quarta-feira, 1 de julho de 2026

O ofício de dizer

Três objetos repousam sobre a minha mesa: os óculos, a caneta com o meu nome gravado, e o teclado que acende uma luz azul sempre que o pensamento desperta. À primeira vista, são coisas simples, quase insignificantes. Mas nelas cabe tudo aquilo que mais gosto de fazer na vida: ler e escrever.
Os óculos dão-me o mundo nítido; a caneta dá-me o meu nome; o teclado dá-me o ritmo. Com eles, recolho o que outros sonharam e devolvo o que ainda não existia. São as minhas ferramentas de ver e de dizer, de transformar silêncio em frase, de dar forma ao que me atravessa.
O metal frio, o brilho das teclas, o traço da esferográfica, tudo se torna extensão da mente. E é nesse pequeno altar doméstico que se cumpre o meu ofício: ler para compreender, escrever para existir.
No fim, percebo que não são apenas instrumentos. São companheiros de jornada, guardiões de universos, cúmplices daquilo que me faz ser quem sou.
Texto e foto

A janela que me devolve o Mundo

Há objetos que não escolhemos: escolhem-nos eles a nós. Os meus óculos são companheiros silenciosos, indispensáveis, quase teimosos na forma como me lembram que já não avanço sozinho para dentro das palavras.
Sem eles, o mundo perde nitidez, as letras desfazem-se em sombras, e até o rosto das coisas parece afastar-se um pouco, como se pedisse licença para existir.
Procuro-os muitas vezes pela casa, como quem procura o próprio olhar. Quando finalmente os encontro e coloco, é como abrir uma janela que tinha ficado fechada.
A luz entra, o horizonte regressa, e tudo volta ao seu lugar: o papel, o ecrã, o livro, a memória.
Não são apenas lentes. São o gesto que me permite continuar a ver o que amo, as palavras que leio, as palavras que escrevo, as palavras que me sustentam.
E, no fundo, são também uma pequena lição de humildade: lembrar-me que, para ver bem, às vezes é preciso aceitar ajuda.
Texto e foto

Manhã na Toca dos Coelhos

A minha manhã não começa: nasce comigo. Entre as cinco e meia e as seis, quando o mundo ainda está a meio caminho entre o sonho e a luz, eu já estou desperto. Não porque o relógio manda, mas porque o campo me chama.
O primeiro som que ouço não é humano: é o arrulhar das rolas turcas, esse trru-trru-tu que parece vir de dentro da própria terra, como se a natureza respirasse ao meu lado.
Elas são as primeiras habitantes da minha manhã. Pousam nas laranjeiras do pomar, nos postes de iluminação, nos telhados vizinhos, e fazem da alvorada uma pequena missa campal.
Conheço-lhes o colarinho negro, fino como uma estola de padre, e sinto que o dia começa ali, naquele gesto discreto de presença.
Fico quieto para não acordar a minha companheira. Deixo que o canto delas me embale como quem recebe uma bênção.
Às sete, a casa desperta devagar. A luz entra pela sala de jantar, a sala que já viu vinte comensais, risos, aniversários, São Martinhos, vinho novo, e que agora guarda silêncio e memórias como um cofre antigo.
O sol que bate na parede traseira, aquece também o pomar da Quinta em frente, acende o verde das laranjeiras e o dourado das ervas altas já secas na Tapada da Rabela.
Os pardais fazem relatórios matinais no quintal. A lagartixa, sempre pontual, atravessa o muro como quem verifica se está tudo em ordem e vem ter comigo assim que ouve a água a murmurar nos tomateiros.
E as rolas turcas continuam o seu monótono diálogo comigo, incansáveis, como se fossem o motor secreto das minhas manhãs.
Leio os jornais no computador – CM, DN, Expresso, JN – não por inquietação, talvez pelo hábito de quem gosta de saber como acordou o mundo. Mas a verdade é esta: o mundo que mais me importa está aqui mesmo, à minha volta.
No pomar, nos campos sagrados da minha freguesia, no canto das aves, nesta paz abençoada que só a Beirã sabe dar.
A Toca dos Coelhos não é apenas a minha casa. É o meu ponto de equilíbrio. É onde a natureza me reconhece, onde a manhã me cumprimenta, onde a vida me chega sem pressa, sem ruído, sem exigências.
E enquanto teclo, ao compasso da rolinha turca, sinto que faço parte da sua música.
Não sou um mero espectador.
Sou instrumento.
Sou paisagem.
Sou campo.
Sou manhã.
Tenham um excelente mês de julho – da nossa Padroeira – acautelem-se com os dez dias seguidos de calor extremo anunciado e que por aqui já se sente.
Texto e foto

terça-feira, 30 de junho de 2026

Testemunha silenciosa

Na ampla sala de jantar da Toca dos Coelhos, a mesa repousa como um coração que continua a bater, mesmo quando já não há vozes à sua volta. A madeira, marcada por décadas de uso, guarda o brilho das tardes felizes e o peso doce das noites de festa. Sobre ela, cada prato, cada copo, cada toalha estendida parece carregar uma história, como se a família Lourenço Coelho tivesse deixado ali, sem saber, a impressão digital da sua alma.
Durante muitos anos, esta mesa foi mais do que um móvel: foi o eixo da vida familiar. À volta dela, os Lourenço pelo lado materno e os Coelho pelo paterno encontravam-se como dois rios que se juntam para formar um só. Aos fins de semana, nas festas anuais, nos aniversários, no São Martinho ou simplesmente porque sim, a casa enchia-se de gente e de calor humano.
A avó, os pais, os tios, os primos, e até aquele tio e primo solteiros que todos acarinhavam, chegavam com o mesmo à-vontade com que se entra num lugar sagrado.
E porque muitas vezes uma só mesa não bastava, juntavam-se outras, alinhadas como páginas de um livro aberto, para acolher mais de vinte comensais. Havia sempre qualquer coisa a celebrar: o vinho novo, o Natal, a vida que corria, a alegria de estarmos juntos.
As paredes, cúmplices silenciosas, guardaram o eco das gargalhadas, o rumor das conversas cruzadas, o tilintar dos copos, o cheiro do assado que vinha da cozinha. Guardaram também a integridade desta família – uma integridade rara feita de honestidade, trabalho, respeito e uma forma de bondade que não se aprende nos livros, mas no exemplo.
Com o tempo, a casa foi ficando mais quieta. A avó, os pais, os tios, os primos, e até a irmã mais velha, partiram um a um, como estrelas que se apagam no céu, mas continuam a brilhar na memória. Os filhos casaram, seguiram o seu caminho, e o casarão ficou entregue ao José Manuel e à Maria Manuela, guardiões de um património afetivo que não se mede em metros quadrados, mas em profundidade.
Hoje a mesa permanece. Já não como palco de grandes celebrações, mas como testemunha silenciosa de tudo o que foi. E talvez seja essa a sua maior beleza: mesmo sem vozes, continua cheia. Cheia de lembranças, de cheiros antigos, de rostos que já não se sentam, mas permanecem.
A Toca dos Coelhos tornou-se o cofre forte da história familiar, e, como todos os cofres, guarda tesouros que brilham mais na memória do que na luz. E nesta sala onde o tempo agora caminha devagar, a mesa continua a cumprir a sua missão: lembrar.
Lembrar a união, a integridade, a alegria simples, a força discreta de uma família que soube viver com verdade. Lembrar que o amor, quando é genuíno, não desaparece, transforma-se em silêncio bom, em nostalgia serena, em presença invisível que acompanha quem ficou.
Texto e foto

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O fado da velhice

A velhice chega devagar, como quem não quer incomodar. Primeiro, muda o ritmo dos passos. Depois, altera a forma como o corpo acorda. Mais tarde, instala pequenos rituais: três comprimidos logo pela manhã antes do café com leite e duas torradas de pão de mistura, no cuidado silencioso de quem sabe que cada gesto destes é uma forma de continuar.
No entanto, a velhice não é só isto. A velhice é um fado, não no sentido triste e magoado, mas no sentido inevitável e profundo. É a canção que a vida canta quando já vivemos o suficiente para compreender que tudo o que parecia urgente afinal era secundário, e tudo o que parecia pequeno afinal era essencial.
O fado da velhice não se aprende: revela-se.
Revela-se quando o corpo pede calma.
Revela-se quando a memória se torna mais viva do que o presente.
Revela-se quando o amor – como o da minha Maria Manuela a chamar-me para o pequeno-almoço – se transforma na maior riqueza que alguém pode ter.
Revela-se quando a rotina deixa de ser obrigação e passa a ser abrigo.
Há uma dignidade profunda em tomar os comprimidos da manhã. Não é fraqueza, é sabedoria. É o reconhecimento humilde de que o corpo, depois de tantos anos de serviço, merece cuidado.
E há uma beleza silenciosa em continuar a viver com gratidão, mesmo quando o corpo já não acompanha a alma com a mesma velocidade.
A velhice é isto: um corpo que abranda, uma alma que amadurece, um coração que aprende a agradecer.
É verdade que há dores, limitações, cansaços. Mas há também uma luz que só aparece nesta fase da vida: a luz da consciência plena. A luz de quem olha para trás sem arrependimentos e para a frente sem ilusões, mas com serenidade.
O fado da velhice é o fado de quem já viu o suficiente para saber que a vida é breve, mas bela; dura, mas justa; exigente, mas generosa. É o fado de quem aprendeu que cada manhã é uma bênção, mesmo quando começa com comprimidos, mesmo quando o corpo protesta, mesmo quando o tempo corre mais depressa do que nós.
E, no meio de tudo isso, há algo que nunca envelhece: a capacidade de amar, a capacidade de recordar, a capacidade de agradecer, a capacidade de se comover.
O fado da velhice é renascer cada dia, é viver com lucidez, humildade e gratidão. A velhice não é o fim, é o capítulo mais sábio da nossa vida.
É o fado mais profundo e verdadeiro.
E eu tento cantá-lo com dignidade.
Tenham uma excelente semana de saúde, de trabalho, de velhice e de paz.
Texto e foto

domingo, 28 de junho de 2026

Um fim de tarde em que a Beirã voltou a ser menina

Ontem vivi um daqueles finais de dia que não se repetem, mesmo que a rotina tente imitá-los. Foram momentos em que a minha Beirã ficou suspensa num fio de luz antiga, como se o tempo desse um passo atrás para nos lembrar que ainda sabemos ser comunidade.
E foi assim inesperado, sereno, cheio de gente e de memórias.
Ao contrário da maior parte das eucaristias vespertinas semanais, desta vez a igreja estava quase cheia. Recebemos um pároco francês que veio ocasionalmente substituir o padre Marcelino. Pessoa simples, afável, ainda a aprender a música da nossa língua, mas logo encantado com a beleza da igreja e com o nosso acolhimento.
Vi nos seus olhos aquele brilho de quem descobre um lugar que o recebe como se fosse um filho regressado.
Fui o seu anfitrião, com serenidade, respeito e aquele cuidado que se tem quando se representa a comunidade onde se nasceu. Sem discursos, sem cerimónias. E porque o rev.º Marcelino me informou o seu nome, apenas pronunciei: “Seja muito bem vindo, senhor padre Ponciano e que esta seja a primeira de muitas vezes que nos visita.”
Às vezes, acolher é só isto.
A missa decorreu com a naturalidade das coisas que não precisam de ser perfeitas para serem belas. E quando terminou, ninguém teve pressa de ir embora. Ficámos no adro da igreja, palco antigo onde tantas vidas se cruzaram com as nossas, onde tantas conversas se acenderam ao longo das décadas. A luz do fim de tarde pousava nas paredes como quem se despede devagar, e nós ficámos… até quase às nove da noite.
A minha companheira de vida era a mais moça no homogéneo grupo. Falámos das nossas peripécias, da sã ingenuidade, da felicidade simples que nos acompanhou na juventude. E uma das amigas presentes agora muito perto dos 80, recordou como, com as amigas, juntavam as moedas de todas para uma Laranjina C que repartiam, e ainda sobrava qualquer coisa.
E também aquela dos sapatos que estavam a consertar na oficina do sapateiro, mas foram usados – às escondidas do mestre – para um traje de Carnaval? E não foi que os “mascarados” se cruzaram com a dona dos sapatos, que, ao vê los naqueles pés, comentou: “Olha! Se não soubesse que os tinha a consertar, dizia que eram os meus…”
Rimos à gargalhada com a lembrança desta e de outras peripécias que, de tão insignificantes, afinal foram enormes, porque quase oitenta anos depois continuam vivas na memória de quem as protagonizou. Naquele tempo, a felicidade cabia numa minúscula laranjada partilhada, nuns sapatos indevidamente usados sem qualquer maldade. E bastava.
Essa querida amiga é exatamente a mesma que, num outro final de missa, se aproximou de mim para elogiar as escritas que lê muitas vezes — disse — porque a transportam à sua, à nossa juventude, devolvendo lhe o cheiro das tardes antigas, ao sabor da Laranjina, ao riso das amigas, ao tempo em que tudo era tão pouco mas suficiente.
Escrevi, nessa altura, um texto sobre esse diálogo que anda por aqui publicado, porque, ouvir aquilo, foi para mim mais do que um elogio: foi uma responsabilidade acrescida.
Percebi que o que escrevo não são apenas textos. São memórias. São pontes entre o passado e o presente. São casa. E que na comunidade há quem se reconheça nas minhas palavras, porque são feitas da mesma matéria que nos fez a todos: verdade, simplicidade e saudade da boa.
No adro da igreja, a noite, entretanto, já se debruçava sobre nós, quando a minha irmã Joaquina surgiu na sua carrinha, para cumprir o seu gesto diário de generosidade: levar o jantar a quem dele necessita e de quem ela cuidaa como filha dedicada. Já depois da missa tinha ido a casa preparar o jantar e voltava agora, com passos tranquilos, para entregar ao “seu” velhinho o que, para ele, é muito mais do que comida: é companhia, é cuidado, é vida.
Quando chegou ainda nos encontrou ali reunidos, como se o adro fosse sala de estar e o tempo tivesse decidido não avançar. E as “moças” do grupo, com aquela graça antiga que só a idade sabe aperfeiçoar, disseram lhe: “Vai lá Joaquina, dá o jantar ao tio João e depois vem aqui também trazer o nosso…”
Rimo-nos todos. Rimo-nos com aquela alegria que não precisa de explicação, porque nasce da cumplicidade de décadas. E naquele instante percebi que a Beirã não é apenas o lugar onde vivemos, é também o lugar onde nos cuidamos.
Texto e foto

A dignidade não se negocia

Na vida, tudo acontece no tempo que lhe pertence. Nem antes, nem depois. E por mais que tentemos antecipar o que aí vem, há sempre um instante que nos escapa, aquele em que o imprevisível decide entrar pela porta sem pedir licença.

Fui educado a acreditar que as pessoas são, como nós, bem‑intencionadas. A confiar primeiro, a duvidar só quando a vida obriga. É natural: quem cresce rodeado de exemplos firmes aprende a ver o mundo com olhos limpos. A minha família não tinha pergaminhos, mas tinha algo maior: princípios que se transmitiam sem discursos, apenas pelo modo de estar.

Bondade, honestidade, educação, respeito. Valores simples, mas tão exigentes que, quando vividos a sério, iluminam tudo à volta.

Ao longo do caminho encontrei de tudo. Do melhor, que felizmente foi muito; e do pior, que apesar de menos frequente, deixou marcas profundas. Não guardo rancores, só memórias arrumadas no sótão da alma, com pequenos marcadores para quando preciso reaprender a superar a dor.

Porque ela volta, sempre volta, com novos rostos e novas palavras, mas com o mesmo amargor antigo.

Há almas onde nada floresce. Não por culpa das sementes, mas pela aridez do terreno. Diplomas, títulos, erudição, nada disso corrige o que nasce torto no coração. E por mais que nos custe aceitar, há pessoas que não se deixam tocar pela bondade, nem pela educação, nem pelo respeito que para nós são invioláveis.

Ainda assim, não desisto. Acredito num mundo mais justo, mesmo sabendo que não o mudarei sozinho. As minhas capacidades podem não ser vastas, mas são verdadeiras. E são herança daqueles a quem devo tudo: os que me ensinaram que a dignidade humana não se negocia, vive‑se.

É isso que procuro fazer, todos os dias.

José Coelho