sábado, 19 de setembro de 2026

O impulso de escrever

Há dias em que acordo com a sensação de que o mundo me fala baixinho. Não é uma voz clara, nem urgente, é um murmúrio que vem da terra, das velhas paredes, do cheiro do café, do canto da passarada que anuncia o dia antes de eu abrir a janela.
É nesse instante que sinto essa inquietação a mexer cá dentro: aquela irresistível vontade de transformar o que vejo e ouço em palavras, como quem tenta guardar água numa concha.
Não sei se isto é vocação, destino ou apenas teimosia. Mas sei que, quando algo me encanta ou me fere, quando uma luz me toca ou uma lembrança me atravessa, nasce logo em mim o impulso de escrever.
É como se a vida me pedisse tradução e eu, obediente, me sentasse a escutá-la.
Escrever, para mim, é uma forma de conversar com o mundo. Não para o convencer de nada, mas para o acompanhar. Para lhe dizer: “Eu vi-te e senti-te, porque estou aqui.”
Mas talvez também para que os outros, ao lerem, reconheçam qualquer coisa sua nas minhas palavras: um gesto, uma sombra, uma saudade, um riso que lhes ficou por dentro.
Há quem escreva para deixar marca. Eu escrevo para não deixar que a vida me escape entre os dedos.
A Beirã ajuda-me, porque este lugar tem uma maneira própria de nos ensinar a olhar: o silêncio que não pesa, o calor que insiste fora de tempo, o outono que chega devagarinho, como quem pede licença.
Aqui, tudo parece pedir uma crónica, desde as pedra antigas que guardam muitas histórias, até ao vento que muda de direção sem avisar.
E eu, que não sei ficar indiferente ao que me rodeia, acabo sempre por transformar o que sinto, num texto. Não por vaidade, mas por necessidade.
Porque só escrevendo consigo dar forma ao que me inquieta e ao que me sossega. Porque só escrevendo encontro o meu lugar no mundo.
Talvez isto seja uma vocação: uma urgência mansa, uma fidelidade ao que me toca, uma vontade de existir com mais nitidez.
Foto Pedro Coelho

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Bom fim de semana

A paz conquista-se, não chega de repente. Não cai do céu como chuva inesperada. A paz é trabalho, é escolha, é disciplina. É algo que se constrói devagar, como quem levanta um muro: uma pedra hoje, outra amanhã, sempre com cuidado para que nada fique torto.

A paz que eu conquisto não vem dos outros, vem de mim. Vem do momento em que decido não responder à provocação. Vem da hora em que escolho o silêncio em vez da guerra. Vem da coragem de me afastar do que me magoa, mesmo quando isso me custa.

A paz não é passividade. A paz é força. É saber que posso reagir, mas escolho não o fazer porque a minha tranquilidade vale mais do que qualquer disputa.

A paz que conquisto nasce quando deixo de tentar controlar o que não depende de mim. Quando aceito que há pessoas que não vão mudar. Quando entendo que há situações que não merecem o meu desgaste.

Quando percebo que a minha energia é preciosa e não pode ser desperdiçada.

A paz também exige limites. Exige dizer “não”. Exige fechar portas que já não levam a lugar nenhum. Exige afastar quem chega sempre como tempestade e nunca como abrigo.

E, ao mesmo tempo, a paz é generosidade: é olhar para quem me feriu e já não sentir raiva; é lembrar o passado sem carregar o seu peso; é seguir em frente sem querer vingança.

A paz que conquisto é simples: é acordar e sentir que estou inteiro; é deitar-me sabendo que não traí a minha essência; é viver sem barulho dentro de mim.

A paz não é dada. A paz é conquistada. E eu conquisto-a todos os dias com silêncio, com limites, com escolhas, com calma.

Bom fim de semana, pessoal!

A lealdade nunca cansa

Há vidas que se fazem como se faz o pão: todos os dias, com as mesmas mãos, com a mesma paciência, com a mesma certeza de que o gesto vale mais do que qualquer palavra. A minha vida com a Maria Manuela é assim – uma massa que se foi amassando ao longo de cinquenta e cinco anos, com alegrias que levedaram e tristezas que também fizeram parte da receita.
Hoje ao olhar para esta fotografia na nossa cozinha, não vejo apenas dois rostos. Vejo tudo o que não se vê: as noites em que o silêncio foi companhia, as manhãs em que o cansaço não impediu o cuidado, as viagens longas, o alcatrão percorrido, as madrugadas antes da alvorada, os filhos que cresceram, as netas que nos reinventaram.
E vejo, sobretudo, a lealdade, essa palavra antiga que já quase ninguém usa porque exige mais do que o mundo está disposto a dar.
Vivemos numa época em que os sentimentos secaram como os rios no verão. As pessoas confundem facilidade com felicidade, confundem liberdade com abandono, confundem viver com deixar para trás.
Mas eu aprendi outra coisa: que a vida só tem sentido quando é partilhada, que a lealdade é uma forma de amor, e que cuidar é uma forma de agradecer o que se viveu.
Se algum dia a Maria Manuela precisar de cuidados que ultrapassem as minhas mãos, não será deixada num lugar qualquer, entregue ao acaso.
Não será afastada de mim para que eu “recupere” uma vida que nunca quis ter sem ela. Se ela tiver de ir para um Lar, iremos juntos, porque a lealdade não se suspende quando o corpo fraqueja; cumpre-se até ao fim da nossa vida.
Mesmo que os olhos dela deixem de me reconhecer, quero que a minha presença continue a ser o chão onde ela pousa. Quero ser o Zéi dela até ao último dia não por bondade, mas por coerência.
Porque a vida que construímos merece ser acompanhada até ao último capítulo, mesmo que esse capítulo seja escrito numa morada diferente.
Num tempo em que tantos corações se tornaram de pedra, eu escolho ser raiz. Num tempo em que tantos fogem, eu escolho ficar.
Num tempo em que tantos confundem amor com conveniência, eu escolho a fidelidade, essa forma silenciosa de heroísmo que não precisa de aplausos.
E se alguém perguntar porquê, a resposta é simples: porque ainda há quem seja capaz de ser leal até ao fim. E eu sou um desses.

À minha Luz

Mana,
Muitos caminhos fazem-se com os pés mas também há caminhos que se fazem com o coração. O teu, há já alguns anos, fez-se dos dois: primeiro deixaste a Beirã e depois deixaste Portugal, deixaste a tua casa, deixaste o cheiro das manhãs e foste reconstruir a vida em terras de Sua Majestade.
Mas nunca deixaste de ser daqui.
Nunca deixaste de ser nossa.
Tu e o António Martins partiram com coragem, não aquela coragem ruidosa, mas a coragem silenciosa de quem quer estar perto dos filhos, de quem quer abrir portas, de quem acredita que o mundo é maior do que a aldeia onde nasceu.
A Inglaterra acolheu-vos como quem abre uma porta sem perguntar a idade, apenas perguntando: “Sabem trabalhar?”.
Vocês sabiam. Sabiam tanto que mesmo reformados, continuam a ser chamados, continuam a ser precisos, continuam a ser úteis.
Isso diz muito de vocês.
Diz tudo.
E, apesar da distância, nunca deixaram de voltar. De dois em dois anos, como quem cumpre um ritual de amor. E, quando é preciso tratar de papéis, bancos, documentos, vêm uma vez por ano, porque a vida não se faz só de saudades, faz-se também de responsabilidades, de raízes, de coisas que só se resolvem cá.
Essas vindas são como pequenos regressos ao lar: chegam, pousam as malas, respiram o ar da Beirã, reencontram os cheiros, os rostos, os lugares que nunca se apagam.
E depois há esse teu mundo de agora, tão cheio, tão bonito: o Luís e a Cristina que convosco são a força da família; o Leonardo, que entrou na vossa vida como genro mas que é já parte da vossa história; e os três netos – o Gustavo, o Xavier e o Guilherme – que vos enchem a casa de risos, perguntas, desenhos, abraços, tudo aquilo que faz a vida valer a pena.
Imagino-te a olhar para eles com aquele olhar que sempre tiveste: firme, doce, atento, cheio de ternura. Tu foste sempre assim Luz, a irmã do meio que segurava pontas, que equilibrava lados, que trazia calma quando era preciso e força quando era necessário.
A irmã que sempre fez falta.
E eu sei, mana. Mesmo longe, mesmo ocupada, mesmo com a vida cheia, tu gostas de mim. Tu pensas em mim. Tu guardas-me no teu coração como eu te guardo no meu.
Por isso te escrevo estas linhas: para te dizer que também gosto muito de ti. Que te trago comigo. Que te celebro. Que te agradeço. Que a distância não apaga irmãos, só os torna mais nítidos, mais presentes, mais verdadeiros.
Chamas-te Maria da Luz. E és luz.
A minha Luz.
Cuida de ti também, enquanto cuidas de todos, como matriarca da família Coelho Martins.
Com grande carinho, o teu mano.

José Coelho

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A encerrar o dia

Há dias que terminam como quem fecha uma porta devagar, sem ruído, deixando apenas o perfume do que foi vivido. O entardecer tem para mim esse dom antigo: transformar o quotidiano em contemplação, o gesto simples em rito, a rotina em memória.
A noite chega sempre com uma espécie de sabedoria. Não exige nada, não cobra nada, não apressa nada. Apenas pousa sobre as coisas, como um manto que recolhe o que ficou espalhado pelo dia.
E é nessa hora que o pensamento se torna mais claro. As preocupações perdem volume. Os ruídos interiores abrandam. A alma encontra o seu lugar.
O ser humano – qualquer um – é feito desta alternância entre luz e sombra, entre ação e repouso, entre o que se faz e o que se sente.
A escrita, que tanto me acompanha, é apenas o reflexo disso: uma forma de ordenar o mundo, de lhe dar sentido, de lhe devolver a dignidade que às vezes o dia lhe rouba.
Escrever, para mim, é no fundo regar a terra da memória. Cada frase é uma semente. Cada pausa é um silêncio fértil. Cada palavra é uma raiz que procura profundidade.
E tento escrever como quem caminha devagar, atento ao que a vida murmura. Não preciso de pressa, nem de artifícios. A minha escrita nasce da verdade, da experiência, da contemplação, da terra que cuido e das pessoas que estimo.
A noite, agora, está mais funda. Os sons diminuem. A terra repousa. E eu também.
É tempo de recolher o que o dia deixou: um gesto de amizade, uma palavra certa, um trabalho honesto, uma memória que se acendeu, um silêncio que me ensinou qualquer coisa.
O dia de amanhã virá com a sua própria luz, com novas tarefas, novas conversas, novas palavras. Mas hoje, agora, neste instante, basta-me sentir a paz que em mim se instala devagar, como se o mundo respirasse comigo.
Descansem, sonhem, sejam felizes. A noite é nossa amiga. E para mim, a escrita também.

O Homem que veio de fora e ficou para sempre

Há homens que chegam a uma terra como quem chega a um destino que já estava escrito antes de eles nascerem. Não vêm por acaso, por aventura, ou por capricho. Vêm porque a vida, com a sua sabedoria silenciosa, lhes aponta um caminho.
Foi assim com o meu António Maria Coelho.
Veio de Castelo de Vide, onde era conhecido pela bondade que não precisava de ser anunciada. Era um homem de gestos simples, daqueles que ajudam antes de lhes ser pedido, que escutam antes de julgarem, que sorriem antes de falar. Tinha uma maneira de estar no mundo que não se aprende: nasce conosco, como uma luz mansa que nunca se apaga.
E um dia, numa dessas voltas que o destino dá sem explicar, encontrou uma jovem da Beirã. Não a conquistou com palavras, conquistou-a com a sua presença. Com aquela serenidade que só os homens bons têm. Com aquele respeito que não se ensina, revela-se.
Trouxe-a consigo, não como quem rouba, mas como quem escolhe. E ao escolhê-la, escolheu também a Beirã. Escolheu-a de tal maneira que nunca mais quis sair. A terra tornou-se-lhe casa, chão, abrigo. E a Beirã, que sempre soube reconhecer os seus, acolheu-o como se ali tivesse nascido.
O meu António Maria Coelho era um homem que sabia o tempo. Sabia quando a chuva vinha, quando o vento mudava, quando a terra pedia água, quando o céu prometia sol. Sabia olhar para o horizonte como quem lê uma carta antiga. Sabia trabalhar sem se queixar, viver sem se exibir, ajudar sem se anunciar.
Caminhava devagar, não por cansaço, mas por respeito. Respeito pela terra, pelas pessoas, pelos dias, pela vida. E tinha uma coisa rara: nunca estava fora do tempo. Nunca chegava cedo demais. Nunca chegava tarde demais. Estava sempre no momento certo, como se o tempo lhe falasse ao ouvido.
A jovem que ele conheceu da Beirã tornou-se o seu mundo. E juntos fizeram uma vida inteira, daquelas que não aparecem nos livros, mas que sustentam tudo o que importa: a mesa posta, a porta aberta, o cuidado diário, a dignidade silenciosa.
O meu António Maria Coelho podia ter ficado na vila onde nasceu. Podia ter seguido outro caminho. Podia ter escolhido outra terra. Mas escolheu a Beirã. E a Beirã escolheu-o de volta. E quando partiu – porque todos partimos – não deixou vazio.
Deixou presença. Deixou memória. Deixou exemplo. Deixou aquela luz mansa que só os homens verdadeiramente bons deixam atrás de si.
Hoje, quando alguém fala dele, não fala com saudade triste. Fala com gratidão. Porque há homens que não passam pela vida: ficam nela. E ele ficou. Ficou na terra que adotou. Ficou na mulher que amou. Ficou nos filhos que criou. Ficou na aldeia que o viu viver.
Ficou no tempo que sabia ler.
Ficou na Beirã.
Como eu quero ficar, a seu lado, para sempre também.

A minha irmã Joaquina

Há pessoas que não precisam de dizer muito para que se perceba tudo. A minha irmã Joaquina é uma dessas pessoas. Chega sempre com aquele jeito firme, decidido, quase maternal, como quem aprendeu cedo que a vida não espera por ninguém e que, por isso, é preciso estar sempre pronta. Não fala alto, não se exibe, não procura protagonismo, mas a presença dela enche uma casa.
Tem uma forma muito particular de cuidar. Não é cuidado de gestos grandes, é cuidado de constância. De estar. De aparecer quando é preciso. De fazer sem anunciar. De resolver sem complicar. É o tipo de cuidado que sustenta famílias inteiras sem que ninguém dê por isso, porque é tão natural que parece parte da própria estrutura da vida.
Quando ela entra na igreja para ajudar, há qualquer coisa que muda no ambiente. Não é apenas mais um par de mãos, é uma energia que organiza, que orienta, que dá rumo. A forma como segura o pano, como coloca as flores nas jarras, como verifica se tudo está no lugar certo, revela uma disciplina silenciosa que só têm aqueles que cresceram com responsabilidade. E a responsabilidade, nela, nunca foi peso, foi sempre missão.
A minha irmã Joaquina tem uma força que não se vê à primeira vista. Está nos gestos pequenos: no modo como arruma, no modo como limpa, no modo como pergunta “Precisas de alguma coisa?”, no modo como olha para mim com aquele misto de carinho e exigência que só os irmãos conseguem ter.
Há dias em que ela chega cansada, mas não diz. Outros em que chega preocupada, mas disfarça. E há dias em que chega feliz, com aquele sorriso que ilumina a sala sem esforço. A verdade é que a Joaquina traz sempre consigo o que é preciso: seja força, seja calma, seja humor, seja silêncio.
O meu cunhado, o José Nunes, aparece muitas vezes ao lado dela, como sombra boa, como companhia fiel. E juntos formam uma dupla que a aldeia reconhece: trabalhadores, presentes, discretos, constantes. Gente que não precisa de ser chamada, mas aparece. Gente que não precisa de ser elogiada, mas faz.
A minha irmã Joaquina tem também uma forma muito particular de olhar para mim. Não é olhar de irmã apenas, é olhar de quem conhece a minha história inteira. De quem sabe o que me moldou, o que me feriu, o que me fortaleceu. De quem reconhece o meu silêncio, o meu humor, a minha maneira de estar. É olhar de raiz e as raízes não se explicam, sentem-se.
Quando ela se despede, há sempre um gesto final: um toque no braço, um “Vemo-nos depois”, um olhar que confirma que está tudo bem. E nesse gesto, há uma ternura que não se aprende, nasce com os irmãos que a vida não separou.
A minha irmã Joaquina não é apenas pessoa. É pilar. É memória. É continuidade. É uma das presenças que sustentam a minha vida sem que eu peça, sem que eu exija, sem que eu precise de explicar.