domingo, 17 de maio de 2026

É tempo de sermos comunidade

Ao longo dos anos, temos visto passar entre nós vários sacerdotes, homens de Deus que deram a vida ao serviço das nossas aldeias, das nossas famílias e da nossa fé. Recordamos com saudade o Padre Luís Ribeiro, que enfrentou a doença com coragem e partiu deixando um vazio no coração de todos nós.
Hoje temos o Padre Marcelino, presbítero extraordinário que aos 61 anos carrega às costas cinco paróquias e várias capelanias. Só ontem celebrou quatro missas, dois batizados, um funeral e ainda conduziu a procissão na nossa aldeia. Faz mais de sessenta quilómetros para vir ter conosco e voltar para Santiago de Urra, sem olhar ao número de pessoas que estão nos bancos da igreja. Se cinco ou cinquenta. Vem por quem estiver. Ponto.
Podia desculpar-se. Podia dizer que é demasiado trabalho. Podia reduzir celebrações. Podia pedir para espaçar missas de quinze em quinze dias. Mas não o faz. Porque é pastor. Porque é servidor. Porque é homem de fé. Porque é exemplo.
E por isso sinto com toda a verdade:
Não podemos deixá-lo sozinho. Não o deixemos sozinho. Não podemos permitir que o peso de tantas paróquias caia apenas sobre os ombros de um sacerdote e de meia dúzia de leigos. Não podemos continuar a ser espectadores da fé, aparecendo apenas quando a vida dói, quando há doença, quando há medo, quando precisamos de um milagre.
A fé não é um botão de emergência.
A fé é caminho, compromisso, presença.
E a paróquia é de todos nós.
Se o Padre Marcelino dá tudo, então nós também temos de dar alguma coisa. Se ele se entrega sem reservas, então nós também temos de nos disponibilizar. Se ele chega cansado mas presente, então nós também temos de estar presentes.
Não podemos continuar a dizer “faz falta” e depois ficar sentados. Não podemos elogiar quem serve e depois não nos oferecermos para ajudar. Não podemos esperar que a Igreja se mantenha viva se não formos nós a alimentá-la.
Por isso, deixo este apelo fraterno:
Vamos levantar-nos. Vamos participar. Vamos servir. Vamos aprender. Vamos ajudar. Vamos ser comunidade. Porque a paróquia não é do padre. A paróquia não é de alguns. A paróquia é nossa.
E se cada um de nós fizer um pouco, ninguém terá de fazer tudo.
Se cada um de nós der um passo, o caminho torna-se mais leve.
Se cada um de nós assumir a sua parte, o Padre Marcelino terá força para continuar a ser o pastor que tanto admiramos.
Que a Senhora do Carmo nossa Mãe e Protetora, nos inspire a sermos uma comunidade viva, generosa e comprometida e que Deus nos dê coragem para não deixarmos ninguém sozinho.
Nem o nosso padre, nem os nossos irmãos, nem a nossa fé. Com esperança, com união e com responsabilidade, sejamos uma comunidade que quer caminhar junta.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Bom fim de semana


Vimos deixar um abraço cheio de carinho à nossa família e às amizades que a vida nos deu.
Que o fim de semana vos traga descanso, serenidade e aqueles pequenos momentos que fazem bem à alma:
Um sorriso inesperado, uma conversa boa, um café demorado, um pôr do sol daqueles que nos lembra que a vida também sabe ser leve.
Que cada um de vós encontre o seu pedacinho de paz.

Bom fim de semana a todos.
15 de maio de 2026

Oração à minha Terra

Foto José Coelho

Terra amada, que me corres nas veias como um rio antigo, escuta a minha voz que é também a voz dos que vieram antes de mim.

Abençoa estes prados onde as flores se abrem como pequenas oferendas ao sol que tudo desperta. Abençoa as velhas casas que ainda guardam, nas suas paredes gastas, o riso, o suor e o pão dos meus ancestrais.

Que cada pedra que piso me lembre o caminho dos primeiros, que as pisaram. Que cada sombra me recorde os que trabalharam de sol a sol, deixando na terra o peso dos seus passos e a leveza dos seus sonhos.

Terra amada, que és fronteira e ponte e tocas Espanha onde o céu se inclina, guarda em ti a memória dos clãs que aqui viveram, dos que amaram, sofreram, criaram filhos e repousaram sob o mesmo vento que hoje me toca o rosto.

Que eu nunca esqueça que pertenço a este chão, que sou feito da mesma poeira que alimenta as raízes, e que o meu sangue leva contigo a história inteira dos que me antecederam.

Terra amada, dá-me a força dos teus montes, a serenidade dos teus vales, e a sabedoria silenciosa dos teus cinco mil anos.

E quando eu caminhar por ti em silêncio, que esse silêncio seja oração e a oração seja gratidão.

José Coelho

Quando a alma pergunta e o céu parece não responder


Há momentos na vida em que o mundo nos obriga a parar. Não por escolha, mas por excesso. Excesso de dor, de injustiça, de perguntas que não encontram resposta fácil.

Nos últimos tempos, dei por mim a olhar para tudo isto – guerras, sofrimento, abandono, solidão – e a sentir a fé tremer dentro de mim. Não desaparecer, mas tremer. E percebi que não sou o único.

Este texto nasceu desse lugar: não da certeza, não da revolta, mas da necessidade de compreender o que ainda pode fazer sentido quando o mundo parece perder o seu.

Partilho-o porque talvez alguém, como eu, precise de o ler.

Há dias em que o mundo pesa mais do que o corpo e o espírito conseguem suportar. Dias em que a dor dos outros se entranha na nossa, em que a injustiça parece maior do que qualquer explicação, em que o sofrimento dos inocentes se torna um grito que não sabemos onde pousar.

É nesses dias que a alma, cansada, levanta a pergunta que atravessa séculos e corações:

“Se Deus existe… porque é que o mundo continua a arder?”

Esta pergunta não nasce da descrença. Nasce do amor. Só quem ama profundamente a vida, a justiça e a dignidade humana, sente esta ferida aberta.

Vivemos num tempo em que as guerras devoram cidades inteiras. Em que líderes sem alma transformam crianças, mulheres, velhos, comunidades inteiras, em números. Em que hospitais são destruídos, escolas silenciadas, famílias desfeitas.

E, mais perto de nós, há dores que não aparecem no telejornal, como aquele amigo acamado há dez anos, entregue ao amor exausto da mulher, porque o sistema falha onde devia ser mais humano; vidas que se gastam devagar, sem que ninguém as veja.

Perante isto, a pergunta não é “onde está Deus?”.

A pergunta é: como é possível que o coração humano suporte tanto?

E, no entanto, suporta. E continua a amar. E continua a cuidar. E continua a resistir.

Talvez seja aí que Deus se esconde: não no poder que impede o mal, mas na força que impede que o mal nos destrua por dentro.

A fé profunda não é a fé que nunca duvida. É a fé que atravessa a dúvida sem se perder de si mesma.

A fé profunda não é a fé que explica o sofrimento. É a fé que se senta ao lado dele e murmura: “Eu não te entendo, mas não te abandono.”

A fé profunda não é a fé que vê Deus em tudo. É a fé que O procura mesmo quando não O vê em lado nenhum.

E então, o que fazer quando o mundo parece demasiado cruel para caber na ideia de Deus?

Fazer silêncio. Não o silêncio que foge, mas o silêncio que escuta. Respirar devagar. Aceitar que a alma também se cansa. Permitir-se duvidar sem culpa. Reconhecer que a pergunta é parte do caminho, não o fim dele.

Porque a fé não é uma resposta. A fé é uma direção.

E quem continua a caminhar, mesmo ferido, mesmo baralhado, mesmo revoltado… já está a rezar, ainda que sem palavras.

Se Deus existe – e cada um descobre isso à sua maneira – talvez não esteja no gesto que impede o mal, mas no gesto que impede que o mal nos apague. Talvez não esteja no milagre que muda o mundo, mas na força que nos permite mudá-lo um pouco, todos os dias. Talvez não esteja no céu que parece não responder, mas no coração que insiste em perguntar.

E talvez a fé profunda seja isso mesmo – não ter certezas, mas não desistir.

Que cada um de nós encontre, no meio da dúvida e da dor, a pequena luz que ainda nos faz caminhar.

José Coelho

Foto: Gentileza de uma amiga, na leitura da Reflexão numa Estação da Via Sacra.

O lado certo

Foto - 14. 05. 2026

Vivemos um tempo estranho – talvez o mais desconcertante que a minha memória alcança. Não porque eu tenha mudado, mas porque o mundo se afastou das regras simples e firmes com que fui criado. Continuo a pensar, a dizer e a fazer o que aprendi com gente de mãos calejadas e alma limpa. Quem age segundo a sua consciência, a mais não é obrigado.

Hoje, porém, sobra quase tudo do que antes faltava, e falta quase tudo do que antes nos sustentava: o respeito, a palavra dada, a amizade que não se mede, a generosidade que não se exibe, a humildade que não precisa de palco. Falta carácter – essa matéria antiga que não se compra nem se aprende tarde.

Também eu conheci a inveja disfarçada de amizade. Quando, com poucas habilitações mas muita vontade, decidi subir na vida para dar melhor futuro aos meus, encontrei portas fechadas, armadilhas silenciosas, provocações calculadas.

Trabalhei até ao limite, chorei em silêncio, quase desisti. Mas resisti. Transformei o cansaço em disciplina, o desânimo em força, a injustiça em combustível.

E quando alcancei o que persegui durante anos, vieram estender‑me a mão os mesmos que me tinham difamado. Não lha apertei. Disse-lhes apenas: “Sou o mesmo homem que os vocês tentaram prejudicar. Passem bem e que Deus vos dê saúde.”

Fui educado assim: a dizer o que tem de ser dito na cara, a não alimentar cobardias, a não falar nas costas de quem quer que seja. Ensinei isso aos meus filhos e ensino às minhas netas. Não é a idade que me vai mudar.

Errado não sou eu. Errado é este tempo sem norte, onde a violência, a corrupção e a falta de vergonha se tornaram rotina. Mas nós – os que ainda seguimos as regras antigas, mesmo que já pareçam fora de moda – continuamos do lado certo. E isso basta.

José Coelho

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Não era apenas uma linha

Em 2012 era assim
Em 2026 está assim 

Hoje vou escrever – uma vez mais – sobre o Ramal de Cáceres.
Não como linha férrea. Não como obra de engenharia. Escrevo como quem fala do coração de um velho amigo que deixou de bater, porque quando os comboios deixaram de passar não encerrou apenas um serviço público. Encerraram um capítulo inteiro das nossas vidas.
Nasci a ouvir o silvo rouco das antigas máquinas negras. Aquele vapor quente que invadia a aldeia como um nevoeiro vivo. A minha casa, pousada na colina sobre a Estação, é um miradouro para a linha férrea. De dia via-se o movimento. De noite, os holofotes rasgavam a escuridão até ao depósito das águas, lá no alto.
Toda a minha infância e juventude foram feitas desse filme.
Quando o comboio assomava ao Sesmo, vindo de Valência de Alcântara, o seu rugido chegava ao meu quarto como o de um animal familiar. E do lado oriente, no quarto dos meus pais, ouvi-os muitas vezes dizer:
– Vem aí mudança de tempo… esta noite ouviam-se os comboios logo da Atalaia.
O comboio era o nosso relógio. O nosso boletim meteorológico. O nosso mensageiro.
Também a casa dos meus avós vivia colada à linha. Na Cavalinha, as guardas das cancelas abriam e fechavam-nas para que as composições passassem em segurança. E eu, pequeno, seguia o meu avô Zé Lourenço pelos campos. Ele encostava o ouvido aos postes dos fios telefónicos e dizia-me:
– Escuta, rapaz… são as meninas a cantar.
E era verdade. Havia ali uma música que só quem a viveu a sabe reconhecer.
Depois veio a juventude. A primeira grande partida.
Aos 17 anos a viagem para Évora. Horas de carris, transbordos, estações desconhecidas. E ao longo de décadas o comboio foi sempre a ponte que me levou e trouxe: Elvas, Lisboa, Estremoz, Santa Margarida, Angola.
Foi ele que me devolveu à Beirã, são e salvo, depois de 27 meses de guerra.
Foi ele que me levou às Minas da Panasqueira. Foi ele que me transportou semana após semana quando quis subir na carreira. E como eu, milhares. Por isso custa tanto aceitar que tenham fechado este ramal como quem fecha uma porta sem olhar para trás.
Hoje o mato e as silvas engolem os carris. As estações definham. A memória esbate-se na bruma. Dizem que não era rentável. Mas quem decidiu isso? Quem nunca viajou nele, porque não sabia que a região inteira precisava deste transporte.
Quantos camiões TIR retiravam das estradas os potentes “mercadorias” com 30 vagões que circulavam dia e noite carregados de contentores, vagões silo de cereais, vagões-cisterna, vagões de automóveis, de eletrodomésticos, de comércio, de economia, de postos de trabalho?
Pergunto, com a tristeza de quem viveu tudo isto:
Não pagamos nós também impostos?
Não somos nós portugueses como os outros?
Ou só o somos quando chega a hora de encher as urnas?
O Ramal de Cáceres não era apenas uma linha. Era a espinha dorsal da região. E arrancaram-na sem anestesia.
Mas enquanto houver quem conte, enquanto houver quem se lembre, enquanto houver quem fale ou escreva … o Ramal de Cáceres não morre.
Texto e fotos

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O silêncio é um amigo

Há momentos em que o silêncio me envolve com uma mansidão antiga, como se tivesse aprendido quando necessito dele. E nesses momentos, a memória senta-se também ao meu lado.

Sem bater à porta e sem pedir licença, entra devagarinho, como um vizinho antigo que já conhece os cantos à casa.

E eu deixo.

O silêncio, nunca incomoda.

Aconchega.

E a memória traz-me à lembrança rostos que já não vejo, risos que o vento levou, cheiros e momentos que só a infância sabe guardar.

A voz da minha mãe a cantarolar enquanto acendia o lume para fazer a ceia, ao cair da noite.

O chiar da porta da cozinha.

O lume a estalar, como se conversasse comigo.

E percebo que tudo isso – o que vivi, o que perdi e o que ficou – ainda mora em mim.

Não como peso, mas como raiz.

O passado, aqui no meu Alentejo, nunca se vai embora de verdade.

Fica entranhado na terra, no silêncio, no corpo.

Fica no modo como abrimos a porta, como pousamos o olhar, como respiramos devagar para não assustar o tempo.

Tal como os sulcos que se formam na terra lavrada, também as memórias traçam os seus dentro de mim. Uns vêm nítidos, outras chegam baços como fotografias antigas guardadas numa caixa de sapatos.

Mas todos têm o seu lugar. Todos me lembram que sou feito de instantes que ficaram agarrados à pele.

E então entendo: este silêncio é um amigo cuja presença discreta, quase tímida, se senta comigo nos dias cinzentos e me diz:

“Olha o que viveste. Olha o que te fez ser quem és.”

O passado não é um sítio onde a alma se perde. É o campo onde se semeia o presente. E cada memória – boa ou dura – é uma pedra da calçada que me trouxe até aqui.

Por isso, quando a tarde cai e o dia encolhe, deixo que o silêncio me abrace. Não para me prender, mas para me lembrar que sou feito de tempo, de encontros, de despedidas, de risos que ainda ecoam.

Sou feito daquilo que permanece, mesmo quando já partiu.

José Coelho