Meu vicio da escrita...
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Não era apenas uma linha
quarta-feira, 13 de maio de 2026
O silêncio é um amigo
Há momentos em que o silêncio me envolve com uma mansidão antiga, como se tivesse aprendido quando necessito dele. E nesses momentos, a memória senta-se também ao meu lado.
Sem
bater à porta e sem pedir licença, entra devagarinho, como um vizinho antigo
que já conhece os cantos à casa.
E
eu deixo.
O
silêncio, nunca incomoda.
Aconchega.
E
a memória traz-me à lembrança rostos que já não vejo, risos que o vento levou,
cheiros e momentos que só a infância sabe guardar.
A
voz da minha mãe a cantarolar enquanto acendia o lume para fazer a ceia, ao
cair da noite.
O
chiar da porta da cozinha.
O
lume a estalar, como se conversasse comigo.
E
percebo que tudo isso – o que vivi, o que perdi e o que ficou – ainda mora em
mim.
Não
como peso, mas como raiz.
O
passado, aqui no meu Alentejo, nunca se vai embora de verdade.
Fica
entranhado na terra, no silêncio, no corpo.
Fica
no modo como abrimos a porta, como pousamos o olhar, como respiramos devagar
para não assustar o tempo.
Tal
como os sulcos que se formam na terra lavrada, também as memórias traçam os
seus dentro de mim. Uns vêm nítidos, outras chegam baços como fotografias
antigas guardadas numa caixa de sapatos.
Mas
todos têm o seu lugar. Todos me lembram que sou feito de instantes que ficaram
agarrados à pele.
E
então entendo: este silêncio é um amigo cuja presença discreta, quase tímida,
se senta comigo nos dias cinzentos e me diz:
“Olha
o que viveste. Olha o que te fez ser quem és.”
O
passado não é um sítio onde a alma se perde. É o campo onde se semeia o
presente. E cada memória – boa ou dura – é uma pedra da calçada que me trouxe
até aqui.
Por
isso, quando a tarde cai e o dia encolhe, deixo que o silêncio me abrace. Não
para me prender, mas para me lembrar que sou feito de tempo, de encontros, de
despedidas, de risos que ainda ecoam.
Sou
feito daquilo que permanece, mesmo quando já partiu.
José Coelho
Respeito – o pilar que sustenta tudo o resto
Quem me conhece sabe que detesto mentiras e gente falsa. Para mim, sinceridade, humildade e respeito, não são apenas palavras bonitas, são princípios de vida. E quem não entende o peso delas, dificilmente poderá ter a minha amizade.
Vivemos num tempo em que a aparência vale, muitas vezes, mais do que a essência. É fácil encontrar quem escolha a mentira ou a falsidade para alcançar objetivos rápidos.
Mas
eu acredito, sem hesitar, que a verdade é o único alicerce sólido de qualquer
relação, seja de amizade, familiar ou profissional. A mentira até pode render
ganhos imediatos, mas corrói o que há de mais precioso: a confiança. E essa,
todos sabemos, demora uma vida a construir e perde‑se num instante.
Ser
sincero não é ser bruto, nem magoar quem está à nossa frente. É agir com
honestidade e transparência, dizendo o que se pensa com respeito. A sinceridade
exige coragem – porque nem sempre é fácil mostrar o que sentimos ou pensamos – mas
é ela que dá profundidade às relações e as torna verdadeiras.
A
humildade, essa, é reconhecer que ninguém é perfeito. É saber aprender, admitir
erros, pedir desculpa quando é preciso e aceitar críticas que nos fazem
crescer. A pessoa humilde não se coloca acima de ninguém; trata todos com
igualdade, independentemente da origem, posição ou opinião.
E
depois há o respeito, o pilar que sustenta tudo o resto. Respeitar é aceitar
diferenças, ouvir com atenção, procurar compreender antes de julgar. Sem
respeito, não há confiança, não há diálogo, não há caminho conjunto.
A
amizade, para mim, não é só partilhar alegrias. É saber que nos momentos
difíceis existe alguém que permanece honesto, mesmo quando a verdade dói. Por
isso não abdico dos meus princípios: quem não valoriza sinceridade, humildade e
respeito, não terá lugar no meu círculo de amigos.
Escolher
rodear‑me de pessoas verdadeiras é um ato de amor‑próprio. Prefiro poucos, mas
autênticos, do que muitos, mas vazios. É minha profunda convicção que as
relações construídas sobre valores firmes, são as que realmente importam e
tornam a vida mais leve, mais digna e mais nossa.
José Coelho
terça-feira, 12 de maio de 2026
Lugar onde o tempo não passa - ajoelha-se
No maio luminoso abre‑se este sagrado
manto florido, estendido pelos deuses da terra.
A velha casa de campo – outrora
lar de numerosas famílias que viviam do sol, da ceifa e do rumor das estações –
ergue‑se agora como ancestral fortaleza, guardiã de segredos que só o vento
ousa repetir.
Lá ao fundo, onde o horizonte se
dissolve nas terras de Espanha, a fronteira parece uma linha traçada por
gigantes, mais antiga do que qualquer reino.
Sob esta vastidão dormem cinco
milénios de humanidade: antas que vigiam a noite como sentinelas de pedra,
menires que apontam o caminho das estrelas, lagaretas talhadas pelos primeiros
artesãos do mundo, e povoados alto‑medievais que ainda murmuram o eco de passos
esquecidos.
Aqui, onde a terra respira mito,
cada flor é um sinal, cada sombra é uma memória, e cada sopro de vento traz
consigo a voz dos que por aqui caminharam antes.
Neste lugar, o tempo não passa – o
tempo ajoelha‑se.
José Coelho
O tempo já não me engana
Há dias em que acordo e sinto que o tempo deixou de correr. Já não foge, já não me empurra, já não me desafia. Caminha ao meu lado como um velho conhecido que perdeu a pressa e a vaidade. A maturidade ensinou-me que a vida não se mede em décadas, mede-se em lembranças. Momentos que ficaram, palavras que ficaram, pessoas que ficaram… e outras que partiram sem sequer fecharem a porta.
A
velhice, dizem, é um inverno. Eu não acredito nisso. Para mim, a velhice
parece-se mais com o fim de uma tarde de verão alentejano: ainda está calor,
mas já não queima; a luz ainda brilha, mas já não cega; e o silêncio ganha uma
profundidade que antes não sabíamos escutar. Agora já não me iludo com
promessas – nem as minhas, nem as dos outros.
Há
verdades que só se revelam tarde, como certas flores que só abrem ao anoitecer.
Durante
muitos anos, acreditei que os filhos seriam o meu porto seguro. Que a velhice
seria uma mesa cheia, vozes pela casa, passos no corredor. Mas a vida tem o seu
próprio ritmo – e o ritmo deles não é o meu. Hoje sei que os filhos não são
âncoras. São barcos.
Partem.
E é justo que partam.
A
solidão que dói não é a ausência deles. É a ausência de mim próprio, quando me
esqueço de que ainda existo para lá das memórias que guardo. Com o avançar da
idade, aprendi que a solidão não é inimiga, é um espelho.
E
às vezes custa olhar.
Nesta
idade, o corpo fala. Fala baixinho, mas fala sempre. Um joelho que protesta,
uma lombar que se queixa, um cansaço que chega sem pedir licença. Mas também há
uma sabedoria nova: a de agradecer cada manhã em que me levanto sem nenhuma dor,
cada passo que ainda dou, cada respiração que não custa. A saúde já não é
garantia, é empréstimo.
E
eu aprendi a tratá-la com a delicadeza de quem segura algo frágil, sabendo que
um dia terá de o devolver.
Durante
anos, imaginei o Estado como um pai distante: falhava, mas no fim aparecia. Mas
ao reformar-me percebi que o Estado não é pai de ninguém. É uma máquina e as
máquinas não têm compaixão. A reforma chega curta. Os preços chegam longos. E
no meio desta matemática cruel, descobri que a dignidade é um ato de
resistência.
Não
espero milagres. Espero apenas que me deixem viver com o pouco que tenho e com
o muito que ainda sou.
Há
quem envelheça para baixo, como se a idade fosse um peso que os puxasse para o
chão. Eu escolhi envelhecer para dentro. A velhice não me tornou fraco –
tornou-me lúcido. Já não me queixo por hábito.
A
queixa é uma forma de desistir. E eu ainda não desisti de mim.
O
passado é uma tentação. Brilha mais do que brilhou, cheira melhor do que
cheirou, parece mais fácil do que foi. Mas o passado é um país onde já não
moro. Por isso aprendi a viver no presente, não porque ele seja perfeito, mas
porque é o único lugar onde ainda posso fazer alguma coisa.
Por
mim e pelos outros, como foi sempre meu timbre.
E
se o tempo já não me engana, é porque finalmente aprendi a caminhar ao lado
dele, sem medo de ficar para trás e sem pressa de chegar a lado nenhum. O que
me resta não é pouco: é o essencial – estar vivo, estar lúcido e ser ainda
capaz de sentir o mundo com a mesma profundidade com que sempre o vivi.
José Coelho







