quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O que ainda temos

Hoje é um daqueles dias em que a saudade pesa como uma pedra. O coração procura o colo que já não temos, o cheiro, a voz, o toque que o tempo levou.
Mas é então que devemos levantar os olhos e ver o que ficou: os filhos, as netas e restante família, os amigos, as mãos que ainda se estendem, os risos que ainda ecoam.
A perda ensina-nos a agradecer. Agradecer o que foi, o que é, o que ainda pode ser. Porque cada abraço que damos hoje é também um eco do amor que recebemos ontem.
Quando a saudade nos invade, não é para nos prender, é para nos lembrar que a vida continua a ser um lugar de encontro. E que o melhor modo de honrar quem partiu, é agarrarmo-nos ao que ainda temos, com ternura, com fé, com gratidão.
Porque quem parte deixa sempre raízes e é nelas que devemos apoiar o peso da saudade. A vida, afinal, é isso: um fio que se prolonga, uma memória que respira, um colo que se reinventa nos braços dos que ficaram.

Dias inquietos

Há dias em que a nossa cabeça anda como um bando de pardais cada um a voar para seu lado, mas isso não é falha, é humanidade.
Essa dispersão também faz parte do ritmo da vida, sobretudo quando se carregam tantas tarefas, memórias, afetos e cuidados como eu carreguei pela vida fora.
Nestes dias inquietos em que nos sentimos assim, deixemo-nos ir.
O melhor que podemos fazer é aceitar esse estado de espírito como quem aceita uma brisa inesperada que não se controla, apenas se sente.

Estrelinha

** Florinda da Conceição Lourenço **
** 08. 10. 1926 / 28. 07. 2014**

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Uma vida que a melancolia sempre moldou

O outono sempre me acompanhou, mesmo quando eu ainda não sabia o nome das estações. Era a luz, ou talvez o silêncio. Ou aquele modo como o dia se despede devagar, como quem sabe que a noite não é inimiga, é apenas continuação.
Ainda criança já carregava esta melancolia que não vinha de tristeza. Vinha de solidão. Daquela solidão que não se escolhe, mas se aceita. Daquela solidão que molda, que afina, que ensina a ver o mundo com mais profundidade.
A minha mãe era o centro do meu mundo e o rosto que eu queria proteger, porque já então sentia tudo: a falta de dinheiro, a preocupação com o dia seguinte, o peso das contas, o silêncio das noites longas. Menino ainda, percebi tudo isso, antes de perceber outras coisas mais simples.
Quando lhe entregava a minha jorna, sentia-me grande. Não porque o dinheiro fosse muito, mas porque via no seu rosto algum alívio. Eu vivia para isso: para não a ver triste, para que não se afligisse, para que o mundo não lhe pesasse tanto. A minha melancolia começou não como dor, mas como responsabilidade, como amor.
O meu pai, o homem que lia o céu, era diferente. Falava pouco, mas dizia muito. Tinha aquele olhar de quem mede o tempo não pelo relógio, mas pela luz. Sabia quando a terra estava pronta para semear, quando a chuva vinha, quando o dia ia ser duro.
E eu seguia-o como se segue um mestre. Não porque ele me pedisse, mas porque eu precisava. Precisava daquela segurança silenciosa, daquela firmeza que não se exibia, daquela sabedoria que não se ensinava em palavras. Foi com ele que aprendi a olhar o céu antes de decidir o que fazer no chão. Ainda hoje faço isso.
Quando os meus filhos nasceram foram um outono que se tornou primavera: percebi que a minha vida tinha feito um círculo perfeito. Tudo o que me faltou a mim quis dar-lhes a eles. Não em excesso, mas em presença, em tempo, em companhia.
Eles nunca precisariam de inventar rebanhos com bolotas. Nunca precisariam de esperar pelo pôr do sol para voltarem para casa e terem a nossa companhia. Nunca precisariam de medir o dinheiro como quem mede o ar que falta. E isso, para mim, foi redenção. Foi cura.
Hoje, adulto há muito, continuo melancólico. Mas já não é aquela melancolia do medo e da solidão. É a melancolia da memória. Da gratidão. Da consciência. Vejo o pôr do sol e recordo o menino que passava os dias sozinho e chorava com medo das trovoadas, tão longe de casa com as ovelhas.
Vejo o outono e reconheço o rapaz que cresceu cedo demais. Vejo a terra molhada e reconheço o homem que teve de aprender a cuidar, antes de aprender a pedir. E percebo que esta melancolia nunca foi defeito. Foi casa. Foi abrigo. Foi identidade.
Os meus silêncios acompanham-me desde sempre. Silêncios do campo. Silêncios da alma. Silêncios da responsabilidade precoce. Silêncios da ternura que não se diz. Hoje, esses silêncios não me isolam, protegem-me. São o lugar onde descanso. Onde penso. Onde me reencontro.
E é por isso que o outono é a minha estação. Porque é silêncio. É profundidade. É melancolia boa. É verdade.

A casa interior onde Deus acende luzes

Há um silêncio que não é ausência de som, mas presença de sentido. É como entrar numa casa antiga, onde tudo fala baixinho: o chão que range, o cheiro da madeira, a luz que atravessa a janela e pousa nos objetos como quem os abençoa.
Dentro desse silêncio, a alma deixa de correr. Senta-se. Respira. E percebe que não precisa de conquistar nada para ser inteira.
É ali que Deus acende luzes que não se veem por fora, luzes que iluminam feridas antigas, que aquecem lembranças, que devolvem ao coração a coragem de ser simples. Porque a simplicidade, quando é verdadeira, não é pobreza: é plenitude.
É saber que não precisamos de muito para sermos felizes, que a graça se esconde nos detalhes, que o amor cabe num gesto pequeno, que a esperança nasce de coisas quase invisíveis.
E quando finalmente nos levantamos desse silêncio, não saímos iguais. Saímos mais leves, mais atentos, mais disponíveis para o mundo. Como quem recebeu uma bênção que não se explica, mas que se sente a cada passo.

A dignidade dos velhos e a vergonha dos que a negam

Há uma verdade que quase ninguém quer encarar: envelhecer não é uma falha, é uma vitória. E, no entanto, tratamos muitas vezes os vencedores como se fossem um peso, um incómodo, um atraso no andamento do mundo.
A dependência chega devagar. Primeiro é só um braço oferecido para subir um degrau. Depois é uma ajuda para vestir o casaco. Mais tarde é a mão que segura a colher, o passo que precisa de guia, o corpo que já não responde como antes.
E é aqui que se vê quem somos. Não nos diplomas, não nos cargos, não nos discursos, mas na forma como tratamos quem já não pode correr. Porque a dependência não rouba dignidade. Quem a rouba são os outros.
Rouba-a quem fala com um velho como se fosse uma criança e decide por ele sem o ouvir. Quem o apressa, quem o ignora, quem o cala.
Rouba-a quem esquece que aquele corpo frágil já carregou sacos de compras, já criou filhos, já atravessou noites de trabalho, já chorou perdas que nós nem imaginamos.
Rouba-a quem não percebe que cada ruga é uma medalha. Que cada hesitação é uma história. Que cada lentidão é o preço justo de uma vida inteira de esforço.
E há uma dor ainda maior: a de ver pessoas que sempre foram fortes – pais, mães, avós – sentirem vergonha por precisarem de ajuda. Vergonha. Como se depender fosse humilhante. Como se pedir fosse fraqueza. Como se o mundo tivesse sido feito apenas para os rápidos, os produtivos, os que ainda conseguem fazer tudo sem tremer.
A verdade é outra: a dependência é o momento em que o amor se torna ação. É o instante em que os filhos mostram se aprenderam alguma coisa com a vida que receberam. É o verdadeiro teste de humanidade para uma família.
E falhamos tantas vezes.
Falhamos quando tratamos a velhice como um estorvo. Falhamos quando deixamos um idoso sozinho à mesa. Falhamos quando o apressamos, quando o corrigimos com impaciência, quando lhe tiramos a autonomia só porque é mais rápido fazêmo-lo nós.
Falhamos quando esquecemos que um velho não é um fardo – é um legado vivo.
E há uma pergunta que devia ecoar em todas as casas, em todas as consciências, em todas as rotinas apressadas: Como queremos ser tratados quando for a nossa vez? Porque vai ser. Mais cedo ou mais tarde, vai ser.
E nesse dia, cada gesto que fizermos hoje, ser-nos-á devolvido com juros.
A dignidade dos velhos não é negociável. Não é opcional. Não é favor. É dever. É justiça. É memória. É amor em estado puro. E quem não entende isto… não entendeu nada da vida.

O lugar onde o coração pousa

Há silêncios que não chegam de repente; vão-se formando devagar, como a luz que cresce no horizonte antes de ser manhã. São feitos de pequenas pausas, de gestos que não se dizem, de memórias que se ajeitam dentro de nós como quem encontra finalmente o seu lugar.
Nesse silêncio, o coração deixa cair o peso que traz escondido. Não precisa de explicações, nem de justificações, basta-lhe sentir que há um espaço onde pode pousar sem ser julgado.
É aí que Deus costuma entrar: não pela porta grande, mas pela fresta mais discreta, aquela que só se abre quando estamos cansados de palavras.
E quando Ele entra, não vem com respostas. Vem com presença. Vem com aquele modo suave de nos lembrar que não estamos sós, que a vida ainda tem música, que o caminho continua mesmo quando não o vemos.
O silêncio é o lugar onde o coração aprende a confiar outra vez.

José Coelho