quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Memórias que resistem ao tempo

Nasci no início da década de 50, exatamente a meio do século XX. O mundo estava destroçado por duas guerras mundiais e outra, civil, paredes meias com a nossa aldeia, e deixara rastos de sangue, medo e silêncio. Cresci entre gente que acudia aos fugitivos da morte: homens e mulheres que chegavam com o desespero nos bolsos das roupas rasgadas pelo infortúnio, trazendo apenas o corpo cansado e a esperança de sobreviver mais um dia.
A nossa gente tinha pouco para lhes dar – quase nada, na verdade. E o que havia, vinha da terra: o pão duro, a batata pequena, o azeite guardado como ouro, a sopa que se esticava para mais um prato quando era preciso ser repartido com quem chegava sem nada. Conheço histórias de terror, mas conheço também histórias de grandeza, daquelas que não se escrevem nos livros, mas ficam gravadas na memória de quem viu mãos pobres estenderem o seu pouco pão, a quem já não tinha sequer lágrimas.
Passado que vai já mais de um quarto do século XXI, olho para trás e reconheço que já começo a ser velho – não idoso – essa palavra estranha e maquilhada de um falso respeito. Velho, sim: palavra que representava outrora respeito, sabedoria, veneração, experiência. Velho como as pedras da Beirã, que guardam séculos de passos e ainda assim permanecem firmes.
Vejo o mundo recuar perigosamente àquela época em que nasci. Guerras absolutamente desnecessárias, loucos que se julgam Deus a governarem países armados, vidas destruídas por ambições que não cabem em nenhum coração humano. Vejo o clima em convulsão, talvez irreparável, como se a própria Terra estivesse cansada de nos avisar. Vejo… vejo… vejo… e cada “vejo” pesa como uma pedra que se acumula no peito.
Mas também vejo a memória dos que, não tendo quase nada, repartiam tudo. E pergunto-me se ainda seremos capazes dessa grandeza. Porque, apesar daquilo que vejo, continuo a acreditar que há uma centelha humana que resiste. Talvez porque cresci a observar gestos que hoje parecem impossíveis: mulheres que dividiam o pão em quatro para que ninguém ficasse sem migalha; homens que davam o casaco a quem chegava encharcado de medo; famílias que acolhiam desconhecidos como se fossem irmãos perdidos.
Essa grandeza de alma não era ensinada nas escolas, era vivida. Era a ética da sobrevivência partilhada, a moral dos que sabiam que só se atravessa a noite quando se caminha em conjunto. E pergunto-me se ainda guardamos essa memória no fundo da alma ou se a trocámos por distrações, ruídos, ecrãs, urgências que não salvam ninguém.
Vejo o mundo a correr para um abismo que reconheço demasiado bem. Guerras e ódios a alimentarem-se de nada. Líderes que confundem poder com divindade, como se a vida dos outros fosse apenas um número numa folha de cálculo. Vejo o clima a gritar, a Terra a estremecer, os rios a secarem, como se já tivessem desistido de nós.

Cada visão dessas é uma ferida a abrir-se devagar.
Contudo, ainda há mãos que se estendem; ainda há quem reparta o pouco que tem; ainda há quem resista à indiferença. Vejo jovens que procuram sentido; vejo velhos como eu que tentam transmitir o que aprenderam quando o mundo era pobre, mas não era vazio. Vejo que a esperança não desapareceu, apenas vive escondida atrás do barulho.
E talvez por isso escrevo. Porque escrever é a forma que encontrei de impedir que a memória se perca. É o meu modo de dizer ao mundo que, apesar de tudo, ainda acredito na grandeza humana que tenho testemunhado desde criança. Acredito que, mesmo rodeados de loucura, ainda somos capazes de gestos simples que salvam vidas.
Acredito que o futuro, por mais sombrio que pareça, pode ser iluminado por mãos que repartem o pão, como se fazia na minha terra, quando o século XX ainda era novo e eu também.
Estou a ficar velho como as pedras da minha terra, como os muros que viram fugitivos da guerra de Espanha esconderem-se atrás deles, como o silêncio que guardou segredos e gestos de compaixão. Mas, por estar a ficar velho, reconheço também sinais que muitos fingem não ver: o mundo a arder outra vez, a enlouquecer outra vez, a repetir os mesmos erros, a mesma história que jurou nunca mais repetir.
Por isso insisto em escrever. Porque escrever é resistir. Porque a escrita, quando é verdadeira, é a última forma de coragem. E porque, se o futuro nos falhar, que ao menos não nos falhe a memória.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Estou ainda à espera de quê?

Chegado já para lá dos setenta, há uma pergunta que merece ser feita com sinceridade: estou ainda à espera de quê?
Esperei quase toda a vida.
Esperei que os filhos crescessem, que as contas ficassem pagas, que o trabalho abrandasse, que as responsabilidades diminuíssem. Esperei pelo momento certo para viajar, para aprender algo novo, para dizer certas palavras, para regressar a lugares que me ficaram na memória, para concretizar sonhos que fui guardando numa gaveta onde parecia haver tempo infinito.
Mas o tempo tem uma particularidade curiosa: nunca espera por nós.
Enquanto organizava a vida, a vida passava. Enquanto resolvia problemas, os anos iam-se somando. E um dia acordo e percebo que já caminhei mais estrada do que aquela que me falta percorrer.
Olhando para trás, encontro uma infindável lista de coisas adiadas. Contudo, talvez a pergunta mais importante não seja aquilo que não fiz. Talvez seja aquilo que ainda posso fazer.
Porque, enquanto houver manhãs para abrir a janela, caminhos para percorrer, livros para ler, amigos para abraçar, netos para ouvir e sonhos para tentar realizar, a vida continua a oferecer oportunidades.
Não temos poder para mudar uma única página do passado. Mas continuamos a ter a caneta na mão para escrever as próximas.
Há quem pense que a idade serve para desistir. Eu acredito exatamente no contrário. A idade serve para escolher melhor. Para perder menos tempo com o que não importa. Para valorizar mais os afetos, as experiências e a serenidade.
Talvez a coragem que nos faltou aos quarenta apareça aos setenta. Talvez a viagem adiada ainda possa ser feita. Talvez aquela conversa necessária ainda possa acontecer. Talvez aquele projeto esquecido mereça finalmente sair da gaveta.
A vida não pergunta quantos anos temos. Pergunta apenas se ainda estamos dispostos a viver os anos que temos.
Por isso, mais do que olhar para trás e contar os sonhos perdidos, talvez valha a pena olhar para a frente e perguntar:
Que sonho continua vivo dentro de mim?
E, sobretudo, do que estou eu ainda à espera para o viver?
Texto e foto de hoje

terça-feira, 27 de outubro de 2026

O poder secreto das palavras

As palavras têm uma força que raramente reconhecemos. Não porque sejam feitas de som ou de tinta, mas porque carregam dentro de si aquilo que somos, aquilo que tememos e aquilo que desejamos. Uma palavra pode ser ponte ou muro, bálsamo ou ferida, regresso ou despedida. E, no entanto, são tão leves que cabem na palma da mão.
Há palavras que chegam até nós como quem pousa um pássaro no ombro: suaves, inesperadas, quase sagradas. São aquelas que nos levantam quando o mundo pesa, que nos devolvem o fôlego quando a alma se encolhe. Uma frase dita no momento certo pode salvar um dia inteiro, pode reacender uma esperança que julgávamos extinta, pode abrir uma janela num quarto onde já não entrava luz.
Mas também há palavras que ferem. Palavras que ficam a ecoar durante anos, como um sino partido que insiste em tocar. São ditas num instante, mas permanecem como cicatrizes invisíveis. A vida ensinou-me que é preciso cuidado com elas, não por medo, mas por respeito. Porque cada palavra é uma semente: algumas florescem, outras queimam a terra onde caem.
E depois existem as palavras que não dizemos. As que guardamos por receio, por orgulho, por silêncio mal-entendido. Essas são talvez as mais poderosas, porque carregam tudo o que poderia ter sido: um abraço que não aconteceu, um perdão que não se ofereceu, uma verdade que ficou presa na garganta. O não dito também molda a vida, às vezes mais do que o que se diz.
As palavras têm ainda um poder secreto: o de nos revelar a nós próprios. Quando escrevemos, quando falamos, quando confidenciamos, percebemos que há coisas dentro de nós que só ganham forma quando passam pela linguagem. É como se a alma precisasse das palavras para se ver ao espelho. E, nesse reflexo, descobrimos medos antigos, forças inesperadas, memórias que julgávamos perdidas.
Talvez por isso a escrita seja tão parecida com rezar. Não no sentido religioso, mas no sentido íntimo: é um ato de recolhimento, de escuta, de entrega. Escrever é conversar com o que vive dentro de nós. E quando alguém lê ou escuta essa conversa, cria-se uma ponte invisível entre dois mundos. As palavras aproximam o que parecia distante, unem o que estava disperso, curam o que estava ferido.
O poder das palavras não está nelas, está em quem as usa. Está na intenção, na verdade, na coragem de dizer o que precisa ser dito e de calar o que não deve ser dito. Está na delicadeza de escolher a palavra certa, como quem escolhe a pedra exata para reparar um muro antigo.
As palavras são pequenas, mas o que fazem é imenso. E quando usadas com sinceridade, humildade e respeito, tornam-se luz.

Envelhecer: a coragem de aceitar o tempo

Envelhecer não é, de facto, uma tarefa fácil. É um caminho que nos obriga a abrandar o passo e a ajustar o ritmo ao novo compasso do corpo e da vida. Acima de tudo, é um exercício permanente de aceitação e coragem: aceitação para acolher com dignidade as mudanças que os anos trazem e coragem para deixar para trás os receios, os preconceitos e as inseguranças que tantas vezes acompanham essa caminhada.
Aprender a envelhecer é compreender que a vida possui um ciclo natural. É saber abrir as mãos para deixar partir quem precisa de seguir o seu caminho e, ao mesmo tempo, abrir os braços para abraçar aqueles que escolhem permanecer. Há nisso uma silenciosa lição de desapego, mas também uma extraordinária demonstração de força. Cada despedida e cada reencontro ajudam a moldar a pessoa mais frágil, mas também mais consciente, em que nos vamos transformando.
A maturidade traz consigo um convite raro: o de aprendermos a estar conosco próprios. A caminhar sem depender de ninguém, a despertar em silêncio, a suportar o peso dos dias menos bons e a encarar, sem fugir, o homem ou a mulher que nos observa do outro lado do espelho.
Envelhecer é aceitar serenamente que tudo tem um princípio e um fim. Os sonhos transformam-se, os amores mudam de forma e a própria vida segue inevitavelmente o seu curso.
Dos sofrimentos que nos marcaram permaneça apenas a certeza de os termos vencido. Dos erros que cometemos fique a sabedoria das lições aprendidas. E das dificuldades que enfrentámos conservemos apenas a memória dos momentos em que encontrámos forças para as superar.
Por isso, vale a pena agradecer cada ano vivido. Não porque a caminhada tenha sido sempre fácil, mas porque cada experiência, feliz ou dolorosa, nos tornou mais resistentes, mais experientes e, quem sabe, um pouco mais sábios.
Saber dizer adeus sem abandonar o que realmente importa. Recordar sem ficar prisioneiro do passado. Chorar quando for necessário, até que as lágrimas deem lugar a novos sorrisos, novos desejos e pequenas alegrias. Tudo isso faz parte da arte de envelhecer.
Porque envelhecer é, afinal, reconhecer que cada ruga, cada cicatriz e cada memória são testemunhos de uma vida verdadeiramente vivida. Não é um caminho simples, mas é um caminho rico em significado. Um caminho onde aprendemos a distinguir o essencial do acessório, a fazer as pazes com o tempo e a celebrar cada instante, até mesmo aqueles que chegam envoltos no silêncio.
Talvez seja esse o maior privilégio da idade: descobrir que a felicidade raramente está nas grandes conquistas e quase sempre nas pequenas coisas que o coração aprendeu, finalmente, a valorizar.

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Tempo perdido e afetos esquecidos

Vivemos numa época em que o tempo parece nunca chegar para tudo. Corremos de tarefa em tarefa, divididos entre as exigências profissionais, as preocupações do dia a dia e as múltiplas distrações que a modernidade colocou ao nosso alcance. No entanto, talvez a pergunta mais importante não seja quanto tempo temos, mas a quem e a quê o estamos a dedicar.
É difícil não reparar no panorama que se repete diariamente. À mesa das refeições, outrora lugar privilegiado de encontro e diálogo familiar, imperam agora os telemóveis. Pais e filhos partilham o mesmo espaço físico, mas cada um habita o seu próprio mundo digital. As conversas escasseiam, os silêncios multiplicam-se e os olhares, em vez de se cruzarem, fixam-se em ecrãs luminosos que parecem ter substituído a presença humana.
O mesmo acontece com tantas horas entregues às séries televisivas, às redes sociais e a outras formas de entretenimento que, embora legítimas quando usadas com equilíbrio, ocupam frequentemente um espaço excessivo na nossa vida. Sem nos apercebermos, vamos adiando aquilo que verdadeiramente importa: uma conversa com os filhos, uma visita aos pais, um gesto de atenção para com o cônjuge, um telefonema a um irmão, um momento de escuta dedicado a quem precisa de nós.
Paradoxalmente, aquilo que deveria ser prioritário passou a ser tratado como secundário. O tempo dedicado aos pais, aos filhos, ao esposo, à esposa, aos irmãos e à família é muitas vezes encarado como uma interrupção das nossas agendas, quando deveria constituir o seu núcleo essencial. Como se os afetos pudessem esperar. Como se as pessoas estivessem sempre disponíveis. Como se houvesse uma garantia de amanhã para dizer as palavras que ficaram por pronunciar hoje.
Contudo, a verdade é simples e inquestionável: os laços humanos não sobrevivem sem tempo. O amor, a amizade, a educação dos filhos, o respeito pelos mais velhos e a união familiar exigem presença, disponibilidade e dedicação. Nenhuma aplicação tecnológica pode substituir um abraço. Nenhuma série televisiva pode ocupar o lugar de uma conversa sincera. Nenhuma rede social pode reproduzir o calor humano de uma família verdadeiramente unida.
Os sinais das consequências desta inversão de prioridades estão à vista de todos. Crescem a solidão, a incompreensão entre gerações, a fragilidade dos relacionamentos e a dificuldade em transmitir valores duradouros aos mais novos. Multiplicam-se os contactos, mas diminuem os encontros. Aumentam as ligações digitais, mas enfraquecem os vínculos humanos.
Talvez por isso seja justo afirmar que o mundo parece caminhar por uma perigosa rota de desagregação dos afetos, dos princípios e dos valores. Não porque faltem meios de comunicação, mas precisamente porque, tendo tantos meios para comunicar, estamos a esquecer-nos da arte de conversar, de escutar e de estar verdadeiramente presentes uns para os outros.
Ainda estamos a tempo de inverter este caminho. A solução não exige grandes revoluções, mas pequenas decisões diárias: pousar o telemóvel durante as refeições, reservar tempo para a família, visitar quem está só, conversar com os filhos, ouvir os idosos, cultivar a amizade e dar prioridade às pessoas em vez das distrações.
Porque, no fim de contas, o tempo dedicado àqueles que amamos nunca é tempo perdido. É, pelo contrário, o investimento mais valioso que podemos fazer. Tudo o resto passa. Os afetos genuínos permanecem. E serão eles, mais do que qualquer sucesso material ou tecnológico, a verdadeira medida da riqueza de uma vida.
San Sebastián - Espanha

domingo, 25 de outubro de 2026

O mesmo "sim"

Há lugares que pertencem aos mapas. E há lugares que pertencem ao coração. A ponte da Rua 16 de Julho, sobre o Ribeiro da Cavalinha, na minha Beirã, é um desses lugares.
Quem por lá passa vê apenas uma ponte, uma árvore frondosa e a água correndo pacatamente por baixo. Nada de extraordinário. Nada que denuncie as memórias que aquele recanto guarda.
Mas eu sei. E a Maria Manuela também.
Namorávamos desde 1971 quando a vida nos separou durante algum tempo. Primeiro veio a guerra. Dois anos e meio do outro lado do oceano.
Depois vieram os tempos difíceis que se seguiram ao 25 de Abril. Sem trabalho na Beirã, tive de partir para as Minas da Panasqueira. A distância não era um oceano, mas era suficiente para que apenas nos pudéssemos encontrar de quinze em quinze dias.
Ela esperou.
Esperou que eu voltasse da guerra.
Esperou pelas dificuldades daqueles anos incertos.
Esperou pelo futuro que ainda não sabíamos como seria.
E chegou o dia 17 de janeiro de 1976. Nesse sábado tinha casado uma sobrinha da Maria Manuela. Almoçámos no banquete e, como dois namorados que procuram um pouco de sossego depois da festa, fomos caminhar pela aldeia.
Sem destino. Sem planos. Sem discursos preparados. Quando chegámos à ponte, parei. Segurei-lhe a mão. Olhei-a nos olhos. E fiz a pergunta mais importante da minha vida:
– Maria Manuela, queres casar comigo?
Ela foi apanhada de surpresa. Não havia flores. Não havia alianças. Não havia testemunhas. Não havia nada preparado. Apenas dois jovens diante de uma vida inteira por construir.
Hesitou por um breve instante, talvez mais por surpresa do que por dúvida.
E respondeu:
– Quero.
Foi uma palavra simples.
Mas poucas palavras tiveram tanta importância na minha vida.
Hoje, esta tarde, cinquenta anos depois, voltámos ao mesmo lugar.
Sentámo-nos na mesma grade de granito da ponte, debaixo da mesma árvore, junto ao mesmo Ribeiro da Cavalinha. Fotografámo-nos um ao outro, como tantas vezes fizemos ao longo da vida.
E dei por mim a pensar que o tempo tem uma forma curiosa de passar.
A pedra é a mesma.
A água é outra.
A árvore cresceu.
Nós envelhecemos.
Mas continuo a recordar com nitidez aquela pergunta feita sem ensaio, sem cerimónias e sem grandes palavras.
E, olhando para a Maria Manuela ao meu lado, percebi que a resposta continua presente em cada dia das nossas vidas.
Cinquenta anos depois, cada dia é ainda o mesmo e maravilhoso "sim".

Do lado de cá da linha

Quando nasci, na Beirã, todas as casas das ruas "do lado de cá da linha" já lá estavam. Eram modestas, de paredes caiadas com cal branca da Escusa, algumas com alisares pintados a cinzento, portas e janelas construídas à mão pelos carpinteiros da terra. Nada havia do brilho uniforme das tintas industriais nem das caixilharias de alumínio que, anos mais tarde, chegariam pela mão do progresso.
Quase encostado à minha casa existia - existe ainda - o lavadouro público, mas então, era a céu aberto. À sua volta estendiam-se grandes lajes de canchos onde as lavadeiras coravam a roupa ao sol. Com o passar do tempo o tanque ganhou uma cobertura, para proteger quem ali ia lavar nos dias frios e chuvosos, com modernos estendais em betão armado, no lugar das antigas pedras.
Porém, as maiores mudanças não aconteceram nas construções.
Antigamente, o lavadouro era um lugar de encontro e convivência. As mulheres disputavam espaço junto à água, cada uma trazendo à cabeça o seu alguidar carregado de roupa. Hoje contam-se pelos dedos de uma só mão as que ainda ali aparecem. Não por causa das máquinas de lavar. Simplesmente porque já quase não vai por aqui havendo quem tenha roupa para lavar e estender.
As casas continuam alinhadas nas ruas, mas muitas delas estão fechadas todo ano, salvo um ou outro fim de semana ou férias. O bulício de outrora foi dando lugar a uma tranquilidade que, por vezes, parece excessiva.
A vida da aldeia concentra-se agora sobretudo "no lado de lá da linha", no bairro mais recente e na unidade de cuidados continuados instalada nas antigas casas dos funcionários da alfândega. Quem atravessa a linha férrea para o lado onde ainda moro encontra ruas vazias, poucas casas habitadas num ritmo muito diferente daquele que conheci e onde reina o silêncio.
Ainda assim, não se veem sinais generalizados de abandono. Salvo raras exceções, como uma casa na Rua Vivas cujo telhado já cedeu ao peso do tempo, a maioria das habitações mantém-se cuidada. Muitas transformaram-se em casas de férias, conservadas com esmero, embora permaneçam vazias durante meses.
Nunca imaginei assistir a esta transformação absurda. Sempre pensei envelhecer entre o riso e a alegria das crianças a brincarem pelas ruas, os cumprimentos dos vizinhos, os apitos dos comboios e a azáfama quotidiana de uma comunidade viva. Ao contrário disso, vi foi partirem familiares, amigos e vizinhos, e as suas casas deixarem de ser habitadas.
Aceitei essas partidas como parte natural da vida. Mais difícil foi habituar-me à mudança do ambiente que durante décadas deu identidade a esta aldeia.
Quando nasci a Beirã era pequena e simples, mas cheia de vida. Cresceu comigo. Modernizou-se, desenvolveu-se e tornou-se um pequeno mundo onde quase nada faltava. Viviam aqui ferroviários, funcionários públicos, trabalhadores rurais, agentes da autoridade, comerciantes e artesãos. As coletividades fervilhavam de atividade e as relações humanas enchiam as ruas de movimento.
Os espanhóis vinham de comboio desde Valência de Alcântara para fazer compras, enquanto nós atravessávamos a fronteira em busca de sapatilhas, caramelos e tantas outras espanholices. Era um intercâmbio natural, espontâneo e saudável. Muitas famílias, incluindo a minha, criaram raízes dos dois lados da fronteira.
Pais, irmãos, sobrinhos e primos repartiam-se entre Portugal e Espanha, quase todos por aqui compreendíamos o castelhano "Extremeño", tal como os nossos vizinhos entendiam o nosso português Alentejano.
Era um mundo simples, pacífico e profundamente humano.
Até os antigos contrabandistas e guardas fiscais acabavam por fazer parte dessa singular paisagem raiana onde, de certo modo, uns justificavam a existência dos outros. Hoje, nos momentos de sossego, sento-me frequentemente no ponto mais alto da aldeia a contemplar a paisagem da qual tantas memórias guardo. Ali permaneço longos minutos, por vezes horas a recordar pessoas, histórias e episódios que o tempo levou consigo.
A nostalgia visita-me frequentemente, mas também me ajuda a perceber o valor daquilo que vivi neste chão que continuo a considerar sagrado.
Os alojamentos locais trouxeram novos rostos e uma dinâmica diferente. Talvez não substituam a vida de antigamente, mas mostram que a aldeia continua a despertar interesse e carinho em quem a visita.
O tempo avança, trás e leva pessoas, hábitos e costumes, altera sons, rotinas e vivências. É a sua natureza. O que permanece são as casas recuperadas, as ruas que resistem ao passar dos anos e, sobretudo, a ligação afetiva daqueles que, como eu, nunca deixaram de amar este lugar.
E por cá vou ficando enquanto Deus quiser, agarrado às minhas memórias, mas também atento aos sinais de vida que persistem, porque um lugar não é feito apenas do número dos seus habitantes, é feito também das histórias que guarda, das raízes que sustenta e do amor que continua a despertar em quem lhe pertence.
Enquanto cá estiver, este amor persistirá, porque até quando o silêncio parece ocupar todos os espaços, gosto de acreditar que ele não é apenas ausência. É também a voz discreta da memória, lembrando-me que houve aqui uma comunidade feliz e cuja alma continua presente para quem a sabe escutar.
Texto e foto

Memórias que resistem ao tempo

N asci no início da década de 50, exatamente a meio do século XX. O mundo estava destroçado por duas guerras mundiais e outra, civil, parede...