Quando escrevo, não estou a inventar nada. Estou apenas a seguir o rasto das minhas pegadas, aquelas que o tempo não conseguiu apagar. As minhas memórias não são ficções: são caminhos.
E cada vez que me sento a escrever, volto a percorrê-los como quem regressa a casa depois de uma longa viagem.
Vejo-me menino, chapéu na cabeça, um feto na mão, a tentar ficar sério para a fotografia. E vejo, ao meu lado, a Maria Manuela – tão pequena, tão atenta – a copiar-me o gesto, ao ir apanhar também um feto para ficar igual a mim na foto.
Na altura não percebi, mas hoje sei: há destinos que começam cedo, assim, num simples reflexo, num gesto repetido, numa vontade de partilhar o mesmo mundo.
Ali, naquela pedra, naquela tarde, já estávamos alinhados sem o sabermos.
E depois vêm as outras memórias, aquelas que me moldaram sem pedir licença. A voz da minha mãe, tão doce e tão firme, a ensinar-me que a bondade não se impõe, vive-se.
O meu pai, António Maria, a mostrar-me como se plantava um dente de alho, como se lia o vento, como se respeitava a terra.
A avó Amélia a rezar baixinho, como quem conversa com alguém que está mesmo ali ao lado.
As portas cá de casa fechadas só ao trinco, os passos dos contrabandistas na calada da noite, a aldeia inteira cúmplice, silenciosa, solidária.
E o quintal voltado para a Tapada da Rabela, onde o vento ainda hoje me chama pelo nome.
Nada disto é invenção. É o que ficou. É o que me acompanha.
Quando escrevo, não escrevo para me entristecer. Escrevo para agradecer.
A saudade que trago não pesa, ilumina-me. É uma saudade limpa, que me devolve o que fui e quem amei, que me lembra que vivi rodeado de gente boa, de gestos simples, de uma verdade que não se aprende nos livros.
Partilho estas memórias porque sei que quando as entrego, elas não se perdem, transformam-se. Tornam-se palavra, tornam-se história, tornam-se companhia.
E quando a minha mão lhes toca, não lhes muda a alma: apenas lhes dá a forma que eu próprio não sabia que era capaz de encontrar.
As minhas memórias são o meu país interior. E cada texto que escrevo é uma porta que se abre devagar, uma casa antiga onde ainda se ouvem passos, vozes, risos, rezas, despedidas e começos.
Escrever, para mim, é isto: seguir o caminho de volta ao menino de chapéu que segurava um feto na mão e reconhecer nele o homem que sou.
Nota:
Na foto estão a Maria Coelho e o José Coelho, entre os gaiatos.



