se mede em datas, mas em gestos: o beijo antes da porta do hospital, a tua mão a procurar a minha, o silêncio que partilhámos sem precisar de palavras.
Se a vida nos deu este susto, também nos deu esta certeza: somos um do outro, e isso basta para atravessar qualquer noite.
Esta selfie que fizemos um minuto antes de entrarmos no hospital a sorrir como se fôssemos para uma festa, mostra bem a nossa resiliência e capacidade de encararmos até os momentos menos bons.
Somos humanos e por isso temos medo, sim. Mas avançamos, mesmo sentindo-o.

Beijinho do teu Zéi...

Desafio ultrapassado

A marida foi internada no Hospital Lusíadas Lisboa em 29.04.2026 para ser submetida a uma Ablação de Fibrilhação Auricular - procedimento invasivo para isolar eletricamente as veias pulmonares, impedindo que impulsos elétricos anormais causem a arritmia.
Esta intervenção é recomendada quando os medicamentos antiarrítmicos não controlam a Fibrilhação Auricular em casos selecionados para restaurar o ritmo sinusal.
Foi realizada por um eletrofisiologista na Unidade de Intervenção Cardiovascular daquela Unidade Hospitalar durante 3 horas com Técnicas de Radiofrequência/Crioablação - Métodos convencionais baseados em calor ou frio e Eletroporação (Campo Pulsado): Nova técnica mais rápida e segura, que utiliza energia para isolar as veias sem danificar tecidos adjacentes.
Após o procedimento cirúrgico com anestesia geral deu entrada na Unidade de Cuidados Intensivos pelas pelas 18h00, onde permaneceu sob vigilância até às 10h45m do dia 30.04. 2026, hora a que lhe foi dada alta para continuar em repouso e tratamentos preventivos no domicílio mais cinco dias.
Outro desafio ultrapassado que esperamos resulte e continue a correr bem, como até aqui, ao que vou ajudar com toda a minha dedicação e empenho.
Força marida, está quase...

Os amigos de verdade e os “amigos” entre aspas.

Os primeiros são raros. Os segundos aparecem por todo o lado, como ervas daninhas em vaso caro.
Os segundos são aqueles que tratam a amizade como um cartão de pontos: dão um sorriso hoje, cobram um favor amanhã. Amizade de ocasião, com prazo de validade e etiqueta com o preço.
Há os amigos de conveniência, que só nos descobrem quando precisam de boleia, de companhia ou de alguém que lhes segure o ego, enquanto eles se equilibram.
Há também os amigos da onça: ronronam pela frente, arranham pelas costas. E não, não vêm todos de Peniche. Alguns vêm de muito mais perto – tão perto que até partilham mesa e sobremesa.
E temos agora também os amigos virtuais: fazem pedidos de amizade nas redes sociais com a mesma facilidade com que ignoram um “olá” quando passam por nós na rua. São amigos de polegar, não de presença.
Depois há os verdadeiros. Os que não precisam de estar perto para estar conosco. Os que celebram as nossas vitórias como se fossem deles e que, quando nos vêem cair, não fazem discursos – fazem presença.
São os que nos dizem a verdade mesmo quando preferíamos uma mentira bonita. Os que nos dão a mão quando é preciso levantar… e os que a largam quando sabem que aquela queda é necessária porque faz parte do nosso caminho.
A amizade verdadeira não desbota. Não se gasta. Não se usa para nada – por isso serve para tudo.
Os velhos amigos são assim: a amizade com eles está sempre no princípio, nunca no fim.

Foto na muralha do segundo dos três castelos do Séc., XIV da Vila de Bellinzona, na Suíça, há duas semanas atrás. 

terça-feira, 28 de abril de 2026

Ser capaz de ser feliz


Nunca forcei um sorriso. Há quem diga que se ri para não chorar, mas eu nunca soube fazer esse malabarismo. Se rio, é porque a alma está leve. Se estou triste, o rosto fecha-se e não há máscara que me valha. Sempre fui assim: transparente, para o bem e para o mal.
A verdade é que aprendi cedo a correr atrás do que queria. Mal o sino da igreja tocava, lá ia eu rua abaixo, de pés descalços e calças remendadas, decidido a ir à “mixa”. A tia Florinda puxava-me de volta com a firmeza de quem educa sem pedir desculpa. E, sem saber, ensinava-me que a vida exige coragem, disciplina e uma certa teimosia.
Um dia, com cinco anos, decidi que também queria estar nos ensaios da Sociedade Recreativa. Ninguém me convidou, mas isso nunca foi obstáculo. Fugi da mestra Vicência e apresentei-me lá, como quem apresenta um destino. A D. Mimi e o Sr. Cardoso acharam graça ao meu atrevimento e, num instante, já estava a ensaiar uma cantiga ao desafio. A mestra não achou graça nenhuma, mas lá me deixaram ficar. Talvez porque perceberam que eu não era rebelde: era determinado.
A vida seguiu o seu curso, sempre com lutas, sempre com metas, sempre com aquela inquietação que só quem quer mais, conhece. Houve noites mal dormidas, medos que não confessei, dúvidas que me acompanharam como sombras. Mas houve também conquistas, alegrias profundas e aquele sabor único do “consegui” que nunca se esquece.
O tempo passou. A idade chegou devagar, como a noite que se aproxima no fim da tarde. E, com ela, vieram silêncios novos, rotinas mais lentas, uma serenidade que não conhecia. Já não corro ao som do sino, mas continuo a ouvi-lo. Desço a rua com calma, como quem sabe que cada passo tem o seu valor. E continuo a ser o mesmo miúdo teimoso que acreditava que podia ir onde quisesse – só que agora vou devagar, sem pressas, sem puxões de orelha.
Sou grato à família que me moldou e à vida que me deu tanto, no bom e no mau. Guardo as memórias felizes, mas foram as quedas que me ensinaram a resistir. E, no fundo, continuo a perseguir o mesmo objetivo simples e difícil que sempre me guiou:
Ser capaz de ser feliz, apesar de tudo. Mesmo de tudo.
Fonte da Praça do Castelo de Milão 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Coisas que leio e gosto


Quando completei setenta anos, sentei-me no sofá, olhei para a vida que vivi e pensei:

“Bem… é isso. Quase a reta final.”

E o que descobri?

Que muitas das coisas, em que um dia acreditei de todo o coração, não passavam de ilusões.

Filhos? Têm as suas próprias vidas.

Saúde? Desaparece mais depressa do que água a escapar de um balde furado.

O Estado? Apenas números nas notícias e promessas em voz alta.

A velhice não tem piedade.

Ataca exatamente onde dói mais: a esperança. E eu tirei as minhas próprias conclusões — amargas, realistas, mas, no fim das contas, salvadoras.

1. Os filhos não salvam da solidão.

Passamos a vida inteira a pensar: “Quando os filhos crescerem, a velhice será feliz. Vão estar por perto, vão apoiar-nos.” Soa bonito, mas a realidade é diferente. Os filhos têm os seus próprios problemas: trabalho, dívidas, as suas famílias, os seus filhos.

E tu ficas à espera de uma chamada como se fosse uma celebração. O telefone permanece em silêncio durante semanas, até que, de repente, chega uma mensagem curta:

“Olá, pai. Está tudo bem.”

Tu olhas para o ecrã, feliz por saber que estão vivos e bem. Mas a sensação de vazio não desaparece. Percebi uma coisa: os filhos não são uma garantia contra a solidão.

2. A saúde não é eterna.

Quando já não tens vontade de ir aos lugares para onde antes ias sem pensar, percebeste que a saúde não é uma reserva invisível. É o teu principal capital.

3. Reforma e dinheiro.

Uma reforma não é vida — é uma zombaria. Se depender apenas do Estado, estarás a cavar a tua própria sepultura.

Durante muito tempo, acreditei: “Não nos vão abandonar.”

Sim, vão. E sem hesitar.

Uma reforma mal chega para as contas da casa e os medicamentos. O resto — resolve por conta própria.

Foi por isso que criei as minhas próprias regras. Não são um conto de fadas — são sobre sobreviver com dignidade.

Cinco regras sinceras para a vida.

Regra 1. O dinheiro é mais fiável do que os filhos.

Não se ofenda, mas é a verdade. Os filhos são amor e alegria, mas não são um fundo de reforma.

A conclusão é simples: poupa para ti. Põe alguma coisa de lado, trabalha, pensa no teu futuro. Mesmo que seja pouco — isso é liberdade.

Regra 2. A saúde é o teu principal trabalho.

O primeiro objetivo é conseguir levantares-te da cama sem dor. Mexe-te, faz exercício, caminha. Dez agachamentos, menos sal, menos açúcar — parece simples, mas funciona.

A doença não pergunta se és rico ou pobre. Ela cerca quem não cuida de si.

Regra 3. Aprende a gostar da tua própria companhia.

Esperar é o inimigo. Esperas uma chamada, um presente, atenção… e o que chega é a desilusão.

A felicidade tem de ser criada pelas tuas próprias mãos: uma boa refeição, um bom livro, um passeio, a tua música favorita. A alegria é a melhor vacina contra a tristeza.

Regra 4. A velhice não é motivo para ser fraco.

Algumas pessoas da minha idade transformam-se em queixosos permanentes: “Ai, dói tudo… ai, a culpa é de toda a gente…” E o que acontece? Até os mais próximos se afastam.

A fraqueza não desperta compaixão — provoca cansaço. As pessoas respeitam quem se mantém forte, mesmo quando é difícil.

Regra 5. Deixa o passado para trás.

A armadilha mais perigosa é o “antes”. Antes, a relva era mais verde, os filhos mais obedientes, a vida mais fácil. Mas o “antes” já não existe. Só existe o “agora”.

Estou a aprender a viver no presente, sem esperar que a vida seja “como antes”. É diferente. E a minha tarefa é continuar vivo dentro dela.

A liberdade e a força estão nas tuas mãos.

A velhice é um exame. Ninguém o vai fazer por ti.

Ou aceitas a vida como ela é e a reconstróis, ou, ficas sentado no teu sofá, a queixares-te e à espera que alguém venha salvar-te: ninguém vem.

Mas, se ergueres a cabeça, respirares fundo e sorrires para ti mesmo, vais descobrir algo importante: a vida depois dos setenta é possível.

E pode ser uma boa vida.

Talvez alguém à tua volta precise de ler isto hoje. Alguém que esteja a passar por um momento difícil, que tenha perdido a fé, ou que simplesmente precise de ser lembrado: tu não está sozinho, e nunca é tarde demais para começares a viver para ti próprio.

Luís Raposo

Direitos iguais


Não gostares da minha cara é um direito que te assiste, exatamente igual ao que me assiste a mim de me estar nas tintas para tudo o que tu gostas...

26. 04. 2026

domingo, 26 de abril de 2026

A terra onde o silêncio aprendeu a falar


Cheguei a casa vindo da guerra a tempo dos Santos Populares. As fogueiras de rosmaninho acendiam-se à porta de cada família como pequenos altares de luz, e o ar enchia-se daquele cheiro perfumado e quente que só o verão alentejano sabe acender. Havia sardinhas, caldo verde, música de gira discos, cassetes gastas de tanto rodarem. E havia, sobretudo, a sensação de que o mundo, por fim, voltava a caber-me no peito.
A Beirã desse tempo era um corpo vivo. Pulsava.
Havia jovens por todo o lado – da minha idade e de outras – e a aldeia parecia sempre prestes a começar uma festa. Aos serões, juntávamo-nos no Clube, na Sociedade Recreativa, no Largo da Fonte, à porta da Loja Grande. Havia violas, havia vozes, havia quem cantasse bem e gargalhadas que se ouviam ao longe. Era um tempo em que a amizade não precisava de ser explicada: vivia-se.
Quase ninguém tinha televisão em casa. Os programas importantes eram vistos nas salas públicas, onde o brilho do ecrã iluminava rostos atentos e aproximava ainda mais quem já vivia perto. A comunidade era isso: proximidade, partilha, pertença.
Abril veio com esperança, é certo, mas também com ruído. E, devagar, quase sem darmos por isso, o partidarismo começou a dividir o que antes era uno. Amigos de infância passaram a olhar-se de lado, como se a política tivesse o poder de reescrever memórias. Foi o primeiro sinal de que a terra começava a mudar – e não necessariamente para melhor.
Foi como um dominó empurrado por mãos distantes.
Primeiro, as famílias ligadas à PIDE partiram – umas fugidas, outras levadas – deixando para trás as primeiras casas vazias. Depois, com a entrada de Portugal na União Europeia fechou a alfândega, a circulação ferroviária rareou e dois terços dos funcionários da CP foram enviados para longe. Os despachantes oficiais perderam o ofício. A Guarda Fiscal foi extinta. E cada saída deixava mais uma porta fechada, mais uma janela às escuras, mais um silêncio.
Quem não era de cá regressou às suas origens. Quem era, ficou a ver a aldeia esvaziar-se rua a rua.
Ainda assim, alguns – como eu – resistimos. Ficámos. Lutámos.
Mas a machadada final caiu em agosto de 2012, quando, nos gabinetes lisboetas onde raramente se pronuncia o nome da Beirã, se decidiu desativar o Ramal de Cáceres. A partir desse dia, a solidão deixou de ser circunstância: tornou-se destino.
Assim chegámos a abril de 2026, neste país que se esqueceu de si próprio
Hoje, quando caminho pelas ruas onde um dia corri descalço, vejo mais portas fechadas do que vozes. O distrito de Portalegre tem 11 habitantes por quilómetro quadrado – um número que não é estatística, é epitáfio. É o retrato de um país que se habituou a governar apenas onde há votos, luzes, câmaras e pressa.
A Beirã (ainda) não morreu. Mas vive ferida.
As casas vazias são como páginas arrancadas de um livro que ainda não acabou. As ruas guardam passos que já não se ouvem. E, no entanto, há uma chama que insiste em não se apagar: a dos que ficamos.
Os que cuidam. Os que persistem. Os que se recusam a deixar que a terra seja apenas memória.
A aldeia da minha juventude já não existe. Mas existe esta – a que sobreviveu ao abandono, à distância, à indiferença. E enquanto houver alguém que conte a história, a terra não desaparecerá.
Por isso continuo aqui. A ver, a lembrar, a escrever. Porque alguém tem de dizer, com todas as letras, que o interior não morreu: foi deixado para morrer.
Porém, enquanto a minha força anímica o permitir, nunca aceitarei esse destino para a minha Beirã, nem desistirei de atestar, dia após dia, que continua aqui. Frágil, mas viva.
Texto e foto