sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Da Beirã, com amizade

O fim de semana chega sempre com um passo diferente. Não corre. Não buzina. Não traz agendas apertadas nem relógios impacientes.
Chega devagar, como quem pousa uma manta sobre os ombros de quem passou toda a semana a enfrentar preocupações, compromissos e pequenas batalhas.
Aqui na aldeia, a manhã nasceu cinzenta. O céu parece ter decidido vestir-se de neblina e silêncio. Mas nem por isso o dia deixa de ser bonito. Há uma paz especial nas horas em que a natureza abranda e nos convida a fazer o mesmo.
Talvez este seja um bom momento para beber um café sem pressa, visitar alguém de quem gostamos, dar dois dedos de conversa a um vizinho, ler algumas páginas esquecidas na mesa de cabeceira ou simplesmente olhar pela janela e agradecer o que temos.
Nem todos os dias precisam de ser extraordinários. Às vezes, basta que sejam tranquilos.
A felicidade mora quase sempre nas coisas mais simples: numa chamada inesperada, no riso de uma criança, num almoço em família, no calor de uma lareira acesa ou no conforto de saber que alguém se lembra de nós.
Por isso, neste fim de semana, procure menos o que lhe falta e desfrute mais do que já possui. A vida passa depressa demais para ser vivida apenas entre preocupações.
Desejo a todos os amigos e leitores dias serenos, saúde para caminhar, motivos para sorrir e pessoas boas com quem partilhar o caminho.
E, se o sol não aparecer no céu, que apareça pelo menos dentro de cada um de nós.
Bom fim de semana, família e amigos. Que a vida vos trate com carinho, vos ofereça bons motivos para sorrir e vos permita saborear a beleza das pequenas coisas que, tantas vezes, são as maiores.
Um abraço.
06. 11. 2026

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Um beijinho a subir da chaminé

Vejo o fumo subir da minha chaminé e recordo outros tempos. Tempos em que a aldeia inteira parecia respirar ao mesmo ritmo. De cada telhado erguia-se um pequeno sinal de vida, como se as casas falassem umas com as outras através do céu.
O inverno era o mesmo. O frio era o mesmo. O que era diferente era a quantidade de gente que se aquecia por detrás das paredes.
Aquele fio de fumo que sobe da chaminé não aquece a aldeia. Nunca aqueceu. Mas continua a aquecer a memória de quem viveu os tempos em que quase todas as casas da Beirã anunciavam assim a sua presença.
Ao vê-lo subir devagar para o céu, apetece acreditar, nem que seja por instantes, que a aldeia continua toda habitada e que, atrás de cada porta, há uma lareira acesa, uma mesa posta e uma família reunida.
Na realidade, muitas dessas portas já não se abrem todos os dias e muitas dessas lareiras extinguiram-se há muito.
Mas, enquanto aquele fio de fumo sobe lentamente da chaminé da minha casa, permito-me a doce ilusão de que a minha velha Beirã continua inteira, viva e acolhedora como a conheci.
Hoje foi mais um. Um beijinho simples, enviado sem envelope nem selo. Subiu devagar com o fumo da chaminé e foi procurar, algures no Céu, aqueles que me ensinaram a amar esta casa, esta terra e a vida.
Espero que lhes tenha chegado.

Memórias à lareira da casa natal

Sentado à lareira, ouvindo o crepitar da lenha e contemplando a dança hipnótica das labaredas, deixo-me embalar pelas memórias que habitam esta casa onde nasci e onde continuo a morar. Há silêncios que falam mais do que as palavras, e este é um deles.
Nas noites de inverno, quando o frio aperta lá fora e o vento descobre sempre uma fresta por onde assobiar, o calor do fogo deixa de ser apenas conforto para o corpo. Torna-se aconchego para a alma, uma presença discreta daqueles que aqui viveram comigo e que o tempo levou sem jamais conseguir apagar.
Cada chama parece trazer consigo uma voz antiga, um riso distante, uma história contada à mesa ou uma confidência partilhada em surdina. São fios invisíveis que o tempo foi tecendo e que continuam a ligar o presente ao passado dentro destas paredes.
Lembro-me de ser criança e de me sentar no chão, diante da lareira, fascinado pelo brilho das brasas em constante transformação. Escutava os adultos conversarem, ouvia as histórias do avô, sentia o aroma das castanhas assadas e via o vapor da sopa quente subir lentamente da sertã.
Tudo isso permanece vivo dentro de mim. O lume era, e continua a ser, o coração da casa.
Quantas vezes vi os meus pais partilharem silêncios cúmplices junto ao fogo. Quantas vezes ouvi as minhas irmãs trocarem segredos enquanto a noite ia cobrindo o mundo lá fora. Aqui dentro, no abrigo destas paredes antigas, tudo parecia mais simples e mais seguro.
Cada chama era uma promessa silenciosa de que a vida continuaria o seu caminho, mesmo quando tudo à nossa volta mudasse.
Hoje, sentado no mesmo lugar, dou por mim a ser o guardião destas memórias. A casa envelhece comigo, as marcas do tempo acumulam-se nas paredes e também no rosto, mas o fogo continua igual, eterno na sua dança, reacendendo lembranças, sonhos e saudades.
Talvez seja por isso que gosto tanto de me sentar diante da lareira. Não é apenas pelo calor que ela oferece. É porque, à sua luz, volto a encontrar os rostos que amei, as vozes que escutei e os afetos que ajudaram a construir o homem que sou.
E enquanto as labaredas dançam diante dos meus olhos, agradeço em silêncio.
Pela infância que aqui vivi. Pelos pais que aqui me criaram. Pelas memórias que o tempo respeitou. E pelo privilégio de ainda poder chamar lar a este lugar onde a minha história começou.
Enquanto esta lareira acender, haverá sempre um pouco deles, aceso comigo.
José Coelho

O extraordinário mora aqui

Durante muitos anos pensei que o extraordinário estava reservado aos grandes acontecimentos. Aos dias que ficam na memória. Às vitórias, às conquistas ou aos momentos raros que interrompem a rotina.
Com o passar do tempo percebi que estava enganado.
O extraordinário mora nas coisas simples.
Mora na Fonte da Murta, desde que me lembro. Era ali que a minha avó Amélia ia buscar água, de cântaro à cabeça. Era também ali que os namorados e outros moços e moças do meu tempo iam apanhar, à meia-noite do arraial de São João, a sua água pura e leve. E lá continua, serenamente, a oferecê-la a quem passa.
Mora no canto das rolas que me acorda ao amanhecer.
E no meu quintal, que todos os anos se renova em frutos e hortaliças ao ritmo das estações.
E nas conversas sem pressa com quem gosto.
E nos gestos tranquilos da vida partilhada há cinquenta anos com a "minha" Manuela.
Mora também nos beijos das minhas netas, nos encontros inesperados com amigos que não via há sessenta anos, nas memórias que regressam quando menos se espera e naquela paz serena que, por vezes, me visita sem dizer palavra.
Quem olha de fora vê apenas um dia igual aos outros. Eu vejo muito mais do que isso.
Vejo uma sucessão de pequenos privilégios que a vida me ofereceu, continua a oferecer todos os dias, e que a idade me ensinou a valorizar.
Hoje sei que a felicidade raramente chega vestida de festa. Quase sempre vem disfarçada de rotina.
E talvez seja esse o maior segredo da vida: descobrir que aquilo que procuramos longe esteve sempre aqui, mesmo ao nosso lado.

Parabéns meu eterno Amigo

O reencontro contigo depois da guerra, foi sem dúvida alguma, o melhor dia da minha vida...
Voltar para casa depois de tantos dias sombrios, foi como atravessar um limiar entre dois mundos: o da incerteza e do sofrimento, e o da ternura e da memória. Atravessado pelas cicatrizes de tanto tempo distante, vivi cada quilómetro do caminho de regresso como uma travessia de emoções à flor da pele.
A cada curva do comboio, paisagens conhecidas desenrolavam-se diante dos meus olhos trazendo de volta cheiros, cores e sons a despertarem velhas lembranças. O calor seco dos campos, a visão dos sobreiros e oliveiras, o perfume do início do verão, tudo parecia sussurrar-me:
“Estás finalmente em casa”.
À nossa porta, esperavas-me, Pai. O corpo exausto marcado por longos dias na horta foi superado pela força de um coração ansioso pelo reencontro. O olhar embaciado por lágrimas sinceras, revelava o turbilhão de sentimentos que só os grandes afetos provocam.
Ali, no exato instante em que os meus olhos encontraram os teus, desfez-se o peso do tempo e da distância, Pai. O abraço que nos uniu foi um pacto silencioso de sobrevivência, amor e gratidão, um reencontro que quase parecia irreal, como se ambos temêssemos que aquela felicidade pudesse, de repente, evaporar-se.
O regresso ao lar não apagou o que ficou para trás, mas foi um bálsamo sobre as feridas. Sensível e comovido reencontrei em ti meu Pai, a fragilidade generosa que de ti herdei, a facilidade com que tocavas as pequenas coisas da vida pela simplicidade dos teus afetos.
O gesto do nosso abraço, a partilha das nossas lágrimas, atestaram que nenhuma ausência é capaz de enfraquecer os laços que verdadeiramente importam.
Naquele momento, tudo foi permitido: relembrar, chorar, sorrir e recomeçar.
O nosso reencontro irradiou para além do nosso círculo familiar e contaminou de alegria toda a comunidade. Familiares, vizinhos, amizades de toda a vida uniram-se numa tempestade de abraços, beijos e palavras entrecortadas pela emoção.
O nosso lar deixou de ser apenas um espaço físico e transformou-se num refúgio de pertença e partilha. Cada rosto, cada gesto, cada lágrima e cada riso compuseram o mosaico de uma celebração coletiva, em que a esperança renasceu.
É nesses instantes tão cheios de significado e emoção que se revela a essência do que nos torna humanos. O regresso a casa, o reencontro com quem nos é mais querido, o privilégio de poder chorar e rir no mesmo abraço, são momentos raros que justificam uma vida inteira.
São eles que nos recordam que, por mais dura que seja a travessia, há sempre um lugar para onde voltar e onde o amor permanece à espera.
O teu nunca me faltou, meu querido Pai. Tenho tantas saudades dele. Do teu olhar honesto, do teu falar meigo e sincero, da tua presença firme que nos inspirava confiança, aconchego e proteção. Hoje é – será para sempre – o dia do teu aniversário.
Quantos anos terias se aqui estivesses comigo? E isso que importa? Serás o meu maior amigo, a minha maior referência, o meu herói, enquanto eu viver.
Parabéns e um abraço onde quer que estejas. Até um dia que já não estará muito distante e será seguramente igual, se não ainda melhor, àquele em que voltámos a encontrar-nos depois da guerra.
O teu filho e teu amigo até à eternidade.
05. 11. 2026

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

O céu tem cheiro a lenha

Há pequenos luxos que a vida moderna nunca conseguiu substituir. Um deles é abrir a porta de casa numa noite fria e sentir o abraço silencioso de uma lareira acesa.
Quem vive na aldeia sabe do que falo.
Lá fora, a geada prepara-se para descer sobre os campos. O ar entra pelas narinas como se viesse diretamente da serra. As mãos procuram os bolsos e os passos apressam-se na direção de casa.
Depois a chave roda na fechadura.
E acontece a magia.
Um ambiente morno vem ao nosso encontro ainda antes de fecharmos a porta. O calor espalhado pelo lume percorre a sala, espreita pelo corredor e vai quase até ao passeio, como se a própria casa estendesse os braços para receber quem chega.
Nesses instantes percebemos que o conforto não tem nada a ver com luxo.
Tem a ver com pertença.
Tem a ver com aquele cheiro inconfundível da lenha a arder, com o crepitar discreto das chamas e com a certeza de que ali dentro nos espera um refúgio seguro contra o frio da noite.
Talvez por isso as lareiras nunca tenham saído verdadeiramente de moda nas aldeias. Não servem apenas para aquecer as paredes. Aquecem a alma.
São elas que acompanham as conversas demoradas, os silêncios tranquilos, as noites de chuva e os serões de inverno que parecem não ter fim.
E quando regressamos da rua com o frio agarrado ao corpo, há momentos em que abrir a porta de uma casa aquecida por uma lareira nos parece uma experiência tão próxima do paraíso que quase temos vontade de suspirar e dizer:
"Se o céu existir, não deve ser muito diferente disto."

Habituámo-nos a perder

Não vale a pena continuar a assobiar para o lado. Basta abrir os olhos para perceber que há qualquer coisa de profundamente errada no rumo demográfico do país.
Somos cada vez menos.
Nascem cada vez menos crianças e, em grande parte do território, morre muito mais gente do que a que nasce.
Razões não faltam.
Os jovens formam família cada vez mais tarde. A precariedade laboral, os salários insuficientes, o preço da habitação e a incerteza em relação ao futuro levam muitos a adiar decisões que, há poucas décadas, pareciam naturais.
Quando chega o momento de pensar em filhos, muitas vezes o relógio já corre depressa demais ou as circunstâncias não permitem sonhar mais alto.
Há mais formação académica, é verdade.
Mas continua a faltar, em demasiados casos, uma correspondência entre as qualificações obtidas e as oportunidades disponíveis. Muitos acabam por aceitar o primeiro emprego que aparece, longe da terra onde nasceram e longe das raízes que os viram crescer.
Na minha freguesia nascem dois bebés por ano, às vezes pouco mais. No mesmo período partem cerca de vinte pessoas, quase todas idosas. É uma realidade local, naturalmente. Mas não é um caso isolado.
Por todo o interior repetem-se histórias semelhantes. Aldeias onde já não se ouvem crianças a brincar na rua. Escolas que encerraram por falta de alunos. Casas fechadas durante a maior parte do ano. Terras inteiras que parecem viver apenas da memória dos que ali ficaram e da saudade dos que partiram.
Recuperar décadas de abandono não é tarefa para um governo nem para uma legislatura. Talvez nem para uma geração.
O interior foi perdendo habitantes, serviços, oportunidades e influência. E, quando as pessoas saem para procurar trabalho e uma vida melhor, é natural que criem novos laços e construam o seu futuro onde encontram condições para o fazer.
Não lhes cabe culpa por isso.
Mas o país deveria interrogar-se sobre o preço que pagou por concentrar tanto numa estreita faixa litoral, deixando para trás uma parte enorme do seu território humano, cultural e económico.
O mais preocupante não é apenas o número de habitantes que perdemos. É a sensação de que nos fomos habituando a perder.
Habituámo-nos a perder habitantes, a perder serviços, a perder escolas, a perder maternidades, a perder oportunidades.
Habituámo-nos a ver partir os jovens e a aceitar como inevitável aquilo que nunca o deveria ter sido.
E quando um povo se habitua a assistir ao desaparecimento das suas aldeias, das suas crianças e de parte da sua identidade sem reagir, talvez esteja realmente mais perto do fundo do que gosta de admitir.
Ainda assim, enquanto houver quem permaneça, trabalhe a terra, mantenha viva a memória e acredite que estes lugares merecem futuro, o último capítulo desta história continua por escrever.

Da Beirã, com amizade

O fim de semana chega sempre com um passo diferente. Não corre. Não buzina. Não traz agendas apertadas nem relógios impacientes. Chega deva...