sábado, 6 de junho de 2026

As janelas que nunca fecho

Há dias em que o vento traz flores, noutros traz pó. E ainda assim abrimos as janelas, porque viver fechados nunca foi caminho para ninguém. Lembro-me de ver a minha mãe abri-las logo pela manhã, mesmo quando o frio cortava.
Dizia que a casa precisava de respirar, tal como as pessoas. Talvez tenha sido aí que aprendi que o risco faz parte de tudo o que entra na nossa vida.
Cresci a acreditar que as pessoas carregam dentro de si uma luz parecida com a nossa. Não por ingenuidade, mas porque fui educado por gente que nunca precisou de títulos para ensinar grandeza.
A minha família não me deixou heranças de ouro, mas deixou-me um modo de estar que vale mais do que qualquer testamento: falar verdade, olhar nos olhos, não virar a cara ao que é justo.
São coisas simples, daquelas que se aprendem mais com o silêncio do que com discursos, como quem aprende a ler o tempo só de olhar para o céu.
Recordo o meu avô sentado na varanda, com a navalha na mão, a aparar um pedaço de cortiça que nunca chegava a ser nada. Dizia que o importante não era o que se fazia, mas como se fazia.
E eu, miúdo, acreditava.
Acredito ainda.
Com o tempo descobri que o mundo é um mercado onde se vende de tudo: gestos limpos e mãos sujas, abraços sinceros e palavras afiadas.
Do melhor, guardo o brilho. Do pior, ficaram apenas pequenas marcas, como riscos num móvel antigo que já não doem, mas contam história.
E às vezes, confesso, ainda passo a mão por esses riscos, não para sofrer, mas para me lembrar que sobrevivi a cada um deles.
Não necessito de enumerar desilusões. Estão arrumadas no sótão da memória, cada uma com o seu rótulo, para que eu as consulte apenas quando a vida me pede revisão de matéria dada.
E sim, continuam a aparecer rostos novos com velhas intenções. A instrução não cura o que nasce torto e há corações onde nem a chuva mais paciente consegue fazer germinar coisa alguma.
Há terras que não dão fruto, por mais que se reze por elas.
Lembro-me de uma dessas pessoas – não importa o nome – que me ensinou, sem querer, que há quem viva de janelas fechadas por dentro. Gente que não as abre nem para o sol entrar, gente que teme a claridade porque ela denuncia o pó acumulado.
Ainda assim não desisto e nunca fecho as minhas.
Não porque me ache capaz de grandes feitos, mas porque acredito que a honestidade, mesmo pequena, ilumina mais do que a escuridão que tenta apagá-la.
Luto, lutarei sempre, por um mundo mais justo com as armas que tenho: coerência, memória e a teimosia de continuar a acreditar no bem.
Talvez seja apenas teimosia de alentejano, talvez seja fé naquilo que me ensinaram.
É pouco?
Talvez.
Mas é meu.
E é limpo.
Enquanto me sobrar um fio de voz, usá-lo-ei para não deixar que a dignidade se perca no barulho do mundo.
Porque, no fim da nossa vida, é isso que fica: a forma como caminhámos, não o tamanho dos passos que demos.
Texto e foto
06. 06. 2026

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Lago di Como – ou 425 metros de profunda indignação

Há textos que nascem como um sussurro e há outros que chegam como um abalo. Este nasceu de uma gota – uma gota de desconforto, de revolta, de lucidez – que, ao tocar na superfície da injustiça, se transformou num lago inteiro. Um lago profundo, como o Lago di Como que visitei recentemente, nos seus 425 metros de silêncio, de espanto e de verdade.
Porque há momentos em que não basta lamentar. É preciso parar, olhar, sentir e escrever. Escrever para que a indignação não se perca. Escrever para que a dignidade não se apague. Escrever para que ninguém possa dizer, amanhã, que não sabia.
Este texto é uma gota que se recusa a ser pequena. É um lago profundo que pede reflexão, e de tanta profundidade que exige respeito.
Então, cá vai…
Leiam devagar. Este texto não é urgente, é importante.
Há dias em que o país parece avançar a uma velocidade que não é humana. Corre, desliza, digitaliza, automatiza, e, no meio dessa pressa luminosa, esquece-se de olhar para trás.
E atrás… atrás estão aqueles que ergueram tudo isto com as mãos, com o corpo, com a vida inteira.
Hoje, para marcar uma consulta, é preciso um código. Para pedir uma certidão, é preciso um portal. Para pagar uma conta, é preciso uma aplicação. E para existir – imagine-se – é preciso um smartphone.
Mas quem construiu este país não foi quem sabe deslizar o dedo num ecrã. Foi quem sabia ler o céu para prever a chuva. Foi quem carregou sacos de cimento às costas. Foi quem lavou roupa no tanque, quem criou os filhos com o que havia, quem fez contas de cabeça, quem rezou baixinho para que o mês chegasse ao fim com dignidade.
E esses… esses agora são estrangeiros dentro da sua própria casa.
A modernidade transformou-se numa língua que não lhes pertence. E o mais cruel é isto: dizem-lhes que é simples, que é rápido, que é intuitivo – como se a dificuldade fosse culpa deles.
Como se o problema fosse a idade, e não o abandono.
Porque é abandono. Não lhe chamemos outra coisa.
Quando um idoso precisa de um filho para marcar uma consulta, perde autonomia. Quando precisa de um neto para aceder ao banco, perde privacidade. Quando precisa de um estranho para validar um documento, perde dignidade.
E um país que permite isto, não é moderno. É apenas cómodo. É apenas egoísta. É apenas cego para com a sua própria raiz.
A tecnologia deveria ser ponte – nunca muro.
Deveria aproximar – nunca excluir.
Deveria libertar – nunca humilhar.
Mas hoje, em 2026, criámos um sistema onde quem tem 70 anos é tratado como um intruso. Como alguém que atrasa a fila. Como alguém que “não percebe”. Como alguém que já não conta.
E no entanto… foram eles que contaram sempre. Foram eles que seguraram o país quando o país era só pedra e esperança. Foram eles que trabalharam sem férias, sem direitos, sem horários. Foram eles que fizeram de Portugal um lugar possível.
E agora, quando mais precisam, dizemos-lhes: “Desculpe, mas tem de instalar a aplicação.”
É aqui que a minha gota cai no oceano. Pequena, sim. Mas necessária.
Porque cada vez que alguém escreve, denuncia, levanta a voz, recusa esta normalidade absurda, o oceano mexe-se um milímetro.
E um milímetro… é o início de uma maré.
Porque...
A dignidade não é um QR code.
A cidadania não é uma password.
A velhice não é um erro de sistema.
E enquanto houver um idoso que não consegue aceder aos seus direitos porque o país decidiu que tudo deve caber num telemóvel, não somos modernos – somos vergonhosa e profundamente, injustos.
A minha gota está aqui. Pequena, mas inteira. E o oceano… o oceano já não será o mesmo depois dela. E se o oceano já não for o mesmo depois desta gota, então talvez – só talvez – ainda haja esperança de o fazer transbordar de justiça.
Nota: O Lago di Como é o mais profundo de Itália e um dos mais profundos de toda a Europa. E, por isso mesmo, do tamanho da minha indignação.

Quando o coração necessita de fechar a porta


Há pessoas que chegam à nossa vida como quem chega de uma tempestade: encharcadas de medos, marcadas por ausências, habituadas a sobreviver mais do que a viver.
Trazem nos gestos a memória de portas que nunca se lhes abriram, de vozes que nunca as chamaram pelo nome, de braços que nunca aprenderam a abraçá-las.
Sempre vi isso. Sempre senti essa fragilidade escondida por trás da agressividade, a fome de afeto disfarçada de desconfiança.
E, talvez por isso, tenha querido ser para alguns aquilo que lhes faltou desde o princípio: um porto de abrigo, um chão seguro, um gesto de pai onde nunca houve pai.
Não por heroísmo, apenas por humanidade.
Mas há um momento – e chega sempre devagar – em que a bondade começa a sentir o peso de ser recebida como obrigação.
Um instante em que o coração percebe que está a oferecer abrigo a quem só aprendeu a defender-se, mesmo quando já não há perigo.
E é aí que nasce o cansaço: não o cansaço de ajudar, mas o cansaço de não se estar a ser compreendido.
A desconfiança constante é uma chuva fina que ensopa devagar. A falta de respeito é um vento agreste que fecha portas que talvez nunca mais se abram.
E a agressividade gratuita é a pedra que se atira ao poço onde alguém tenta guardar água para todos.
Tenho sido sempre paciente. Tenho sido presente. Tenho sido justo. Mas até a paciência tem fronteiras, e até a generosidade precisa de repouso.
Não quero exigir reconhecimento. Não quero cobrar gratidão. Quero apenas que entendam que a minha bondade não é um direito adquirido, e que a minha presença não é um dever, é uma escolha minha.
Mas se ajudar é escolha minha, já ter de suportar o desrespeito, não pode ser destino. E, no entanto, continuo aqui porque desistir nunca foi verbo que me servisse.
Mas também sei que há um ponto onde até o coração mais largo precisa de fechar a porta, não por falta de amor, mas para não perder a dignidade.
Se algum dia eu me afastar definitivamente, não será por abandono. Será por respeito a mim mesmo. Porque ninguém pode ser pai de todas as dores do mundo.
E às vezes, proteger aquilo que somos é o gesto mais silencioso e mais profundo de amizade que se pode dar, mesmo a quem nunca aprendeu a recebê-la.
Texto e foto

Miradouro da Beirã

Provavelmente o Miradouro mais bonito e bem concebido de todo o concelho de Marvão, a invocar a arte e o engenho das construções em pedra seca tão comuns de toda esta região, bem como as sóchas que foram casa e abrigo de muitas famílias e animais até não há muitos anos atrás.
Todo o meu respeito pela memória dos dois insignes Beiranenses que o imaginaram e mandaram construir, e assim perpetuaram também a memória dos seus e nossos ancestrais.
Curiosamente, no lado esquerdo desta foto vislumbra-se o "coração" que durante 130 anos deu vida e voz a esta aldeia. A sua linda Estação Ferroviária, fronteiriça com Espanha e o casco velho do burgo com a igreja onde se venera Nossa Senhora do Carmo desde 16 de julho de 1943.
Texto e foto

Bom fim de semana

Hoje é um daqueles dias em que acordei com uma certeza muito simples:
Vivo de consciência tranquila. Não porque tenha acertado sempre, nem porque me tenha posto num pedestal que nunca pedi.
Vivo tranquilo porque caminho com a minha verdade, a única possível. Nunca prometi perfeição a ninguém, e talvez por isso nunca me tenha pesado o fardo de a fingir.
O meu mundo é pequeno para uns, grande para outros. Para mim, é do tamanho exato do que sinto, do que quero e do que faço. E o que faço – isso sim – é o reflexo mais fiel de quem sou quando ninguém está a ver.
O resto?
O resto só existe na cabeça dos outros: na confiança de quem me ama, nas certezas de quem me detesta, no humor apressado de quem acha que me conhece só porque ouviu meia história contada ao balcão.
Aprendi tarde, mas aprendi que não me cabe corrigir a imaginação de ninguém. Cada um pinta-me com as cores que tem.
Mas eu sigo com as minhas.
Nunca quis ser perfeito. A perfeição é uma casa onde não mora ninguém. A minha vida, essa sim, é perfeita, não porque seja lisa, mas porque é minha.
Feita de escolhas que me moldaram, de tropeços que me ensinaram, de silêncios que me protegeram, de memórias que me aquecem quando o mundo arrefece.
E às vezes, no meio desta lucidez toda, bate aquela nostalgia boa que vem da infância, dos cheiros da terra molhada, das vozes antigas que já não estão mas ainda falam, da simplicidade de um tempo em que bastava acordar para o dia ser inteiro.
Trago isso comigo, como quem leva um lenço no bolso: discreto, mas sempre à mão.
Por isso, hoje, antes que o mundo acelere, deixo este recado ao vento: que cada um encontre paz no que é, e não no que esperam que seja.
Que a vida vos seja leve, mesmo quando pesa.
E que o dia vos encontre de coração aberto, como quem chega a casa depois de muito caminho.
Tenham um excelente fim de semana.
Texto e foto
05. 06. 2026

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Histórias (giras) de contrabandistas da Beirã

Vejo-os perfeitamente:
Os guardas fiscais, de lanterna na mão, a correrem pelo montado, a praguejarem baixinho, a tropeçarem nas raízes das azinheiras, convencidos de que vão finalmente apanhar os malandros.
E de repente… silêncio.
Um silêncio tão fundo que até o vento parece parar para ouvir.
Os guardas olham em volta, farejam o ar, cansados, mas nada. Nem um passo. Nem um sussurro. Nem o estalar de um restolho.
Desistem. Resmungam. Voltam para trás.
E só muito depois, quando a noite já está madura e a lua parece cúmplice, é que os contrabandistas descem das azinheiras, devagarinho, como gatos satisfeitos.
Tinham estado ali o tempo todo. Mesmo por cima das cabeças dos guardas.
É impossível não rir ao imaginar um ataque de tosse mal contido, um espirro traidor, ou até um ramo a partir-se no momento errado.
Aquela mistura de perigo e comédia só existiu na vida real e nunca nos filmes.
E eu ri até às lágrimas ao ouvi-lo contar, na primeira pessoa, ao tio António Viegas – mais conhecido por ti Antónho Cascato, que Deus já lá tem – grandessíssimo amigo do meu pai, numa tarde descontraída na “casinha da má língua” da Beirã.
Porque estas histórias não são só engraçadas – são identidade, são carácter, são a alma e património da nossa fronteira.
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O meio dia do sol

Havia rituais que não precisavam de explicação, apenas de silêncio. Bastava chegar o Corpo de Deus para que a casa se tornasse mais lenta, mais recolhida, como se respirasse ao ritmo de um tempo mais antigo. Para a minha mãe e para toda aquela geração humilde e analfabeta mas profundamente crente, esse era o dia mais santo do ano. O único em que o céu parecia descer um pouco mais perto da vida dos homens.
Dizia ela que, ao meio-dia, as folhas das oliveiras se cruzavam para formar uma cruz. Não era metáfora, nem superstição, nem poesia: era verdade. Uma verdade tão firme quanto o pão que amassava, quanto a água que tirava do poço, quanto a aceitação com que carregava as dores que a vida lhe entregava.
E eu, ano após ano, fui ao quintal confirmar essa promessa. Fui rapaz curioso, homem já feito, filho que queria acreditar. Fui com a humildade de quem não quer desmentir, mas compreender. Fui com a esperança que, por uma vez que fosse, o milagre se deixasse ver.
Nunca o encontrei. Mas voltava sempre.
Quando lhe dizia que nada tinha acontecido, ela sorria com aquela serenidade que só os crentes verdadeiros possuem e respondia: “Não é ao meio-dia do relógio… é ao meio-dia do sol.” E nessa frase cabia uma filosofia inteira. Para ela, o tempo não era aquilo que os ponteiros marcavam, era aquilo que a luz dizia. O relógio podia enganar-se, os governos podiam mudar a hora, mas o sol… o sol nunca mentia.
Era o único calendário que reconhecia, o único mestre que obedecia ao ritmo de Deus.
Eu procurava o instante exato: o ângulo da luz, a sombra mais curta, o silêncio suspenso. Ela procurava outra coisa: um alinhamento interior, uma paz que não dependia do céu visível. E talvez por isso nunca encontrei o que ela via. Porque ela não esperava um fenómeno – esperava um sentido.
A geração da minha mãe sabia pouco de letras, mas sabia ler o mundo como hoje quase ninguém sabe. Liam o vento, liam o comportamento dos animais, liam a chuva antes de ela cair, liam a dor sem palavras, liam a presença de Deus nas pequenas coisas. A fé deles não era uma equação. Era uma casa. Uma sombra fresca no verão. Um lume aceso no inverno. Um lugar onde se podia entrar quando o mundo ficava grande demais.
A minha mãe não precisava que as folhas se cruzassem. Ela sabia que se cruzavam. E isso bastava-lhe.
Hoje percebo que ao ir ao quintal todos os anos, também eu não procurava a cruz nas oliveiras. Procurava a fé dela. Procurava tocar, nem que fosse por um instante, o lugar interior onde ela guardava a sua certeza tranquila. E, sem o saber, toquei. Porque cada vez que saía de casa ao meio-dia, cada vez que olhava para as oliveiras, cada vez que esperava um sinal, estava a honrar a mulher que me ensinou a distinguir o bem do mal, a reconhecer o sagrado no quotidiano, a aceitar o mistério sem o querer dominar.
A fé dela não precisava de prova. Mas a minha procura era, em si mesma, um ato de fé.
Nunca encontrei o tal instante. E, no entanto, ele existe, não no céu, mas na memória. O “meio-dia do sol” tornou-se uma metáfora minha: o momento em que a luz interior se alinha, em que a saudade se torna presença, em que a voz da minha mãe regressa com a mesma serenidade de sempre. Talvez seja isso que ela queria dizer, sem o saber explicar: que há horas que não pertencem ao relógio, mas ao coração.
E esse meio-dia, esse sim, encontro-o sempre que volto a esta lembrança. Sempre que escrevo sobre ela. Sempre que caminho, em silêncio, pelo quintal da memória.
Dedico este texto à mãe Florinda, à avó Amélia e a sua toda a geração que, sem saber ler nem escrever, lia o mundo com uma pureza que hoje quase não existe. Que este “meio dia do sol” fique como memória viva da fé de todos eles, da sua bondade silenciosa e da forma humilde e luminosa com que habitaram esta terra.
E que os vindouros saibam que houve um tempo em que o sagrado cabia nas mãos calejadas e no coração limpo de quem nada tinha, mas tudo dava.
Texto e foto
Dia de Corpo de Deus 2026