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Há quem escreva para ser visto. Há quem escreva para ser ouvido. E há quem escreva – como eu escrevo – para ser coerente consigo mesmo. A ética na escrita não é um adorno, nem uma bandeira moral. É uma forma de estar no mundo. É a decisão íntima de não trair aquilo que se sabe, aquilo que se vive, aquilo que se é.
A verdade, quando entra na escrita, não faz barulho. Não precisa de trombetas, nem de explicações, nem de notas de rodapé. A verdade é silenciosa, mas reconhece-se. E quem a lê, sente-a.
A escrita ética nasce de um princípio simples: não inventar o que não se viveu, não afirmar o que não se sabe, não fingir o que não se sente. Não é uma questão de moralismo. É uma questão de respeito por si mesmo, pelo leitor, pela própria palavra.
A palavra é como a água do poço: se vem turva, ninguém bebe; se vem limpa, mata a sede.
E eu escrevo assim: puxo a água com a corda certa, trago o caldeirão cheio, e ofereço ao leitor um gole de autenticidade. Não há truques. Não há artifícios. Não há pose.
Nas redes sociais a ética é testada todos os dias. Há quem confunda opinião com verdade, rumor com facto, vaidade com conhecimento. E há, sobretudo, quem confunda escrever com falar alto.
Ontem escrevi, mais uma vez, sobre a corda e o caldeirão, uma metáfora antiga, dessas que vêm da vida real, dos poços do Alentejo, dos gestos humildes que sustentaram gerações. Hoje, um leitor manifestou estranheza. Disse que percorreu a região, que a conhece e que não encontrou referência alguma à corda e ao caldeirão.
Sorri. Não se procuram metáforas com mapas na mão.
Expliquei-lhe que a verdade da escrita não está nos livros, mas na experiência. A corda e o caldeirão não pertencem à geografia: pertencem à memória dos homens que tiravam água do poço para darem de beber ao gado e aos ganadeiros. São companheiros inseparáveis, como certas pessoas – eu e a minha companheira por exemplo – que não passam uma sem a outra.
Sem a corda, o caldeirão não chega à água; sem o caldeirão, a corda não tem destino. Mostrei-lhe a fotografia. Não para humilhar, mas para lembrar que a verdade, quando é vivida, dispensa explicações.
E disse-lhe, com a serenidade de quem sabe o peso da palavra: “Tudo o que eu escrevo nasce da verdade das coisas, sempre.”
A verdade na escrita não é apenas o conteúdo. É também o gesto. É o modo como se responde. É a serenidade com que se explica. É a firmeza com que se mantém o que se sabe ser certo. A ética na escrita é, no fundo, a ética da vida. Quem vive com verdade, escreve com verdade. Quem vive com humildade, escreve com humildade. Quem vive com atenção, escreve com atenção.
A minha escrita procura sempre essa marca: não dramatiza, não exagera, não inventa grandezas. É uma escrita que sabe o valor das coisas simples e que não precisa de adornos para ser profunda.
A corda e o caldeirão, são isso mesmo: objetos humildes que carregam uma sabedoria antiga. Transformei-os em metáfora porque a verdade mora nas coisas simples, não nas teorias complicadas.
A ética na escrita não é apenas dizer a verdade. É também como se diz. A serenidade é uma forma de ética. A clareza é uma forma de ética. A gratidão é uma forma de ética.
Quem escreve sem verdade pode até fazer barulho. Mas quem escreve com verdade, esse deixa marca. E essa marca não está no número de leitores. Está na qualidade da consciência. Está na fidelidade ao que se vive.
Está na coragem de dizer:
- Eu escrevo o que sei, escrevo o que vi, escrevo o que sou.
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