Meu vicio da escrita...
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
sexta-feira, 15 de maio de 2026
Bom fim de semana
Oração à minha Terra
Terra
amada, que me corres nas veias como um rio antigo, escuta a minha voz que é
também a voz dos que vieram antes de mim.
Abençoa
estes prados onde as flores se abrem como pequenas oferendas ao sol que tudo
desperta. Abençoa as velhas casas que ainda guardam, nas suas paredes gastas, o
riso, o suor e o pão dos meus ancestrais.
Que
cada pedra que piso me lembre o caminho dos primeiros, que as pisaram. Que cada
sombra me recorde os que trabalharam de sol a sol, deixando na terra o peso dos
seus passos e a leveza dos seus sonhos.
Terra
amada, que és fronteira e ponte e tocas Espanha onde o céu se inclina, guarda
em ti a memória dos clãs que aqui viveram, dos que amaram, sofreram, criaram
filhos e repousaram sob o mesmo vento que hoje me toca o rosto.
Que
eu nunca esqueça que pertenço a este chão, que sou feito da mesma poeira que
alimenta as raízes, e que o meu sangue leva contigo a história inteira dos que
me antecederam.
Terra
amada, dá-me a força dos teus montes, a serenidade dos teus vales, e a
sabedoria silenciosa dos teus cinco mil anos.
E
quando eu caminhar por ti em silêncio, que esse silêncio seja oração e a oração
seja gratidão.
José Coelho
Quando a alma pergunta e o céu parece não responder
Há momentos na vida em que o mundo nos obriga a parar. Não por escolha, mas por excesso. Excesso de dor, de injustiça, de perguntas que não encontram resposta fácil.
Nos
últimos tempos, dei por mim a olhar para tudo isto – guerras, sofrimento,
abandono, solidão – e a sentir a fé tremer dentro de mim. Não desaparecer, mas
tremer. E percebi que não sou o único.
Este
texto nasceu desse lugar: não da certeza, não da revolta, mas da necessidade de
compreender o que ainda pode fazer sentido quando o mundo parece perder o seu.
Partilho-o
porque talvez alguém, como eu, precise de o ler.
Há
dias em que o mundo pesa mais do que o corpo e o espírito conseguem suportar.
Dias em que a dor dos outros se entranha na nossa, em que a injustiça parece
maior do que qualquer explicação, em que o sofrimento dos inocentes se torna um
grito que não sabemos onde pousar.
É
nesses dias que a alma, cansada, levanta a pergunta que atravessa séculos e
corações:
“Se
Deus existe… porque é que o mundo continua a arder?”
Esta
pergunta não nasce da descrença. Nasce do amor. Só quem ama profundamente a
vida, a justiça e a dignidade humana, sente esta ferida aberta.
Vivemos
num tempo em que as guerras devoram cidades inteiras. Em que líderes sem alma
transformam crianças, mulheres, velhos, comunidades inteiras, em números. Em que hospitais são destruídos, escolas
silenciadas, famílias desfeitas.
E,
mais perto de nós, há dores que não aparecem no telejornal, como aquele amigo acamado há
dez anos, entregue ao amor exausto da mulher, porque o sistema falha onde devia
ser mais humano; vidas que se gastam devagar, sem que ninguém as veja.
Perante
isto, a pergunta não é “onde está Deus?”.
A
pergunta é: como é possível que o coração humano suporte tanto?
E,
no entanto, suporta. E continua a amar. E continua a cuidar. E continua a
resistir.
Talvez
seja aí que Deus se esconde: não no poder que impede o mal, mas na força que
impede que o mal nos destrua por dentro.
A
fé profunda não é a fé que nunca duvida. É a fé que atravessa a dúvida sem se
perder de si mesma.
A
fé profunda não é a fé que explica o sofrimento. É a fé que se senta ao lado
dele e murmura: “Eu não te entendo, mas não te abandono.”
A
fé profunda não é a fé que vê Deus em tudo. É a fé que O procura mesmo quando
não O vê em lado nenhum.
E
então, o que fazer quando o mundo parece demasiado cruel para caber na ideia de
Deus?
Fazer
silêncio. Não o silêncio que foge, mas o silêncio que escuta. Respirar devagar.
Aceitar que a alma também se cansa. Permitir-se duvidar sem culpa. Reconhecer
que a pergunta é parte do caminho, não o fim dele.
Porque a fé não é uma resposta. A fé é uma direção.
E
quem continua a caminhar, mesmo ferido, mesmo baralhado, mesmo revoltado… já
está a rezar, ainda que sem palavras.
Se
Deus existe – e cada um descobre isso à sua maneira – talvez não esteja no
gesto que impede o mal, mas no gesto que impede que o mal nos apague. Talvez
não esteja no milagre que muda o mundo, mas na força que nos permite mudá-lo um
pouco, todos os dias. Talvez não esteja no céu que parece não responder, mas no
coração que insiste em perguntar.
E
talvez a fé profunda seja isso mesmo – não ter certezas, mas não desistir.
Que
cada um de nós encontre, no meio da dúvida e da dor, a pequena luz que ainda nos
faz caminhar.
José Coelho
Foto: Gentileza de uma amiga, na leitura da Reflexão numa Estação da Via Sacra.
O lado certo
Vivemos um tempo estranho – talvez o mais desconcertante que a minha memória alcança. Não porque eu tenha mudado, mas porque o mundo se afastou das regras simples e firmes com que fui criado. Continuo a pensar, a dizer e a fazer o que aprendi com gente de mãos calejadas e alma limpa. Quem age segundo a sua consciência, a mais não é obrigado.
Hoje, porém, sobra quase tudo do que antes faltava, e falta quase tudo do que antes nos sustentava: o respeito, a palavra dada, a amizade que não se mede, a generosidade que não se exibe, a humildade que não precisa de palco. Falta carácter – essa matéria antiga que não se compra nem se aprende tarde.
Também eu conheci a inveja disfarçada de amizade. Quando, com poucas habilitações mas muita vontade, decidi subir na vida para dar melhor futuro aos meus, encontrei portas fechadas, armadilhas silenciosas, provocações calculadas.
Trabalhei até ao limite, chorei em silêncio, quase desisti. Mas resisti. Transformei o cansaço em disciplina, o desânimo em força, a injustiça em combustível.
E quando alcancei o que persegui durante anos, vieram estender‑me a mão os mesmos que me tinham difamado. Não lha apertei. Disse-lhes apenas: “Sou o mesmo homem que os vocês tentaram prejudicar. Passem bem e que Deus vos dê saúde.”
Fui educado assim: a dizer o que tem de ser dito na cara, a não alimentar cobardias, a não falar nas costas de quem quer que seja. Ensinei isso aos meus filhos e ensino às minhas netas. Não é a idade que me vai mudar.
Errado não sou eu. Errado é este tempo sem norte, onde a violência, a corrupção e a falta de vergonha se tornaram rotina. Mas nós – os que ainda seguimos as regras antigas, mesmo que já pareçam fora de moda – continuamos do lado certo. E isso basta.
José Coelho
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Não era apenas uma linha
quarta-feira, 13 de maio de 2026
O silêncio é um amigo
Há momentos em que o silêncio me envolve com uma mansidão antiga, como se tivesse aprendido quando necessito dele. E nesses momentos, a memória senta-se também ao meu lado.
Sem
bater à porta e sem pedir licença, entra devagarinho, como um vizinho antigo
que já conhece os cantos à casa.
E
eu deixo.
O
silêncio, nunca incomoda.
Aconchega.
E
a memória traz-me à lembrança rostos que já não vejo, risos que o vento levou,
cheiros e momentos que só a infância sabe guardar.
A
voz da minha mãe a cantarolar enquanto acendia o lume para fazer a ceia, ao
cair da noite.
O
chiar da porta da cozinha.
O
lume a estalar, como se conversasse comigo.
E
percebo que tudo isso – o que vivi, o que perdi e o que ficou – ainda mora em
mim.
Não
como peso, mas como raiz.
O
passado, aqui no meu Alentejo, nunca se vai embora de verdade.
Fica
entranhado na terra, no silêncio, no corpo.
Fica
no modo como abrimos a porta, como pousamos o olhar, como respiramos devagar
para não assustar o tempo.
Tal
como os sulcos que se formam na terra lavrada, também as memórias traçam os
seus dentro de mim. Uns vêm nítidos, outras chegam baços como fotografias
antigas guardadas numa caixa de sapatos.
Mas
todos têm o seu lugar. Todos me lembram que sou feito de instantes que ficaram
agarrados à pele.
E
então entendo: este silêncio é um amigo cuja presença discreta, quase tímida,
se senta comigo nos dias cinzentos e me diz:
“Olha
o que viveste. Olha o que te fez ser quem és.”
O
passado não é um sítio onde a alma se perde. É o campo onde se semeia o
presente. E cada memória – boa ou dura – é uma pedra da calçada que me trouxe
até aqui.
Por
isso, quando a tarde cai e o dia encolhe, deixo que o silêncio me abrace. Não
para me prender, mas para me lembrar que sou feito de tempo, de encontros, de
despedidas, de risos que ainda ecoam.
Sou
feito daquilo que permanece, mesmo quando já partiu.
José Coelho
Respeito – o pilar que sustenta tudo o resto
Quem me conhece sabe que detesto mentiras e gente falsa. Para mim, sinceridade, humildade e respeito, não são apenas palavras bonitas, são princípios de vida. E quem não entende o peso delas, dificilmente poderá ter a minha amizade.
Vivemos num tempo em que a aparência vale, muitas vezes, mais do que a essência. É fácil encontrar quem escolha a mentira ou a falsidade para alcançar objetivos rápidos.
Mas
eu acredito, sem hesitar, que a verdade é o único alicerce sólido de qualquer
relação, seja de amizade, familiar ou profissional. A mentira até pode render
ganhos imediatos, mas corrói o que há de mais precioso: a confiança. E essa,
todos sabemos, demora uma vida a construir e perde‑se num instante.
Ser
sincero não é ser bruto, nem magoar quem está à nossa frente. É agir com
honestidade e transparência, dizendo o que se pensa com respeito. A sinceridade
exige coragem – porque nem sempre é fácil mostrar o que sentimos ou pensamos – mas
é ela que dá profundidade às relações e as torna verdadeiras.
A
humildade, essa, é reconhecer que ninguém é perfeito. É saber aprender, admitir
erros, pedir desculpa quando é preciso e aceitar críticas que nos fazem
crescer. A pessoa humilde não se coloca acima de ninguém; trata todos com
igualdade, independentemente da origem, posição ou opinião.
E
depois há o respeito, o pilar que sustenta tudo o resto. Respeitar é aceitar
diferenças, ouvir com atenção, procurar compreender antes de julgar. Sem
respeito, não há confiança, não há diálogo, não há caminho conjunto.
A
amizade, para mim, não é só partilhar alegrias. É saber que nos momentos
difíceis existe alguém que permanece honesto, mesmo quando a verdade dói. Por
isso não abdico dos meus princípios: quem não valoriza sinceridade, humildade e
respeito, não terá lugar no meu círculo de amigos.
Escolher
rodear‑me de pessoas verdadeiras é um ato de amor‑próprio. Prefiro poucos, mas
autênticos, do que muitos, mas vazios. É minha profunda convicção que as
relações construídas sobre valores firmes, são as que realmente importam e
tornam a vida mais leve, mais digna e mais nossa.
José Coelho
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