Muito
se diz sobre o peso das saudades – se curam, se ferem, se prendem quem não quer
largar o passado. Eu, porém, gosto delas. De todas. Do que tive, do que perdi,
do que ficou a meio caminho entre a infância e o tempo que me fez homem. Não é
tristeza, nem sombra, nem doença. É apenas isto: saudades.
E
sei que não caminho sozinho. Há muitos que, como eu, guardam no peito o eco dos
dias antigos: o riso dos pais, o colo dos avós, o cheiro da casa, o lume aceso,
o dia em que casámos, o instante em que os filhos chegaram ao mundo como luz
que se acende sem pedir licença.
Que
mal pode haver em fechar os olhos e deixar que a memória – essa guardiã
paciente – nos devolva intactos os instantes que nos moldaram?
Recuso-me
a acreditar que recordar os meus pais me faça mal. Recuso-me a aceitar que
revisitar os lugares onde fui feliz seja ferida ou fraqueza. Ainda hoje passo
pela Tapada da Lagem Alta, onde um escorpião me marcou o dedo gordo do pé e a
minha mãe sachava milho, de lenço na cabeça, como quem semeia também o futuro
dos filhos. Vejo a pedra onde eu saltava, ouço a voz da Mãe Florinda: – Não
andes a pular das pedras que há p’raí alacraus… E basta-me cerrar os olhos para
que tudo volte: a minha mãe no meio do milho, a tia Maria José Meia, a tia Ana
Galinhas, e o mundo inteiro ainda por acontecer.
A
saudade não é doença. É um colo. Um regresso breve ao lugar onde fomos
inteiros.
Ontem,
na caminhada, passei pelas terras onde os meus pais lançavam feijão-frade à
terra. Doía ver o telhado caído, como se a casa também tivesse saudades de quem
a habitou. Do outro lado, a Casa da Meirinha inclina-se devagar para o chão,
como quem se despede. Mais dois invernos e o tempo cumpre o seu ofício.
Ali
viveram famílias que quase ninguém recorda. Mas eu lembro-me. Lembro-me
sobretudo dos pais do meu grande amigo de infância, aquele que partiu aos vinte
anos, enquanto eu estava na guerra em Angola. Nunca imaginei, naquele março de
1972, que o nosso adeus seria o último.
Que
mal me faz ter saudades dele, cinquenta anos depois? Chorei como se chora um
irmão, no silêncio quente do Maiombe, quando o aerograma da minha mãe me trouxe
a notícia. Éramos irmãos, não de sangue, mas de vida. E isso basta para doer
para sempre.
Acredito
que só sente saudades quem foi feliz. E ser feliz nunca foi ter muito. Eu, como
tantos filhos de camponeses, tive pouco, mas nunca me faltou o suficiente.
Hoje
há dificuldades, como sempre houve. Mas antes trabalhava-se “de sol a sol”,
ganhava-se pouco, descansava-se ao domingo, e começava-se cedo, aos dez anos,
porque a infância era curta e o trabalho longo. Os rapazes guardavam ovelhas,
as raparigas iam servir. As virtudes maiores eram simples: ser honesto, ser
trabalhador.
Agora
a roda do tempo virou. Há mais subsídios do que empregos, mais espera do que
obra feita. Mas a vida é roda e as rodas, ao girar, encontram sempre o ponto de
partida.
Por
isso acredito que tudo o que damos, o bem e o mal, um dia regressa a nós.
E
penso muitas vezes: se eu tenho a bênção de guardar tantas memórias doces, que
os meus filhos e as minhas netas possam um dia guardar as suas. Que também eles
e elas, na sua velhice, sintam vontade de regressar, de vez em quando, ao lugar
onde foram felizes.
José Coelho




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