sábado, 30 de maio de 2026

Enquanto houver quem leia com o coração


Há encontros que não se anunciam. Acontecem assim mesmo, no meio da rua, entre um passo e outro, como se a vida decidisse lembrar-nos, de forma inesperada, que ainda há gestos capazes de nos tocar profundamente. Foi isso que me aconteceu naquele dia: uma senhora, já com mais de 80 anos, aproximou-se de mim com a delicadeza de quem carrega décadas de memórias no olhar e, com palavras sinceras, agradeceu-me pelo que escrevo sobre as pessoas, os usos e os costumes da nossa terra.

Naquele instante, o tempo abrandou. Não foi apenas o elogio que me comoveu – foi o que ele representava. Nos olhos dela, vi refletida a história viva da nossa comunidade: as tradições que resistem, os gestos que se repetem, os rostos que envelhecem, mas não se apagam. Havia ali a confirmação de que a minha escrita não é apenas um exercício literário; é um serviço à memória coletiva, uma forma de preservar aquilo que, sem registo, se perderia no silêncio dos dias.

Escrevo para pessoas como ela e sei disso. Para quem reconhece valor nas pequenas coisas, para quem encontra beleza nos rituais simples que nos unem, para quem lê com o coração e não apenas com os olhos. Aquelas palavras, ditas com a humildade de quem viveu muito e aprendeu a agradecer o essencial, tocaram-me porque me mostraram que o que faço tem sentido.

Que a minha voz ecoa onde deve ecoar.

A verdade é que a escrita, quando nasce da terra, tem esse poder de criar pontes entre gerações. Eu escrevo sobre o que vejo, mas também sobre o que herdei: os modos de viver, as histórias contadas ao entardecer, os costumes que moldaram a identidade de todos nós. E quando alguém me diz que se reconhece nas minhas palavras, que encontra nelas um espelho das suas próprias vivências, isso é mais do que reconhecimento – é pertença.

Aquela senhora Beiranense mas que não vive cá, com a sua gratidão tão genuína, ofereceu-me um dos maiores presentes que um (aprendiz de) escritor pode receber: a certeza de que a palavra, quando é verdadeira, chega ao coração de quem a merece. E eu que tenho na minha terra e na minha gente a maior paixão da minha já longa vida, recebi esse gesto como se recebe um abraço sentido: com emoção, com respeito, com a consciência de que certos momentos ficam para sempre.

Este encontro ficará guardado em mim como testemunho de que vale a pena continuar. Vale a pena escrever para quem reconheça na minha escrita a dignidade do que somos, quem encontre nas minhas crónicas a memória que não quer perder.

Bem haja, querida senhora, pelo seu generoso gesto. Enquanto houver quem leia com o coração e eu tenha lucidez, continuarei a dar voz à terra que amamos e nos fez aos dois.

A si e a mim.

José Coelho

Foto Maria Coelho

Oração

Senhor, Tu sabes onde estou e como estou, mesmo quando eu próprio já não sei. Sabes das minhas dispersões, dos lugares onde me perdi, das forças que me faltam e das perguntas que não consigo calar. Por isso venho assim, sem máscaras, com o coração meio seco, meio cansado, à procura de Ti.
Recolhe-me, Senhor. Faz-me voltar do que me afastou, do que me confundiu, do que me feriu. Aproxima-Te de mim como quem recolhe um filho que andou tempo demais sozinho. Tu que és a água viva, a água pura, só Tu sabes entrar onde ninguém entra, lavar o que ninguém vê, curar o que eu nem sei nomear.
Inunda-me com a Tua luz, meu Senhor. Não com força, mas com ternura. Não com medo, mas com confiança. Deixa que a Tua presença percorra devagar as fendas da minha alma e transforme o que está parado, o que está triste, o que está perdido. Fala-me no silêncio. Mostra-me o caminho onde eu só vejo nevoeiro. Sustenta-me quando a fé vacila e o coração se encolhe.
Senhor, seja o que for que ainda possa renascer em mim, fá-lo renascer. Seja o que for que ainda possa florescer, fá-lo florescer. Seja o que for que ainda possa ser salvo, salva-o. Entrego-Te o que sou, o que tenho, e até o que não consigo sentir. Ilumina-me Senhor e tudo se transformará em mim.
Amém.

sexta-feira, 29 de maio de 2026

Bom fim de semana

Sermos a nossa melhor companhia é um caminho silencioso, mas profundamente transformador. Não nasce de um dia bom, nem de uma fase leve.
Nasce, quase sempre, da ausência: da mão que não veio, do abraço que faltou, da palavra que não chegou a tempo.
É nesses intervalos – entre o que esperávamos e o que realmente aconteceu – que descobrimos a força que sempre esteve em nós, discreta, à espera de ser chamada.
Há momentos em que ninguém nos vê cair. E, por mais duro que seja, é nesses momentos que aprendemos a levantar-nos com uma dignidade que só quem já se ergueu sozinho conhece.
Não porque queremos ser fortes o tempo todo, mas porque a vida, às vezes, pede que sejamos também o nosso próprio chão.
Cuidarmos de nós não é egoísmo.
É responsabilidade emocional.
É reconhecer que, antes de sermos bons para os outros, precisamos de o ser primeiro para nós.
Quando nos damos colo, quando nos escutamos sem julgamento, quando nos oferecemos algum descanso, compreensão e paciência, estamos a reconstruir a relação mais importante da nossa vida: a relação conosco mesmos.
E algo profundo acontece quando nos priorizamos: O mundo deixa de ser um lugar onde procuramos validação e passa a ser um espaço onde escolhemos o que nos faz bem.
As relações tornam-se mais leves porque já não pedimos aos outros aquilo que aprendemos a dar a nós mesmos. A vida ganha outra textura, mais consciente, mais serena, mais verdadeira.
Ser a nossa melhor companhia não significa caminhar sozinho. Significa caminhar acompanhado de alguém que não nos abandona: nós.
E quando essa presença interna se fortalece, tudo o que vem de fora deixa de ser necessidade e passa a ser escolha.
Texto e foto

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Amigos que conheço como se fôssemos irmãos

Três amigos caminham lado a lado pelas terras da Beirã, como se o destino os tivesse alinhado desde sempre, embora só aqui, neste estreito vale, se tenham finalmente encontrado. Cada um nasceu do mundo à sua maneira, em tempos diferentes, mas todos aprenderam a reconhecer-se pelo simples acto de seguir adiante.

O mais novo deles, leve e curioso, é o Ramal de Cáceres, nascido em 1878. Vê‑lo ali, a passar sobre o muro do lado direito, como um rapaz que ainda não perdeu o gosto de explorar cada curva do caminho. Traz no passo a pressa dos que sabem que o mundo é grande e que Espanha começa logo ali adiante.

O segundo, mais maduro, é o Caminho da Retorta. Já era homem feito quando o Ramal veio ao mundo. Desce entre o choupo seco e o lado esquerdo da paisagem, com a serenidade de quem conhece cada sombra, cada pedra, cada dobra do terreno. É um caminho que não se apressa: observa, escuta, recorda.

E ao centro, correndo desde tempos que ninguém sabe contar, segue o mais velho dos três, o Ribeiro da Cavalinha. Não tem idade que se escreva em papel. Terá milhares de anos, talvez tantos quantos tem o próprio mundo. É o ancião que murmura histórias antigas, que leva no seu curso a memória de tudo o que já passou por estas margens.

Durante longos troços, caminham apenas à vista uns dos outros, cada qual no seu leito, no seu ritmo, no seu destino. Mas é aqui, nesta garganta estreita moldada pelo capricho do terreno, que finalmente se tocam. Encostam-se, apertam-se, cedem espaço uns aos outros para caberem os três – como velhos companheiros que, depois de anos de distância, se reencontram num abraço inevitável.

Passado o aperto, seguem juntos até ao Muro. Ali, o Caminho da Retorta e o Ribeiro da Cavalinha continuam lado a lado até à Várzea da Retorta, onde ambos encontram o seu fim. O Ramal de Cáceres, esse, segue em frente: atravessa o Matinho, inclina à direita para as várzeas da Herdade dos Pombais e das Amendoeiras, e entra em Espanha pela Ponte do Rio Sever, rumo a Valência de Alcântara, Cáceres e Madrid. É o mais novo, mas é o que vai mais longe.

Conheço os três como quem conhece irmãos. Sei-lhes os passos, os segredos, as manhas. Cresci com eles, fiz-me homem ao lado deles, e com eles estou a envelhecer. Enquanto viver, serei parte destas paisagens – parte dos seus silêncios, das suas histórias, daquilo que só quem aqui nasceu consegue verdadeiramente entender.

José Coelho

Texto e foto

Na calma dos meus dias

Esta é, seguramente, a fase mais tranquila da minha vida, onde tudo é feito sem pressa, mas sempre com a mesma benévola intenção.

Cada escolha, cada palavra e cada silêncio, são guiados pela vontade de desfrutar os meus dias de forma autêntica e consciente.

Viver com serenidade é ter sabedoria para apreciar o que temos, sem ansiedade pelo futuro, ou apego ao passado.

É saber que o tempo é precioso e que tudo o que é verdadeiro permanece, mesmo que demore a florescer.

E é nesta calma dos meus dias simples que a felicidade se faz presente, e a vida se revela em toda a sua plenitude.

José Coelho com Maria Coelho

Texto e foto

Saudade não é doença – é colo

Casa da Meirinha - Foto minha

Muito se diz sobre o peso das saudades – se curam, se ferem, se prendem quem não quer largar o passado. Eu, porém, gosto delas. De todas. Do que tive, do que perdi, do que ficou a meio caminho entre a infância e o tempo que me fez homem. Não é tristeza, nem sombra, nem doença. É apenas isto: saudades.

E sei que não caminho sozinho. Há muitos que, como eu, guardam no peito o eco dos dias antigos: o riso dos pais, o colo dos avós, o cheiro da casa, o lume aceso, o dia em que casámos, o instante em que os filhos chegaram ao mundo como luz que se acende sem pedir licença.

Que mal pode haver em fechar os olhos e deixar que a memória – essa guardiã paciente – nos devolva intactos os instantes que nos moldaram?

Recuso-me a acreditar que recordar os meus pais me faça mal. Recuso-me a aceitar que revisitar os lugares onde fui feliz seja ferida ou fraqueza. Ainda hoje passo pela Tapada da Lagem Alta, onde um escorpião me marcou o dedo gordo do pé e a minha mãe sachava milho, de lenço na cabeça, como quem semeia também o futuro dos filhos. Vejo a pedra onde eu saltava, ouço a voz da Mãe Florinda: – Não andes a pular das pedras que há p’raí alacraus… E basta-me cerrar os olhos para que tudo volte: a minha mãe no meio do milho, a tia Maria José Meia, a tia Ana Galinhas, e o mundo inteiro ainda por acontecer.

A saudade não é doença. É um colo. Um regresso breve ao lugar onde fomos inteiros.

Ontem, na caminhada, passei pelas terras onde os meus pais lançavam feijão-frade à terra. Doía ver o telhado caído, como se a casa também tivesse saudades de quem a habitou. Do outro lado, a Casa da Meirinha inclina-se devagar para o chão, como quem se despede. Mais dois invernos e o tempo cumpre o seu ofício.

Ali viveram famílias que quase ninguém recorda. Mas eu lembro-me. Lembro-me sobretudo dos pais do meu grande amigo de infância, aquele que partiu aos vinte anos, enquanto eu estava na guerra em Angola. Nunca imaginei, naquele março de 1972, que o nosso adeus seria o último.

Que mal me faz ter saudades dele, cinquenta anos depois? Chorei como se chora um irmão, no silêncio quente do Maiombe, quando o aerograma da minha mãe me trouxe a notícia. Éramos irmãos, não de sangue, mas de vida. E isso basta para doer para sempre.

Acredito que só sente saudades quem foi feliz. E ser feliz nunca foi ter muito. Eu, como tantos filhos de camponeses, tive pouco, mas nunca me faltou o suficiente.

Hoje há dificuldades, como sempre houve. Mas antes trabalhava-se “de sol a sol”, ganhava-se pouco, descansava-se ao domingo, e começava-se cedo, aos dez anos, porque a infância era curta e o trabalho longo. Os rapazes guardavam ovelhas, as raparigas iam servir. As virtudes maiores eram simples: ser honesto, ser trabalhador.

Agora a roda do tempo virou. Há mais subsídios do que empregos, mais espera do que obra feita. Mas a vida é roda e as rodas, ao girar, encontram sempre o ponto de partida.

Por isso acredito que tudo o que damos, o bem e o mal, um dia regressa a nós.

E penso muitas vezes: se eu tenho a bênção de guardar tantas memórias doces, que os meus filhos e as minhas netas possam um dia guardar as suas. Que também eles e elas, na sua velhice, sintam vontade de regressar, de vez em quando, ao lugar onde foram felizes.

José Coelho

A longa sombra dos dias

Na quietude da reforma, quando o relógio deixa de mandar e os dias se estendem como sombras longas ao fim da tarde, descobrimos que o descanso tão sonhado não é um porto, mas um espelho. Entre memórias de trabalho duro, lutas silenciosas e pequenas vitórias, confrontamo-nos com o vazio inesperado da liberdade total. As ruas já não ecoam risos, os comboios já não gritam nos carris, e o mundo parece ter mudado de lugar.
Esta narrativa é uma reflexão íntima sobre o tempo, a solidão, a persistência da vida e a estranha nostalgia de tudo o que já fomos.

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Quantas vezes pensámos nela como um oásis prometido depois de tantas estradas? Não por desejo de envelhecer, mas pela esperança de um lugar onde o corpo descansa e a alma, finalmente, se senta à sombra.
Imaginamos mil gestos livres, mil manhãs sem dono, mil tardes sem pressa. Mas o tempo – esse velho artesão – sorri do alto da sua sabedoria e deixa-nos acreditar no que quisermos, até ao dia em que nos mostra a verdade.
Quando crianças, corremos atrás do futuro. Quando adultos, perseguimos o topo. E quando o topo chega, descobrimos que o coração quer apenas voltar ao princípio, onde tudo era simples e o mundo cabia num bolso.
Foi assim comigo.
Trabalhei desde os onze anos, com a inocência nas mãos e a coragem nos pés. Atravessei dias duros, gente dura, silêncios duros. Nunca respondi com violência, preferi erguer a minha vida como resposta. Não é vaidade; é o orgulho tranquilo de quem construiu o seu próprio destino como quem levanta uma casa, pedra a pedra.
E então, um dia, a reforma chegou. A tão sonhada. A tão merecida. E, como um fruto demasiado maduro, depressa se desfez.
Os primeiros meses foram um bálsamo: noites sem hora, manhãs sem despertador, o relógio finalmente manso. Tomava o pequeno-almoço e ia para o quintal como quem vigia um reino secreto. Nenhuma erva ousava nascer sem que eu a arrancasse. Quase precisava de uma lupa para vigiar a vida que insistia em brotar.
Até que percebi: – não se pode impedir a terra de ser terra, nem o tempo de ser tempo. E os meus dias começaram a alongar-se, belos, mas vazios, como aquelas sombras que se estendem no fim da tarde.
– Rais’parta a reforma – murmurava.
Somos estranhos: ansiamos sempre pelo que não temos, como se a alma fosse feita de vento.
Agora, no entardecer da minha vida, o silêncio pesa mais do que o cansaço. Já não há risos de crianças na rua, nem mães a chamar pelos seus Zéis como a minha chamava por mim. Calaram-se também os comboios, nos carris adormecidos que se estendem da Beirã à Torre das Vargens, e mais além, até Valência de Alcântara.
E eu fico a olhar o mundo, que deu tantas voltas, tantas cambalhotas, que quase deixou de se parecer com o meu.
Texto e foto