Meu vicio da escrita...
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
domingo, 2 de agosto de 2026
Solpor (como diziam os antigos)
Crepúsculo
A todos os que passam pelo “Meu vício da escrita”
Hoje
o contador ultrapassou a fasquia dos 150.000 visitantes. É um número grande,
sim – mas maior ainda é o gesto de cada pessoa que aqui chega.
Agradeço
aos que vêm porque gostam do que escrevo, porque encontram nestas palavras um
eco das suas próprias memórias, das suas terras, das suas vidas.
Agradeço
também aos que chegam apenas por ouvirem dizer, por curiosidade, por acaso – porque
cada visita é uma porta que se abre, e eu recebo todos com o mesmo respeito.
E
agradeço, sem ironia e sem reservas, aos que vêm com outras intenções que não
as já citadas. Também eles fazem parte deste caminho: ajudam-me a manter a
honestidade, a firmeza e a clareza com que escrevo. A presença deles lembra-me
que a escrita é livre, e que quem publica deve saber permanecer inteiro.
A
todos, sem exceção, deixo o meu obrigado. Que este espaço continue a ser
encontro, memória e companhia, como a luz suave que cai sobre a Beirã ao fim da
tarde.
José Coelho
Para quem gosta do que escrevo
Hoje
partilho convosco este texto que me é muito querido. Fala da vida, da memória e
do amor que permanece. Espero que vos inspire tanto quanto me inspirou a
escrevê-lo.
A
parte que ninguém esquece
Talvez
um dia eu me esqueça. Dos nomes que hoje me chegam com nitidez, como se cada
sílaba tivesse o peso de uma vida inteira. Dos lugares onde fui feliz sem saber
que era felicidade; dos caminhos de terra onde deixei pegadas que o vento
tratou de levar; dos portões que abri e fechei; dos bancos onde me sentei a ver
o tempo passar, como quem observa um rio que nunca repete a mesma água. Dos
porquês, das razões que me moveram, dos sonhos que me empurraram, das dores que
me ensinaram a ser mais inteiro.
Talvez
as minhas mãos já não saibam onde pousar. Talvez tremam, talvez procurem,
talvez se tornem estrangeiras para mim. Mãos que outrora seguraram ferramentas,
que colheram frutos, que ampararam vidas, que escreveram histórias, que tocaram
rostos com a delicadeza de quem sabe que cada gesto pode ser o último.
Talvez
os meus olhos vagueiem por rostos familiares sem encontrarem abrigo no
reconhecimento. Talvez veja a minha gente como quem vê sombras ao fim do dia:
formas que o coração conhece, mas a memória já não alcança.
Talvez
eu não saiba mais quem sou. Talvez o meu nome se dissolva como um eco que se
perde na serra. Talvez a minha história se torne um livro fechado que já não
consigo abrir.
Mas,
ainda assim, terá valido a pena.
Porque
a história que vivemos não depende apenas das lembranças que guardamos. Ela
mora também nos outros. Mora em quem ouviu o meu riso e se sentiu mais leve,
como se o mundo tivesse ficado um pouco menos pesado. Mora em quem chorou
comigo e descobriu que a dor partilhada é uma ponte que nos salva. Mora em quem
toquei com presença, com cuidado, com verdade, essa verdade que não precisa de
palavras, porque se reconhece no olhar, no silêncio, na forma como se fica ao
lado de alguém mesmo quando não há nada a dizer.
Se
um dia a lembrança me faltar, espero que o amor que dei permaneça. Porque o
amor não se apaga. Não se perde. Não se desfaz. O amor é como água de nascente:
mesmo quando não sabemos o nome da fonte, a água continua a correr.
E
quando já não puder contar a minha própria história, que ela continue sendo
contada por quem fui abrigo, por quem fui passagem, por quem me amou, mesmo
quando eu já não soubesse mais o que era amor.
Que
a minha vida sobreviva nos gestos que deixei, nas palavras que ofereci, nas
mãos que segurei, nas portas que abri, nos silêncios que respeitei, nas
presenças que mantive mesmo quando o mundo parecia desabar.
É
por isso que vale a pena viver com inteireza. Porque, mesmo quando tudo se
desfaz, mesmo quando o corpo falha, mesmo quando a memória se fecha, a parte de
nós que se fez amor permanece.
Permanece
como luz acesa numa casa antiga, como canto de ave ao amanhecer, como cheiro de
terra molhada, como abraço que não se esquece.
E
essa parte… essa parte ninguém esquece.
José Coelho






