quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Uma nascente é também uma mãe d'água

Há águas que não se bebem apenas, também se escutam. A nascente do Cabril era uma dessas águas. Durante décadas, foi ela que abasteceu o depósito da Beirã, fiel, constante, humilde, como todas as coisas que a natureza oferece sem pedir nada em troca.
A aldeia crescia devagar, e o Cabril chegava para tudo. Para as casas, para os quintais, para os verões longos em que a água parecia infinita.
Mas a vida tem o seu ritmo, e a aldeia também. Com o passar dos anos, a Beirã começou a crescer. Chegaram mais famílias, mais casas, mais necessidades. E o Cabril, que durante tanto tempo fora suficiente, começou a mostrar a sua fragilidade.
A água já não chegava para todos. Era preciso procurar mais longe, mais fundo na própria terra.
Foi então que se abriu o Poço da Aldeia. Uma nova nascente, mais generosa, mais abundante, que veio ajudar o Cabril a sustentar a vida da Beirã. Durante mais algum tempo, trabalharam lado a lado o Cabril e o Poço da Aldeia, como dois velhos companheiros que conhecem bem o peso da responsabilidade.
E a aldeia respirou de novo.
Mas o crescimento não parou. Nem na Beirã, nem nos povoados vizinhos, nem nos lugares dispersos da freguesia. A água, que sempre fora suficiente, começou outra vez a faltar.
Foi então que o Município de Marvão tomou uma decisão que mudou para sempre a história do abastecimento eficaz: rasgou valas, meteu condutas e trouxe água da Barragem da Apartadura, no sopé da Serra de São Mamede.
Uma obra grande, profunda, definitiva para todo o concelho de Marvão e não só. A água passou a chegar com segurança, com abundância, com futuro.
Hoje, o Cabril e o Poço da Aldeia continuam a correr. Mas correm livres, sem aproveitamento, descendo para o ribeiro como quem regressa ao seu destino natural. Já não sustentam casas, já não enchem depósitos, já não carregam o peso da aldeia.
São agora memória líquida de um tempo em que a água nascia perto e bastava.
Quando passo pelas nascentes, seja do Cabril ou do Poço da Aldeia, há sempre um instante em que o mundo parece abrandar. A água corre devagar, sem urgência, como quem sabe que já não tem de alimentar ninguém.
Mas nesse correr, há uma beleza que me encanta: a liberdade da água que já não serve, mas que continua a existir, e, mesmo sem utilidade prática, continua a ser parte da alma da Beirã.
Porque uma nascente não é apenas água. É memória. É testemunho. É continuidade. É a prova de que a natureza guarda tudo, mesmo quando já não lhe pedimos nada.
E eu encontro, naquele fio de água, uma verdade que me acompanha: a de que uma mãe d'água, mesmo quando deixa de ser necessária, nunca deixa de ser nossa.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

O dia em que o relógio da igreja deixou de pedir corda

Durante décadas, o relógio da torre da igreja da Beirã viveu como um velho teimoso: avançava porque alguém lhe dava corda, parava quando o cansaço chegava, e retomava o tempo apenas quando mãos pacientes lhe devolviam o movimento. Era um relógio que dependia de gente e talvez por isso tivesse alma.
Quem passava na rua, sabia que aquele som metálico, ritmado, não era apenas mecânico. Era o sinal de que alguém tinha subido as escadas estreitas, empurrado a porta pesada, enfrentado o pó acumulado, e dedicado uns minutos ao tempo da aldeia. O relógio não marcava só as horas: marcava a presença de quem cuidava dele.
Mas um dia, depois de tantos anos de corda e de espera, o relógio deixou de pedir. Foi restaurado, afinado, modernizado e passou a funcionar sozinho, com a precisão silenciosa das máquinas que já não dependem de mãos humanas. A torre ganhou eficiência, mas perdeu um ritual.
A primeira vez que o relógio tocou sem ter sido acordado por ninguém, houve um estranhamento quase infantil. A aldeia ouviu as badaladas como quem reconhece uma voz familiar, mas percebe que ela mudou de tom. Continuava a ser o relógio da Beirã, mas já não era o mesmo.
Para alguns, foi alívio: menos trabalho, menos preocupação, menos escadas para subir. Para outros, foi perda: o tempo deixou de ser cuidado por gente e passou a ser cuidado por fios e circuitos.
E eu senti isso de forma particular. Porque conheço o valor das coisas que só existem porque alguém lhes dedica tempo. Porque sei que há objetos que não são apenas objetos, são também testemunhos de quem os manteve vivos.
O relógio da torre, agora independente, marca as horas com uma pontualidade impecável. Mas já não precisa de ninguém. E essa autonomia, que é progresso, traz consigo uma saudade discreta: a saudade do gesto humano que fazia o tempo avançar.
Ainda assim, quando as badaladas ecoam pela aldeia, há uma espécie de reconciliação. O som continua a ser o mesmo que acompanhou gerações. A torre continua a ser a mesma que vigia a Beirã. E o tempo, esse, continua a correr, com ou sem corda. O relógio deixou de pedir. Mas a aldeia não deixou de ouvir.
Texto e foto

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Crónica de uma espera

Prometi a um grande amigo das escritas que estaria com ele às cinco da tarde, mas a vida – e a Maria Manuela – tinham outros planos. Fiquei ali, no carro, no parque de estacionamento, com o chapéu bem assente e aquela expressão que só quem já esperou demasiado tempo conhece.
A Maria Manuela entrou na manicure com aquele ar inocente de quem diz “é só um bocadinho”.
E eu, tolo, acreditei.
Passou meia hora. Depois uma hora. Depois outra. E eu ali, firme, paciente, quase filosófico, a olhar para o volante como quem contempla o destino.
O carro tornou-se o meu pequeno mundo. Vi pessoas a passar, vi um gato gordo que parecia avaliar-me, vi o sol a descer devagarinho como se estivesse a gozar comigo.
De vez em quando levantava os olhos para a porta do salão, na esperança de ver a Maria Manuela sair.
Mas qual quê?
Só risos lá dentro, o som da lima, e aquela certeza antiga que já devia estar escrita na Constituição: As senhoras são… senhoras. Pronto.
E eu, que sei a sorte que tenho, lá fiquei, porque não preciso de ir três horas para a cabeleireira, nem duas horas para a manicure, nem enfrentar aquele universo paralelo onde o tempo deixa de ser tempo e passa a ser… feminino.
Quando ela finalmente saiu arranjada, feliz, a brilhar como se tivesse sido polida por anjos, eu sorri. Um sorriso pequeno, resignado, mas verdadeiro.
Porque no fundo, a verdade é esta: Há esperas que cansam, mas há amores que compensam.
E o meu paciente amigo das escritas, continuou – se calhar continua ainda – lá, à minha espera.
Sem chapéu mas com humor, porque estas histórias só acontecem a quem vive com alguém que sabe transformar “um bocadinho” em duas longas horas de vida.
Desculpe lá. Amigo…
Texto e foto

Diálogo comigo mesmo

Às vezes olho para estes campos e falo comigo em silêncio. Pergunto-me porque é que o passado me chama tanto, porque é que certas imagens antigas continuam a acender-se dentro de mim como se tivessem ficado à espera. E respondo-me, com calma: não é doença, não é peso, não é fuga.
É amor. É raiz.
Eu sei porque volto sempre a estas lembranças. Foram os anos mais felizes da minha vida: uma infância livre, uma juventude cheia de vozes, de passos, de gente. Recordo o assobio dos pastores, o cantar dos galos ao desafio e o ladrar dos cães nos quintais, o rumor das hortas cuidadas, as árvores carregadas de fruto. Recordo a Vida, inteira, presente, espalhada por todos os lugares da aldeia.
E quando agora caminho por estes mesmos sítios e vejo o abandono, o mato a tomar conta do que era cuidado, a ausência de quem trabalhava com dignidade e humildade, sinto um aperto que não é tristeza profunda, é desencanto. É a estranheza de ver o meu mundo rural esquecido por quem devia protegê-lo.
É a consciência de que aquilo que me formou está a desaparecer diante dos meus olhos.
Mas digo-me, com sinceridade: esta saudade é boa. Não me prende, não me derruba, não me fecha. Ela sustenta-me. Ela lembra-me quem sou, de onde venho, o que me moldou. E digo-me ainda: tudo tem o seu tempo. O que partiu cumpriu o seu propósito. O que ficou continua a respirar em mim.
Eu não vivo agarrado ao passado, vivo acompanhado por ele. E é essa companhia que me dá força para cuidar do que ainda posso: uma parede retocada, um altar recomposto, um gesto simples que devolve dignidade ao que permanece.
E continuo a falar comigo, porque às vezes é preciso ouvir a própria voz interior para não perder o rumo. Digo-me que não estou sozinho nesta memória porque há outros que sentem o mesmo, que carregam a mesma saudade boa, que olham para esta terra com o mesmo respeito.
Digo-me que cada gesto meu, por pequeno que seja, é uma forma de manter acesa a chama do que fomos.
No fundo, falo comigo para não esquecer a terra onde nasci e que continua a ser o meu lugar de verdade. Enquanto eu a amar, ela não estará totalmente abandonada. Porque a memória, quando é limpa e honesta, também é uma forma de cuidar.

domingo, 6 de setembro de 2026

Assim terminou o meu dia

O entardecer chega sempre com uma espécie de sabedoria antiga. Não fala, não explica, não exige. Apenas pousa. E hoje na Beirã ele pousou com aquela luz dourada que parece vir de dentro da terra, como se os montes respirassem fundo antes de entregarem o dia à noite.
O calor ainda se sente, mas já não manda. O ar, pesado das poeiras vindas de longe, começa a perder a arrogância. E eu, sentado no meu lugar habitual, deixo que o corpo encontre o seu descanso natural, aquele que só chega quando o sol se inclina e o mundo abranda.
Há um silêncio especial nesta hora. Não é ausência de som: é presença de calma. As cigarras diminuem o canto, os pássaros procuram os últimos ramos, e a terra, que durante o dia pareceu inquieta, agora repousa como um animal cansado que finalmente encontra sombra.
E eu observo tudo isto com a serenidade de quem já viveu muitos entardeceres. E, no entanto, cada um traz algo novo: uma memória que regressa, uma saudade que se acende, uma gratidão que se instala.
Hoje pensei no meu amigo da GNR, na batalha que ele enfrenta, na força que tento sempre incutir-lhe. Pensei também na minha gente – avós, pais, mestres – que me ensinaram a ser este homem que anima, que acolhe, que permanece.
O entardecer é também isso: um espelho onde vemos quem fomos, quem somos, quem tentamos ser.
A luz foi baixando aos poucos. O céu tornou-se uma mistura de cobre e violeta. Respirei devagar, como quem aceita o convite da tarde, que me dizia:
“Pousa. Descansa. A vida continua amanhã.”
Há uma beleza discreta neste instante. Uma beleza que não precisa de palavras, mas que a escrita tenta guardar, como quem recolhe água numa concha para que não se perca.
E assim termina o meu dia: sem estrondo, sem pressa, mas com a dignidade tranquila de quem sabe que cumpriu o seu papel. E ali, sentado, a olhar o horizonte, senti que a paz, quando chega, chega sempre devagar.

Um companheiro de vida

Há carros que são apenas máquinas. E há carros que, sem nunca o pedirem, se tornam testemunhas da nossa história. O meu Citroën C3 pertence à segunda espécie, a dos companheiros silenciosos, fiéis, que sabem mais de nós do que qualquer diário.
Veio substituir o não menos humilde Opel Corsa agora já velhinho, mas ainda a pegar à primeira, a bater estrada desenganadamente e a passar na IPO todos os anos sem o menor problema, como quando era novinho em folha.
E, tal como o seu antecessor, o C3 não é um carro vaidoso. Não tem a arrogância dos motores que se exibem, nem a soberba dos modelos que querem ser vistos. É discreto, quase tímido, mas tem aquela dignidade dos objetos que cumprem o seu papel sem falhar.
E isso, na vida de um homem, vale ouro. É um companheiro que não exige palco.
Quando o abro de manhã, não me recebe com luzes teatrais nem com sons artificiais. Recebe-me com aquilo que sempre me recebeu: a normalidade. O volante que já conhece as minhas mãos, o banco moldado ao meu corpo, o cheiro que não é de fábrica, é de vida.
O C3 não me pede nada. Só me dá: caminho, tempo, silêncio, companhia e as viagens que ele guardou.
Se falasse, contava histórias que só eu sei: a subida a Marvão com o papel do IBAN no banco do lado, missão simples que afinal desbloqueou esperança; as idas a Portalegre e onde mais for preciso para consultas e exames, sempre com aquele misto de preocupação e rotina.
Os regressos tardios depois de ajudar onde é preciso, com o corpo cansado, mas o espírito leve. O C3 viu tudo. E nunca se queixou. É um carro que me conhece.
Há uma intimidade curiosa entre um homem e o carro que conduz há anos. O C3 sabe quando estou apressado, porque sente no modo como mudo de velocidade. Sabe quando estou pensativo, pela suavidade com que desço a estrada. Sabe quando estou preocupado, porque nota o silêncio mais pesado dentro do habitáculo quando baixo ao mínimo o som do rádio.
E sabe quando estou em paz, quando a viagem se torna música.
Mas eu também o conheço: o som do motor quando está feliz, o toque do pedal quando pede descanso, o modo como enfrenta a serra como quem sobe uma montanha pela décima vez mas sem perder respeito. E tem a humildade de um companheiro verdadeiro.
O Citroën C3 não é um carro para impressionar. É um carro para acompanhar. E essa é a diferença entre o que se compra e o que se vive. Ele leva-me onde preciso, mas leva-me também onde penso. É veículo e é abrigo. É transporte e é pausa. É máquina e é memória.
No fundo, é como eu: não faz alarde, não pede atenção, não exige reconhecimento. Serve. Cumpre. Acompanha.
E talvez seja por isso que, quando fecho a porta ao chegar a casa, há sempre um instante breve, quase imperceptível em que lhe agradeço sem palavras.
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A raia Marvaneja

Encontro-me com a “minha” raia Marvaneja todos os dias, como quem se reencontra com um antepassado. Esta terra não é apenas o lugar onde vivo, é também o lugar que me vive. Quando a cada manhã abro a porta do quintal e deixo que o horizonte me toque, sinto que estou a entrar numa história que começou muito antes de mim, muito antes de todos nós.
Aqui, onde o céu se derrama sobre ciclópicos canchais e denso montado, caminho sobre seis milénios de existência. Seis milénios de passos, de rituais, de mãos que ergueram antas e menires como quem escreve no granito a vontade de permanecer. E eu, que cheguei tarde a esta eternidade, aprendi a escutar o que a pedra ainda diz.
Vejo o reino de Castela lá ao longe a recortar o azul como uma sentinela antiga. E penso sempre que aquele recorte é mais do que paisagem, é memória. É o eco dos povoados alto medievais, das villas romanas onde o pão era cozido com o mesmo sol que hoje me aquece o rosto. É o rumor das fronteiras que já foram linhas de guerra e hoje são apenas linhas de vento.
Quando respiro este ar puro, sinto que ele vem de longe. Vem das raízes das azinheiras, vem das sombras dos sobreiros, vem das asas das aves que atravessam o céu como flechas de luz. Aqui, a vida selvagem não é espetáculo, é vizinhança. E eu, que sou apenas mais um habitante deste mundo antigo, aprendi a caminhar devagar para não perturbar o que me antecede.
A raia Marvaneja é o meu chão e o meu destino. É o lugar onde o tempo se dobra, onde o silêncio tem densidade, onde cada pedra sabe mais do que eu. E quando olho esta paisagem – esta que vejo do meu quintal e me acolhe – sinto que pertenço a algo maior do que a minha própria vida.
Porque aqui, nesta terra de seis milénios, eu não sou apenas quem sou. Sou também quem veio antes. Sou também quem virá depois. Sou parte dela e ela é parte de mim.
Tenham um excelente Domingo...