sexta-feira, 29 de maio de 2026

Bom fim de semana

Sermos a nossa melhor companhia é um caminho silencioso, mas profundamente transformador. Não nasce de um dia bom, nem de uma fase leve.
Nasce, quase sempre, da ausência: da mão que não veio, do abraço que faltou, da palavra que não chegou a tempo.
É nesses intervalos – entre o que esperávamos e o que realmente aconteceu – que descobrimos a força que sempre esteve em nós, discreta, à espera de ser chamada.
Há momentos em que ninguém nos vê cair. E, por mais duro que seja, é nesses momentos que aprendemos a levantar-nos com uma dignidade que só quem já se ergueu sozinho conhece.
Não porque queremos ser fortes o tempo todo, mas porque a vida, às vezes, pede que sejamos também o nosso próprio chão.
Cuidarmos de nós não é egoísmo.
É responsabilidade emocional.
É reconhecer que, antes de sermos bons para os outros, precisamos de o ser primeiro para nós.
Quando nos damos colo, quando nos escutamos sem julgamento, quando nos oferecemos algum descanso, compreensão e paciência, estamos a reconstruir a relação mais importante da nossa vida: a relação conosco mesmos.
E algo profundo acontece quando nos priorizamos: O mundo deixa de ser um lugar onde procuramos validação e passa a ser um espaço onde escolhemos o que nos faz bem.
As relações tornam-se mais leves porque já não pedimos aos outros aquilo que aprendemos a dar a nós mesmos. A vida ganha outra textura, mais consciente, mais serena, mais verdadeira.
Ser a nossa melhor companhia não significa caminhar sozinho. Significa caminhar acompanhado de alguém que não nos abandona: nós.
E quando essa presença interna se fortalece, tudo o que vem de fora deixa de ser necessidade e passa a ser escolha.
Texto e foto

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Amigos que conheço como se fôssemos irmãos

Três amigos caminham lado a lado pelas terras da Beirã, como se o destino os tivesse alinhado desde sempre, embora só aqui, neste estreito vale, se tenham finalmente encontrado. Cada um nasceu do mundo à sua maneira, em tempos diferentes, mas todos aprenderam a reconhecer-se pelo simples acto de seguir adiante.

O mais novo deles, leve e curioso, é o Ramal de Cáceres, nascido em 1878. Vê‑lo ali, a passar sobre o muro do lado direito, como um rapaz que ainda não perdeu o gosto de explorar cada curva do caminho. Traz no passo a pressa dos que sabem que o mundo é grande e que Espanha começa logo ali adiante.

O segundo, mais maduro, é o Caminho da Retorta. Já era homem feito quando o Ramal veio ao mundo. Desce entre o choupo seco e o lado esquerdo da paisagem, com a serenidade de quem conhece cada sombra, cada pedra, cada dobra do terreno. É um caminho que não se apressa: observa, escuta, recorda.

E ao centro, correndo desde tempos que ninguém sabe contar, segue o mais velho dos três, o Ribeiro da Cavalinha. Não tem idade que se escreva em papel. Terá milhares de anos, talvez tantos quantos tem o próprio mundo. É o ancião que murmura histórias antigas, que leva no seu curso a memória de tudo o que já passou por estas margens.

Durante longos troços, caminham apenas à vista uns dos outros, cada qual no seu leito, no seu ritmo, no seu destino. Mas é aqui, nesta garganta estreita moldada pelo capricho do terreno, que finalmente se tocam. Encostam-se, apertam-se, cedem espaço uns aos outros para caberem os três – como velhos companheiros que, depois de anos de distância, se reencontram num abraço inevitável.

Passado o aperto, seguem juntos até ao Muro. Ali, o Caminho da Retorta e o Ribeiro da Cavalinha continuam lado a lado até à Várzea da Retorta, onde ambos encontram o seu fim. O Ramal de Cáceres, esse, segue em frente: atravessa o Matinho, inclina à direita para as várzeas da Herdade dos Pombais e das Amendoeiras, e entra em Espanha pela Ponte do Rio Sever, rumo a Valência de Alcântara, Cáceres e Madrid. É o mais novo, mas é o que vai mais longe.

Conheço os três como quem conhece irmãos. Sei-lhes os passos, os segredos, as manhas. Cresci com eles, fiz-me homem ao lado deles, e com eles estou a envelhecer. Enquanto viver, serei parte destas paisagens – parte dos seus silêncios, das suas histórias, daquilo que só quem aqui nasceu consegue verdadeiramente entender.

José Coelho

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Na calma dos meus dias

Esta é, seguramente, a fase mais tranquila da minha vida, onde tudo é feito sem pressa, mas sempre com a mesma benévola intenção.

Cada escolha, cada palavra e cada silêncio, são guiados pela vontade de desfrutar os meus dias de forma autêntica e consciente.

Viver com serenidade é ter sabedoria para apreciar o que temos, sem ansiedade pelo futuro, ou apego ao passado.

É saber que o tempo é precioso e que tudo o que é verdadeiro permanece, mesmo que demore a florescer.

E é nesta calma dos meus dias simples que a felicidade se faz presente, e a vida se revela em toda a sua plenitude.

José Coelho com Maria Coelho

Texto e foto

Saudade não é doença – é colo

Casa da Meirinha - Foto minha

Muito se diz sobre o peso das saudades – se curam, se ferem, se prendem quem não quer largar o passado. Eu, porém, gosto delas. De todas. Do que tive, do que perdi, do que ficou a meio caminho entre a infância e o tempo que me fez homem. Não é tristeza, nem sombra, nem doença. É apenas isto: saudades.

E sei que não caminho sozinho. Há muitos que, como eu, guardam no peito o eco dos dias antigos: o riso dos pais, o colo dos avós, o cheiro da casa, o lume aceso, o dia em que casámos, o instante em que os filhos chegaram ao mundo como luz que se acende sem pedir licença.

Que mal pode haver em fechar os olhos e deixar que a memória – essa guardiã paciente – nos devolva intactos os instantes que nos moldaram?

Recuso-me a acreditar que recordar os meus pais me faça mal. Recuso-me a aceitar que revisitar os lugares onde fui feliz seja ferida ou fraqueza. Ainda hoje passo pela Tapada da Lagem Alta, onde um escorpião me marcou o dedo gordo do pé e a minha mãe sachava milho, de lenço na cabeça, como quem semeia também o futuro dos filhos. Vejo a pedra onde eu saltava, ouço a voz da Mãe Florinda: – Não andes a pular das pedras que há p’raí alacraus… E basta-me cerrar os olhos para que tudo volte: a minha mãe no meio do milho, a tia Maria José Meia, a tia Ana Galinhas, e o mundo inteiro ainda por acontecer.

A saudade não é doença. É um colo. Um regresso breve ao lugar onde fomos inteiros.

Ontem, na caminhada, passei pelas terras onde os meus pais lançavam feijão-frade à terra. Doía ver o telhado caído, como se a casa também tivesse saudades de quem a habitou. Do outro lado, a Casa da Meirinha inclina-se devagar para o chão, como quem se despede. Mais dois invernos e o tempo cumpre o seu ofício.

Ali viveram famílias que quase ninguém recorda. Mas eu lembro-me. Lembro-me sobretudo dos pais do meu grande amigo de infância, aquele que partiu aos vinte anos, enquanto eu estava na guerra em Angola. Nunca imaginei, naquele março de 1972, que o nosso adeus seria o último.

Que mal me faz ter saudades dele, cinquenta anos depois? Chorei como se chora um irmão, no silêncio quente do Maiombe, quando o aerograma da minha mãe me trouxe a notícia. Éramos irmãos, não de sangue, mas de vida. E isso basta para doer para sempre.

Acredito que só sente saudades quem foi feliz. E ser feliz nunca foi ter muito. Eu, como tantos filhos de camponeses, tive pouco, mas nunca me faltou o suficiente.

Hoje há dificuldades, como sempre houve. Mas antes trabalhava-se “de sol a sol”, ganhava-se pouco, descansava-se ao domingo, e começava-se cedo, aos dez anos, porque a infância era curta e o trabalho longo. Os rapazes guardavam ovelhas, as raparigas iam servir. As virtudes maiores eram simples: ser honesto, ser trabalhador.

Agora a roda do tempo virou. Há mais subsídios do que empregos, mais espera do que obra feita. Mas a vida é roda e as rodas, ao girar, encontram sempre o ponto de partida.

Por isso acredito que tudo o que damos, o bem e o mal, um dia regressa a nós.

E penso muitas vezes: se eu tenho a bênção de guardar tantas memórias doces, que os meus filhos e as minhas netas possam um dia guardar as suas. Que também eles e elas, na sua velhice, sintam vontade de regressar, de vez em quando, ao lugar onde foram felizes.

José Coelho

A longa sombra dos dias

Na quietude da reforma, quando o relógio deixa de mandar e os dias se estendem como sombras longas ao fim da tarde, descobrimos que o descanso tão sonhado não é um porto, mas um espelho. Entre memórias de trabalho duro, lutas silenciosas e pequenas vitórias, confrontamo-nos com o vazio inesperado da liberdade total. As ruas já não ecoam risos, os comboios já não gritam nos carris, e o mundo parece ter mudado de lugar.
Esta narrativa é uma reflexão íntima sobre o tempo, a solidão, a persistência da vida e a estranha nostalgia de tudo o que já fomos.

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Quantas vezes pensámos nela como um oásis prometido depois de tantas estradas? Não por desejo de envelhecer, mas pela esperança de um lugar onde o corpo descansa e a alma, finalmente, se senta à sombra.
Imaginamos mil gestos livres, mil manhãs sem dono, mil tardes sem pressa. Mas o tempo – esse velho artesão – sorri do alto da sua sabedoria e deixa-nos acreditar no que quisermos, até ao dia em que nos mostra a verdade.
Quando crianças, corremos atrás do futuro. Quando adultos, perseguimos o topo. E quando o topo chega, descobrimos que o coração quer apenas voltar ao princípio, onde tudo era simples e o mundo cabia num bolso.
Foi assim comigo.
Trabalhei desde os onze anos, com a inocência nas mãos e a coragem nos pés. Atravessei dias duros, gente dura, silêncios duros. Nunca respondi com violência, preferi erguer a minha vida como resposta. Não é vaidade; é o orgulho tranquilo de quem construiu o seu próprio destino como quem levanta uma casa, pedra a pedra.
E então, um dia, a reforma chegou. A tão sonhada. A tão merecida. E, como um fruto demasiado maduro, depressa se desfez.
Os primeiros meses foram um bálsamo: noites sem hora, manhãs sem despertador, o relógio finalmente manso. Tomava o pequeno-almoço e ia para o quintal como quem vigia um reino secreto. Nenhuma erva ousava nascer sem que eu a arrancasse. Quase precisava de uma lupa para vigiar a vida que insistia em brotar.
Até que percebi: – não se pode impedir a terra de ser terra, nem o tempo de ser tempo. E os meus dias começaram a alongar-se, belos, mas vazios, como aquelas sombras que se estendem no fim da tarde.
– Rais’parta a reforma – murmurava.
Somos estranhos: ansiamos sempre pelo que não temos, como se a alma fosse feita de vento.
Agora, no entardecer da minha vida, o silêncio pesa mais do que o cansaço. Já não há risos de crianças na rua, nem mães a chamar pelos seus Zéis como a minha chamava por mim. Calaram-se também os comboios, nos carris adormecidos que se estendem da Beirã à Torre das Vargens, e mais além, até Valência de Alcântara.
E eu fico a olhar o mundo, que deu tantas voltas, tantas cambalhotas, que quase deixou de se parecer com o meu.
Texto e foto

Beirã: A aldeia onde a história respira devagar


A minha terra não nasceu comigo. Já existia muito antes – feita de pedra, de passos, de batalhas esquecidas, de contrabandistas, de ferroviários, de guardas fiscais, de gente que viveu sempre entre dois países e duas maneiras de estar no mundo.
A Beirã é uma aldeia pequena, mas com uma história larga. É um daqueles lugares onde o tempo não passa depressa: acumula-se.
Num território moldado pela fronteira, desde sempre a Beirã viveu com Espanha à distância de um sopro. A fronteira não era apenas uma linha no mapa: era uma presença diária, uma vigilância constante, uma oportunidade e um risco.
Por aqui passaram soldados, viajantes, comerciantes, fugitivos, contrabandistas, histórias que nunca chegaram ao papel.
A antiga Alfândega, imponente e silenciosa, foi durante décadas o coração administrativo da região. Ali se controlavam mercadorias, se carimbavam documentos, se decidiam destinos.
E quando Portugal entrou na União Europeia, aquele edifício, outrora tão vivo, ficou subitamente sem função. Foi o primeiro grande silêncio.
Um caminho-de-ferro que trouxe vida e depois levou-a. A chegada do Ramal de Cáceres, no século XIX, foi talvez o momento mais transformador da história da Beirã.
A estação tornou-se ponto de encontro, de trabalho, de esperança. A CP trouxe famílias inteiras, trouxe movimento, trouxe futuro.
Durante décadas, a Beirã foi terra de ferroviários, de apitos, de horários, de comboios que ligavam o interior ao mundo. E quando, em 2012, o ramal foi encerrado, não se fechou apenas uma linha: fechou-se um ciclo de vida.
Muitas famílias partiram. As casas ficaram vazias. A aldeia perdeu o seu pulso diário.
O tempo dos guardas fiscais e dos despachantes, foi um período em que a Beirã era um pequeno centro administrativo e militar.
A Guarda Fiscal mantinha aqui dezenas de homens, famílias, crianças que enchiam as ruas de movimento. Os despachantes oficiais davam trabalho a muita gente.
As lojas tinham clientes. Os cafés tinham conversa. O Largo da Fonte era um mundo.
Quando a Guarda Fiscal foi extinta, mais uma vez a aldeia perdeu gente, perdeu vida, perdeu futuro.
Mas a Beirã é também uma terra que resiste porque nunca foi apenas das instituições. Foi também e continuará a sê-lo, sobretudo, das pessoas.
Da gente que outrora lavrou a terra, e criou gado, e guardou montes, e fez pão, e rezou nas capelas, e celebrou santos populares, e acendeu fogueiras de rosmaninho, e viveu com dignidade mesmo quando o país se esquecia dela.
De gente que ficou quando tantos partiram.
E é essa resistência silenciosa que faz da Beirã um lugar único: uma aldeia que já conheceu a abundância e o abandono, mas que nunca perdeu a alma.
A sua história vive dentro de mim: Quando penso na minha terra, penso no que ela foi, no que ela é ainda e o que guardo carinhosamente da sua história.
Os ferroviários que marcaram gerações. Os guardas fiscais que vigiavam a fronteira como quem guarda um tesouro. As famílias que vieram de longe e fizeram aqui casa. Os que partiram e os que ficaram.
Penso nos montes, nos caminhos de terra batida, nos cheiros da infância, porque a Beirã é história, mas é também herança, pertença, raiz.
E é tudo isso que faz dela a minha vida inteira: não apenas o que viveu, mas o que continua a viver hoje e também o que vive ainda na minha memória.
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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Manifesto íntimo


Não sou homem de depressões. A minha expressão até pode às vezes sugerir sombras, mas não carrego no coração nenhuma escuridão que me derrube. Carrego melancolia, essa forma silenciosa de lucidez que observa o mundo sem filtros e não a escondo, não a nego, não a temo. Ela é a minha forma de sentir fundo sem me perder.

A minha vida nunca foi simples. Nada me chegou por facilidade, nada me foi dado sem esforço. Vivi cada conquista como quem atravessa terreno irregular: atento, resistente, consciente de que cada passo tem peso. Os últimos anos foram os mais duros, mas passaram. Não preciso de os enumerar para lhes reconhecer o impacto. O que importa é que não me quebraram.

Continuar é o meu modo de existir. Não por heroísmo, mas por coerência. Continuar não é esquecer, nem fingir, nem anestesiar. Continuar é aceitar que a dor existe, que a vida fere, que o tempo não apaga tudo, mas suaviza o suficiente para que o próximo passo seja possível. E isso basta.

O silêncio é o meu território de cura. Preciso de recolhimento, de introspeção, de estar comigo. Não para me lamentar, mas para me reorganizar. Os nós que a vida aperta não se desfazem em voz alta. Desatam-se na solidão, onde o pensamento respira e a alma se recompõe.

Caminho sozinho porque assim tem de ser. Não por orgulho, mas por verdade. Há dores que não se explicam, há quedas que não se partilham, há feridas que não se exibem. Entre tombos houve momentos felizes, sim, mas não suficientes para apagar o que ficou gravado. A cura – se vier – será com o tempo. Até lá, avanço devagar, sem pressa, sem ilusões, mas com firmeza.

Não me alimento de frases feitas. “Uma pessoa morre quando deixa de sonhar.” Talvez. Mas quem já foi esmagado pela vida sabe que há momentos em que sonhar é luxo, acreditar é esforço e lutar é sobrevivência. E mesmo assim continuamos. Não por glória, mas por necessidade.

Já estive sem chão. Já me perguntei: “porquê eu”, “que sentido tem isto”, “o que fiz para merecer”. Não encontrei respostas. E aprendi que a vida não responde a quem pergunta de joelhos. A vida responde a quem se levanta, mesmo sem entender.

Não mexo nas feridas. Não por medo, mas por sabedoria. O passado não precisa de ser reaberto para ser reconhecido. Basta-me saber que existiu, que doeu, que marcou, mas que não me parou.

Sou melancólico, sim. Mas não sou derrotado. Sou alguém que continua. Alguém que resiste. Alguém que se recusa a desaparecer dentro da própria dor.

Este é o meu manifesto: Não dramatizo o que vivi. Não nego o que senti. Não fujo do que sou. Caminho. Mesmo quando dói. Mesmo quando cansa. Mesmo quando não sei para onde. Caminho porque viver é isso: avançar com as cicatrizes à mostra, a melancolia ao lado e a dignidade inteira.

José Coelho