sexta-feira, 22 de maio de 2026

Bênção da Murta – poética, espiritual, agradecida

Que a Murta permaneça este lugar onde o tempo se inclina, onde o vermelho das suas paredes guarda o calor das gerações e o verde dos campos respira como uma prece antiga.
Que a fonte continue a murmurar a sua água pura, lembrando as mulheres que ali buscavam vida e os namorados que, na noite de São João, colhiam esperança no silêncio da meia-noite.
Que Deus abençoe também a família que lhe devolveu o brilho, a dignidade e a alma, mãos que restauraram não só paredes, mas a memória de todos nós.
E que quem se sentar no poial da fonte, como hoje eu me sentei para bater esta foto, sinta esta paz que não se explica – apenas se recebe, como graça que desce devagar sobre a terra que tanto amamos.
Texto e foto

Guardião de memórias

Há pessoas que pertencem à terra como as raízes pertencem às árvores. Não porque estejam presas, mas porque dali tiram a força, a memória e o sentido.
Crescer num lugar é uma coisa; ser moldado por ele é outra. A terra onde se nasce pode ser apenas cenário, ou pode ser mãe, mestra, companheira de jornada.
Quem ama a terra como eu amo a minha, não a vê apenas com os olhos:
Vê-a com o coração.
Vê o valor das fontes antigas, o milagre de uma lagartixa que caiu no balde e foi salva, a dignidade de uma cobra que só necessita atravessar o caminho e merece ser deixada em paz, a nobreza silenciosa da manada de javalis que passa com a família em procissão.
A ligação à terra não se explica – vive-se.
É feita de gestos pequenos, quase invisíveis, de amor pela natureza: parar o carro para não ferir um animal, recolher um pássaro caído, respeitar o silêncio dos campos, agradecer a sombra de uma árvore.
Quem age assim é guardião.
Guardião da memória, da vida, da beleza que ainda resiste.
E talvez seja por isso que a terra nos conhece. Porque há homens que passam por ela, e há homens que a honram.
A ligação à terra é um pacto silencioso entre aquilo que fomos, o que somos e o que deixamos para os que virão.
E quem vive assim, não envelhece – aprofunda-se.
Texto e foto

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Amor, respeito e amizade caminham – sempre – de mãos dadas

Há momentos na vida em que caminhamos sem perceber o peso dos passos, como se o mundo nos conduzisse por trilhos que não escolhemos, mas que, ainda assim, nos moldam. E é nesses caminhos – às vezes suaves, às vezes ásperos – que começamos a questionar o que realmente significa amar, ser feliz, ter sucesso.
A verdade é que as grandes revelações raramente chegam com estrondo. Vêm em silêncio, escondidas num gesto simples, num olhar que nos acolhe, num cuidado que ninguém vê. É aí que descobrimos que o amor não vive de rostos bonitos nem de palavras bem ensaiadas.
Ele vive nas atitudes, na sinceridade dos gestos, no cuidado que não pede aplausos, na presença que permanece mesmo quando tudo o resto vacila. Um abraço que nos devolve o mundo. Um sorriso que nos reconhece. Um silêncio que nos entende.
É nas coisas pequenas que mora o essencial. E é nelas que percebemos que o sucesso ou o fracasso não nascem de grandes feitos, mas das escolhas que fazemos todos os dias – da coragem de assumir responsabilidades, de seguir o que faz sentido, de não desistir de nós.
A felicidade, essa companheira esquiva, não é um destino. É um estado que se constrói devagar, como quem cultiva um jardim. Cada gentileza, cada ato de empatia, cada perdão que oferecemos sem pedir nada em troca, ergue dentro de nós uma casa onde a paz pode morar. E nada consola tanto uma dor, como o bem que fazemos aos outros. Porque ajudar alivia. Reconcilia. Transforma.
E então percebemos o valor raro dos amigos verdadeiros, esses que a vida nos entrega como tesouros escondidos. Eles caminham conosco quando o mundo se afasta, partilham as nossas alegrias e seguram as nossas tristezas como quem segura um vaso frágil. São eles que nos mostram que quem nos merece não nos fere de propósito, porque amor, respeito e amizade caminham – sempre – de mãos dadas.
Há também uma beleza imensa nos instantes que o mundo nos oferece sem pedir nada: acordar cedo para ver o sol nascer, sentir o perfume fresco da manhã, escutar o silêncio que antecede o dia. É nesses momentos que entendemos que muitos dos nossos erros foram apenas tentativas de acertar, de procurar algo melhor para nós e para quem amamos.
Tal como num perfume, é a essência – nunca a embalagem – que define o valor das pessoas.
Cada ser humano dá ao mundo aquilo que carrega no coração. Por isso, não nos cabe julgar, mas compreender. Não nos cabe punir, mas acolher. O silêncio, tantas vezes, é a sabedoria que nos resta quando as palavras não chegam. Aprender a ouvir, a respeitar, a permanecer em silêncio quando necessário, é maturidade.
E quando finalmente entendermos que o Amor é mais do que um sentimento – é uma forma de olhar o mundo, de aceitar imperfeições, de valorizar o essencial – descobriremos que a felicidade não está no dinheiro nem no status, mas nas relações que constroem a nossa história, nos vínculos que resistem ao tempo e às tempestades.
As pessoas mais valiosas são aquelas que ficam. Que permanecem. Que seguram a nossa mão quando tudo parece difícil. São elas que nos ensinam, pelo exemplo, que a felicidade nasce dentro de nós. E que, antes de procurarmos alguém que nos ame, precisamos aprender a amar-nos, a aceitar-nos, a cuidar de nós com a mesma gentileza que oferecemos ao mundo.

Pequena no tamanho, enorme na sua missão de melhorar o mundo


Vivemos numa Terra que nos sustenta e que, ainda assim, tratamos como se fosse descartável. Os governos das grandes nações, cegos pela ambição, vasculham o planeta em busca das chamadas “terras raras", não para elevar a humanidade, mas para alimentar máquinas de guerra cada vez mais inteligentes, mais rápidas, mais letais. A obsessão é simples: poder. E o resultado é sempre o mesmo: conflitos fratricidas que exibem músculo bélico e pobreza moral.

Enquanto isso, quase ninguém olha para o que cresce por cima desses metais cobiçados. A vida vegetal - silenciosa, paciente, generosa - não serve para discursos inflamados nem para desfiles militares. Não ameaça ninguém, não destrói nada, não engrandece egos. Limita-se a cumprir a sua missão essencial: purificar o ar, sustentar ecossistemas, colorir o mundo, oferecer beleza sem pedir nada em troca.
Esta pequena flor que encontrei no meu Alentejo é um desses milagres discretos. Tive de a ampliar dez vezes para que se deixasse ver. No campo, perde-se entre os fenos, quase invisível, com apenas alguns centímetros de diâmetro. E, no entanto, na sua humildade, faz mais pela vida do que todos os arsenais do planeta.
Não conhece fronteiras, não pertence a nenhuma nação, não participa em disputas. Limita-se a existir, e, existindo, melhora o mundo. Por isso a fotografei. Por isso lhe dedico estas palavras. Porque, num tempo em que os poderosos se entretêm a medir forças, é nas coisas pequenas que ainda encontro grandeza.

O cartaz com a foto da pequenina flor referida no texto, foi gerado pelo assistente de IA Copilot, desenvolvido pela Microsoft.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Até já, minha grande amiga

A vizinha Joaquina Brites partiu aos 93 anos, deixando atrás de si uma vida inteira de bondade, de fé, de trabalho e de afetos. Para mim não foi apenas uma vizinha: foi quase uma segunda mãe, uma presença firme e doce, sempre atenta, sempre próxima, sempre verdadeira.
Fui recebido no mundo pelas mãos dela. Foi a vizinha Joaquina quem me deu o primeiro banho, naquele tempo em que as crianças nasciam em casa, rodeadas pelas mulheres da vizinhança e pela sabedoria das parteiras.
A minha mãe fez o mesmo por ela quando nasceu o seu primeiro filho, que não sobreviveu. Depois veio a filha e nossa vizinha de toda a vida também, selando entre as duas um laço que ultrapassava a amizade: tornaram se comadres, quase família, unidas por gestos de cuidado e de vida.
Cresci a sentir o seu carinho. Era um afeto simples, genuíno, daqueles que se mostram tanto num abraço como numa palmada educativa quando eu me portava mal. Nunca duvidei que gostava de mim. Nunca duvidei da sua presença. Era uma mulher boa, daquelas que fazem falta ao mundo.
Há poucas semanas, fui visitá-la ao lar onde estava acolhida. Assim que me viu, o seu rosto iluminou-se e exclamou, com aquela alegria pura que só vem de uma amizade antiga: “Olha o meu Coelhinho…”
Tratava-me assim e naquele diminutivo havia toda a ternura de uma vida inteira. Agarrou-me a mão e nunca mais a largou.
As assistentes vieram buscá-la para a missa do Domingo de Ramos, como ela tinha pedido. Desolada e sem me largar, murmurou: “Ohhhh… mas agora tenho aqui as visitas…”
Crente e cumpridora da sua profunda fé toda a vida, naquele momento porém, preferia ficar comigo. Disse-lhe ao ouvido que fosse, tranquila, que nós voltaríamos. E ela foi, sempre a acenar, sempre a olhar para trás, até desaparecer pela porta da sala.
Mal sabíamos nós que seria aquele o nosso último encontro.
Hoje ao despedir-me dela senti que perdi uma amiga da vida inteira. Mas sinto também uma profunda gratidão por tudo o que me deu, por tudo o que foi, por tudo o que deixou em mim.
A vizinha Joaquina partiu, mas fica a sua memória. A memória de uma mulher simples e extraordinária, generosa, trabalhadora, bondosa, que marcou vidas com os seus pequenos e amorosos gestos.
Que descanse em paz. E que saiba, onde quer que esteja, que deixou muito do seu amor espalhado por este mundo e nas pessoas que, como eu, tiveram o privilégio de merecer um lugarzinho no seu coração.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Um Portugal que respira mais devagar


Há um Portugal que nasce antes da luz, quando o silêncio ainda é dono do mundo e os montes respiram como gigantes adormecidos. É um Portugal que não cabe nos mapas, porque vive nas veias da terra, nas mãos que a lavram, nos olhos que a reconhecem. Aqui, onde tudo parece pequeno, o país é imenso.

É o Portugal dos humildes, dos que falam pouco mas dizem tudo, dos que conhecem o humor das estações e o nome secreto dos ventos. Aqui, a vida acende-se no lume da lareira, onde o fogo não aquece apenas, mas também abençoa. O fumo sobe das chaminés como um cântico que ninguém escreveu e todos sabem de cor.

O pão escuro cresce no forno de lenha como se tivesse alma. As sardinhas comem-se com os dedos, porque o sagrado não precisa de talheres. O vinho de talha corre do barro como se viesse do coração da terra, e cada gole é uma memória, uma história, um pedaço de quem fomos.

As festas seguem o calendário secreto da terra: a matança do porco que reúne famílias, o borrego e o cabrito que anunciam a Páscoa, as danças que atravessam gerações como rios subterrâneos que nunca secam. Cada aldeia tem o seu canto, a sua respiração própria, a sua maneira de dizer ao mundo: “Aqui ainda se vive.”

E este refrão repete-se, sempre que alguém chega, sempre que alguém parte. Dizem-no as pedras, dizem-no as sombras das oliveiras, dizem-no os velhos sentados à porta a ver o tempo passar sem pressa. É um refrão que não se aprende – herda-se.

Durante décadas, este Portugal rural alimentou o outro, o das cidades que correm sem destino, dos semáforos que mandam parar a vida, dos engarrafamentos que engolem horas, dos empregos que repetem dias iguais. E enquanto o país moderno se cansava de si, o país antigo continuava a erguer-se com a força de quem sabe que a pressa nunca fez crescer nada.

No interior, a música é outra. É feita de passos lentos, de histórias contadas à lareira que ficam a pairar no ar mesmo depois de ditas. É a música das raízes, a que nos chama pelo nome, a que nos lembra o que fomos e o que ainda somos. É a música que não se cala, mesmo quando o mundo faz barulho.

Há quem pense que o melhor está no “outro” Portugal, o das luzes, o das avenidas largas, o dos teatros e dos cafés apressados. Mas quem abandona as raízes abandona também o espelho onde se reconhecia. E não há maior pobreza do que perder o lugar onde a alma pousa.

Celebrar o Portugal rural é celebrar o que somos antes de sermos o que parecemos. É honrar o chão que nos fez, as vozes que nos ensinaram, as mãos que nos deram pão. É aceitar que, mesmo num mundo que corre depressa, há valores que não se podem deixar cair porque são eles que nos seguram, que nos dão nome, que nos dão casa.

E termino como comecei, devagar, no silêncio que guarda tudo. Que nunca deixemos de olhar para este Portugal com a reverência de quem olha para algo sagrado. Porque este país que respira devagar é o mesmo que nos sustenta, que nos chama, que nos espera sempre.

José Coelho

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Homenagem aos Meus

Há vidas que nos moldam desde o primeiro instante – vidas que chegam antes de qualquer palavra, que nos seguram antes de qualquer passo, que nos amam antes de sabermos merecer. Os meus pais, os meus avós e os meus tios foram essas vidas: presenças fundadoras, silenciosas e profundas, que me ensinaram a respirar o mundo com respeito, com cuidado e com ternura.
Eram de pequena estatura, os Coelhos do lado do meu pai e os Lourenços do lado da minha mãe – gente miúda no tamanho, mas gigante no coração. Havia neles uma doçura antiga, uma generosidade que não se explicava, apenas se sentia. Eram daqueles que, mesmo sendo pequenos, enchiam uma sala inteira com a sua presença. E talvez por isso, mesmo agora, continuam a parecer enormes dentro de mim.
Foram eles que me mostraram a firmeza que não fere e a ternura que não fraqueja. Com eles aprendi que a dignidade não depende da força do corpo, mas da força do caráter; que o amor não precisa de grandes discursos, apenas de pequenos gestos repetidos com a fidelidade de quem sabe que amar é um verbo diário. Eles ensinavam sem ensinar – bastava vê-los viver, bastava estar perto, bastava escutar o modo como tratavam os outros, como tratavam a vida.
Deram-me casa antes de eu saber o que era um lar. Deram-me proteção antes de eu conhecer o medo. Deram-me exemplo antes de eu compreender o valor de um exemplo. E deram-me, sobretudo, uma forma de estar no mundo: honesta, simples, inteira. Quando penso neles, penso sempre em mãos – mãos que seguravam, mãos que guiavam, mãos que faziam, mãos que cuidavam. Mãos que diziam tudo o que as palavras não diziam.
E quando o tempo – esse escultor paciente – lhes começou a levar o vigor, a audição, a agilidade, nunca lhes levou aquilo que mais os definia: a lucidez, a gratidão, a bondade, a forma silenciosa e profunda de amar. Havia neles uma serenidade antiga, uma aceitação que não era resignação, mas sabedoria. Como se soubessem que a vida é um ciclo e que cada fase tem a sua beleza, mesmo quando dói.
Vi-os envelhecer com a mesma dignidade com que viveram. Vi-os enfrentar a fragilidade sem perder a essência, como árvores antigas que, mesmo dobradas pelo vento, continuam a guardar a memória da sua força. E nos seus olhos encontrei tantas vezes um amor que não pedia nada, apenas reconhecia. Um amor que dizia, sem voz: “estamos aqui, ainda somos nós”. Esse olhar, mais do que qualquer palavra, foi sempre o meu porto seguro.
O meu pai, já perto do fim, pediu apenas para não morrer longe de casa. Não pediu milagres, não pediu mais tempo, não pediu nada que não fosse profundamente humano. Pediu presença. Pediu família. Pediu que o deixássemos partir como viveu: entre os seus. E esse pedido, tão simples e tão grande, ensinou-me mais sobre o amor do que qualquer livro, qualquer frase, qualquer filosofia.
A minha mãe partiu a segurar a minha mão, como quem fecha um ciclo que começou da mesma forma, com um toque que diz tudo o que as palavras não conseguem. Nesse instante, percebi que há despedidas que não são um fim, mas uma passagem. Que há silêncios que não são ausência, mas continuidade. Que há mãos que, mesmo quando deixam de apertar, nunca deixam de nos acompanhar.
Os meus avós, com a sua sabedoria antiga, e os meus tios, com a sua bondade discreta, completaram esta família que me fez quem sou. Cada um deles deixou em mim uma marca que não se apaga, uma memória que não se gasta, uma história que continua a respirar dentro de mim como uma luz que não se extingue, apenas muda de lugar.
Às vezes, quando estou sozinho, sinto-os ainda: no modo como arrumo a mesa, no modo como escuto alguém, no modo como abraço. Eles vivem nesses gestos.
Esta homenagem não é sobre o que fiz por eles nos seus últimos dias. Isso foi apenas a consequência natural do que eles fizeram por mim durante toda a sua vida. É sobre o amor que me deram, sobre a forma como viveram, sobre a dignidade com que partiram. É sobre a gratidão que fica quando o silêncio chega. É sobre a certeza profunda de ter sido amado. É sobre a honra imensa de ter sido filho, neto e sobrinho deles.
E é, acima de tudo, sobre a paz serena de saber que, enquanto eu viver, eles continuam vivos em mim – não como ausência, mas como presença que ilumina. Uma presença que me guia, que me sustém, que me recorda quem sou e de onde venho. Uma presença que me diz, todos os dias, mesmo sem voz: “segue, estamos contigo”.
Foto: A minha família materna quase toda nesta imagem, numa pescaria no Rio Sever. Coelhos, só eu e as minhas irmãs Adelina e Luz, porque a Joaquina ainda não tinha nascido.