segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Reflexão para início desta semana

O verdadeiro sentido da religião que qualquer um de nós professe, não se encontra nas palavras, mas nas atitudes. Podemos erguer discursos belíssimos, repetir fórmulas, defender convicções com fervor… mas é a forma como vivemos que revela, sem margem para dúvidas, o que guardamos no coração.
Vivemos tempos em que o mundo parece pedir – quase suplicar – mais empatia, mais respeito, mais amor. E, no entanto, falta tantas vezes a coragem de olhar o outro nos olhos e reconhecer que não somos uma ilha. Somos parte de um tecido maior, uma tapeçaria humana onde cada gesto nosso, inevitavelmente, toca alguém.
Cuidar de nós é essencial, claro. Mas quando o ego se torna trincheira, quando nos fechamos no pequeno território do “eu”, perdemos a capacidade de ser ponte, de ser presença, de ser diferença positiva na vida dos outros.
Muitas pessoas procuram nos templos – igrejas, mesquitas, sinagogas – um lugar de conforto espiritual, uma janela para o divino. Mas não é raro ver que, fora desses espaços, a compaixão desaparece como quem apaga uma vela ao sair. Há quem reze com devoção e, no entanto, trate mal quem encontra no caminho. Essa incoerência é talvez a maior ferida da fé: professar uma coisa, praticar outra.
E existe uma violência discreta, quase invisível, mas profundamente cruel: o silêncio perante o sofrimento alheio, o desprezo que humilha, a indiferença que fere mais do que qualquer palavra dura. Há bondades encenadas em público, gestos calculados para aliviar consciências, enquanto na intimidade reina o egoísmo.
De pouco serve rezar, pedir perdão, acender velas ou repetir rituais se, no dia seguinte, se volta ao mesmo comportamento que fere, que diminui, que contradiz tudo o que se proclama. A religião, assim, torna-se apenas um ritual vazio, uma liturgia sem alma. A verdadeira religião vive dentro de cada ser humano.
Não se apregoa. Não se discute. Pratica-se.
É feita de gestos pequenos, silenciosos e constantes. É o respeito que não precisa de plateia. É a bondade que não pede testemunhas. É a coerência entre o que se acredita e o que se faz.
No fundo, a fé só ganha sentido quando se transforma em humanidade.
Tenham, se puderem, uma excelente semana.

domingo, 18 de outubro de 2026

Às vezes a noite devolve-me o que perdi

Há noites em que sinto que o mundo me devolve coisas que eu pensava ter perdido. Não são objetos, são pedaços de mim. Fragmentos de vida que ficaram espalhados pelo caminho e que a noite, generosa, recolhe e me traz de volta.
Sento-me na sala, a luz baixa, o silêncio a crescer como uma árvore. E de repente, sem aviso, surge uma memória antiga. Não vem inteira, vem como um sopro. O cheiro da roupa lavada pela minha mãe. O som da porta da casa da infância a fechar devagar. O riso de alguém que já não está, mas que ainda vive em mim.
A noite tem este poder: não me devolve o passado, devolve-me a mim.
Devolve-me ao menino que corria descalço pela rua de terra batida. Ao jovem que acreditava que tudo era possível. Ao homem que aprendeu a amar com cuidado. Ao avô que sabe que o tempo é um breve momento que se deve tratar com ternura.
Há noites em que o corpo também fala. Fala de dores antigas que já não doem, mas lembram. Fala de alegrias que já não saltam, mas brilham. Fala de saudades que não ferem, mas aquecem.
E eu deixo que a noite faça o seu trabalho. Não a apresso. Não a interrompo. Não a temo. Porque sei que, quando ela me devolve o que perdi, não o faz para me prender, fá-lo para me completar.
E é nessa hora que percebo que não sou apenas o que vivi, sou também o que superei.

Coisas do campo

Hoje fui o cozinheiro e doceiro do almoço domingueiro para a família que encheu a mesa da sala de jantar. E a marida aproveitou "a folga" para ir retalhando azeitonas novas.

Coisas do campo à moda antiga. Estas azeitonas retalhadas, que no nosso dialecto marvanês se pronunciam "zêtonas arretalhadas" são sempre as primeiras a irem para a mesa.

Obrigado pai, por cá nos teres deixado esta bela oliveira de "zêtonas maçanicas" tão carnudas e saborosas. Beijinho, onde quer que estiveres e, já agora, dá um por mim à nossa Florinda e outro à nossa Adelina.

José Coelho

Bom Domingo


Oração de humildade e esperança
Senhor, que nunca me falte a humildade para reconhecer os meus erros, as minhas falhas, e a coragem de pedir perdão quando o coração assim o pedir. Dá-me a graça de agradecer por tudo o que tenho, porque mesmo não possuindo tudo o que desejo, tu sabes dar-me sempre o que preciso para caminhar.
Que os meus sonhos sejam grandes, mas que o meu coração nunca deixe de se alegrar com o pouco. Ensina-me a ver a beleza escondida na simplicidade, nos detalhes que passam despercebidos, nos pequenos milagres que a vida oferece todos os dias a quem sabe olhar com gratidão.
Que os meus olhos sejam de justiça, compaixão e empatia. Que os meus ouvidos saibam escolher o que edifica, o que consola, o que faz crescer. Livra-me das palavras vazias, das vozes que ferem, e dá-me sabedoria para ignorar o mal.
Abençoa, Senhor, a minha boca, para que dela saiam palavras que unem, acalmam e ajudam. Que eu saiba calar quando o silêncio for mais santo do que qualquer frase apressada.
Que a minha vida seja um caminho bonito de resiliência, superação, aprendizagem e evolução. Que a fé nunca me falte, para que a tua vontade seja sempre maior do que a minha. Que o amor nunca me falte, para que eu sobreviva num mundo onde tantas vezes falta ternura.
E que, acima de tudo, nunca me falte a esperança, essa luz que me diz, baixinho, que dias melhores já vêm a caminho.
Àmen.

José Coelho

sábado, 17 de outubro de 2026

Jantar de Irmãos

Ontem à noite, quando me sentei à mesa com as minhas irmãs, senti logo que não era apenas um jantar. Era um regresso. Um reencontro com partes de mim que só acordam quando estamos juntos: eu, a Luz e a Joaquina. O mais velho, a que vem de longe, a que ficou sempre perto. Três vidas que começaram na mesma casa, no mesmo colo, no mesmo amor.
À nossa volta estavam também os meus: a minha Maria Manuela, o Manel, a Paula, as minhas netas Filipa e Mariana. Estava o meu cunhado e marido da Luz , António Martins, o José Nunes, marido da Joaquina, a Carmen Isabel, minha afilhada, e o pequeno Lorenzo, que corre pela sala como se trouxesse nos pés a alegria que nos falta nos dias mais pesados.
E enquanto falávamos, enquanto ríamos, enquanto repetíamos histórias que já sabemos de cor, eu sentia também a presença dos que não puderam vir: o Pedro, a Ana Sofia e a Francisca em Setúbal; a Ana Lúcia nas Caldas; e os filhos, genro e netos da Luz – Cristina, Luís, Leonardo, Gustavo, Xavier e o Guilherme, que já nasceu britânico – lá em Inglaterra.
Todos eles, mesmo longe, estavam ali comigo. Porque a família não precisa de estar inteira para estar presente.
Mas havia mais. Havia três presenças que não se veem, mas que se sentem como um calor no peito: o ti António Coelho, a ti Florinda Lourenço e a nossa irmã primogénita, a Adelina. Eu sei – senti – que estavam ali. Sentados na cabeceira invisível da mesa, a olhar para nós com aquele orgulho silencioso que só os que já partiram conseguem ter. A ti Florinda, com o seu jeito de mãe que nunca se perde. O ti António, com aquele aperto de mão que eu transformava sempre em dois beijos. E a Adelina, a primeira de todos nós, que continua a ser a primeira em tudo o que importa.
Foi então que me atravessou aquela verdade mansa, mas funda: estas ajuntadas são preciosas porque um dia, sem o sabermos, uma delas será a última para alguém. E não digo isto com tristeza, digo-o com gratidão. Porque cada vez que nos juntamos, vencemos o tempo. Vencemos a distância. Vencemos a vida que nos espalhou por Portugal, Inglaterra e pelo mundo.
Ontem à noite, a mesa foi mais do que mesa. Foi casa. Foi infância. Foi bênção.
E eu, que já sou o mais cota dos três, fiquei ali sentado, a olhar para as minhas irmãs e para os meus filhos e netas e a pensar: se esta fosse a última vez, já teria valido a pena. Porque o amor que nos une não cabe numa fotografia – cabe na eternidade.
E enquanto houver um reencontro, por mais raro que seja, sei que o ti António, a ti Florinda e a Adelina continuarão a sentar-se sempre conosco. Porque o amor, esse sim, nunca emigra.

Bom fim de semana

Conservar o que é nosso e tantos sacrifícios
custou para se erguer.

Coisas que o dinheiro não compra

Há quem pense que a felicidade se mede pelo que se acumula. Eu aprendi o contrário: a minha vida foi sempre feita do que não cabe em cofres: presenças, vozes, gestos, mesas cheias de gente e de histórias.

O meu pai ensinou-me isso sem nunca o dizer. Bastava vê-lo chegar do campo, cansado mas tranquilo, para perceber que a riqueza verdadeira não está no que se traz nos bolsos, mas no que se traz no coração.

E talvez por isso eu tenha crescido com esta necessidade boa de me ver rodeado pelos meus: primeiro as irmãs, cunhados, sobrinhos, depois os filhos, noras e netas. A família sempre foi o meu território natural, o lugar onde a vida se ajeita.

As refeições eram o nosso ponto de encontro. Não importava o que havia na mesa; importava quem lá estava. Cada prato era apenas o pretexto para nos reunirmos, para nos ouvirmos, para nos sabermos vivos uns nos outros.

Hoje percebo que esse hábito simples foi a maior herança que recebemos e a certeza de que nunca caminhamos sozinhos.

Quando os meus pais partiram, senti que o chão se deslocava debaixo dos meus pés. Mas foi também aí que entendi a grandeza deles: deixaram-nos unidos, deixaram-nos atentos uns aos outros, deixaram-nos esta espécie de pacto silencioso de cuidarmos da família como eles cuidaram de nós.

A nossa infância foi humilde, mas digna. A pobreza mede-se pela ausência de amor, e essa nunca conhecemos. Tínhamos pouco, mas tínhamos tudo o que mais importava: alegria, companhia, imaginação.

Ainda hoje consigo sentir o cheiro dos confetis de anis que a mãe Florinda trazia de Espanha, escondidos como pequenos tesouros. Não eram brinquedos caros, mas eram festa. E a festa, quando nasce do afeto, vale mais do que qualquer embrulho brilhante.

Com o tempo, percebi que a verdadeira fortuna é recordar sem amargura, agradecer sem vaidade, viver com a serenidade de quem sabe que o essencial nunca dependeu do dinheiro.

Quando olho para a minha família – para os meus filhos, para as minhas netas, para todos os que continuam a ser o meu porto seguro – sinto que a vida foi muito generosa comigo.

Um dia partiremos todos, ricos e pobres, com as mãos vazias. Mas quem viveu rodeado de afetos partirá sempre com o coração cheio.

José Coelho

Foto Maria Coelho