quinta-feira, 23 de julho de 2026

Hino à Amizade

Há pessoas que passaram pela minha vida como vento: chegaram, tocaram-me por instantes, deixaram um sorriso breve e seguiram o seu caminho. Mas outras… outras ficaram. Ficaram como raízes antigas, dessas que seguram o chão mesmo quando a vida muda de estação. São presenças que não se apagam, mesmo quando o tempo tenta levar tudo consigo.

E eu lembro-me, sim. Lembro-me da infância pobre em bens, mas rica em afetos. Lembro-me da menina – a querida Batistinha – que repartia o lanche comigo, sem cálculo nem medida, apenas porque a amizade já vivia ali, mesmo antes de sabermos o que era amizade. Do sapateiro que denunciou a cumplicidade dos dois, talvez por achar graça à cena. Mas o mais bonito foi a resposta: a mãe dela, em vez de se zangar, começou a enviar dois lanches. Dois. Como quem diz: partilhem, que a amizade é coisa boa. 

Esse gesto ficou gravado em mim como uma bênção que ainda hoje me acompanha.

Também me lembro do dia em que fugi à mestra para ir ver o ensaio na sociedade. Eu queria tanto participar, tanto sentir aquele mundo maior do que a mestra, mas não tinha roupa “fina”, nem sapatos, nem traje de beirão de Monsanto. Era apenas o menino descalço, com a roupa do dia, e um sonho enorme no peito.

E foi então que a vida me mostrou o que é a generosidade verdadeira. A mãe de um companheiro – o Joaquim Eusébio – abriu o armário e emprestou-me a roupa dele. Sapatos incluídos. Vestiu-me para o sonho. Vestiu-me para a vida. E naquele gesto simples começou a minha pequena “carreira artística”, que ainda hoje me faz sorrir quando a memória me chama.

Ao longo dos anos, muitos passaram. Alguns ficaram apenas como brisa. Mas outros – os mais raros, os mais preciosos – ficaram como raízes profundas. São os que atravessaram décadas, oceanos, continentes. São os que me guardaram no coração mesmo quando a vida nos separou por mares e por anos. São os que regressam de vez em quando vindos do Canadá ou de outras paragens, trazendo consigo o perfume antigo das memórias partilhadas.

A amizade sincera não envelhece. Amadurece. Não exige presença diária, nem fotografias, nem provas. Vive na memória boa, na estima guardada, no reencontro que não estranha. Vive na certeza de que fui importante para alguém e alguém foi importante para mim.

Hoje, quando um amigo de há setenta anos atrás bate à minha porta, não é apenas ele que chega. É a minha própria história que regressa para me dizer que valeu a pena ser quem fui. Que valeu a pena ser verdadeiro, ser leal, ser raiz na vida dos outros.

Esta crónica é a minha homenagem para todos eles e elas: para quem repartiu o lanche, para quem me vestiu para o sonho, para quem caminhou comigo na poeira da infância, para quem me guardou no coração, para quem regressa sempre com o mesmo brilho antigo no olhar.

A amizade eterna é isso: um fio que não se rompe, uma raiz que sustenta, uma luz que atravessa o tempo, uma bênção que se renova no reencontro. E eu, que o vivi, sou testemunha de que a amizade, quando é sincera, não passa, fica para sempre.

Tchim-tchim a todas as amigas e amigos – felizmente são ainda muitos – que me honram com a sua estima e amizade desde a nossa infância. 

José Coelho

Limites

Os limites não nascem da raiva. Nascem da calma. São a forma mais madura de dizer: “Eu estou aqui, e aqui termina o que eu permito.”
Durante muito tempo, tentei ser abrigo para todos. Ouvi mais do que devia, aceitei mais do que era justo, carreguei pesos que não eram meus. Por solidariedade, por hábito, por aquela vontade amiga de não deixar ninguém para trás.
Mas chega um momento em que a alma pede ordem. Pede silêncio. Pede fronteiras.
Os limites não são muros. São portas com fecho. Abrem-se quando há respeito, fecham-se quando há descuido.
Não preciso levantar a voz para me proteger. Não preciso justificar-me. Não preciso explicar o que é evidente: a minha paz será sempre prioridade.
Limites é saber dizer “não” sem culpa; saber afastarmo-nos sem drama; responder com calma a quem chega com tempestade; escolher quem fica e quem não pode continuar.
E, ao contrário do que muitos pensam, os limites não afastam pessoas, afastam apenas comportamentos. Quem gosta de mim de verdade adapta-se. Quem não gosta, afasta-se sozinho.
A serenidade é a minha força. Não sou lobo, mas também não sou cordeiro. Sou alguém que aprendeu que a bondade precisa de fronteiras para não se transformar em sacrifício.
Os limites que coloco hoje, não são castigo, são cuidado. Cuidado comigo, com a minha energia, com a minha paz.
E quem me quiser ao seu lado, que venha com respeito, com calma, com educação. Porque é assim que eu vivo. E é assim que eu fico.
Boa quinta-feira, pessoal. Cuidem-se.
Texto e foto

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Delicadeza não é fraqueza

A delicadeza é um lume baixo. Não queima, não assusta, não invade. Apenas aquece como o sol que se deita sobre a serra e não pede licença para entrar nas casas.
Ser delicado é escolher o caminho mais difícil. É não devolver a pedra que nos atiram, é não levantar a voz quando o mundo nos provoca, é não permitir que a rudeza dos outros se torne a nossa própria linguagem.
A delicadeza é uma arte antiga, daquelas que não se aprendem nos livros, mas no convívio com a terra, no silêncio das tardes longas, no olhar atento de quem sabe que a vida é demasiado breve para ser vivida aos empurrões.
Há quem confunda delicadeza com fraqueza, mas quem a pratica sabe bem que é preciso coragem para ser suave num mundo que tantas vezes nos pede o contrário.
A delicadeza é resistência silenciosa: uma forma de dizer “eu não sou igual a quem me fere”, sem precisar de levantar muralhas ou gritar verdades. É também uma forma de cuidado. Cuidar do outro, sim, mas sobretudo cuidar de si.
Porque quando escolhemos a delicadeza, estamos a proteger o nosso coração da ferrugem que a agressividade deixa. Estamos a manter a alma limpa, como quem varre o alpendre todas as manhãs para que o dia comece sem restos de ontem.
A delicadeza é o gesto que não pesa, a palavra que não corta, a presença que não exige. É o modo como pousamos a mão no ombro de alguém, como oferecemos silêncio quando o outro precisa, como guardamos a nossa força para a usar apenas quando é justa.
Quem cultiva a delicadeza anda pelo mundo como quem leva um cântaro de água fresca: não para apagar incêndios alheios, mas para refrescar o caminho de quem merece caminhar ao nosso lado.
Por fim, a delicadeza é isto: a livre escolha de continuar a ser boa pessoa mesmo quando o mundo nos tenta ensinar o contrário. É a prova de que a grandeza não está no barulho, mas na suavidade com que tratamos a vida.
Texto e foto

Obrigado

Pequenas andorinhas e margaridas, moldados com carinho, a celebrar a família que fomos construindo ao longo de meio século.
Um presente que nos vê como a natureza: unidos no mesmo voo, diferentes nas cores, mas sempre a regressar ao mesmo ninho.
De preto a Manuela e eu, de branco os dois filhotes, de rosa as três netas. E as margaridas, as duas noras.
Agradecemos, de coração, a quem idealizou e nos ofereceu esta ternura em forma de símbolo.

Não, obrigado

Há um momento na vida que chega, sem alarde, como o cheiro da terra molhada depois da rega, em que percebemos que já não temos espaço para o que nos pesa sem nos dar nada em troca. A idade não nos torna intolerantes; torna-nos atentos. O coração aprende a distinguir o que o alimenta do que o consome.
Cada pessoa traz consigo um pequeno fardo: hábitos, manias, modos de ser. E embora a boa-fé seja sempre o ponto de partida, ninguém é obrigado a carregar o que não lhe pertence. A vida é demasiado breve para suportar tempestades que não são nossas.
A amizade, essa sim, nasce como nascem as coisas verdadeiras: devagar, sem anúncio, sem contrato. Um dia damos por nós a perceber que alguém se tornou abrigo, descanso, claridade. Não sabemos quando começou, apenas sabemos que começou bem.
Amigo é quem escolhe ser. Não quem se sente obrigado. Não quem usa a palavra sem lhe conhecer o peso.
Por isso há um cuidado simples que devemos ter: não guardar na alma aquilo que a envenena. Amizades que nos cansam, que nos apertam, que nos diminuem, são como água parada que acaba por cheirar mal. E quanto mais tempo a deixamos ali, mais nos contamina.
A amizade não fere. Não rebaixa. Não humilha. Não exige que suportemos o que não faz sentido.
Se alguém nos trata com rudeza, se nos magoa com intenção, é porque nunca soube ser amigo. E quem não sabe na primeira vez, não saberá na segunda, nem na terceira. A amizade não é um exercício de insistência; é um encontro de delicadeza.
A vida pede limpeza como a horta pede que se arranquem as ervas daninhas para que o que é bom cresça. Não é vingança, não é dureza: é cuidado. Cuidar de si, cuidar da paz, cuidar do silêncio interior onde cabem as pessoas certas.
Livre-se do que o fere. Livre-se do que o confunde. Livre-se do que o afasta de si mesmo. Porque quem nos estima de verdade não nos magoa. E quem não sabe ser amigo, não merece esse nome.
Amigos problemáticos?
Não, obrigado.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Sou assim

Não sou – nunca fui – movido por interesses pessoais, nem por ambições escondidas. Tudo o que escrevo sobre a minha aldeia, a Beirã; sobre o Ramal de Cáceres; sobre os vestígios arqueológicos que atravessam milénios; tudo o que faço na igreja; tudo o que fiz nas iniciativas culturais – o grupo de cantares, os teatros – a minha candidatura à Junta e tantas outras coisas em que me envolvi quase desde criança, nasceu por uma única razão: É assim que eu sou.
Desde pequeno aprendi a olhar para a minha terra com responsabilidade. Não como palco. Não como oportunidade. Não como caminho para qualquer vantagem. Olhei sempre para a Beirã como quem olha para a sua própria casa: se precisa de cuidado, cuida-se; se precisa de voz, fala-se; se precisa de defesa, defende-se.
Ao longo da vida, envolvi-me em tudo o que senti que podia ajudar a comunidade.
Criei o Grupo de Cantares da Beirã em 1995, que se extinguiu dois ou três anos depois porque os elementos mais velhos foram partindo – a D. Zita, o Senhor José Serras, entre outros. Ofereci à Tuna Sénior de Marvão, quando dela fiz parte e onde é também um sucesso, algum do melhor espólio do Grupo de Cantares da Beirã, como por exemplo: Aurora tem um menino, conforme a ouvia cantar à minha mãe; Senhora Cegonha, do Grupo de Cantares de Portel; Saias à moda antiga, da minha autoria; Mariazinha, Noite Feliz, entre outras.
Criei, com a D. Amália Baldeiras, o grupo de teatro que tanto fez rir a aldeia, e mais tarde aquele outro espetáculo que se realizou no adro da igreja. Fiz tudo isso porque acredito que a cultura mantém viva a alma de um povo e impede que a aldeia adormeça no esquecimento.
Defendo o Ramal de Cáceres porque sei que uma linha férrea não é apenas ferro: é futuro, é ligação, é dignidade. Fotografo e publico vestígios arqueológicos porque a história não é propriedade de ninguém, mas responsabilidade de todos.
Sirvo a igreja porque a fé, para mim, é caminho, é pertença, é forma de estar. E é por isso que, quando falta quem cante o salmo, sou eu que subo ao ambão. Não por protagonismo, não por vaidade, mas porque mais ninguém o sabe fazer. Faço-o como sempre fiz tudo na minha vida: para que nada falhe, para que a comunidade não fique sem voz, para que a celebração siga inteira. Ali, diante da assembleia, não estou a representar nada - estou apenas a ser quem sou.
Candidatei-me à Junta de Freguesia porque surgiu um projeto turístico com o apoio dos governos de Portugal e Espanha na altura, que iria devolver os comboios aos carris a partir de Cáceres, com ligação à Linha do Leste até Badajoz e Mérida. Entendi que podia contribuir para ajudar a agilizar esse projeto – não porque precisasse de qualquer benefício, mas porque vi ali uma oportunidade de devolver vida ao ramal e esperança à região.
Convém acrescentar aqui que já tinha sido convidado três vezes para cabeça de lista em eleições anteriores e recusei sempre, apesar de ter ficado grato pela confiança em mim depositada. Só ao quarto convite, a mera hipótese – porque nunca foi uma certeza – de voltar a ver os comboios nos carris do Ramal de Cáceres me seduziu a aceitar esse desafio.
Muita gente zombou sem se preocupar minimamente em tentar saber do que se tratava, optando pelo mais fácil – o bota-abaixo. Contra ventos e marés dei a cara, consciente de que, não sendo a antiga ligação Lisboa–Madrid, seria pelo menos uma forma de voltar a dar alguma utilidade ao Ramal de Cáceres para que ele não morresse definitivamente.
Nunca procurei nada para mim. Nunca precisei. Nunca quis.
A minha forma de estar na vida é simples: servir a comunidade civil da qual faço parte e a comunidade cristã à qual pertenço. Não sou nenhum herói – rejeito completamente esse título. Não sou vítima de coisa nenhuma – nunca me coloquei nesse lugar.
Sou apenas e só aquilo que sempre fui: um homem que acredita que a sua terra merece ser cuidada, que a sua gente merece ser respeitada, que a sua história merece ser preservada. E tudo o que faço nasce APENAS dessa raiz. Não de interesses. Não de cálculos. Única e simplesmente da minha maneira de ser.
Sei – tenho absoluta certeza – que atrás de mim não virá quem melhor fará, porque cada dia mais cada pessoa só está preocupada com o seu umbigo. E não há volta a dar.
Pedro Coelho
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Cante Alentejano à Senhora do Carmo

Na tarde quente do passado dia 16 de julho na Beirã, quando o sol escorria pelas paredes brancas da aldeia como ouro antigo, estava eu, diante da igreja cheia, sentindo o coração bater mais depressa do que a respiração.
A Senhora do Carmo brilhava no seu altar, rodeada de flores e de uma luz que parecia vir de dentro dela. E eu sabia que o momento se aproximava, aquele instante em que a minha voz ficaria sozinha, exposta, frágil, entregue.
O silêncio caiu. E comecei.
“Senhora… que és Padroeira… da nossa terra… hospitaleira.”
Sempre que canto estes versos, sinto a alma tremer. Há um aperto que me sobe à garganta, uma emoção que ameaça quebrar-me a meio. Mas avanço. Avanço porque não canto sozinho: canto com a fé de todos, canto com a história da aldeia, canto com a Senhora a olhar para mim.
Alonguei o “hospitaleeeeiiiraaa” como quem estende a mão à assembleia. E então aconteceu o milagre de todos os anos: o coro e a igreja inteira levantaram-se numa só voz.
“Nossa senho-o-o-ra do Carmo… que está-á no seu altar…”
Aquele momento não se explica, vive-se. A igreja vibrou. As velas estremeceram. As paredes respiraram. E eu senti que a aldeia inteira estava ali, unida, como se cada pessoa tivesse deixado à porta o peso da vida para entrar só com a fé.
O Senhor Bispo e os dois reverendos Padres voltaram-se para a Senhora e cantaram conosco. Não como autoridades, mas como homens tocados pela mesma luz.
E isso, para mim, foi uma bênção silenciosa.
Depois, o silêncio voltou.
E eu, sozinho outra vez, retomei o cante:
“Pedi-i-mos… a uma vó-óz… Nossa Senho-o-ra, rogai por nós.”
A voz embargou-se, mas não caiu. O coração apertou, mas não me traiu. E quando terminei, estava lavado em incontíveis lágrimas.
Como sempre.
Lágrimas de devoção, de felicidade e de missão cumprida.
Naquele dia, não fui apenas tenor. Fui ponte. Fui oferenda. Fui o homem que deu voz ao que todos traziam no peito.
E a Senhora do Carmo ouviu.
Texto e foto