sábado, 17 de outubro de 2026

Jantar de Irmãos

Ontem à noite, quando me sentei à mesa com as minhas irmãs, senti logo que não era apenas um jantar. Era um regresso. Um reencontro com partes de mim que só acordam quando estamos juntos: eu, a Luz e a Joaquina. O mais velho, a que vem de longe, a que ficou sempre perto. Três vidas que começaram na mesma casa, no mesmo colo, no mesmo amor.
À nossa volta estavam também os meus: a minha Maria Manuela, o Manel, a Paula, as minhas netas Filipa e Mariana. Estava o meu cunhado e marido da Luz , António Martins, o José Nunes, marido da Joaquina, a Carmen Isabel, minha afilhada, e o pequeno Lorenzo, que corre pela sala como se trouxesse nos pés a alegria que nos falta nos dias mais pesados.
E enquanto falávamos, enquanto ríamos, enquanto repetíamos histórias que já sabemos de cor, eu sentia também a presença dos que não puderam vir: o Pedro, a Ana Sofia e a Francisca em Setúbal; a Ana Lúcia nas Caldas; e os filhos, genro e netos da Luz – Cristina, Luís, Leonardo, Gustavo, Xavier e o Guilherme, que já nasceu britânico – lá em Inglaterra.
Todos eles, mesmo longe, estavam ali comigo. Porque a família não precisa de estar inteira para estar presente.
Mas havia mais. Havia três presenças que não se veem, mas que se sentem como um calor no peito: o ti António Coelho, a ti Florinda Lourenço e a nossa irmã primogénita, a Adelina. Eu sei – senti – que estavam ali. Sentados na cabeceira invisível da mesa, a olhar para nós com aquele orgulho silencioso que só os que já partiram conseguem ter. A ti Florinda, com o seu jeito de mãe que nunca se perde. O ti António, com aquele aperto de mão que eu transformava sempre em dois beijos. E a Adelina, a primeira de todos nós, que continua a ser a primeira em tudo o que importa.
Foi então que me atravessou aquela verdade mansa, mas funda: estas ajuntadas são preciosas porque um dia, sem o sabermos, uma delas será a última para alguém. E não digo isto com tristeza, digo-o com gratidão. Porque cada vez que nos juntamos, vencemos o tempo. Vencemos a distância. Vencemos a vida que nos espalhou por Portugal, Inglaterra e pelo mundo.
Ontem à noite, a mesa foi mais do que mesa. Foi casa. Foi infância. Foi bênção.
E eu, que já sou o mais cota dos três, fiquei ali sentado, a olhar para as minhas irmãs e para os meus filhos e netas e a pensar: se esta fosse a última vez, já teria valido a pena. Porque o amor que nos une não cabe numa fotografia – cabe na eternidade.
E enquanto houver um reencontro, por mais raro que seja, sei que o ti António, a ti Florinda e a Adelina continuarão a sentar-se sempre conosco. Porque o amor, esse sim, nunca emigra.

Bom fim de semana

Conservar o que é nosso e tantos sacrifícios
custou para se erguer.

Coisas que o dinheiro não compra

Há quem pense que a felicidade se mede pelo que se acumula. Eu aprendi o contrário: a minha vida foi sempre feita do que não cabe em cofres: presenças, vozes, gestos, mesas cheias de gente e de histórias.

O meu pai ensinou-me isso sem nunca o dizer. Bastava vê-lo chegar do campo, cansado mas tranquilo, para perceber que a riqueza verdadeira não está no que se traz nos bolsos, mas no que se traz no coração.

E talvez por isso eu tenha crescido com esta necessidade boa de me ver rodeado pelos meus: primeiro as irmãs, cunhados, sobrinhos, depois os filhos, noras e netas. A família sempre foi o meu território natural, o lugar onde a vida se ajeita.

As refeições eram o nosso ponto de encontro. Não importava o que havia na mesa; importava quem lá estava. Cada prato era apenas o pretexto para nos reunirmos, para nos ouvirmos, para nos sabermos vivos uns nos outros.

Hoje percebo que esse hábito simples foi a maior herança que recebemos e a certeza de que nunca caminhamos sozinhos.

Quando os meus pais partiram, senti que o chão se deslocava debaixo dos meus pés. Mas foi também aí que entendi a grandeza deles: deixaram-nos unidos, deixaram-nos atentos uns aos outros, deixaram-nos esta espécie de pacto silencioso de cuidarmos da família como eles cuidaram de nós.

A nossa infância foi humilde, mas digna. A pobreza mede-se pela ausência de amor, e essa nunca conhecemos. Tínhamos pouco, mas tínhamos tudo o que mais importava: alegria, companhia, imaginação.

Ainda hoje consigo sentir o cheiro dos confetis de anis que a mãe Florinda trazia de Espanha, escondidos como pequenos tesouros. Não eram brinquedos caros, mas eram festa. E a festa, quando nasce do afeto, vale mais do que qualquer embrulho brilhante.

Com o tempo, percebi que a verdadeira fortuna é recordar sem amargura, agradecer sem vaidade, viver com a serenidade de quem sabe que o essencial nunca dependeu do dinheiro.

Quando olho para a minha família – para os meus filhos, para as minhas netas, para todos os que continuam a ser o meu porto seguro – sinto que a vida foi muito generosa comigo.

Um dia partiremos todos, ricos e pobres, com as mãos vazias. Mas quem viveu rodeado de afetos partirá sempre com o coração cheio.

José Coelho

Foto Maria Coelho

A casa que me ensinou a ficar

Durante muitos anos achei que a felicidade estava sempre um pouco mais longe. Longe da aldeia, longe do silêncio, longe das memórias que pesavam. Era como se a casa onde nasci fosse apenas o ponto de partida e nunca o lugar de chegada.
Mas um dia, sem aviso, percebi que a casa não era obstáculo. Era destino.
A Toca dos Coelhos não nasceu pronta. Nasceu de esforço, de poupanças contadas, de tijolos pagos um a um, de noites a imaginar como seria o futuro dentro daquelas paredes.
Nasceu da teimosia de quem acredita que um telhado é mais importante do que um carro novo, mais importante do que umas férias na praia, mais importante do que qualquer outro luxo.
E quando finalmente ficou pronta, eu ainda não estava.
Mas a casa esperou por mim. Esperou que eu crescesse, que eu perdesse, que eu ganhasse, que eu mudasse. Esperou que eu aprendesse a olhar para ela não como construção, mas como raiz.
Hoje sei que foi esta casa que me ensinou a ficar. A ficar sem medo. A ficar sem ressentimento. A ficar com serenidade.
Ficar não é desistir, é escolher. Escolher o lugar onde a alma repousa. Escolher o chão que conhece o peso dos meus passos. Escolher o silêncio que já não dói.

José Coelho

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

O pedido de transferência (republicação)

A vida militar é frequentemente marcada por desafios, distância da família e uma rotina exigente que testa os limites emocionais e físicos de quem decide segui-la. Este relato pretende testemunhar uma história verídica de coragem e vulnerabilidade onde um simples conselho transformou o destino de um guarda que há mais de três anos buscava reunir a sua família.
Após abrir o seu coração a um camarada mais experiente, o protagonista recebeu um conselho sincero: recorrer ao comandante da companhia, homem conhecido como justo e bondoso. Esse conselho, longe de ser apenas uma sugestão casual, germinou uma esperança palpável de mudança, impulsionando o guarda novato a agir.
Tomado pela necessidade de estar mais próximo da sua família, enfrentou uma noite mal dormida e no dia seguinte decidiu seguir o conselho. Com as pernas trémulas subiu a escadaria até ao gabinete do comando onde o ambiente organizado e acolhedor do espaço transmitia tranquilidade e respeito. Ao ser atendido pelo comandante sentiu-se, pela primeira vez em meses, tratado como um ser humano, livre da necessidade de autodefesa constante.
Com sinceridade expôs ao comandante sua situação: a transferência pendente para o posto de Castelo de Vide, a casa já sinalizada para alugar, o desejo de reunir a família que vivia separada há demasiado tempo e a certeza de que sua mudança não prejudicaria outros colegas. A emoção era tanta que, sem fingimento, uma lágrima escapou, revelando o estado de espírito de quem carregava, há anos, o fardo da separação e da incerteza.
O comandante, sereno e compreensivo, ouviu atentamente todo o relato. Sem surpresas, demonstrou empatia e prontidão para ajudar. Solicitou a pasta das transferências, analisou os documentos e, com palavras de conforto, garantiu que faria o possível para atender o pedido. O soldado saiu do gabinete tomado por um estranho sossego, sentindo que finalmente algo estava a mudar para melhor.
O tempo passou e em apenas uma semana, foi chamado novamente ao gabinete do comandante. Discreto, não comentara com ninguém sobre sua ida anterior, evitando especulações. Ao ser recebido, ouviu as palavras tão esperadas: a transferência estava aprovada e ele deveria apresentar-se em Castelo de Vide no dia um de novembro, dali a dois dias apenas. A notícia foi dada com a serenidade típica de quem sabe a importância de gestos singelos na vida de alguém.
Mais do que a simples história de um pedido e de uma resposta, esta narrativa pretende ser o testemunho de como a humanidade, a empatia e a generosidade podem transformar a jornada dura de um militar. O camarada que aconselhou, o comandante que escutou e agiu, todos representam figuras fundamentais, anjos verdadeiros que surgem para suavizar o caminho de quem luta para manter os vínculos afetivos, mesmo no meio das exigências do serviço.
Este relato é penhor autêntico da mais profunda gratidão e saudade por aqueles que nos seus gestos simples e altruístas deixam marcas profundas no coração de quem ajudam. Assim se celebra o valor da solidariedade e da esperança que persistem mesmo nos ambientes mais rígidos e desafiantes.
Mais do que dois seres humanos altruístas, o comandante e o guarda mais antigo foram dois extraordinários amigos. Embora não se encontrem já entre nós, a sua memória nunca será esquecida.
O peticionário e "guarda maçarico” fui eu.
Foto Estúdio Borda d'Água em Portalegre no ano 1979

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Passo certo

Prestem lá, se fazem favor, um bocadinho de atenção a esta foto, onde eu e a minha companheira vamos a caminhar descontraídos, tranquilos, em paz com a vida e com o mundo inteiro, sobre a Ponte do Milénio que une as duas margens do Rio Tâmega na Cidade de Chaves, sem nos apercebermos que estávamos a ser fotografados.

A nossa harmonia era de tal modo perfeita que, reparem bem, caminhávamos ao lado um do outro, e... com o passo certo! Pura casualidade? Talvez! Mas também há quem diga que nada acontece por acaso.

Cinquenta anos de caminhada a dois, é uma vida inteira. Obrigado a quem bateu a chapa e no-la ofereceu depois.

José Coelho com Maria Coelho

Os tombos ensinam-nos a levantar

Não sou e nunca fui dado à pieguice. A época em que nasci e me criei era tão dura e agreste que assim que aprendi a andar em pé, tive logo de aprender também a levantar-me sozinho cada vez que tropeçava e caía. Ninguém ia a correr dar-me mimo ou colo:
- Caíste? Levanta-te, filho!
Não era e nunca foi falta de amor de quem me trouxe ao mundo e me criou, pois deles o tive abundância a vida inteira. Era a sua forma sensata de me ensinarem que cair e levantar dos tombos era normal, por isso, do mesmo modo, normal era também ter de levantar-me sozinho.
Cresci, aprendi e formei-me nessa disciplina de uma forma tão sólida que me valeu para a vida toda. Tentei depois e acho que consegui transmitir aos meus filhos esses princípios essenciais à nossa sobrevivência num mundo tão complexo como é o nosso: levantar depois de cair, ser prudente para não tropeçar duas vezes na mesma pedra, evitar caminhos acidentados e pouco seguros.
Viver não é fácil, nem sequer para quem nada lhe falta. Há quem viva em abundância mas rodeado de solidão, de falta de amor e afetos. A vida é tão imprevisível que o melhor mesmo é estarmos atentos e preparados para o que der e vier. Basta às vezes olhar à nossa volta para o perceber.
A minha memória diz-me que quando eu andava descalço por não ter sapatos e tinha de esperar embrulhado num cobertor sentado ao lume que a minha roupa secasse para voltar a vesti-la porque só tinha aquela, havia por cá pessoas muito ricas que tinham tudo e grandes herdades com palácios onde viviam.
Hoje esses palácios estão em ruínas, porque os seus herdeiros não têm possibilidades de os conservar e manter. Ao contrário deles, com muitas poupanças e sacrifícios, eu consegui pagar até ao último cêntimo, projetar e transformar a humilde casinha em que nasci noutra bem maior, para nela caber a família inteira.
Por isso tudo o que escrevo ou digo, tem quase sempre a ver apenas comigo, com a minha família e com a minha experiência de vida. Não me interessa minimamente a vida de mais ninguém, assim como me estou literalmente nas tintas para aquilo que digam e pensem de mim, porque não lhes devo nada.
Obviamente os tombos que dei deixaram mazelas. Principalmente os que foram provocados por rasteiras cobardes que em vez de ferirem o corpo, feriram-me a alma. Mas em todas elas me levantei e segui teimosamente o meu caminho.
Hoje vivo tranquilo, em paz, e desengane-se quem pensar que pode de alguma forma perturbar essa tranquilidade. Ninguém tem pinta para isso.

José Coelho