terça-feira, 26 de maio de 2026

Setenta e quatro anos depois

Ó Beirã, terra serena, guardiã do meu viver,
Entre pedras e caminhos, passa o vento a cantar.
No teu silêncio nasci e aqui me viste crescer,
Fiz da tua luz destino, fiz do teu chão o meu lar.

Ó Beirã, minha raiz, meu abrigo, meu sonhar,
No teu nome há primavera, há saudade e calor.
Berço que hoje embala, meu tempo de repousar,
Minha aldeia verdadeira, eterno e simples amor.

No meu bairro, cada porta, é a história a sorrir,
Setenta e quatro anos depois e continuas igual.
A minha casa tão antiga, as roseiras a florir,
Beleza que nunca enfada, abrigo e porto final.

Foto e poema

Quando deixamos a luz entrar

Há momentos em que o mundo parece pesar mais do que devia. Não porque os outros nos falhem, mas porque, sem perceber, colocamos nos seus ombros o peso das nossas expectativas. E quando não correspondem, o coração encolhe um pouco.

Mas há uma verdade suave que aprendi a reconhecer: a vida torna-se mais leve quando deixamos de pedir aos outros que sejam faróis e começamos a descobrir a luz que já existe dentro de nós.

Cada pessoa caminha ao seu próprio ritmo, carrega as suas próprias sombras, e oferece o que consegue – nem sempre o que desejamos, mas quase sempre o que pode.

Quando aceitamos isso, algo muda. O mundo não se torna perfeito, mas torna-se mais respirável.

Há uma beleza discreta em esperar menos dos outros e mais da própria vida. É como abrir uma janela e perceber que o vento entra por si, sem que o chamemos.

E então começamos a reparar nas pequenas coisas: nos gestos que chegam sem aviso, nas presenças que não pedem palco, nas pessoas que ficam porque querem, não porque lhes pedimos.

A reciprocidade, quando acontece, é um milagre simples. E os milagres não se exigem, acolhem-se.

No fim, descobrimos que a esperança não está em controlar o que recebemos, mas em cultivar o que damos. Porque quem dá com verdade nunca perde: se não recebe de volta, recebe de si mesmo. E isso basta para iluminar um caminho inteiro.

A vida é generosa com quem caminha leve. E quando deixamos de esperar tanto, abrimos espaço para que o inesperado – o bom, o luminoso, o que fica – nos encontre.

José Coelho

A vida não se mede em anos, mede-se em momentos que nos enchem o coração

Ontem, no jantar comemorativo do 49.º aniversário do meu primogénito, senti isso como quem sente o sol romper as nuvens: uma luz inesperada que aquece por dentro e nos lembra que estamos vivos.
À mesa, entre o brilho dos copos e o murmúrio das conversas, havia também lugares que não estavam ocupados – mas estavam presentes. Presentes na memória, na saudade boa, na distância que não diminui o amor. Presentes no pensamento, no silêncio que guarda nomes queridos, no carinho que não conhece fronteiras.
O meu filho falou deles com a emoção de quem ama com verdade, com a lealdade de quem sabe que a vida se faz tanto dos que caminham ao nosso lado, como dos que, por algum motivo, não puderam estar ali.
E nesse gesto, nessa ternura, vi mais uma vez a grandeza do seu coração: generoso, fiel, capaz de acolher o mundo inteiro.
Enquanto o observava, senti aquele orgulho antigo e sempre novo que só um pai conhece. Orgulho não apenas no homem que ele se tornou, mas no ser humano luminoso que é – e que continua a ser, mesmo quando a vida o desafia.
Obviamente, lembrei-me também do meu outro filho que não pôde estar presente, mas cuja presença sinto sempre, como quem sente o calor de uma lareira mesmo quando não vê a chama. O amor de pai tem esta magia: alcança distâncias, atravessa silêncios, abraça mesmo quando os braços não chegam.
Porque amar um filho – amar os filhos – é isto: vê-los crescer por dentro, vê los ser casa para os outros, vê los carregar memórias, ausências, presenças e afetos com a mesma delicadeza com que se segura um pássaro na mão.
Vivamos com verdade, com a consciência de que cada segundo é irrepetível. Que cada abraço é um abrigo. Que cada riso é um bálsamo. Que cada reencontro – mesmo que apenas no coração – é uma dádiva.
O tempo não espera por ninguém, mas nós podemos escolher não o desperdiçar.
Que cada dia nos encontre mais leves, mais inteiros, mais atentos à beleza que insiste em acontecer, mesmo nos silêncios, mesmo nas ausências, mesmo na distância.
E que os meus filhos sintam sempre que são e serão enquanto eu viver, a parte mais bonita da minha existência. E que a Vida, com toda a sua beleza e imperfeições, me permita continuar a caminhar ao lado deles para os amar. Sempre.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Meu ponto de equilíbrio

Hoje, ao abrir os olhos, senti o coração regressar ao princípio de tudo. Quarenta e nove anos passaram desde o dia em que me tornei pai pela primeira vez e ainda hoje essa alegria primeira continua a viver dentro de mim intacta, luminosa, como uma chama que nunca se apagou.

Depois veio o segundo filho e a vida, generosa como sempre foi comigo, voltou a acender outra luz. E assim, sem alarde, fui-me tornando um homem mais inteiro.
O Manel e o Pedro são parte do que tenho de mais precioso. Com a Francisca, a Mariana e a Filipa, descobri que o amor tem uma capacidade infinita de se multiplicar. Cada uma delas é um ramo novo da árvore que plantámos, uma continuação suave daquilo que fomos construindo ao longo dos anos.
Há, no entanto, uma verdade que preciso escrever com toda a clareza: nada disto existiria sem a mulher que caminha comigo há mais de cinquenta anos.
A mulher que me ensinou que o amor não é feito de grandes gestos, mas de gestos certos.
A mulher que soube ser mãe com uma força silenciosa e agora é avó com uma ternura que desarma.
A mulher que me deu os filhos, que me deu tantas vezes colo, que me deu a paz.
A mulher que, mesmo nos dias mais difíceis, nunca deixou de ser o meu lugar seguro.
Com ela aprendi que o amor verdadeiro não precisa de espetáculo. Precisa de presença. De mãos que se procuram no escuro. De olhares que dizem “estou aqui” mesmo quando o mundo parece demasiado grande. De uma vida inteira a dois, onde cada um se torna melhor porque o outro existe.
Chego a esta fase da minha vida com uma serenidade que só o tempo concede. Aprendi a viver devagar, a ouvir mais, a falar apenas o necessário, a perceber que o que é verdadeiro permanece, mesmo quando demora a florir.
E hoje vivo com intenção. Com gratidão. Com a consciência de que a felicidade não está no extraordinário, mas no que é vivido com verdade.
A minha vida encontrou o seu ponto de equilíbrio no amor que construímos juntos. Nos filhos que criámos. Nas netas que agora nos prolongam. E, acima de tudo, na mulher que sempre soube ser casa – a minha casa.
Se há algo que aprendi, foi isto: a vida revela-se por inteiro quando deixamos de a perseguir e começamos, simplesmente, a caminhar ao seu lado. E eu tive a sorte de caminhar ao lado da mulher certa.
Com amor, serenidade e gratidão,

A Vida a florescer

Há exatamente 49 anos que começámos a ser três: pai, mãe e Manãe. O tempo passou e o nosso amor cresceu contigo.
Hoje tens também ao teu lado a tua companheira – e nossa nora – Paula, mais as tuas filhas lindas, Filipa e Mariana, nossas netas, a encherem de felicidade e orgulho as vidas de todos nós.
É maravilhoso ver a vida a florescer assim.
Que Deus vos abençoe e proteja sempre, é o que peço todos os dias. Beijinhos para os quatro, dos pais, sogros e avós:

Manãe! Chamo-me Manãe.

Introdução:
1 – Para ti, meu querido primogénito, que chegaste ao mundo numa madrugada azul de maio e mudaste para sempre o rumo das nossas vidas. Este texto é a memória viva do caminho que te trouxe até nós, um caminho feito de amor, coragem, surpresa, lágrimas boas, e uma felicidade que nunca mais nos largou. Hoje, quase meio século depois, celebro-te como no primeiro dia: com o coração cheio e a alma agradecida.
2 – Para ti, mãe Maria Manuela, companheira de vida, força serena, coragem discreta. Foste tu quem carregou no ventre o nosso primeiro sonho, quem lhe deu o primeiro calor, o primeiro abrigo, o primeiro amor. Foste tu quem enfrentou dores, medos, noites longas e madrugadas frias para que o Manel chegasse ao mundo saudável e amado. És a raiz silenciosa de tudo o que construímos, a heroína que nunca pediu medalhas, mas que merece todas. Sem ti, nada disto existia. Esta história é dele, mas começa em ti.
/*\(-)/*\(-)/*\(-)/*\(-)/*\(-)/*\
Sem aviso, sem ensaio, apenas guiado pelo coração, olhei-a nos olhos e perguntei-lhe se queria casar comigo. Ficou suspensa no instante, surpreendida, como quem é apanhada pela vida no meio de um passo. Pediu um bocadinho para pensar.
Mas o amor não gosta de demoras. Meia hora depois, devolveu-me o olhar que eu lhe tinha dado e disse, com a serenidade de quem sabe o que quer:
– Sim. Quero casar-me contigo.
Nesse mesmo dia traçámos planos, sonhámos datas e marcámos o enlace para dali a sete meses, a 14 de agosto. O passo seguinte foi contar às famílias. O meu pai, esse homem de coração fácil, desatou num choro de felicidade e correu a abraçar a nora que tanto desejava:
– Dá cá um abraço, cachopa, que vais ser minha nora!
Assim se cumpriu o que a Vida já tinha escrito para nós. Regressei às Minas feliz, com o peito cheio, e tratei dos preparativos: anel de noivado, alianças, convites.
Num sopro chegou agosto, o casamento, a lua de mel em Madrid em visita aos cunhados, e depois o Gerês, sempre acompanhados pelos compadres do Porto, no seu Toyota novinho em folha.
Talvez por isso o nosso primogénito tenha alma espanhola – deve ter sido concebido nessa lua de mel madrileña, porque nove meses e onze dias depois chegou ao nosso colo.
Pedi à entidade patronal três semanas de licença sem vencimento para acompanhar o final da gravidez, o nascimento, o que fizesse falta. Concederam-nas sem descontar um centavo sequer do ordenado base. Só não me pagaram horas noturnas, porque não as fiz. Houve um tempo em que as empresas tinham consideração pelos seus trabalhadores.
Na manhã de 24 de maio de 1977, a Maria Manuela pegou num alguidar de roupa para ir ao lavadouro público. Não chegou lá. Rebentaram-lhe as águas e começaram as primeiras contrações. Chamámos o táxi do Zé Moura de Santo António das Areias e seguimos para a maternidade do Hospital Dr. José Maria Grande, em Portalegre.
Estava de serviço um médico amigo, competente e atento, que tomou conta dela com o cuidado de quem sabe o valor de uma vida prestes a nascer. Fui autorizado a acompanhá-la até às onze da noite. Vi o zelo incansável de todos – tão diferente dos dias de hoje.
Às onze tive de sair. Era a regra. Mas a sorte protege os que amam: a minha madrinha Jacinta, trabalhava naquele piso e entrava no turno da meia-noite.
– Toma a chave da minha casa e vai descansar. Eu tomo conta da tua Manuela. Do que houver, te direi.
Fui, mas dormir era impossível. A ansiedade, a esperança, o medo bom de quem vai ser pai pela primeira vez. Já de manhã, a madrinha ligou. Atendi num salto.
– Já aqui tens um belo cachopo à tua espera. Nasceu às duas da manhã e correu tudo muito bem. Anda para baixo, diz que és o pai, que te deixam entrar.
Desci a correr a Rua do Comércio mais feliz do que os pardais que debicavam migalhas das esplanadas. Numa loja de flores, uma senhora arrumava cravos… azuis. Nunca tinha visto tal coisa. Pedi-lhe um bouquet para a recém-mamã.
Quando entrei no quarto, uma enfermeira sorriu:
– O seu marido é um romântico! Vou buscar uma jarra para esses cravos.
A mãe sorria, entre dores e o nosso pequenito dormia ferrado no berço, com o lábio inferior escondido debaixo do superior. Fiquei com eles o dia inteiro. Depois tive de regressar à Beirã, a transbordar de felicidade, incredulidade e gratidão. Deus é bom.
O tempo passou, veloz. Em menos de nada já andava, já falava.
– Como te chamas, filho?
– Manãe. Chamo-me Manãe…
Hoje, 25 de maio de 2026, cumpres 49 primaveras. Pai, já és também. E eu continuo a amar-te incondicionalmente, desde o primeiro instante em que te segurei ao colo.
Parabéns, filho.

domingo, 24 de maio de 2026

A Ética e a Verdade

A ética é a bússola silenciosa que cada um traz dentro de si. Não faz barulho, não pede aplausos, não precisa de testemunhas. Mas é ela que nos orienta quando o mundo à volta parece andar às avessas. A ética é o que fazemos quando ninguém está a olhar – e é aí que se vê quem realmente somos.
A verdade caminha ao lado dela. Não é sempre suave, nem sempre cómoda, nem sempre bem recebida. Mas é íntegra. A verdade não se veste de conveniências, não muda de cor conforme o público, não se curva para agradar. A verdade é como a luz: pode incomodar quem vive na sombra, mas nunca deixa de iluminar.
Vivemos tempos em que muitos preferem o brilho fácil da aparência à solidez do carácter. Trocam a sinceridade por simpatias fingidas, a frontalidade por elogios vazios, a honestidade por atalhos. Mas quem escolhe a verdade sabe que ela vale mais do que qualquer aprovação passageira. A verdade não conquista multidões – conquista paz interior.
Ser ético é recusar a hipocrisia mesmo quando ela parece ser o caminho mais rápido. É não trair a confiança de quem nos procura. É não usar a mentira como ferramenta. É não falar mal de quem acabou de sair pela porta. É manter a palavra dada, mesmo quando custa. É, no fundo, ter a coragem de ser inteiro num mundo que tantas vezes se contenta com metades.
E a frontalidade – essa qualidade que tantos temem – não é dureza. É respeito. Respeito por si próprio e pelos outros. Dizer a verdade não é ferir; é honrar. É tratar o outro como adulto, como igual, como alguém que merece ouvir o que é real e não o que é conveniente.
A verdade pode deixar-nos sós por momentos, mas nunca nos deixa vazios. A mentira pode rodear-nos de gente, mas deixa-nos sempre incompletos. Entre a solidão da verdade e a multidão da falsidade, a escolha é simples para quem tem princípios.
Assim, a ética e verdade são escolhas diárias. Pequenas, constantes, discretas. São a forma mais nobre de caminhar pela vida. E quem as segue, mesmo quando o mundo parece andar ao contrário, deixa atrás de si um rasto de dignidade que nunca se apaga.
Cuidem-se e... tenham uma excelente semana.
Texto e foto