Aceito com naturalidade – e até com uma serenidade teimosa – tudo o que a vida me vai dando. Seja bom, menos bom, ou apenas aquilo que tem de ser. Vivo um dia de cada vez, sem sobressaltos, sem medos, sem complexos, como quem aprendeu que a vida não se vence aos gritos, mas com passo firme e alma quieta.
Até aos sessenta anos o meu corpo foi um companheiro leal. Nunca me deu trabalho, nunca me chamou à razão. A única vez que precisei de hospital antes dessa idade foi aos dezasseis, quando a apendicite resolveu fazer das suas. Uma operação simples, que mal deixou rasto na memória.
Mas ao aproximarem-se as seis décadas, começaram a bater à porta as heranças da família. Da mãe, a diabetes. Do pai, o adenoma na próstata. Coisas que não escolhi, mas que vieram comigo como vêm as feições, o jeito de andar, a maneira de olhar o mundo.
Houve que parar, refletir, aceitar e seguir em frente porque atrás vinha gente, e a vida não espera por ninguém.
Felizmente, hoje há fármacos que domam estes “bichinhos” silenciosos. São remendos modernos que nos permitem viver quase como sempre vivemos, com qualidade, com autonomia, com dignidade. É o meu caso. Tomar comprimidos todos os dias tornou-se tão natural como o pequeno-almoço, o almoço e o jantar.
São suplementos necessários, discretos, que me permitem até esquecer, por momentos, aquilo que carrego.
Dou graças a Deus por este espírito positivo que me concedeu. E porque o que não tem remédio, remediado está, sigo vivendo e aprendendo, como sempre ouvi aos mais velhos quando algo era inevitável: – Haja saúde e dinheiro pra vinho, que o pão compra-se.
A vida já é complicada quanto baste; o resto somos nós que complicamos.
Mas é justo dizer que dos meus pais não herdei apenas estes genes armadilhados. Herdei também o bom senso, a ousadia de lutar, a boa disposição, o amor ao próximo e talvez mais uns quantos, que me fizeram ser a pessoa positiva que sempre fui, sou e continuarei a ser.
Por isso obrigado queridos pais, avós e bisavós. Também vós fostes herdeiros da mesma herança. Se no vosso tempo existissem estes remendos que hoje tomo, talvez a vida vos tivesse sido mais leve: o Avô José Lourenço e a Mãe Florinda talvez não tivessem ficado cegos tão cedo; o Pai António Coelho talvez não tivesse vivido os últimos dez anos com uma algália; e talvez todos vós tivésseis ficado mais tempo conosco.
Mas tinha de ser assim. E aquilo que tem de ser, força humana alguma conseguirá mudar jamais.
Texto e foto
Nota: A caixinha dos comprimidos tem as doses que tomo ao pequeno almoço e depois ao jantar, em dois dias.



