Acordo sempre antes do mundo, antes das notícias, antes das vozes humanas. Acordo com a madrugada, não ao lado dela, mas dentro dela. É a natureza que me desperta, não o relógio.
Há uma intimidade antiga entre nós, uma espécie de pacto silencioso: eu respeito os seus ritmos, e ela devolve-me paz.
Quando caminho pelos campos não sou visitante, sou parte da paisagem como a oliveira que resiste, como o granito que guarda histórias, como o vento que conhece cada curva dos caminhos.
As paisagens da Beirã não são apenas vistas por mim, são respiradas. Há nelas uma verdade que não precisa de palavras: o verde que se estende sem pedir licença, o dourado das searas que ondulam como mar antigo, as sombras das nuvens que passam devagar, como quem não quer perturbar ninguém.
A fauna é família. O cuco, com o seu cu-cu…cu-cu marca as horas como um relógio de parede herdado. As rolas embalam, não avisam. Os pardais espojam-se na terra fofa a desparasitarem-se, promovendo a SPA o nosso quintal.
E eu, sentado ou de pé, sou apenas mais um elemento desta orquestra discreta que toca todos os dias sem plateia, mas sempre comigo na primeira fila.
A flora é memória. Cada árvore tem rosto, cada erva tem nome, cada flor tem história. O campo não é um lugar onde passo, é um lugar onde sou.
A natureza vive no meu sangue porque foi ela que me ensinou a olhar devagar, a ouvir com atenção, a respeitar o que cresce sem pedir nada.
E quando os citadinos a falarem comigo ao telefone me perguntam: “Anda aí o cuco?” Intimamente, eu sorrio. Porque sei que o que eles ouvem é apenas um som. Mas o que eu ouço, é vida.
O campo é a minha casa, a minha escola, a minha religião. E cada manhã, quando as rolas começam o seu lindo e monocórdico canto, sinto que o mundo está no lugar certo.
E eu também.
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