segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Aprendi a olhar para trás sem me perder

Há um momento na vida em que o passado deixa de ser peso e passa a ser chão. Não acontece de repente, é uma mudança lenta, quase imperceptível, como a luz que entra pela janela antes de o sol nascer.
Durante anos olhei para trás com uma mistura de saudade e dor, como quem revisitava uma casa onde faltavam vozes. Hoje, porém, aprendi a olhar, sem me perder.
O passado já não me prende, acompanha-me. A pobreza extrema, o trabalho duro, o silêncio das noites de inverno, tudo isso deixou marcas sim, mas marcas que não ferem.
São cicatrizes que contam histórias, não feridas abertas. E quando releio textos antigos, percebo que já não sou o mesmo homem que os escreveu.
Sou o mesmo, mas sendo outro.
A infância continua a ser o meu alicerce. Vejo-me a correr pelos campos, a ouvir o ribeiro da Cavalinha, a sentir o cheiro da sopa de legumes feita no lume de chão, mas já não olho para esses dias com a nostalgia pesada de quem perdeu algo.
Olho com gratidão. Olho com ternura. Olho com a certeza de que tudo o que fui me trouxe até aqui.
O passado deixou de ser um lugar onde eu ficava preso e agora é apenas um lugar onde passo devagar, com respeito, com amor, antes de seguir caminho.
E nesse gesto simples, encontro uma liberdade que não conhecia.

José Coelho

domingo, 11 de outubro de 2026

Quando a casa respira comigo

Há noites em que a minha casa parece respirar comigo. Não é metáfora, é verdade sentida. As paredes ficam mais quietas, os móveis mais silenciosos, e até o relógio parece bater com mais cuidado como se soubesse o que estou a ouvir.
Nessas horas, dou por mim a caminhar devagar pela sala, como quem visita um lugar sagrado. Cada objeto tem uma história, cada canto guarda uma sombra antiga, cada fotografia é uma porta para um tempo que já não volta, mas que insiste em ficar.
A casa não fala, mas lembra. Lembra-me dos jantares cheios, das gargalhadas que ecoaram, das conversas que ficaram pela metade, das mãos que passaram por aqui e deixaram calor.
E eu, no meio desse silêncio cheio, percebo que não vivo sozinho: vivo acompanhado por tudo o que esta casa já viu. Quando ela respira, eu respiro também. E nesse compasso, encontro uma paz que não se compra, só se herda.
Há momentos em que o silêncio parece maior do que ela. A noite cai sobre a Beirã com aquela mansidão antiga, e eu fico ali, sentado, a ouvir o que não tem som. É nesse intervalo, entre o último gesto do dia e o primeiro pensamento da noite, que as memórias começam a levantar-se.
Não vêm todas de uma vez. Vêm como folhas que o vento mexe devagar.
Primeiro, aparece a infância: o cheiro da terra, o pó da estrada, o riso dos amigos que já não vejo, a pressa de chegar a casa antes que a mãe chamasse. Depois, surgem os rostos que ficaram pelo caminho: uns nítidos, outros já meio desfocados, mas todos com uma ternura que não envelhece.
E há também as memórias que não são imagens, mas sensações. O peso de uma mão no ombro. O calor de uma cozinha cheia. O silêncio de uma igreja ao fim da tarde. A certeza de que houve dias em que fui feliz sem saber.
Quando tudo fica quieto, o passado não vem para me prender, vem para me lembrar. Lembrar que vivi muito. Que dei muito. Que fui casa para muita gente. Que deixei rasto em lugares onde já nem passo.
E enquanto a noite avança, sinto uma coisa estranha e boa: as memórias não me tiram nada. Pelo contrário. Devolvem-me. Devolvem-me ao menino que fui, ao homem que me tornei, ao caminho que ainda tenho.
No fundo, quando tudo fica quieto, descubro que não estou sozinho. Estou acompanhado por tudo o que fui. E isso, nessa hora macia da noite, é uma paz que não se explica, apenas se sente.
José Coelho

A paz, depois do silêncio

Hoje, ao reler um texto que escrevi há anos sobre a minha terra, percebi que aquele texto já não me representa por inteiro. Continuo a ser o mesmo homem que cresceu entre campos, ribeiros e canchos, mas o meu olhar mudou. Onde antes via sobretudo silêncio e ausência, hoje reconheço também caminho percorrido, obra feita e vida que ainda merece ser saboreada com calma e alegria.
A pobreza e as dificuldades marcavam quase todas as famílias rurais da aldeia, é verdade. Na minha, porém, vivíamos com serenidade. O dia começava antes do sol nascer e terminava já noite cerrada, à luz do candeeiro a petróleo, com uma sopa de legumes feita no lume de chão. Era uma existência de trabalho duro e poucas distrações, mas havia nela uma paz discreta, própria de quem aceita o que a vida oferece sem se queixar demasiado.
Desde cedo encontrei refúgio nos livros. Ler foi sempre o meu entretenimento favorito. No bornal da merenda levava invariavelmente um livro, grande ou pequeno, para aproveitar as horas de descanso. Não sei quantos já li; serão certamente milhares. Em casa, a biblioteca continua a crescer, como se cada volume fosse mais um tijolo invisível na construção da pessoa que sou. Os livros acompanharam-me em todas as fases da vida, foram companhia fiel quando eu preferia o recolhimento aos aglomerados, festas, cafés ou bares. Com eles aprendi que não há solidão absoluta enquanto houver uma história por abrir.
Mas se não sou solitário, aprecio profundamente a solidão. Gosto da paz que ela me traz ao caminhar pelos campos, sentir a brisa no rosto, sentar-me num cancho a contemplar o horizonte e a escutar o canto dos pássaros. A fonte da Murta, os ribeiros da Cavalinha, das Águas, da Cabeçuda, o rio Sever, todos esses lugares fazem parte de mim desde a infância. São a geografia do meu coração. Antigamente percorria esses recantos sozinho ou acompanhado pelos meus cães; hoje, a idade aconselha prudência e já não vou sem companhia por esses ermos. O mato cresceu, o silêncio adensou-se, os animais selvagens aparecem onde antes havia gente. O mundo mudou, e eu mudei com ele.
Durante muito tempo, esse silêncio novo pesou-me. O que antes era sossego de campo começou a parecer ausência de vida. Reconstruí a casa onde nasci e rebatizei-a como Toca dos Coelhos com a intenção de aqui terminar os meus dias. Foi o nosso maior empenho: todas as poupanças, subsídios de férias e de Natal iam para tijolos, areia, cimento, mosaicos e pedreiros. Não fazíamos férias, nem viagens, nem praia, porque só queríamos pedir ao banco o estritamente necessário. Lembro-me de um funcionário da Caixa Geral de Depósitos me sugerir que pedisse mais uns milhares de escudos para, depois de construir a garagem, comprar um carro novo para meter lá dentro. E eu fui perentório: primeiro a casa, o abrigo; depois se veria o resto.
Hoje, tantos anos passados, a casa está paga, e não um, mas dois automóveis modestos foram comprados com 0 km e pagos com esforço honrado – primeiro o Opel Corsa a gasóleo, depois o Citroën C3. E, com tudo isso resolvido, percebo que chegou a hora de viver esta etapa da vida com outra qualidade. Não se trata de esbanjar, porque não somos assim, mas de cuidar um pouco mais de nós os dois, eu e a Maria Manuela, sem o peso constante do sacrifício como única forma de estar no mundo.
Fazemos aquilo que em tempos parecia um luxo distante: viajamos. Fomos ao México, à República Dominicana, aos Açores, à Madeira, a Itália, à Suíça, a Espanha, e já estamos a tratar do novo destino para 2027. Aos domingos vamos almoçar fora, juntamo-nos aos filhos para as nossas festas familiares, ora em nossa casa, ora nas casas deles, mas descobrimos que o mundo é maior do que a aldeia, apesar de ela continuar a ser o nosso porto de abrigo. Podemos partir, ver outras paisagens, ouvir outras línguas, provar outros sabores, e, ainda assim, o coração regressa sempre à Beirã, à Toca dos Coelhos.
Os filhos serão os herdeiros deste casarão que provavelmente, vale uns bons milhares de euros. É deles. Façam com ele o que quiserem quando chegar a sua vez de decidir. A nós coube-nos o papel de o erguer, de o encher de vida, de o transformar em casa de família. Agora o que nos cabe é viver com alguma leveza, sem dramatizar, sem transformar cada mudança em tragédia.
O futuro, esse, a Deus pertence.
Já não sinto, como antes, que tenha de fugir da Beirã para ser feliz. O que me doía não era a terra, era o peso das ausências, o eco das vozes que já não se ouvem, o contraste entre o passado cheio de gente e o presente mais silencioso. Hoje compreendo que posso amar a minha terra e, ao mesmo tempo, aceitar que ela mudou. Posso sentir saudade do bulício antigo das luzes nas janelas, dos gritos das crianças, do cheiro dos jantares, do fumo nas chaminés, sem deixar que essa nostalgia me roube a alegria de estar vivo.
E esta foto da Mariana, aos doze anos, diante do bolo azul salpicado de estrelas, é talvez o melhor símbolo deste meu sentir de hoje. Ela representa o futuro, a continuidade, a vida que segue. Enquanto houver netos a soprar velas, filhos a entrar e sair da Toca dos Coelhos, mesas postas para almoços de domingo, viagens planeadas com entusiasmo e regressos feitos com gosto, a Beirã não será apenas um lugar de silêncio: será o cenário de uma história que ainda está a ser escrita.
Esta reflexão já não é o lamento de quem se sente preso entre razão e coração, sem saber se há de ficar ou partir. É antes o retrato de alguém que reconhece o apego ao lugar onde cresceu, mas que aprendeu a olhar para a própria vida com mais lucidez e menos dramatização. Continuo a amar a minha terra, continuo a sentir o peso das mudanças e da solidão em certos dias, mas sei que posso encontrar paz aqui, na Toca dos Coelhos, ou em qualquer outro lugar onde esteja com aqueles que amo.
Hoje já não digo que quero ir embora. Digo, com serenidade, que quero viver bem o tempo que me resta, com a Maria Manuela ao meu lado, os filhos e netas por perto, os livros ainda a fazer companhia, as viagens a abrir horizontes e a Beirã a permanecer, teimosa e fiel, como o lugar onde tudo começou e onde, tantas vezes, havemos de regressar.

Medo de dizer o que pensamos

Nunca houve tanta liberdade de expressão e nunca houve tanto medo de falar. As pessoas têm medo de errar, medo de serem mal interpretadas, medo de serem julgadas, medo de serem canceladas, medo de serem diferentes.
Vivemos numa época em que todos opinam, mas poucos pensam. E pensar – pensar de verdade – implica coragem. Coragem para discordar. Coragem para mudar de opinião. Coragem para admitir que não sabemos. Coragem para dizer o que sentimos sem pedir licença.
O medo cala-nos. E quando nos calamos, deixamos que outros falem por nós.
A liberdade não é só poder falar. É poder falar com autenticidade, mesmo quando isso incomoda. E talvez seja isso que o mundo mais precisa: menos frases perfeitas e mais verdades imperfeitas.
Foi exatamente por não ter medo de falar e de me colocar ao lado da justiça há cinquenta anos, quando foram criadas as condições para que todos os trabalhadores por conta de outrem tivessem acesso aos abonos de família para os filhos menores, e os mais velhos tivessem direito a uma pensão vitalícia de reforma, que fui “castigado” com a recusa de ofertas de trabalho na minha terra e por isso tive de “emigrar” para os confins da Beira Baixa.
Porém – e porque Deus escreve direito por linhas tortas – esse “castigo” revelou-se uma bênção.
Fui acolhido, estimado e respeitado não só pelos mineiros, mas também pelas suas famílias, que escancararam as portas de suas casas para me ajudarem em tudo o que me fazia falta. Além disso, o vencimento mensal, apesar da dureza e da perigosidade daquela nobre profissão, quase triplicou face ao praticado na minha terra à época.
Foram os anos mais prósperos e saudosos da minha vida.
E é por isso que, quando hoje penso no medo de dizermos o que pensamos, lembro-me que a verdade tem preço, mas também tem recompensa. E que, às vezes, o caminho que parece castigo, é afinal o trilho que nos leva ao melhor de nós.
Bom Domingo, pessoal.

sábado, 10 de outubro de 2026

Uma pressa que nos envelhece

Há uma pressa nova no mundo. Uma pressa que não serve para chegar mais longe, serve para chegar antes dos outros. Vivemos numa corrida que ninguém pediu para correr, mas que todos parecem aceitar como inevitável.
A pressa envelhece. Não o corpo, mas a alma.
Envelhece quando nos faz saltar etapas, quando nos impede de saborear o que conquistamos, quando transforma cada dia numa lista de tarefas e cada pessoa num obstáculo ou numa ferramenta.
A pressa rouba-nos a profundidade. E sem profundidade, tudo fica raso: as conversas, os afetos, os projetos, até os sonhos. O mundo diz: “anda depressa”. A vida diz: “vai devagar”.
E eu, cansado como estava ontem, percebi que a sabedoria está sempre do lado da vida.
Porém, aquele cansaço, teve justa causa. É tempo de sementeiras e de plantios. E o verão anormal – esse forno lento que quase assou a natureza – atrasou tudo em mais de um mês.
As hortaliças que já deveriam cobrir a terra com a sua folhagem só agora chegaram ao chão. E cada dia de atraso é uma semana a mais no seu desenvolvimento antes que cheguem as noites frias e as geadas.
Por isso houve que aproveitar cada hora, mesmo com os 74,5 a reclamarem do excesso. O quintal é grande – demasiado grande já para as minhas cada vez mais reduzidas capacidades de hortelão aprendiz que o meu pai ensinou.
Por isso o dia terminou mais cansado do que o costume. Mas nada que uma boa noite de descanso e um sono bom não remediassem.
E talvez seja isso que a vida tenta ensinar: que a pressa envelhece, mas o cansaço que vem do cuidado – esse não. Esse apenas confirma que ainda estamos vivos, úteis, ligados à terra e ao sentido das coisas.
Hoje já posso abrandar um pouco. E ao abrandar, reencontro a alma que a pressa tenta roubar.
Tenham um excelente fim-de-semana.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O silêncio onde o bem se faz

Há pessoas que vivem rodeadas de contactos, mas quase sem relações. Há quem fale muito, mas escute pouco. E há quem, no meio dessa solidão disfarçada, encontre na palavra escrita um lugar onde a alma respira.
Vivemos num tempo em que a ligação digital é abundante, mas a presença humana é escassa. As redes sociais multiplicam vozes, mas não multiplicam vínculos.
A solidão, essa, aprendeu a vestir-se de normalidade: aparece em rotinas cheias, em agendas ocupadas, em vidas que parecem completas, mas que, por dentro, pedem apenas um gesto simples: atenção.
É por isso que certos espaços de escrita se tão tornam importantes. Não porque tragam fama, nem porque prometam grandeza, mas porque oferecem utilidade silenciosa: um texto que acompanha, uma memória que consola, uma história que faz companhia, uma reflexão que devolve sentido ao dia de alguém.
O bem que se faz aqui não tem palco. Não tem luzes. Não tem nome. É um bem discreto, quase invisível, que chega a quem precisa, sem alarde e sem trombetas. É o bem que se faz sem que ninguém repare, e que, por isso mesmo, é mais verdadeiro.
Há leitores que entram num blogue como quem entra numa casa amiga: não para verem novidades, mas para sentirem presença. Não para fugirem da vida, mas para a compreenderem melhor. Não para ocuparem tempo, mas para preencherem silêncio.
E quando alguém escreve com a intenção de ser útil – e apenas isso – cria-se uma espécie de abrigo. Um lugar onde a solidão não é julgada, onde a palavra não exige nada, onde cada visita é um pequeno descanso.
Não há heróis aqui. Há apenas a força discreta da atenção. E essa força, quando é oferecida sem vaidade, transforma-se numa das formas mais belas de cuidado.

Oração para um instante de paz

Senhor, tu que conheces o peso e a leveza dos meus dias, entra agora neste pequeno intervalo do meu coração. Não venho pedir muito, só que fiques comigo um bocadinho, como quem se senta à sombra de uma oliveira e deixa o vento fazer o resto.
Sabes das minhas inquietações, das palavras que não digo, dos gestos que tento acertar. Toma tudo isso nas tuas mãos largas e devolve-me apenas o que é verdadeiro.
Ensina-me a caminhar devagar, a escutar o que não tem som, a agradecer o que chega sem alarde. E quando a noite for mais funda, sê tu a minha claridade.
Fica comigo, Senhor, neste instante simples onde o coração aprende a sossegar outra vez.
Amén