quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Um cenário irreversível

Discorre-se extensivamente sobre alterações climáticas, contudo, na prática, o debate permanece circunscrito à esfera mediática, funcionando sobretudo como combustível para ciclos noticiosos. Constata-se uma marcada falta de empenho na implementação de soluções tangíveis, sendo que líderes de grandes potências frequentemente minimizam o tema e consideram os alertas como meramente especulativos e infundados.
Embora se registe um elevado volume de discussões e a publicação de inúmeros relatórios, subsiste uma lacuna substancial entre a retórica e a ação. Conferências internacionais acumulam compromissos, mas a concretização de medidas estruturais é sistematicamente adiada devido a interesses económicos e divergências ideológicas. Tal contexto alimenta uma perceção generalizada de impotência coletiva perante fenómenos ambientais cada vez mais alarmantes, para os quais pouco ou nada tem sido efetivamente prevenido.
É recorrente a utilização do provérbio: “quem vier atrás que feche a porta”, ilustrando a tendência para adiar responsabilidades para gerações vindouras.
Todavia, esta postura de transferência de responsabilidades revela uma ausência de visão estratégica relativamente ao impacto das decisões atuais sobre o futuro. O ciclo do adiamento perpetua problemáticas e agrava desafios ambientais, sublinhando a urgência de uma mudança de paradigma que privilegie a ação imediata e a solidariedade entre gerações.
O funcionamento das grandes potências agrícolas – entre outros setores – assenta na necessidade de escoamento de excedentes, prática facilitada pelo impulso consumista. Se cada indivíduo produzisse aquilo que consome, como outrora, tornar-se-ia desnecessária a aquisição de produtos provenientes de cadeias produtivas internacionais, particularmente europeias, que procuram responder a todas as necessidades dos consumidores.
Este modelo perpetua uma abundância artificial e o lucro de curto prazo, frequentemente sacrificando o equilíbrio ambiental. A dependência de cadeias globais de produção fragiliza a resiliência das comunidades, tornando-as suscetíveis a crises e a fenómenos extremos, cuja frequência tem vindo a aumentar.
O universo vegetal, independentemente da espécie, enfrenta crescentes dificuldades de sobrevivência, havendo registo de perdas inclusivamente em espécies tradicionalmente resilientes como o sobreiro, incapaz de resistir às temperaturas elevadas e à escassez de humidade dos verões atuais.
Esta realidade deveria traduzir-se num esforço contínuo e sistemático de preservação dos ecossistemas naturais.
É, por conseguinte, essencial fomentar práticas sustentáveis e implementar políticas que protejam a biodiversidade. Apenas deste modo será possível mitigar os efeitos das alterações climáticas e salvaguardar recursos essenciais, como a água e as árvores, para as gerações futuras.
Assim, os custos associados ao consumo de água agravam-se durante o verão, tornando-se um esforço, por vezes infrutífero, para evitar a perda de árvores, especialmente aquelas que representam legado familiar e testemunho histórico de cada região.
Por último, testemunha-se o surgimento de padrões de temperatura cada vez mais anómalos ao longo do ano, potenciando incêndios devastadores ou precipitações intensas que provocam inundações sem precedentes, num cenário climático de extremos cuja mudança se revela progressivamente irreversível.
E, apesar de tudo isso, persiste a tendência para ignorar o problema.
Imagem da net

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Tudo o que necessito

Crescer no seio da humildade, para muitos é sinónimo de privações; para mim foi fonte de ensinamentos que transcenderam o valor material. A vivência humilde ensinou-me a relativizar a importância do vil metal e a reconhecer felicidade noutras pequenas coisas.

Aprendi cedo que a riqueza não se mede pelo dinheiro que se tem na carteira ou no banco, mas pelo calor humano e pelos laços familiares que se criam. Foi na simplicidade dos dias e na ausência de bens supérfluos que descobri o verdadeiro significado de partilha e solidariedade, lições que continuam hoje ainda a nortear o meu caminho.
Para quem não viveu essa realidade pode parecer impossível conseguir ser feliz onde há pouco. No entanto em nossa casa a abundância era de alegria e boa disposição. A minha mãe com seu sorriso sempre pronto a servir, tornava qualquer tarefa diária – fosse a fazer o jantar, ou a remendar as nossas roupas – em momentos alegres e luminosos.
Era nesses instantes que se construía uma cumplicidade inabalável entre nós. O tempo parecia abrandar todas as dificuldades quotidianas para nos oferecer a oportunidade de rirmos, conversarmos e, acima de tudo, estarmos verdadeiramente presentes uns para os outros.
Pensamos que a vida melhorou, mas será que, de facto, somos agora mais felizes? Com tanto conforto e tecnologia que nos rodeiam noto que muita gente perdeu a capacidade de se maravilhar com as coisas simples.
Por isso olho sem certeza se este “agora” é realmente superior ao “d’antes”. Sinto falta das pequenas alegrias, como ver a minha Florinda sentadinha de mantinha sobre as pernas aconchegada no sofá da sala, ceguinha pela retinopatia diabética mas com ouvido muito apurado, a cantarolar e a bater ritmadamente os pés ao som das músicas que a tv emitia e lhe eram familiares.
A memória desses momentos aquece-me o coração e recorda-me que mesmo diante das adversidades é possível encontrar motivos para sorrir e agradecer. A força e a ternura dos mais velhos ensinam-nos a dar valor ao essencial: a saúde, a presença, o afeto.
Gestos simples, quase invisíveis na altura, são agora tesouros de saudade, provas de que a felicidade pode florescer mesmo numa vida marcada pela velhice e perdas físicas como eu vi na minha mãe que mesmo sem vislumbrar a mais ínfima centelha de luz continuava a sorrir, a cantarolar e a bater o seu pezinho ao ritmo das melodias que a alegravam.
Desse ambiente herdei o meu estado de espírito tranquilo e uma gratidão imensa. Sou completamente desapegado do dinheiro e de bens materiais dispensáveis, que muita gente considera essenciais. Não me preocupo com luxos, marcas ou tendências de roupas, visto o que me agrada, comprado na feira ou numa loja de marca.
Esse desapego libertou-me de muitas ansiedades e permitiu-me perceber que o verdadeiro luxo é viver sem pressa, mas principalmente sem a constante necessidade da aprovação dos outros. A liberdade de sermos autênticos vale mais que qualquer etiqueta.
Prioridades para mim, são outras coisas muito mais banais: jantar em casa com a família vale mais do que qualquer experiência gastronómica num restaurante com estrelas michelin; aprecio mais a simplicidade de umas belas migas de pão extremenhas com sardinhas fritas, do que qualquer mariscada. O modo simples como cresci moldou esta minha forma de ser e de viver pela qual dou graças todos os dias da minha vida.
Vivemos, infelizmente para todos nós, tempos complexos, incertos e imprevisíveis, não faz sentido tornar a vida ainda mais difícil com preocupações que não nos acrescentam nenhum valor. Sabemos quanto ela é breve, mas insistimos em viver como se fossemos eternos, perseguindo riquezas materiais em detrimento da verdadeira felicidade.
Para mim e por enquanto a vida mantém-se serena, rodeada de tranquilidade. A sua chave está no olhar atento a tudo o que me rodeia e na valorização do que realmente me importa que não é tão pouco como parece, porque é tudo o que necessito para ser feliz.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

A dignidade é contagiante

Ser digno não significa ser perfeito ou estar acima de qualquer erro. Pelo contrário, dignidade reside na humildade de reconhecer falhas e procurar evoluir constantemente. É o compromisso com a verdade e o respeito, a capacidade de olhar para o outro com empatia e agir de forma íntegra, mesmo quando ninguém está a observar. Dignidade é escolher ser honesto, manter-se leal aos valores e não se deixar corromper pelas tentações da vida.
Pessoas de coração limpo são aquelas que acolhem, escutam, compreendem e não julgam precipitadamente. São capazes de criar laços de confiança verdadeiros, de sorrir sem falsidade e celebrar genuinamente a alegria do outro. Sentir-se feliz com a felicidade de alguém é um dom raro e precioso, sinal de maturidade emocional e de desapego ao egoísmo.
O verdadeiro companheirismo manifesta-se em momentos de alegria e de dificuldade. É estar presente, apoiar, orientar e respeitar o espaço e os sentimentos do outro. Lealdade é o alicerce das relações humanas, pois permite que confiemos de olhos fechados, sabendo que o outro não trairá nossa confiança. São essas pessoas que tornam a vida mais leve e repleta de sentido.
Quando convivemos com pessoas dignas, sentimos segurança, conforto e inspiração para sermos melhores. As relações baseadas em dignidade são mais profundas, duradouras e verdadeiras. A dignidade é contagiante, por isso quanto mais convivemos com gente digna, mais aprendemos a cultivar essas qualidades em nós mesmos.
Amar gente digna é, acima de tudo, valorizar o que há de mais nobre no ser humano. É reconhecer que não são os erros ou pecados que definem uma pessoa, mas a forma como ela escolhe agir diante deles. Que continuemos a amar e a praticar a dignidade, tornando o mundo um lugar onde a confiança, a lealdade e a verdade prevalecem.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Hoje foi


Lar é onde se acende o lume, se partilha mesa e onde se dorme à noite o sono da infância.

Lar é onde se encontra a luz acesa quando se chega tarde.

Lar é onde os pequenos ruídos nos confortam: um estalar de madeiras, um ranger de degraus, um sussurrar de cortinas.

Lar é onde não se discute a posição dos quadros, como se eles ali estivessem desde o princípio dos tempos.

Lar é onde a ponta desfiada do tapete, a mancha de humidade no teto, o pequeno defeito no caixilho, são imutáveis como uma assinatura reconhecida.

Lar é onde os objetos têm vida própria e as paredes nos contam histórias.

Lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo.

Lar é onde nos amam.

(Rosa Lobato de Faria)

Foto José Coelho  

Mesa da Família Coelho — em Toca dos Coelhos

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Bom domingo

“Vim de baixo, vim do nada. Por isso não há nenhuma queda que me assuste de verdade. Afinal, antes de me fazer cair, a vida já me tinha ensinado a levantar.”

Estas palavras de Raul Minh’alma são um verdadeiro testemunho da resiliência humana. Para quem começa a vida com poucas oportunidades ou enfrenta desafios desde cedo, o medo de cair perde força. Afinal, a própria trajetória ensina que tropeços não são o fim, mas sim parte natural do caminho.

Aqueles que vêm “de baixo” conhecem bem o significado de lutar. Cada conquista é fruto de esforço, de persistência e de vontade de se reerguer quando tudo parece difícil. A vida, com suas dificuldades, molda o carácter e fortalece o espírito. Aprender a levantar torna-se quase num instinto, mais forte do que qualquer receio de falhar.

Cair não é motivo de vergonha para quem já teve de se erguer inúmeras vezes. Pelo contrário, cada queda traz consigo uma lição, tornando a pessoa mais preparada e corajosa para o futuro. Saber que se é capaz de superar as dificuldades dá uma confiança inabalável, pois quem já venceu o nada, sabe que pode vencer qualquer coisa.

Se está a enfrentar obstáculos ou sente que o caminho é demasiado íngreme, lembre-se destas palavras: a vida ensina-nos a levantar antes mesmo de nos fazer cair. Não tema as quedas; veja-as como oportunidades de crescer e de se tornar mais forte.

José Coelho

Foto:
Estúdio Cardinho Ramos - Castelo de Vide
Agosto de 1974