Há momentos na vida em que o coração acredita que a comunidade é uma só voz, uma só vontade, uma só memória. Eu acreditei nisso quando decidi avançar com o projeto de candidatura à Junta de Freguesia da Beirã.
Não por ambição, não por vaidade, não por qualquer promessa de poder.
Acreditei, porque trazia comigo um sonho antigo, partilhado – pensava eu – por todos: o Ramal de Cáceres, a Estação, a vida que dali brotava para tantas famílias da nossa terra.
Acreditei com demasiada inocência que todos aqueles que tinham visto a sua vida mudar com o encerramento do ramal, reconheceriam naquele projeto uma espécie de reparação moral.
Uma forma de devolver a dignidade ao que nos foi tirado sem aviso, sem cuidado, sem respeito pela história da nossa aldeia e região. Mas a verdade chegou dura, como chegam sempre as verdades que não queremos ouvir.
Fiquei praticamente sozinho. Não porque o projeto fosse fraco. Não porque faltasse visão. Não porque faltasse trabalho. Fiquei sozinho porque não era do partido da malta quase toda.
E isso, na política pequena das terras pequenas, pesa mais do que a memória, mais do que a justiça, mais do que a verdade.
Preferiram apoiar a candidatura do partido político que decretou a desativação do Ramal de Cáceres. E eu que já por três vezes havia recusado convites do mesmo partido que dessa vez aceitei, vi-me sem apelo nem agravo a pagar o preço dessa minha inocência.
E doeu sobretudo porque algumas dessas pessoas eram amizades de toda a vida.
Realizámos um Fórum na antiga alfândega. Preparámos tudo com cuidado, com respeito, com esperança. Vieram autoridades dos governos de Espanha e de Portugal.
A sala de pequena dimensão encheu sim, mas sobretudo de malta da amiga, daqueles poucos que estavam do meu lado mesmo quando não era fácil estar, mas também alguns curiosos daqueles do “deixa lá ir ver o que os gajos vão dizer”.
Enquanto isso alguns e algumas que tinham perdido o trabalho com o encerramento das fronteiras pela adesão de Portugal ao Mercado Único Europeu e posteriormente pela desativação do Ramal de Cáceres, ficaram à espreita, a contarem por detrás da cortina um por um, quem para lá ia, ou entrava.
E disseram barbaridades sem nexo, falsidades, coisas que nunca foram faladas nem prometidas apenas para descredibilizarem o nosso projeto, para o ferirem e diminuírem.
Jogo sujo sem o mais leve resquício de honestidade. Não, mesmo na política, não vale, não pode valer tudo.
Nunca o nosso projeto falou em restaurar as ligações diárias da Beirã a Lisboa por comboio. O nosso projeto visava apenas fins turísticos – idênticos ao do Douro – visava só reativar, aos fins de semana, o Ramal de Cáceres desde Valência de Alcântara até Marvão-Beirã e Torre das Vargens, para ligação à Linha do Leste num circuito ferroviário que incluiria Portalegre, Elvas, Badajoz, Mérida e Cáceres.
Estava já garantido o comboio turístico para esse fim, cedido por Espanha.
Obviamente, os municípios de Marvão, Castelo de Vide, Nisa, Crato, Ponte de Sor, Portalegre e Elvas poderiam ser beneficiados com o afluxo de turistas, bastando para tal serem criadas infraestruturas rodoviárias e condições de transporte dos mesmos, das estações ferroviárias para os centros urbanos.
Tão duro que ainda hoje, quando penso nisso, sinto o peso daquele silêncio que se instala quando percebemos que a lealdade e a amizade não são tão lineares como pensávamos.
Não ganhei a junta mas ganhei outra coisa: a dignidade de liderar a oposição até ao último dia de mandato. E nunca baixei a cabeça, perdi o respeito por quem ganhou ou ofendi fosse quem fosse.
Mas, sobretudo, fui leal à minha aldeia pela qual nunca deixei de lutar, até quando ela não me foi leal a mim.
José Coelho