domingo, 22 de fevereiro de 2026

Não entendo e muito menos aceito


Sempre ambicionei passar o resto da minha vida exatamente onde me encontro. Mas também nunca, nem pela mais remota hipótese podia imaginar que as coisas iam descambar desta forma e iria ficar por cá quase sozinho. Se é natural que a vida siga o seu ciclo geracional porque sempre assim foi, já não é, de todo, natural que esse ciclo, como aqui, se esteja a extinguir porque não nasce vida nova que venha substituir a que vai partindo.
Se em pouco mais de duas décadas tudo ficou desta maneira, como será daqui a outro tanto tempo? Há tempos fui com a minha companheira dar um passeio à Herdade do Pereiro e à Fadagosa, dois dos bonitos locais da nossa infância e juventude. Aquilo que vimos sem qualquer surpresa, é de tal modo deprimente e desolador que um de nós desabou em lágrimas. Não fui eu quem chorou, mas imaginei imediatamente que daqui a não muitos mais anos, na Beirã também haverá casas assim, em ruínas.
É só uma questão de tempo e oxalá me engane.
A única hipótese de nos sentirmos vivos e de ver alguma vida ou movimento é sairmos da Beirã com alguma regularidade. Por isso vamos até à cidade ou vila que elegemos na hora, de vez em quando. Mas até as vilas, até a cidade, já não são as mesmas. Pouca gente nas ruas e praças, porque a onda de abandono alastra um pouco por toda a parte. Na cidade e nas vilas mais próximas, como na minha aldeia, há também casas fechadas um pouco por todas as ruas.
Quem e como irá conseguir reverter esta situação?
Obviamente, ninguém!
Não consigo perceber por mais que tente. Porque é que há 50 anos sob a tão amaldiçoada ditadura havia gente por toda a parte, trabalho para todas as profissões e negócios, e ainda, apesar dos baixíssimos salários, muito mais oportunidades de trabalho do que existem agora na tão falada democracia que tudo trouxe em velocidade de cruzeiro mas ainda mais velozmente tudo tem ido levando, deixando milhares de pessoas desempregadas ciclicamente e uma geração inteira sem grandes perspetivas de futuro que por isso mesmo começou a emigrar em massa mais uma vez, repetindo-se o êxodo das décadas de 60/70 do século passado.
E o desfile imparável, infindável, de falcatruas públicas cometidas por quem deveria ser exemplo? E a impunidade de tantas e tantas dessas falcatruas já denunciadas e provadas, mas cuja culpa morre quase sempre solteira? E o compadrio, a corrupção vergonhosa, os arranjinhos em prejuízo da competência e do direito à igualdade de oportunidades? Será esta a vida, a sociedade, o futuro, que os nossos filhos e netos necessitam e merecem?
Quantos pais e avós vivem inquietos com as mesmíssimas interrogações que eu vivo? Todos nós fomos educados num tempo em que havia respeito pelas regras da vida e da ordem social. Para onde foram esses valores? Aposto que a maior percentagem de pessoas com a minha idade não é feliz com o estado a que as coisas chegaram. Já ninguém se sente seguro.
Os empregos de repente viram desemprego. As reformas descontadas uma vida inteira em vez de crescerem encolhem pela subida sistémica do custo de vida que de anual passou a mensal. Até as poupanças de uma vida de trabalho e sacrifícios podem inesperadamente desaparecer de um qualquer banco que também abre falência mercê da ganância e irresponsabilidade de quem os gere.
Algum de vocês entende tanta impunidade, tanta aldrabice, tanta irresponsabilidade, tanta falta de competência para devolver segurança, tranquilidade e paz de espírito a quem ama o seu país e nele sempre viveu, a ele deu sempre o seu melhor, e por fim, depois de uma vida inteira de luta, de trabalho e sacrifícios, nele queria, merecia e deveria envelhecer rodeado de paz, de respeito e de humana dignidade?
Eu não.
Não consigo entender e muito menos aceitar.

José Coelho

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Bom fim de semana



Escolher ficar em silêncio é uma opção de último recurso quando o meu equilíbrio e tranquilidade emocionais decidem deixar de tentar entender coisas que nunca estiveram ao alcance da minha compreensão e aceito isso, por mais que me custe.
Cedo ou tarde, o meu silêncio acabará por ser também entendido como uma resposta clara e definitiva.

Da dureza do passado à serenidade do presente


A vida apresenta-se muitas vezes um caminho marcado por desafios e obstáculos. Há quem veja as dificuldades como motivo para lamentações. Outros porém aprendem desde cedo que levantar-se após cada queda é uma parte essencial do processo de crescimento. Esta minha reflexão pretende abordar a importância da resiliência, da autossuficiência e da autenticidade na formação do carácter, exemplificada através de experiências pessoais e familiares.
Não sou e nunca fui dado à pieguice. A época em que nasci e me criei era tão dura e agreste que assim que aprendi a andar em pé tive logo de aprender também a levantar-me sozinho cada vez que tropeçava. Ninguém ia a correr dar-me mimo ou colo. “Caíste? Levanta-te, filho!” Esta frase comum à minha infância não era sinal de falta de afeto, mas uma lição de vida transmitida com carinho. Os meus pais ensinaram-me que cair faz parte do percurso e que o essencial é levantar e enfrentar cada adversidade com coragem e ousadia.
Cresci, aprendi e formei-me nessa disciplina de uma forma tão sólida que me valeu para a vida toda. Procurei transmitir aos meus filhos esses mesmos valores: levantarem-se após cada tombo, serem prudentes para não tropeçarem duas vezes na mesma pedra, evitarem caminhos acidentados e inseguros, porque esses princípios são fundamentais para se sobreviver num mundo cada vez mais complexo, conferindo força e lucidez diante das tempestades da vida.
Viver não é fácil nem sequer para quem nada lhe falta. A abundância material nem sempre garante felicidade; há quem viva rodeado de riquezas, mas na solidão, sem amor ou afetos. A imprevisibilidade da vida exige atenção e preparação para o inesperado. Basta um olhar à nossa volta para percebermos as contradições e desigualdades que nos rodeiam.
Recordo os tempos em que andava descalço por falta de sapatos e tinha de esperar embrulhado numa manta ao lume que a minha roupa secasse, porque só tinha aquela. Na mesma freguesia existiam grandes herdades e palácios, hoje em ruínas porque os seus herdeiros não têm meios para os conseguir conservar. Ao contrário deles, com muito esforço e poupança eu consegui transformar a humilde casa onde nasci numa moradia capaz de acolher toda a família. Essa conquista foi fruto da persistência e da recusa em desistir perante as dificuldades.
Tudo o que escrevo ou digo está profundamente ligado à minha história, à minha família e às experiências que vivi. Recuso-me a preocupar-me com as opiniões alheias porque não devo nada a ninguém, por isso sou livre para dizer o que penso. Os tombos da vida deixaram muitas marcas, principalmente aqueles que foram provocados por rasteiras traiçoeiras que me feriram mais a alma do que o corpo. Contudo, todas as vezes que me faziam cair me levantava mais resiliente, persistente e determinado a seguir o meu caminho.
Vivo hoje em paz, tranquilo e blindado contra qualquer tentativa de perturbação. Quem pense o contrário, desengane-se. Ninguém tem poder ou força suficientes para abalar a serenidade que conquistei através de tantas lutas e superações.
É esta tranquilidade, fruto da coragem de conseguir levantar-me sempre, da honestidade de viver para mim e para os meus, da sabedoria de ignorar aquelas vozes que nada acrescentavam ao meu percurso, que desejo também para todos vós.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Contrabandistas

Trilhos da raia Beiranense - Foto José Coelho


Onde há raia houve com certeza contrabando e contrabandistas. E houve também, como não podia deixar de ser, muitas peripécias contadas pelas pessoas que na escuridão da noite caminhavam pelas veredas entre matos e canchais em direcção à fronteira, a qual na nossa freguesia é toda limitada pelo rio Sever.

Tive a sorte de conhecer muitos desses valentes, alguns da minha família mais próxima, por sinal homens respeitáveis, sérios, de poucas falas e ainda menos sorrisos. Sei muitas histórias que ouvia deliciado, narradas por essa gente simples e pura que deliberadamente infringia as leis, mas com a única e julgo que aceitável intenção de ganharem o sustento das numerosas proles de seis, sete, oito e às vezes mais filhos a seu cargo, e, por isso mesmo, sem qualquer intenção malévola, premeditada ou criminosa, de desafiarem à toa a autoridade do Estado.

Para eles, transportarem aquelas pesadas cargas às costas no escuro da noite, debaixo de bom tempo ou de invernia, terem ainda que atravessar as correntes e enchentes do rio Sever semi-nus com carga e roupa sobre a cabeça para não as molharem, mais não era que uma “profissão” bastante arriscada, e que, por isso mesmo, era muito mais bem paga do que qualquer outro serviço rural que pudessem desempenhar por estas terras pobres onde a agricultura foi quase sempre de subsistência.

Eu próprio e a minha irmã mais velha fomos também contrabandistas ainda que em pequena escala e por conta exclusiva dos nossos pais que nos mandavam levar para Espanha certos produtos – 3 ou 4 dúzias ovos por exemplo – em   troca de coisas que trazíamos na volta para cá, essencialmente víveres de primeira necessidade como por exemplo latas de azeite, toucinho a granel, pão e conservas. Também uma boa parte dos enxovais das minhas irmãs – louças de pirex, esmaltes, sertãs e outros utensílios de cozinha – vieram de Espanha por essa via. Aos poucochinhos. Numa semana trazíamos o tacho, na outra semana a cafeteira, depois a frigideira…

Porém os profissionais das madrugadas caminhavam curvados pelo peso de 30 kg de carga, acompanhados sempre pelo receio de serem detectados pelos guardas fiscais portugueses ou pelos guardas-civis espanhóis. Com os olhos tinham que vigiar o caminho e com os ouvidos escutar atentamente qualquer ruído que os pudesse alertar da proximidade dos fardados para que não lhes saltassem ao caminho, porque, se tal acontecesse, era largar a carga, desatar a fugir e esconderem-se logo que pudessem. Perdiam o fôlego, perdiam a carga, perdiam a jorna da noite, perdiam também o esforço de muitas horas de caminho. Mas outras viriam! O que interessava era não se deixarem “ganfar” pelos guardas porque seriam imediatamente presos e teriam mesmo problemas mais sérios.

Era assim por todas estas aldeias e lugarejos da raia. Beirã, Cabril, Bica, Pereiro, Barretos, Vales, Vale de Milho, Ranginha, Cabeçudos, Relva da Asseiceira, Aires, Tapadão de Mato e muitos outros, porque nesse tempo era tudo habitado onde quer que houvesse uma casinha, por mais isolado que fosse o lugar. Ao escurecer formavam-se os grupos no local de encontro que só eles sabiam, traçavam-se os percursos, vigiavam-se os movimentos dos guardas e desaparecia-se na noite para se ganhar o preço previamente negociado.  Assim que os mais novos tinham forças para “alombarem” com as cargas e pernas para caminharem longas distâncias, entravam para o grupo. Era assim com eles, porque assim tinha sido com os seus pais e avós, assim seria provavelmente também mais tarde com os seus filhos e netos.

Mulheres contrabandistas também as havia e muitas, se bem que com cargas mais leves. E também elas atravessavam rios e ribeiros nas noites de chuva ou de bom tempo para ajudarem no sustento das casas se fosse preciso. Muitas vezes vi a minha mãe e as minhas tias enrolarem-se em peças de “pana” aquilo a que hoje chamamos bombazina para assim passarem, debaixo das suas roupas, metro a metro, peças inteiras do tecido que iam trazendo aos poucos das lojas do outro lado do rio; da loja "do Batão", da "do Bravo", ou "da do Pinadas", que eram fornecidas directamente aos alfaiates das aldeias para as transformarem em calças, casacos ou fatos completos muito apreciados nesse tempo por serem mais quentes e durarem muito mais tempo que os tecidos portugueses.

Vi, "com estes dois olhos que a terra há-de comer" alguns vizinhos guardas fiscais e guardas-civis espanhóis também, a ajeitarem um quilo do café em grão da marca “Guapa” em cada um dos bolsos laterais dos casacos das suas fardas, na loja do sr. João Batista e na loja da Ti Zabel, minutos antes de embarcarem nos comboios que iam patrulhar entre a estação da Beirã e a de Valência de Alcântara. Eles próprios praticavam o contrabando – eu vi, como já afirmei, ninguém me contou – provavelmente porque os seus ordenados não seriam por aí além muito famosos.

Contrabandeava-se um pouco de tudo nesse vaivém constante pela raia. Mas o contrabando puro e duro eram as cargas de volfrâmio – nas barreiras do rio Sever perto do Matinho ainda se podem ver os buracos deixados pela exploração desse minério – também de especiarias como a canela e os cominhos, de relógios de pulso, de tabaco, de papel de fumar, de máquinas de costura e até de gado, sendo essas práticas as que estavam sob a mira mais atenta das autoridades.

É preciso não esquecer que esta comunhão entre os dois países não fez passar apenas pela raia cargas às costas, fez também passar todo o tipo de contactos e intercâmbios pessoais e culturais. A minha sogra nasceu na aldeia de S. Pedro da comarca de Valência de Alcántara em Espanha e casou com o meu sogro, natural dos Barretos-Beirã-Portugal. Os irmãos do meu avô materno são todos espanhóis pois só ele casou por cá com a minha avó. Mas também a toponímia e a linguagem ganharam pronúncias próprias porque muitas palavras portuguesas "espanholaram-se" enquanto muitas palavras espanholas se "aportuguesaram". Até a gastronomia misturou sabores do lado de cá e do lado de lá da fronteira.

O contrabando foi ainda, como já disse, feito de muitas histórias. Cada contrabandista, cada guarda-fiscal, cada guarda-civil e cada caminho percorrido por estas gentes, tem as suas. De dia era terra de camponeses, à noite de contrabandistas. Na mesma aldeia viviam, lado a lado, guardas fiscais e contrabandistas, as duas faces antagónicas do contrabando. Conviviam e ocupavam os mesmos espaços quer nas aldeias, quer nos caminhos percorridos. Espreitavam-se com astúcia e engenho tentando cada um, na defesa do seu mister, enganar o outro.

Ambos conheciam os caminhos - muitos guardas fiscais eram desta zona, filhos até de contrabandistas e, na sua adolescência, antes de ingressarem naquele organismo policial, teriam andado por aí com algumas cargas às costas também, sabendo, por experiência própria, muitos dos truques e estratagemas que agora lhes eram úteis, mas por motivos diferentes. Assim, enquanto uns vigiavam atentamente caminhos e veredas, os outros percorriam-nos, conseguindo ludibriar sorrateiramente tal vigilância, trazendo e levando mercadorias que alimentavam o comércio de ambos os países. 

Curiosamente, esses caminhos eram o sustento de todos. De uns e dos outros.

Hoje já não há contrabando, pelo menos o praticado nos moldes aqui referidos porque deixou de haver necessidade de vigiar a fronteira. Os guardas fiscais foram extintos, os contrabandistas envelheceram e os caminhos deixaram de ser percorridos, nada mais restando desses trilhos. O silêncio da noite por esses canchais só é perturbado agora pela actividade dos javalis, dos saca-rabos e raposas que por aí vagueiam em busca de alimento.

Acabaram-se pois as aventuras e as histórias. Inevitavelmente as memórias de tudo isso ir-se-ão perdendo. Memórias comuns a todas as aldeias e lugares da nossa zona raiana onde existiu esse contrabando, que foi, acima de tudo, o pão que alimentou muitas bocas. E os contrabandistas foram protagonistas relevantes desse período não ainda muito distante da nossa história colectiva que seria justo preservar. 

José Coelho in Histórias do Cota

Leveza nas relações humanas


Valorizo profundamente a simplicidade e a autenticidade, pois são qualidades que tornam as relações humanas verdadeiras.

Pessoas que conseguem ser elas próprias, sem artifícios e sem máscaras, têm o poder de criar ambientes acolhedores e de transformar momentos comuns em experiências especiais.
A sua presença dá tranquilidade e faz com que o nosso coração se sinta em casa, independentemente do lugar em que estejamos. É com quem compartilha essa maneira de ser que a vida se torna mais bonita.
Não é a grandiosidade das ocasiões que nos marca, mas a companhia de quem nos faz sentir em paz e desperta o melhor que há em nós.
Estar perto de pessoas sinceras que querem o nosso bem de verdade, é o que dá sentido aos dias e faz com que a vida brilhe mais intensamente.
Boa semana, bom Entrudo e bom início da Quaresma 2026.
Cuidem-se…