sábado, 7 de novembro de 2026

Um pouco de humor nunca fez mal a ninguém

Estou numa idade em que, se como açúcar, a minha diabetes aumenta; se como sal, a minha tensão sobe; se bebo água, tenho de ir ao wc a cada cinco minutos, se não bebo, fico desidratado.
Se como, engordo; se não como, desmaio. Se não como de forma saudável, o meu colesterol sobe; se como de forma saudável, fico com deficiência de cálcio. Se faço exercício, no dia seguinte não consigo me mover por causa das dores nos ossos; se não o faço, perco a mobilidade.
Se durmo muito, as minhas costas doem. Se durmo pouco, ando como um zombie. Se tomo café, fico hiperativo; se não tomo café, fico lento. Se descanso, sinto-me culpado; se não descanso, fico-me arrastando.
Estou numa idade em que até cuidar de mim mesmo, é perigoso. Uma idade em que, de manhã, eu já não acordo... ressuscito.
Só quero dizer o seguinte: precisamos encarar a velhice com leveza. Algumas pessoas realmente enlouquecem por estarem trancadas e sozinhas.
Falei sobre isso há pouco tempo com o micro-ondas e a torradeira, enquanto tomávamos um café, os três concordámos.
Já não falo com a máquina de lavar porque ela simplesmente distorce tudo, e acho a geleira muito fria e distante.
Ah, quase me esquecia, deixei de tentar falar com o ferro de passar e com o forno, porque eles se esquentam com muita facilidade.
Vamos ser felizes; a vida é muito curta. E não se esqueçam de sorrir todos os dias. Um oncologista brasileiro disse:
A meia-idade começa aos 50 e termina aos 70 anos.
Os anos dourados começam aos 70 e terminam aos 80 anos.
A velhice começa aos 80 e termina aos 90 anos.
A longevidade começa aos 90 anos e termina com a morte.
Não sei quem é o autor deste texto, mas… Está delicioso!
Porque brinca com uma verdade que quase todos os que já passámos dos "enta" reconhecemos: chega uma altura em que parece haver uma conspiração organizada entre o corpo, os médicos e a farmácia para nos complicarem a existência.
O humor tem esta virtude extraordinária: permite-nos olhar para as limitações da idade sem amargura. O joelho dói na mesma, as costas protestam na mesma, a tensão continua a ter opinião própria, mas quando conseguimos rir disso retiramos metade do peso que essas coisas têm.
Aliás, há uma sabedoria escondida por trás destas brincadeiras. A velhice não é apenas perda.
É também a idade em que já não precisamos de correr atrás de tudo, em que sabemos distinguir o essencial do acessório, em que um almoço com os filhos, uma visita das netas, uma conversa à lareira ou a sementeira das ervilhas valem mais do que muitas das ambições que nos consumiam quando éramos novos.
Quanto ao autor, também não o conheço, mas quem o escreveu percebeu uma coisa importante: a melhor forma de enfrentar o passar dos anos não é negar que eles existem. É recebê-los com um sorriso, alguma resignação bem-disposta e uma boa dose de sentido de humor.
E sabem que mais, amigos?
Há uma frase que eu acrescentaria ao texto:
"Cheguei a uma idade em que demoro mais tempo a levantar-me da cadeira, mas preciso de muito menos tempo para perceber o que realmente importa".
Isto não é velhice. É experiência com raízes fundas e coração ainda em flor.
Um abraço, amigos. E não falem mal do micro-ondas. Ele é dos poucos que ainda nos aquece a alma sem discutir conosco.

Tão verdade e certo

Quando somos jovens, vivemos como se o tempo fosse uma nascente inesgotável. Os dias sucedem-se sem contagem, os anos parecem lentos e o futuro estende-se diante de nós como uma estrada sem fim à vista.
Mas a vida, silenciosamente, vai-nos ensinando outra coisa.
Não é que os dias se tornem mais curtos. Somos nós que passamos a compreender melhor o seu valor.
Um dia damos por nós a olhar para uma cadeira vazia à mesa e recordamos alguém que ainda há pouco tempo estava presente. Outro dia celebramos os oitenta e oito anos de uma irmã, de uma tia, de uma amiga da vida inteira, e percebemos que cada aniversário é muito mais do que um número.
É uma vitória. É um privilégio. É um agradecimento.
Então começamos a compreender que a verdadeira riqueza não está no tempo que já passou nem no que sonhamos vir a ter.
Está no tempo que temos hoje.
Hoje, à volta de uma mesa cheia de família.
Hoje, num abraço que não foi adiado.
Hoje, numa visita feita a quem se estima.
Hoje, numa fotografia que ficará para memória futura.
Talvez seja por isso que, com a idade, os encontros se tornam mais importantes do que os programas, as conversas mais importantes do que os bens e a presença mais importante do que os presentes.
Não porque nos tornemos mais tristes. Mas porque nos tornamos mais sábios. Aprendemos que o tempo não vale por ser infinito. Vale precisamente porque não o é.
E é essa consciência que transforma um almoço comum num momento precioso, uma fotografia numa herança e um simples "estou aqui" numa das mais belas declarações de afeto que podemos fazer.
A cada dia, nosso tempo vale mais.
Não porque aumente. Mas porque aprendemos, finalmente, que cada dia é uma parcela irrepetível da vida.
E porque sabemos que resta menos, passamos a viver melhor o que resta.
Talvez seja essa a grande arte de envelhecer: não contar os dias que faltam, mas dar valor aos dias que ainda temos para partilhar com aqueles que amamos.

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Da Beirã, com amizade

O fim de semana chega sempre com um passo diferente. Não corre. Não buzina. Não traz agendas apertadas nem relógios impacientes.
Chega devagar, como quem pousa uma manta sobre os ombros de quem passou toda a semana a enfrentar preocupações, compromissos e pequenas batalhas.
Aqui na aldeia, a manhã nasceu cinzenta. O céu parece ter decidido vestir-se de neblina e silêncio. Mas nem por isso o dia deixa de ser bonito. Há uma paz especial nas horas em que a natureza abranda e nos convida a fazer o mesmo.
Talvez este seja um bom momento para beber um café sem pressa, visitar alguém de quem gostamos, dar dois dedos de conversa a um vizinho, ler algumas páginas esquecidas na mesa de cabeceira ou simplesmente olhar pela janela e agradecer o que temos.
Nem todos os dias precisam de ser extraordinários. Às vezes, basta que sejam tranquilos.
A felicidade mora quase sempre nas coisas mais simples: numa chamada inesperada, no riso de uma criança, num almoço em família, no calor de uma lareira acesa ou no conforto de saber que alguém se lembra de nós.
Por isso, neste fim de semana, procure menos o que lhe falta e desfrute mais do que já possui. A vida passa depressa demais para ser vivida apenas entre preocupações.
Desejo a todos os amigos e leitores dias serenos, saúde para caminhar, motivos para sorrir e pessoas boas com quem partilhar o caminho.
E, se o sol não aparecer no céu, que apareça pelo menos dentro de cada um de nós.
Bom fim de semana, família e amigos. Que a vida vos trate com carinho, vos ofereça bons motivos para sorrir e vos permita saborear a beleza das pequenas coisas que, tantas vezes, são as maiores.
Um abraço.
06. 11. 2026

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Um beijinho a subir da chaminé

Vejo o fumo subir da minha chaminé e recordo outros tempos. Tempos em que a aldeia inteira parecia respirar ao mesmo ritmo. De cada telhado erguia-se um pequeno sinal de vida, como se as casas falassem umas com as outras através do céu.
O inverno era o mesmo. O frio era o mesmo. O que era diferente era a quantidade de gente que se aquecia por detrás das paredes.
Aquele fio de fumo que sobe da chaminé não aquece a aldeia. Nunca aqueceu. Mas continua a aquecer a memória de quem viveu os tempos em que quase todas as casas da Beirã anunciavam assim a sua presença.
Ao vê-lo subir devagar para o céu, apetece acreditar, nem que seja por instantes, que a aldeia continua toda habitada e que, atrás de cada porta, há uma lareira acesa, uma mesa posta e uma família reunida.
Na realidade, muitas dessas portas já não se abrem todos os dias e muitas dessas lareiras extinguiram-se há muito.
Mas, enquanto aquele fio de fumo sobe lentamente da chaminé da minha casa, permito-me a doce ilusão de que a minha velha Beirã continua inteira, viva e acolhedora como a conheci.
Hoje foi mais um. Um beijinho simples, enviado sem envelope nem selo. Subiu devagar com o fumo da chaminé e foi procurar, algures no Céu, aqueles que me ensinaram a amar esta casa, esta terra e a vida.
Espero que lhes tenha chegado.

Memórias à lareira da casa natal

Sentado à lareira, ouvindo o crepitar da lenha e contemplando a dança hipnótica das labaredas, deixo-me embalar pelas memórias que habitam esta casa onde nasci e onde continuo a morar. Há silêncios que falam mais do que as palavras, e este é um deles.
Nas noites de inverno, quando o frio aperta lá fora e o vento descobre sempre uma fresta por onde assobiar, o calor do fogo deixa de ser apenas conforto para o corpo. Torna-se aconchego para a alma, uma presença discreta daqueles que aqui viveram comigo e que o tempo levou sem jamais conseguir apagar.
Cada chama parece trazer consigo uma voz antiga, um riso distante, uma história contada à mesa ou uma confidência partilhada em surdina. São fios invisíveis que o tempo foi tecendo e que continuam a ligar o presente ao passado dentro destas paredes.
Lembro-me de ser criança e de me sentar no chão, diante da lareira, fascinado pelo brilho das brasas em constante transformação. Escutava os adultos conversarem, ouvia as histórias do avô, sentia o aroma das castanhas assadas e via o vapor da sopa quente subir lentamente da sertã.
Tudo isso permanece vivo dentro de mim. O lume era, e continua a ser, o coração da casa.
Quantas vezes vi os meus pais partilharem silêncios cúmplices junto ao fogo. Quantas vezes ouvi as minhas irmãs trocarem segredos enquanto a noite ia cobrindo o mundo lá fora. Aqui dentro, no abrigo destas paredes antigas, tudo parecia mais simples e mais seguro.
Cada chama era uma promessa silenciosa de que a vida continuaria o seu caminho, mesmo quando tudo à nossa volta mudasse.
Hoje, sentado no mesmo lugar, dou por mim a ser o guardião destas memórias. A casa envelhece comigo, as marcas do tempo acumulam-se nas paredes e também no rosto, mas o fogo continua igual, eterno na sua dança, reacendendo lembranças, sonhos e saudades.
Talvez seja por isso que gosto tanto de me sentar diante da lareira. Não é apenas pelo calor que ela oferece. É porque, à sua luz, volto a encontrar os rostos que amei, as vozes que escutei e os afetos que ajudaram a construir o homem que sou.
E enquanto as labaredas dançam diante dos meus olhos, agradeço em silêncio.
Pela infância que aqui vivi. Pelos pais que aqui me criaram. Pelas memórias que o tempo respeitou. E pelo privilégio de ainda poder chamar lar a este lugar onde a minha história começou.
Enquanto esta lareira acender, haverá sempre um pouco deles, aceso comigo.
José Coelho

O extraordinário mora aqui

Durante muitos anos pensei que o extraordinário estava reservado aos grandes acontecimentos. Aos dias que ficam na memória. Às vitórias, às conquistas ou aos momentos raros que interrompem a rotina.
Com o passar do tempo percebi que estava enganado.
O extraordinário mora nas coisas simples.
Mora na Fonte da Murta, desde que me lembro. Era ali que a minha avó Amélia ia buscar água, de cântaro à cabeça. Era também ali que os namorados e outros moços e moças do meu tempo iam apanhar, à meia-noite do arraial de São João, a sua água pura e leve. E lá continua, serenamente, a oferecê-la a quem passa.
Mora no canto das rolas que me acorda ao amanhecer.
E no meu quintal, que todos os anos se renova em frutos e hortaliças ao ritmo das estações.
E nas conversas sem pressa com quem gosto.
E nos gestos tranquilos da vida partilhada há cinquenta anos com a "minha" Manuela.
Mora também nos beijos das minhas netas, nos encontros inesperados com amigos que não via há sessenta anos, nas memórias que regressam quando menos se espera e naquela paz serena que, por vezes, me visita sem dizer palavra.
Quem olha de fora vê apenas um dia igual aos outros. Eu vejo muito mais do que isso.
Vejo uma sucessão de pequenos privilégios que a vida me ofereceu, continua a oferecer todos os dias, e que a idade me ensinou a valorizar.
Hoje sei que a felicidade raramente chega vestida de festa. Quase sempre vem disfarçada de rotina.
E talvez seja esse o maior segredo da vida: descobrir que aquilo que procuramos longe esteve sempre aqui, mesmo ao nosso lado.

Parabéns meu eterno Amigo

O reencontro contigo depois da guerra, foi sem dúvida alguma, o melhor dia da minha vida...
Voltar para casa depois de tantos dias sombrios, foi como atravessar um limiar entre dois mundos: o da incerteza e do sofrimento, e o da ternura e da memória. Atravessado pelas cicatrizes de tanto tempo distante, vivi cada quilómetro do caminho de regresso como uma travessia de emoções à flor da pele.
A cada curva do comboio, paisagens conhecidas desenrolavam-se diante dos meus olhos trazendo de volta cheiros, cores e sons a despertarem velhas lembranças. O calor seco dos campos, a visão dos sobreiros e oliveiras, o perfume do início do verão, tudo parecia sussurrar-me:
“Estás finalmente em casa”.
À nossa porta, esperavas-me, Pai. O corpo exausto marcado por longos dias na horta foi superado pela força de um coração ansioso pelo reencontro. O olhar embaciado por lágrimas sinceras, revelava o turbilhão de sentimentos que só os grandes afetos provocam.
Ali, no exato instante em que os meus olhos encontraram os teus, desfez-se o peso do tempo e da distância, Pai. O abraço que nos uniu foi um pacto silencioso de sobrevivência, amor e gratidão, um reencontro que quase parecia irreal, como se ambos temêssemos que aquela felicidade pudesse, de repente, evaporar-se.
O regresso ao lar não apagou o que ficou para trás, mas foi um bálsamo sobre as feridas. Sensível e comovido reencontrei em ti meu Pai, a fragilidade generosa que de ti herdei, a facilidade com que tocavas as pequenas coisas da vida pela simplicidade dos teus afetos.
O gesto do nosso abraço, a partilha das nossas lágrimas, atestaram que nenhuma ausência é capaz de enfraquecer os laços que verdadeiramente importam.
Naquele momento, tudo foi permitido: relembrar, chorar, sorrir e recomeçar.
O nosso reencontro irradiou para além do nosso círculo familiar e contaminou de alegria toda a comunidade. Familiares, vizinhos, amizades de toda a vida uniram-se numa tempestade de abraços, beijos e palavras entrecortadas pela emoção.
O nosso lar deixou de ser apenas um espaço físico e transformou-se num refúgio de pertença e partilha. Cada rosto, cada gesto, cada lágrima e cada riso compuseram o mosaico de uma celebração coletiva, em que a esperança renasceu.
É nesses instantes tão cheios de significado e emoção que se revela a essência do que nos torna humanos. O regresso a casa, o reencontro com quem nos é mais querido, o privilégio de poder chorar e rir no mesmo abraço, são momentos raros que justificam uma vida inteira.
São eles que nos recordam que, por mais dura que seja a travessia, há sempre um lugar para onde voltar e onde o amor permanece à espera.
O teu nunca me faltou, meu querido Pai. Tenho tantas saudades dele. Do teu olhar honesto, do teu falar meigo e sincero, da tua presença firme que nos inspirava confiança, aconchego e proteção. Hoje é – será para sempre – o dia do teu aniversário.
Quantos anos terias se aqui estivesses comigo? E isso que importa? Serás o meu maior amigo, a minha maior referência, o meu herói, enquanto eu viver.
Parabéns e um abraço onde quer que estejas. Até um dia que já não estará muito distante e será seguramente igual, se não ainda melhor, àquele em que voltámos a encontrar-nos depois da guerra.
O teu filho e teu amigo até à eternidade.
05. 11. 2026

Um pouco de humor nunca fez mal a ninguém

E stou numa idade em que, se como açúcar, a minha diabetes aumenta; se como sal, a minha tensão sobe; se bebo água, tenho de ir ao wc a cada...