quinta-feira, 26 de março de 2026

Chegada a Nisa (2)


Numa resposta quase imediata, na semana seguinte uma equipa composta por pedreiros, carpinteiros e pintores, “assentaram praça” no quartel para começarem a restaurar o mais urgente. O telhado que metia água e em alguns sítios ameaçava ruir. Foram substituídas quase todas as traves e barrotes, bem como centenas de telhas partidas causadoras de infiltrações. Depois foi a cozinha que levou azulejos brancos nas paredes, um armário moderno e lavável, um lava louça inox e um chão de mosaicos, bem como uma adequada iluminação interior.

O velho, escuro e gordurento “buraco” sem quaisquer condições de higiene e salubridade transformou-se numa cozinha com um mínimo de condições por ser indispensável aos militares que eram de longe e ali tinham que confeccionar as suas refeições diariamente. E como estava ali mesmo ao lado, foi também completamente remodelado o posto de rádio que ficou muito mais digno e funcional. Depois, uma a uma, todas as dependências do velho edifício foram sendo restauradas a expensas exclusivas da câmara municipal de Nisa.

Adaptaram-se as divisões dentro do possível. Separou-se o posto da secção. Do lado direito ficou o gabinete do oficial comandante e a respetiva secretaria, do lado esquerdo o gabinete do plantão contíguo ao gabinete do comandante de posto.

Adaptou-se um velho compartimento em frente á arrecadação do material de guerra que conseguimos decorar usando para isso pouco mais que umas dezenas de rústicas tábuas costaneiras dos desperdícios da serração e cedidas gratuitamente que depois de devidamente aparadas dos lados e envernizadas fizeram uma acolhedora sala de convívio que servia simultaneamente para os dias de instrução semanal, com uma bonita lareira feita de raiz para aquecer o ambiente nos dias frios de inverno.

Construiu-se um corredor em tijolo para se poder atravessar todo o edifício sem ter de se passar pelo interior da caserna, a qual entretanto foi também restaurada, assim como a casa de banho anexa equipada com louças sanitárias novas, azulejos nas paredes e chuveiros com água quente.

O velho piso de tábuas partidas, habitat seguro de famílias inteiras de ratos, foi substituído por um bonito e funcional parquet de corticite lavável, que deu logo um aspeto digno e acolhedor àquele compartimento, local de resguardo e de repouso para quem ali permanecia dia e noite por motivo de ter a sua residência e família afastados de Nisa e por isso só podia ir visitar na folga semanal.

Era o mínimo dos mínimos que se lhes podia - e devia - conceder. Condições dignas, com higiene, conforto e privacidade adequadas.

Também a residência que me era destinada levou uma volta completa. A casa de banho só tinha uma sanita e um lavatório. Não tinha chuveiro nem banheira. Os meus antecessores deviam com certeza tomar banho num balde porque nem águas quentes canalizadas a residência possuía. Depois a instalação elétrica era do princípio do século, com aqueles tubos primitivos em chumbo a despegarem-se das paredes.

O único contributo da Guarda em toda aquela remodelação, eram os dois militares que, estando de piquete 24 horas consecutivas, vestiam um fato de zuarte para auxiliarem os mestres naquilo que fosse necessário, entre as oito e as cinco da tarde, assegurando eu com o meu motorista, tomarmos conta de todas as ocorrências que houvesse naquele período de tempo. Era fraco o contributo, mas o possível e de muito boa vontade.

Todo o efetivo se regozijava com as obras de restauro que tardavam em chegar. Por isso, voluntariamente, cada um se prontificava para fazer o que podia e sabia.

Os guardas eletricistas ajudavam os eletricistas, os guardas pedreiros auxiliavam os pedreiros, os guardas canalizadores idem idem, aspas aspas - porque os guardas são também grandes e competentes profissionais de todas essas especialidades que desempenhavam antes de ingressarem na guarda - e aqueles que nenhum desses ofícios sabiam davam serventia onde fosse preciso.

Seis meses depois o quartel de Nisa não parecia o mesmo, por fora e por dentro. A CMNisa reaproveitando e reciclando muitos materiais sobrantes de outras obras de restauro de edifícios públicos - traves, barrotes, telhas e outros materiais existentes no estaleiro municipal - mesmo assim investiu naquela reparação cerca de seiscentos contos.

Mas não só. Logo a seguir, o executivo municipal liderado nessa altura pelo Dr Basso, providenciou o local e a elaboração do projeto para ser construído de raiz um novo quartel e duas residências para acomodarem o oficial comandante do Destacamento e o comandante do posto, no Bairro da Cevadeira onde foi de facto construído poucos anos depois e funciona até hoje.

José Coelho in Histórias do Cota

Foto a tomar já café no novo mini-bar do posto que a Delta Cafés teve a gentileza de equipar para o pessoal que tinha de estar 24 horas de serviço no posto, sem poder sair.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Por isso é Natal a 25 de dezembro

Anunciação do Anjo 25 de Março:
Nascimento de Jesus 25 de Dezembro

Chegada a Nisa (1)


Quando cheguei a Nisa cedo me apercebi que as relações entre a Guarda e as restantes autoridades civis do concelho e comarca eram de um quase confronto e oposição mútuos. Os eleitos municipais eram liderados pela CDU, a coligação comunista que o meu antecessor odiava e hostilizava. Não havia por isso diálogo nem aquela colaboração e respeito mútuos que são normais entre todas as entidades públicas de qualquer concelho, seja qual for a cor política dos seus eleitos.

Não cabe à Guarda, nunca coube em tempo algum, hostilizar seja que entidade for, muito pelo contrário. Descobri ali, sem querer, que aquele “ódio” que o meu ilustre antecessor me devotara no alistamento e pelo qual tanto me infernizara a vida, era exatamente o mesmo que devotava ao presidente da câmara de Nisa desse tempo (1985) e à maior parte dos nisenses que pública e manifestamente votavam na CDU concedendo-lhe por isso vitorias sucessivas, em sucessivos atos eleitorais.
Como se não fosse já um problema bicudo, com as outras entidades civis infelizmente as coisas não estavam mais famosas em termos de relacionamento. Olhavam para nós de lado, com pouca simpatia e ainda menos espírito colaborante.
Longe de me deixar intimidar com aquele panorama, senti-me interiormente incentivado a mudar aquele estado de coisas até onde me fosse possível, ainda que com plena consciência de ir cutucar um ninho de vespas que iriam tentar ferrar-me pela ousadia. Sem nada dizer a ninguém porque sabia de antemão que não iria encontrar apoio interno por parte de quem deixara abandalhar aquilo tudo ao ponto em que se encontrava, tomei várias iniciativas que me pareciam prioritárias.
A primeira foi redigir um ofício timbrado e endereçá-lo a todas as entidades locais. Presidente da Câmara Municipal, Juiz de Direito da Comarca, Delegado do Ministério Público, Chefe da Secretaria do Tribunal, Chefe do Serviço de Finanças, Delegado de Saúde, Gerentes das entidades bancárias, Bombeiros Voluntários e demais entidades públicas, a todos me identificando como o novo comandante do posto de Nisa e solicitando autorização para pessoalmente me apresentar a todos eles para cumprimentar cada um dando-me a conhecer, ao mesmo tempo que manifestava a minha disponibilidade para uma estreita colaboração institucional dali em diante.
Foi uma pedrada no charco! E um sucesso inesperado com o qual nem eu próprio contava. Umas atrás das outras, todas as entidades me responderam quase no imediato, agradadas com a minha atitude e abrindo as portas dos seus gabinetes para me receberem e conhecerem. Parecia que toda a gente queria restabelecer a relação amigável e institucional que nunca deveria ter sido quebrada e posta em causa.
E lá fui eu visitá-los a todos, à vez. Sem subserviência, sem nunca deixar de evidenciar o prestígio da minha mui nobre instituição, a todos me apresentei com humildade, mas também com a dignidade que o meu novo cargo exigia. E de todos recebi palavras amigas, de incentivo e de boa amizade, em simultâneo com as felicitações pela minha iniciativa, seguidas sempre de um “conte conosco”.
O primeiro e mais importante passo estava dado. Mas muito mais havia para fazer e não cruzei os braços nem me deixei adormecer à sombra dos elogios. Pelo contrário, comecei a “sondar” quem poderia dar apoio para melhorar as condições de habitabilidade das velhas e decrépitas instalações. E para que percebessem a urgência em meter mãos à obra, nada melhor que convidar todas aquelas entidades a visitarem o posto para que pudessem verificar com os seus próprios olhos a indignidade que era viver naquele edifício e as precárias condições que oferecia a quem necessitava de ali trabalhar para manter a ordem, a paz e tranquilidade públicas para benefício de toda a comunidade.
Retribuí com a mesma abertura e cordialidade para com todas as entidades que não se fizeram rogadas e compareceram ao meu convite. E uma vez ali, sem quaisquer complexos, mostrei-lhes tudo aquilo a que chamavam pomposamente o quartel da GNR da vila de Nisa. Evidentemente todos ficaram surpreendidos com tão avançado estado de degradação do edifício que pela sua aparência exterior denunciava de facto alguma velhice, mas não tanto como a do seu interior.
Estando presente o senhor presidente da câmara municipal acompanhado de alguns dos vereadores, imediatamente apelei à sua sensibilidade para dentro daquilo que lhes fosse possível me ajudassem no restauro das divisões mais carenciadas que infelizmente eram quase todo o edifício, pois sem a sua ajuda isso não seria possível…
José Coelho in Histórias do Cota
Continua no capítulo (2)

Lavrada e alimentada a terra



Obrigado ao amigo Rui que nunca falha 

terça-feira, 24 de março de 2026

PRONTO!!!!!




Sejam-no, se puderem


Fazer o que se gosta, é liberdade. Gostar do que se faz, é felicidade. 

Sejam felizes, se puderem...

O que se não cuida, perde-se



Colhemos o que semeamos. É verdade. O tempo é a árvore que nos dará o fruto dos nossos gestos. Esse fruto será doce ou será amargo, conforme a ternura ou o azedume que deixarmos pelo caminho que formos lavrando, e virá sempre no tempo certo. O fruto dos nossos gestos nunca vem fora de época, sabe sempre quando o devemos provar.

Quem não cuidou, não pode esperar ser cuidado. Quem não foi capaz de apoiar, não pode esperar ser amparado. Quem não teve uma palavra para quem a aguardava, não pode esperar nada a não ser silêncio. Quem não soube estar perto, não pode esperar senão distância. Quem não soube abraçar, não pode esperar senão braços cruzados. Quem não soube estar presente, não pode esperar ser visitado. O amor não é uma obrigação. Não é algo só porque sim. Quem não valorizou, não pode esperar ter valor para quem ignorou.

Quem só foi capaz de agredir, não pode esperar carinho. Quem esperava poder humilhar contando que essa humilhação fosse esquecida, enganou-se. Às vezes, sim, o tempo enfraquece a memória, mas aquilo que o coração guarda nunca se perde. Para o bem e para o mal. Os corações nunca esquecem. Quem nunca mostrou disponibilidade, quem nunca esteve para o que desse e viesse, não pode esperar receber amor de volta. O amor só regressa a quem o soube dar, o amor só regressa de livre vontade. Ninguém ama à força.

 In lado.a.lado