segunda-feira, 27 de abril de 2026

Direitos iguais


Não gostares da minha cara é um direito que te assiste, exatamente igual ao que me assiste a mim de me estar nas tintas para tudo o que tu gostas...

26. 04. 2026

domingo, 26 de abril de 2026

A terra onde o silêncio aprendeu a falar


Cheguei a casa vindo da guerra a tempo dos Santos Populares. As fogueiras de rosmaninho acendiam-se à porta de cada família como pequenos altares de luz, e o ar enchia-se daquele cheiro perfumado e quente que só o verão alentejano sabe acender. Havia sardinhas, caldo verde, música de gira discos, cassetes gastas de tanto rodarem. E havia, sobretudo, a sensação de que o mundo, por fim, voltava a caber-me no peito.
A Beirã desse tempo era um corpo vivo. Pulsava.
Havia jovens por todo o lado – da minha idade e de outras – e a aldeia parecia sempre prestes a começar uma festa. Aos serões, juntávamo-nos no Clube, na Sociedade Recreativa, no Largo da Fonte, à porta da Loja Grande. Havia violas, havia vozes, havia quem cantasse bem e gargalhadas que se ouviam ao longe. Era um tempo em que a amizade não precisava de ser explicada: vivia-se.
Quase ninguém tinha televisão em casa. Os programas importantes eram vistos nas salas públicas, onde o brilho do ecrã iluminava rostos atentos e aproximava ainda mais quem já vivia perto. A comunidade era isso: proximidade, partilha, pertença.
Abril veio com esperança, é certo, mas também com ruído. E, devagar, quase sem darmos por isso, o partidarismo começou a dividir o que antes era uno. Amigos de infância passaram a olhar-se de lado, como se a política tivesse o poder de reescrever memórias. Foi o primeiro sinal de que a terra começava a mudar – e não necessariamente para melhor.
Foi como um dominó empurrado por mãos distantes.
Primeiro, as famílias ligadas à PIDE partiram – umas fugidas, outras levadas – deixando para trás as primeiras casas vazias. Depois, com a entrada de Portugal na União Europeia fechou a alfândega, a circulação ferroviária rareou e dois terços dos funcionários da CP foram enviados para longe. Os despachantes oficiais perderam o ofício. A Guarda Fiscal foi extinta. E cada saída deixava mais uma porta fechada, mais uma janela às escuras, mais um silêncio.
Quem não era de cá regressou às suas origens. Quem era, ficou a ver a aldeia esvaziar-se rua a rua.
Ainda assim, alguns – como eu – resistimos. Ficámos. Lutámos.
Mas a machadada final caiu em agosto de 2012, quando, nos gabinetes lisboetas onde raramente se pronuncia o nome da Beirã, se decidiu desativar o Ramal de Cáceres. A partir desse dia, a solidão deixou de ser circunstância: tornou-se destino.
Assim chegámos a abril de 2026, neste país que se esqueceu de si próprio
Hoje, quando caminho pelas ruas onde um dia corri descalço, vejo mais portas fechadas do que vozes. O distrito de Portalegre tem 11 habitantes por quilómetro quadrado – um número que não é estatística, é epitáfio. É o retrato de um país que se habituou a governar apenas onde há votos, luzes, câmaras e pressa.
A Beirã (ainda) não morreu. Mas vive ferida.
As casas vazias são como páginas arrancadas de um livro que ainda não acabou. As ruas guardam passos que já não se ouvem. E, no entanto, há uma chama que insiste em não se apagar: a dos que ficamos.
Os que cuidam. Os que persistem. Os que se recusam a deixar que a terra seja apenas memória.
A aldeia da minha juventude já não existe. Mas existe esta – a que sobreviveu ao abandono, à distância, à indiferença. E enquanto houver alguém que conte a história, a terra não desaparecerá.
Por isso continuo aqui. A ver, a lembrar, a escrever. Porque alguém tem de dizer, com todas as letras, que o interior não morreu: foi deixado para morrer.
Porém, enquanto a minha força anímica o permitir, nunca aceitarei esse destino para a minha Beirã, nem desistirei de atestar, dia após dia, que continua aqui. Frágil, mas viva.
Texto e foto

sábado, 25 de abril de 2026

Cinquenta e dois anos de democracia

O tempo não volta. Digo-o como quem fala de um velho inimigo que conhece demasiado bem. O tempo avança, impiedoso e corre hoje como um cavalo desgovernado, quando outrora caminhava ao meu lado, manso, quase preguiçoso. Houve um tempo – o meu tempo de moço – em que os dias eram vastos como planícies e as semanas tinham o dobro dos passos. Os meses, esses, pareciam eras inteiras. Nunca mais era sábado para o baile, nunca mais era domingo para namorar. O tempo demorava-se connosco, como se tivesse pena de nos deixar crescer.
Do Natal à Páscoa estendia-se um deserto de meses frios. Os Invernos eram muralhas de seis meses, de chuva e vento que mordiam. Os Verões, breves como um suspiro, cabiam em três meses de luz. E entre eles havia Abril, Maio e Setembro, meses de fronteira, onde o mundo parecia suspenso entre duas estações. Nessa altura, todos sabiam ler o céu. Era o nosso calendário, o nosso relógio, a nossa bússola.
Eu, pequeno ainda, seguia a estrela boieira como quem segue um destino. Muitas vezes a aurora apanhava-me pela mão – a mim e à minha mãe – no caminho para as tapadas. Ela sachava milho e feijão de sol a sol e eu aprendia a ler o mundo no silêncio da madrugada. O céu era um livro aberto: o vermelho do poente anunciava calor ou frio, conforme a estação; a lua, com os seus quartos, ditava sementeiras, colheitas, sortes e azares. E quando a lua cheia surgia no inverno, os lobisomens uivavam com o vento, e ninguém duvidava disso.
O tempo… ah, o tempo. Às vezes olho à minha volta e pergunto-me se este é o mesmo mundo onde nasci.
Havia vida em cada casa, em cada sócha, em cada curva do caminho. Da Beirã ao Cabeço de Seixo, da Atalaia às Amendoeiras, havia vozes, passos, gado, hortas, searas, pomares. Havia gente. Havia futuro. Bastaram cinquenta anos para que tudo fosse varrido como por um vento ruim que não trouxe chuva, nem frescura, nem esperança.
Trouxe apenas silêncio.
Chamam-lhe progresso. Nome bonito, nome cheio, nome enganador.
Mas que progresso é este que seca terras inteiras, que arranca as pessoas às raízes, que transforma aldeias vivas em lugares onde só o eco responde? Que progresso é este que fecha lojas, oficinas, cafés, que mata linhas de comboio, que decide destinos em gabinetes onde nunca entrou o cheiro da terra molhada? Que progresso é este que nos cobra tudo e devolve tão pouco?
E nós, teimosos e pacientes, refilamos… mas continuamos a entregar-lhes o poder, de quatro em quatro anos, como quem entrega a chave da própria casa a estranhos.
Cinquenta e dois anos de democracia e metade do país está vazio. O meu distrito de Portalegre – onde nasci, cresci, trabalhei e vivo – tornou-se um reino de silêncio, envelhecido, esquecido, abandonado.
O tempo não volta. Mas repete-se.
No tempo da outra senhora falava-se dos três efes: Fátima, Futebol e Festas. No tempo da senhora atual, pouco mudou. As multidões continuam a caminhar para a Cova da Iria, o futebol continua a incendiar paixões, e as festas – romarias, feiras, campanhas – continuam a ser o grande palco onde o povo esquece, por instantes, o que perdeu.
Eu também vou a Fátima. Ao futebol já menos, às festas quase nada. Mas há algo que nunca deixei de praticar: os valores que me ensinaram os meus pais e avós, e que ensino agora às minhas netas. O respeito. A dignidade. A honestidade. A honradez. E, acima de tudo, a integridade de carácter – essa armadura invisível que protege quem a usa.
A minha gente dizia-o melhor do que qualquer livro:
Pode uma pessoa não ter mais nada na vida, mas há uma coisa que nunca pode perder: – a vergonha na (puta da) cara.
Hoje, essa vergonha falta a muitos – e dói mais quando falta a quem devia dar o exemplo. Por isso, mesmo com todas as dificuldades de outrora, revejo-me mais no tempo em que fui moço do que neste, cheio de facilidades, mas vazio de alma.
Disse.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Decididamente, liberdade não significa felicidade


Este já não é o meu velho e querido país. Um país onde a alegria brotava espontânea, onde cada província guardava um modo próprio de viver, tão singular como as suas tradições, os seus sotaques, os seus rituais. Hoje, essa alegria rareia. Foi sendo substituída por rostos fechados, marcados por preocupações que se acumulam como nuvens pesadas sobre um céu que já não promete bonança.
A precariedade mascarada de modernidade, os salários que mal chegam ao fim do mês, o custo de vida que sobe como maré brava, as guerras e esta incerteza que se entranha nos ossos – e nos corrói como um cancro silencioso que não escolhe vítimas, nem oferece cura.
Nunca aceitarei – nem compreenderei – que se condenem à miséria aqueles que trabalharam uma vida inteira. Como se, ao reformarem-se, passassem a comer metade, a pagar metade, a viver metade. Como se a dignidade pudesse ser reduzida a números numa folha de cálculo.
E enquanto quarenta anos de descontos valem tão pouco, na política bastam doze anos de gritos e insultos para garantir privilégios que o comum mortal nem ousa imaginar. Será que, ao reformarem se, os políticos passam a comer em dobro? A pagar tudo em dobro? Ou será apenas o país que paga por eles?
Nunca entendi os cortes na saúde feitos em nome de uma poupança que nunca chega a quem precisa. Milhares de milhões foram despejados na banca, mas nos hospitais poupa-se em tudo: no tempo, nos cuidados, na vida. E eu sei isto não por ouvir dizer, mas porque o vivi.
A minha mãe agonizava há horas, presa a convulsões que rasgavam o corpo como relâmpagos. Mais tarde soubemos: era sepsis – essa sentença que, em noventa por cento dos casos, não perdoa. Mas a doutora de serviço, com a frieza de quem cumpre ordens e não vê pessoas, decidiu dar-lhe alta. “Quadro normal para a idade”, disse, como se a idade fosse desculpa para desistir de alguém.
Foi então que me rebentei por dentro e lhe gritei, já sem filtro, já sem medo:
– Se a minha mãe fosse a sua, também a mandaria para casa neste estado?
Ainda hoje sei – e dói – que aquelas ordens vinham de cima. A contenção de despesas não tem rosto, não tem mãe, não tem compaixão. E a minha mãe, com os seus 87 anos, estava a ser empurrada para morrer longe, para não pesar no orçamento, para não gastar uma injeção, um frasco de soro, um minuto de atenção.
Porém naquele dia, naquele instante, a minha revolta abriu uma brecha no sistema. A doutora, perplexa, mandou-me sair sem assinar a alta. Vinte minutos depois, um enfermeiro aproximou-se com um saco de roupa na mão e disse:
– A sua mãe fica internada. Está na cama 1 do SO.
Dias depois, transferiram-na para outro hospital, cem quilómetros mais longe. Não sei se por necessidade ou por retaliação. Mas sei que, ali, recebeu os cuidados que lhe eram devidos. E nós, mesmo naquela distância, fomos vê-la todos os dias, porque o amor não conhece geografia.
Sinto vergonha de viver num país que gera gente capaz destas e de tantas outras indignidades, sempre em nome de um “bem comum” que nunca chega ao comum. Porque não cortam nas suas mordomias? Porque não apertam o cinto onde sobra? Porque vivem no conforto absoluto aqueles que decidem o desconforto dos outros?
Quem já viu um ministro, um deputado, um secretário de Estado, um CEO, um administrador – ou qualquer dos seus satélites – numa fila das Urgências durante sete horas, com uma pulseira de plástico no pulso, como se fosse um objeto etiquetado para arquivo?
Decididamente – em minha opinião, claro – liberdade não significa – de todo – felicidade. Este país onde hoje estou a envelhecer é uma sombra daquele país de gente humilde mas com valores e princípios, que me criou e ensinou com o seu exemplo.
De onde colhemos hoje esses exemplos, valores e princípios?
Basta assistirmos a um debate semanal da Assembleia da República ou estarmos atentos aos Órgãos de Comunicação Social para ficarmos completamente elucidados.
Muitas dessas barbaridades que, em nome da liberdade, ouvimos e vemos em direto ou em diferido, não lembram nem … ao diabo.

As voltas que a vida dá


Símbolo do 25 de abril de 1974 na Estação Ferroviária da Beirã

Aposto que o ferroviário que plantou este craveiro mesmo em frente ao painel de azulejos pintado por Jorge Colaço a representar a Torre de Belém, não imaginava que ia perder o seu posto de trabalho nesta Estação.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Um silêncio que se instala (também) dentro de nós


Somos cada vez menos. Nas casas, nas ruas, na missa dominical que passou para os sábados, e nos poucos eventos que ainda se vão organizando. A população encolhe a olhos vistos e cada porta fechada é mais um capítulo que termina sem aviso.
Há, porém, duas exceções que resistem ao silêncio: a tradicional matança do porco em março, que ainda junta algumas centenas de pessoas num dia inteiro de convívio; e a festa da Padroeira em julho, que continua a trazer de volta alguns Beiranenses para renovarem a devoção à Senhora do Carmo e matarem saudades da terra que os viu nascer.
Mas são regressos breves, quase visitas de médico, como quem vem confirmar que a raiz ainda existe, mesmo que a árvore esteja a definhar.
Não vale a pena fingir surpresa. Nada parece capaz de travar esta sangria de gente que partiu para os grandes centros urbanos em busca de trabalho e de futuro. Ao contrário do que canta o velho Cante Alentejano, não houve esperança na partida, apenas necessidade.
E quem partiu, raramente voltou.
Desde então, um silêncio estranho tomou conta das ruas, sobretudo da parte mais antiga da aldeia. A qualquer hora do dia ou da noite, é possível percorrê-las sem cruzar viva alma. A ausência tornou-se rotina.
Na missa vespertina de sábado, o que mais impressiona é o vazio. No inverno, compreende se: população idosa, noite cerrada às seis da tarde, ruas desertas, igreja fria e impossível de aquecer. Mas mesmo no verão, os bancos continuam a ser mais do que as pessoas.
É um prenúncio do que se foi e não voltará.
Confesso que me invade uma melancolia difícil de disfarçar. Dediquei noventa por cento da minha vida a esta aldeia, às suas gentes e aos seus costumes. Lutei, à minha maneira, para que não se perdessem memórias, raízes e tradições – a herança mais valiosa que recebemos dos nossos antepassados.
Nunca pedi nada em troca. Nunca aceitei favores, tachos ou benefícios para mim ou para os meus. Pelo contrário: recusei-os, por princípios que muito prezo e dos quais não abdicarei nunca.
De tudo isso tenho provas, preto no branco.
Houve quem, tendo recebido a minha ajuda, me deixasse sozinho quando eu precisei da sua, porque era mais fácil virar a cara. Houve até quem me difamasse pelas costas. Mas continuo aqui, como sempre, de cara levantada e consciência tranquila.
Ainda assim, dou por mim a sentir que o silêncio das casas, das ruas e da igreja começa a instalar-se também dentro de mim. Talvez porque estou a envelhecer. Talvez porque os moinhos de vento contra os quais sempre lutei parecem cada vez mais invencíveis.
Não sei.
Mas sei que, enquanto puder, continuarei a resistir. Porque esta terra é o meu berço, a minha paixão e a minha vida. E mesmo quando tudo parece perdido, há lugares que não se abandonam – ficam dentro de nós, mesmo quando já quase ninguém fica neles.

Há quem lhe chame dor de corno


A inveja mais não é do que um sinal de insegurança e de baixa autoestima de quem a sente, pois quem vive satisfeito com a vida que tem não se preocupa com aquilo que os outros têm ou fazem.

Foto José Coelho com Maria Coelho
Cidade e Lago de Como - Itália