quinta-feira, 7 de maio de 2026

Terra amada


A minha terra não é apenas um lugar - é um território de pedra e memória, moldado pelo vento e pela vontade dos homens.

No coração do Alto Alentejo montanhoso, Marvão ergue-se no cimo do rochedo como uma fortaleza destinada aos deuses, coroada pela sua Vila e pela Muralha que desafiam séculos e tempestades.
Pelas suas encostas, os soutos de castanheiros centenários estendem-se como um exército silencioso, frondoso, guardando a serra com a dignidade dos que viram passar gerações.
Das fontes brotam águas frescas e abundantes, como se a própria terra respirasse pureza. E nos vales que o sol de maio desperta, os centeios douram devagar, iluminando a paisagem como um manto de ouro antigo.
Aqui, na aldeia de Beirã, cada pedra conhece o nome do tempo. E eu, que a fotografo, apenas testemunho a grandeza que sempre esteve aqui: firme, eterna, indomável.
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Silenciosa fatura

Há um tempo da vida em que caminhamos como se o corpo fosse eterno. A juventude dá-nos esta ilusão luminosa: a de que nada nos toca de verdade. Uma dor passa com um analgésico, uma febre cede a um anti-inflamatório, uma noite mal dormida resolve-se com um café forte. Acreditamos que o corpo é uma ferramenta inesgotável, sempre pronta, sempre fiel.
Só mais tarde percebemos que não era força – era ignorância. E que a ignorância, quando é jovem, parece coragem.
Eu próprio vivi assim. Aos dezassete anos, com a farda às costas e o mundo pela frente, acreditava que o corpo aguentava tudo: o peso da guerra, o calor das matas, a fome, o medo, a exaustão. Marchava quilómetros como se o amanhã fosse garantido. Dormia pouco, comia mal, e achava que resistir era o mesmo que ser invencível.
Mas o corpo não é infinito. O corpo é memória. E a memória, quando não é cuidada, transforma-se numa silenciosa fatura.
Guarda as noites mal dormidas, o stress acumulado, as quedas que não tratámos, as dores que ignorámos, os sustos que fingimos não sentir. Guarda até aquilo que nunca contamos a ninguém. E um dia, sem aviso, devolve-nos tudo – não por castigo, mas por verdade. O corpo é o único lugar onde não há mentira possível.
O meu momento chegou numa sala branca, com cheiro a desinfetante e relógios que não faziam barulho. O médico, ao ver os resultados do exame que me mandara fazer, olhou-me com aquela calma que só os médicos têm quando sabem que as palavras vão pesar.
E disse apenas: “Temos de agir já.”
Não gritou. Não dramatizou. Não explicou demais. Mas naquele instante, tudo dentro de mim se reorganizou. Foi como se o corpo, silencioso durante décadas, finalmente tivesse encontrado alguém que falasse a sua língua. E eu percebi – tarde, mas ainda a tempo – que a vida pode assim mudar, num sopro.
Com o tempo aprendemos que saúde não é ausência de doença. Saúde é acordar sem dores. É respirar fundo sem limitações. É subir escadas sem negociar com o ar. É dormir em paz. É ter energia para viver e não apenas para cumprir o dia.
A partir daquele dia cada exame, cada vigilância, cada espera nos corredores deixou de ser rotina e passou a ser consciência. O corpo que eu tratara como máquina, revelou-se mestre. E eu que me julgava resistente, percebi que a verdadeira força está em ouvi-lo.
Passamos metade da vida a correr atrás de dinheiro para um dia termos qualidade de vida e, pelo caminho, gastamos precisamente aquilo que mais precisamos para a viver: a saúde e a tranquilidade. É uma ironia cruel sacrificarmos o corpo para conquistar o que, mais tarde, não teremos: o corpo para aproveitar a vida.
Talvez crescer seja isso: entender que o verdadeiro luxo não está no que se compra, mas no que se sente. Está em viver um dia normal sem dor. Está em ter paz dentro da cabeça. Está em olhar para quem amamos e ainda ter tempo, força e saúde para os abraçar.
Porque no fim, quando a saúde falha, tudo o resto perde o brilho. O urgente desaba. O supérfluo evapora. E fica apenas o essencial: o corpo a pedir que o tratemos como aquilo que ele é: o único lugar onde vamos viver até ao fim.
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Só quem semeia, colhe – na horta e na vida


Adoro mexer na terra com as mãos, sentir o seu odor e observar as sementes a brotar e a transformarem-se em robustas plantas. Entretenho-me tardes e dias inteiros pelo quintal, quase sem dar pelo correr das horas. Não há nada mais saudável, pacífico e relaxante. O contacto direto com a natureza proporciona uma paz inigualável, algo que não se encontra facilmente nos ambientes urbanos ou na azáfama do quotidiano moderno.

Um grande e douto amigo, proprietário de uma quinta nas redondezas, afirma com convicção: “um dia na quinta é mais tranquilizante do que uma ida ao psicólogo”. Concordo plenamente. A serenidade que emana da natureza é, sem dúvida, mais benéfica que muitos medicamentos, proporcionando um equilíbrio profundo entre corpo e mente.
Como escreveu uma autora que frequentemente leio, “nasci em tempos rudes” e “aprendi a viver nesses tempos”. A dureza do passado forjou o meu carácter. As pessoas eram rudes pelo trato exigido pelas dificuldades da vida, mas essa rudeza nada tinha de maldosa. Pelo contrário, eram de uma pureza de princípios e de carácter que hoje quase se desconhece. Sinto uma saudade inexplicável desses tempos e das pessoas que os habitaram, uma nostalgia que cresce com o passar dos anos.
A minha pequena horta abastece a casa de verduras durante todo o inverno. Mas, além da colheita, é o uso das alfaias agrícolas herdadas do meu pai – enxadas, sachos, forquilhas, ancinhos, rodos, pás, picaretas – que me transporta até ele. Imito-lhe o modo de fazer, a precisão de cada rego, a atenção ao detalhe, o carinho com que cuidava das pessoas, dos animais e das plantas. Esse esmero, essa dedicação quase ingénua, tornavam-no respeitado e estimado.
Recordo-o com tamanha nitidez que, por vezes, parece-me sentir no quintal o odor do tabaco de onça e mortalha que o acompanhavam sempre. O seu hábito de fumar era peculiar, nunca aspirava o fumo, apenas o saboreava entre os lábios. Viveu assim serenamente até aos 83 anos, quando um tumor na próstata o venceu. A presença dele na minha saudade é tão forte que se torna quase física.
Três quartos do meu ADN pertencem-lhe – até o meu rosto atualmente é uma réplica do dele – por isso só um quarto será da minha mãe. Ainda assim fui abençoado desde o nascimento até à sua partida pelo amor profundo e incondicional que ela sempre me dedicou. Nunca me senti pobre ou carente, apesar de o dinheiro ser sempre contado, por vezes até esticado. Mas de afetos, educação, respeito e honestidade, sempre fomos milionários nesta família.
Procurei, desde cedo, imitar os exemplos desses meus dois grandes mestres. Porque acredito que ele ensina mais do que muitas palavras. Sinto-me bem-sucedido, porque os meus filhos, na sua honrada vida, são o meu orgulho, nem me incomoda nada que nenhum deles não tenha querido aprender a cavar ou a plantar a terra, como o pai aprendeu com o avô.
Cada geração tem as suas particularidades e nenhuma é melhor ou pior que a anterior, tal como as vindouras também não o serão em relação à atual.
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Mas existe uma verdade que permanece, venha o tempo que vier: quem quiser colher terá de saber semear, na horta, ou na vida. Esta máxima ecoa tanto nos campos como no coração, sendo um legado valioso que atravessa gerações.
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quarta-feira, 6 de maio de 2026

A farda que me escolheu


Tinha acabado de completar os dezassete anos quando decidi entregar-me ao destino que tantos evitavam. Não foi por bravura, nem por rebeldia, nem por falta de alternativas. Foi por convicção. Em 1969 apresentei-me voluntário para o serviço militar, ainda com a juventude a latejar no peito e a sensação ingénua de que o mundo se podia olhar de frente, sem hesitações.
A guerra esperava-me. E eu fui.
Em Angola aprendi depressa que a vida é frágil e que a camaradagem é a única âncora quando tudo o resto falha. A farda, que no início era apenas uniforme, tornou-se pele. Tornou-se identidade. Tornou-se destino.
Regressei em junho de 1974, carregado de memórias que não pedi e de uma maturidade que não tinha idade para ter. Mas o país que encontrei estava em convulsão. O 25 de Abril tinha mudado o regime, mas não mudara a dificuldade de quem procurava trabalho. Bati a muitas portas. Nenhuma se abriu.
Sem alternativas, deixei a minha terra e fui trabalhar para as Minas da Panasqueira. Ali, no subsolo, percebi que a terra pode ser tão implacável como a guerra. O perigo era diário, constante, silencioso. Mas era trabalho. Era sustento. Era o que havia.
A minha esposa, porém, via mais longe do que eu. Via o risco, via o desgaste, via o futuro que aquele trabalho não me podia dar. Foi por insistência dela – e talvez por um instinto que eu próprio não queria admitir – que decidi mudar de rumo.
Em janeiro de 1979 ingressei na Guarda Nacional Republicana. E foi como um regressar a casa depois de anos a vaguear.
Na GNR reencontrei aquilo que julgava ter deixado para trás: disciplina, camaradagem, propósito. Comecei como Soldado, com a humildade de quem sabe que nada se constrói sem base sólida. Quatro anos depois, concluí o Curso de Cabos. E logo a seguir, enfrentei as provas do 6.º Curso de Formação de Sargentos – escritas, físicas, psicotécnicas. Passei. E passei bem.
Foram mais dois anos de estudo intenso, noites mal dormidas e uma vontade inabalável de crescer. Quando fui graduado em Furriel, senti que estava a honrar não só a instituição, mas também o rapaz de 17 anos que um dia se ofereceu voluntário para servir o seu país.
Como Segundo e depois Primeiro-sargento comandei homens de valor em Nisa e em Castelo de Vide. Homens que ainda hoje estimo – e me estimam. Mais tarde, em Mafra e Queluz, aprofundei a formação que me levaria a Sargento-Ajudante cuja promoção me colocou em Portalegre, na Escola Prática da Guarda.
Ali desempenhei funções que me marcaram profundamente: chefiei durante oito anos a Secretaria da CCS, e nos últimos dois a Secretaria Geral da Unidade, acumulando sempre com as funções de Instrutor a formar instruendos nas disciplinas que moldam um militar – Armamento, Leis e Regulamentos Militares, Legislação Policial.
Ensinar é uma forma de continuar a servir. E eu servi com tudo o que tinha, desde a recruta no BC8, em Elvas em maio de 1971, até ao dia em que passei à reforma em novembro de 2003 no Centro de Formação de Portalegre, vivi dentro da instituição militar.
Recebi cinco louvores – de Major-general a Capitão – e três medalhas: a das Campanhas em Angola, a de Comportamento Exemplar grau prata e a de Mérito da Segurança Pública duas estrelas. Nada disso me foi dado. Tudo foi conquistado.
Por isso me custa admitir que ex-militares insultem, difamem e rebaixem camaradas. Quem assim procede não compreendeu nada do que é ser militar. A farda exige valores. E quem não os tem, não é digno de a vestir.
Como disse o General Octávio Costa:
“A farda não é uma veste que se despe com facilidade ou até com indiferença, mas uma segunda pele que adere à própria alma, irreversivelmente e para sempre.”
Não me considero mais do que ninguém. Mas também não me envergonho de nada do que fiz. O meu percurso foi duro, foi longo, foi honrado. Servi o meu país no Exército e na GNR com a única intenção que sempre me guiou:
BEM SERVIR.
E se hoje escrevo estas linhas é porque a minha história não é apenas minha. É a história de todos os que sabem que a farda não se veste – honra-se.
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Valores que o tempo nunca deveria apagar

Vivemos numa época de transformações profundas, em que muitos dos valores que sustentaram famílias e comunidades durante gerações parecem perder terreno perante novos hábitos, prioridades e modos de viver. Para quem cresceu ancorado em princípios sólidos, esta mudança traz um sentimento de estranheza — quase de desalinhamento — sobretudo quando a experiência de vida é recebida com correções ou críticas vindas das gerações mais novas.

Durante décadas, ensinamentos como humildade, simplicidade, sabedoria, honestidade, generosidade, educação, disciplina, respeito e fraternidade foram transmitidos como um legado natural. Hoje, porém, muitos destes valores são vistos como ultrapassados, como se o mundo moderno tivesse decretado que a integridade é coisa de outros tempos. O que antes era motivo de orgulho tornou-se, por vezes, alvo de reparo, como se a vivência e o bom-senso tivessem perdido validade.

Este fenómeno pesa sobretudo sobre quem sempre procurou viver e transmitir esses princípios, e que agora sente a dor de ser corrigido com o argumento de que “hoje já nada é assim”. Mas a convicção permanece: não é errado viver segundo aquilo que nos ensinaram; errado seria abdicar da honestidade e do caráter só porque o mundo anda apressado.

Há cinquenta anos, a vida era dura e a abundância escassa. Hoje, há quase tudo em excesso — menos aquilo que realmente importa: amor ao próximo, amizade verdadeira, honestidade, generosidade, educação, disciplina, respeito, delicadeza, sinceridade, humildade e fraternidade. Estes valores, cada vez mais raros, continuam a ser os únicos capazes de construir uma sociedade justa, solidária e verdadeiramente humana.

A falta deles é visível sobretudo nas esferas de poder, onde o exemplo deveria ser regra. Em vez disso, multiplicam-se casos de corrupção, compadrio e ganância, que acabam por contaminar o olhar da sociedade. Mesmo no seio das famílias, das amizades ou do trabalho, apesar de ainda existirem pessoas de bons princípios, cresce o individualismo, a inveja e a competição desmedida. O sucesso alheio, tantas vezes fruto de esforço e sacrifício, desperta ressentimento em vez de admiração.

Para quem sempre viveu com honestidade, superando dificuldades sem atalhos, é difícil aceitar que a integridade seja desvalorizada em favor do imediatismo ou da sorte. Mas é precisamente essa capacidade de transformar adversidades em força que deve ser motivo de orgulho. Dizer a verdade, olhar nos olhos, recusar a hipocrisia e manter coerência entre palavras e ações são ensinamentos que não envelhecem.

Manter vivos esses valores, pode parecer, aos olhos de alguns, estar “fora de moda”. Mas num tempo marcado por instabilidade, violência, corrupção e degradação das instituições, importa reafirmar que a honestidade, a idoneidade e o respeito continuam a ser pilares essenciais. São eles que podem restaurar a confiança, a harmonia e a dignidade social.

Não devemos abdicar dos princípios que recebemos das gerações anteriores. O tempo muda costumes e mentalidades, mas não muda a essência do caráter. Que saibamos resistir à superficialidade e ao imediatismo, mantendo acesa a chama da bondade, da verdade e do respeito mútuo — por nós e por quem virá depois.

José Coelho

terça-feira, 5 de maio de 2026

O Amor constrói-se todos os dias porque amar não é um instante – é uma escolha contínua.

Há quem pense que o amor vive apenas do brilho do começo e da euforia dos primeiros dias. Mas a verdade é outra: o amor que dura é feito de pequenos gestos, de conversas que evitam silêncios frios, de reencontros depois de dias difíceis. É um caminho que se constrói passo a passo, mesmo quando o terreno é irregular.
Viver uma vida inteira ao lado de alguém nunca foi, nem nunca será, um caminho reto. Não é uma estrada asfaltada, previsível, com placas a indicar cada curva. É mais parecido com um trilho entre árvores: às vezes iluminado por frestas de sol, outras vezes coberto por sombras densas. Há raízes que nos fazem tropeçar, pedras que nos obrigam a abrandar e clareiras que nos devolvem o fôlego.
E, ainda assim, seguimos. Juntos ou aos tropeções, mas seguimos.
Há dias em que os passos se alinham naturalmente, como se os dois tivessem sido feitos para caminhar no mesmo ritmo. E há dias em que um caminha apenas para ir atrás do outro. É isso que quase ninguém diz: o amor não é sempre simétrico. Há momentos em que um carrega mais, outro menos. E está tudo bem, desde que ambos continuem a escolher o mesmo percurso.
O amor não vive eternamente das ilusões do início. Elas são belas, intensas, mas também frágeis. Com o tempo, silenciam-se como um eco que se afasta, e no lugar delas nasce algo mais profundo: a vontade de ficar. A vontade de construir, de reparar, de recomeçar quantas vezes forem necessárias.
Não se assustem se já não sentem a vibração do começo. O coração, quando aprende o ritmo do outro, fala noutra língua. Uma língua feita de gestos pequenos, quase invisíveis: um café sem ter sido pedido, uma mão que procura a outra no escuro, uma manta ajeitada sobre os ombros num dia frio. São detalhes que vistos de fora parecem nada, mas quem ama sabe que ali mora tudo.
Partilhar a vida também é saber conter o ímpeto. Nem toda a irritação precisa de voz. Nem toda a diferença de opinião é uma provocação. Há discussões que aproximam, porque revelam cuidado e desacordos que não afastam, porque revelam respeito. O problema nunca são as diferenças, mas as armas que escolhemos usar para lidar com elas.
Os verdadeiros inimigos do amor são silenciosos: o apego que esfria, o orgulho que endurece, a indiferença que apaga. É nesse frio lento, quase impercetível que o amor começa a extinguir-se. Não num grito, mas num afastamento suave, quase educado, que um dia se torna abismo.
Envelhecer juntos não assusta. O que assusta é mudar o físico, perder o brilho, deixar de agradar. Assusta a ideia de que o outro já não nos veja com os mesmos olhos. Mas o amor não precisa de permanecer igual para continuar verdadeiro. Se continuarmos a conversar, a olhar-nos, a procurar-nos, o vínculo não morre – transforma-se. Fica mais íntimo, mais maduro, mais real.
Menos fogo de artifício, mas mais chama que aquece.
Haverá dias pesados. Dias em que o cansaço fala mais alto do que a ternura. Dias em que não há paciência, nem conversa, nem brilho. E está tudo bem. O amor não se mede pela perfeição, mas pela decisão de continuar. Pela coragem de permanecer juntos, mesmo quando o encanto adormece.
E se um dia sentirem distância, não deixem que ela cresça. A distância alimenta-se do silêncio. Dêem o primeiro passo: um gesto, um olhar, uma memória acesa. Às vezes basta isso para reencontrar o caminho.
Não é magia. É escolha. É ternura. É a história que se escreve a dois, com falhas, com tropeços, com dias cinzentos. E com o tempo…

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Para ti, companheira dos meus últimos 55 anos (Parte 2)

Nestes dias que passaram, percebi mais uma vez aquilo que a vida me tem mostrado desde que te conheci: caminhar contigo é a maior sorte que já tive. O susto foi grande, as horas foram longas, e o coração andou apertado, mas tu estiveste sempre ali, firme na tua coragem silenciosa e eu ao teu lado, como sempre estive e sempre estarei.
Quando te vi sair daquele procedimento, ainda meio adormecida mas já a regressar para mim, senti o mundo a voltar ao lugar. E agora, já em casa, com o teu corpo a recuperar e o teu olhar a reencontrar a calma, sinto que atravessámos mais uma prova juntos, como tantas outras ao longo destes cinquenta e cinco anos.
Olho para ti e vejo a mesma força que me acompanha desde a juventude. Cuidar de ti não é um peso, nem um dever, é a continuação natural da vida que construímos, gesto a gesto, riso a riso, susto a susto. Somos feitos desta teimosia bonita de não largar a mão um do outro, mesmo quando o caminho treme.
Esta selfie que tirámos antes de entrares no hospital, a sorrir como se fôssemos para um baile, diz tudo sobre nós: enfrentamos o medo com humor, com ternura, com essa cumplicidade que só se constrói numa vida inteira partilhada.
Agora que a tempestade passou, fica a certeza que sempre nos guiou: somos um do outro, e isso basta para atravessar qualquer noite e celebrar cada manhã.
Beijinho do teu Zéi…