segunda-feira, 16 de março de 2026

O saber não ocupa lugar


Na Quaresma, os altares devem estar despidos de flores. E na Sexta Feira Santa serão também despidos das toalhas de altar. Tradições que herdámos, respeitamos e mantemos.

Foto José Coelho
Altar-mor da Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Beirã

Mineiro

Os mineiros e suas famílias que estiveram presentes no nosso casamento em 1976

Em 1975 as Minas da Panasqueira pareciam ser no fim do mundo. Tinha de ir de autocarro da Beirã até Portalegre. Ali mudava para outro que ia até Nisa. Em Nisa mudava para outro que ia para Castelo Branco. Em Castelo Branco apanhava o comboio até ao Fundão. No Fundão tinha de esperar pelo autocarro que ia para São Jorge da Beira e fazia todas aquelas aldeias, passando na Barroca Grande onde estava sedeada a empresa mineira inglesa Beralt Tin & Wolfram que suponho ainda hoje detém aquela exploração mineira, embora mais reduzida.

Dez horas de viagem! Uma pessoa chegava lá mais moída que carne picada, mas valeu a pena. E como valeu! Foi o lugar onde mais gostei de estar em toda a minha vida porque as pessoas eram simplesmente fabulosas. O primo João Gaspar, a esposa Maria José e os seus dois rapazes, o António e o Zé Manel. O primo Antero, a esposa e as filhas. O José Mouro e toda a sua família. E muitos outros, tudo gente de bem e profundamente solidária que me receberam e acarinharam como se de mais um filho seu se tratasse.

Há coisas que nunca mais se esquecem na vida e favores que jamais conseguiremos retribuir, por mais anos que vivamos.

O trabalho era duro e arriscado. Mas esse pormenor era irrelevante perante o cenário que me trazia tudo quanto eu mais necessitava naquela altura. Estabilidade. Trabalho certo e bem remunerado, um vencimento mensal três vezes superior àquele que se praticava no concelho de Marvão, além da verdadeira amizade, camaradagem, solidariedade de toda aquela boa gente. Vivia plenamente feliz cada dia. Os mineiros eram uma enorme e imensa família e eu sentia-me como se lá tivesse vivido sempre.

Naquele tempo éramos mais de dois mil os trabalhadores da Beralt Tin & Wolfram, entre os mineiros que trabalhávamos no interior da terra, os operários da lavaria – mecanismo de lavagem dos minérios à boca da mina – os camionistas e maquinistas exteriores, os escriturários dos escritórios, os funcionários do hospital particular da empresa, do clube de recreio, das cozinhas e refeitórios e de toda a panóplia no apoio logístico que era um autêntico luxo, tendo em conta a precaridade de condições existentes noutra qualquer empresa nacional desse tempo. Os ingleses não brincavam em serviço e cuidavam primorosamente do bem-estar de todos os seus funcionários, desde o administrador da empresa até às senhoras das limpezas.

A mina e a lavaria laboravam 24 sobre 24 horas em 3 turnos rotativos de 8 horas. E todos fazíamos os 3 turnos à semana. Um, das zero às oito da manhã, outro das oito às dezasseis e outro das dezasseis às zero. Nas encostas envolventes da Barroca Grande tinham sido construídos um moderno hospital, uma igreja, uma escola, um clube recreativo com campo de futebol e ringue de patinagem, além de vários e excelentes bairros habitacionais onde residiam mais de quinhentas famílias dos mineiros. No vale adjacente foram implantados um refeitório self-service e quatro imensos dormitórios, cada um com vinte quartos, cada quarto com capacidade para quatro mineiros, tudo devidamente equipado com aquecimento central e instalações sanitárias individuais com duche de água quente para acomodar os mineiros que como eu lá não tinham a família, mas usufruíam na mesma maneira de todas as comodidades.

Até ao dia em que comecei a ser mineiro pensava que o trabalho mais duro que existia no mundo era o trabalho do campo onde cada camponês tem de levantar-se de madrugada e só se deita alta noite. Por tudo quanto conhecia dessa minha anterior vida, fiquei pasmado com a aspereza do trabalho mineiro, muito mais perigoso sujo e imprevisível do que qualquer serviço agrícola. Nas primeiras semanas quando laborava nas profundezas da terra a mais de três mil metros da boca da mina iluminado apenas pelo pequeno farol encaixado no capacete e alimentado por uma pilha presa ao cinto das calças, mais de uma vez senti o desconforto claustrofóbico de todos os principiantes mineiros no meio daquela humidade e escuridão, habituado que estava ao ar puro dos campos onde eu sempre vivera até então.

Comecei por ser ajudante de marteleiro na abertura de chaminés.

E o que eram essas chaminés?

Nada mais nada menos do que poços com 100 metros de altura, porque abertos de baixo para cima, afim de ligarem verticalmente as galerias do nível 3 às do nível 2 ou do nível 2 às do nível 1. As Minas da Panasqueira têm dezenas de quilómetros de galerias em níveis sobrepostos a cada 100 metros de profundidade, o que quer dizer que o nível 3 se encontra à profundidade vertical de 200 metros e cada um desses níveis tem depois uma imensa rede de galerias paralelas ligadas entre si que avançam serra adentro por mais de cinco quilómetros na horizontal.

Marcadas pelos topógrafos no local exato onde era preciso abrir a nova ligação ao “andar” de cima, começava por se abrir um buraco redondo no teto da galeria com um martelo pneumático vertical movido a ar comprimido. Depois de todos os buracos abertos com as brocas de 1,20m, eram carregados pelo marteleiro e por mim com velas de dinamite previamente preparadas com detonadores ligados entre si e cujo fio condutor ligávamos depois já longe da chaminé a um sistema elétrico central que a uma pré-determinada hora iria ser explodido por controle remoto.

Assim avançavam de baixo para cima, aqueles poços ao contrário.

À medida que íamos subindo em direção à galeria superior onde ia certeiramente terminar 100 metros mais acima, tínhamos de ir todos os dias chumbando à parede de um dos lados do poço as grades de aço com cremalheira lateral onde encaixava e subia metro a metro o elevador dobrável movido também a ar comprimido e onde levávamos sempre tudo de uma só vez. O martelo-compressor, as brocas, a grade para acrescentar o novo metro de ascensão ao elevador, a dinamite para depois carregarmos os novos furos, os detonadores e os fios elétricos para os armadilhar.

Cada equipa, em cada frente, trabalhava sempre e só no mesmo sector. Não havia misturas por questões óbvias de segurança.

O pequeno elevador era de plataforma redonda como a chaminé (ou poço) e com o diâmetro adequado para ir subindo sem problemas pelo buraco acima. Tinha um “chapéu” metálico tipo sombrinha que se abria e nos protegia dos calhaus que ficavam suspensos no rebentamento dos explosivos e se iam desprendendo do teto pela trepidação causada pelo elevador à medida que este ia subindo. O estrépido dos calhaus a baterem na chapa de ferro a um palmo das nossas cabeças era ensurdecedor. E atemorizante também, apesar de todo aquele equipamento ter sido pensado para proteger quem lá tinha de trabalhar.

Chegados lá acima, a primeira coisa que tínhamos de fazer era chumbar a nova grade do elevador para ele subir e nos  aproximar mais do teto e podermos escombrar convenientemente as pedras ainda meio soltas até ficar só a rocha firme para furar de novo e voltar a carregar. Confesso que pensei algumas vezes que tendo-me “safo” no Maiombe, corria agora ali o risco de acabar os meus dias nas entranhas da terra. Pelo sim pelo não era meu hábito proteger sempre com o meu corpo as velas de dinamite e os detonadores debruçando-me sobre eles, não fosse alguma pedra ao soltar-se do teto, fazer ricochete na parede do poço e cair-lhes em cima, provocando o seu rebentamento.

O camarada marteleiro ria, ria, ria, divertidíssimo com os meus receios pois andava naquilo há 3 ou 4 anos e tratava as pedras, os explosivos e o perigo, por tu. Provavelmente por isso morreu. O excesso de confiança fez com que menosprezasse a sua segurança e ficou esmagado debaixo de um bloco (liso) que se despegou subitamente do teto da galeria poucos meses depois de eu ter ingressado na GNR. O calhau era de tão grande dimensão que tiveram de usar explosivos para diminuírem o seu volume e conseguirem retirar os restos mortais do infeliz.

Não sendo muito frequentes, não deixam por isso de acontecer de vez em quando alguns acidentes fatais em todas as minas, tendo eu próprio presenciado alguns, nos cinco anos que por lá andei...

 

José Coelho in Histórias do Cota 

domingo, 15 de março de 2026

Carpe Diem

Aproveita o dia, não deixes que ele termine sem teres crescido um pouco, sem teres sido feliz, sem teres alimentado os teus sonhos.

Não te deixes vencer pelo desalento.

Não permitas que alguém te negue o direito de te expressares que é quase um dever.

Não abandones a ânsia de fazer da tua vida algo extraordinário.

Não deixes de crer que as palavras e as poesias podem mudar o mundo, porque, passe o que passar, a nossa essência continuará intacta. Somos seres humanos cheios de paixão.

A vida é deserto e oásis, derruba-nos, lastima-nos, ensina-nos e converte-nos em protagonistas da nossa própria história.

Ainda que o vento sopre contra, a poderosa obra continua, tu podes trocar uma estrofe. Não deixes nunca de sonhar, porque só nos sonhos pode ser livre o homem.

Não caias no pior dos erros: o silêncio. A maioria vive num silêncio espantoso. Não te resignes, nem fujas.

Valoriza a beleza das coisas simples, pode fazer-se poesia bela, sobre as pequenas coisas.

Não atraiçoes as tuas crenças. Todos necessitamos de aceitação, mas não podemos remar contra nós mesmos. Isso transforma a vida em um inferno.

Desfruta o pânico que provoca ter a vida toda a diante e procura vivê-la intensamente sem mediocridades. 

Pensa que em ti está o futuro, encara a tarefa com orgulho e sem medo.

Aprende com quem pode ensinar-te as experiências daqueles que nos precederam.

Não permitas que a vida se passe sem a teres vivido.

Walt Whitman (1819-1892)

Foto José Coelho

Da minha escritora favorita

Jantar em família em meados da década de 90 do Séc.XX na Toca dos Coelhos

Um tempo de coisas simples

Pertenci a um tempo em que a felicidade cabia em pequenos gestos. Um tempo em que brincar na rua até o pôr do sol era a maior aventura do dia e voltar para casa com os joelhos sujos de terra era sinal de uma infância bem vivida.

Era um tempo em que as conversas aconteciam olhos nos olhos, sentados na calçada ou à volta da mesa. Não havia pressa em responder mensagens, porque as mensagens eram dadas com a voz, com risos e com silêncio partilhado.

Pertenci a um tempo em que um pedaço de pão com manteiga, um copo de leite quente ou uma fruta colhida do quintal tinham um sabor especial. Não porque fossem raros, mas porque eram vividos com calma.

As tardes eram longas, o tempo parecia maior e a vida era feita de coisas que não custavam dinheiro: subir às árvores, correr atrás de uma bola, ouvir histórias dos mais velhos ou simplesmente observar o céu.

Pertenci a um tempo em que a simplicidade não era pobreza, era riqueza. Riqueza de momentos, de presença, de afetos verdadeiros.

Hoje o mundo mudou, tudo é mais rápido, mais barulhento, mais conectado. Mas dentro de mim ainda vive aquele tempo de coisas simples. E talvez seja essa memória que me lembra, todos os dias, que a verdadeira felicidade continua a morar nas pequenas coisas.

Helena Sacadura Cabral

sábado, 14 de março de 2026

Pensamento do dia


Quem somos nós para condenar os erros dos outros?
Mal reconhecemos os nossos...

sexta-feira, 13 de março de 2026

Bom fim de semana


Home Sweet Home - Beirã

Casa arrumada

A primeira foto na classe de Sargentos, no estágio em S. João da Madeira

No Dia da Guarda a 3 de Maio de 1986 num gesto implícito de gratidão, organizei no quartel um almoço-convívio comemorativo da efeméride, para o qual convidei de novo todas as entidades de todos os organismos públicos de Nisa ao que todos compareceram. Foi interessante ver a cara de espanto de alguns daqueles convidados que lá tinham ido em visita de cortesia oito ou nove meses antes cumprimentar-me.
O quartel estava, dentro do possível, um brinco. Restaurado, pintado de fresco e cheirando a asseio, nada tinha a ver com aquele outro bafiento e ruinoso que tinham visto antes. Continuava a ser um edifício velho e a avisar quem de direito que tratasse urgentemente de providenciar um novo quartel, mas pelo menos agora tinha alguma dignidade.
Em meia dúzia de meses o velho edifício fora requalificado pelos profissionais – pedreiros, carpinteiros, canalizadores e outros – da Câmara Municipal de Nisa que para isso se disponibilizou e eu agradeci, pondo ponto final à total indiferença de quem quase tinha deixado ruir todo o edifício com o pretexto de os responsáveis por ele serem a Guarda e o Governo, que esses sim, é que tinham de preocupar-se com isso, sem necessidade de se ter de andar a pedir favores nem à câmara municipal, nem a ninguém.
Nada disso me afetou porque nem tinha pedido nada a ninguém, fora o executivo da CMNisa que se prontificou a “dar um jeito” no edifício com os materiais de toda a espécie existentes no estaleiro municipal, oriundos de outras obras de restauro do município. Como eu sabia que iria ter de passar ali um punhado de anos no comando do posto, resolvi as coisas à minha maneira e agora todos nós, militares que ali trabalhávamos, tínhamos instalações com um mínimo de dignidade.
Em todo o meu percurso profissional desde o momento que ascendi à classe praças, depois à de Cabos e a seguir à de Sargentos, fiz questão de pautar a minha conduta pelo respeito institucional para com toda a gente, quer da minha classe, quer dos meus superiores hierárquicos ou subordinados, quer ainda também das autoridades civis e administrativas, exigindo do mesmo modo, ver espeitados os meus direitos.
Nunca na minha função de comandante de posto me acomodei ao conforto do gabinete, nele permanecendo apenas o tempo necessário ao despacho dos afazeres que eram de minha exclusiva responsabilidade. Porém, assim que os terminava, estava logo dentro de um jipe ou mesmo também a pé a alinhar com os cabos e os guardas no policiamento aos campos, às estradas, às aldeias e a outros sítios da área do posto que eram imensos e dispersos.
Nunca me julguei a omnipotente figura que tinha direito a ficar no bem bom, enquanto os subordinados policiavam a área sob a nossa responsabilidade ao calor ou ao frio no exterior. Muito pelo contrário. Senti-me sempre e só apenas mais um deles, naquela excelente equipa de trinta e seis competentes profissionais.
A única diferença era a de ser apenas eu, de acordo com as ordens e diretivas do oficial comandante da secção, a assumir a responsabilidade de planear estratégias por forma a termos permanentemente toda a área do posto vigiada e sob controlo. Mas até nisso tive sempre o auxílio da excecional competência e lealdade de todo o efetivo que me transmitia as informações que iam discretamente recolhendo junto da população, sendo essa criteriosa tarefa meio caminho andado para um planeamento mais eficaz.
Éramos, inquestionavelmente, uma verdadeira equipa.
E todos, nunca fomos demais…

José Coelho in Histórias do Cota