Às vezes pergunto-me quantos anos terias hoje, mas logo percebo que isso pouco importa. O que permanece é a tua força tranquila, a tua bondade, a coragem com que atravessaste a vida e aquele teu riso fácil que iluminava até os dias mais duros. É assim que te guardo: inteira, simples, verdadeira.
Muito do que sei veio de ti, não dos livros, mas dos gestos. Não podias ensinar-me a ler ou a escrever, mas ensinaste-me coisas maiores: a honestidade, o cuidado, o respeito pelos outros, o valor de trabalhar com brio. Foste sempre dona de uma casa arrumada e de um coração ainda mais organizado. Ajudaste todos, sem nunca te queixares, e foste o pilar firme da nossa família.
A tua honradez era tão natural que quem te conhecia ainda hoje te recorda com carinho. E eu, Mãe, lembro-me de ti todos os dias. A tua ausência marcou-me profundamente desde aquele 28 de julho de 2014. Mesmo sabendo que o fim se anunciava, descobri nesse dia que nunca estamos preparados para perder quem nos trouxe ao mundo.
A partida do pai doeu-me muito, mas a tua… essa abriu um vazio maior. Sei que ele, onde estiver, me compreende porque também perdeu a mãe, também conheceu essa dor.
Confesso que vou menos vezes ao cemitério do que deveria. Não por falta de amor, mas porque cada visita me deixa demasiado inquieto. Sempre fomos muito ligados, tu e eu. E talvez por isso o luto tenha ficado suspenso, como uma porta que não consigo ainda fechar.
Recordo com nitidez aquele momento na sala mortuária em que ficámos os dois, eu à tua cabeceira, rodeados de vizinhos e amigos. E foi ali que a dor que até então eu segurava, finalmente me venceu. Chorei como nunca tinha chorado. Lembro-me da vizinha Joaquina Brites a aproximar-se na sua bondade, a tentar consolar-me com a sua voz baixa e simples. Foi muito duro, Mãe. Muito duro.
Cá em casa o teu quarto permanece como o deixaste. Os teus santinhos e pequenas coisas continuam na cómoda e algumas acompanham-me no meu escritório. Talvez seja a minha forma de te manter perto, de te sentir ainda aqui.
Um dia, acredito, esta dor há de abrandar. O tempo tem maneiras discretas de nos ensinar a respirar outra vez. Até lá, sigo contigo perto de mim.
E sei que, quando chegar a minha vez, nos reencontraremos, dessa vez para sempre.



