quarta-feira, 8 de julho de 2026

Agradecimento aos meus leitores

Há dias em que escrevo apenas para mim, para arrumar pensamentos, para dar nome ao que sinto. Mas há outros – como este – em que escrevo para agradecer. Agradecer a todos os que lêem, comentam, partilham, sorriem, se reconhecem, se emocionam, e fazem das minhas crónicas da Beirã um lugar vivo, habitado, respirado.

A nossa terra tem esta particularidade: quanto mais parece pequena, mais se agiganta. Quem aqui vive sabe que cada pedra tem história, cada sombra tem memória, cada caminho guarda passos de gente que já não está.

Há mais de cinco mil anos que mãos humanas moldam este território – ergueram antas, abriram clareiras, acenderam fogos, fizeram pão, criaram filhos, enterraram pais, deixaram marcas que o tempo não apagou.

E no entanto, ironicamente, é agora – no tempo do chamado progresso – que a terra se vê a esvaziar. Não por pandemias, não por falta de meios, não por isolamento forçado. Mas por uma pressa moderna que não sabe olhar para trás, que não reconhece valor no que é antigo, que confunde desenvolvimento com abandono.

O progresso, esse gigante cego, trouxe estradas, trouxe máquinas, trouxe velocidade e, sem pedir licença, matou muito do que era bom.

Mas enquanto eu viver, enquanto tiver voz, enquanto tiver mãos para escrever e memória para contar, não deixarei esta terra morrer. Não deixarei que o silêncio tome o lugar das histórias. Não deixarei que o esquecimento cubra os vestígios de quem aqui viveu antes de nós.

Não deixarei que a desertificação seja sentença.

E é por isso que vos agradeço a todos. Porque cada comentário vosso é uma porta aberta. Cada leitura é uma luz acesa. Cada partilha é uma forma de dizer: “Esta terra ainda importa.”

A Beirã não vive só de quem nela mora. Vive também de quem a lê.

E enquanto houver leitores, haverá futuro. Por isso termino esta partilha, não como quem fecha um livro, mas como quem encosta a porta sem a trancar. A Beirã continua aqui, inteira, antiga, resistente, feita de memórias que não cedem à pressa do mundo.

E eu continuo aqui também, enquanto puder, enquanto a voz me servir, enquanto a terra me chamar.

A todos os que lêem estas palavras, deixo apenas isto: cada leitura vossa é uma forma de manter viva esta paisagem que o progresso tenta calar. Cada “gosto” vosso – breve, simples, sincero – é uma pedra colocada no lugar certo. E que enquanto houver quem nos acompanhe, a Beirã não será silêncio, nem ausência, nem passado.

Será presença. Será pertença. Será futuro.

Obrigado.

José Coelho

terça-feira, 7 de julho de 2026

Homens de honra e de valores

Há famílias que não precisam de diplomas para ensinarem valores. Precisam apenas de exemplos. E eu venho de uma dessas famílias.
O meu pai, António Coelho, era hortelão. Mas não era só hortelão. Era cabouqueiro do duro granito, era trabalhador de sol a sol, era homem de mãos duras e coração limpo. Era daqueles homens antigos que sabiam medir a dignidade como quem mede a água num regador: sem desperdício, sem ostentação, sem falha.
Na horta da Broca, onde trabalhou anos a fio a meias com o tio João Forte dono da herdade, semeava tudo o que se comia em nossa casa. Tudo. A terra era o seu banco, o seu pão, a sua esperança.
Um dia, ao chegar cedo, encontrou o chão ferido: tinham-lhe roubado a belga inteira dos alhos. E o meu pai chorou. Não pelo valor dos alhos, que era pouco. Chorou pela falta de respeito. Chorou porque alguém mexera no suor dele. Chorou porque a terra, que nunca o traíra, tinha sido violada por mãos alheias.
No caminho de volta, encontrou tio José Machado um lavrador e amigo que lhe disse: "vi o José Maria a vir desse lado com um feixe de alhos às costas".
Estava encontrado o ladrão. E foi aí que o meu pai mostrou o tamanho que tinha.
Não foi à GNR. Não reclamou os alhos. Não pediu justiça. Não exigiu reparação. Não quis humilhar ninguém. Perdoou.
Perdoou porque o ladrão tinha mais dois filhos do que ele. Perdoou porque sabia o que era a fome. Perdoou porque a sua “formação académica”, feita de vida e não de escola, lhe ensinara que roubar para comer não é crime. É desespero. É necessidade. É humanidade ferida.
E eu, que era apenas um rapaz, fiquei a olhar para ele como quem olha para um monólito de granito: firme, amigo, sábio, inabalável.
Mas o meu pai não era único. O pai dele, o meu avô Faustino, era igual. Cantoneiro, homem simples, homem de poucas palavras e muita decência. Quando ficou velho e sem forças, o meu pai trouxe-o para nossa casa.
Sem hesitar. Sem perguntar. Sem fazer contas. Sem medir os sacrifícios. E aqui o avô se finou três anos depois, rodeado de respeito. Porque na nossa casa, a pobreza nunca foi vergonha – vergonha era não ser honrado.
A família da minha mãe era igual. Gente boa. Gente direita. Gente que sabia que a dignidade não se compra, cultiva-se. E é por isso que hoje, quando olho para o país e vejo corrupção a escorrer por todos os lados – dos cargos mais altos às mãos mais pequenas – sinto uma saudade deles que não me cabe no peito.
Saudade de homens como o meu pai. Saudade de homens como os meus avôs e avós. Saudade de gente que sabia que a honra é o maior património que um homem pode ter. Toda a minha vida tem sido uma tentativa de ser igual a eles.
E quando alguém me elogia, não estão a falar de mim. Estão a falar deles. Do que me deixaram. Do que me ensinaram. Do modo como me moldaram.
Hoje, já velho, já também avô, já homem de memórias, digo isto com o coração inteiro: Pai, avôs… obrigado. Vocês foram os homens mais honrados que conheci. E eu passo a vida a tentar ser digno da vossa sombra.

Envelhecer com lucidez

Envelhecer com lucidez é uma experiência nova. Por um lado, sinto o corpo a abrandar, a memória a falhar em momentos inesperados, a energia a pedir mais descanso do que antes. Por outro, sinto a cabeça mais clara do que nunca sobre o que realmente importa.
Há dias em que dou por mim a esquecer nomes, datas, pequenas coisas que antes vinham sem esforço. E isso inquieta-me. Não é fácil admitir que a memória já não é a mesma, que o cérebro já não responde com a rapidez de outros tempos.
Mas, ao mesmo tempo, há uma lucidez nova que cresce dentro de mim, uma espécie de sabedoria tranquila que só chega com os anos. Eu sei o que vivi. Sei o que construí. Sei quem amei e quem me ama.
E isso dá-me uma paz que não tinha aos vinte, nem aos trinta, nem aos cinquenta.
Envelhecer com lucidez é olhar para trás sem arrependimentos, olhar para a frente sem ilusões que enganem, olhar para o presente com uma serenidade que só se aprende depois de muito caminho.
Eu sei que já não tenho a força de antes. Sei que a memória me prega partidas. Sei que o coração dispara quando temo uma branca. Mas também sei que continuo a ser eu. E que a minha essência não se perdeu.
A lucidez não está em lembrar tudo. Está em saber o que vale a pena guardar. E eu guardo o que importa: a família que me rodeia, a fé que me sustenta mesmo quando treme, a música que ainda me sai da alma, a vida que ainda pulsa dentro de mim.
Envelhecer com lucidez é aceitar que o corpo muda, que a memória falha, que o tempo avança.
Mas é também reconhecer que há uma luz que não se apaga, uma luz que vem de tudo o que vivi, de tudo o que dei, de tudo o que deixei nos outros. E essa luz, sim, permanece.

Crónica matinal da Beirã (nascida nesta alvorada fresca de julho, com o ritmo sereno que só a minha aldeia conhece).

A alvorada foi-se abrindo devagar como quem empurra uma porta antiga com cuidado para não acordar a casa toda. O sol vinha ainda tímido, escondido atrás da Murta, mas já deixava no ar aquele brilho dourado que faz cintilar as pedras e desperta os pássaros para o seu primeiro voo.
E eu já acordado, não por obrigação, mas por esse hábito antigo de quem aprendeu a ouvir o mundo antes que ele se torne barulhento. A Toca dos Coelhos respirava silêncio, apenas quebrado pelo arrulhar das minhas vizinhas rolas que parecem sempre saber quando começo o meu dia.
Ajeitei os óculos, como quem afina o olhar para o que importa, e deixei que a luz da manhã pousasse sobre a mesa onde a escrita me esperava, fiel como um cão velho.
O café com leite fumegava, espalhando aquele aroma que anuncia que o dia vai ser bom, mesmo que não traga novidades. Duas torradas, como sempre, esse pequeno ritual que me acompanha desde há tantos anos, quase uma oração doméstica.
Lá fora o quintal ainda estava húmido e as plantas cuidadas com paciência erguiam-se como quem agradece a água da véspera.
A aldeia começava a acordar. Uma porta que se abria, o motor de um trator que ronronava preguiçoso, o passo firme de alguém que vai para o trabalho. E eu, sentado à mesa, deixo que tudo isso me atravesse não como espectador, mas como parte da paisagem.
A Joaquina Coelho e a Maria Coelho começaram também cedo, com aquela energia decidida de quem sabe que a fé também se cuida com panos, paciência e mãos firmes. E começaram o ritual da limpeza dos “amarelos” esse nome tão aldeão, tão verdadeiro, que diz tudo sem precisar de explicação.
O brilho dos metais ia voltando devagar: coroas que voltaram a ser coroas, resplendores que voltaram a ser luz, castiçais que voltaram a ser braços de fogo, o sacrário que volta a ser casa. E eu, como sempre, estava ali. Não para mandar, mas para apoiar, porque apoiar é também uma forma de amar.
O incensário quando o levantei já pronto, parecia quase respirar. Há objetos que ganham vida quando são tocados com respeito. E eu toco-os como quem toca história, memória, promessa.
Depois uma pausa. Um café, um descanso breve, um respirar fundo. E nessa pausa olhei enternecido a Senhora que há dez dias acolho, a Senhora que é sempre a mesma, seja do Carmo, de Fátima, da Conceição, do Sagrado Coração de Maria, ou de qualquer outro nome que o povo lhe deu ao longo dos séculos.
A Senhora não muda. Muda o manto, muda o título, muda o lugar onde repousa… mas o coração é o mesmo. É a mesma Mãe que atravessa gerações, que entra nas casas, que acompanha os medos, que acolhe as alegrias.
Hoje, enquanto as senhoras limpam os metais e eu lhes dou apoio, é como se a aldeia inteira estivesse a preparar o regresso da Mãe ao seu lugar. E há uma beleza profunda nisso: não é só trabalho. É gesto de amor. É gesto de pertença. É profunda devoção.
Há uma serenidade particular no modo como decorrem estas minhas manhãs: não as apresso, não as domino, apenas as acolho. E é nesse acolhimento que nasce esta escrita. Esta crónica surge como a luz: primeiro tímida, depois clara, depois inevitável.
O dia ainda não se impôs, mas eu já lhe dou forma com palavras que são como pedras bem colocadas no caminho, firmes, honestas, sem artifícios.
A Beirã acorda comigo e eu acordo com ela. É um pacto antigo, silencioso, que só quem ama a sua terra compreende.
Tenham uma excelente terça-feira, família e amizades.
Texto e foto

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Avós naturais e de coração

Há famílias que se escrevem como rios: umas nascem de uma nascente única, outras juntam águas vindas de lugares diferentes, mas todas seguem o curso que a vida lhes dá. A nossa tornou-se, com o tempo, uma dessas famílias onde o sangue é apenas uma das linhas possíveis e onde o coração, quando fala, fala alto e com verdade.
A casa onde vivemos, a Toca dos Coelhos, foi sempre mais do que apenas paredes e telhado. É um lugar onde o tempo abranda, onde as memórias se encostam umas às outras, onde cada canto guarda uma história que não precisa de ser contada para ser sentida. Foi onde aprendi que a família não é apenas aquilo que se herda: é também o que se acolhe.
A neta Filipa e mais velha das três, chegou até nós por um caminho que não foi o habitual, mas foi igualmente legítimo, e isso basta. Veio com a sua história inteira, com o seu silêncio, com a luz e a sombra que cada vida carrega. Nunca pretendemos que em nós encontrasse substituições, porque o amor que a moldou antes de nós é sagrado, e respeitamo-lo como se fosse nosso.
Por isso o nosso papel com ela é outro: é sermos presença discreta na sua vida, dar-lhe um afeto que não ocupa outros lugares, um cuidado que não apaga outras memórias. A Filipa ensinou-nos que há famílias que se ampliam quando alguém chega, e que o coração tem uma capacidade infinita de abrir espaço quando a vida assim o pede.
A neta Mariana, a mais nova das três, é a continuidade e o traço firme que prolonga a história, a linha que segue o desenho da família sem hesitar. Filha do nosso filho Manel e irmã de mãe da Filipa, cresceu no calor desta casa que conhece como o próprio pulso.
É a neta que sabe de cor o cheiro da Toca dos Coelhos, que encontra nos cantos da casa pequenas bússolas da infância, que descansa no meu colo e no da Manuela como quem regressa ao porto depois de navegar.
A neta Francisca, a do meio e filha única do nosso filho Pedro, é o movimento que empurra a vida para a frente com a sua adolescência luminosa. Cresceu depressa, como crescem todos os que já descobriram o seu caminho, mas mantém ileso o fio que a liga a mim, um fio invisível, mas resistente, como os que seguram os cometas no céu.
Três netas lindas, três histórias, três maneiras de amar.
Todas elas pertencem ao mesmo círculo afetivo: um círculo que não separa, não mede, não hierarquiza. Para mim o amor não se conta em centímetros de sangue, mas em metros de cuidado. E esse cuidado, quando é verdadeiro, não conhece fronteiras.
A família que construímos é feita de gestos, de presenças, de silêncios que sabem ouvir. É feita de portas abertas, de lugares oferecidos com naturalidade, de afetos que não competem entre si. É feita de continuidade e de chegada, de raízes e de ramos novos.
No fundo, o que estas três netas nos mostram é simples: a Vida, quando se cumpre, não divide – amplia. E a vê-las crescer, cada uma à sua maneira, sentimos que o amor não precisa de ser igual para ser autêntico.

Gratidão e reconhecimento

Depois de décadas de luta, de trabalho, de quedas e de recomeços, a alma finalmente encontra silêncio suficiente para olhar para trás e perceber o que antes não via. É nesse instante que nasce a gratidão, não a gratidão fácil, de quem recebeu tudo sem esforço, mas a gratidão madura, de quem atravessou tempestades e só agora entende que nunca caminhou sozinho.
A vida é feita de provas.
Algumas duras, outras inesperadas, outras que quase nos quebram. Há quem tenha enfrentado a guerra, perdas, injustiças, portas fechadas, humilhações, perigos que passaram tão perto que deixaram marcas invisíveis. Há quem tenha sentido, em certos momentos, que a fé o tinha abandonado, que Deus e os santos tinham ficado longe demais para o ouvir.
Mas o tempo – esse grande mestre – mostra outra coisa. Mostra que a saúde que nunca faltou, foi proteção. Que a inteligência suficiente para abrir caminhos, foi graça. Que sobreviver onde tantos ficaram, foi cuidado. Que ser acolhido como família em lugares duros, foi bênção. Que escapar da morte por um triz, foi sinal. Que resistir à injustiça sem perder a dignidade, foi força vinda de cima.
Que cada porta que se abriu, mesmo depois de tantas fechadas, foi resposta.
E quando a vida, muitos anos depois, devolve aquilo que parecia perdido – fosse uma missão, uma confiança, um símbolo sagrado, um lugar de honra ou simplesmente um sentido, é então aí que o coração percebe que duvidar foi humano, mas talvez injusto.
A gratidão nasce desse reconhecimento de que não caminhámos sozinhos, de que não fomos esquecidos, de que a fé não falhou, apenas demorou. E quando finalmente chega, traz uma suavidade que não humilha, não exige, não cobra.
Chega como uma mão pousada no ombro, como uma porta que se abre, como uma missão que nos é confiada porque alguém viu em nós aquilo que sempre esteve lá: fidelidade, coragem, verdade.
Para quem lê isto: a vida pode demorar, mas não falha. A fé pode parecer ausente, mas não abandona. O amanhã pode parecer incerto, mas guarda surpresas que só o tempo revela.
E gratidão é isso: não o peso do que recebemos, mas a luz de finalmente o compreendermos.
Tenham uma excelente semana e... cuidado com este calor excessivo.
Texto e foto

domingo, 5 de julho de 2026

A Vida a Acontecer

Cedo ou tarde, chega sempre um momento em que percebemos que já não é preciso segurar-lhe a bicicleta. O pequeno corpo que antes tremia confiando cegamente nas nossas mãos, agora avança seguro, firme, decidido. E nós ficamos ali, parados no mesmo lugar, com o braço ainda estendido no ar, como quem tenta tocar uma asa que já levantou voo.
É assim que a Vida acontece. Sem pedir licença. Sem nos perguntar se estamos prontos. Sem nos dar tempo para ensaiar despedidas.
Os filhos crescem. Os netos crescem ainda mais depressa. E aquilo que foi casa cheia, barulho bom, correria no quintal, desenhos na mesa da cozinha, transforma-se devagar numa casa que respira silêncio – não o silêncio triste, mas o silêncio maduro de quem cumpriu o seu papel.
Porque a verdade é esta: não fomos abandonados. Fomos necessários, tão necessários, que eles puderam partir. A casa dos avós, que durante anos foi porto de abrigo, torna-se farol. E os faróis não correm atrás dos barcos. Apenas iluminam o caminho quando é preciso.
É natural que doa um pouco. A dor é só o eco do amor. Mas não é motivo para tristeza funda, nem para aquela sensação enganadora de abandono que às vezes nos visita. Eles não se afastam de nós – aproximam-se do mundo. E isso é vitória, não perda.
A Vida a acontecer é isto: o momento em que deixamos de segurar o guiador, mas continuamos ali, de pé, a ver a bicicleta seguir estrada fora. O momento em que percebemos que o nosso cuidado exagerado – aquele cuidado que só os avós sabem dar – já não é necessário todos os dias. E ainda assim, continua a ser amado.
Porque eles voltam. Voltam sempre. Voltam quando precisam de colo, de conselho, de memória, de raiz. Voltam quando o mundo lhes pesa nos ombros. Voltam quando querem ouvir histórias antigas ou sentir o cheiro da casa que os viu crescer.
E nós, pais e avós, aprendemos a viver nesse ritmo novo: não o ritmo da presença constante, mas o ritmo da presença essencial.
A Vida a acontecer não é o fim de nada. É apenas a continuação natural de tudo. É o tempo a cumprir o seu ofício. É o amor a transformar-se em liberdade. É o orgulho a vencer o medo. É o coração a aprender que amar é também deixar ir.
E quando num domingo qualquer a casa fica mais silenciosa, não é vazio, é maturidade. É o sinal de que fizemos bem o nosso trabalho. É a prova de que eles sabem caminhar. É a certeza de que, mesmo longe, continuam a levar conosco a mão invisível que lhes ensinou o equilíbrio.
A Vida a acontecer é um ciclo que não se interrompe, uma roda que continua a girar, uma bicicleta que segue estrada fora… e nós, no mesmo lugar, com o coração cheio, a dizer baixinho:
- Vai, meu amor. Eu fico aqui. E estou sempre contigo.