Há momentos em que o país parece viver num estado permanente de sobressalto moral. Basta um vídeo tremido, uma manchete apressada, um rumor que se espalha mais depressa do que a verdade e de repente ergue-se um tribunal invisível, feito de cliques, indignação e certezas instantâneas. Um tribunal onde ninguém pede contexto, ninguém espera investigação, ninguém distingue. Julga-se primeiro; pensa-se depois.
Meu vicio da escrita...
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
segunda-feira, 11 de maio de 2026
Quando a farda pesa mais do que o erro
Ovelhas voadoras
domingo, 10 de maio de 2026
A mesa que ainda nos espera
Houve um tempo, não tão distante quanto parece, em que a grande mesa da nossa sala de jantar ficava pequena para tanta vida. As oito cadeiras eram sempre poucas e era preciso acrescentar outras, improvisar lugares, abrir espaço onde já não havia.
E, no entanto, cabíamos todos.
Cabíamos sempre.
Lembro-me
desse convívio como quem recorda um abraço antigo: quente, cheio, inteiro. Era
ali, naquela mesa apertada, que a família respirava junta. E mesmo agora,
sendo já menos os que se sentam comigo, um domingo sem família em casa deixa um
silêncio que não é de paz, é de falta.
Não consigo, nem quero, deixar morrer a tradição que herdei do meu pai. Ele, que tinha tão pouco, parecia ter tudo quando nos via à volta da sua mesa. Os olhos dele brilhavam mais do que qualquer iguaria que se pudesse servir.
A comida era simples - legumes da horta, frutos colhidos com as próprias mãos, aves do galinheiro, carnes do fumeiro - mas nunca foi isso que importou.
O essencial era estarmos juntos.
E isso bastava sempre.
Foi nesse cenário de simplicidade luminosa que aprendi o que realmente sustenta uma vida: o amor fraterno, a união, a presença. Foi ali que percebi que os valores não se ensinam, vivem-se.
E quem aprende a amar os seus,
aprende a amar o mundo.
Hoje,
porém, o mundo mudou. Os pais trabalham os dois, as crianças crescem em
instituições que cuidam, mas não acolhem como o colo dos avós. E os próprios
avós acabam os seus dias longe da família, entregues a mãos que os tratam, mas não amam.
É a vida moderna, dizem.
E talvez seja.
Mas dói na mesma.
Por
isso, enquanto puder, continuarei a fazer o que sempre vi fazer: abrir a porta,
pôr a mesa, acender o lume, cozinhar os petiscos antigos que já poucos sabem
preparar. Continuarei a chamar os meus, a reunir quem amo, a manter viva a
chama que recebi do meu pai, essa chama que nunca se apagou dentro de mim.
Porque é assim que honro os que já partiram.
É assim que abraço os que ainda tenho.
É
assim que permaneço fiel àquilo que me fez ser quem sou...
Tenham, se puderem, um tranquilo resto de fim de semana.
José Coelho
O que realmente importa
Com
o tempo aprendi que as relações – todas elas – só valem a pena quando assentam
em quatro pilares simples: respeito mútuo, educação verdadeira,
honestidade nas atitudes e gratidão pelos gestos que recebemos sem os pedir. O
resto é ruído, pressa, necessidade de preencher vazios que não me pertencem.
O
respeito é a base de tudo.
Não
é reverência, não é submissão, não é formalidade. É apenas a capacidade de
reconhecer o outro como alguém com tempo próprio, limites próprios, vida
própria. Quem não entende isto, não entende nada do que é viver em paz.
A
educação, essa, não se finge. Ou existe, ou não existe. Não é feita de palavras
bonitas, mas de gestos simples: saber esperar, saber ouvir, saber chegar
devagar. A educação verdadeira não invade, não exige, não atropela. Aproxima-se
com cuidado.
A
honestidade é o que separa a presença da intenção. Não preciso que me digam
tudo; preciso apenas que o que digam seja verdadeiro. A vida já me ensinou a
distinguir quem vem por bem de quem vem por necessidade. E eu prefiro sempre a
verdade simples à simpatia apressada.
E
depois há a gratidão – essa forma silenciosa de reconhecer o que nos é dado sem
que o tenhamos pedido. A gratidão não se anuncia, sente-se. É o gesto de quem
sabe que nada é garantido e que cada ajuda, cada palavra, cada presença tem
valor.
É
isto que procuro. É isto que ofereço. O resto… passa-me ao lado.
José
Coelho
Texto e foto com Maria Coelho
sexta-feira, 8 de maio de 2026
Amigos como só eles
Há
imagens que não são fotografias nem desenhos – são memórias que se acendem
dentro de nós. Esta imagem da internet, de um homem e de um cão lado a lado à
luz da lua, podia muito bem ter sido tirada na Beirã, num daqueles finais de tardes em
que eu chegava do trabalho, lanchava qualquer coisa e saía logo a seguir com o
Rex.
O
Rex… Negro como uma amora madura, forte, dócil, inteligente. O meu companheiro
de quatro patas, que só lhe faltava falar.
Caminhávamos
juntos pelos campos até ao anoitecer. Eu falava, ele ouvia. E havia momentos –
muitos – em que, se alguém nos visse de longe, diria que éramos exatamente esta
imagem: dois amigos lado a lado, iluminados pela lua, partilhando um silêncio
que dizia tudo.
Mas um dia a leshmaniose chegou. Nos anos 90 pouco se sabia, não havia vacinas, e o veterinário, receoso, disse-me que era melhor acabar com o sofrimento dele porque já tinha feridas incuráveis.
Veio ter comigo assim que o chamei.
A
família refugiou-se no primeiro andar. Eu fiquei cá em baixo, sozinho com o meu
amigo.
Sentei-me
no chão da tapada e disse-lhe:
–
Rex, deita aqui.
E ele deitou-se.
Pousou a cabeça no meu colo com a confiança de sempre. E naquele
instante, mesmo com o veterinário a preparar a seringa, mesmo com o peso da
decisão, mesmo com as lágrimas a caírem-me pela cara abaixo, senti que
estávamos outra vez naquela imagem: eu e ele, lado a lado, iluminados por uma
luz que não era a da lua, mas parecia.
O
veterinário fez o que tinha de ser feito. O Rex suspirou fundo, como quem
finalmente descansa. E partiu.
Fiquei
com ele até o corpo arrefecer. Depois cavei uma cova funda na tapada,
sepultei-o ali mesmo, e protegi o lugar com silvas e pedras grandes para que
nenhum animal selvagem o profanasse. Era o mínimo que podia fazer por quem me
tinha dado tudo.
Vieram
depois outros amigos: a Sacha, o Bolinhas, a Suri. Todos eles passaram pela
nossa vida como bênçãos breves. Todos eles partiram como partem os que amamos mais.
E
um dia, depois da Suri – que que se foi na Sexta-Feira Santa de 2022 – decidimos
que não queríamos mais passar por esse desgosto.
Mas
a verdade é que... desde então falta qualquer coisa nesta casa. Falta aquela
amizade que nenhum ser humano consegue dar. Falta a presença silenciosa, fiel,
inteira.
Falta
o Rex. Faltam todos eles.
E
talvez por isso, desde que a Suri partiu, nunca mais tive amigos como só eles.
José Coelho





