quarta-feira, 10 de junho de 2026

Pensa agora um bocadinho mais em ti

Há pessoas que vivem como se fossem nascidas para amparar o mundo. Não porque alguém lhes pediu, mas porque algo dentro delas se move sempre que se apercebem de uma dor, um silêncio, uma sombra.
São pessoas que carregam uma espécie de luz, que não se apaga mesmo quando o vento sopra forte. Pessoas que se inclinam para o outro com a mesma naturalidade com que o sol se inclina para a manhã.
Chegam antes de lhes ser pedido. Estendem a mão antes da queda. Oferecem o ombro antes da lágrima. E fazem-no sem alarde, sem medalhas, sem testemunhas.
Fazem-no porque é assim que gostam de viver: - cuidando dos outros.
Mas há um momento – e chega sempre – em que o corpo começa a falar mais alto. De um cansaço que não é só físico, mas existencial. Um silêncio que não é vazio, mas aviso. Um aperto que não é dor, mas fronteira.
É o instante em que a vida, com a sua sabedoria discreta, lhes sussurra:
- Pensa agora um bocadinho mais em ti.
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Quem já decidiu não entender, não vai ceder por mais que te expliques

É inevitável: quando o coração aprende a idade da alma, já não quer reboliço, quer é sossego. Já não procura multidões, procura verdade. Já não quer provar nada, quer apenas ser quem é.
Porque o tempo ensina que a paz não é luxo, é necessidade. E que a solidão vale mais do que uma companhia que nos fere.
Há batalhas que deixamos de travar não por desistência, mas por sabedoria, porque quem já decidiu não entender, não entenderá.
E então, devagar, tornamo-nos guardiões de nós mesmos. Aceitamos as nossas falhas como quem aceita cicatrizes que já não doem. Ao respeitarmos o que somos, aprendemos a respeitar o que os outros não conseguem ser.
E é nessa hora que percebemos que até a compaixão tem limites. Porque há quem, ferido, responda com agressividade à mão que o tenta erguer. Há quem confunda cuidado com obrigação, e amizade com porto de descarga.
E nós, por bondade, suportamos o que não devíamos suportar. Até que um dia o silêncio se torna a resposta mais justa. E então deixamos de alimentar razões, de explicar o que não querem ouvir, de justificar o que nunca será compreendido.
Respondemos com educação, mas não nos oferecemos. Mantemos a porta aberta, mas fechamos a ferida. E quem estava habituado ao nosso coração inquieta-se porque a nossa mudança já não o favorece.
Entramos sem cerimónia naquela decisão de deixarmos de nos importar, esse lugar secreto onde só entra quem já percebeu que a felicidade é simples, e que a leveza é uma forma de oração.
E assim seguimos, passo após passo, deixando cair o que nos pesa, libertando-nos do que nos prende, despedindo-nos do que escurece a nossa vida.
Porque tudo o que não é amor, cansa. E tudo o que não é verdade, cai. No fim, resta apenas um caminho limpo, um coração sereno, e a coragem de ser feliz sem pedir licença.
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Reflexão para mais um 10 de Junho

Viver em democracia é, por vezes, duro. E mais duro ainda é perceber certas interpretações da “nossa” democracia. Não me considero lerdo dos sentidos nem incapaz de entender a vida, mas confesso que percebo cada vez menos esta obsessão pelos direitos – direitos para cá, direitos para lá – quando, para cumprir alguns, atropelam-se outros tão ou mais essenciais: a ética, a saúde, o bem estar e a dignidade humana.
Pergunto-me: porque é que o direito reivindicativo há de valer mais do que qualquer outro?
Vemos greves em vários setores que, ao exercerem o seu direito, prejudicam milhares de pessoas que esperam meses – às vezes anos – por exames, cirurgias ou consultas. E, de repente, por causa de uma inesperada greve, ficam impedidas de exercer o seu próprio direito constitucional à saúde.
Quem vive em Lisboa, Porto ou Coimbra, ainda se desenrasca. Mas quem vive no fim do mundo, como eu, perde tudo: consultas, exames, transportes, dinheiro e paciência.
No tempo do António de Santa Comba morria-se por falta de assistência médica. No tempo da Santa Democracia morre-se, se preciso for, para que se cumpra o direito à greve.
Desde quando um aumento salarial é mais importante do que a saúde de quem precisa? Se nas Forças Armadas e de Segurança a greve é proibida por pôr em causa a soberania e a segurança, porque não se limita também o que põe em causa a vida e o bem estar de tantos?
Eu, por exemplo: diabético, com vigilância permanente, adenoma retirado e vigilância preventiva permanente também, insuficiência respiratória crónica herdada dos anos nas Minas da Panasqueira. Vivo de consulta em consulta, de exame em exame. Basta um deles falhar por motivo de greve para baralhar tudo o resto.
E ninguém responde por isso.
As reivindicações são justas? Muitas vezes são. Mas não deveriam nunca prejudicar terceiros, sobretudo no que toca à saúde.
Sou aposentado com 41 anos de descontos – 36 na Caixa Geral de Aposentações e 5 na Caixa Nacional de Pensões – pagos do meu bolso até ao último cêntimo por trabalho duro à chuva e ao sol desde os onze anos. E vejo, neste mesmo país, quem receba pensões e indemnizações obscenas por meia dúzia de anos de “altas” funções em sumptuosos gabinetes no ar condicionado.
E ainda tenho de ouvir governantes dizerem que é normal trabalhar até cada vez mais tarde para receber pensões cada vez mais baixas, quando muitos deles se aposentam na flor da idade com várias pensões acumuladas de milhares de euros.
É preciso ter lata.
Mas isto, dizem, é democracia. Para alguns, claro.
Cada tiro, cada melro.
As greves são cirurgicamente planeadas para causarem o máximo impacto: sextas-feiras, vésperas de feriados, pontes, natais, páscoas. O objetivo é pressionar o governo, custe o que custar. E a requisição civil, quando existe, muitas vezes não é cumprida.
Direitos, todos têm. Deveres, ninguém quer ter.
Vivi 22 anos em ditadura – não foi fácil. Vivo há 50 em democracia – também não tem sido grande coisa. Mudaram as moscas, mas a m***a ficou a mesma.
E, em muitas situações, não se notam grandes diferenças.
Tenho dito, dou a cara e assino por baixo.

terça-feira, 9 de junho de 2026

Oração

Senhor, Tu que conheces o cansaço escondido nos meus ombros e a serenidade que procuro no silêncio, acolhe esta oração que nasce do fundo do meu caminho.
Tu sabes que os anos me ensinaram a escolher a paz em vez do tumulto, a verdade em vez do ruído, a solidão serena em vez da companhia que fere. Mostra-me, Senhor, que isso não é desistência, mas maturidade.
Dá-me a graça de compreender que quem já decidiu não entender, não entenderá, por mais que eu explique, por mais que eu me ofereça, por mais que eu tente curar o que não quer ser curado.
Guarda-me, Senhor, de gastar o meu coração onde ele não é acolhido. Livra-me de confundir compaixão com sacrifício, bondade com obrigação, amizade com porto de descarga.
Ensina-me a amar sem me ferir, a ajudar sem me perder, a estender a mão sem me deixar esmagar.
Quando o silêncio for a resposta mais justa, dá-me coragem para o manter. Quando a distância for proteção, dá-me serenidade para a aceitar. Quando a minha mudança inquietar os outros, dá-me firmeza para não voltar atrás.
Senhor, que eu entre no lugar dos que deixam ir, não por indiferença, mas por sabedoria. Que eu caminhe leve, sem pesos que não são meus, sem culpas que não me pertencem, sem feridas que já não quero carregar.
Purifica o meu caminho, serena o meu coração, e dá-me a coragem de ser feliz sem pedir licença a ninguém.
Amém.
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A casa onde a minha infância ainda respira

Há lugares que não se perdem, apenas mudam de forma. A casa dos meus avós já não tem telhado, mas ainda me cobre. Foi ali que aprendi o silêncio do campo, o rumor das árvores, o sentido da espera.
Por entre as açucenas que teimam em nascer todas as primaveras, reconheço o tempo que passou e o amor que ficou.
Foi naquele pedaço de terra que descobri o mundo. O cheiro da cortiça trabalhada pelas mãos do meu avô Zé Lourenço, a voz doce da avó Amélia a chamar-me ao cair da tarde, o quintal que era parque infantil, reino, abrigo.
Ali cresci sem dar por isso, como crescem as flores que ninguém planta mas que a terra insiste em devolver todos os anos, teimosas, fiéis, silenciosas.
Depois o tempo fez o que o tempo faz.
O avô partiu, a avó veio morar conosco, e a casa ficou entregue ao vento. Eu continuei a visitá-la, como quem visita uma ausência. Ia procurar paz, mas trazia sempre outra coisa: uma saudade funda, daquelas que se agarram ao peito e não pedem licença.
Com os anos, fui percebendo que cada ida me deixava mais triste. A casa já não era casa – era memória. E a memória, quando dói demais, pede que a deixemos repousar.
Há lugares que nos devolvem o que fomos, mas também nos mostram o que já não somos.
E isso custa.
As açucenas, porém, nunca desistiram. Há quarenta anos que rebentam da terra dura, mesmo no meio do mato que tomou conta de tudo.
Talvez sejam a última herança viva dos meus avós e a prova de que a beleza pode sobreviver ao abandono, que o amor pode florescer mesmo quando tudo o resto cai.
Hoje volto menos vezes.
Não por falta de amor, mas porque a minha alma regressa sempre de lá a chorar. E eu preciso aceitar: aquilo que ali existiu já não volta, aquele chão já não é meu, aquelas paredes já não são eles, e aquele menino que corria por ali já não sou eu.
Escrevo isto para fazer o luto que adiei. Para me despedir sem revolta. Para agradecer o que tive e deixar ir o que já não pode ser.
A casa caiu. Mas o que vivi ali continua de pé dentro de mim.
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segunda-feira, 8 de junho de 2026

Laços que nem a morte desfaz

Dedico estas palavras ao meu primo Francisco – o nosso Chico Alegria – ao seu filho Bili e à querida tia Ana, que mantém aceso o laço da nossa família. Que esta memória seja ponte, abraço e raiz.

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Há dias em que o passado regressa sem aviso, como quem bate à porta devagarinho mas com a força de uma vida inteira. Foi assim naquela tarde, pouco depois das três, quando o telemóvel vibrou e uma mensagem inesperada me chamou pelo nome que só a minha mãe e o meu primo Francisco usavam: Zéi.

“Sou o filho do Francisco, seu primo aqui do Brasil.”

O coração não me pediu licença. A emoção subiu-me aos olhos como quem reconhece, de repente, um rosto perdido no tempo. O Bili – o Abílio neto, o menino de quem o Chico me falava com orgulho – estava ali, do outro lado do oceano, a cumprir um gesto que só os filhos de boa cepa sabem cumprir: continuar o que o pai começou.

Mas a alegria do reencontro vinha misturada com a notícia que me tirou o chão: o Chico Alegria tinha partido. Partido cedo demais, sem me dar tempo para o abraço que prometemos um ao outro tantas vezes, como dois miúdos crescidos a sonhar com o regresso à terra onde tudo começou.

Respirei fundo. Dois minutos, talvez três, para recompor a voz. E então o Bili disse:

“A avó Ana gostaria de conversar com você.”

A tia Ana. Aquela mulher doce que conheci em 1981, quando veio a Castelo de Vide tratar de assuntos de família e nos encantou com a sua serenidade. A esposa do tio Abílio, o irmão mais novo do meu pai. A mãe do Chico. A matriarca que segurou a família quando a vida lhes levou o marido, e agora o filho único.

O Bili passou-lhe o telefone. E foi ela – com mais de 90 anos, com a sabedoria das mulheres que já viram tudo – quem me consolou a mim, quando devia ser eu a confortá-la a ela.

“Ele estava num grande sofrimento, meu filho. Temos de aceitar e conformar.”

Aquelas palavras ficaram-me gravadas como um abraço que atravessa o Atlântico. E percebi, naquele instante, que há laços que nem a morte desfaz. Laços que sobrevivem a seis décadas de distância, a oceanos, a silêncios, a vidas inteiras vividas em paralelo.

O Chico foi alegria até no nome. Foi entusiasmo, curiosidade, vontade de regressar à terra natal. Foi o primo que me reencontrou pela escrita, que me chamou “primo Zéi” com a ternura de quem recupera um pedaço da infância. Foi o homem que planeou voltar, que sonhou pisar de novo as ruas de Castelo de Vide, que me prometeu um abraço que a vida não deixou acontecer.

Mas deixou-nos algo maior: o gesto de procurar, de reencontrar, de reconstruir a ponte que o tempo não conseguiu destruir.

O Bili, com a sua mensagem simples e luminosa, continuou essa ponte. E a tia Ana, com a sua voz firme e doce, segurou-a com as duas mãos.

E eu, que fico deste lado do oceano, guardo agora esta saudade limpa, esta dor serena, esta gratidão profunda por ter pertencido – e ainda pertencer – a esta família espalhada pelo mundo, mas unida por dentro como só os Coelhos sabem ser.

Porque os amo a todos. Os que estão no Brasil, na Inglaterra e os que já estão no céu.

Laços assim não se quebram. Nem o tempo, nem a distância e nem sequer a morte lhes tocam verdadeiramente.

José Coelho

Foto: - A tia Ana Alvarrão Coelho, 94 anos de ternura, coragem e fé. Mãe do Chico Alegria, avó do Bili, guardiã dos laços que nem a morte desfaz.

Mais um anoitecer sobre esta terra antiga

Há noites em que a alma se encosta ao peitoril da janela e fica ali, quieta, a olhar o mundo como quem olha um velho amigo que regressa cansado, mas fiel. O dia recolhe-se devagar, como um pastor que fecha o rebanho, e a luz vai-se deitando sobre os campos com a delicadeza de quem conhece cada sulco, cada pedra, cada sombra.
Lá fora, as espigas de centeio, já pesadas de grão, inclinam-se num gesto que parece reverência. Não é só o peso que as faz pender – é a memória da terra que as sustenta, a mesma terra que as viu nascer, crescer, amadurecer. Há nelas uma humildade antiga, como se soubessem que tudo o que sobe acaba por regressar ao chão que o alimentou.
O feno, recém-segado, exala um perfume que não pertence a nenhuma estação do calendário, mas a todas as estações da vida. É o cheiro de milhões de flores que cumpriram o seu destino e agora repousam, entregues ao sol que as seca e as transforma. Esse aroma mistura-se com o silêncio da tarde que morre, e juntos criam uma espécie de oração sem palavras.
E é então que a melancolia chega, não como tristeza, mas como reconhecimento. Reconhecimento que caminhamos sobre um chão que guarda mais séculos do que passos. Sob os nossos pés dormem antas que foram templos, menires que foram faróis de pedra, lagaretas onde mãos sem nome esmagaram azeitonas para alimentar famílias que já não existem.
Há restos de villas romanas na Herdade dos Pombais e na Herdade da Torre, mosaicos que o tempo tentou apagar mas que insistem em sobreviver, como se quisessem lembrar-nos que a história nunca se rende.
Tudo isto vive aqui, neste pedaço de mundo que a pressa moderna quase despovoou. Cinquenta anos de desatenção, de políticas cegas, de abandono lento e cruel. Mas a terra não esquece. A terra guarda. A terra espera.
Eu sou um dos que ainda a escutam.
Por isso a noite me fala. Por isso o campo me acompanha. Por isso sinto esta mistura de ternura e dor, de pertença e inquietação. Porque sei que este chão é mais do que paisagem: é herança, é testemunho, é raiz.
E quando a minha alma se encosta ao peitoril da janela, não está apenas a olhar o mundo, está a reconhecer-se nele. Está a ver-se refletida nas espigas que pendem, nos fenos que secam, nas pedras que guardam séculos. Está a perceber que também ela faz parte desta continuidade silenciosa, desta respiração antiga que atravessa gerações.
A noite cai, mas não apaga. A noite cobre, mas não esconde. A noite é o manto onde a memória repousa. E eu, que a contemplo, tento ser o guardião dessa memória.
Em Beirã, na Toca dos Coelhos.