terça-feira, 28 de julho de 2026

Mãe...

Às vezes pergunto-me quantos anos terias hoje, mas logo percebo que isso pouco importa. O que permanece é a tua força tranquila, a tua bondade, a coragem com que atravessaste a vida e aquele teu riso fácil que iluminava até os dias mais duros. É assim que te guardo: inteira, simples, verdadeira.
Muito do que sei veio de ti, não dos livros, mas dos gestos. Não podias ensinar-me a ler ou a escrever, mas ensinaste-me coisas maiores: a honestidade, o cuidado, o respeito pelos outros, o valor de trabalhar com brio. Foste sempre dona de uma casa arrumada e de um coração ainda mais organizado. Ajudaste todos, sem nunca te queixares, e foste o pilar firme da nossa família.
A tua honradez era tão natural que quem te conhecia ainda hoje te recorda com carinho. E eu, Mãe, lembro-me de ti todos os dias. A tua ausência marcou-me profundamente desde aquele 28 de julho de 2014. Mesmo sabendo que o fim se anunciava, descobri nesse dia que nunca estamos preparados para perder quem nos trouxe ao mundo.
A partida do pai doeu-me muito, mas a tua… essa abriu um vazio maior. Sei que ele, onde estiver, me compreende porque também perdeu a mãe, também conheceu essa dor.
Confesso que vou menos vezes ao cemitério do que deveria. Não por falta de amor, mas porque cada visita me deixa demasiado inquieto. Sempre fomos muito ligados, tu e eu. E talvez por isso o luto tenha ficado suspenso, como uma porta que não consigo ainda fechar.
Recordo com nitidez aquele momento na sala mortuária em que ficámos os dois, eu à tua cabeceira, rodeados de vizinhos e amigos. E foi ali que a dor que até então eu segurava, finalmente me venceu. Chorei como nunca tinha chorado. Lembro-me da vizinha Joaquina Brites a aproximar-se na sua bondade, a tentar consolar-me com a sua voz baixa e simples. Foi muito duro, Mãe. Muito duro.
Cá em casa o teu quarto permanece como o deixaste. Os teus santinhos e pequenas coisas continuam na cómoda e algumas acompanham-me no meu escritório. Talvez seja a minha forma de te manter perto, de te sentir ainda aqui.
Um dia, acredito, esta dor há de abrandar. O tempo tem maneiras discretas de nos ensinar a respirar outra vez. Até lá, sigo contigo perto de mim.
E sei que, quando chegar a minha vez, nos reencontraremos, dessa vez para sempre.

Entardecer

Respiro fundo. Sinto o ar quente, pesado. A cada inspiração, deixo que o corpo recorde que ainda está vivo, que ainda é capaz de acolher o mundo, mesmo quando o mundo chega cansado.
O dia já começa a recolher-se. A luz já não fere, apenas acaricia. As sombras alongam-se como braços amigos que conhecem bem o caminho da noite. E eu, sentado no meu lugar habitual, deixo que o silêncio me envolva como um manto leve.
Fecho os olhos por um instante e imagino os montes em redor da Beirã a perderem contorno, dissolvendo-se numa paleta de ocres e violetas. O calor, que durante o dia parecia um inimigo, torna-se agora apenas memória, uma presença que já não manda, apenas acompanha.
Sinto o corpo a abrandar. Os ombros descem. A respiração encontra o seu ritmo natural. O coração bate sem pressa, como se estivesse a conversar comigo no banco de alvenaria e mosaicos, na varanda do quintal.
Penso na minha gente. Nos que me criaram, nos que me moldaram, nos que me ensinaram a ser este homem que anima quem precisa ser animado, que acolhe dores alheias, que nunca vira a cara aos problemas.
Cada amigo é uma raiz. Cada memória é uma pedra firme no chão onde pouso os pés.
Agora, deixo o pensamento tornar-se leve. Não preciso de resolver nada. O entardecer é uma pausa, não uma tarefa. É o mundo a dizer-me: “Hoje fizeste o que podias. Agora descansa.”
Respiro outra vez. Sinto o ar a encher-me os pulmões como uma bênção discreta. Sinto-o a sair como quem liberta o peso do dia. A fragilidade humana, aquela que tantas vezes me visita nos amigos, na família, em mim próprio, transforma-se aqui em ternura. Somos frágeis, sim.
Mas é essa fragilidade que nos permite amar, cuidar, ser amigos, ser presença, ser porto seguro.
O entardecer é um convite à humildade. À gratidão. À consciência de que a vida é breve, mas bela. E que cada gesto de bondade – mesmo pequeno – ilumina o mundo mais do que qualquer sol de verão.
Fico assim mais um instante. Respiro devagar. E deixo que a paz me encontre, como sempre encontra ao fim do dia, os homens de consciência tranquila.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Que...

Que este findar de dia me encontre em paz. Que o calor que ainda pesa no ar não perturbe o meu espírito, e que o silêncio que chega com o entardecer me ensine a abrandar.
Que eu saiba agradecer o dia, mesmo que tenha sido duro, mesmo que tenha trazido preocupações, mesmo que tenha exigido de mim mais do que eu pensava ter.
Que eu me lembre dos que amo, dos que caminham comigo, dos que hoje precisam de força como aquele amigo que luta pela sua saúde, como tantos que atravessam batalhas invisíveis.
Que eu seja capaz de oferecer presença, palavra boa, gesto simples, sem esperar retorno. Porque é na bondade discreta que a humanidade se reconhece.
Que a fragilidade não me assuste, mas me torne mais atento, mais humilde, mais capaz de compreender o outro.
Que a noite que se aproxima traga descanso ao corpo e serenidade ao pensamento. E que eu possa descansar, como quem pousa a enxada ao fim do dia de trabalho, sabendo que fiz o que podia, que fui quem devia ser.
Que a paz me encontre. E que eu a saiba receber.
Texto e foto

Doze anos sem ti, Mãe


 IN MEMORIAM
Florinda da Conceição Lourenço

07.10.1926 / 27.07.2014

A saudade, depois o silêncio

Há ausências que não se explicam, apenas se habitam. Doze anos depois, descubro que a saudade não é uma ferida, mas uma casa onde a memória acende luzes inesperadas. E é nessa casa que a minha mãe continua a entrar, sem pedir licença, como fazia quando chegava da horta com o avental cheio de cheiros da terra.
Nos últimos dias da sua vida, o corpo já não lhe obedecia, mas havia ainda uma claridade no olhar que me desconcertava. Eu sabia – como quem sabe sem querer saber – que ela caminhava para o fim. E, no entanto, havia nela uma serenidade antiga, como se já tivesse feito as pazes com tudo o que a vida lhe deu e tirou.
Uma tarde, perguntei-lhe baixinho:
– Mãe, o que sente?
Ela sorriu com aquela simplicidade que era só dela, e disse:
– Sinto vontade de ir ter com o teu pai.
Não era lamento. Era despedida. Era reencontro anunciado.
Mas o que nunca esquecerei foi o que aconteceu depois. Como se a alma tivesse encontrado uma porta secreta, ela começou a falar alto, feliz, radiante, chamando por gente que eu nunca conheci, mas que lhe habitava a juventude. Ria como quem volta a ser menina. Conversava com vozes que só ela ouvia. Chamava por animais, por lugares, por sombras boas que a acompanhavam desde o tempo em que corria livre pelos montes.
E eu, sentado ao lado, era apenas testemunha de um milagre discreto: a memória a abrir janelas para que ela pudesse respirar antes de partir.
Durante horas – tantas que perdi a conta – ela viveu num mundo que não era o meu. E nunca me chamou. Nunca disse o meu nome. Não por esquecimento, mas porque naquele instante ela regressava a um tempo anterior a todos nós, ao lugar onde a vida lhe era leve e inteira.
Quando finalmente se calou, foi como se alguém tivesse apagado o candeeiro. Adormeceu exausta, mas em paz. E eu fiquei ali, a segurar-lhe a mão, tentando compreender o que tinha acontecido.
Dias depois, partiu. Partiu como quem cumpre um destino. Partiu com uma mão na minha e outra na da minha irmã Joaquina, com a nora Maria Manuela aos pés da cama, como se quisesse garantir que nenhum de nós ficava de fora da sua última viagem.
Hoje, doze anos passados, percebo que aquele episódio não foi delírio. Foi despedida. Foi bênção. Foi a vida a oferecer-lhe, antes do fim, a alegria que talvez lhe faltava. E foi também a prova de que a memória – essa companheira fiel – sabe sempre o caminho de casa.
A saudade é um mistério inexplicável, sim. Mas é também o lugar onde ela continua viva.
Beijinho, Mãe.

domingo, 26 de julho de 2026

A encerrar o Dia dos Avós

Há dias que terminam como quem fecha uma porta devagar, sem ruído, deixando apenas o perfume do que foi vivido. O entardecer na Beirã tem esse dom antigo: transforma o quotidiano em contemplação, o gesto simples em rito, a rotina em memória.
E eu, a regar a terra como quem conversa com ela, sei que cada gota de água é também uma forma de agradecer.
A noite chega sempre com uma espécie de sabedoria. Não exige nada, não cobra nada, não apressa nada. Apenas pousa sobre as coisas, como um manto que recolhe o que ficou espalhado pelo dia.
E é nessa hora que o pensamento se torna mais claro. As preocupações perdem volume. Os ruídos interiores abrandam. A alma encontra o seu lugar.
O ser humano – qualquer um – é feito desta alternância entre luz e sombra, entre ação e repouso, entre o que se faz e o que se sente.
A escrita, que tanto me acompanha, é apenas o reflexo disso: uma forma de ordenar o mundo, de lhe dar sentido, de lhe devolver a dignidade que às vezes o dia lhe rouba.
Escrever, para mim, é no fundo, regar a terra da memória. Cada frase é uma semente. Cada pausa é um silêncio fértil. Cada palavra é uma raiz que procura profundidade.
E tento escrever como quem caminha devagar, atento ao que a vida murmura. Não preciso de pressa, nem de artifícios. A minha escrita nasce da verdade, da experiência, da contemplação, da terra que cuido e das pessoas que estimo.
A noite, agora, está mais funda. Os sons diminuem. A terra repousa. E eu também.
É tempo de recolher o que o dia deixou: um gesto de amizade, uma palavra certa, um trabalho honesto, uma memória que se acendeu, uma planta que recebeu água, um silêncio que me ensinou qualquer coisa.
O dia de amanhã virá com a sua própria luz, com novas tarefas, novas conversas, novas palavras. Mas hoje, agora, neste instante, basta-me sentir esta paz que em mim se instala devagar, como se o mundo respirasse comigo.
Descansem, sonhem, sejam felizes. A noite é nossa amiga. E para mim, a escrita também.
Boa semana...
Texto e foto

A dignidade de servir sem aplausos

Servir sem aplausos é uma das formas mais nobres que existe. É fazer quando ninguém está a ver. É resolver problemas que ninguém sabe que existem. É proteger pessoas que nunca saberão o que por elas se fez.
A dignidade de servir sem aplausos nasce da consciência, não da vaidade. Nasce da certeza íntima de que o dever cumprido vale mais do que qualquer elogio. Nasce da força tranquila de quem não precisa de palco para ser útil.
Há quem viva para ser visto. E há quem viva para que os outros vivam melhor.
Servir sem aplausos é ir à frente, ensinar pelo exemplo, fazer em vez de mandar, proteger antes de falar.
É estar presente na comunidade quando ninguém pede, é assumir responsabilidades que muitos evitam, é dar tempo, energia e vida onde for preciso, sem esperar nada em troca.
Servir sem aplausos tem, porém, um preço injusto: muitas vezes não é reconhecido, muitas vezes é esquecido, muitas vezes é substituído por intenções nunca cumpridas.
Mas quem, mesmo assim serve, não se perde, porque o valor não vem dos aplausos, vem da consciência tranquila e daquilo que permanece na memória de quem viu e sabe que foi feito.
Servir sem aplausos é ser pedra firme numa parede em construção. É ser raiz num terreno que outros abandonaram. É ser presença onde a ausência impera.
Por último, a dignidade de servir sem aplausos é fazer o bem sem olhar a quem, é cumprir o seu dever sem esperar recompensa, é deixar marca sem precisar de assinatura. É ser útil, verdadeiro e inteiro.
Texto e foto