sexta-feira, 5 de junho de 2026

Miradouro da Beirã

Provavelmente o Miradouro mais bonito e bem concebido de todo o concelho de Marvão, a invocar a arte e o engenho das construções em pedra seca tão comuns de toda esta região, bem como as sóchas que foram casa e abrigo de muitas famílias e animais até não há muitos anos atrás.
Todo o meu respeito pela memória dos dois insignes Beiranenses que o imaginaram e mandaram construir, e assim perpetuaram também a memória dos seus e nossos ancestrais.
Curiosamente, no lado esquerdo desta foto vislumbra-se o "coração" que durante 130 anos deu vida e voz a esta aldeia. A sua linda Estação Ferroviária, fronteiriça com Espanha e o casco velho do burgo com a igreja onde se venera Nossa Senhora do Carmo desde 16 de julho de 1943.
Texto e foto

Bom fim de semana

Hoje é um daqueles dias em que acordei com uma certeza muito simples:
Vivo de consciência tranquila. Não porque tenha acertado sempre, nem porque me tenha posto num pedestal que nunca pedi.
Vivo tranquilo porque caminho com a minha verdade, a única possível. Nunca prometi perfeição a ninguém, e talvez por isso nunca me tenha pesado o fardo de a fingir.
O meu mundo é pequeno para uns, grande para outros. Para mim, é do tamanho exato do que sinto, do que quero e do que faço. E o que faço – isso sim – é o reflexo mais fiel de quem sou quando ninguém está a ver.
O resto?
O resto só existe na cabeça dos outros: na confiança de quem me ama, nas certezas de quem me detesta, no humor apressado de quem acha que me conhece só porque ouviu meia história contada ao balcão.
Aprendi tarde, mas aprendi que não me cabe corrigir a imaginação de ninguém. Cada um pinta-me com as cores que tem.
Mas eu sigo com as minhas.
Nunca quis ser perfeito. A perfeição é uma casa onde não mora ninguém. A minha vida, essa sim, é perfeita, não porque seja lisa, mas porque é minha.
Feita de escolhas que me moldaram, de tropeços que me ensinaram, de silêncios que me protegeram, de memórias que me aquecem quando o mundo arrefece.
E às vezes, no meio desta lucidez toda, bate aquela nostalgia boa que vem da infância, dos cheiros da terra molhada, das vozes antigas que já não estão mas ainda falam, da simplicidade de um tempo em que bastava acordar para o dia ser inteiro.
Trago isso comigo, como quem leva um lenço no bolso: discreto, mas sempre à mão.
Por isso, hoje, antes que o mundo acelere, deixo este recado ao vento: que cada um encontre paz no que é, e não no que esperam que seja.
Que a vida vos seja leve, mesmo quando pesa.
E que o dia vos encontre de coração aberto, como quem chega a casa depois de muito caminho.
Tenham um excelente fim de semana.
Texto e foto
05. 06. 2026

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Histórias (giras) de contrabandistas da Beirã

Vejo-os perfeitamente:
Os guardas fiscais, de lanterna na mão, a correrem pelo montado, a praguejarem baixinho, a tropeçarem nas raízes das azinheiras, convencidos de que vão finalmente apanhar os malandros.
E de repente… silêncio.
Um silêncio tão fundo que até o vento parece parar para ouvir.
Os guardas olham em volta, farejam o ar, cansados, mas nada. Nem um passo. Nem um sussurro. Nem o estalar de um restolho.
Desistem. Resmungam. Voltam para trás.
E só muito depois, quando a noite já está madura e a lua parece cúmplice, é que os contrabandistas descem das azinheiras, devagarinho, como gatos satisfeitos.
Tinham estado ali o tempo todo. Mesmo por cima das cabeças dos guardas.
É impossível não rir ao imaginar um ataque de tosse mal contido, um espirro traidor, ou até um ramo a partir-se no momento errado.
Aquela mistura de perigo e comédia só existiu na vida real e nunca nos filmes.
E eu ri até às lágrimas ao ouvi-lo contar, na primeira pessoa, ao tio António Viegas – mais conhecido por ti Antónho Cascato, que Deus já lá tem – grandessíssimo amigo do meu pai, numa tarde descontraída na “casinha da má língua” da Beirã.
Porque estas histórias não são só engraçadas – são identidade, são carácter, são a alma e património da nossa fronteira.
Texto e foto

O meio dia do sol

Havia rituais que não precisavam de explicação, apenas de silêncio. Bastava chegar o Corpo de Deus para que a casa se tornasse mais lenta, mais recolhida, como se respirasse ao ritmo de um tempo mais antigo. Para a minha mãe e para toda aquela geração humilde e analfabeta mas profundamente crente, esse era o dia mais santo do ano. O único em que o céu parecia descer um pouco mais perto da vida dos homens.
Dizia ela que, ao meio-dia, as folhas das oliveiras se cruzavam para formar uma cruz. Não era metáfora, nem superstição, nem poesia: era verdade. Uma verdade tão firme quanto o pão que amassava, quanto a água que tirava do poço, quanto a aceitação com que carregava as dores que a vida lhe entregava.
E eu, ano após ano, fui ao quintal confirmar essa promessa. Fui rapaz curioso, homem já feito, filho que queria acreditar. Fui com a humildade de quem não quer desmentir, mas compreender. Fui com a esperança que, por uma vez que fosse, o milagre se deixasse ver.
Nunca o encontrei. Mas voltava sempre.
Quando lhe dizia que nada tinha acontecido, ela sorria com aquela serenidade que só os crentes verdadeiros possuem e respondia: “Não é ao meio-dia do relógio… é ao meio-dia do sol.” E nessa frase cabia uma filosofia inteira. Para ela, o tempo não era aquilo que os ponteiros marcavam, era aquilo que a luz dizia. O relógio podia enganar-se, os governos podiam mudar a hora, mas o sol… o sol nunca mentia.
Era o único calendário que reconhecia, o único mestre que obedecia ao ritmo de Deus.
Eu procurava o instante exato: o ângulo da luz, a sombra mais curta, o silêncio suspenso. Ela procurava outra coisa: um alinhamento interior, uma paz que não dependia do céu visível. E talvez por isso nunca encontrei o que ela via. Porque ela não esperava um fenómeno – esperava um sentido.
A geração da minha mãe sabia pouco de letras, mas sabia ler o mundo como hoje quase ninguém sabe. Liam o vento, liam o comportamento dos animais, liam a chuva antes de ela cair, liam a dor sem palavras, liam a presença de Deus nas pequenas coisas. A fé deles não era uma equação. Era uma casa. Uma sombra fresca no verão. Um lume aceso no inverno. Um lugar onde se podia entrar quando o mundo ficava grande demais.
A minha mãe não precisava que as folhas se cruzassem. Ela sabia que se cruzavam. E isso bastava-lhe.
Hoje percebo que ao ir ao quintal todos os anos, também eu não procurava a cruz nas oliveiras. Procurava a fé dela. Procurava tocar, nem que fosse por um instante, o lugar interior onde ela guardava a sua certeza tranquila. E, sem o saber, toquei. Porque cada vez que saía de casa ao meio-dia, cada vez que olhava para as oliveiras, cada vez que esperava um sinal, estava a honrar a mulher que me ensinou a distinguir o bem do mal, a reconhecer o sagrado no quotidiano, a aceitar o mistério sem o querer dominar.
A fé dela não precisava de prova. Mas a minha procura era, em si mesma, um ato de fé.
Nunca encontrei o tal instante. E, no entanto, ele existe, não no céu, mas na memória. O “meio-dia do sol” tornou-se uma metáfora minha: o momento em que a luz interior se alinha, em que a saudade se torna presença, em que a voz da minha mãe regressa com a mesma serenidade de sempre. Talvez seja isso que ela queria dizer, sem o saber explicar: que há horas que não pertencem ao relógio, mas ao coração.
E esse meio-dia, esse sim, encontro-o sempre que volto a esta lembrança. Sempre que escrevo sobre ela. Sempre que caminho, em silêncio, pelo quintal da memória.
Dedico este texto à mãe Florinda, à avó Amélia e a sua toda a geração que, sem saber ler nem escrever, lia o mundo com uma pureza que hoje quase não existe. Que este “meio dia do sol” fique como memória viva da fé de todos eles, da sua bondade silenciosa e da forma humilde e luminosa com que habitaram esta terra.
E que os vindouros saibam que houve um tempo em que o sagrado cabia nas mãos calejadas e no coração limpo de quem nada tinha, mas tudo dava.
Texto e foto
Dia de Corpo de Deus 2026

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Benção a duas vidas


Cinquenta anos depois, continuamos assim: tu e eu, lado a lado, como duas árvores que aprenderam a crescer na mesma direção.

As raízes entrelaçaram-se devagar, com paciência antiga, e hoje já nenhum de nós sabe onde acaba uma e começa a outra.
Há luz no teu sorriso, há casa no teu olhar, e há em nós uma serenidade que só o tempo sabe oferecer a quem nunca desistiu de caminhar junto.
Somos feitos de estações inteiras: primaveras que nos abriram o peito, verões que nos aqueceram a alma, outonos que nos ensinaram a deixar ir, e invernos que vencemos abraçados.
E quando nos vejo assim, captados por esta fotografia, penso que o amor talvez seja isto: um gesto simples, um toque leve, uma vida inteira a caber num instante.
Cinquenta anos depois, continuamos a ser nós. E isso é a mais bela das evidências.
Texto e foto

Coincidências – ou talvez não

Naquele final de manhã encontrava-me numa das salas de espera do Hospital de Portalegre, sentado entre cadeiras frias e passos apressados, a acompanhar a minha companheira. Há poucas semanas partira um joelho; naquele dia, retiraria finalmente o gesso.
Mas eu não conseguia sentir alívio. Uma sombra pesada instalara-se em mim: o receio de que a rótula esmigalhada fosse uma sentença de invalidez para uma mulher ainda tão jovem, esposa e mãe, com a vida inteira pela frente e fadada a manter um lar onde três homens insistem em desarrumar o que ela arruma.
Enquanto esperava, deixei-me afundar nos meus próprios pensamentos. Questionava, inquieto, os desígnios do Altíssimo, esses caminhos que tantas vezes nos parecem tortuosos, injustos, indecifráveis.
Foi então que a enorme porta envidraçada se abriu de rompante para dar passagem a uma maca. A corrente de ar que entrou varreu a sala e fez levantarem voo vários panfletos pousados numa prateleira, papéis anónimos que até então ninguém parecera notar.
Um deles veio pousar, com uma precisão quase insolente, junto aos meus pés. Apanhei-o sem pensar, apenas por reflexo. Mas o desenho a carvão do rosto de Jesus Cristo, tão deslocado naquele ambiente de urgências e rotinas hospitalares, obrigou-me a olhar melhor.
E acabei por ler o “recado” que trazia escrito.
À medida que avançava pelas palavras - simples, diretas, quase íntimas - senti uma serenidade inesperada a infiltrar-se em mim. Uma emoção quente subiu-me aos olhos, e por instantes fiquei ali, imóvel, com o papel na mão, como se o mundo tivesse abrandado.
Era como se aquele texto tivesse sido escrito para mim, naquele instante preciso, naquele lugar improvável. E posso afirmar que não sentia um conforto interior tão profundo desde o dia em que a minha companheira caíra pelas escadas e fizera em três a rótula do joelho.
Guardo, até hoje, aquela folha e desenho que o vento, por acaso ou por algo mais, fez chegar até mim.
Com o tempo, ponderando tudo a frio, reconheço com humildade que nada houve que nos devesse ter feito duvidar. Pelo contrário, houve muito, imensamente, para agradecer.
A Manuela teve a sorte, ou aquilo que cada um quiser chamar-lhe, de ser atendida de imediato por um dos mais qualificados ortopedistas do país, que por coincidência estava de serviço nas Urgências do hospital naquele dia e turno.
Com perícia e competência, uniu os três fragmentos da rótula com grampos e fios metálicos, reconstruindo-a de tal forma que não ficou qualquer sequela, para além da cicatriz que o tempo não apaga.
Dirão alguns que tudo não passou de coincidências. Talvez sim. Ou talvez não. A luz dos factos nem sempre coincide com a luz da fé. E cada um, como é justo, ficará com aquilo em que acredita.
Tenham um bom feriado de Corpo de Deus, Família & Amizades

(PS)
Republicação em formato menos descritivo.

Enquanto eu tiver voz


Há terras que não são apenas lugares: são pátria, dentro da Pátria, são sangue dentro do sangue, são voz dentro da voz.
O interior do meu país é uma delas. E por isso, quando o ferem, eu sangro. Quando o abandonam, eu grito. Quando o esquecem, eu escrevo. E quando tentam calá-lo, eu levanto-me.
Porque há séculos que estas terras seguram o país às costas. Foram elas que alimentaram cidades, que deram homens à guerra, que deram pão às mesas, que deram silêncio aos poetas e coragem aos que ficaram.
E agora querem que morram em silêncio?
Não. Enquanto eu estiver vivo, não.
O abandono não foi acidente. O interior não morreu de velhice. Não morreu de cansaço. Não morreu de falta de gente.
O interior morreu de decisões.
Decisões tomadas por mãos que nunca tocaram terra. Por olhos que nunca viram uma casa ruir. Por ouvidos que nunca escutaram o silêncio de uma aldeia ao fim da tarde. Por cabeças que nunca precisaram de um comboio para chegar ao trabalho.
Quando fecharam o Ramal de Cáceres, não fecharam só uma linha. Fecharam vidas. Fecharam horizontes. Fecharam a porta a quem dependia daquele movimento para sobreviver.
E quando as fronteiras fecharam, o interior ficou encurralado como um animal ferido. Sem saída. Sem futuro. Sem voz.
Foi o caos. Famílias no desemprego. Filhos a estudar sem saberem como pagar livros. Casas com prestações que não esperavam. E houve quem morresse cedo demais, não de doença, mas de angústia. Sim, a angústia matou.
Eu vi isso acontecer na Beirã. E nunca mais me saiu da alma.
Quantas Beirãs há neste País? Quantas casas perderam telhados? Quantos fornos comunitários estão a ruir? Quantas estações ferroviárias ficaram às moscas? Quantas escolas fecharam porque “não compensa mantê-las abertas”? Quantos serviços desapareceram porque “não há população suficiente”?
E quantas vezes repetiram essas frases até que ela se tornassem sentenças? Até que o interior fosse tratado como um velho incómodo, um peso morto, um lugar para deixar cair porque já não serve?
Mas eu digo: não.
Não aceito. Não consinto. Não me calo.
Porque a raiva justa também é amor.
Há quem confunda resistência com teimosia. Mas quem vive aqui sabe que resistir é amar as nossas raízes, o nosso chão, as nossas memórias.
É amar a terra que nos fez. É amar os avós que nos ensinaram dignidade. É amar as casas que ainda tentam ficar de pé. É amar o silêncio que não é vazio, é pertença.
E é amar tanto, que dói.
Dói ver cair o que era nosso. Dói ver partir quem não queria partir. Dói ver morrer quem não devia morrer. Dói ver o país esquecer-se de metade dele.
Enquanto eu conseguir falar e escrever, a minha terra não morre!
Porque eu não me calo. Nunca me calarei.
Porque enquanto houver uma aldeia, um forno antigo, uma árvore que resiste ao vento, uma memória que insiste em viver, haverá país.
E enquanto eu tiver voz, essa memória não morre. Enquanto eu respirar, esta terra não cai. Enquanto eu resistir, o meu chão não será ruína.
O interior não pede nem necessita de esmolas. Pede e necessita de respeito. Pede e necessita de justiça. Pede e necessita que o deixem existir.
Enquanto eu viver, não deixarei que o matem em silêncio.
Texto e foto
03. 06. 2026