Meu vicio da escrita...
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
sexta-feira, 13 de março de 2026
Casa arrumada
No Dia da Guarda a 3 de Maio de 1986
num gesto implícito de público agradecimento, organizei no quartel um
almoço convívio comemorativo da efeméride e para ele convidei de novo todas as
entidades de todos os organismos públicos de Nisa, ao qual todos compareceram.
Foi interessante ver a cara de espanto de alguns daqueles convidados que lá
tinham ido em visita de cortesia oito ou nove meses antes.
O quartel estava um brinco.
Restaurado, pintado de fresco e cheirando a asseio, nada tinha a ver com aquele
outro bafiento em ruínas que tinham visto antes. Continuava obviamente a ser um edifício
velho e a avisar quem de direito que tratasse urgentemente de providenciar um
novo quartel, mas pelo menos agora tinha alguma dignidade.
Os dois comandantes, quer o
oficial comandante da secção, quer o sargento que me antecedeu no comando do posto, não devem ter
gostado da forma como em meia dúzia de meses se requalificara o velho edifício
que, pela sua total indiferença, quase tinham deixado ruir, argumentando que os responsáveis pelo edifício eram a Guarda e o Governo, por isso deviam ser esses a preocuparem-se com isso, porque não tinham eles de andar a pedir
favores à câmara municipal.
Nada disso me afetou.
Eu previa que
iria ter de passar ali um punhado de anos no comando do posto e resolvi as
coisas à minha maneira, tendo agora os militares umas instalações velhas mas
com um mínimo de dignidade, assim como a residência do comandante do posto, bem ao
contrário deles, que só se tinham preocupado em manter minimamente decentes, os
seus gabinetes.
Fiquei um dia a saber que o meu camarada sargento se referiu a mim, seu substituto, sem imaginar que
o senhor para quem estava a falar era um tio meu e lhe disse que eu era “um
comuna”.
Continuava com o preconceito que o caracterizava, mas que nunca me intimidou. Cada vez que experimentou medir forças comigo querendo fazer uso da sua patente dois degraus acima da minha – eu era segundo-sargento e ele sargento-ajudante – teve sempre de recuar na atitude porque com a maior firmeza lhe fiz notar que tanta obrigação tinha eu de o respeitar a ele, como tinha ele de me respeitar a mim também.
Assim acabou pura e simplesmente por desistir, quando percebeu que nunca levaria a melhor.
Entretanto e infelizmente para ele, foi acometido de uma doença incurável que lhe ditou uma aposentação precoce que
não teve tempo de desfrutar, porque faleceu poucos meses depois.
Encontrei-o casualmente um dia em
Lisboa no Centro Clínico da Guarda já muito debilitado e sinceramente
condoeu-me vê-lo assim, porque apesar de me ter tratado tão injusta e
incorretamente, nunca lhe desejei mal algum. Desejava tão só e apenas que
fizesse a sua vida e me deixasse fazer a minha em paz.
No exato momento em que o vi
dirigi-me imediatamente a ele para saber do seu estado de saúde e pude ver como
os olhos se lhe humedeceram. Não sei se por se sentir doente, se surpreso com o
meu gesto ao qual ele já não pôde responder porque tinha perdido
definitivamente a voz – eu não sabia disso – e por esse motivo limitou-se a
aceitar o meu cumprimento apontando para o enorme penso que lhe cobria na
garganta o local da recente intervenção cirúrgica a que fora submetido para lhe
retirarem um tumor maligno.
Recordo ainda a tristeza que eu próprio senti por vê-lo assim. Por essas e por outras, nunca deixo de pensar o quanto é incompreensível que andemos constantemente às turras uns com os outros quando a vida é tão imprevisível que de um momento para o outro toda a nossa força e energia, caem por terra. Duras lições que tenho aprendido pelo caminho da minha já longa vida e por isso procuro viver em paz com toda a gente que também queira viver em paz comigo.
Detesto intrigas, ódios, desavenças e
filhadeputices.
Em todo o meu percurso profissional
desde o momento que ascendi à classe praças, depois à de Cabos e a seguir à de
Sargentos, fiz sempre questão de pautar a minha conduta pelo respeito
institucional para com toda a gente, quer da minha patente quer superiores
hierárquicos ou subordinados, quer ainda as autoridades civis e
administrativas, exigindo, do mesmo modo, ver também respeitados os
meus direitos, perante fosse quem fosse.
Na minha função de comandante de
posto nunca me acomodei no conforto do gabinete e nele permanecia apenas
as horas necessárias ao despacho daqueles afazeres que eram de minha exclusiva
responsabilidade. Porém, assim que os terminava, logo estava dentro de um jipe
ou mesmo também a pé para alinhar com os cabos e os guardas no policiamento aos
campos, às estradas, às aldeias e a outros sítios da área do posto que eram
imensos e dispersos.
Nunca me julguei a omnipotente figura com direito de ficar no bem bom, enquanto os subordinados policiavam ao calor ou ao frio no exterior. Muito pelo contrário. Senti-me sempre e só apenas mais um, naquela excelente equipa de trinta e seis competentes profissionais.
A única diferença, era a de ter de ser eu e apenas eu, a assumir a responsabilidade
de planear os giros por forma a termos toda a área do posto vigiada e sob
controlo, mas até nisso fui sempre ajudado pela excecional competência e
lealdade de todo o efetivo que me transmitia as preciosas informações que
discretamente iam recolhendo junto da população e eram meio caminho andado para
um planeamento muito mais eficaz.
Éramos uma equipa e todos nunca fomos demais.
José Coelho in Histórias do Cota







