quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Prosa em forma de conto

Numa tarde já avançada deste verão, o calor descia sobre a Beirã como um lençol de luz. Não era agressivo; era um daqueles calores que sabem permanecer, encostados às paredes brancas, fazendo o tempo abrandar.

Saí para o quintal sem pressa, apenas para ver como estavam os tomateiros, que não regara na véspera porque a tarde estivera mais fresca. Mas acabei por ficar ali, parado, a olhar para nada em particular.

O silêncio, interrompido de vez em quando, pelo canto das aves no seu concerto habitual, soava a música de fundo, como se alguém tivesse posto um disco antigo a tocar baixinho.

Encostei-me à parede de pedra seca que separa a minha propriedade da Tapada da Rabela. Senti as pedras mornas nos cotovelos e, por um instante, pareceu-me que a própria parede respirava comigo. O silêncio não me cansava; embalava-me. E foi nesse embalo que a memória começou a abrir gavetas.

Recordei tardes antigas de quando era rapaz e o verão tinha outro cheiro: menos agreste, porém mais livre. Vi a minha mãe a estender roupa, o meu pai a afiar ferramentas, as minhas irmãs a correrem descalças pelo quintal. Tudo regressava com uma nitidez suave, como se o calor soubesse restaurar fotografias gastas.

Mas, nessa tarde, eu não queria viajar muito.

Queria apenas estar.

E estar, às vezes, é a melhor história que se vive.

Fiquei ali, quieto, a sentir a tarde mover-se devagar. O vento não vinha, mas também não fazia falta. A sombra bastava. A serenidade era tanta que até os pensamentos se sentaram ao meu lado, sem fazer perguntas.

Foi então que percebi que havia algo de sagrado naquele instante. Não era religião, era presença. Não era misticismo, era paz.

A serenidade chega quase sempre assim: sem anúncio, sem cerimónia. Chega quando o dia me pede menos e eu aceito; quando o sol se demora e eu não me apresso; quando o silêncio não pesa, apenas me acompanha.

E nesse estado, tudo encontra a sua medida. O que parecia urgente deixa de o ser. O barulho torna-se fundo. A preocupação afasta-se, incapaz de incomodar.

A vida parecia estar a dizer-me:

“Hoje não precisas de ser forte. Basta seres tu.”

Fiquei ali enquanto o sol descia, a luz mudava de tom e a tarde se transformava na promessa de uma noite tranquila.

Quando finalmente entrei em casa, trazia comigo uma leveza rara, daquelas que não se compram, não se pedem nem se forçam.

Apenas acontecem.

José Coelho

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Casa cheia

A casa começou a encher-se no instante em que a Francisca e a Mariana decidiram vir dormir à Toca dos Coelhos, como tantas vezes faziam quando eram pouco mais que bebés. Há surpresas que têm o dom de abrir janelas por dentro – e esta abriu-as todas.
E assim, sem aviso prévio, a noite ganhou outra música.
A Maria Manuela que conhece o ritmo da casa como quem conhece o próprio coração, começou logo a procurar um tacho, a medir o tempo do seu pudim de pão aprendido em Nisa, a escolher a forma certa.
E eu, anfitrião que nunca se atrapalha nem que chegue um pelotão de gente, fui logo também imaginando um puré de agrião para a sopa e o meu arroz rústico de pato com presunto, chouriço, e mais uns temperos secretos que não conto a ninguém e elas tanto gostam.
Tudo ficou previsto, tranquilo e certo, para o almoço do dia seguinte.
E a casa, que tantas vezes vive no silêncio das rotinas, ganhou outra respiração. Até as paredes parecem ouvir quando as netas cá estão.
Assim que elas entram, muda logo a temperatura – não por causa do calor, mas por causa delas. Há sempre um brilho especial que trazem, mesmo sendo já assim crescidas. Uma mistura da infância que ficou e do futuro que se anuncia.
Pousam as mochilas, dizem “Olá, avô”, dão-me aqueles abracinhos só nossos. E nesse instante tudo se reorganiza: o ar, a luz, o meu coração.
A vida gosta de brincar com o destino. Antes de chegar à Toca dos Coelhos com a Francisca, o Pedro passou pela casa do irmão para o saudar, e, claro, a Mariana quis logo vir também, como quem sabe que a felicidade não se planeia – acontece.
Pouco depois, já tudo instalado, estávamos nós no meio delas e não elas no meio de nós.
A fotografia que ilustra esta prosa feita já depois da meia-noite, é o poema desta inesperada surpresa: três sorrisos abertos, três brilhos diferentes, três almas a iluminarem a casa. Atrás de nós os quadros e diplomas guardavam silêncio, como se a história da família também estivesse ali a assistir à juventude que regressa sempre que quer.
A casa cheia não é só barulho, movimento, pratos e talheres. É a confirmação de que o que construímos – eu e a Maria Manuela – tem raízes, tem continuidade, tem futuro. É a prova de que a nossa casa ainda é porto, ainda é ponto de encontro, ainda é lugar de regresso.
Logo mais, quando a tarde cair e a casa voltar ao seu silêncio habitual, vai ficar no ar aquela espécie de bênção doméstica: a certeza de que aqui vivemos, de novo, o que mais nos importa na nossa vida.
Texto e foto

Uma travessia de meio século a dois

Cinquenta anos prestes a cumprirem-se
Escrevo-o em silêncio, porque há números que não se dizem em voz alta. São grandes demais, densos demais, sagrados demais.
Quando penso nesta nossa travessia, vejo dois caminhos que começaram paralelos e, devagar, se foram aproximando até se tornarem um só. Não foi magia. Não foi destino. Foi escolha – repetida, insistida, renovada todos os dias, mesmo nos dias em que o mundo parecia querer empurrar-nos para lados diferentes.
A verdade é que crescemos juntos.
Crescemos nas manhãs apressadas, nas noites longas, nos dias de trabalho duro, nos domingos de família, nos silêncios que só quem ama há muito tempo sabe interpretar. Crescemos nas pequenas vitórias e nas grandes dificuldades, nas perdas que nos ensinaram a ser mais humanos, nas alegrias que nos lembraram que a vida também sabe ser generosa.
E hoje, quando olho para ti, não vejo apenas a mulher que caminhou cinco décadas ao meu lado. Vejo a história inteira que escrevemos juntos. Vejo a casa que construímos com gestos simples. Vejo o amor que resistiu às estações, às mudanças, às tempestades. Vejo a ternura que não se perdeu, apenas mudou de forma, tornou-se mais funda, mais serena, mais nossa.
Cinquenta anos quase a cumprirem-se …
E percebo que o amor não é aquilo que sentimos no início. O amor é aquilo que permanece agora: na forma como me olhas, na forma como me falas, na forma como ajeitas a mesa, a casa, a vida, na forma como continuamos a escolher-nos, mesmo quando o tempo mudou tudo à nossa volta.
E é por isso que esta celebração, no dia 14 de agosto, não será apenas uma festa. Será um agradecimento. Um agradecimento à vida, ao tempo, à coragem de permanecer, à delicadeza de amar sem alarde, à memória que nos sustenta, à esperança que ainda nos visita.
Cinquenta anos…
E eu continuo a caminhar contigo: não por hábito, não por destino, mas por amor. Por esse amor que não se explica, não se exibe, não se apressa. Esse amor que simplesmente… permanece.
Casados desde 14. 08. 1976
Foto na Fonte da Praça do Castelo de Milão
(Abril de 2026 o ano das Bodas de Ouro)

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Memória e abandono, lado a lado

Houve um tempo em que estas terras tinham voz. Não era apenas o rumor das enxadas ou o sino da igreja, era a presença humana que enchia tudo. As aldeias respiravam gente: crianças a correr pelos caminhos de pó, mulheres à porta a conversar, homens no campo a trabalhar até o sol se esconder atrás da serra. O pão cozido em forno de lenha não era só alimento; era ponto de encontro. O fumo subia no ar frio da manhã e parecia chamar todos para o dia que começava.
Hoje, quando caminho pelos mesmos lugares, o silêncio tem outra espessura. Não é o silêncio bom da natureza – é o silêncio da falta. O distrito inteiro de Portalegre vive com 11 habitantes por quilómetro quadrado. Onze. É um número que não descreve apenas estatística: descreve solidão.
Os caminhos continuam lá, mas já não têm passos. As casas mantêm as portas, mas muitas já não têm mãos que as abram. Os muros de pedra sustentam o tempo, mas já não sustentam famílias. As aldeias guardam memórias como quem guarda relíquias, mas já não guardam gente.
Antes, o som das águas nos regatos era acompanhado por risos. Hoje, corre sozinho. Antes, o céu estrelado era visto por janelas abertas. Hoje, muitas dessas janelas estão fechadas para sempre. Antes, a sopa em tigelas de barro aquecia mesas cheias. Hoje, há mesas grandes demais para tão poucos lugares ocupados.
E, no entanto, há uma resistência teimosa nestas terras. O pastor continua a sorrir enquanto guarda o rebanho, como sempre sorriu. A flor insiste em nascer na fissura do muro, como sempre nasceu. A concertina ainda chama os pés para a dança, mesmo que a roda seja pequena. A terra continua a oferecer o cheiro depois da chuva, o voo das andorinhas, o abraço de quem dá mais do que tem.
Mas a pergunta que se levanta, silenciosa e pesada, é esta: daqui a vinte anos, o que será destes lugares?
Se o abandono continuar a galopar, talvez fiquem apenas as pedras, os muros, os caminhos e a memória dos que aqui viveram. Talvez fiquem as casas, mas sem luz nas janelas. Talvez fiquem as procissões, mas com meia dúzia de passos. Talvez fiquem os campos, mas sem mãos que os lavrem.
Ou talvez – e esta esperança é pequena, mas existe – alguém descubra que o futuro também pode nascer aqui. Que estas terras não são restos, mas raízes. Que o silêncio não é vazio, mas possibilidade.
Porque, no fim, o que define estes lugares não é o número de habitantes. É a profundidade dos gestos, a resistência da terra, a memória que não se apaga.
E mesmo que o país se esqueça dele, este pedaço de Portugal continua a ser o que sempre foi: simples, profundo, fiel e à espera de quem o queira ouvir.

domingo, 2 de agosto de 2026

Solpor (como diziam os antigos)

O sol desce devagar, como quem sabe que a terra precisa de um último afago antes de entrar na noite. A luz espalha-se pela planície da Beirã com a lentidão dos gestos antigos, aqueles que os homens da aldeia sempre tiveram quando trabalhavam a horta: nada era feito à pressa, tudo era feito com verdade.
Ali, onde o horizonte se acende em laranja e ouro, vejo o lugar onde o meu pai e o ti João Forte passavam os dias. A terra era o relógio deles. A sombra das árvores marcava as horas, o vento dizia quando era tempo de regar, e o silêncio ensinava a paciência.
Hoje, quando olho estes poentes, não estou apenas a ver o fim do dia – estou a ver o princípio de tudo o que me fez homem. Cada pôr do sol é uma chamada discreta, uma mão pousada no meu ombro, um “estamos aqui” dito sem voz.
Talvez seja por isso que não há um dia sequer em que não me lembre deles: porque o sol, ao descer, ilumina sempre o sítio onde guardei a minha infância. E a infância, nunca se perde – apenas muda de lugar dentro de nós.
Texto e foto

Crepúsculo

Mais um fim de dia em que o mundo parece suspenso, como se respirasse por mim. O sol desce devagar, sem pressa de se despedir e a sua luz espalha-se pelas paredes brancas como os lençóis que a minha mãe estendia ao vento.
Nestas horas, tudo o que sou se torna mais nítido: a terra, a memória, o silêncio.
Deambulo pelo quintal como quem revisita uma casa interior. O cheiro da hortelã, a sombra das oliveiras, o rumor das galinhas da vizinha Maria Bonacho que se ajeitam para a noite no galinheiro, tudo me reconhece, tudo me chama pelo nome.
Há uma fidelidade neste lugar que não existe em mais lado nenhum e que nunca me abandona, mesmo quando a minha mente se dispersa como uma gata vadia.
Hoje enquanto degustava uma fatia de melancia fresca e doce como açúcar, houve um instante em que o mundo se alinhou. A fruta soube-me como se fosse uma pequena epifania, a revelação simples de que a vida ainda sabe ser boa, mesmo quando tropeçamos nos nossos próprios pensamentos.
Ali encostado à bancada da cozinha, a luz filtrada pela cortina da janela a bater-me no rosto e um fio de sumo da melancia a escorrer-me pela mão.
A noite aproximava-se devagar, os canchais da Beirã tornam-se sombras altas, e o vento que desce da serra traz consigo histórias de pastores, de romarias, de mulheres que rezavam ao pé da lareira, de homens que guardavam a honra como se fosse um poço fundo.
Sou feito dessa matéria: de terra, de memória, de serviço, de cuidado. Sou feito de tardes em que a mente fica dispersa, mas também de outras em que ela regressa inteira, como a tal gata vadia a voltar ao colo do dono, depois de vaguear pelo mundo.
E eu escrevo.
Escrevo, porque há amizades que se constroem na palavra, e as palavras só nascem quando alguém que gosta de as escrever, lhes abre a porta.
Que o crepúsculo anoiteça serenamente. E que este texto chegue até vós leve como a mão que a minha companheira pousa sobre meus os ombros enquanto sussurra: “vamos para dentro, Zé, que a aragem já começa a arrefecer".

José Coelho

A todos os que passam pelo “Meu vício da escrita”

Hoje o contador ultrapassou a fasquia dos 150.000 visitantes. É um número grande, sim – mas maior ainda é o gesto de cada pessoa que aqui chega.

Agradeço aos que vêm porque gostam do que escrevo, porque encontram nestas palavras um eco das suas próprias memórias, das suas terras, das suas vidas.

Agradeço também aos que chegam apenas por ouvirem dizer, por curiosidade, por acaso – porque cada visita é uma porta que se abre, e eu recebo todos com o mesmo respeito.

E agradeço, sem ironia e sem reservas, aos que vêm com outras intenções que não as já citadas. Também eles fazem parte deste caminho: ajudam-me a manter a honestidade, a firmeza e a clareza com que escrevo. A presença deles lembra-me que a escrita é livre, e que quem publica deve saber permanecer inteiro.

A todos, sem exceção, deixo o meu obrigado. Que este espaço continue a ser encontro, memória e companhia, como a luz suave que cai sobre a Beirã ao fim da tarde.

José Coelho