sexta-feira, 10 de julho de 2026

À minha Maria Coelho

À mulher que caminha comigo há 55 anos,
À mulher que me ensinou o peso leve da vida,
que me acompanhou nos dias de sol e nos dias de chuva,
que soube ser porto quando eu era tempestade
e soube ser vento quando eu precisava de rumo.
Há 55 anos que me atura e me ajuda.
Neste tempo todo foi casa, foi estrada, foi silêncio bom.
Foi a mão que segurou, o olhar que compreendeu,
a paciência que não se aprende nos livros,
a ternura que não se compra,
o amor que não se explica, vive-se.
Se hoje escrevo, é porque tu existes.
Se hoje sou quem sou, é porque tu estás comigo.
Obrigado por cada ano, cada gesto, cada perdão, cada riso.
E que venham muitos mais,
porque contigo até o tempo tem mais sentido.

Algo maior do que a própria vida

A Senhora do Carmo já deixou a Toca dos Coelhos e seguiu serena, para o seu altar. E eu fiquei aqui, parado no meio da manhã da Beirã, com a alma a tremer como se tivesse sido tocada por algo maior do que a própria vida.
Nunca imaginei viver uma honra destas. Nunca sonhei que um dia me caberia a mim acolher esta Senhora que tantas gerações de Beiranenses amaram, veneraram e confiaram como quem confia num porto seguro.
Ela não é apenas devoção – é memória viva, é raiz, é sangue antigo correndo nas veias da nossa gente.
Enquanto a viatura a leva devagar e com o maior cuidado, sinto que cada passo, cada olhar, cada silêncio à minha volta carrega histórias de quem já partiu, de quem cresceu com esta fé, de quem encontrou nela consolo nos dias difíceis.
E eu, no meio de tudo isto, percebo que não estou só a assistir: estou a participar. Estou a ser parte de uma corrente que vem de muito longe e que continuará muito depois de mim.
A emoção aperta-me o peito, mas não me envergonha porque é boa, é limpa, é verdadeira. É o reconhecimento silencioso de que a minha terra me deu um lugar naquilo que tem de mais sagrado.
A Senhora do Carmo passou por minha casa como passa o vento que conhece cada pedra da Beirã. E eu fiquei com a certeza íntima de que há momentos que não se repetem, ficam guardados no coração como uma bênção que ninguém nos pode tirar.
Foram doze dias a viver com o coração em estado de espera. Doze dias em que cada gesto, cada flor, cada olhar parecia carregar uma história maior do que eu.
E agora percebo que esta devoção não é só fé: é pertença. É raiz. É sangue que vem de trás e que continua em mim, sem eu ter pedido, sem eu ter escolhido, como se a própria terra tivesse decidido que eu era digno de A acolher em minha casa.
Nunca lhe faltou o nosso infinito respeito, nunca lhe faltaram flores. Nunca lhe faltou a nossa fé e devoção.
E hoje, pela primeira vez, senti que também eu não lhe faltei. Que estive com Ela sem máscaras, sem vaidades, sem nada que não fosse verdade.
O inimaginável aconteceu.
E não foi barulho, não foi espetáculo, foi uma paz funda, quase secreta, que me disse que a vida às vezes recompensa quem nunca pediu nada.
Texto e foto

A fé da Beirã encontrou abrigo no silêncio da minha casa

Sempre o senti. Nunca precisei de o dizer. A paz, para mim, não é para se exibir, é para se viver. E talvez por isso este acontecimento tenha chegado com a nobreza das coisas que não se anunciam.
Inesperadamente, sem nunca sequer ter sido sonhado por tão improvável que era, a Senhora do Carmo – Padroeira da Beirã desde 1943 – veio repousar no meu lar.
Jamais imaginei que a imagem que acompanhou gerações inteiras da minha aldeia, que viu procissões atravessarem as ruas da terra, que escutou promessas murmuradas ao entardecer, que acolheu lágrimas e esperanças, viria encontrar abrigo precisamente aqui, neste espaço simples onde há 74 anos nasci, onde vivo agora com serenidade e gratidão.
Quando a Senhora entrou, não entrou apenas uma imagem. Entrou a história da Beirã. Entraram as vozes das mulheres que rezaram diante dela, os passos firmes das procissões, as mãos calejadas dos homens que nela confiaram. Entrou a memória viva de um povo inteiro, com a sua dignidade antiga e o seu coração fiel.
E a minha casa – esta casa que sempre cuidei com respeito, com silêncio e com verdade – reconheceu a hóspede. Houve luz, mas não ostentação; houve recolhimento, mas não vazio; houve presença, mas não peso.
Houve, acima de tudo, paz profunda, aquela paz que não se explica, apenas se sente.
Mas esta honra não começou agora. Começou há mais de sete décadas, quando eu ainda era apenas o Zéi com dois anos, a aprender a falar, a descobrir o mundo com passos pequenos.
Contava a mãe Florinda que sempre que os sinos tocavam para a missa, eu desatava a correr pela rua abaixo. Ela chamava: “Zéi… mas onde é que vais a correr tanto?” E eu, ainda a tropeçar nas palavras, respondia com a alegria pura da infância: “Vou à micha, mãe… vou à micha.”
Talvez essa corrida de menino tenha sido o primeiro passo para este inesperado e tão honroso acolhimento, porque desde aquele tempo até hoje, a Senhora do Carmo foi o farol da minha vida, a luz que nunca se apagou, a presença que sempre me guiou, mesmo quando o caminho era estreito, mesmo quando a noite era longa.
Não escrevo estas palavras para exibir a minha profunda devoção. Não as escrevo para me colocar no centro de nada. Escrevo-as apenas porque são verdade.
A maior honra da minha vida aconteceu assim sem testemunhas, sem discursos nem alardes. Aconteceu no silêncio de que tanto gosto e me acompanha permanentemente, no silêncio que permaneceu desde o dia que a Senhora chegou até hoje, o dia em que a Senhora regressou ao seu altar, ao seu lugar de sempre, ao coração da comunidade que a ama desde 1943.
Só hoje, quando tudo está de novo no seu lugar, publico estas linhas. Não para me gabar mas para deixar registado que, por alguns dias, a minha humilde casa foi abrigo de uma história maior do que eu. E que essa história me trouxe uma honra sem tamanho, uma alegria sem fim, uma bênção que nunca imaginei merecer, quanto mais receber.
Avé Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco...
Texto e foto

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Belos tempos

Houve um tempo em que as noites de verão na Beirã tinham uma respiração própria. Não era o silêncio que hoje domina as ruas – era um murmúrio vivo, uma espécie de música feita de gente, de passos, de vozes, de vida.

Ao cair da noite, quando o calor começava finalmente a largar a pele, a aldeia abria-se como um livro. As portas ficavam entreabertas, as janelas escancaradas, e as pessoas vinham para a rua como quem regressa ao seu lugar natural.

As mulheres traziam cadeiras de bunho, gastas pelo uso, e sentavam-se ao fresco, alinhadas como se fossem uma varanda contínua que atravessava a aldeia inteira. Conversavam baixinho, falavam dos filhos, das costuras, das dores que vinham e iam, das esperanças que nunca se perdiam.

Havia risos, confidências, desabafos e tudo isso se misturava com o cheiro da terra quente e dos quintais acabados de regar.

Os homens juntavam-se também a esse convívio estival e falavam das batatas, das cebolas, das couves, das chuvas que vinham tarde, das enxadas que precisavam de um cabo novo. Era uma conversa simples, mas cheia de mundo porque ali, naquela troca de palavras, estava a vida inteira de cada um.

E depois… depois vinha a música celestial dos gaiatos.

Dezenas deles – sim, dezenas – a correrem pelas ruas como se fossem rios de alegria. Jogavam à apanhada, ao pião, ao berlinde, inventavam mundos, criavam reinos, faziam da noite o seu palco. As mães chamavam, mas eles fingiam não ouvir. As estrelas acendiam-se, mas eles continuavam. A lua subia, mas eles ainda tinham histórias para viver.

A aldeia era um coro. Um coro de vozes, de passos, de gargalhadas. Um coro que não precisava de maestro – bastava existir.

E havia algo mais: respeito. Os funcionários públicos, os ferroviários, os guardas fiscais, os despachantes, todos conviviam lado a lado com os hortelãos, os pedreiros, as costureiras, os pequenos agricultores. Não havia manias de grandeza. Não havia quem se achasse mais do que o outro. A aldeia era uma só, inteira, igual, unida.

As noites de verão eram o espelho dessa união. Eram o lugar onde todos cabiam. Onde todos pertenciam. Onde todos eram alguém.

Hoje, a Beirã está mais silenciosa. Mas quando a noite cai, se escutarmos bem, ainda se ouve qualquer coisa – um eco, uma memória, um resto de vida antiga que insiste em ficar.

E talvez seja por isso que estas noites de agora, mesmo mais quietas, ainda têm beleza: porque carregam dentro delas todas as outras que já vivi.

José Coelho

O andor da Senhora e a menina da Beirã

No dia 16 de julho de 1971 o comboio das oito da noite trouxe-me de Lisboa para a Beirã como quem regressa a dois mundos: o da tropa onde acabara de concluir o Curso de Transmissões com nota tão generosa que me propôs à promoção a Cabo de Transmissões de Infantaria, e o da aldeia, onde cada gesto tem o peso antigo das tradições e das pessoas que nos moldam.
Desci do comboio com o saco às costas e o corpo ainda preso ao ritmo militar, mas a alma já virada para o adro da igreja. A minha sogra tinha sido sepultada naquele mesmo dia e eu sentia que devia estar presente na Procissão da Senhora do Carmo não por obrigação, mas por um chamado interior, desses que não se discutem.
A Beirã estava como sempre em julho: quente, com cheiro a terra seca e a ervas pisadas, com a poeira fina das estradas de granito a levantar-se ao menor sopro de vento. No adro juntavam-se já dezenas de pessoas, velas acesas, murmúrios, passos lentos, e aquela respiração coletiva que só uma aldeia pequena conhece.
Quando vi o andor, ainda mais pesado pelos candelabros metálicos a ele aparafusados, senti que era ali que devia estar. Pedi para o levar. E levei-o mesmo durante toda a procissão, sem substituição. O peso era brutal, o ombro doía-me, o pescoço inchou de tal maneira que passei uma semana sem conseguir virar a cabeça para aquele lado. Mas eu sabia que aquele esforço era mais do que físico: era uma promessa silenciosa, uma oferenda, um gesto de gratidão.
Nesse mesmo dia, além de honrar a memória da minha sogra, começou também outra missão: a de apoiar a Maria Manuela, que tinha apenas 16 anos e uma história de vida que me tocava profundamente.
Ela crescera só com a mãe. O pai abandonara ambas no dia em que ela nasceu, deixando-as entregues uma à outra. E agora, naquele verão de 1971, era uma menina que acabara de perder quem a defendia, quem lhe segurava o mundo, quem lhe dava todo o amparo que tinha conhecido até então.
Começara a trabalhar muito cedo, aos 13 anos – em outubro de 1967 já fazia descontos para a Segurança Social e ganhava o seu salário na Celtex, a fábrica de calçado. Era responsável, séria, dedicada. Mas era também frágil, não por falta de coragem, mas porque ninguém tão jovem devia enfrentar o mundo sem um colo onde pousar a alma.
Eu via nela uma força silenciosa, uma dignidade natural, e também uma solidão que me comovia.
Talvez por isso, naquele dia da procissão, enquanto carregava o andor, senti que carregava também outra coisa: a responsabilidade de ser ombro amigo, porto de abrigo e confidente daquela menina que acabara de perder quem incondicionalmente a amava.
E assim foi.
Três meses depois, fui mobilizado para a guerra em Angola. E já éramos namorados.
Durante esses 27 meses de ausência escrevia-lhe três ou quatro vezes por semana, em aerogramas e cartas que ela guarda até hoje. Era a minha forma de estar presente, de lhe dizer que, apesar da distância e da guerra, ela não estava sozinha.
Passaram, quase sem darmos por isso, 55 anos.
E nunca mais nos separámos.
Foto Pedro Coelho

O respeito é a base.

O respeito é a base. Não há confiança, não há amor, não há amizade, se não houver respeito”.
Há frases que não são apenas ideias – são alicerces. Esta, escrita por Guilherme de Campos, é uma delas. Na Beirã como em qualquer lugar onde as relações ainda se medem pelo olhar direto e pela palavra dada, sabe-se bem que o respeito não é ornamento: é estrutura. Sem ele, tudo o que parece sólido se desfaz como barro mal cozido.
O respeito é o primeiro gesto silencioso entre duas pessoas. É o modo como se escuta, como se fala, como se pisa o território do outro sem o invadir. É a consciência de que cada ser humano carrega uma história, uma fragilidade, uma dignidade que não pode ser tratada como coisa descartável.
A confiança nasce daí, desse chão firme onde ninguém teme ser diminuído. E o amor, seja ele de amizade, de família ou de companheirismo, só floresce quando há esse cuidado essencial: não ferir, não humilhar, não manipular, não usar. O amor sem respeito é apenas apego; a amizade sem respeito é apenas convivência acidental; a confiança sem respeito é ilusão prestes a quebrar.
Na vida, porém, há quem confunda sinceridade com brutalidade, franqueza com agressividade, proximidade com licença para desconsiderar. E é aí que tudo começa a ruir. Porque o desrespeito não é só uma falha de educação, é também uma falha de humanidade.
O respeito é a base. É o que permite que duas pessoas caminhem lado a lado sem medo de tropeçar uma na outra. É o que sustenta a palavra, o gesto, o silêncio. É o que impede que a amizade se torne desgaste, que o amor se torne peso, que a confiança se torne risco.
E quando falta, falta tudo.
Por isso, quem quer preservar vínculos deve começar pelo essencial: respeitar o outro, respeitar a si próprio, respeitar o espaço onde a relação vive. Só assim se constrói o que vale a pena, o que dura, o que não se quebra ao primeiro vento.
Texto e foto
09. 07. 2026

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Tardes na Beirã


O sol vai espreguiçando-se do pela Beirã como quem pousa um pano de linho sobre uma mesa antiga. O calor aperta ainda e as rolas, minhas fiéis companheiras, arrulham o seu canto dolente e repetido, como se marcassem o ritmo do tempo.
Rego o quintal com a serenidade de quem conhece cada planta, pelo nome. Uma luz especial filtra-se pelas folhas do limoeiro e desenha no chão mapas que ninguém segue, mas todos admiram.
A água da pia no chafariz, espelhada e quieta, devolve-me o rosto, não como reflexo, mas como memória.
Tranquilo, sem pressa, medito: Há dias em que me basta isto:
Estar. Respirar. Ouvir.
Texto e foto