sexta-feira, 27 de março de 2026

Sou, sempre fui e serei, assim

Falar sempre a verdade mesmo quando ela não nos favorece, não é para qualquer um. É preciso ter-se estaleca. Ou em português arcaico, tê-los no sítio. Ou ainda em português mais formal, ser possuidor de invioláveis valores e princípios.
Mas qual quê?
É tão mais fácil sacudir a água do capote, varrer a verdade para debaixo do tapete para ficar oculta, achar que aqueles a quem se mente são todos parvos, trouxas ou ingénuos. Ficar feliz e na mó de cima a julgar-se muito mais inteligente, mais desenrascado, mais...
Xico-esperto.
Que orgulho sinto de ter sido tão bem ensinado pelos meus humildes pais a não mentir, a assumir sempre as minhas responsabilidades, a não fazer a ninguém o que não quisesse que me fizessem a mim.
Que orgulho sinto agora em duplicado porque foram exatamente esses valores e princípios que ensinei aos meus dois filhos e ambos me concedem a suprema felicidade de serem dois seres humanos íntegros e leais como todos deveriam ser.
Não é porque a mentira, a falsidade, a conveniência e falta de vergonha na cara que nos rodeiam são praticadas de cima para baixo pelas hierarquias do poder, das instituições públicas ou particulares e noticiadas diária e profusamente nos Órgãos de Comunicação Social, que as faz estarem corretas.
Porque o certo é sempre certo mesmo que ninguém o pratique e o errado será sempre errado, mesmo quando todos o façam. Não há outra volta a dar. Por isso mesmo não há nada que mais me incomode e desagrade nesta vida, do que perceber que me estão a mentir.
Descaradamente e sem o menor pudor, algumas vezes. Se for um amigo, provavelmente perde a minha confiança e amizade definitivamente. Se for um familiar porque nunca deixará de o ser faça ele o que fizer, perderá a minha consideração e estima.
Afirmo-o tranquilamente porque nunca, jamais ou em tempo algum, usei de mentiras com a intenção de não assumir as minhas responsabilidades ou para ficar mais bem visto seja para quem for. E nunca, jamais ou em tempo algum, o farei.
Sou assim. Fui sempre assim. Serei sempre assim. Quem gostar de retidão e honradez, seja bem-vindo. Quem não gostar, siga o seu caminho e vá em paz, que com ela eu ficarei também...

quinta-feira, 26 de março de 2026

Fonte de felicidade


Aprendi que o mais alto grau de paz interior se consegue pela prática do amor e da compaixão. 
Quanto mais nos importamos com a felicidade do nosso semelhante, maior é o nosso bem-estar. 
Quando cultivamos sentimentos profundos e solidários pelos outros, ascendemos a um estado de serenidade tão real que ela se transforma na nossa principal fonte de felicidade.

Na minha agrária

Memórias que nunca esqueço


Dez de março de 1972. O dia em que fiz vinte anos. Almocei com os tios Francisca Coelho e Pedro Maniés (irmã e cunhado do meu pai) na sua bonita vivenda nos subúrbios de Luanda e passei o serão na casa de fados "O campino" em companhia do seu filho mais novo meu primo-irmão Augusto Coelho Maniés e sua esposa a fadista Fernanda Varela que fazia parte do elenco de artistas que ali atuavam todas as noites.

O ar pouco animado tão evidente no meu semblante devia-se decerto ao facto de ter chegado apenas há setenta e duas horas a Angola integrado num contingente militar de substituição de efetivos numa zona de guerra, e no dia seguinte ir embarcar com os restantes camaradas de armas do BCav3871 para o enclave de Cabinda com destino ao quartel do Belize nas profundezas do Maiombe.
Foi a primeira vez que entrei numa casa de fados. Foi também a primeira vez na minha vida que comi gambas e bebi uísque. Não apreciei lá muito, nem uma coisa nem a outra. Valeram-me as dicas dos primos para mergulhar as gambas num delicioso molho picante e acrescentar gelo com um gole de Coca-cola ao uísque, para melhorar o sabor.
Sabia lá eu, na minha humilde condição de camponês alentejano, que raio de bichos e bebida alcoólica eram aqueles!
Quem pudera ter hoje a inocência que tinha então, naquele longínquo dia. Tios e primos já partiram todos para a eternidade, mas apesar de tantas coisas boas e menos boas por que passei, continuo ainda aqui.
Tive a ventura de voltar para casa são e salvo passados uns longos vinte e sete meses, de conseguir erguer-me após cada tombo, de contornar cada obstáculo até os que, matreiramente, foram urdidos para me prejudicar.
Mas Deus é Pai, Justo, Amigo, Paciente e Protetor. Por isso nunca me canso de dar graças, plenamente convicto de que foi a Sua ajuda misericordiosa que fez de mim um vencedor. Louvado seja.
Foto que me fez o primo Augusto na Fortaleza de São Miguel em frente à baía de Luanda, fundada em 1575 por Paulo Dias de Novais. Foi a primeira estrutura defensiva portuguesa na região e marcou o início da construção da cidade de Luanda. Atualmente, funciona como Museu Nacional de História Militar.

Chegada a Nisa (2)


Numa resposta quase imediata, na semana seguinte uma equipa composta por pedreiros, carpinteiros e pintores, “assentaram praça” no quartel para começarem a restaurar o mais urgente. O telhado que metia água e em alguns sítios ameaçava ruir. Foram substituídas quase todas as traves e barrotes, bem como centenas de telhas partidas causadoras de infiltrações. Depois foi a cozinha que levou azulejos brancos nas paredes, um armário moderno e lavável, um lava louça inox e um chão de mosaicos, bem como uma adequada iluminação interior.

O velho, escuro e gordurento “buraco” sem quaisquer condições de higiene e salubridade transformou-se numa cozinha com um mínimo de condições por ser indispensável aos militares que eram de longe e ali tinham que confeccionar as suas refeições diariamente. E como estava ali mesmo ao lado, foi também completamente remodelado o posto de rádio que ficou muito mais digno e funcional. Depois, uma a uma, todas as dependências do velho edifício foram sendo restauradas a expensas exclusivas da câmara municipal de Nisa.

Adaptaram-se as divisões dentro do possível. Separou-se o posto da secção. Do lado direito ficou o gabinete do oficial comandante e a respetiva secretaria, do lado esquerdo o gabinete do plantão contíguo ao gabinete do comandante de posto.

Adaptou-se um velho compartimento em frente á arrecadação do material de guerra que conseguimos decorar usando para isso pouco mais que umas dezenas de rústicas tábuas costaneiras dos desperdícios da serração e cedidas gratuitamente que depois de devidamente aparadas dos lados e envernizadas fizeram uma acolhedora sala de convívio que servia simultaneamente para os dias de instrução semanal, com uma bonita lareira feita de raiz para aquecer o ambiente nos dias frios de inverno.

Construiu-se um corredor em tijolo para se poder atravessar todo o edifício sem ter de se passar pelo interior da caserna, a qual entretanto foi também restaurada, assim como a casa de banho anexa equipada com louças sanitárias novas, azulejos nas paredes e chuveiros com água quente.

O velho piso de tábuas partidas, habitat seguro de famílias inteiras de ratos, foi substituído por um bonito e funcional parquet de corticite lavável, que deu logo um aspeto digno e acolhedor àquele compartimento, local de resguardo e de repouso para quem ali permanecia dia e noite por motivo de ter a sua residência e família afastados de Nisa e por isso só podia ir visitar na folga semanal.

Era o mínimo dos mínimos que se lhes podia - e devia - conceder. Condições dignas, com higiene, conforto e privacidade adequadas.

Também a residência que me era destinada levou uma volta completa. A casa de banho só tinha uma sanita e um lavatório. Não tinha chuveiro nem banheira. Os meus antecessores deviam com certeza tomar banho num balde porque nem águas quentes canalizadas a residência possuía. Depois a instalação elétrica era do princípio do século, com aqueles tubos primitivos em chumbo a despegarem-se das paredes.

O único contributo da Guarda em toda aquela remodelação, eram os dois militares que, estando de piquete 24 horas consecutivas, vestiam um fato de zuarte para auxiliarem os mestres naquilo que fosse necessário, entre as oito e as cinco da tarde, assegurando eu com o meu motorista, tomarmos conta de todas as ocorrências que houvesse naquele período de tempo. Era fraco o contributo, mas o possível e de muito boa vontade.

Todo o efetivo se regozijava com as obras de restauro que tardavam em chegar. Por isso, voluntariamente, cada um se prontificava para fazer o que podia e sabia.

Os guardas eletricistas ajudavam os eletricistas, os guardas pedreiros auxiliavam os pedreiros, os guardas canalizadores idem idem, aspas aspas - porque os guardas são também grandes e competentes profissionais de todas essas especialidades que desempenhavam antes de ingressarem na guarda - e aqueles que nenhum desses ofícios sabiam davam serventia onde fosse preciso.

Seis meses depois o quartel de Nisa não parecia o mesmo, por fora e por dentro. A CMNisa reaproveitando e reciclando muitos materiais sobrantes de outras obras de restauro de edifícios públicos - traves, barrotes, telhas e outros materiais existentes no estaleiro municipal - mesmo assim investiu naquela reparação cerca de seiscentos contos.

Mas não só. Logo a seguir, o executivo municipal liderado nessa altura pelo Dr Basso, providenciou o local e a elaboração do projeto para ser construído de raiz um novo quartel e duas residências para acomodarem o oficial comandante do Destacamento e o comandante do posto, no Bairro da Cevadeira onde foi de facto construído poucos anos depois e funciona até hoje.

José Coelho in Histórias do Cota

Foto a tomar já café no novo mini-bar do posto que a Delta Cafés teve a gentileza de equipar para o pessoal que tinha de estar 24 horas de serviço no posto, sem poder sair.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Por isso é Natal a 25 de dezembro

Anunciação do Anjo 25 de Março:
Nascimento de Jesus 25 de Dezembro

Chegada a Nisa (1)


Quando cheguei a Nisa cedo me apercebi que as relações entre a Guarda e as restantes autoridades civis do concelho e comarca eram de um quase confronto e oposição mútuos. Os eleitos municipais eram liderados pela CDU, a coligação comunista que o meu antecessor odiava e hostilizava. Não havia por isso diálogo nem aquela colaboração e respeito mútuos que são normais entre todas as entidades públicas de qualquer concelho, seja qual for a cor política dos seus eleitos.

Não cabe à Guarda, nunca coube em tempo algum, hostilizar seja que entidade for, muito pelo contrário. Descobri ali, sem querer, que aquele “ódio” que o meu ilustre antecessor me devotara no alistamento e pelo qual tanto me infernizara a vida, era exatamente o mesmo que devotava ao presidente da câmara de Nisa desse tempo (1985) e à maior parte dos nisenses que pública e manifestamente votavam na CDU concedendo-lhe por isso vitorias sucessivas, em sucessivos atos eleitorais.
Como se não fosse já um problema bicudo, com as outras entidades civis infelizmente as coisas não estavam mais famosas em termos de relacionamento. Olhavam para nós de lado, com pouca simpatia e ainda menos espírito colaborante.
Longe de me deixar intimidar com aquele panorama, senti-me interiormente incentivado a mudar aquele estado de coisas até onde me fosse possível, ainda que com plena consciência de ir cutucar um ninho de vespas que iriam tentar ferrar-me pela ousadia. Sem nada dizer a ninguém porque sabia de antemão que não iria encontrar apoio interno por parte de quem deixara abandalhar aquilo tudo ao ponto em que se encontrava, tomei várias iniciativas que me pareciam prioritárias.
A primeira foi redigir um ofício timbrado e endereçá-lo a todas as entidades locais. Presidente da Câmara Municipal, Juiz de Direito da Comarca, Delegado do Ministério Público, Chefe da Secretaria do Tribunal, Chefe do Serviço de Finanças, Delegado de Saúde, Gerentes das entidades bancárias, Bombeiros Voluntários e demais entidades públicas, a todos me identificando como o novo comandante do posto de Nisa e solicitando autorização para pessoalmente me apresentar a todos eles para cumprimentar cada um dando-me a conhecer, ao mesmo tempo que manifestava a minha disponibilidade para uma estreita colaboração institucional dali em diante.
Foi uma pedrada no charco! E um sucesso inesperado com o qual nem eu próprio contava. Umas atrás das outras, todas as entidades me responderam quase no imediato, agradadas com a minha atitude e abrindo as portas dos seus gabinetes para me receberem e conhecerem. Parecia que toda a gente queria restabelecer a relação amigável e institucional que nunca deveria ter sido quebrada e posta em causa.
E lá fui eu visitá-los a todos, à vez. Sem subserviência, sem nunca deixar de evidenciar o prestígio da minha mui nobre instituição, a todos me apresentei com humildade, mas também com a dignidade que o meu novo cargo exigia. E de todos recebi palavras amigas, de incentivo e de boa amizade, em simultâneo com as felicitações pela minha iniciativa, seguidas sempre de um “conte conosco”.
O primeiro e mais importante passo estava dado. Mas muito mais havia para fazer e não cruzei os braços nem me deixei adormecer à sombra dos elogios. Pelo contrário, comecei a “sondar” quem poderia dar apoio para melhorar as condições de habitabilidade das velhas e decrépitas instalações. E para que percebessem a urgência em meter mãos à obra, nada melhor que convidar todas aquelas entidades a visitarem o posto para que pudessem verificar com os seus próprios olhos a indignidade que era viver naquele edifício e as precárias condições que oferecia a quem necessitava de ali trabalhar para manter a ordem, a paz e tranquilidade públicas para benefício de toda a comunidade.
Retribuí com a mesma abertura e cordialidade para com todas as entidades que não se fizeram rogadas e compareceram ao meu convite. E uma vez ali, sem quaisquer complexos, mostrei-lhes tudo aquilo a que chamavam pomposamente o quartel da GNR da vila de Nisa. Evidentemente todos ficaram surpreendidos com tão avançado estado de degradação do edifício que pela sua aparência exterior denunciava de facto alguma velhice, mas não tanto como a do seu interior.
Estando presente o senhor presidente da câmara municipal acompanhado de alguns dos vereadores, imediatamente apelei à sua sensibilidade para dentro daquilo que lhes fosse possível me ajudassem no restauro das divisões mais carenciadas que infelizmente eram quase todo o edifício, pois sem a sua ajuda isso não seria possível…
José Coelho in Histórias do Cota
Continua no capítulo (2)

Lavrada e alimentada a terra



Obrigado ao amigo Rui que nunca falha