Meu vicio da escrita...
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
quarta-feira, 10 de junho de 2026
Pensa agora um bocadinho mais em ti
Quem já decidiu não entender, não vai ceder por mais que te expliques
Reflexão para mais um 10 de Junho
terça-feira, 9 de junho de 2026
Oração
A casa onde a minha infância ainda respira
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Laços que nem a morte desfaz
Dedico
estas palavras ao meu primo Francisco – o nosso Chico Alegria – ao seu filho
Bili e à querida tia Ana, que mantém aceso o laço da nossa família. Que esta
memória seja ponte, abraço e raiz.
()()()()
Há
dias em que o passado regressa sem aviso, como quem bate à porta devagarinho
mas com a força de uma vida inteira. Foi assim naquela tarde, pouco depois das
três, quando o telemóvel vibrou e uma mensagem inesperada me chamou pelo nome
que só a minha mãe e o meu primo Francisco usavam: Zéi.
“Sou
o filho do Francisco, seu primo aqui do Brasil.”
O
coração não me pediu licença. A emoção subiu-me aos olhos como quem reconhece,
de repente, um rosto perdido no tempo. O Bili – o Abílio neto, o menino de quem
o Chico me falava com orgulho – estava ali, do outro lado do oceano, a cumprir
um gesto que só os filhos de boa cepa sabem cumprir: continuar o que o pai
começou.
Mas
a alegria do reencontro vinha misturada com a notícia que me tirou o chão: o
Chico Alegria tinha partido. Partido cedo demais, sem me dar tempo para o
abraço que prometemos um ao outro tantas vezes, como dois miúdos crescidos a
sonhar com o regresso à terra onde tudo começou.
Respirei
fundo. Dois minutos, talvez três, para recompor a voz. E então o Bili disse:
“A
avó Ana gostaria de conversar com você.”
A
tia Ana. Aquela mulher doce que conheci em 1981, quando veio a Castelo de Vide
tratar de assuntos de família e nos encantou com a sua serenidade. A esposa do
tio Abílio, o irmão mais novo do meu pai. A mãe do Chico. A matriarca que
segurou a família quando a vida lhes levou o marido, e agora o filho único.
O
Bili passou-lhe o telefone. E foi ela – com mais de 90 anos, com a sabedoria
das mulheres que já viram tudo – quem me consolou a mim, quando devia ser eu a
confortá-la a ela.
“Ele
estava num grande sofrimento, meu filho. Temos de aceitar e conformar.”
Aquelas
palavras ficaram-me gravadas como um abraço que atravessa o Atlântico. E
percebi, naquele instante, que há laços que nem a morte desfaz. Laços que
sobrevivem a seis décadas de distância, a oceanos, a silêncios, a vidas
inteiras vividas em paralelo.
O
Chico foi alegria até no nome. Foi entusiasmo, curiosidade, vontade de
regressar à terra natal. Foi o primo que me reencontrou pela escrita, que me
chamou “primo Zéi” com a ternura de quem recupera um pedaço da infância. Foi o
homem que planeou voltar, que sonhou pisar de novo as ruas de Castelo de Vide,
que me prometeu um abraço que a vida não deixou acontecer.
Mas
deixou-nos algo maior: o gesto de procurar, de reencontrar, de reconstruir a
ponte que o tempo não conseguiu destruir.
O
Bili, com a sua mensagem simples e luminosa, continuou essa ponte. E a tia Ana,
com a sua voz firme e doce, segurou-a com as duas mãos.
E eu, que fico deste lado do oceano, guardo agora esta saudade limpa, esta dor serena, esta gratidão profunda por ter pertencido – e ainda pertencer – a esta família espalhada pelo mundo, mas unida por dentro como só os Coelhos sabem ser.
Porque
os amo a todos. Os que estão no Brasil, na Inglaterra e os que já estão no céu.
Laços
assim não se quebram. Nem o tempo, nem a distância e nem sequer a morte lhes
tocam verdadeiramente.
José Coelho
Foto: - A tia Ana Alvarrão Coelho, 94 anos de ternura, coragem e fé. Mãe do Chico Alegria, avó do Bili, guardiã dos laços que nem a morte desfaz.



