domingo, 9 de agosto de 2026

Só Deus sabe

Há lugares que me conhecem melhor do que eu a eles. Percorri-os a pé, sozinho e acompanhado, desde menino. Nunca precisei de rodas para conhecer o mundo, bastavam-me os pés e um livro ao domingo, o único dia de descanso.
Enquanto os outros aceleravam nas bicicletas e motorizadas, eu aprendia que a família era a primeira prioridade.
Marchava a pé por esses bardalhais horas a fio, na companhia do sol e do vento. As veredas eram tão seguras como estradas e nelas eu sabia onde morava cada obstáculo. Hoje, nem com óculos graduados as vejo tão bem, mas o instinto ainda recorda o caminho. E que bem sabia o sossego dos campos, o furtivo deslizar das raposas, o gorjeio dos melros e dos rouxinóis, o canto dos grilos e dos ralos.
Era o meu mundo de paz, onde me sentia completo.
Passados tantos sóis, continuo a visitá-lo, as pernas a refilarem, os pés a pesarem mais. Na última vez fui com a minha companheira de vida; demos conta de que estávamos longe demais para as nossas energias, mas o coração ficou leve.
Antes de iniciar o regresso a casa acariciei as giestas e pensei: Será que aqui voltarei mais alguma vez?
Uma vitela curiosa aproximou se e logo seguiu o seu caminho quando percebeu que não lhe trazíamos feno nem ração. O ar estava sereno, perfumado pelos pastos a secarem ao sol.
O cenário levou me à meninice, ao toco negro do sobreiro que um raio rasgou quando eu era pastor, ainda lá, indiferente ao tempo.
Mais adiante, na Tapada da Lagem Alta, fotografei o velho cancho de onde saltava sem parar naquela manhã em que o lacrau, escondido debaixo dele, me ferrou num dedo do pé, enquanto a minha mãe mondava milho.
Fotografei-o com emoção porque ali repousa aquele susto e a dor da ferroada, mas também a bênção da infância.
Não é viver no passado, é agradecer ao tempo por ter guardado estes testemunhos da minha meninice e juventude abençoadas, mesmo com trovoadas e ferroadas de escorpiões.
Se puder, quero lá voltar. Pelo menos mais uma vez. Ou duas...
Mas isso, só Deus sabe.
Texto e foto

As mulheres da água e do fogo

Na minha Beirã, as mulheres como a minha avó e a minha mãe, não eram apenas mulheres. Eram água e fogo, duas forças antigas que se encontravam nelas como se o mundo tivesse decidido que só elas sabiam equilibrar o que arde e o que corre.
De manhã, eram água. Iam ao tanque com a roupa no alguidar à cintura, falavam baixinho, riam alto, lavavam como quem reza. A água batia no sabão, escorria pelos panos, levava a sujidade e trazia de volta a dignidade das coisas limpas. E elas, de mãos na água fria, sabiam segredos que não se contam: quem estava doente, quem ia casar, quem precisava de ajuda. O tanque era mais do que tanque – era confissão, era encontro, era mundo.
À tarde, eram fogo. Acendiam o lume com o jeito de quem acende memória. Sabiam o ponto da lenha, o tempo da chama, o calor certo para a panela. O fogo obedecia-lhes como se reconhecesse nelas uma autoridade antiga. E dali saía o pão, a sopa, o guisado, o cheiro que enchia a casa e fazia da cozinha o coração da aldeia.
As mulheres da água e do fogo tinham mãos pequenas, mas faziam tudo. Amassavam o pão, coziam a roupa, remendavam calças, curavam febres, embalavam crianças, guardavam silêncios. E tinham uma força que não se via, só se sentia. Uma força que não precisava de palavras, porque vivia nos gestos.
Falavam pouco, mas diziam muito. Um “come mais um bocadinho” era amor. Um “não vás por aí” era proteção. Um “Deus te guarde” era bênção. E cada frase vinha carregada de verdade.
Havia nelas uma paciência que hoje quase desapareceu. Sabiam esperar pela água que aquecia, pela massa que levedava, pela roupa que secava, pela vida que acontecia devagar. E nunca reclamavam do tempo, trabalhavam com ele.
Quando uma mulher da água e do fogo morria, não se perdia só uma pessoa. Perdia-se uma forma de estar no mundo. Perdia-se o lume certo, a sopa certa, o conselho certo, o silêncio certo. Perdia-se alguém que sabia que a casa não é só paredes, é também cuidado.
Eu cresci a vê-las. A ouvir o bater da roupa no tanque a vinte metros da minha casa, a sentir o cheiro do pão quente, a aprender que o amor não se diz, faz-se. E hoje, quando fecho os olhos, ainda vejo as mãos delas: pequenas, rápidas, firmes, incansáveis.
E cá dentro, onde mora a memória, continuo a acreditar que essas mulheres seguraram a aldeia inteira. Com água. Com fogo. Com vida.

sábado, 8 de agosto de 2026

Recomeços

No decorrer da nossa vida há sempre aqueles dias em que o caminho se estreita e nos obriga a parar. Não por capricho do destino, mas por decisões que não devem ser adiadas, mudanças que têm de acontecer, medos que exigem ser olhados de frente.
Cada um desses instantes chega como uma espécie de visita inevitável: não bate à porta, entra. E, ao entrar, transforma-nos.
São solidões que se instalam ao nosso lado como sombras. No início assustam, mas com o tempo percebemos que são apenas lugares onde a alma precisa de se recolher para que a possamos ouvir.
Há lágrimas que não conseguimos evitar – e talvez nem devêssemos – porque são elas que lavam o que ficou turvo dentro de nós. E há recomeços silenciosos, quase imperceptíveis, que começam a germinar no fundo do peito muito antes de nos darmos conta.
A vida ensinou-me que tudo isso faz parte do mesmo movimento: o de nos tornarmos quem realmente somos. E que, mesmo quando acreditamos que já não aguentamos mais nada, o tempo acaba por revelar a verdade que sempre lá esteve: somos muito mais fortes, mais resistentes e mais corajosos do que alguma vez imaginámos.
A coragem não é ausência de medo; é seguir adiante, apesar dele. E ter força, não é nunca cair; é levantar e continuar a caminhar, cada vez que caímos.
Assim descobrimos que cada dor foi mais uma semente, cada silêncio foi mais uma raiz, cada lágrima foi a água que que alimentou e fez florir a nossa vida, quando menos o esperávamos.
Texto e foto

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Memórias da minha aldeia

Na minha Beirã, a noite não chegava de repente. Chegava devagar, como quem entra em casa em silêncio para não acordar ninguém. Primeiro, o céu ficava mais fundo. Depois, as sombras cresciam nas paredes. E por fim, a aldeia inteira parecia suspender a respiração.
As ruas estreitas ganhavam outra alma. O que de dia era caminho, de noite era mistério. O que de dia era ruído, de noite era memória. E cada pedra parecia guardar histórias que só a escuridão sabia ouvir.
Os cães começavam a ladrar ao longe, não por medo mas por hábito. Era o seu modo de dizer que estavam ali, que guardavam o que era deles, que a noite não lhes metia respeito. E o eco desses latidos percorria a aldeia como se fosse uma conversa antiga entre casas.
O cheiro da lenha acesa saía pelas chaminés e misturava-se com o frio que descia da serra. Era um cheiro que não se confundia: madeira, lume, casa, vida. Um cheiro que dizia que o dia acabou, mas a aldeia continua.
As janelas iluminadas eram pequenas ilhas de calor. Cada luz acesa era uma família reunida, uma sopa ao lume, uma conversa baixa, uma reza, um silêncio. E quem passava na rua sabia, sem ver, quem estava acordado e quem já tinha recolhido.
A igreja, à noite, parecia maior. O sino calado tinha uma presença que não precisava de som. E a torre, recortada contra o céu, era como um dedo apontado para Deus, não a pedir, mas a agradecer.
Havia também um silêncio especial. Não era ausência de ruído, era presença de paz. Um silêncio que deixava ouvir o vento nas giestas, o bater de uma porta ao longe, o passo de alguém que chegava tarde, o ranger de um portão antigo. Um silêncio que não assustava, acolhia.
A lua, quando vinha cheia, pousava nos telhados como quem pousa a mão no ombro de um amigo. E a aldeia ficava prateada, quase mágica, quase outra. As sombras tornavam-se mais suaves, as paredes mais claras, os caminhos mais visíveis. E parecia que tudo respirava melhor.
Eu cresci a ver a aldeia à noite. A sentir aquele frio bom que não magoa. A ouvir os sons que só existem quando o dia acaba. A perceber que a noite não é ausência, é revelação.
E hoje, quando fecho os olhos, ainda vejo a aldeia iluminada por meia dúzia de lâmpadas amareladas, ainda ouço os cães ao longe, ainda sinto o cheiro da lenha, ainda reconheço o silêncio que me ensinou a pensar.
Porque a aldeia à noite não é só escuridão. É memória. É abrigo. É verdade. E cá dentro, onde mora a saudade, a aldeia à noite continua a ser o lugar onde tudo faz sentido, mesmo o que não se explica.
Foto:
Pedro Coelho

Uma promoção que o respeito concede

Na minha terra, os velhos não são apenas velhos. São também ti – uma sílaba curta que carrega décadas de vida, de trabalho, de chão.
Ti Jaquim, ti Manel, ti Antónho, ti Zéi, ti Tónha, ti Chica, ti Catrina, ti Tomásia… Nomes que não apenas se dizem: são.
O “ti” não é título, nem cortesia, nem parentesco. É uma promoção que o respeito concede. Uma condecoração silenciosa atribuída a quem já faz parte da paisagem, como oliveiras centenárias que resistem ao tempo e às secas.
Os, e as ti, da minha terra, tinham mãos que sabiam tudo: o peso da enxada, o segredo da horta, o jeito da lenha, o ponto certo da sopa, o remendo que dura anos, o toque certo para acalmar uma criança.
E tinham uma autoridade que não precisava de explicação: bastava um olhar, um “ó rapaz”, um “ó menina”, um “não vás por aí”, e o mundo ficava mais direito.
Falavam pouco, mas diziam muito. Sabiam rezar pelos outros antes de rezar por si. Sabiam sofrer sem fazer barulho. Sabiam amar sem fazer alarde. E sabiam esperar pela chuva, pelo filho, pela carta, pela vida.
Quando um ti morria, não se perdia só uma pessoa. Perdia-se uma maneira de estar no mundo. Perdia-se uma voz que sabia dizer “Deus te guarde” com verdade. Perdia-se uma presença que fazia falta, mesmo quando estava calada.
Quem nasce numa aldeia nunca mais a larga. Pode ir viver para a cidade, aprender outras maneiras, habituar-se a outras delicadezas, mas por dentro continua sempre a ser aldeia. Porque há terras que ficam para trás, e há terras que vão conosco para onde quer que vamos.
A Beirã andou comigo por onde quer que eu andei: na maneira de dizer bom dia, boa tarde ou boa noite a toda a gente conhecida e desconhecida; na fala com o meu sotaque raiano; no gosto pelas pessoas; nos usos e costumes.
Seguiu-me na forma como considero os velhos, não como passado, mas como raízes. Seguiu-me na minha escrita, no cheiro das giestas em flor, no ritmo dos longos dias de verão.
E quando alguém me chama “ti Zé”, eu sorrio. Porque sei que esse “ti” vem deles, dos homens que me ensinaram o peso da enxada e das mulheres que me ensinaram o peso da ternura. Vem das mãos que me pegaram, das vozes que me guiaram, das vidas que me antecederam.
E cá dentro, onde mora a verdade, a autenticidade, a raiz, continuo a ser o que sempre fui: um homem da Beirã – o mê Zéi da minha mãe... e de mim mesmo.
Texto e foto

O declínio rural

Há um silêncio novo nas terras antigas. Não é o silêncio da madrugada, quando o orvalho ainda brilha nas espigas e o canto do galo anuncia o dia. É um silêncio mais fundo – o da ausência humana, o da enxada encostada à parede, o da eira sem risos.

O campo, outrora coração pulsante do país, tornou-se um corpo cansado. As searas que antes ondulavam como mares de ouro são agora pastos rasos, onde o gado rumina o que resta da abundância. A seara já não é para o pão das casas; é para o alimento dos animais. E os homens que sabiam ler o céu e prever a chuva foram substituídos por relatórios, subsídios e burocracias que não conhecem o cheiro da terra.

A integração europeia trouxe progresso, dizem. Mas o progresso, por vezes, é uma palavra que não sabe o caminho da aldeia. Trouxe estradas largas, mas levou os caminhos estreitos onde se cruzavam vizinhos. Trouxe normas e cotas, mas levou o instinto e a liberdade de plantar o que o coração mandava. Trouxe dinheiro, mas levou alma.

Hoje, os silos erguidos como pirâmides modernas estão vazios, quais monumentos à abundância perdida. O pão vem de fora, o leite vem de fora, tudo vem de fora. E o país que se alimentava de si próprio tornou-se um país que se alimenta de lembranças.

Ainda assim, há quem resista. Há quem continue a acordar cedo, a abrir as cancelas, a cuidar das vacas e das oliveiras como quem cuida de uma fé antiga. Esses são os guardiões do que resta,  não de uma economia, mas de uma identidade. Porque o campo não é só produção: é pertença, é memória, é raiz.

E talvez um dia, quando o ruído das cidades se cansar de si próprio, alguém volte a ouvir este silêncio e perceba que nele ainda vive o país verdadeiro, o que não se mede em euros nem em estatísticas, mas em gestos, em cheiros, em saudade.

José Coelho

Tarde de conserva caseira

Há tardes que parecem pequenas, mas guardam dentro delas a grandeza de um país inteiro. A de hoje, passada na minha cozinha com a Maria Manuela, foi dessas. Tudo começou com a chegada, ontem, da caixa de dez quilos de tomate de conserva, trazida pelos nossos amigos Maria e João Mimoso, gente boa da aldeia, daquelas amizades que não se compram nem se improvisam.
Hoje, a casa acordou com o propósito antigo de “enceleirar”. Não é só preparar comida: é preparar o inverno, preparar a continuidade, preparar a memória.
A Maria Manuela pelou os tomates com a paciência que só as mãos habituadas ao trabalho fino conhecem. Eu, ao lado, miguei o tomate à faca, como aprendi em rapaz, deixando que o alguidar se enchesse daquele vermelho vivo que sempre anuncia abundância. De vez em quando, juntávamos tiras de pimento verde para o sabor, sim, mas também para a beleza, porque até a conserva merece ser vistosa antes de ser guardada.
A cozinha ganhou aquele cheiro quente que só existe quando se trabalha para o futuro. Os frascos iam sendo enchidos devagar, fechados com cuidado, alinhados como pequenos cofres de vidro. Depois, mergulhámos tudo nas panelas grandes, onde a água iria ferver a cachão.
Trinta minutos de lume forte, o suficiente para esterilizar e selar o verão dentro de cada frasco.
Agora as panelas repousam sobre a bancada. Os frascos arrefecem dentro da água quente, como quem dorme depois de um esforço feliz.
Amanhã, quando os limparmos e os levarmos para a despensa, não estaremos apenas a arrumar comida: estaremos a guardar tempo, memória, continuidade. Estaremos a dizer, sem palavras, que ainda sabemos fazer o que sempre nos alimentou.
Num país onde tanto se perdeu do mundo rural, onde as práticas antigas cedem à pressa e ao descartável, esta tarde foi uma pequena vitória. Uma afirmação silenciosa de que ainda há quem resista ao esquecimento das mãos – estas mãos que sabem fazer, que sabem cuidar, que sabem perpetuar.
A conserva de tomate que hoje preparámos não é apenas alimento. É cultura. É raiz. É resistência.