Os amanheceres na Beirã parecem feitos de algodão. A luz não chega de repente, vai espreitando como quem pede licença. Primeiro, uma claridade tímida que mal se nota. Depois, o contorno das casas, como se alguém estivesse a desenhá-las com lápis muito fino. Por fim, o mundo inteiro a ganhar forma, como se Deus estivesse a pintar tudo outra vez.
Eu gosto de estar acordado nessa hora. A aldeia ainda não fala, mas pensa. Pensa nos dias antigos, nos passos que já não se ouvem, nas vozes que ficaram gravadas nas paredes das velhas casas. E eu, que a conheço desde menino, sinto que ela me conta segredos que só revela a quem acorda cedo.
O cheiro da terra é mais verdadeiro de manhã. Cheira a promessa. Cheira a trabalho. Cheira a vida que insiste, mesmo quando o tempo parece querer levar tudo.
As ruas vazias não me dão solidão, dão-me história. Cada pedra tem memória. Cada porta tem uma família por trás. Cada sombra tem um nome que a aldeia não esquece.
Vejo o fumo a subir das primeiras lareiras acesas. Ouço o arrastar de uma cadeira na cozinha de alguém. Sinto o murmúrio das galinhas a acordarem. E percebo que a aldeia desperta devagar, como quem sabe que a pressa nunca fez bem a ninguém.
Há um instante – sempre o mesmo – em que tudo fica suspenso. É o momento em que o sol decide finalmente levantar-se. A Beirã respira fundo antes de começar o dia. E nesse respirar, eu encontro o meu próprio ritmo.
Percebo que não sou apenas alguém que vive aqui, sou também parte desta terra. Sou parte desta luz. Sou parte deste silêncio que fala mais do que muitas palavras.
E enquanto o dia cresce, sinto que a aldeia me devolve sempre ao melhor de mim: ao menino que corria descalço, ao homem que aprendeu a amar os seus, ao avô que sabe que a vida é feita de instantes que não se repetem.
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