Nasci no início da década de 50, exatamente a meio do século XX. O mundo estava destroçado por duas guerras mundiais e outra, civil, paredes meias com a nossa aldeia, e deixara rastos de sangue, medo e silêncio. Cresci entre gente que acudia aos fugitivos da morte: homens e mulheres que chegavam com o desespero nos bolsos das roupas rasgadas pelo infortúnio, trazendo apenas o corpo cansado e a esperança de sobreviver mais um dia.
A nossa gente tinha pouco para lhes dar – quase nada, na verdade. E o que havia, vinha da terra: o pão duro, a batata pequena, o azeite guardado como ouro, a sopa que se esticava para mais um prato quando era preciso ser repartido com quem chegava sem nada. Conheço histórias de terror, mas conheço também histórias de grandeza, daquelas que não se escrevem nos livros, mas ficam gravadas na memória de quem viu mãos pobres estenderem o seu pouco pão, a quem já não tinha sequer lágrimas.
Passado que vai já mais de um quarto do século XXI, olho para trás e reconheço que já começo a ser velho – não idoso – essa palavra estranha e maquilhada de um falso respeito. Velho, sim: palavra que representava outrora respeito, sabedoria, veneração, experiência. Velho como as pedras da Beirã, que guardam séculos de passos e ainda assim permanecem firmes.
Vejo o mundo recuar perigosamente àquela época em que nasci. Guerras absolutamente desnecessárias, loucos que se julgam Deus a governarem países armados, vidas destruídas por ambições que não cabem em nenhum coração humano. Vejo o clima em convulsão, talvez irreparável, como se a própria Terra estivesse cansada de nos avisar. Vejo… vejo… vejo… e cada “vejo” pesa como uma pedra que se acumula no peito.
Mas também vejo a memória dos que, não tendo quase nada, repartiam tudo. E pergunto-me se ainda seremos capazes dessa grandeza. Porque, apesar daquilo que vejo, continuo a acreditar que há uma centelha humana que resiste. Talvez porque cresci a observar gestos que hoje parecem impossíveis: mulheres que dividiam o pão em quatro para que ninguém ficasse sem migalha; homens que davam o casaco a quem chegava encharcado de medo; famílias que acolhiam desconhecidos como se fossem irmãos perdidos.
Essa grandeza de alma não era ensinada nas escolas, era vivida. Era a ética da sobrevivência partilhada, a moral dos que sabiam que só se atravessa a noite quando se caminha em conjunto. E pergunto-me se ainda guardamos essa memória no fundo da alma ou se a trocámos por distrações, ruídos, ecrãs, urgências que não salvam ninguém.
Vejo o mundo a correr para um abismo que reconheço demasiado bem. Guerras e ódios a alimentarem-se de nada. Líderes que confundem poder com divindade, como se a vida dos outros fosse apenas um número numa folha de cálculo. Vejo o clima a gritar, a Terra a estremecer, os rios a secarem, como se já tivessem desistido de nós.
Cada visão dessas é uma ferida a abrir-se devagar.
Contudo, ainda há mãos que se estendem; ainda há quem reparta o pouco que tem; ainda há quem resista à indiferença. Vejo jovens que procuram sentido; vejo velhos como eu que tentam transmitir o que aprenderam quando o mundo era pobre, mas não era vazio. Vejo que a esperança não desapareceu, apenas vive escondida atrás do barulho.
E talvez por isso escrevo. Porque escrever é a forma que encontrei de impedir que a memória se perca. É o meu modo de dizer ao mundo que, apesar de tudo, ainda acredito na grandeza humana que tenho testemunhado desde criança. Acredito que, mesmo rodeados de loucura, ainda somos capazes de gestos simples que salvam vidas.
Acredito que o futuro, por mais sombrio que pareça, pode ser iluminado por mãos que repartem o pão, como se fazia na minha terra, quando o século XX ainda era novo e eu também.
Estou a ficar velho como as pedras da minha terra, como os muros que viram fugitivos da guerra de Espanha esconderem-se atrás deles, como o silêncio que guardou segredos e gestos de compaixão. Mas, por estar a ficar velho, reconheço também sinais que muitos fingem não ver: o mundo a arder outra vez, a enlouquecer outra vez, a repetir os mesmos erros, a mesma história que jurou nunca mais repetir.
Por isso insisto em escrever. Porque escrever é resistir. Porque a escrita, quando é verdadeira, é a última forma de coragem. E porque, se o futuro nos falhar, que ao menos não nos falhe a memória.





