Meu vicio da escrita...
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
sábado, 8 de agosto de 2026
Recomeços
sexta-feira, 7 de agosto de 2026
Memórias da minha aldeia
Uma promoção que o respeito concede
O declínio rural
Há um silêncio novo nas terras antigas. Não é o silêncio da madrugada, quando o orvalho ainda brilha nas espigas e o canto do galo anuncia o dia. É um silêncio mais fundo – o da ausência humana, o da enxada encostada à parede, o da eira sem risos.
O
campo, outrora coração pulsante do país, tornou-se um corpo cansado. As searas
que antes ondulavam como mares de ouro são agora pastos rasos, onde o gado
rumina o que resta da abundância. A seara já não é para o pão das casas; é para
o alimento dos animais. E os homens que sabiam ler o céu e prever a chuva foram
substituídos por relatórios, subsídios e burocracias que não conhecem o cheiro
da terra.
A
integração europeia trouxe progresso, dizem. Mas o progresso, por vezes, é uma
palavra que não sabe o caminho da aldeia. Trouxe estradas largas, mas levou os
caminhos estreitos onde se cruzavam vizinhos. Trouxe normas e cotas, mas levou
o instinto e a liberdade de plantar o que o coração mandava. Trouxe dinheiro,
mas levou alma.
Hoje,
os silos erguidos como pirâmides modernas estão vazios, quais monumentos à
abundância perdida. O pão vem de fora, o leite vem de fora, tudo vem de fora. E
o país que se alimentava de si próprio tornou-se um país que se alimenta de
lembranças.
Ainda
assim, há quem resista. Há quem continue a acordar cedo, a abrir as cancelas, a
cuidar das vacas e das oliveiras como quem cuida de uma fé antiga. Esses são os
guardiões do que resta, não de uma
economia, mas de uma identidade. Porque o campo não é só produção: é pertença,
é memória, é raiz.
E
talvez um dia, quando o ruído das cidades se cansar de si próprio, alguém volte
a ouvir este silêncio e perceba que nele ainda vive o país verdadeiro, o que
não se mede em euros nem em estatísticas, mas em gestos, em cheiros, em
saudade.
José Coelho
Tarde de conserva caseira
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
Prosa em forma de conto
Numa tarde já avançada deste verão, o calor descia sobre a Beirã como um lençol de luz. Não era agressivo; era um daqueles calores que sabem permanecer, encostados às paredes brancas, fazendo o tempo abrandar.
Saí
para o quintal sem pressa, apenas para ver como estavam os tomateiros, que não regara
na véspera porque a tarde estivera mais fresca. Mas acabei por ficar ali,
parado, a olhar para nada em particular.
O
silêncio, interrompido de vez em quando, pelo canto das aves no seu concerto habitual,
soava a música de fundo, como se alguém tivesse posto um disco antigo a tocar baixinho.
Encostei-me
à parede de pedra seca que separa a minha propriedade da Tapada da Rabela.
Senti as pedras mornas nos cotovelos e, por um instante, pareceu-me que a
própria parede respirava comigo. O silêncio não me cansava; embalava-me. E foi
nesse embalo que a memória começou a abrir gavetas.
Recordei
tardes antigas de quando era rapaz e o verão tinha outro cheiro: menos agreste,
porém mais livre. Vi a minha mãe a estender roupa, o meu pai a afiar
ferramentas, as minhas irmãs a correrem descalças pelo quintal. Tudo regressava
com uma nitidez suave, como se o calor soubesse restaurar fotografias gastas.
Mas,
nessa tarde, eu não queria viajar muito.
Queria
apenas estar.
E
estar, às vezes, é a melhor história que se vive.
Fiquei
ali, quieto, a sentir a tarde mover-se devagar. O vento não vinha, mas também
não fazia falta. A sombra bastava. A serenidade era tanta que até os
pensamentos se sentaram ao meu lado, sem fazer perguntas.
Foi
então que percebi que havia algo de sagrado naquele instante. Não era religião,
era presença. Não era misticismo, era paz.
A
serenidade chega quase sempre assim: sem anúncio, sem cerimónia. Chega quando o
dia me pede menos e eu aceito; quando o sol se demora e eu não me apresso;
quando o silêncio não pesa, apenas me acompanha.
E
nesse estado, tudo encontra a sua medida. O que parecia urgente deixa de o ser.
O barulho torna-se fundo. A preocupação afasta-se, incapaz de incomodar.
A
vida parecia estar a dizer-me:
“Hoje
não precisas de ser forte. Basta seres tu.”
Fiquei
ali enquanto o sol descia, a luz mudava de tom e a tarde se transformava na
promessa de uma noite tranquila.
Quando
finalmente entrei em casa, trazia comigo uma leveza rara, daquelas que não se compram,
não se pedem nem se forçam.
Apenas
acontecem.
José Coelho






