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terça-feira, 20 de outubro de 2026

A minha aldeia acorda devagar

Os amanheceres na Beirã parecem feitos de algodão. A luz não chega de repente, vai espreitando como quem pede licença. Primeiro, uma claridade tímida que mal se nota. Depois, o contorno das casas, como se alguém estivesse a desenhá-las com lápis muito fino. Por fim, o mundo inteiro a ganhar forma, como se Deus estivesse a pintar tudo outra vez.
Eu gosto de estar acordado nessa hora. A aldeia ainda não fala, mas pensa. Pensa nos dias antigos, nos passos que já não se ouvem, nas vozes que ficaram gravadas nas paredes das velhas casas. E eu, que a conheço desde menino, sinto que ela me conta segredos que só revela a quem acorda cedo.
O cheiro da terra é mais verdadeiro de manhã. Cheira a promessa. Cheira a trabalho. Cheira a vida que insiste, mesmo quando o tempo parece querer levar tudo.
As ruas vazias não me dão solidão, dão-me história. Cada pedra tem memória. Cada porta tem uma família por trás. Cada sombra tem um nome que a aldeia não esquece.
Vejo o fumo a subir das primeiras lareiras acesas. Ouço o arrastar de uma cadeira na cozinha de alguém. Sinto o murmúrio das galinhas a acordarem. E percebo que a aldeia desperta devagar, como quem sabe que a pressa nunca fez bem a ninguém.
Há um instante – sempre o mesmo – em que tudo fica suspenso. É o momento em que o sol decide finalmente levantar-se. A Beirã respira fundo antes de começar o dia. E nesse respirar, eu encontro o meu próprio ritmo.
Percebo que não sou apenas alguém que vive aqui, sou também parte desta terra. Sou parte desta luz. Sou parte deste silêncio que fala mais do que muitas palavras.
E enquanto o dia cresce, sinto que a aldeia me devolve sempre ao melhor de mim: ao menino que corria descalço, ao homem que aprendeu a amar os seus, ao avô que sabe que a vida é feita de instantes que não se repetem.
Texto e foto

Coisas que leio e ensinam

O casal que tem mais possibilidades de celebrar as bodas de ouro, não é o mais perfeito, nem aquele que vive numa espécie de história de cinema, mas sim, o casal que muitas vezes, magoado, escolhe continuar.
Que entende que o amor verdadeiro não se baseia na ausência de falhas, mas na decisão diária de seguirem juntos, mesmo com os tropeços que a vida tem. O casal onde existe amor, é aquele que depois de uma discussão, tem a coragem de se olhar nos olhos e dizer: vamos tentar de novo?!
Porque amar não é acertar o tempo todo, mas não desistir mesmo depois dos erros. Ser casal é aprender a ser abrigo um do outro, a perdoar-se mesmo quando dói, a abraçarem-se quando o orgulho fala mais alto.
O casal que dura e perdura não é aquele que vive só de sorrisos e beijos apaixonados, mas aquele que constrói um lar no meio do caos, que transforma mágoas em lições, e que entende que o perdão é a ponte, não peso.
Amar de verdade é ter a coragem de recomeçar mil vezes se for necessário, é entender que todas as relações são feitas de fases, e só quem insiste, colhe os frutos mais doces.
Porque no fim o segredo não está na ausência de problemas, mas na presença de escolhas. Escolher ficar, ouvir, crescer. Sabes, o casal que mais perdoa é o casal que mais amadurece. E quando o amor é forte o suficiente para superar as feridas, esse amor torna-se inquebrável.
Bodas de ouro não se trata de tempo nem sobre cinquenta anos de perfeição, mas sobre cinquenta anos de compromisso com o amor, com o respeito e com a decisão de não abrir mão um do outro. E sabes… isso é lindo… não abrir mão um do outro.
Pe Ricardo Esteves.
* Casados há 50 anos

Um dom precioso

A vida é, tantas vezes, um caminho irregular onde alternamos entre quedas e recomeços, fé e cansaço. No íntimo de cada um persiste uma esperança silenciosa: o desejo de que algo bom nos surpreenda, que um gesto discreto do universo alivie o peso das inquietações e devolva ao coração um pouco de paz.
Com o tempo – esse viajante que nunca espera por ninguém – percebemos que cada pessoa carrega a sua própria sorte, moldando o passo, o rumo e o ritmo da caminhada. A vida desafia-nos a crescer em resiliência, ensinando que a verdadeira maturidade não nasce da ausência de dificuldades, mas da coragem de as enfrentar de cabeça erguida.
Há momentos em que tudo o que precisamos é de uma pausa: um intervalo breve para respirar fundo, sossegar as dúvidas e reencontrar o equilíbrio no meio do tumulto quotidiano. É nesse espaço de silêncio interior que, tantas vezes, surgem as respostas mais sinceras para as nossas incertezas.
Perante as adversidades, é essencial não perdermos a sensibilidade para apreciar os pequenos detalhes. A harmonia plena raramente se revela nos grandes feitos; esconde-se, quase sempre, nas simplicidades do dia a dia – num sorriso, numa palavra gentil, no brilho de um entardecer ou na companhia silenciosa de quem nos quer bem.
São esses detalhes, cuidadosamente semeados por Deus ao longo dos nossos dias, que nos recordam que, apesar de tudo, a vida continua a ser um dom precioso, cheio de possibilidades.
E assim seguimos entre altos e baixos, aprendendo com cada experiência, renovando a esperança e cultivando a coragem de recomeçar sempre que necessário.
Porque, em última análise, é nos recomeços grandes ou pequenos que reside a verdadeira beleza da vida.
Tenham uma excelente terça-feira.
PS
Hoje a "frescura" da manhã já aconselhou a envergar um polarzinho mais aconchegante!

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Reflexão para início desta semana

O verdadeiro sentido da religião que qualquer um de nós professe, não se encontra nas palavras, mas nas atitudes. Podemos erguer discursos belíssimos, repetir fórmulas, defender convicções com fervor… mas é a forma como vivemos que revela, sem margem para dúvidas, o que guardamos no coração.
Vivemos tempos em que o mundo parece pedir – quase suplicar – mais empatia, mais respeito, mais amor. E, no entanto, falta tantas vezes a coragem de olhar o outro nos olhos e reconhecer que não somos uma ilha. Somos parte de um tecido maior, uma tapeçaria humana onde cada gesto nosso, inevitavelmente, toca alguém.
Cuidar de nós é essencial, claro. Mas quando o ego se torna trincheira, quando nos fechamos no pequeno território do “eu”, perdemos a capacidade de ser ponte, de ser presença, de ser diferença positiva na vida dos outros.
Muitas pessoas procuram nos templos – igrejas, mesquitas, sinagogas – um lugar de conforto espiritual, uma janela para o divino. Mas não é raro ver que, fora desses espaços, a compaixão desaparece como quem apaga uma vela ao sair. Há quem reze com devoção e, no entanto, trate mal quem encontra no caminho. Essa incoerência é talvez a maior ferida da fé: professar uma coisa, praticar outra.
E existe uma violência discreta, quase invisível, mas profundamente cruel: o silêncio perante o sofrimento alheio, o desprezo que humilha, a indiferença que fere mais do que qualquer palavra dura. Há bondades encenadas em público, gestos calculados para aliviar consciências, enquanto na intimidade reina o egoísmo.
De pouco serve rezar, pedir perdão, acender velas ou repetir rituais se, no dia seguinte, se volta ao mesmo comportamento que fere, que diminui, que contradiz tudo o que se proclama. A religião, assim, torna-se apenas um ritual vazio, uma liturgia sem alma. A verdadeira religião vive dentro de cada ser humano.
Não se apregoa. Não se discute. Pratica-se.
É feita de gestos pequenos, silenciosos e constantes. É o respeito que não precisa de plateia. É a bondade que não pede testemunhas. É a coerência entre o que se acredita e o que se faz.
No fundo, a fé só ganha sentido quando se transforma em humanidade.
Tenham, se puderem, uma excelente semana.

domingo, 18 de outubro de 2026

Às vezes a noite devolve-me o que perdi

Há noites em que sinto que o mundo me devolve coisas que eu pensava ter perdido. Não são objetos, são pedaços de mim. Fragmentos de vida que ficaram espalhados pelo caminho e que a noite, generosa, recolhe e me traz de volta.
Sento-me na sala, a luz baixa, o silêncio a crescer como uma árvore. E de repente, sem aviso, surge uma memória antiga. Não vem inteira, vem como um sopro. O cheiro da roupa lavada pela minha mãe. O som da porta da casa da infância a fechar devagar. O riso de alguém que já não está, mas que ainda vive em mim.
A noite tem este poder: não me devolve o passado, devolve-me a mim.
Devolve-me ao menino que corria descalço pela rua de terra batida. Ao jovem que acreditava que tudo era possível. Ao homem que aprendeu a amar com cuidado. Ao avô que sabe que o tempo é um breve momento que se deve tratar com ternura.
Há noites em que o corpo também fala. Fala de dores antigas que já não doem, mas lembram. Fala de alegrias que já não saltam, mas brilham. Fala de saudades que não ferem, mas aquecem.
E eu deixo que a noite faça o seu trabalho. Não a apresso. Não a interrompo. Não a temo. Porque sei que, quando ela me devolve o que perdi, não o faz para me prender, fá-lo para me completar.
E é nessa hora que percebo que não sou apenas o que vivi, sou também o que superei.

Coisas do campo

Hoje fui o cozinheiro e doceiro do almoço domingueiro para a família que encheu a mesa da sala de jantar. E a marida aproveitou "a folga" para ir retalhando azeitonas novas.

Coisas do campo à moda antiga. Estas azeitonas retalhadas, que no nosso dialecto marvanês se pronunciam "zêtonas arretalhadas" são sempre as primeiras a irem para a mesa.

Obrigado pai, por cá nos teres deixado esta bela oliveira de "zêtonas maçanicas" tão carnudas e saborosas. Beijinho, onde quer que estiveres e, já agora, dá um por mim à nossa Florinda e outro à nossa Adelina.

José Coelho

Bom Domingo


Oração de humildade e esperança
Senhor, que nunca me falte a humildade para reconhecer os meus erros, as minhas falhas, e a coragem de pedir perdão quando o coração assim o pedir. Dá-me a graça de agradecer por tudo o que tenho, porque mesmo não possuindo tudo o que desejo, tu sabes dar-me sempre o que preciso para caminhar.
Que os meus sonhos sejam grandes, mas que o meu coração nunca deixe de se alegrar com o pouco. Ensina-me a ver a beleza escondida na simplicidade, nos detalhes que passam despercebidos, nos pequenos milagres que a vida oferece todos os dias a quem sabe olhar com gratidão.
Que os meus olhos sejam de justiça, compaixão e empatia. Que os meus ouvidos saibam escolher o que edifica, o que consola, o que faz crescer. Livra-me das palavras vazias, das vozes que ferem, e dá-me sabedoria para ignorar o mal.
Abençoa, Senhor, a minha boca, para que dela saiam palavras que unem, acalmam e ajudam. Que eu saiba calar quando o silêncio for mais santo do que qualquer frase apressada.
Que a minha vida seja um caminho bonito de resiliência, superação, aprendizagem e evolução. Que a fé nunca me falte, para que a tua vontade seja sempre maior do que a minha. Que o amor nunca me falte, para que eu sobreviva num mundo onde tantas vezes falta ternura.
E que, acima de tudo, nunca me falte a esperança, essa luz que me diz, baixinho, que dias melhores já vêm a caminho.
Àmen.

José Coelho

A minha aldeia acorda devagar

O s amanheceres na Beirã parecem feitos de algodão. A luz não chega de repente, vai espreitando como quem pede licença. Primeiro, uma clarid...