quarta-feira, 29 de julho de 2026

Negar as alterações climáticas é ignorar a ciência

Continuar a negar as alterações climáticas já não é apenas um erro intelectual: é um fator ativo de risco. É ignorar décadas de dados observacionais, milhares de artigos revistos por pares e medições que mostram, sem ambiguidade, que o planeta está a entrar numa era de incêndios extremos.
A narrativa do “sempre fez calor” não resiste a uma análise mínima das séries históricas. As ondas de calor atuais têm intensidade, duração e frequência estatisticamente anómalas. E culpar só a mão criminosa é cientificamente insuficiente: a ignição explica o início, mas não explica a violência.
Os incêndios de grande escala são sistemas físicos alimentados por três variáveis: ignição, combustível e condições meteorológicas. É neste último ponto que o colapso climático se torna decisivo. O aumento da temperatura média global reduz a humidade do solo, intensifica a evapotranspiração, e prolonga as secas severas.
Esses processos convertem ecossistemas inteiros em biomassa altamente inflamável, elevando o índice de perigo de incêndio para valores que ultrapassam os registos históricos.
A ciência documenta ainda a alteração dos padrões atmosféricos: ventos mais erráticos, ar mais seco, instabilidade térmica mais frequente. Tais condições favorecem incêndios de alta intensidade capazes de gerar pirocúmulos, pirotornados e colunas convectivas que criam microclimas próprios.
E quando isso acontece, o combate humano deixa de ser uma operação de contenção do fogo e passa a ser uma tentativa de sobrevivência.
A faísca provocada intencionalmente por mão humana pode iniciar o evento, mas é o reforço radiativo provocado pelas emissões de gases com efeito de estufa que determina a escala, a velocidade e a imprevisibilidade do desastre.
Ignorar este mecanismo físico é negar a realidade.
Tratar estes incêndios como incidentes isolados ou como meros crimes individuais é uma falha política grave. A evidência científica exige redução acelerada de emissões, transição energética, gestão inteligente do território, reforma dos sistemas alimentares e adaptação climática robusta.
Cada hectare queimado é um indicador empírico de que o sistema climático está a ultrapassar limites críticos e a normalização destes eventos não é apenas perigosa, é irracional. A ciência não deixa espaço para desculpas. Sem ação estrutural, a tendência é clara: mais incêndios, mais extremos, maior destruição.
Foto da net

Caminhar, sorrir, viver

Hoje acordei de ânimo mais tranquilo. Não porque a saudade tivesse diminuído, mas porque reconheci que o amor dos que já partiram não nos pede que fiquemos curvados.
Pede-nos que continuemos.
Nestes últimos dias deixei que a memória da minha mãe me tocasse fundo. Senti-me murcho, como uma planta que perde um pouco de sol. Mas hoje percebo que essa nostalgia é também uma forma de amor.
É o corpo a lembrar o que o coração nunca esquece.
Guardo a sua memória como quem guarda uma chama pequena, mas firme. Não para viver no passado, mas para iluminar o caminho à frente.
Ela e o meu pai, ensinaram-me a levantar a cara, a seguir adiante, a não me perder em tristezas que não constroem. E hoje faço exatamente isso: honro-os caminhando, sorrindo, vivendo.
A saudade fica comigo, mas não me prende. Acompanha-me como uma sombra boa, como presença silenciosa. E eu sigo inteiro, sereno, com a luz que eles deixaram acesa dentro de mim.
Hoje é dia de caminhar. Dia de respirar fundo. Dia de continuar o exemplo que recebi: viver com dignidade, com verdade, com a cara levantada.
PS:
Na foto não pareço lá muito animado, mas não é defeito, é feitio. Sou mesmo assim.

Uma vida que me acompanha

Nesta pequena montra repousa a minha vida fardada de 1969 a 2003, como quem pousa o chapéu depois de uma longa marcha.
À direita, o rapaz que partiu voluntário para Angola, levando mais coragem do que idade. À esquerda, o sargento em formação, já com o peso da responsabilidade a assentar nos ombros como uma segunda pele.
As quatro medalhas são as quatro moradas do meu caminho: Batalhão Nº3 de Évora, onde aprendi a disciplina; a Escola Prática, onde me fiz graduado; CIP/Portalegre, onde servi com o coração inteiro; e o velho Batalhão de Cavalaria 3871, que me levou à guerra e me ensinou a regressar.
Tudo junto – retratos, livros, metal e memória – são o eco de uma vida de serviço, camaradagem e honra.
Uma vida que ainda hoje me acompanha, como o cheiro da terra molhada depois da rega ao anoitecer.
Texto e foto

Não é sobre mim é sobre o meu caminho

Há objetos que não foram feitos para enfeitar prateleiras. Foram feitos para guardar silêncio. Estas peças de prata não são troféus nem sinais de vaidade. São apenas testemunhos de um percurso vivido com outros homens, lado a lado, na estrada da Guarda.
Cada uma delas traz o peso leve de um gesto: um comandante que quis agradecer o percurso que fiz sob o seu comando, alguns camaradas que quiseram reconhecer o meu empenho, um momento em que alguém achou que eu havia de trazer para casa um símbolo do seu respeito.
Não as vejo como conquistas. Vejo-as como memórias, como pequenas âncoras de um tempo em que servir era o centro de tudo, em que a camaradagem valia mais do que o brilho de qualquer metal.
Repousam aqui, sobre a renda da casa, não para serem admiradas, mas para me lembrarem que o que realmente importa nunca foi a prata, foi o caminho, as pessoas, e a honra tranquila de ter feito o que devia.
Texto e foto

terça-feira, 28 de julho de 2026

Oração ao fim do dia

Que este findar de mais um dia me envolva com a sua luz mansa, essa luz que não exige, não fere, não apressa. Que eu possa senti-la pousar sobre mim como um lençol leve que a natureza estende para me lembrar que o dia está a recolher-se e que também eu posso recolher-me.
Que o calor que ainda paira no ar não me perturbe o espírito, mas me ensine a aceitar aquilo que não controlo, a respirar mesmo quando o ar é pesado, a encontrar serenidade mesmo quando o mundo parece inquieto.
Que eu saiba agradecer o que vivi hoje, mesmo que tenha sido difícil, mesmo que tenha trazido preocupações, mesmo que tenha exigido de mim mais força do que eu julgava ter. Que eu reconheça que cada esforço, cada palavra dada, cada gesto oferecido, é parte da minha humanidade.
Que eu me lembre dos que ainda caminham comigo, dos que me moldaram, dos que me ensinaram a ser quem sou. Que eu honre a memória dos que partiram e a presença dos que permanecem. Que eu seja capaz de ver em cada rosto uma história, uma fragilidade, uma esperança.
Que eu pense nos que hoje precisam de coragem porque atravessam batalhas silenciosas que ninguém vê, mas que pesam tanto. Que eu possa ser-lhes apoio, palavra boa, companhia sincera, sem esperar retorno, porque a bondade é sempre um caminho de ida.
Que a fragilidade humana não me assuste, mas me torne mais atento, mais humilde, mais capaz de compreender o outro. Que eu aceite que somos todos feitos de um fio muito fino, e que é precisamente esse fio que nos permite amar, cuidar, aproximar-nos.
Que a noite que se aproxima traga descanso ao corpo e serenidade ao pensamento, sabendo que fiz o que podia, que fui quem devia ser, que caminhei com honestidade.
E que a paz se sente ao meu lado, como um velho amigo que me diz em silêncio que a vida, apesar de breve, é bela quando vivida com verdade.
Texto e foto que fiz a um por no sol no
Penedo Monteiro em Castelo de Vide.

Mãe...

Às vezes pergunto-me quantos anos terias hoje, mas logo percebo que isso pouco importa. O que permanece é a tua força tranquila, a tua bondade, a coragem com que atravessaste a vida e aquele teu riso fácil que iluminava até os dias mais duros. É assim que te guardo: inteira, simples, verdadeira.
Muito do que sei veio de ti, não dos livros, mas dos gestos. Não podias ensinar-me a ler ou a escrever, mas ensinaste-me coisas maiores: a honestidade, o cuidado, o respeito pelos outros, o valor de trabalhar com brio. Foste sempre dona de uma casa arrumada e de um coração ainda mais organizado. Ajudaste todos, sem nunca te queixares, e foste o pilar firme da nossa família.
A tua honradez era tão natural que quem te conhecia ainda hoje te recorda com carinho. E eu, Mãe, lembro-me de ti todos os dias. A tua ausência marcou-me profundamente desde aquele 28 de julho de 2014. Mesmo sabendo que o fim se anunciava, descobri nesse dia que nunca estamos preparados para perder quem nos trouxe ao mundo.
A partida do pai doeu-me muito, mas a tua… essa abriu um vazio maior. Sei que ele, onde estiver, me compreende porque também perdeu a mãe, também conheceu essa dor.
Confesso que vou menos vezes ao cemitério do que deveria. Não por falta de amor, mas porque cada visita me deixa demasiado inquieto. Sempre fomos muito ligados, tu e eu. E talvez por isso o luto tenha ficado suspenso, como uma porta que não consigo ainda fechar.
Recordo com nitidez aquele momento na sala mortuária em que ficámos os dois, eu à tua cabeceira, rodeados de vizinhos e amigos. E foi ali que a dor que até então eu segurava, finalmente me venceu. Chorei como nunca tinha chorado. Lembro-me da vizinha Joaquina Brites a aproximar-se na sua bondade, a tentar consolar-me com a sua voz baixa e simples. Foi muito duro, Mãe. Muito duro.
Cá em casa o teu quarto permanece como o deixaste. Os teus santinhos e pequenas coisas continuam na cómoda e algumas acompanham-me no meu escritório. Talvez seja a minha forma de te manter perto, de te sentir ainda aqui.
Um dia, acredito, esta dor há de abrandar. O tempo tem maneiras discretas de nos ensinar a respirar outra vez. Até lá, sigo contigo perto de mim.
E sei que, quando chegar a minha vez, nos reencontraremos, dessa vez para sempre.

Entardecer

Respiro fundo. Sinto o ar quente, pesado. A cada inspiração, deixo que o corpo recorde que ainda está vivo, que ainda é capaz de acolher o mundo, mesmo quando o mundo chega cansado.
O dia já começa a recolher-se. A luz já não fere, apenas acaricia. As sombras alongam-se como braços amigos que conhecem bem o caminho da noite. E eu, sentado no meu lugar habitual, deixo que o silêncio me envolva como um manto leve.
Fecho os olhos por um instante e imagino os montes em redor da Beirã a perderem contorno, dissolvendo-se numa paleta de ocres e violetas. O calor, que durante o dia parecia um inimigo, torna-se agora apenas memória, uma presença que já não manda, apenas acompanha.
Sinto o corpo a abrandar. Os ombros descem. A respiração encontra o seu ritmo natural. O coração bate sem pressa, como se estivesse a conversar comigo no banco de alvenaria e mosaicos, na varanda do quintal.
Penso na minha gente. Nos que me criaram, nos que me moldaram, nos que me ensinaram a ser este homem que anima quem precisa ser animado, que acolhe dores alheias, que nunca vira a cara aos problemas.
Cada amigo é uma raiz. Cada memória é uma pedra firme no chão onde pouso os pés.
Agora, deixo o pensamento tornar-se leve. Não preciso de resolver nada. O entardecer é uma pausa, não uma tarefa. É o mundo a dizer-me: “Hoje fizeste o que podias. Agora descansa.”
Respiro outra vez. Sinto o ar a encher-me os pulmões como uma bênção discreta. Sinto-o a sair como quem liberta o peso do dia. A fragilidade humana, aquela que tantas vezes me visita nos amigos, na família, em mim próprio, transforma-se aqui em ternura. Somos frágeis, sim.
Mas é essa fragilidade que nos permite amar, cuidar, ser amigos, ser presença, ser porto seguro.
O entardecer é um convite à humildade. À gratidão. À consciência de que a vida é breve, mas bela. E que cada gesto de bondade – mesmo pequeno – ilumina o mundo mais do que qualquer sol de verão.
Fico assim mais um instante. Respiro devagar. E deixo que a paz me encontre, como sempre encontra ao fim do dia, os homens de consciência tranquila.