Há manhãs em que acordo antes do sol, não por obrigação, mas por um hábito antigo. A casa ainda dorme e eu caminho devagar para não perturbar esse descanso que só existe nos primeiros minutos do dia. A madeira estala como se respirasse, o relógio marca o tempo com uma paciência que já não se encontra nas pessoas e eu acendo a luz mais suave da cozinha, aquela que ilumina só o suficiente para não ferir a penumbra.
Nesse instante, chega o silêncio.
Não entra pela porta nem pela janela; instala-se. Senta-se ao meu lado como faziam os velhos amigos da Beirã quando íamos tomar café e conversar sem pressas. O silêncio tem essa delicadeza: não exige, não disputa espaço, não tenta convencer. Apenas existe, e, ao existir, permite que eu exista também.
Com o passar dos anos, percebi que o mundo foi ficando mais barulhento. As pessoas falam alto, as notícias atropelam-se, as urgências multiplicam-se. Tudo parece querer ocupar espaço, como se o ruído fosse prova de vida. Talvez por isso eu tenha começado a procurar o silêncio como quem procura abrigo.
Num mundo que tanto grita, o silêncio tornou-se o meu refúgio.
Todos os dias ao fim da tarde, saio para o quintal. A luz cai oblíqua sobre as pedras e o cheiro da terra quente mistura-se com o das folhas das figueira. Há sempre um momento em que o vento abranda e o mundo parece suspenso. Ali, o silêncio não é apenas som, é paisagem. É memória.
É aquilo que sobra quando o ruído se afasta.
E nesse espaço, começo a ouvir coisas que não escuto no tumulto: o eco das minhas próprias perguntas, a lembrança dos afetos que resistem, a voz discreta das coisas simples que sustentam a vida. O silêncio, afinal, funciona como um espelho. Mostra o que carregamos em excesso, o que já não nos serve, o que nos pesa sem necessidade.
Mostra também o que permanece: a ternura dos gestos pequenos, a fidelidade das rotinas, a luz que ainda mora nos lugares onde fomos felizes.
Recordo-me de uma tarde de outono, em que o meu pai me ensinou a ouvir o campo. “O silêncio é só a natureza a falar mais baixo”, disse-me ele, enquanto caminhávamos. Na altura não entendi. Hoje, percebo que ele me estava a ensinar a escutar aquilo que não tem som e que essa escuta é uma forma de sobrevivência.
O silêncio também me devolve a minha Manuela. Não a dos dias apressados, das tarefas, das conversas interrompidas, mas a do essencial, aquela que caminha ao meu lado há cinquenta anos. No silêncio, vejo-a como se fosse a primeira vez: o modo como pousa a mão na mesa, o jeito de ajeitar o cabelo, a serenidade com que olha o mundo.
Há amores que se revelam mais no silêncio do que na palavra.
E talvez seja por isso que, para mim, o silêncio se tornou uma forma de regresso. Não um afastamento do mundo, mas um reencontro comigo e com tudo o que me fez ser quem sou.
É ali, onde nada exige explicações, onde o tempo abranda, onde a alma respira sem vigilância, que encontro aquela verdade que o barulho tenta esconder: a de que viver é, muitas vezes, saber escutar o que não tem som.
O silêncio, afinal, é o lugar onde a vida se organiza. Onde o passado encontra o presente sem se atropelar. Onde a memória se ajeita. Onde o coração descansa. E, quando o mundo volta a gritar – porque volta sempre – é desse silêncio que tiro a força para continuar.
Tenham um excelente Domingo.






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