No dia 16 de julho do corrente ano irão cumprir-se oitenta e três anos que esta Ilustre Senhora e o Seu Divino Filho vieram “viver” para a Beirã. Na sua igreja fui batizado há 73 e há 68 comecei a trabalhar na Sua Casa, investido nas funções de acólito pelo padre Joaquim Caetano a quem até hoje me liga um vínculo muito forte de respeito e amizade apesar de ele já não se encontrar entre nós.
Foi a sua bondade e exigente postura que me ajudou a ser um homem de bem. Ser-lhe-ei por isso grato e reverenciarei a sua memória enquanto viver.
A Vida levou-me muito jovem para longe desta minha segunda Mãe por períodos mais ou menos longos. Ainda assim só mesmo os 8.000 km de distância resultantes da mobilização para o outro lado do mar, me impediram de estar presente no dia 16 de julho, naqueles dois longuíssimos anos de 1972 e 1973.
Mesmo tão longe nunca a Senhora se separou de mim, quer do íntimo do meu coração, quer porque andava no meu bolso dia e noite na forma de uma estampa de cartolina plastificada que me acompanha até hoje, já meio desfeita pelo uso e enorme quantidade de tempo que, entretanto, passou pela estampa e por mim.
Quando em 1993 regressei definitivamente “a casa”, nunca mais arredei pé de junto dela e tenho-me esforçado por dar o meu melhor nas celebrações litúrgicas como salmista, leitor e coro paroquial, assim como no Conselho Económico Paroquial ao qual fui chamado desde 1999.
Sinto-me por isso muito em paz e de coração tranquilo cada vez que contemplo o sereno rosto da Divina Mãe que docemente me contempla lá do alto. Infelizmente, como em tudo o resto nesta aldeia, também ali se sente já o rarear da presença humana, quer nas celebrações semanais quer nas festivas, que antigamente juntavam em seu redor centenas de devotos.
Às vezes, em dias mais inquietos, necessito ir ter com Ela. Porque tenho uma chave da igreja e porque infelizmente deixou de ser seguro mantê-la permanentemente aberta para que pudesse livremente entrar quem quisesse ir rezar a qualquer hora, como antes, desço a rua e vou lá. Entro, e, a sós com Ela, fico longos momentos naquele reconfortante silêncio, bastando-me a proximidade do seu meigo olhar para que o meu espírito se aquiete e a paz desça sobre mim.
Não sou, obviamente, indiferente à presença do Senhor Jesus no sacrário e sei, porque me foi meticulosamente ensinado em muitas horas de formação cristã nos últimos anos, que em qualquer templo onde esteja presente o Santíssimo Sacramento do Altar é Ele que deve ser sempre adorado e exaltado em primeiro lugar, antes de qualquer outra presença divina, seja a Sua Mãe Santíssima, seja qualquer outro Santo ou Beato.
Porém e pese embora todos esses ensinamentos, o Senhor que me perdoe – sei que perdoa – todos nós ao entrarmos na igreja damos de caras com o terno olhar da Senhora Sua Mãe e não conseguimos – por mim deduzo – pensar primeiro no Senhor Jesus que ali está também no sacrário
Escrevi no primeiro parágrafo deste texto que ando por ali há já 68 anos. É de facto muito tempo. A minha geração que em 1958 enchia o templo de orações, de vida e atividades, partiu já quase toda para a eternidade. Não estará por isso muito distante a minha vez de ir ter com eles.
É absolutamente normal, porque, sendo pó, ao pó regressaremos. Sem dramas, sem espantos, sem medo algum. Cumpre-se apenas o ciclo – princípio e fim – natural de toda a vida terrena, do qual temos perfeito conhecimento e para o qual devemos estar permanentemente prontos e preparados.
Nota:
A imagem que ilustra este escrito foi da autoria do reverendo Pároco e meu digníssimo Amigo Luís Ribeiro – já falecido – por ocasião do 70º Aniversário da Inauguração da Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Carmo - Beirã, que me o ofereceu em mão no dia 16. 07. 2013.