domingo, 24 de maio de 2026

Na calma dos dias simples

Estou na fase mais serena da minha vida onde tudo é feito sem pressa, mas sempre com a mesma benéfica intenção.

Cada escolha, cada palavra e cada silêncio, são guiados pela vontade de desfrutar cada dia de forma autêntica e consciente.

Viver com serenidade é ter sabedoria para apreciar o que temos, sem ansiedade pelo futuro, ou apego ao passado.

É saber que o tempo é precioso e que tudo o que é verdadeiro permanece, mesmo que demore a florescer.

E é na calma dos dias simples que a felicidade se faz presente e a vida se revela em toda a sua profundidade.

sábado, 23 de maio de 2026

A solidão de quem nos protege

Há profissões que nunca dormem. As forças de segurança – PSP, GNR e outras – são assim. Não conhecem descanso, pausa, feriado ou indulgência. O relógio roda, o calendário muda, mas a responsabilidade permanece sempre ali, imóvel, como uma sentinela silenciosa.
Enquanto o país se reúne à mesa, enquanto o bacalhau fumega no Natal e o cabrito assa na Páscoa, há homens e mulheres que passam essas mesmas horas nas ruas frias, nas estradas escuras, nas esquadras silenciosas. Não porque sejam diferentes – mas porque escolheram servir. E servir, para eles, significa estar onde é preciso, quando é preciso, mesmo que isso lhes custe noites, família, saúde ou paz.
E depois há quem diga, com uma leveza quase cruel: “Foram para lá porque quiseram. São pagos para isso.”
É fácil falar assim. Difícil é compreender o que significa viver sempre um passo antes do perigo. Difícil é perceber que por baixo da farda há um ser humano que treme, que sente, que falha, que sofre – e que, ainda assim, continua.
O que me dói – e dói mesmo – é ver a indulgência com que tratamos quem mata a sangue frio, quem destrói vidas sem hesitar, quem dispara para roubar uns trocos. Chamam lhes “indivíduos problemáticos”, investe-se milhares na sua reintegração, oferecem lhes compreensão infinita.
Mas quando um agente, no cumprimento da lei, tem de usar a arma que lhe foi confiada para proteger a sua vida ou a de terceiros, o país inteiro ergue-se para o julgar. Cada gesto é dissecado, cada segundo é escrutinado, cada decisão é transformada em espetáculo. E o agente – que agiu para salvar alguém – é crucificado na praça pública como se fosse ele o criminoso.
Os valores inverteram-se, ou talvez tivessemos deixado de saber o que realmente importa.
E quando isto acontece, quem defende o agente?
A hierarquia? Sim, para vir anunciar, com pompa e circunstância, a abertura de processos de averiguações.
A comunicação social? Não. Precisa da manchete, não da verdade.
A opinião pública? Pior ainda. Se uma voz grita “matem-no”, cem respondem “esfolem-no”.
E depois perguntam, com ar de espanto, porque será que o recrutamento de novos agentes não consegue sequer preencher já as vagas por aposentação, em virtude de não haver candidatos suficientes, quando, não há muitos anos, havia seis mil candidaturas para seiscentas vagas?
Mais preocupante ainda, porque será que tantos guardas e polícias se suicidam? Será difícil perceber?
Não são apoiados.
Não são valorizados.
Não são compreendidos.
E ganham salários que mal chegam ao fim do mês.
Eu sei o que isso é. Vivi isso. Estive lá, noite após noite, dia após dia, dentro das viaturas ou a pé à frente dos meus homens e não comodamente instalado atrás da secretária, no ar condicionado. Ensinei, incentivei, protegi – mas, acima de tudo, tentei sempre ser exemplo.
E também errei.
Porque estava a trabalhar.
Porque estava a tentar ajudar.
Porque sou humano.
Só nunca errei por abuso, por arrogância, por maldade ou por desleixo. Nunca.
Poderia falar da minha folha de serviços, limpa, reconhecida, honrada. Mas não preciso. Cumpri o meu dever e isso basta-me.
O que hoje mais paz me dá, é a consciência tranquila. E o que me move ainda é a solidariedade profunda por todos os que lá continuam noite após noite, dia após dia, a segurar o país com as próprias mãos, mesmo quando o país parece esquecer-se deles.
Foto da net

O luto não acabou e o respeito também não pode acabar

Introdução:

Este texto teve origem na indignação que senti num momento de profunda dor quando uma pessoa da minha família se apresentou enfeitada e colorida como uma árvore de Natal no funeral de quem a ajudou a criar.

Há quem diga com a maior leveza: “Hoje o luto já não se usa.” Mas eu digo com toda a firmeza: O luto não é moda para “usar” ou “deixar de usar”. O luto é respeito. E o respeito nunca sai de moda.
Cresci no seio de gente humilde que não tinha estudos, mas tinha palavra. Gente que não tinha luxo, mas tinha honra. Gente que sabia que, quando alguém parte, não se acompanha à sua última morada todo “empampoulado” como se vai para uma festa.
E é isso que muitos jovens de hoje precisam de ouvir – não com paninhos quentes, mas com verdade:
Ir a um funeral vestido como quem vai para uma festa, não é modernidade. É desconsideração.
E não se trata de usar preto da cabeça aos pés. Não se trata de seguir tradições antigas. Trata-se de ter noção.
Noção que:
Um funeral não é palco – é despedida.
A dor merece respeito – não exibição.
A memória merece dignidade – não indiferença.
Quando alguém - como foi o caso - aparece no funeral de um ente querido muito próximo com roupa desadequada, a mensagem que passa, mesmo que não seja essa a intenção, é simples:
– Não entendo a importância deste momento.
E isso magoa. Magoa profundamente quem amou, quem cuidou, quem perdeu.
Eu vi a minha mãe faltar ao banquete do casamento do meu filho mais novo porque tinha perdido também o seu irmão mais novo – o tio Raimundo – dias antes. Não por obrigação. Não por tradição. Mas porque o seu coração não sentia que era dia de festa.
Hoje há quem faça luto público por um animal de estimação – e nada contra isso – mas não consiga vestir algo discreto quando perde um pai, uma avó, um irmão.
Há quem publique laços negros nas redes sociais, mas não tenha a sensibilidade de mostrar um simples gesto de respeito no momento da despedida de alguém a quem deve amor e respeito.
Isso não é evolução. É desligamento das raízes. É comodismo emocional. É falta de educação no sentido mais profundo da palavra.
E por isso afirmo, sem nenhum medo de ferir suscetibilidades:
O luto não acabou. O que está a acabar é a capacidade de sentir.
E isso é muito mais grave.
Quem ama, respeita.
Quem respeita, demonstra.
Quem demonstra, honra.
E honrar quem nos deu vida, quem nos criou, quem nos amou, não é opcional.
É o mínimo dos mínimos de tudo o que merece.

Bom fim de semana


Há quem, depois de curar o mundo, escolha curar‑se a si mesmo. 
E encontre no coração da natureza o que a vida lhe tinha negado: 
- silêncio, abrigo e paz.

Foto José Coelho

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Bênção da Murta – poética, espiritual, agradecida

Que a Murta permaneça este lugar onde o tempo se inclina, onde o vermelho das suas paredes guarda o calor das gerações e o verde dos campos respira como uma prece antiga.
Que a fonte continue a murmurar a sua água pura, lembrando as mulheres que ali buscavam vida e os namorados que, na noite de São João, colhiam esperança no silêncio da meia-noite.
Que Deus abençoe também a família que lhe devolveu o brilho, a dignidade e a alma, mãos que restauraram não só paredes, mas a memória de todos nós.
E que quem se sentar no poial da fonte, como hoje eu me sentei para bater esta foto, sinta esta paz que não se explica – apenas se recebe, como graça que desce devagar sobre a terra que tanto amamos.
Texto e foto

Guardião de memórias

Há pessoas que pertencem à terra como as raízes pertencem às árvores. Não porque estejam presas, mas porque dali tiram a força, a memória e o sentido.
Crescer num lugar é uma coisa; ser moldado por ele é outra. A terra onde se nasce pode ser apenas cenário, ou pode ser mãe, mestra, companheira de jornada.
Quem ama a terra como eu amo a minha, não a vê apenas com os olhos:
Vê-a com o coração.
Vê o valor das fontes antigas, o milagre de uma lagartixa que caiu no balde e foi salva, a dignidade de uma cobra que só necessita atravessar o caminho e merece ser deixada em paz, a nobreza silenciosa da manada de javalis que passa com a família em procissão.
A ligação à terra não se explica – vive-se.
É feita de gestos pequenos, quase invisíveis, de amor pela natureza: parar o carro para não ferir um animal, recolher um pássaro caído, respeitar o silêncio dos campos, agradecer a sombra de uma árvore.
Quem age assim é guardião.
Guardião da memória, da vida, da beleza que ainda resiste.
E talvez seja por isso que a terra nos conhece. Porque há homens que passam por ela, e há homens que a honram.
A ligação à terra é um pacto silencioso entre aquilo que fomos, o que somos e o que deixamos para os que virão.
E quem vive assim, não envelhece – aprofunda-se.
Texto e foto

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Amor, respeito e amizade caminham – sempre – de mãos dadas

Há momentos na vida em que caminhamos sem perceber o peso dos passos, como se o mundo nos conduzisse por trilhos que não escolhemos, mas que, ainda assim, nos moldam. E é nesses caminhos – às vezes suaves, às vezes ásperos – que começamos a questionar o que realmente significa amar, ser feliz, ter sucesso.
A verdade é que as grandes revelações raramente chegam com estrondo. Vêm em silêncio, escondidas num gesto simples, num olhar que nos acolhe, num cuidado que ninguém vê. É aí que descobrimos que o amor não vive de rostos bonitos nem de palavras bem ensaiadas.
Ele vive nas atitudes, na sinceridade dos gestos, no cuidado que não pede aplausos, na presença que permanece mesmo quando tudo o resto vacila. Um abraço que nos devolve o mundo. Um sorriso que nos reconhece. Um silêncio que nos entende.
É nas coisas pequenas que mora o essencial. E é nelas que percebemos que o sucesso ou o fracasso não nascem de grandes feitos, mas das escolhas que fazemos todos os dias – da coragem de assumir responsabilidades, de seguir o que faz sentido, de não desistir de nós.
A felicidade, essa companheira esquiva, não é um destino. É um estado que se constrói devagar, como quem cultiva um jardim. Cada gentileza, cada ato de empatia, cada perdão que oferecemos sem pedir nada em troca, ergue dentro de nós uma casa onde a paz pode morar. E nada consola tanto uma dor, como o bem que fazemos aos outros. Porque ajudar alivia. Reconcilia. Transforma.
E então percebemos o valor raro dos amigos verdadeiros, esses que a vida nos entrega como tesouros escondidos. Eles caminham conosco quando o mundo se afasta, partilham as nossas alegrias e seguram as nossas tristezas como quem segura um vaso frágil. São eles que nos mostram que quem nos merece não nos fere de propósito, porque amor, respeito e amizade caminham – sempre – de mãos dadas.
Há também uma beleza imensa nos instantes que o mundo nos oferece sem pedir nada: acordar cedo para ver o sol nascer, sentir o perfume fresco da manhã, escutar o silêncio que antecede o dia. É nesses momentos que entendemos que muitos dos nossos erros foram apenas tentativas de acertar, de procurar algo melhor para nós e para quem amamos.
Tal como num perfume, é a essência – nunca a embalagem – que define o valor das pessoas.
Cada ser humano dá ao mundo aquilo que carrega no coração. Por isso, não nos cabe julgar, mas compreender. Não nos cabe punir, mas acolher. O silêncio, tantas vezes, é a sabedoria que nos resta quando as palavras não chegam. Aprender a ouvir, a respeitar, a permanecer em silêncio quando necessário, é maturidade.
E quando finalmente entendermos que o Amor é mais do que um sentimento – é uma forma de olhar o mundo, de aceitar imperfeições, de valorizar o essencial – descobriremos que a felicidade não está no dinheiro nem no status, mas nas relações que constroem a nossa história, nos vínculos que resistem ao tempo e às tempestades.
As pessoas mais valiosas são aquelas que ficam. Que permanecem. Que seguram a nossa mão quando tudo parece difícil. São elas que nos ensinam, pelo exemplo, que a felicidade nasce dentro de nós. E que, antes de procurarmos alguém que nos ame, precisamos aprender a amar-nos, a aceitar-nos, a cuidar de nós com a mesma gentileza que oferecemos ao mundo.