sábado, 23 de maio de 2026

O luto não acabou e o respeito também não pode acabar

Introdução:

Este texto teve origem na indignação que senti num momento de profunda dor quando uma pessoa da minha família se apresentou enfeitada e colorida como uma árvore de Natal no funeral de quem a ajudou a criar.

Há quem diga com a maior leveza: “Hoje o luto já não se usa.” Mas eu digo com toda a firmeza: O luto não é moda para “usar” ou “deixar de usar”. O luto é respeito. E o respeito nunca sai de moda.
Cresci no seio de gente humilde que não tinha estudos, mas tinha palavra. Gente que não tinha luxo, mas tinha honra. Gente que sabia que, quando alguém parte, não se acompanha à sua última morada todo “empampoulado” como se vai para uma festa.
E é isso que muitos jovens de hoje precisam de ouvir – não com paninhos quentes, mas com verdade:
Ir a um funeral vestido como quem vai para uma festa, não é modernidade. É desconsideração.
E não se trata de usar preto da cabeça aos pés. Não se trata de seguir tradições antigas. Trata-se de ter noção.
Noção que:
Um funeral não é palco – é despedida.
A dor merece respeito – não exibição.
A memória merece dignidade – não indiferença.
Quando alguém - como foi o caso - aparece no funeral de um ente querido muito próximo com roupa desadequada, a mensagem que passa, mesmo que não seja essa a intenção, é simples:
– Não entendo a importância deste momento.
E isso magoa. Magoa profundamente quem amou, quem cuidou, quem perdeu.
Eu vi a minha mãe faltar ao banquete do casamento do meu filho mais novo porque tinha perdido também o seu irmão mais novo – o tio Raimundo – dias antes. Não por obrigação. Não por tradição. Mas porque o seu coração não sentia que era dia de festa.
Hoje há quem faça luto público por um animal de estimação – e nada contra isso – mas não consiga vestir algo discreto quando perde um pai, uma avó, um irmão.
Há quem publique laços negros nas redes sociais, mas não tenha a sensibilidade de mostrar um simples gesto de respeito no momento da despedida de alguém a quem deve amor e respeito.
Isso não é evolução. É desligamento das raízes. É comodismo emocional. É falta de educação no sentido mais profundo da palavra.
E por isso afirmo, sem nenhum medo de ferir suscetibilidades:
O luto não acabou. O que está a acabar é a capacidade de sentir.
E isso é muito mais grave.
Quem ama, respeita.
Quem respeita, demonstra.
Quem demonstra, honra.
E honrar quem nos deu vida, quem nos criou, quem nos amou, não é opcional.
É o mínimo dos mínimos de tudo o que merece.

Bom fim de semana


Há quem, depois de curar o mundo, escolha curar‑se a si mesmo. 
E encontre no coração da natureza o que a vida lhe tinha negado: 
- silêncio, abrigo e paz.

Foto José Coelho

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Bênção da Murta – poética, espiritual, agradecida

Que a Murta permaneça este lugar onde o tempo se inclina, onde o vermelho das suas paredes guarda o calor das gerações e o verde dos campos respira como uma prece antiga.
Que a fonte continue a murmurar a sua água pura, lembrando as mulheres que ali buscavam vida e os namorados que, na noite de São João, colhiam esperança no silêncio da meia-noite.
Que Deus abençoe também a família que lhe devolveu o brilho, a dignidade e a alma, mãos que restauraram não só paredes, mas a memória de todos nós.
E que quem se sentar no poial da fonte, como hoje eu me sentei para bater esta foto, sinta esta paz que não se explica – apenas se recebe, como graça que desce devagar sobre a terra que tanto amamos.
Texto e foto

Guardião de memórias

Há pessoas que pertencem à terra como as raízes pertencem às árvores. Não porque estejam presas, mas porque dali tiram a força, a memória e o sentido.
Crescer num lugar é uma coisa; ser moldado por ele é outra. A terra onde se nasce pode ser apenas cenário, ou pode ser mãe, mestra, companheira de jornada.
Quem ama a terra como eu amo a minha, não a vê apenas com os olhos:
Vê-a com o coração.
Vê o valor das fontes antigas, o milagre de uma lagartixa que caiu no balde e foi salva, a dignidade de uma cobra que só necessita atravessar o caminho e merece ser deixada em paz, a nobreza silenciosa da manada de javalis que passa com a família em procissão.
A ligação à terra não se explica – vive-se.
É feita de gestos pequenos, quase invisíveis, de amor pela natureza: parar o carro para não ferir um animal, recolher um pássaro caído, respeitar o silêncio dos campos, agradecer a sombra de uma árvore.
Quem age assim é guardião.
Guardião da memória, da vida, da beleza que ainda resiste.
E talvez seja por isso que a terra nos conhece. Porque há homens que passam por ela, e há homens que a honram.
A ligação à terra é um pacto silencioso entre aquilo que fomos, o que somos e o que deixamos para os que virão.
E quem vive assim, não envelhece – aprofunda-se.
Texto e foto

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Amor, respeito e amizade caminham – sempre – de mãos dadas

Há momentos na vida em que caminhamos sem perceber o peso dos passos, como se o mundo nos conduzisse por trilhos que não escolhemos, mas que, ainda assim, nos moldam. E é nesses caminhos – às vezes suaves, às vezes ásperos – que começamos a questionar o que realmente significa amar, ser feliz, ter sucesso.
A verdade é que as grandes revelações raramente chegam com estrondo. Vêm em silêncio, escondidas num gesto simples, num olhar que nos acolhe, num cuidado que ninguém vê. É aí que descobrimos que o amor não vive de rostos bonitos nem de palavras bem ensaiadas.
Ele vive nas atitudes, na sinceridade dos gestos, no cuidado que não pede aplausos, na presença que permanece mesmo quando tudo o resto vacila. Um abraço que nos devolve o mundo. Um sorriso que nos reconhece. Um silêncio que nos entende.
É nas coisas pequenas que mora o essencial. E é nelas que percebemos que o sucesso ou o fracasso não nascem de grandes feitos, mas das escolhas que fazemos todos os dias – da coragem de assumir responsabilidades, de seguir o que faz sentido, de não desistir de nós.
A felicidade, essa companheira esquiva, não é um destino. É um estado que se constrói devagar, como quem cultiva um jardim. Cada gentileza, cada ato de empatia, cada perdão que oferecemos sem pedir nada em troca, ergue dentro de nós uma casa onde a paz pode morar. E nada consola tanto uma dor, como o bem que fazemos aos outros. Porque ajudar alivia. Reconcilia. Transforma.
E então percebemos o valor raro dos amigos verdadeiros, esses que a vida nos entrega como tesouros escondidos. Eles caminham conosco quando o mundo se afasta, partilham as nossas alegrias e seguram as nossas tristezas como quem segura um vaso frágil. São eles que nos mostram que quem nos merece não nos fere de propósito, porque amor, respeito e amizade caminham – sempre – de mãos dadas.
Há também uma beleza imensa nos instantes que o mundo nos oferece sem pedir nada: acordar cedo para ver o sol nascer, sentir o perfume fresco da manhã, escutar o silêncio que antecede o dia. É nesses momentos que entendemos que muitos dos nossos erros foram apenas tentativas de acertar, de procurar algo melhor para nós e para quem amamos.
Tal como num perfume, é a essência – nunca a embalagem – que define o valor das pessoas.
Cada ser humano dá ao mundo aquilo que carrega no coração. Por isso, não nos cabe julgar, mas compreender. Não nos cabe punir, mas acolher. O silêncio, tantas vezes, é a sabedoria que nos resta quando as palavras não chegam. Aprender a ouvir, a respeitar, a permanecer em silêncio quando necessário, é maturidade.
E quando finalmente entendermos que o Amor é mais do que um sentimento – é uma forma de olhar o mundo, de aceitar imperfeições, de valorizar o essencial – descobriremos que a felicidade não está no dinheiro nem no status, mas nas relações que constroem a nossa história, nos vínculos que resistem ao tempo e às tempestades.
As pessoas mais valiosas são aquelas que ficam. Que permanecem. Que seguram a nossa mão quando tudo parece difícil. São elas que nos ensinam, pelo exemplo, que a felicidade nasce dentro de nós. E que, antes de procurarmos alguém que nos ame, precisamos aprender a amar-nos, a aceitar-nos, a cuidar de nós com a mesma gentileza que oferecemos ao mundo.

Pequena no tamanho, enorme na sua missão de melhorar o mundo


Vivemos numa Terra que nos sustenta e que, ainda assim, tratamos como se fosse descartável. Os governos das grandes nações, cegos pela ambição, vasculham o planeta em busca das chamadas “terras raras", não para elevar a humanidade, mas para alimentar máquinas de guerra cada vez mais inteligentes, mais rápidas, mais letais. A obsessão é simples: poder. E o resultado é sempre o mesmo: conflitos fratricidas que exibem músculo bélico e pobreza moral.

Enquanto isso, quase ninguém olha para o que cresce por cima desses metais cobiçados. A vida vegetal - silenciosa, paciente, generosa - não serve para discursos inflamados nem para desfiles militares. Não ameaça ninguém, não destrói nada, não engrandece egos. Limita-se a cumprir a sua missão essencial: purificar o ar, sustentar ecossistemas, colorir o mundo, oferecer beleza sem pedir nada em troca.
Esta pequena flor que encontrei no meu Alentejo é um desses milagres discretos. Tive de a ampliar dez vezes para que se deixasse ver. No campo, perde-se entre os fenos, quase invisível, com apenas alguns centímetros de diâmetro. E, no entanto, na sua humildade, faz mais pela vida do que todos os arsenais do planeta.
Não conhece fronteiras, não pertence a nenhuma nação, não participa em disputas. Limita-se a existir, e, existindo, melhora o mundo. Por isso a fotografei. Por isso lhe dedico estas palavras. Porque, num tempo em que os poderosos se entretêm a medir forças, é nas coisas pequenas que ainda encontro grandeza.

O cartaz com a foto da pequenina flor referida no texto, foi gerado pelo assistente de IA Copilot, desenvolvido pela Microsoft.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Até já, minha grande amiga

A vizinha Joaquina Brites partiu aos 93 anos, deixando atrás de si uma vida inteira de bondade, de fé, de trabalho e de afetos. Para mim não foi apenas uma vizinha: foi quase uma segunda mãe, uma presença firme e doce, sempre atenta, sempre próxima, sempre verdadeira.
Fui recebido no mundo pelas mãos dela. Foi a vizinha Joaquina quem me deu o primeiro banho, naquele tempo em que as crianças nasciam em casa, rodeadas pelas mulheres da vizinhança e pela sabedoria das parteiras.
A minha mãe fez o mesmo por ela quando nasceu o seu primeiro filho, que não sobreviveu. Depois veio a filha e nossa vizinha de toda a vida também, selando entre as duas um laço que ultrapassava a amizade: tornaram se comadres, quase família, unidas por gestos de cuidado e de vida.
Cresci a sentir o seu carinho. Era um afeto simples, genuíno, daqueles que se mostram tanto num abraço como numa palmada educativa quando eu me portava mal. Nunca duvidei que gostava de mim. Nunca duvidei da sua presença. Era uma mulher boa, daquelas que fazem falta ao mundo.
Há poucas semanas, fui visitá-la ao lar onde estava acolhida. Assim que me viu, o seu rosto iluminou-se e exclamou, com aquela alegria pura que só vem de uma amizade antiga: “Olha o meu Coelhinho…”
Tratava-me assim e naquele diminutivo havia toda a ternura de uma vida inteira. Agarrou-me a mão e nunca mais a largou.
As assistentes vieram buscá-la para a missa do Domingo de Ramos, como ela tinha pedido. Desolada e sem me largar, murmurou: “Ohhhh… mas agora tenho aqui as visitas…”
Crente e cumpridora da sua profunda fé toda a vida, naquele momento porém, preferia ficar comigo. Disse-lhe ao ouvido que fosse, tranquila, que nós voltaríamos. E ela foi, sempre a acenar, sempre a olhar para trás, até desaparecer pela porta da sala.
Mal sabíamos nós que seria aquele o nosso último encontro.
Hoje ao despedir-me dela senti que perdi uma amiga da vida inteira. Mas sinto também uma profunda gratidão por tudo o que me deu, por tudo o que foi, por tudo o que deixou em mim.
A vizinha Joaquina partiu, mas fica a sua memória. A memória de uma mulher simples e extraordinária, generosa, trabalhadora, bondosa, que marcou vidas com os seus pequenos e amorosos gestos.
Que descanse em paz. E que saiba, onde quer que esteja, que deixou muito do seu amor espalhado por este mundo e nas pessoas que, como eu, tiveram o privilégio de merecer um lugarzinho no seu coração.