sexta-feira, 8 de maio de 2026

Amigos a sério, só eles

Há imagens que não são fotografias nem desenhos – são memórias que se acendem dentro de nós. Esta imagem da internet, de um homem e de um cão lado a lado à luz da lua, podia muito bem ter sido tirada na Beirã, num daqueles finais de tardes em que eu chegava do trabalho, lanchava qualquer coisa e saía logo a seguir com o Rex.

O Rex… Negro como uma amora madura, forte, dócil, inteligente. O meu companheiro de quatro patas, que só lhe faltava falar.

Caminhávamos juntos pelos campos até ao anoitecer. Eu falava, ele ouvia. E havia momentos – muitos – em que, se alguém nos visse de longe, diria que éramos exatamente esta imagem: dois amigos lado a lado, iluminados pela lua, partilhando um silêncio que dizia tudo.

Mas um dia a leshmaniose chegou. Nos anos 90 pouco se sabia, não havia vacinas, e o veterinário, receoso, disse-me que era melhor acabar com o sofrimento dele porque já tinha feridas incuráveis. 

Veio ter comigo assim que o chamei.

A família refugiou-se no primeiro andar. Eu fiquei cá em baixo, sozinho com o meu amigo.

Sentei-me no chão da tapada e disse-lhe:

– Rex, deita aqui.

E ele deitou-se. 

Pousou a cabeça no meu colo com a confiança de sempre. E naquele instante, mesmo com o veterinário a preparar a seringa, mesmo com o peso da decisão, mesmo com as lágrimas a caírem-me pela cara abaixo, senti que estávamos outra vez naquela imagem: eu e ele, lado a lado, iluminados por uma luz que não era a da lua, mas parecia.

O veterinário fez o que tinha de ser feito. O Rex suspirou fundo, como quem finalmente descansa. E partiu.

Fiquei com ele até o corpo arrefecer. Depois cavei uma cova funda na tapada, sepultei-o ali mesmo, e protegi o lugar com silvas e pedras grandes para que nenhum animal selvagem o profanasse. Era o mínimo que podia fazer por quem me tinha dado tudo.

Vieram depois outros amigos: a Sacha, o Bolinhas, a Suri. Todos eles passaram pela nossa vida como bênçãos breves. Todos eles partiram como partem os que amamos mais.

E um dia, depois da Suri – que que se foi na Sexta-Feira Santa de 2022 – decidimos que não queríamos mais passar por esse desgosto.

Mas a verdade é que... desde então falta qualquer coisa nesta casa. Falta aquela amizade que nenhum ser humano consegue dar. Falta a presença silenciosa, fiel, inteira.

Falta o Rex. Faltam todos eles.

E talvez por isso, desde que a Suri partiu, nunca mais tive amigos a sério.

José Coelho

Bom fim de semana


Foto José Coelho
 

O templo do amor silencioso do meu pai

No princípio, antes de eu saber quem era, esta era uma casa pequenina. Não era apenas uma casa: era o primeiro mundo onde vivi. Ali cabíamos todos – nós os seis – e ainda quem chegasse, porque esta casa tinha o dom antigo de se alargar por dentro, como se tivesse um coração próprio.
O meu pai ergueu-a pedra a pedra, como os antigos heróis que levantavam muralhas para proteger o seu povo. As mãos dele não eram mãos de homem comum: eram mãos que sabiam transformar o chão em abrigo, o esforço em destino.
Ele não falava de amor – construía-o.
E eu cresci dentro desse silêncio fundador, sem perceber que vivia numa obra sagrada. O meu pai era duro, seco, sem beijos nem carícias. Mas havia nele uma força que não se explicava: uma força que sustentava a casa, a família, o tempo.
Um dia, inesperadamente, já de idade avançada, chamou-me. E com a voz que não pedia – decretava – disse-me que a casa ficava para mim. Não era herança. Era investidura. Era o momento em que o herdeiro recebe o legado do proprietário anterior.
Nesse instante percebi o que nunca tinha visto: que o amor dele era tão grande que só podia ser silencioso. Que eu era o escolhido para continuar a sua história. Que aquela casa pequenina era o altar onde ele depositava em mim a sua confiança.
Nesse dia ergueu-se no meu peito um propósito maior do que eu. Decidi que a casa não podia ficar assim pequena. Que tinha de crescer, de se abrir, de se tornar capaz de acolher todos os que antes se apertavam nela. E sonhei esta casa três vezes maior, não por grandeza, mas por missão.
E cumpri.
Ergui um casarão como quem ergue um templo de memória. Cada parede nova era um cântico ao meu pai. Cada divisão ampliada era uma oferenda. Cada janela aberta era uma promessa de que a sua linhagem continuaria.
Mas o tempo – esse deus invisível que tudo leva – começou a recolher os seus. Os meus pais partiram. A minha avó partiu. Os meus tios partiram. A minha irmã mais velha foi também ter com eles.
Os meus filhos seguiram o seu caminho.
E agora no grande casarão que construí com as minhas mãos e o meu destino, restamos apenas dois: eu e a minha companheira de quase toda a vida.
Dois guardiões do que foi um reino de união e fraternidade.
Às vezes, ao entardecer, sento-me na sala de jantar. A luz entra filtrada pelas persianas e pelos cortinados como se fosse uma divindade antiga a visitar-me.
A penumbra é suave, quase ritual.
A luz não ilumina – abençoa.
O silêncio não é vazio – é presença ancestral.
E nesses instantes suspensos, vejo tudo: a casa pequenina onde o meu mundo começou, o meu pai a erguer cada pedra como quem ergue um universo, o gesto dele a entregar-me o legado, a casa que fiz crescer para acolher todos e a saudade que agora caminha comigo como uma sombra fiel.
A casa continua grande e o que me falta não é espaço.
É o coro dos que partiram para o outro lado do tempo.
E mesmo assim, há algo que permanece invencível:
Esta casa continua a ser o templo do amor silencioso do meu pai – e eu sou o guardião da sua chama.

O dia em que o coração se cansou

Há um momento na vida em que deixamos de acreditar que tudo se resolve com mais um perdão. Eu demorei anos a perceber isso. Talvez porque sempre fui feito daquela matéria antiga – que acredita nas pessoas, que dá tempo, que dá espaço, que dá o que tem e o que não tem. Cresci a ver a minha gente a viver assim: com palavra, com honra, com a mão estendida antes de qualquer julgamento.

E por isso perdoei muito. Perdoei mais do que devia. Perdoei até quando já não havia nada para recuperar.

Não por ingenuidade, mas porque sempre achei que o ser humano podia ser melhor do que aquilo que mostrava. Que um erro podia ser só um tropeço. Que uma falha podia ser só cansaço. Que uma desilusão podia ser só um mau dia. E assim fui deixando que me ferissem, acreditando que da próxima vez seria diferente.

Mas a vida tem uma forma curiosa de nos ensinar: primeiro sussurra, depois fala, e por fim grita.

E um dia, sem aviso, o coração cansou-se.

Não houve drama. Não houve porta a bater. Não houve discussão.

Houve apenas um silêncio daqueles que não pede, nem quer, explicações.

Um silêncio que disse: “Já chega.”

Finalmente percebi que há pessoas que confundem bondade com obrigação, cuidado com serviço, presença com disponibilidade eterna. Pessoas que acham que o mundo lhes deve tudo e que nunca se perguntam o que têm para oferecer em troca. Pessoas que recebem o perdão como quem recebe o troco de um café: automático, garantido.

E eu que sempre tentei ver o melhor nos outros, aprendi à força que nem todos querem ser melhores. Alguns querem apenas continuar iguais, desde que alguém aguente as frustrações deles.

Foi aí que o meu coração – esse velho companheiro que já me salvou e já me perdeu tantas vezes – decidiu fechar a porta.

Não por raiva, mas por respeito e amor-próprio.

Não por orgulho, mas por paz. 

Não por desistência, mas por lucidez.

E quando uma pessoa desiludida fecha a porta, fá-lo com uma serenidade que não tem volta.

Não deixa frestas.

Não deixa promessas.

Não deixa esperança pendurada no ar.

Segue. Vai-se embora. Simplesmente.

E quem fica para trás só então percebe o valor do que perdeu – não porque era perfeito, mas porque era raro.

Hoje olho para trás sem rancor.

As cicatrizes ficam, é verdade, mas já não doem. 

São apenas marcas do caminho, lembretes de que a bondade não é infinita e que o coração, por mais generoso que seja, também precisa de respeito.

Aprendi isso tarde, mas aprendi bem: perdoar é bonito, mas saber ir embora é necessário.

José Coelho

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Terra amada


A minha terra não é apenas um lugar - é um território de pedra e memória, moldado pelo vento e pela vontade dos homens.

No coração do Alto Alentejo montanhoso, Marvão ergue-se no cimo do rochedo como uma fortaleza destinada aos deuses, coroada pela sua Vila e pela Muralha que desafiam séculos e tempestades.
Pelas suas encostas, os soutos de castanheiros centenários estendem-se como um exército silencioso, frondoso, guardando a serra com a dignidade dos que viram passar gerações.
Das fontes brotam águas frescas e abundantes, como se a própria terra respirasse pureza. E nos vales que o sol de maio desperta, os centeios douram devagar, iluminando a paisagem como um manto de ouro antigo.
Aqui, na aldeia de Beirã, cada pedra conhece o nome do tempo. E eu, que a fotografo, apenas testemunho a grandeza que sempre esteve aqui: firme, eterna, indomável.
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Silenciosa fatura

Há um tempo da vida em que caminhamos como se o corpo fosse eterno. A juventude dá-nos esta ilusão luminosa: a de que nada nos toca de verdade. Uma dor passa com um analgésico, uma febre cede a um anti-inflamatório, uma noite mal dormida resolve-se com um café forte. Acreditamos que o corpo é uma ferramenta inesgotável, sempre pronta, sempre fiel.
Só mais tarde percebemos que não era força – era ignorância. E que a ignorância, quando é jovem, parece coragem.
Eu próprio vivi assim. Aos dezassete anos, com a farda às costas e o mundo pela frente, acreditava que o corpo aguentava tudo: o peso da guerra, o calor das matas, a fome, o medo, a exaustão. Marchava quilómetros como se o amanhã fosse garantido. Dormia pouco, comia mal, e achava que resistir era o mesmo que ser invencível.
Mas o corpo não é infinito. O corpo é memória. E a memória, quando não é cuidada, transforma-se numa silenciosa fatura.
Guarda as noites mal dormidas, o stress acumulado, as quedas que não tratámos, as dores que ignorámos, os sustos que fingimos não sentir. Guarda até aquilo que nunca contamos a ninguém. E um dia, sem aviso, devolve-nos tudo – não por castigo, mas por verdade. O corpo é o único lugar onde não há mentira possível.
O meu momento chegou numa sala branca, com cheiro a desinfetante e relógios que não faziam barulho. O médico, ao ver os resultados do exame que me mandara fazer, olhou-me com aquela calma que só os médicos têm quando sabem que as palavras vão pesar.
E disse apenas: “Temos de agir já.”
Não gritou. Não dramatizou. Não explicou demais. Mas naquele instante, tudo dentro de mim se reorganizou. Foi como se o corpo, silencioso durante décadas, finalmente tivesse encontrado alguém que falasse a sua língua. E eu percebi – tarde, mas ainda a tempo – que a vida pode assim mudar, num sopro.
Com o tempo aprendemos que saúde não é ausência de doença. Saúde é acordar sem dores. É respirar fundo sem limitações. É subir escadas sem negociar com o ar. É dormir em paz. É ter energia para viver e não apenas para cumprir o dia.
A partir daquele dia cada exame, cada vigilância, cada espera nos corredores deixou de ser rotina e passou a ser consciência. O corpo que eu tratara como máquina, revelou-se mestre. E eu que me julgava resistente, percebi que a verdadeira força está em ouvi-lo.
Passamos metade da vida a correr atrás de dinheiro para um dia termos qualidade de vida e, pelo caminho, gastamos precisamente aquilo que mais precisamos para a viver: a saúde e a tranquilidade. É uma ironia cruel sacrificarmos o corpo para conquistar o que, mais tarde, não teremos: o corpo para aproveitar a vida.
Talvez crescer seja isso: entender que o verdadeiro luxo não está no que se compra, mas no que se sente. Está em viver um dia normal sem dor. Está em ter paz dentro da cabeça. Está em olhar para quem amamos e ainda ter tempo, força e saúde para os abraçar.
Porque no fim, quando a saúde falha, tudo o resto perde o brilho. O urgente desaba. O supérfluo evapora. E fica apenas o essencial: o corpo a pedir que o tratemos como aquilo que ele é: o único lugar onde vamos viver até ao fim.
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Só quem semeia, colhe – na horta e na vida


Adoro mexer na terra com as mãos, sentir o seu odor e observar as sementes a brotar e a transformarem-se em robustas plantas. Entretenho-me tardes e dias inteiros pelo quintal, quase sem dar pelo correr das horas. Não há nada mais saudável, pacífico e relaxante. O contacto direto com a natureza proporciona uma paz inigualável, algo que não se encontra facilmente nos ambientes urbanos ou na azáfama do quotidiano moderno.

Um grande e douto amigo, proprietário de uma quinta nas redondezas, afirma com convicção: “um dia na quinta é mais tranquilizante do que uma ida ao psicólogo”. Concordo plenamente. A serenidade que emana da natureza é, sem dúvida, mais benéfica que muitos medicamentos, proporcionando um equilíbrio profundo entre corpo e mente.
Como escreveu uma autora que frequentemente leio, “nasci em tempos rudes” e “aprendi a viver nesses tempos”. A dureza do passado forjou o meu carácter. As pessoas eram rudes pelo trato exigido pelas dificuldades da vida, mas essa rudeza nada tinha de maldosa. Pelo contrário, eram de uma pureza de princípios e de carácter que hoje quase se desconhece. Sinto uma saudade inexplicável desses tempos e das pessoas que os habitaram, uma nostalgia que cresce com o passar dos anos.
A minha pequena horta abastece a casa de verduras durante todo o inverno. Mas, além da colheita, é o uso das alfaias agrícolas herdadas do meu pai – enxadas, sachos, forquilhas, ancinhos, rodos, pás, picaretas – que me transporta até ele. Imito-lhe o modo de fazer, a precisão de cada rego, a atenção ao detalhe, o carinho com que cuidava das pessoas, dos animais e das plantas. Esse esmero, essa dedicação quase ingénua, tornavam-no respeitado e estimado.
Recordo-o com tamanha nitidez que, por vezes, parece-me sentir no quintal o odor do tabaco de onça e mortalha que o acompanhavam sempre. O seu hábito de fumar era peculiar, nunca aspirava o fumo, apenas o saboreava entre os lábios. Viveu assim serenamente até aos 83 anos, quando um tumor na próstata o venceu. A presença dele na minha saudade é tão forte que se torna quase física.
Três quartos do meu ADN pertencem-lhe – até o meu rosto atualmente é uma réplica do dele – por isso só um quarto será da minha mãe. Ainda assim fui abençoado desde o nascimento até à sua partida pelo amor profundo e incondicional que ela sempre me dedicou. Nunca me senti pobre ou carente, apesar de o dinheiro ser sempre contado, por vezes até esticado. Mas de afetos, educação, respeito e honestidade, sempre fomos milionários nesta família.
Procurei, desde cedo, imitar os exemplos desses meus dois grandes mestres. Porque acredito que ele ensina mais do que muitas palavras. Sinto-me bem-sucedido, porque os meus filhos, na sua honrada vida, são o meu orgulho, nem me incomoda nada que nenhum deles não tenha querido aprender a cavar ou a plantar a terra, como o pai aprendeu com o avô.
Cada geração tem as suas particularidades e nenhuma é melhor ou pior que a anterior, tal como as vindouras também não o serão em relação à atual.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Mas existe uma verdade que permanece, venha o tempo que vier: quem quiser colher terá de saber semear, na horta, ou na vida. Esta máxima ecoa tanto nos campos como no coração, sendo um legado valioso que atravessa gerações.
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