quinta-feira, 9 de julho de 2026

O andor da Senhora e a menina da Beirã

No dia 16 de julho de 1971 o comboio das oito da noite trouxe-me de Lisboa para a Beirã como quem regressa a dois mundos: o da tropa onde acabara de concluir o Curso de Transmissões com nota tão generosa que me propôs à promoção a Cabo de Transmissões de Infantaria, e o da aldeia, onde cada gesto tem o peso antigo das tradições e das pessoas que nos moldam.
Desci do comboio com o saco às costas e o corpo ainda preso ao ritmo militar, mas a alma já virada para o adro da igreja. A minha sogra tinha sido sepultada naquele mesmo dia e eu sentia que devia estar presente na Procissão da Senhora do Carmo não por obrigação, mas por um chamado interior, desses que não se discutem.
A Beirã estava como sempre em julho: quente, com cheiro a terra seca e a ervas pisadas, com a poeira fina das estradas de granito a levantar-se ao menor sopro de vento. No adro juntavam-se já dezenas de pessoas, velas acesas, murmúrios, passos lentos, e aquela respiração coletiva que só uma aldeia pequena conhece.
Quando vi o andor, ainda mais pesado pelos candelabros metálicos a ele aparafusados, senti que era ali que devia estar. Pedi para o levar. E levei-o mesmo durante toda a procissão, sem substituição. O peso era brutal, o ombro doía-me, o pescoço inchou de tal maneira que passei uma semana sem conseguir virar a cabeça para aquele lado. Mas eu sabia que aquele esforço era mais do que físico: era uma promessa silenciosa, uma oferenda, um gesto de gratidão.
Nesse mesmo dia, além de honrar a memória da minha sogra, começou também outra missão: a de apoiar a Maria Manuela, que tinha apenas 16 anos e uma história de vida que me tocava profundamente.
Ela crescera só com a mãe. O pai abandonara ambas no dia em que ela nasceu, deixando-as entregues uma à outra. E agora, naquele verão de 1971, era uma menina que acabara de perder quem a defendia, quem lhe segurava o mundo, quem lhe dava todo o amparo que tinha conhecido até então.
Começara a trabalhar muito cedo, aos 13 anos – em outubro de 1967 já fazia descontos para a Segurança Social e ganhava o seu salário na Celtex, a fábrica de calçado. Era responsável, séria, dedicada. Mas era também frágil, não por falta de coragem, mas porque ninguém tão jovem devia enfrentar o mundo sem um colo onde pousar a alma.
Eu via nela uma força silenciosa, uma dignidade natural, e também uma solidão que me comovia.
Talvez por isso, naquele dia da procissão, enquanto carregava o andor, senti que carregava também outra coisa: a responsabilidade de ser ombro amigo, porto de abrigo e confidente daquela menina que acabara de perder quem incondicionalmente a amava.
E assim foi.
Três meses depois, fui mobilizado para a guerra em Angola. E já éramos namorados.
Durante esses 27 meses de ausência escrevia-lhe três ou quatro vezes por semana, em aerogramas e cartas que ela guarda até hoje. Era a minha forma de estar presente, de lhe dizer que, apesar da distância e da guerra, ela não estava sozinha.
Passaram, quase sem darmos por isso, 55 anos.
E nunca mais nos separámos.
Foto Pedro Coelho

O respeito é a base.

O respeito é a base. Não há confiança, não há amor, não há amizade, se não houver respeito”.
Há frases que não são apenas ideias – são alicerces. Esta, escrita por Guilherme de Campos, é uma delas. Na Beirã como em qualquer lugar onde as relações ainda se medem pelo olhar direto e pela palavra dada, sabe-se bem que o respeito não é ornamento: é estrutura. Sem ele, tudo o que parece sólido se desfaz como barro mal cozido.
O respeito é o primeiro gesto silencioso entre duas pessoas. É o modo como se escuta, como se fala, como se pisa o território do outro sem o invadir. É a consciência de que cada ser humano carrega uma história, uma fragilidade, uma dignidade que não pode ser tratada como coisa descartável.
A confiança nasce daí, desse chão firme onde ninguém teme ser diminuído. E o amor, seja ele de amizade, de família ou de companheirismo, só floresce quando há esse cuidado essencial: não ferir, não humilhar, não manipular, não usar. O amor sem respeito é apenas apego; a amizade sem respeito é apenas convivência acidental; a confiança sem respeito é ilusão prestes a quebrar.
Na vida, porém, há quem confunda sinceridade com brutalidade, franqueza com agressividade, proximidade com licença para desconsiderar. E é aí que tudo começa a ruir. Porque o desrespeito não é só uma falha de educação, é também uma falha de humanidade.
O respeito é a base. É o que permite que duas pessoas caminhem lado a lado sem medo de tropeçar uma na outra. É o que sustenta a palavra, o gesto, o silêncio. É o que impede que a amizade se torne desgaste, que o amor se torne peso, que a confiança se torne risco.
E quando falta, falta tudo.
Por isso, quem quer preservar vínculos deve começar pelo essencial: respeitar o outro, respeitar a si próprio, respeitar o espaço onde a relação vive. Só assim se constrói o que vale a pena, o que dura, o que não se quebra ao primeiro vento.
Texto e foto
09. 07. 2026

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Tardes na Beirã


O sol vai espreguiçando-se do pela Beirã como quem pousa um pano de linho sobre uma mesa antiga. O calor aperta ainda e as rolas, minhas fiéis companheiras, arrulham o seu canto dolente e repetido, como se marcassem o ritmo do tempo.
Rego o quintal com a serenidade de quem conhece cada planta, pelo nome. Uma luz especial filtra-se pelas folhas do limoeiro e desenha no chão mapas que ninguém segue, mas todos admiram.
A água da pia no chafariz, espelhada e quieta, devolve-me o rosto, não como reflexo, mas como memória.
Tranquilo, sem pressa, medito: Há dias em que me basta isto:
Estar. Respirar. Ouvir.
Texto e foto

Agradecimento aos meus leitores

Há dias em que escrevo apenas para mim, para arrumar pensamentos, para dar nome ao que sinto. Mas há outros – como este – em que escrevo para agradecer. Agradecer a todos os que lêem, comentam, partilham, sorriem, se reconhecem, se emocionam, e fazem das minhas crónicas da Beirã um lugar vivo, habitado, respirado.

A nossa terra tem esta particularidade: quanto mais parece pequena, mais se agiganta. Quem aqui vive sabe que cada pedra tem história, cada sombra tem memória, cada caminho guarda passos de gente que já não está.

Há mais de cinco mil anos que mãos humanas moldam este território – ergueram antas, abriram clareiras, acenderam fogos, fizeram pão, criaram filhos, enterraram pais, deixaram marcas que o tempo não apagou.

E no entanto, ironicamente, é agora – no tempo do chamado progresso – que a terra se vê a esvaziar. Não por pandemias, não por falta de meios, não por isolamento forçado. Mas por uma pressa moderna que não sabe olhar para trás, que não reconhece valor no que é antigo, que confunde desenvolvimento com abandono.

O progresso, esse gigante cego, trouxe estradas, trouxe máquinas, trouxe velocidade e, sem pedir licença, matou muito do que era bom.

Mas enquanto eu viver, enquanto tiver voz, enquanto tiver mãos para escrever e memória para contar, não deixarei esta terra morrer. Não deixarei que o silêncio tome o lugar das histórias. Não deixarei que o esquecimento cubra os vestígios de quem aqui viveu antes de nós.

Não deixarei que a desertificação seja sentença.

E é por isso que vos agradeço a todos. Porque cada comentário vosso é uma porta aberta. Cada leitura é uma luz acesa. Cada partilha é uma forma de dizer: “Esta terra ainda importa.”

A Beirã não vive só de quem nela mora. Vive também de quem a lê.

E enquanto houver leitores, haverá futuro. Por isso termino esta partilha, não como quem fecha um livro, mas como quem encosta a porta sem a trancar. A Beirã continua aqui, inteira, antiga, resistente, feita de memórias que não cedem à pressa do mundo.

E eu continuo aqui também, enquanto puder, enquanto a voz me servir, enquanto a terra me chamar.

A todos os que lêem estas palavras, deixo apenas isto: cada leitura vossa é uma forma de manter viva esta paisagem que o progresso tenta calar. Cada “gosto” vosso – breve, simples, sincero – é uma pedra colocada no lugar certo. E que enquanto houver quem nos acompanhe, a Beirã não será silêncio, nem ausência, nem passado.

Será presença. Será pertença. Será futuro.

Obrigado.

José Coelho

terça-feira, 7 de julho de 2026

Homens de honra e de valores

Há famílias que não precisam de diplomas para ensinarem valores. Precisam apenas de exemplos. E eu venho de uma dessas famílias.
O meu pai, António Coelho, era hortelão. Mas não era só hortelão. Era cabouqueiro do duro granito, era trabalhador de sol a sol, era homem de mãos duras e coração limpo. Era daqueles homens antigos que sabiam medir a dignidade como quem mede a água num regador: sem desperdício, sem ostentação, sem falha.
Na horta da Broca, onde trabalhou anos a fio a meias com o tio João Forte dono da herdade, semeava tudo o que se comia em nossa casa. Tudo. A terra era o seu banco, o seu pão, a sua esperança.
Um dia, ao chegar cedo, encontrou o chão ferido: tinham-lhe roubado a belga inteira dos alhos. E o meu pai chorou. Não pelo valor dos alhos, que era pouco. Chorou pela falta de respeito. Chorou porque alguém mexera no suor dele. Chorou porque a terra, que nunca o traíra, tinha sido violada por mãos alheias.
No caminho de volta, encontrou tio José Machado um lavrador e amigo que lhe disse: "vi o José Maria a vir desse lado com um feixe de alhos às costas".
Estava encontrado o ladrão. E foi aí que o meu pai mostrou o tamanho que tinha.
Não foi à GNR. Não reclamou os alhos. Não pediu justiça. Não exigiu reparação. Não quis humilhar ninguém. Perdoou.
Perdoou porque o ladrão tinha mais dois filhos do que ele. Perdoou porque sabia o que era a fome. Perdoou porque a sua “formação académica”, feita de vida e não de escola, lhe ensinara que roubar para comer não é crime. É desespero. É necessidade. É humanidade ferida.
E eu, que era apenas um rapaz, fiquei a olhar para ele como quem olha para um monólito de granito: firme, amigo, sábio, inabalável.
Mas o meu pai não era único. O pai dele, o meu avô Faustino, era igual. Cantoneiro, homem simples, homem de poucas palavras e muita decência. Quando ficou velho e sem forças, o meu pai trouxe-o para nossa casa.
Sem hesitar. Sem perguntar. Sem fazer contas. Sem medir os sacrifícios. E aqui o avô se finou três anos depois, rodeado de respeito. Porque na nossa casa, a pobreza nunca foi vergonha – vergonha era não ser honrado.
A família da minha mãe era igual. Gente boa. Gente direita. Gente que sabia que a dignidade não se compra, cultiva-se. E é por isso que hoje, quando olho para o país e vejo corrupção a escorrer por todos os lados – dos cargos mais altos às mãos mais pequenas – sinto uma saudade deles que não me cabe no peito.
Saudade de homens como o meu pai. Saudade de homens como os meus avôs e avós. Saudade de gente que sabia que a honra é o maior património que um homem pode ter. Toda a minha vida tem sido uma tentativa de ser igual a eles.
E quando alguém me elogia, não estão a falar de mim. Estão a falar deles. Do que me deixaram. Do que me ensinaram. Do modo como me moldaram.
Hoje, já velho, já também avô, já homem de memórias, digo isto com o coração inteiro: Pai, avôs… obrigado. Vocês foram os homens mais honrados que conheci. E eu passo a vida a tentar ser digno da vossa sombra.

Envelhecer com lucidez

Envelhecer com lucidez é uma experiência nova. Por um lado, sinto o corpo a abrandar, a memória a falhar em momentos inesperados, a energia a pedir mais descanso do que antes. Por outro, sinto a cabeça mais clara do que nunca sobre o que realmente importa.
Há dias em que dou por mim a esquecer nomes, datas, pequenas coisas que antes vinham sem esforço. E isso inquieta-me. Não é fácil admitir que a memória já não é a mesma, que o cérebro já não responde com a rapidez de outros tempos.
Mas, ao mesmo tempo, há uma lucidez nova que cresce dentro de mim, uma espécie de sabedoria tranquila que só chega com os anos. Eu sei o que vivi. Sei o que construí. Sei quem amei e quem me ama.
E isso dá-me uma paz que não tinha aos vinte, nem aos trinta, nem aos cinquenta.
Envelhecer com lucidez é olhar para trás sem arrependimentos, olhar para a frente sem ilusões que enganem, olhar para o presente com uma serenidade que só se aprende depois de muito caminho.
Eu sei que já não tenho a força de antes. Sei que a memória me prega partidas. Sei que o coração dispara quando temo uma branca. Mas também sei que continuo a ser eu. E que a minha essência não se perdeu.
A lucidez não está em lembrar tudo. Está em saber o que vale a pena guardar. E eu guardo o que importa: a família que me rodeia, a fé que me sustenta mesmo quando treme, a música que ainda me sai da alma, a vida que ainda pulsa dentro de mim.
Envelhecer com lucidez é aceitar que o corpo muda, que a memória falha, que o tempo avança.
Mas é também reconhecer que há uma luz que não se apaga, uma luz que vem de tudo o que vivi, de tudo o que dei, de tudo o que deixei nos outros. E essa luz, sim, permanece.

Crónica matinal da Beirã (nascida nesta alvorada fresca de julho, com o ritmo sereno que só a minha aldeia conhece).

A alvorada foi-se abrindo devagar como quem empurra uma porta antiga com cuidado para não acordar a casa toda. O sol vinha ainda tímido, escondido atrás da Murta, mas já deixava no ar aquele brilho dourado que faz cintilar as pedras e desperta os pássaros para o seu primeiro voo.
E eu já acordado, não por obrigação, mas por esse hábito antigo de quem aprendeu a ouvir o mundo antes que ele se torne barulhento. A Toca dos Coelhos respirava silêncio, apenas quebrado pelo arrulhar das minhas vizinhas rolas que parecem sempre saber quando começo o meu dia.
Ajeitei os óculos, como quem afina o olhar para o que importa, e deixei que a luz da manhã pousasse sobre a mesa onde a escrita me esperava, fiel como um cão velho.
O café com leite fumegava, espalhando aquele aroma que anuncia que o dia vai ser bom, mesmo que não traga novidades. Duas torradas, como sempre, esse pequeno ritual que me acompanha desde há tantos anos, quase uma oração doméstica.
Lá fora o quintal ainda estava húmido e as plantas cuidadas com paciência erguiam-se como quem agradece a água da véspera.
A aldeia começava a acordar. Uma porta que se abria, o motor de um trator que ronronava preguiçoso, o passo firme de alguém que vai para o trabalho. E eu, sentado à mesa, deixo que tudo isso me atravesse não como espectador, mas como parte da paisagem.
A Joaquina Coelho e a Maria Coelho começaram também cedo, com aquela energia decidida de quem sabe que a fé também se cuida com panos, paciência e mãos firmes. E começaram o ritual da limpeza dos “amarelos” esse nome tão aldeão, tão verdadeiro, que diz tudo sem precisar de explicação.
O brilho dos metais ia voltando devagar: coroas que voltaram a ser coroas, resplendores que voltaram a ser luz, castiçais que voltaram a ser braços de fogo, o sacrário que volta a ser casa. E eu, como sempre, estava ali. Não para mandar, mas para apoiar, porque apoiar é também uma forma de amar.
O incensário quando o levantei já pronto, parecia quase respirar. Há objetos que ganham vida quando são tocados com respeito. E eu toco-os como quem toca história, memória, promessa.
Depois uma pausa. Um café, um descanso breve, um respirar fundo. E nessa pausa olhei enternecido a Senhora que há dez dias acolho, a Senhora que é sempre a mesma, seja do Carmo, de Fátima, da Conceição, do Sagrado Coração de Maria, ou de qualquer outro nome que o povo lhe deu ao longo dos séculos.
A Senhora não muda. Muda o manto, muda o título, muda o lugar onde repousa… mas o coração é o mesmo. É a mesma Mãe que atravessa gerações, que entra nas casas, que acompanha os medos, que acolhe as alegrias.
Hoje, enquanto as senhoras limpam os metais e eu lhes dou apoio, é como se a aldeia inteira estivesse a preparar o regresso da Mãe ao seu lugar. E há uma beleza profunda nisso: não é só trabalho. É gesto de amor. É gesto de pertença. É profunda devoção.
Há uma serenidade particular no modo como decorrem estas minhas manhãs: não as apresso, não as domino, apenas as acolho. E é nesse acolhimento que nasce esta escrita. Esta crónica surge como a luz: primeiro tímida, depois clara, depois inevitável.
O dia ainda não se impôs, mas eu já lhe dou forma com palavras que são como pedras bem colocadas no caminho, firmes, honestas, sem artifícios.
A Beirã acorda comigo e eu acordo com ela. É um pacto antigo, silencioso, que só quem ama a sua terra compreende.
Tenham uma excelente terça-feira, família e amizades.
Texto e foto