Há dias em que acordo com a sensação de que o mundo me fala baixinho. Não é uma voz clara, nem urgente, é um murmúrio que vem da terra, das velhas paredes, do cheiro do café, do canto da passarada que anuncia o dia antes de eu abrir a janela.
É nesse instante que sinto essa inquietação a mexer cá dentro: aquela irresistível vontade de transformar o que vejo e ouço em palavras, como quem tenta guardar água numa concha.
Não sei se isto é vocação, destino ou apenas teimosia. Mas sei que, quando algo me encanta ou me fere, quando uma luz me toca ou uma lembrança me atravessa, nasce logo em mim o impulso de escrever.
É como se a vida me pedisse tradução e eu, obediente, me sentasse a escutá-la.
Escrever, para mim, é uma forma de conversar com o mundo. Não para o convencer de nada, mas para o acompanhar. Para lhe dizer: “Eu vi-te e senti-te, porque estou aqui.”
Mas talvez também para que os outros, ao lerem, reconheçam qualquer coisa sua nas minhas palavras: um gesto, uma sombra, uma saudade, um riso que lhes ficou por dentro.
Há quem escreva para deixar marca. Eu escrevo para não deixar que a vida me escape entre os dedos.
A Beirã ajuda-me, porque este lugar tem uma maneira própria de nos ensinar a olhar: o silêncio que não pesa, o calor que insiste fora de tempo, o outono que chega devagarinho, como quem pede licença.
Aqui, tudo parece pedir uma crónica, desde as pedra antigas que guardam muitas histórias, até ao vento que muda de direção sem avisar.
E eu, que não sei ficar indiferente ao que me rodeia, acabo sempre por transformar o que sinto, num texto. Não por vaidade, mas por necessidade.
Porque só escrevendo consigo dar forma ao que me inquieta e ao que me sossega. Porque só escrevendo encontro o meu lugar no mundo.
Talvez isto seja uma vocação: uma urgência mansa, uma fidelidade ao que me toca, uma vontade de existir com mais nitidez.
Foto Pedro Coelho





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