Meu vicio da escrita...
Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
sexta-feira, 29 de maio de 2026
Bom fim de semana
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Amigos que conheço como se fôssemos irmãos
Três
amigos caminham lado a lado pelas terras da Beirã, como se o destino os tivesse
alinhado desde sempre, embora só aqui, neste estreito vale, se tenham
finalmente encontrado. Cada um nasceu do mundo à sua maneira, em tempos
diferentes, mas todos aprenderam a reconhecer-se pelo simples acto de seguir
adiante.
O
mais novo deles, leve e curioso, é o Ramal de Cáceres, nascido em 1878. Vê‑lo
ali, a passar sobre o muro do lado direito, como um rapaz que ainda não perdeu
o gosto de explorar cada curva do caminho. Traz no passo a pressa dos que sabem
que o mundo é grande e que Espanha começa logo ali adiante.
O
segundo, mais maduro, é o Caminho da Retorta. Já era homem feito quando o Ramal
veio ao mundo. Desce entre o choupo seco e o lado esquerdo da paisagem, com a
serenidade de quem conhece cada sombra, cada pedra, cada dobra do terreno. É um
caminho que não se apressa: observa, escuta, recorda.
E
ao centro, correndo desde tempos que ninguém sabe contar, segue o mais velho
dos três, o Ribeiro da Cavalinha. Não tem idade que se escreva em papel. Terá
milhares de anos, talvez tantos quantos tem o próprio mundo. É o ancião que
murmura histórias antigas, que leva no seu curso a memória de tudo o que já
passou por estas margens.
Durante
longos troços, caminham apenas à vista uns dos outros, cada qual no seu leito,
no seu ritmo, no seu destino. Mas é aqui, nesta garganta estreita moldada pelo
capricho do terreno, que finalmente se tocam. Encostam-se, apertam-se, cedem
espaço uns aos outros para caberem os três – como velhos companheiros que,
depois de anos de distância, se reencontram num abraço inevitável.
Passado
o aperto, seguem juntos até ao Muro. Ali, o Caminho da Retorta e o Ribeiro da
Cavalinha continuam lado a lado até à Várzea da Retorta, onde ambos encontram o
seu fim. O Ramal de Cáceres, esse, segue em frente: atravessa o Matinho,
inclina à direita para as várzeas da Herdade dos Pombais e das Amendoeiras, e
entra em Espanha pela Ponte do Rio Sever, rumo a Valência de Alcântara, Cáceres
e Madrid. É o mais novo, mas é o que vai mais longe.
Conheço os três como quem conhece irmãos. Sei-lhes os passos, os segredos,
as manhas. Cresci com eles, fiz-me homem ao lado deles, e com eles estou a
envelhecer. Enquanto viver, serei parte destas paisagens – parte dos seus
silêncios, das suas histórias, daquilo que só quem aqui nasceu consegue
verdadeiramente entender.
José
Coelho
Texto e foto
Na calma dos meus dias
Esta
é, seguramente, a fase mais tranquila da minha vida, onde tudo é feito sem
pressa, mas sempre com a mesma benévola intenção.
Cada
escolha, cada palavra e cada silêncio, são guiados pela vontade de desfrutar os
meus dias de forma autêntica e consciente.
Viver
com serenidade é ter sabedoria para apreciar o que temos, sem ansiedade pelo
futuro, ou apego ao passado.
É
saber que o tempo é precioso e que tudo o que é verdadeiro permanece, mesmo que
demore a florescer.
E é nesta calma dos meus dias simples que a felicidade se faz presente, e a vida se revela em toda a sua plenitude.
José Coelho com Maria Coelho
Texto e foto
Saudade não é doença – é colo
Muito
se diz sobre o peso das saudades – se curam, se ferem, se prendem quem não quer
largar o passado. Eu, porém, gosto delas. De todas. Do que tive, do que perdi,
do que ficou a meio caminho entre a infância e o tempo que me fez homem. Não é
tristeza, nem sombra, nem doença. É apenas isto: saudades.
E
sei que não caminho sozinho. Há muitos que, como eu, guardam no peito o eco dos
dias antigos: o riso dos pais, o colo dos avós, o cheiro da casa, o lume aceso,
o dia em que casámos, o instante em que os filhos chegaram ao mundo como luz
que se acende sem pedir licença.
Que
mal pode haver em fechar os olhos e deixar que a memória – essa guardiã
paciente – nos devolva intactos os instantes que nos moldaram?
Recuso-me
a acreditar que recordar os meus pais me faça mal. Recuso-me a aceitar que
revisitar os lugares onde fui feliz seja ferida ou fraqueza. Ainda hoje passo
pela Tapada da Lagem Alta, onde um escorpião me marcou o dedo gordo do pé e a
minha mãe sachava milho, de lenço na cabeça, como quem semeia também o futuro
dos filhos. Vejo a pedra onde eu saltava, ouço a voz da Mãe Florinda: – Não
andes a pular das pedras que há p’raí alacraus… E basta-me cerrar os olhos para
que tudo volte: a minha mãe no meio do milho, a tia Maria José Meia, a tia Ana
Galinhas, e o mundo inteiro ainda por acontecer.
A
saudade não é doença. É um colo. Um regresso breve ao lugar onde fomos
inteiros.
Ontem,
na caminhada, passei pelas terras onde os meus pais lançavam feijão-frade à
terra. Doía ver o telhado caído, como se a casa também tivesse saudades de quem
a habitou. Do outro lado, a Casa da Meirinha inclina-se devagar para o chão,
como quem se despede. Mais dois invernos e o tempo cumpre o seu ofício.
Ali
viveram famílias que quase ninguém recorda. Mas eu lembro-me. Lembro-me
sobretudo dos pais do meu grande amigo de infância, aquele que partiu aos vinte
anos, enquanto eu estava na guerra em Angola. Nunca imaginei, naquele março de
1972, que o nosso adeus seria o último.
Que
mal me faz ter saudades dele, cinquenta anos depois? Chorei como se chora um
irmão, no silêncio quente do Maiombe, quando o aerograma da minha mãe me trouxe
a notícia. Éramos irmãos, não de sangue, mas de vida. E isso basta para doer
para sempre.
Acredito
que só sente saudades quem foi feliz. E ser feliz nunca foi ter muito. Eu, como
tantos filhos de camponeses, tive pouco, mas nunca me faltou o suficiente.
Hoje
há dificuldades, como sempre houve. Mas antes trabalhava-se “de sol a sol”,
ganhava-se pouco, descansava-se ao domingo, e começava-se cedo, aos dez anos,
porque a infância era curta e o trabalho longo. Os rapazes guardavam ovelhas,
as raparigas iam servir. As virtudes maiores eram simples: ser honesto, ser
trabalhador.
Agora
a roda do tempo virou. Há mais subsídios do que empregos, mais espera do que
obra feita. Mas a vida é roda e as rodas, ao girar, encontram sempre o ponto de
partida.
Por
isso acredito que tudo o que damos, o bem e o mal, um dia regressa a nós.
E
penso muitas vezes: se eu tenho a bênção de guardar tantas memórias doces, que
os meus filhos e as minhas netas possam um dia guardar as suas. Que também eles
e elas, na sua velhice, sintam vontade de regressar, de vez em quando, ao lugar
onde foram felizes.
José Coelho
A longa sombra dos dias
Beirã: A aldeia onde a história respira devagar
quarta-feira, 27 de maio de 2026
Manifesto íntimo
Não sou
homem de depressões. A minha expressão até pode às vezes sugerir sombras, mas
não carrego no coração nenhuma escuridão que me derrube. Carrego melancolia,
essa forma silenciosa de lucidez que observa o mundo sem filtros e não a
escondo, não a nego, não a temo. Ela é a minha forma de sentir fundo sem me
perder.
A minha
vida nunca foi simples. Nada me chegou por facilidade, nada me foi dado sem
esforço. Vivi cada conquista como quem atravessa terreno irregular: atento,
resistente, consciente de que cada passo tem peso. Os últimos anos foram os
mais duros, mas passaram. Não preciso de os enumerar para lhes reconhecer o
impacto. O que importa é que não me quebraram.
Continuar
é o meu modo de existir. Não por heroísmo, mas por coerência. Continuar não é
esquecer, nem fingir, nem anestesiar. Continuar é aceitar que a dor existe, que
a vida fere, que o tempo não apaga tudo, mas suaviza o suficiente para que o
próximo passo seja possível. E isso basta.
O silêncio
é o meu território de cura. Preciso de recolhimento, de introspeção, de estar
comigo. Não para me lamentar, mas para me reorganizar. Os nós que a vida aperta
não se desfazem em voz alta. Desatam-se na solidão, onde o pensamento respira e
a alma se recompõe.
Caminho
sozinho porque assim tem de ser. Não por orgulho, mas por verdade. Há dores que
não se explicam, há quedas que não se partilham, há feridas que não se exibem.
Entre tombos houve momentos felizes, sim, mas não suficientes para apagar o que
ficou gravado. A cura – se vier – será com o tempo. Até lá, avanço devagar, sem
pressa, sem ilusões, mas com firmeza.
Não me
alimento de frases feitas. “Uma pessoa morre quando deixa de sonhar.” Talvez.
Mas quem já foi esmagado pela vida sabe que há momentos em que sonhar é luxo,
acreditar é esforço e lutar é sobrevivência. E mesmo assim continuamos. Não por
glória, mas por necessidade.
Já estive
sem chão. Já me perguntei: “porquê eu”, “que sentido tem isto”, “o que fiz para
merecer”. Não encontrei respostas. E aprendi que a vida não responde a quem
pergunta de joelhos. A vida responde a quem se levanta, mesmo sem entender.
Não mexo
nas feridas. Não por medo, mas por sabedoria. O passado não precisa de ser
reaberto para ser reconhecido. Basta-me saber que existiu, que doeu, que marcou,
mas que não me parou.
Sou
melancólico, sim. Mas não sou derrotado. Sou alguém que continua. Alguém que
resiste. Alguém que se recusa a desaparecer dentro da própria dor.
Este é o
meu manifesto: Não dramatizo o que vivi. Não nego o que senti. Não fujo do que
sou. Caminho. Mesmo quando dói. Mesmo quando cansa. Mesmo quando não sei para
onde. Caminho porque viver é isso: avançar com as cicatrizes à mostra, a
melancolia ao lado e a dignidade inteira.
José Coelho






