segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Crónica de uma espera

Prometi a um grande amigo das escritas que estaria com ele às cinco da tarde, mas a vida – e a Maria Manuela – tinham outros planos. Fiquei ali, no carro, no parque de estacionamento, com o chapéu bem assente e aquela expressão que só quem já esperou demasiado tempo conhece.
A Maria Manuela entrou na manicure com aquele ar inocente de quem diz “é só um bocadinho”.
E eu, tolo, acreditei.
Passou meia hora. Depois uma hora. Depois outra. E eu ali, firme, paciente, quase filosófico, a olhar para o volante como quem contempla o destino.
O carro tornou-se o meu pequeno mundo. Vi pessoas a passar, vi um gato gordo que parecia avaliar-me, vi o sol a descer devagarinho como se estivesse a gozar comigo.
De vez em quando levantava os olhos para a porta do salão, na esperança de ver a Maria Manuela sair.
Mas qual quê?
Só risos lá dentro, o som da lima, e aquela certeza antiga que já devia estar escrita na Constituição: As senhoras são… senhoras. Pronto.
E eu, que sei a sorte que tenho, lá fiquei, porque não preciso de ir três horas para a cabeleireira, nem duas horas para a manicure, nem enfrentar aquele universo paralelo onde o tempo deixa de ser tempo e passa a ser… feminino.
Quando ela finalmente saiu arranjada, feliz, a brilhar como se tivesse sido polida por anjos, eu sorri. Um sorriso pequeno, resignado, mas verdadeiro.
Porque no fundo, a verdade é esta: Há esperas que cansam, mas há amores que compensam.
E o meu paciente amigo das escritas, continuou – se calhar continua ainda – lá, à minha espera.
Sem chapéu mas com humor, porque estas histórias só acontecem a quem vive com alguém que sabe transformar “um bocadinho” em duas longas horas de vida.
Desculpe lá. Amigo…
Texto e foto

Diálogo comigo mesmo

Às vezes olho para estes campos e falo comigo em silêncio. Pergunto-me porque é que o passado me chama tanto, porque é que certas imagens antigas continuam a acender-se dentro de mim como se tivessem ficado à espera. E respondo-me, com calma: não é doença, não é peso, não é fuga.
É amor. É raiz.
Eu sei porque volto sempre a estas lembranças. Foram os anos mais felizes da minha vida: uma infância livre, uma juventude cheia de vozes, de passos, de gente. Recordo o assobio dos pastores, o cantar dos galos ao desafio e o ladrar dos cães nos quintais, o rumor das hortas cuidadas, as árvores carregadas de fruto. Recordo a Vida, inteira, presente, espalhada por todos os lugares da aldeia.
E quando agora caminho por estes mesmos sítios e vejo o abandono, o mato a tomar conta do que era cuidado, a ausência de quem trabalhava com dignidade e humildade, sinto um aperto que não é tristeza profunda, é desencanto. É a estranheza de ver o meu mundo rural esquecido por quem devia protegê-lo.
É a consciência de que aquilo que me formou está a desaparecer diante dos meus olhos.
Mas digo-me, com sinceridade: esta saudade é boa. Não me prende, não me derruba, não me fecha. Ela sustenta-me. Ela lembra-me quem sou, de onde venho, o que me moldou. E digo-me ainda: tudo tem o seu tempo. O que partiu cumpriu o seu propósito. O que ficou continua a respirar em mim.
Eu não vivo agarrado ao passado, vivo acompanhado por ele. E é essa companhia que me dá força para cuidar do que ainda posso: uma parede retocada, um altar recomposto, um gesto simples que devolve dignidade ao que permanece.
E continuo a falar comigo, porque às vezes é preciso ouvir a própria voz interior para não perder o rumo. Digo-me que não estou sozinho nesta memória porque há outros que sentem o mesmo, que carregam a mesma saudade boa, que olham para esta terra com o mesmo respeito.
Digo-me que cada gesto meu, por pequeno que seja, é uma forma de manter acesa a chama do que fomos.
No fundo, falo comigo para não esquecer a terra onde nasci e que continua a ser o meu lugar de verdade. Enquanto eu a amar, ela não estará totalmente abandonada. Porque a memória, quando é limpa e honesta, também é uma forma de cuidar.

domingo, 6 de setembro de 2026

Assim terminou o meu dia

O entardecer chega sempre com uma espécie de sabedoria antiga. Não fala, não explica, não exige. Apenas pousa. E hoje na Beirã ele pousou com aquela luz dourada que parece vir de dentro da terra, como se os montes respirassem fundo antes de entregarem o dia à noite.
O calor ainda se sente, mas já não manda. O ar, pesado das poeiras vindas de longe, começa a perder a arrogância. E eu, sentado no meu lugar habitual, deixo que o corpo encontre o seu descanso natural, aquele que só chega quando o sol se inclina e o mundo abranda.
Há um silêncio especial nesta hora. Não é ausência de som: é presença de calma. As cigarras diminuem o canto, os pássaros procuram os últimos ramos, e a terra, que durante o dia pareceu inquieta, agora repousa como um animal cansado que finalmente encontra sombra.
E eu observo tudo isto com a serenidade de quem já viveu muitos entardeceres. E, no entanto, cada um traz algo novo: uma memória que regressa, uma saudade que se acende, uma gratidão que se instala.
Hoje pensei no meu amigo da GNR, na batalha que ele enfrenta, na força que tento sempre incutir-lhe. Pensei também na minha gente – avós, pais, mestres – que me ensinaram a ser este homem que anima, que acolhe, que permanece.
O entardecer é também isso: um espelho onde vemos quem fomos, quem somos, quem tentamos ser.
A luz foi baixando aos poucos. O céu tornou-se uma mistura de cobre e violeta. Respirei devagar, como quem aceita o convite da tarde, que me dizia:
“Pousa. Descansa. A vida continua amanhã.”
Há uma beleza discreta neste instante. Uma beleza que não precisa de palavras, mas que a escrita tenta guardar, como quem recolhe água numa concha para que não se perca.
E assim termina o meu dia: sem estrondo, sem pressa, mas com a dignidade tranquila de quem sabe que cumpriu o seu papel. E ali, sentado, a olhar o horizonte, senti que a paz, quando chega, chega sempre devagar.

Um companheiro de vida

Há carros que são apenas máquinas. E há carros que, sem nunca o pedirem, se tornam testemunhas da nossa história. O meu Citroën C3 pertence à segunda espécie, a dos companheiros silenciosos, fiéis, que sabem mais de nós do que qualquer diário.
Veio substituir o não menos humilde Opel Corsa agora já velhinho, mas ainda a pegar à primeira, a bater estrada desenganadamente e a passar na IPO todos os anos sem o menor problema, como quando era novinho em folha.
E, tal como o seu antecessor, o C3 não é um carro vaidoso. Não tem a arrogância dos motores que se exibem, nem a soberba dos modelos que querem ser vistos. É discreto, quase tímido, mas tem aquela dignidade dos objetos que cumprem o seu papel sem falhar.
E isso, na vida de um homem, vale ouro. É um companheiro que não exige palco.
Quando o abro de manhã, não me recebe com luzes teatrais nem com sons artificiais. Recebe-me com aquilo que sempre me recebeu: a normalidade. O volante que já conhece as minhas mãos, o banco moldado ao meu corpo, o cheiro que não é de fábrica, é de vida.
O C3 não me pede nada. Só me dá: caminho, tempo, silêncio, companhia e as viagens que ele guardou.
Se falasse, contava histórias que só eu sei: a subida a Marvão com o papel do IBAN no banco do lado, missão simples que afinal desbloqueou esperança; as idas a Portalegre e onde mais for preciso para consultas e exames, sempre com aquele misto de preocupação e rotina.
Os regressos tardios depois de ajudar onde é preciso, com o corpo cansado, mas o espírito leve. O C3 viu tudo. E nunca se queixou. É um carro que me conhece.
Há uma intimidade curiosa entre um homem e o carro que conduz há anos. O C3 sabe quando estou apressado, porque sente no modo como mudo de velocidade. Sabe quando estou pensativo, pela suavidade com que desço a estrada. Sabe quando estou preocupado, porque nota o silêncio mais pesado dentro do habitáculo quando baixo ao mínimo o som do rádio.
E sabe quando estou em paz, quando a viagem se torna música.
Mas eu também o conheço: o som do motor quando está feliz, o toque do pedal quando pede descanso, o modo como enfrenta a serra como quem sobe uma montanha pela décima vez mas sem perder respeito. E tem a humildade de um companheiro verdadeiro.
O Citroën C3 não é um carro para impressionar. É um carro para acompanhar. E essa é a diferença entre o que se compra e o que se vive. Ele leva-me onde preciso, mas leva-me também onde penso. É veículo e é abrigo. É transporte e é pausa. É máquina e é memória.
No fundo, é como eu: não faz alarde, não pede atenção, não exige reconhecimento. Serve. Cumpre. Acompanha.
E talvez seja por isso que, quando fecho a porta ao chegar a casa, há sempre um instante breve, quase imperceptível em que lhe agradeço sem palavras.
Texto e foto

A raia Marvaneja

Encontro-me com a “minha” raia Marvaneja todos os dias, como quem se reencontra com um antepassado. Esta terra não é apenas o lugar onde vivo, é também o lugar que me vive. Quando a cada manhã abro a porta do quintal e deixo que o horizonte me toque, sinto que estou a entrar numa história que começou muito antes de mim, muito antes de todos nós.
Aqui, onde o céu se derrama sobre ciclópicos canchais e denso montado, caminho sobre seis milénios de existência. Seis milénios de passos, de rituais, de mãos que ergueram antas e menires como quem escreve no granito a vontade de permanecer. E eu, que cheguei tarde a esta eternidade, aprendi a escutar o que a pedra ainda diz.
Vejo o reino de Castela lá ao longe a recortar o azul como uma sentinela antiga. E penso sempre que aquele recorte é mais do que paisagem, é memória. É o eco dos povoados alto medievais, das villas romanas onde o pão era cozido com o mesmo sol que hoje me aquece o rosto. É o rumor das fronteiras que já foram linhas de guerra e hoje são apenas linhas de vento.
Quando respiro este ar puro, sinto que ele vem de longe. Vem das raízes das azinheiras, vem das sombras dos sobreiros, vem das asas das aves que atravessam o céu como flechas de luz. Aqui, a vida selvagem não é espetáculo, é vizinhança. E eu, que sou apenas mais um habitante deste mundo antigo, aprendi a caminhar devagar para não perturbar o que me antecede.
A raia Marvaneja é o meu chão e o meu destino. É o lugar onde o tempo se dobra, onde o silêncio tem densidade, onde cada pedra sabe mais do que eu. E quando olho esta paisagem – esta que vejo do meu quintal e me acolhe – sinto que pertenço a algo maior do que a minha própria vida.
Porque aqui, nesta terra de seis milénios, eu não sou apenas quem sou. Sou também quem veio antes. Sou também quem virá depois. Sou parte dela e ela é parte de mim.
Tenham um excelente Domingo...

sábado, 5 de setembro de 2026

A arte de guardar silêncio

Há frases que não chegam como quem bate à porta. Chegam como quem passa na rua e deixa um perfume leve no ar. Não se impõem, não exigem resposta imediata, não pedem que as entendamos logo. Limitam-se a existir e a esperar que a vida nos dê tempo para as ouvir.
A que me encontrou hoje, dizia assim: “O dia em que perceberem que, quanto menos pessoas, menos problemas, vão deixar essa mania de querer ser amigos de toda a gente.”
Fiquei a olhar para ela como quem olha para uma pedra apanhada no campo: pequena, discreta, mas com qualquer coisa de antigo. À primeira vista, parece uma frase de quem desistiu do mundo. De quem fechou janelas, trancou portas e decidiu que a paz mora na solidão. Mas eu conheço bem o peso das frases que parecem duras, porque muitas vezes são apenas sinceras.
E quanto mais a deixei repousar dentro de mim, mais percebi que ela não fala de afastamento. Fala de alívio. Fala de descompressão. Fala de deixar de carregar o mundo inteiro às costas só porque, durante anos, confundi presença com importância, e quantidade com valor.
A verdade é que cresci – como tantos – a acreditar que a vida se mede pelo número de pessoas que nos rodeiam. Que ser querido é ser procurado. Que ser bom é estar sempre disponível. Que a nossa generosidade se prova pela capacidade de nunca dizer “não”.
E assim fui enchendo a agenda, a casa, o coração. Fui respondendo a mensagens que não me diziam nada, aceitando convites que não me apeteciam, mantendo relações que já não tinham pulsação. Fui guardando lugares para pessoas que, se eu fosse honesto comigo, já não faziam parte da minha paisagem interior.
Até que um dia percebi que estava cansado. Não da vida, mas da manutenção da vida. Cansado de ser porto seguro para quem nunca se perguntou se eu também precisava de abrigo. Cansado de ser presença para quem nunca reparou na minha ausência. Cansado de ser disponível para quem nunca se perguntou se eu tinha tempo.
Porque cada pessoa que deixamos entrar traz consigo uma mala cheia: opiniões, expectativas, comparações, pequenas exigências, pequenas feridas, pequenas distrações. E eu, que tantas vezes quis ser o ombro de toda a gente, esqueci que também preciso de um lugar onde pousar o meu próprio cansaço.
Há uma altura que chega sempre quando já temos algumas rugas de serenidade, em que percebemos que não é possível agradar a todos. E mais: que não é necessário. Que não é saudável. Que não é justo conosco.
Crescer, para mim, tem sido isso: aprender a escolher sem culpa. Perceber que posso ser cordial com muitos, próximo de alguns, e íntimo de muito poucos. Aceitar que a minha alma não é praça pública. Reconhecer que a intimidade é um território sagrado, onde só entra quem sabe caminhar devagar, quem não faz barulho, quem não exige explicações para o meu silêncio.
E há uma beleza enorme nesta descoberta: não preciso de cortar relações, nem de virar costas, nem de dramatizar ausências. Posso continuar a cumprimentar, a conversar, a gostar genuinamente de muita gente. Mas sem entregar a chave da minha casa interior a quem não sabe entrar com cuidado.
A vida, afinal, é como um jardim. Posso ter muitas flores, muitos canteiros, muitas árvores. Mas só algumas recebem a água mais fresca, o sol mais direto, o cuidado mais atento. Não porque as outras não importem, mas porque não podem todas ocupar o mesmo lugar.
E talvez seja isto que a frase queria dizer: não que tenhamos menos pessoas, mas que tenhamos menos ruído. Menos pressa. Menos obrigação. Menos medo de desagradar. Menos necessidade de provar que somos bons.
E, sobretudo, que tenhamos mais verdade. A verdade de escolher quem fica. A verdade de deixar ir quem já não está. A verdade de guardar o silêncio para quem sabe escutá-lo.
A paz que procuro como quem procura água num verão quente, não se encontra na quantidade. Encontra-se na qualidade. Encontra-se na delicadeza de ser eu, sem filtros, sem máscaras, sem esforço. Encontra-se na coragem de não ser tudo para todos. Encontra-se no gesto simples de fechar algumas portas para que outras possam abrir-se com mais luz.
Encontra-se, finalmente, no lugar onde nem toda a gente precisa de ter acesso a mim, e onde eu decido, com serenidade, quem merece ficar.

Ida a Marvão – a estrada como pensamento

Há passeios que não se fazem para chegar a algum lado. Fazem-se para que o corpo se lembre que existe, para que a cabeça se arrume, para que o coração encontre o seu compasso. As minhas idas a Marvão são dessas.
Não importa se é terça ou sábado, se o Citroën C3 vai limpo ou com pó do caminho. Importa a estrada, essa fita de alcatrão que sobe devagar, como quem respeita a montanha.
Saio da Beirã sempre com a mesma sensação: a de que estou a deixar um lugar que me conhece demasiado bem. A aldeia fica para trás, pequena, silenciosa, com as casas brancas a piscarem como quem diz “vai, mas volta”. E eu vou. A estrada começa a desenhar curvas largas, e cada curva é uma ideia que se abre.
Há um momento, sempre o mesmo, em que Marvão aparece ao longe, uma mancha de pedra pousada no alto rochedo, como se tivesse sido ali colocada por mãos antigas. É impossível não pensar na fragilidade humana quando se olha para aquela fortaleza.
Séculos de história, batalhas, vigias, tempestades… e ali está ela, firme, enquanto nós passamos, passageiros de um tempo que não dura.
A subida obriga o carro a trabalhar. O motor muda de tom, como quem respira mais fundo. E eu também. A estrada inclina, as árvores aproximam-se e o pensamento ganha densidade. É nestes minutos que muitas decisões se fazem: o que dizer, o que calar, o que aceitar, o que deixar ir.
A estrada para Marvão é uma espécie de conselho silencioso que não responde, mas escuta.
Chegar ao alto é sempre para mim uma revelação. O mundo abre-se. A lonjura estende-se como um lençol antigo, cheio de dobras e histórias. A vista não é só vista: é memória. Ali, naquele miradouro natural, o tempo abranda. O vento traz recados da serra. E eu fico, por instantes, a pensar que talvez a vida fosse mais simples se todos os dias incluíssem uma ida a Marvão.
Posso ir lá três vezes no mesmo dia, catorze vezes numa semana. O encantamento é sempre igual ao da primeira vez. Devia até – em meu modesto juízo – ser proibido o trânsito automóvel dentro da Vila, exceto, claro, aos veículos de ajuda e socorro ou transporte de idosos e doentes.
Perturbar aquele impressionante silêncio com o ronco dos motores, agredir a pureza daquelas ruas antigas e imaculadas paredes com o barulhento vaivém de viaturas de todas as cilindragens, é quase um sacrilégio. Mas manda quem pode, obedece quem é disciplinado.
Depois, claro, há o regresso. A descida é outra coisa: é o pensamento que se organiza, que se torna claro, que encontra lugar. Se a subida é pergunta, a descida é resposta. E quando volto à Beirã, já não sou exatamente o mesmo que saiu. A estrada fez o seu trabalho.
Há viagens que são apenas deslocações. E há viagens que são uma forma de pensar. A de ir a Marvão, é das segundas.
Foto Pedro Coelho.