domingo, 6 de setembro de 2026

Um companheiro de vida

Há carros que são apenas máquinas. E há carros que, sem nunca o pedirem, se tornam testemunhas da nossa história. O meu Citroën C3 pertence à segunda espécie, a dos companheiros silenciosos, fiéis, que sabem mais de nós do que qualquer diário.
Veio substituir o não menos humilde Opel Corsa agora já velhinho, mas ainda a pegar à primeira, a bater estrada desenganadamente e a passar na IPO todos os anos sem o menor problema, como quando era novinho em folha.
E, tal como o seu antecessor, o C3 não é um carro vaidoso. Não tem a arrogância dos motores que se exibem, nem a soberba dos modelos que querem ser vistos. É discreto, quase tímido, mas tem aquela dignidade dos objetos que cumprem o seu papel sem falhar.
E isso, na vida de um homem, vale ouro. É um companheiro que não exige palco.
Quando o abro de manhã, não me recebe com luzes teatrais nem com sons artificiais. Recebe-me com aquilo que sempre me recebeu: a normalidade. O volante que já conhece as minhas mãos, o banco moldado ao meu corpo, o cheiro que não é de fábrica, é de vida.
O C3 não me pede nada. Só me dá: caminho, tempo, silêncio, companhia e as viagens que ele guardou.
Se falasse, contava histórias que só eu sei: a subida a Marvão com o papel do IBAN no banco do lado, missão simples que afinal desbloqueou esperança; as idas a Portalegre e onde mais for preciso para consultas e exames, sempre com aquele misto de preocupação e rotina.
Os regressos tardios depois de ajudar onde é preciso, com o corpo cansado, mas o espírito leve. O C3 viu tudo. E nunca se queixou. É um carro que me conhece.
Há uma intimidade curiosa entre um homem e o carro que conduz há anos. O C3 sabe quando estou apressado, porque sente no modo como mudo de velocidade. Sabe quando estou pensativo, pela suavidade com que desço a estrada. Sabe quando estou preocupado, porque nota o silêncio mais pesado dentro do habitáculo quando baixo ao mínimo o som do rádio.
E sabe quando estou em paz, quando a viagem se torna música.
Mas eu também o conheço: o som do motor quando está feliz, o toque do pedal quando pede descanso, o modo como enfrenta a serra como quem sobe uma montanha pela décima vez mas sem perder respeito. E tem a humildade de um companheiro verdadeiro.
O Citroën C3 não é um carro para impressionar. É um carro para acompanhar. E essa é a diferença entre o que se compra e o que se vive. Ele leva-me onde preciso, mas leva-me também onde penso. É veículo e é abrigo. É transporte e é pausa. É máquina e é memória.
No fundo, é como eu: não faz alarde, não pede atenção, não exige reconhecimento. Serve. Cumpre. Acompanha.
E talvez seja por isso que, quando fecho a porta ao chegar a casa, há sempre um instante breve, quase imperceptível em que lhe agradeço sem palavras.
Texto e foto

A raia Marvaneja

Encontro-me com a “minha” raia Marvaneja todos os dias, como quem se reencontra com um antepassado. Esta terra não é apenas o lugar onde vivo, é também o lugar que me vive. Quando a cada manhã abro a porta do quintal e deixo que o horizonte me toque, sinto que estou a entrar numa história que começou muito antes de mim, muito antes de todos nós.
Aqui, onde o céu se derrama sobre ciclópicos canchais e denso montado, caminho sobre seis milénios de existência. Seis milénios de passos, de rituais, de mãos que ergueram antas e menires como quem escreve no granito a vontade de permanecer. E eu, que cheguei tarde a esta eternidade, aprendi a escutar o que a pedra ainda diz.
Vejo o reino de Castela lá ao longe a recortar o azul como uma sentinela antiga. E penso sempre que aquele recorte é mais do que paisagem, é memória. É o eco dos povoados alto medievais, das villas romanas onde o pão era cozido com o mesmo sol que hoje me aquece o rosto. É o rumor das fronteiras que já foram linhas de guerra e hoje são apenas linhas de vento.
Quando respiro este ar puro, sinto que ele vem de longe. Vem das raízes das azinheiras, vem das sombras dos sobreiros, vem das asas das aves que atravessam o céu como flechas de luz. Aqui, a vida selvagem não é espetáculo, é vizinhança. E eu, que sou apenas mais um habitante deste mundo antigo, aprendi a caminhar devagar para não perturbar o que me antecede.
A raia Marvaneja é o meu chão e o meu destino. É o lugar onde o tempo se dobra, onde o silêncio tem densidade, onde cada pedra sabe mais do que eu. E quando olho esta paisagem – esta que vejo do meu quintal e me acolhe – sinto que pertenço a algo maior do que a minha própria vida.
Porque aqui, nesta terra de seis milénios, eu não sou apenas quem sou. Sou também quem veio antes. Sou também quem virá depois. Sou parte dela e ela é parte de mim.
Tenham um excelente Domingo...

sábado, 5 de setembro de 2026

A arte de guardar silêncio

Há frases que não chegam como quem bate à porta. Chegam como quem passa na rua e deixa um perfume leve no ar. Não se impõem, não exigem resposta imediata, não pedem que as entendamos logo. Limitam-se a existir e a esperar que a vida nos dê tempo para as ouvir.
A que me encontrou hoje, dizia assim: “O dia em que perceberem que, quanto menos pessoas, menos problemas, vão deixar essa mania de querer ser amigos de toda a gente.”
Fiquei a olhar para ela como quem olha para uma pedra apanhada no campo: pequena, discreta, mas com qualquer coisa de antigo. À primeira vista, parece uma frase de quem desistiu do mundo. De quem fechou janelas, trancou portas e decidiu que a paz mora na solidão. Mas eu conheço bem o peso das frases que parecem duras, porque muitas vezes são apenas sinceras.
E quanto mais a deixei repousar dentro de mim, mais percebi que ela não fala de afastamento. Fala de alívio. Fala de descompressão. Fala de deixar de carregar o mundo inteiro às costas só porque, durante anos, confundi presença com importância, e quantidade com valor.
A verdade é que cresci – como tantos – a acreditar que a vida se mede pelo número de pessoas que nos rodeiam. Que ser querido é ser procurado. Que ser bom é estar sempre disponível. Que a nossa generosidade se prova pela capacidade de nunca dizer “não”.
E assim fui enchendo a agenda, a casa, o coração. Fui respondendo a mensagens que não me diziam nada, aceitando convites que não me apeteciam, mantendo relações que já não tinham pulsação. Fui guardando lugares para pessoas que, se eu fosse honesto comigo, já não faziam parte da minha paisagem interior.
Até que um dia percebi que estava cansado. Não da vida, mas da manutenção da vida. Cansado de ser porto seguro para quem nunca se perguntou se eu também precisava de abrigo. Cansado de ser presença para quem nunca reparou na minha ausência. Cansado de ser disponível para quem nunca se perguntou se eu tinha tempo.
Porque cada pessoa que deixamos entrar traz consigo uma mala cheia: opiniões, expectativas, comparações, pequenas exigências, pequenas feridas, pequenas distrações. E eu, que tantas vezes quis ser o ombro de toda a gente, esqueci que também preciso de um lugar onde pousar o meu próprio cansaço.
Há uma altura que chega sempre quando já temos algumas rugas de serenidade, em que percebemos que não é possível agradar a todos. E mais: que não é necessário. Que não é saudável. Que não é justo conosco.
Crescer, para mim, tem sido isso: aprender a escolher sem culpa. Perceber que posso ser cordial com muitos, próximo de alguns, e íntimo de muito poucos. Aceitar que a minha alma não é praça pública. Reconhecer que a intimidade é um território sagrado, onde só entra quem sabe caminhar devagar, quem não faz barulho, quem não exige explicações para o meu silêncio.
E há uma beleza enorme nesta descoberta: não preciso de cortar relações, nem de virar costas, nem de dramatizar ausências. Posso continuar a cumprimentar, a conversar, a gostar genuinamente de muita gente. Mas sem entregar a chave da minha casa interior a quem não sabe entrar com cuidado.
A vida, afinal, é como um jardim. Posso ter muitas flores, muitos canteiros, muitas árvores. Mas só algumas recebem a água mais fresca, o sol mais direto, o cuidado mais atento. Não porque as outras não importem, mas porque não podem todas ocupar o mesmo lugar.
E talvez seja isto que a frase queria dizer: não que tenhamos menos pessoas, mas que tenhamos menos ruído. Menos pressa. Menos obrigação. Menos medo de desagradar. Menos necessidade de provar que somos bons.
E, sobretudo, que tenhamos mais verdade. A verdade de escolher quem fica. A verdade de deixar ir quem já não está. A verdade de guardar o silêncio para quem sabe escutá-lo.
A paz que procuro como quem procura água num verão quente, não se encontra na quantidade. Encontra-se na qualidade. Encontra-se na delicadeza de ser eu, sem filtros, sem máscaras, sem esforço. Encontra-se na coragem de não ser tudo para todos. Encontra-se no gesto simples de fechar algumas portas para que outras possam abrir-se com mais luz.
Encontra-se, finalmente, no lugar onde nem toda a gente precisa de ter acesso a mim, e onde eu decido, com serenidade, quem merece ficar.

Ida a Marvão – a estrada como pensamento

Há passeios que não se fazem para chegar a algum lado. Fazem-se para que o corpo se lembre que existe, para que a cabeça se arrume, para que o coração encontre o seu compasso. As minhas idas a Marvão são dessas.
Não importa se é terça ou sábado, se o Citroën C3 vai limpo ou com pó do caminho. Importa a estrada, essa fita de alcatrão que sobe devagar, como quem respeita a montanha.
Saio da Beirã sempre com a mesma sensação: a de que estou a deixar um lugar que me conhece demasiado bem. A aldeia fica para trás, pequena, silenciosa, com as casas brancas a piscarem como quem diz “vai, mas volta”. E eu vou. A estrada começa a desenhar curvas largas, e cada curva é uma ideia que se abre.
Há um momento, sempre o mesmo, em que Marvão aparece ao longe, uma mancha de pedra pousada no alto rochedo, como se tivesse sido ali colocada por mãos antigas. É impossível não pensar na fragilidade humana quando se olha para aquela fortaleza.
Séculos de história, batalhas, vigias, tempestades… e ali está ela, firme, enquanto nós passamos, passageiros de um tempo que não dura.
A subida obriga o carro a trabalhar. O motor muda de tom, como quem respira mais fundo. E eu também. A estrada inclina, as árvores aproximam-se e o pensamento ganha densidade. É nestes minutos que muitas decisões se fazem: o que dizer, o que calar, o que aceitar, o que deixar ir.
A estrada para Marvão é uma espécie de conselho silencioso que não responde, mas escuta.
Chegar ao alto é sempre para mim uma revelação. O mundo abre-se. A lonjura estende-se como um lençol antigo, cheio de dobras e histórias. A vista não é só vista: é memória. Ali, naquele miradouro natural, o tempo abranda. O vento traz recados da serra. E eu fico, por instantes, a pensar que talvez a vida fosse mais simples se todos os dias incluíssem uma ida a Marvão.
Posso ir lá três vezes no mesmo dia, catorze vezes numa semana. O encantamento é sempre igual ao da primeira vez. Devia até – em meu modesto juízo – ser proibido o trânsito automóvel dentro da Vila, exceto, claro, aos veículos de ajuda e socorro ou transporte de idosos e doentes.
Perturbar aquele impressionante silêncio com o ronco dos motores, agredir a pureza daquelas ruas antigas e imaculadas paredes com o barulhento vaivém de viaturas de todas as cilindragens, é quase um sacrilégio. Mas manda quem pode, obedece quem é disciplinado.
Depois, claro, há o regresso. A descida é outra coisa: é o pensamento que se organiza, que se torna claro, que encontra lugar. Se a subida é pergunta, a descida é resposta. E quando volto à Beirã, já não sou exatamente o mesmo que saiu. A estrada fez o seu trabalho.
Há viagens que são apenas deslocações. E há viagens que são uma forma de pensar. A de ir a Marvão, é das segundas.
Foto Pedro Coelho.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O tempo leva

Tudo passa. A saudade que hoje aperta o peito, a dor que nos faz caminhar mais devagar. E a vontade teimosa de irmos atrás de quem já não quer acompanhar-nos, também passa.
O tempo – esse velho artesão – sabe trabalhar a dor.
Lixa-a, afina-a, leva o que pesa e deixa apenas o que ilumina. No coração só ficam os sorrisos verdadeiros, os instantes bons, a memória limpa do que valeu a pena.
O resto, o que feriu, o que magoou, o que causou noites sem dormir… isso o tempo leva. E nós deixamos ir, porque não nascemos para carregar ódio, nem rancor, nem sombras que não são nossas.
Há quem prefira chorar em vez de sorrir, há quem viva com o coração fechado como uma casa abandonada. Eu não. Sou feito de uma luz persistente, que nenhuma desilusão consegue apagar.
Mantenho a consciência limpa, o coração leve, as histórias arrumadas e as feridas cicatrizadas. Não tenho medo de confiar de novo. O mundo não é mau por inteiro, nem as pessoas são todas iguais. Isso é mentira repetida por quem desistiu cedo demais.
Ainda há quem valha a pena, quem seja de verdade.
Por isso continuo assim: firme na esperança, sereno na fé de que amanhã é outro dia e que esse amanhã será sempre uma nova oportunidade que Deus nos dá para recomeçarmos.
E se o amanhã demorar muito, recomeço já hoje, devagar mas com verdade. E aqui estou.

O abandono e a esperança de quem insiste em viver no interior

Portugal é um país de contrastes que se sentem na pele. No litoral, tudo parece mover-se depressa: cidades cheias, oportunidades que se multiplicam, cultura à mão de semear, serviços públicos que funcionam com outra cadência. No interior, porém, o tempo corre de forma diferente não por ser mais lento, mas porque é cada vez mais vazio. A desertificação não é apenas estatística: é humana, social, afetiva. É o silêncio que cresce onde antes havia vida.

O abandono do interior não começou ontem. É o resultado de décadas de políticas que nunca olharam verdadeiramente para estes territórios. Desde meados do século XX, as populações rurais partiram – umas para o litoral, outras para o estrangeiro – procurando aquilo que a terra já não conseguia oferecer-lhes. A industrialização concentrou-se onde havia densidade populacional, deixando para trás uma economia agrícola envelhecida, frágil e sem defesa.

As políticas públicas, quase sempre desenhadas a partir das cidades, pouco fizeram para contrariar esta erosão. Infraestruturas, saúde, educação, cultura, tudo chegou tarde, pouco, ou simplesmente não chegou. A ferrovia foi sendo desmantelada, os centros de saúde encerrados, as maternidades desapareceram, as escolas primárias foram agregadas até ao ponto de deixarem de existir. Cada serviço que fechava era mais um empurrão para quem ainda resistia.

A desertificação do interior é, antes de tudo, a desertificação das pessoas. A população envelhece, rareia, e em muitos concelhos os nascimentos são tão poucos que já não justificam uma escola aberta. As praças e ruas das aldeias ficam desertas durante a semana, ganhando vida apenas ao domingo, quando regressam filhos, netos e amigos, numa romaria de saudade que dura apenas algumas horas.

Este vazio humano reflete-se na economia. O comércio tradicional fecha porque já não há quem compre. Os pequenos agricultores não têm escoamento para os seus produtos. A indústria transformadora quase desapareceu. E as empresas que resistem lutam para atrair mão-de-obra qualificada que não quer viver onde tudo parece longe.

A paisagem também sofre: campos incultos, mato que avança, florestas desordenadas, incêndios que encontram terreno fértil na ausência de quem cuide da terra.

Para quem como eu, insiste em ficar, o interior não é apenas um lugar, é uma herança afetiva, uma forma de estar no mundo. Há um orgulho silencioso em manter viva a casa dos pais, em preservar tradições, em caminhar pelos mesmos trilhos da infância. Mas este apego não esconde as dificuldades.

A saúde é um desafio diário: uma consulta implica dezenas de quilómetros, transportes públicos escassos, tempos de espera que podem ser críticos. Na educação, as crianças percorrem longos trajetos para chegar à escola, perdendo tempo que deveria ser de família, de comunidade, de brincadeira. E o isolamento social pesa sobretudo nos mais velhos, que vivem sozinhos, dependentes de vizinhos ou de serviços sociais que não chegam a todos. A solidão é talvez a face mais cruel deste abandono.

Ainda assim, há esperança. Ela vive em quem fica, em quem cuida, em quem resiste. O interior não é apenas o que falta, é também o que permanece.

José Coelho

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Que a memória nunca esqueça

Em julho de 2021, quando o medo ainda pairava sobre o mundo, a fé encontrou forma de resistir. À porta da igreja, improvisámos um altar e deixámos que o vento fosse o nosso incenso.
Cantámos o salmo com o coração apertado, mas juntos. Rezámos à distância, mas unidos. E descobrimos que a fé não precisa de paredes e basta um olhar que acolhe, uma voz que se levanta, uma comunidade que não desiste.
Hoje, quando tudo parece ter voltado ao normal, corremos o risco de esquecer. Esquecer que fomos frágeis. Esquecer que precisámos uns dos outros. Esquecer que o essencial não está nas rotinas, mas na presença.
A pandemia ensinou-nos que o amanhã pode mudar num instante. Que o abraço negado dói mais do que qualquer febre. Que o silêncio das ruas pode também ser oração.
E que a vida, quando partilhada, é mais leve.
Não deixemos morrer a memória.
Porque o que vivemos foi mais do que medo, foi lição. E se um novo tempo difícil vier, que nos encontre como naquele dia à porta da igreja, juntos, atentos, humanos.
José Coelho
Foto: Eucaristia Solene de 16 de julho de 2021 à porta da igreja, em tempo de pandemia. A fé não se confinou; respirou ao ar livre, entre cadeiras distanciadas, mas corações próximos.