domingo, 13 de setembro de 2026

O meu Pedro

Há filhos que chegam ao mundo com uma claridade própria. O Pedro foi assim. Não é apenas o meu filho mais novo: é uma presença tranquila, firme, silenciosa, daquelas que não precisam de se anunciar para se fazerem sentir. É um homem que cresceu com a serenidade dos justos e com a retidão dos que sabem exatamente quem são.
Seguiu os meus passos na GNR, mas nunca viveu à sombra deles. Entrou na área da investigação criminal com aquela calma que sempre o definiu, com o rigor que lhe é natural, com a capacidade de ver o que outros não veem. Hoje é analista criminal competente, respeitado, atento, mas não é isso que o define. O que o define é ser um homem de bem. Como o irmão. Como eu sempre desejei que fossem.
Quando o Pedro aparece na Beirã, o tom da casa muda. Há um calor discreto, uma paz que se instala, uma sensação de que tudo está no sítio certo. Ele não entra para ocupar espaço; entra para o harmonizar. É o tipo de homem que faz falta sem nunca dizer que está a fazer falta.
A Francisca, a sua menina, chega muitas vezes com ele e, quando chega, traz aquele brilho que só os filhos conseguem dar aos pais. O Pedro olha para ela com uma ternura que não se finge. É um olhar que diz: “És o melhor pedaço de mim.” E eu, ao ver esse olhar, percebo que a vida também fez dele aquilo que eu sempre desejei: um pai bom, inteiro, presente.
E a Ana, sua esposa e mãe da Francisca, é parte desta harmonia familiar. A presença dela é serena, discreta e feita de uma maturidade que só acrescenta estabilidade à vida que construíram juntos. Entre ela e o Pedro há entendimento, responsabilidade e uma forma adulta de viver a família que partilham. E eu vejo, sempre que a Ana aparece, que há ali uma paz que não se finge, uma presença que faz bem à Francisca e que completa, com simplicidade, o equilíbrio da casa.
O Pedro tem uma forma muito própria de estar no mundo. Não é homem de pressas, não é homem de impulsos, não é homem de dramatismos. É homem de ponderação. De gestos certos. De palavras que chegam no momento exato, nem antes, nem depois. Quando se senta comigo, a conversa não corre: desliza. Falamos do trabalho, da vida, das pequenas batalhas que cada um trava no seu dia. E há ali uma serenidade que me faz bem. O Pedro não fala para impressionar; fala para partilhar. E nessa partilha, há uma intimidade que não se força, existe.
O humor dele é diferente do humor do Manel, mas é humor de família. Suave, quase escondido, como quem levanta uma cortina para deixar entrar luz. Uma frase curta, um sorriso que nasce devagar, um comentário que desmonta a seriedade do momento. É um humor muito à sua maneira.
Quando ele se despede, há sempre um pequeno gesto que fica. Um toque no ombro, um sorriso que confirma que está tudo bem, uma presença que continua mesmo depois de ele fechar a porta. E eu percebo, nesse instante, que a paternidade não termina, transforma-se. O filho deixa de ser criança, deixa de ser rapaz, torna-se homem, mas continua sempre a ser o nosso caçula.
O Pedro não é apenas pessoa. É também equilíbrio. É raiz que sustenta. É parte da minha história que ganhou o seu próprio caminho, mas que nunca deixou de regressar ao meu. É a prova de que o amor de pai não se mede no que se diz, mede-se no que permanece.
E eu encontro nele, na forma como ele me olha, me respeita e trata, uma verdade que me acompanha: há filhos que não são apenas futuro; são também o presente mais sereno que a vida nos deu.

José Coelho

Domingo sem gente

Hoje não foi um domingo qualquer. Foi um daqueles dias em que a paisagem parece confirmar o que há muito murmura dentro de mim: que o mundo está a ficar demasiado grande para tão pouca gente. Que as estradas se tornaram corredores vazios. Que as cidades pequenas perderam o passo. Que o silêncio, quando é demasiado, deixa de ser paz e passa a ser ausência.
No percurso da Beirã até Portalegre, os quilómetros sucederam-se como páginas de um livro sem personagens. Dois carros, talvez três, cruzaram-se comigo – sombras rápidas, quase irreais, como se também eles estivessem de passagem por um território que já não lhes pertence. A estrada, tão minha, tão conhecida, parecia hoje uma linha desenhada num mapa antigo, esquecida por quem planeia o futuro sem olhar para trás.
E quando cheguei à cidade, o vazio ganhou corpo. Portalegre, que já teve pulsação, estava ali como uma fotografia tirada depois da festa, quando já todos foram embora. Ruas sem passos, janelas sem movimento, cafés sem rumor. A vida, que costuma esconder-se nos detalhes, hoje não estava em lado nenhum.
Só no restaurante havia gente – um punhadinho, como se o domingo tivesse sido reservado a meia dúzia de resistentes. Mas mesmo ali, entre talheres e pratos, pairava aquela sensação de que o mundo encolheu demasiado, ou talvez tenha sido a gente que se foi embora depressa demais.
E foi nesse instante, nesse aperto fundo que não se explica mas se sente, que me saiu a frase que só sai quando a alma está cansada: “Vamos vender a casa, dar aos filhos a parte deles e sair deste fim de mundo, Maria.”
Não era decisão. Era melancolia a falar por mim. Era o peso de um território que se esvazia ano após ano, até restarem apenas memórias e meia dúzia de vozes. Era o eco da desertificação que me assombra – os tais 11 habitantes por quilómetro quadrado que não são estatística, são solidão medida a régua.
Hoje acordei assim melancólico. E a melancolia, quando se instala, transforma até a terra mais amada num lugar estrangeiro.
Mas amanhã… amanhã talvez a luz seja outra. Talvez o canto das rolas volte a encher o quintal, talvez o cheiro do café devolva o sentido às manhãs, talvez a Beirã volte a ser a minha casa com o quintal, com as plantas, com a igreja, com a Maria Manuela ao meu lado, com a vida que ainda resiste, mesmo que em silêncio.
Hoje o mundo pareceu grande demais para tão pouca gente. Amanhã, quem sabe, volte a caber dentro do meu coração.

Com uma pedra só, não se levanta parede

Passavam poucos minutos das cinco da tarde quando empurrei a porta da igreja e deixei que o silêncio me recebesse como se fosse um velho amigo. A missa vespertina de sábado – essa que veio ocupar o lugar da missa de domingo, fiel durante mais de setenta anos – esperava ainda pela meia dúzia de presenças habituais.
Eu cheguei mais cedo. Não por zelo, mas por necessidade: precisava daquele intervalo de mundo, daquele abrigo onde o silêncio é tão denso que quase se pode pousar a mão sobre ele.
Ali, naquele templo que me viu crescer, onde os meus pais se deram as mãos diante de Deus há setenta anos, onde eu há cinquenta, e depois as minhas irmãs dissemos também “sim”, onde os meus filhos repetiram o gesto que atravessa gerações, ali, naquele lugar que é mais do que igreja, é cofre, é raiz, é casa, senti novamente o peso doce das memórias que me acompanham desde os seis anos, quando o padre Joaquim Caetano me escolheu para sacristão.
Nunca mais deixei de servir esta casa.
Há uma mística antiga na Beirã, uma devoção que não se explica, apenas se vive. A Senhora do Carmo é o elo que nos une, mesmo aos que partiram para longe. No dia da Sua festa, regressam todos, como se a distância fosse apenas uma ilusão e o coração soubesse sempre o caminho de volta.
Mas a verdade, essa que custa a aceitar, está diante dos nossos olhos: a Beirã esvai-se devagar, como água que se perde por entre os dedos. A Paróquia segue o mesmo destino. Não é a falta de presbíteros que nos ameaça, é a falta de pessoas. Sem gente, não há vida. Sem vida, não há comunidade.
Desde que o Reverendo Padre Luís Marques inesperadamente partiu, tudo mudou. Já éramos poucos aos domingos; aos sábados, ficámos quase só um punhado de resistentes. Há celebrações em que somos seis ou sete. E não há retorno possível. A verdade não precisa de ser repetida para ser cruel.
E é com essa verdade que eu converso, em silêncio, com o Jesus do Sacrário e com a Senhora Sua Mãe. Falo-lhes das minhas inquietações, da minha tristeza, da minha vontade de continuar apesar de tudo. Depois preparo o ambão, verifico os paramentos, ajeito as alfaias que a Maria Manuela e a Joaquina colocaram com o cuidado de quem sabe que servir também é amar. Somos os três, semana após semana, porque já não há acólitos. Estamos só já nós, a segurar o que ainda resta.
O Senhor da messe fez o que pôde: enviou o pastor possível para que a celebração não cessasse. Mas não é o pastor que falta. É o rebanho.
E então lembro-me do que dizia o meu pai, com aquela sabedoria simples que nunca falhava:
“Com uma pedra só, não se consegue levantar uma parede.”
E é isso que dói: saber que ainda somos pedra, mas já não somos parede.

sábado, 12 de setembro de 2026

A minha comadre Adriana


Há pessoas que não precisam de fazer barulho para marcar uma vida. A minha comadre Adriana é uma dessas pessoas. Não ganhou o título por formalidade, ganhou-o por mérito afetivo. Naquele tempo, quando o meu Manel nasceu, havia padrinhos “do lado da mãe” e padrinhos “do lado do pai”. Mas a amizade era tão forte, tão antiga, tão limpa, que ela foi promovida a comadre por direito de coração, a par da madrinha verdadeira. Há vínculos que não se decretam: reconhecem-se.
A minha comadre Adriana é do Porto e vive no Porto. Professora primária reformada, traz consigo aquela serenidade que só quem ensinou crianças durante décadas, consegue guardar. É uma serenidade que não se compra, herda-se da vida, das lutas, das salas de aula, das histórias que se recolhem como quem recolhe sementes.
Quando penso nela a aparecer à porta, vejo-a nos finais da década de 70, naquele passo curto, firme, quase escolar, como quem aprendeu a caminhar entre carteiras e quadros de ardósia. A Beirã, nesses instantes, parecia ganhar mais memória, mais chão, mais raízes. A Adriana não falava alto, não gesticulava muito, não se impunha mas a presença dela emanava respeito. Era uma mulher que carregava serviço, cuidado, olhar atento sobre gerações inteiras.
E havia também o outro lado da história: um pacto da guerra. O seu ex-marido foi meu camarada no Ultramar. Lá, entre o pó e o medo, fizemos um pacto simples e sagrado: se voltássemos vivos, o primeiro a ser pai convidaria o outro para padrinho. E eu cumpri-o sem hesitar.
Mal o meu filho nasceu, telefonei-lhe: “Já cá tens o teu afilhado. Que nome lhe queres dar?” E ele, sem pensar duas vezes: “O primeiro nome quero o meu – Manuel. O resto é contigo.” Assim ficou: Manuel, pelo padrinho e António, pelo meu pai.
A minha comadre Adriana acompanhou tudo isto com a dignidade silenciosa de quem compreende os laços que a vida tece entre homens que sobreviveram juntos.
Já passaram quarenta anos sem nos vermos. Quarenta anos. E, no entanto, a amizade permanece intacta, quase diária, quase familiar. Ela é a mais fervorosa leitora de tudo o que escrevo. Lê, comenta, elogia sem pejo a nossa estima, a nossa cumplicidade, a memória dos meus pais e dos seus. Quando ela fala dos meus pais e dos seus, há uma luz entre nós que não se finge. Não é só saudade, é respeito. É continuidade.
É a forma como os que partiram continuam a viver nos que ficaram. Falamos dos quatro, como quem acende velas que nunca se apagam.
A minha comadre Adriana tem uma maneira muito particular de olhar para mim, mesmo à distância. Não é um olhar de comadre apenas. É um olhar de quem me viu lutar por um lugar ao sol, de quem conhece o meu ritmo, a minha alma, o meu silêncio, a minha amizade. É um olhar de quem sabe que a vida me moldou, mas que eu também moldei a vida dos outros.
Hoje a porta já não se abre como nos anos 70. Mas abre-se outra coisa: a mensagem dela, a leitura dela, a voz dela, a presença dela. E cada vez que isso acontece, a minha casa – mesmo a esta distância – muda de ritmo.
A tarde abranda. O coração assenta. A memória respira.
A minha comadre Adriana não é apenas uma boa pessoa. É raiz. É testemunho. É fidelidade rara. É uma das vozes amigas que testemunharam a minha vida passada, mesmo vivendo no Porto. Há pessoas que não passam pela nossa história. Ficam nela, mesmo quando já não estão ao alcance dos nossos olhos.
E ela é uma delas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

O meu Manel

Há relações que não se explicam, crescem. A relação com um filho é uma dessas. O Manel não é apenas o meu filho primogénito: é uma extensão da minha história, uma continuidade da minha vida, uma presença que me acompanha mesmo quando está longe, mesmo quando está no Algarve, mesmo quando o dia dele corre noutra geografia.
Quando ele chega à Beirã, a casa muda de tom. Não é mudança ruidosa é mudança de fundo. A conversa ganha outro ritmo, a tarde ganha outra textura, a mesa ganha outra alegria. Há qualquer coisa no modo como ele entra que revela que, apesar de tudo, apesar dos anos, apesar das responsabilidades, ele continua a ser “o nosso Manãe” o meu rapaz, o meu filho, o meu companheiro de tantas histórias.
O Manel tem uma forma muito particular de estar. Não é homem de exageros, não é homem de discursos longos, não é homem de dramatismos. É homem de presença. De fazer. De resolver. De aparecer quando é preciso. De cuidar sem anunciar.
A Paula, companheira há tantos anos, aparece ao seu lado com aquela serenidade que equilibra tudo. E as meninas – Filipa e Mariana – à sua frente, como quem anuncia que a família chegou inteira. O Manel olha para elas com aquele orgulho discreto que só os bons pais têm. E eu, ao ver esse olhar, percebo que a vida fez dele aquilo que eu sempre desejei: um homem bom.
Há momentos em que ele se senta comigo, sem pressa. Falamos de coisas simples: do trabalho, da aldeia, da família, dos planos, das pequenas preocupações que fazem parte da vida adulta. E nesses momentos, há uma cumplicidade que não se força, existe. É a cumplicidade de quem cresceu comigo, de quem me viu ser pai, de quem aprendeu comigo o valor da responsabilidade, da calma, da honestidade.
O Manel tem também aquele humor breve, quase seco, que aparece nos momentos certos. Uma frase curta, um comentário rápido, um sorriso que desmonta o peso do dia. É um humor que reconheço porque é, no fundo, o meu também.
Quando ele se despede, há sempre um instante que fica no ar. Um silêncio pequeno, um olhar que confirma que está tudo bem, um gesto que diz mais do que qualquer palavra. E eu percebo, nesse instante, que a paternidade nunca termina, apenas se transforma. O filho deixa de ser criança, deixa de ser rapaz, torna-se homem, mas continua a ser sempre o nosso menino.
O Manel não é apenas pessoa. É continuidade. É raiz que avança. É parte da minha história que ganhou pernas próprias. É a prova de que o amor de pai não se mede no que se diz, mas no que permanece.
E eu, que tantas vezes vivi entre urgências e compromissos, encontro nele, na forma como ele me olha, como ele me respeita, como ele me trata, uma verdade que me acompanha: há filhos que não são apenas futuro; são também o presente mais profundo que a vida nos dá.

Quando a Justiça elege o elo mais fraco

Há memórias que regressam sem aviso, como pássaros que sabem sempre encontrar o caminho de volta. Chegam num instante qualquer, abrem a porta da lembrança e trazem consigo histórias que nunca deviam ter acontecido, ou que, tendo acontecido, nunca deviam ter sido varridas para debaixo do tapete da rotina.
Uma dessas histórias voltou hoje à minha memória, com a nitidez das coisas que doem.
Foi o furto de armamento numa unidade militar onde eu servia. Caso grave, investigação rigorosa, inquérito exaustivo. Tudo parecia apontar para uma conclusão justa, ponderada, séria. Mas a justiça, quando se perde no labirinto dos factos, tem um talento antigo: encontra sempre a saída mais fácil. E a saída mais fácil é quase sempre a mesma – o elo mais fraco.
Ninguém sabia quando o armamento tinha desaparecido. Ninguém conseguia fixar o dia, a semana, o mês. Mas todos sabiam quem iria pagar. Não o comandante. Não os graduados. Não quem tinha responsabilidade real. A culpa caiu sobre o guarda que, por azar do calendário, fora quarteleiro-de-dia “algures por aquela data”. Uma conclusão tão absurda que quase parecia piada, não fosse a vida real ter pouca graça quando decide ser cruel.
O guarda cumpriu o castigo. E no dia seguinte pediu para sair da profissão que tinha escolhido em jovem. Voltou à agricultura, onde o trabalho é duro, sim, mas onde pelo menos a injustiça não anda fardada. E esta história, que podia ser exceção, é apenas sintoma daqueles que se repetem, silenciosos, porque ninguém quer olhar para eles de frente.
Há uma facilidade quase preguiçosa em julgar quem trabalha na linha da frente da segurança pública. O cidadão comum celebra o Natal, a Páscoa, os feriados, os fins-de-semana. Os agentes da autoridade celebram quando podem, e muitas vezes não podem. Enquanto uns consoam, outros patrulham estradas. Enquanto uns dormem, outros atendem chamadas de emergência. Enquanto uns descansam, outros enfrentam o pior da condição humana.
E depois, quando um deles falha – mesmo que seja uma falha mínima, humana, inevitável – cai sobre ele uma intolerância que não se aplica a mais ninguém. É curioso como todos erram, mas só alguns pagam como se o erro fosse crime.
Há quem acredite que a farda transforma o homem em máquina. Que a autoridade apaga a fragilidade. Que o dever elimina o medo, o cansaço, a dúvida. Mas não elimina. Nunca eliminou. A farda não é uma couraça; é apenas tecido. E por baixo do tecido há sempre um ser humano falível, imperfeito, vulnerável.
Eu sei isso porque também estive lá. Errei, sim. Mas errei a trabalhar. Errei a proteger. Errei a servir. Nunca errei por maldade, arrogância ou abuso. Errei porque estava vivo e porque a perfeição não é atributo humano. E, no entanto, quantas vezes a sociedade exige perfeição absoluta de quem trabalha em condições que ela própria não suportaria por um único dia.
A justiça deveria ser o lugar onde todos têm o mesmo peso. Mas demasiadas vezes é o lugar onde o peso maior cai sobre quem tem menos força para o suportar. O guarda que abandonou a carreira numa tão valiosa como corajosa atitude de indignação, não foi vítima de um erro. Foi vítima de um sistema que prefere sacrificar um inocente a admitir que falhou.
E isso é a verdadeira escabrosidade. Não o erro, mas a escolha consciente de quem o paga.
Podia terminar esta crónica com a lista dos meus serviços, das minhas distinções, das minhas provas dadas. Mas não o faço, porque a verdadeira autoridade não se exibe. Respira apenas na tranquilidade com que olho para trás e sei que cumpri. Respira na solidariedade que mantenho com quem continua lá, 24 horas por dia, 365 dias por ano, a segurar o país nos braços. Respira na certeza de que o dever não precisa de medalhas para ser honrado.
Fica a memória do guarda injustiçado que ainda hoje olho com profundo e solidário respeito. Fica a denúncia de um sistema que ainda não aprendeu a olhar para todos por igual. Fica a certeza de que errar é humano e que punir o erro sem olhar ao contexto é desumano. Fica esta ideia, que devolvo com firmeza: a justiça só é justa quando reconhece que a humanidade não é defeito – é condição.

 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

O vento que desce da serra

Há ventos que não passam – chegam. O vento que desce da serra no verão, é um deles. Não é rajada, não é tumulto, não é força bruta. É uma presença antiga, quase sábia, que atravessa a aldeia com a serenidade de quem conhece todos os caminhos.
Ao fim da tarde, quando estou pelo quintal, há sempre um momento em que o vento muda. Não é apenas ar em movimento, é uma mudança de tom. A serra, lá em cima, parece respirar fundo e enviar para a Beirã um sopro que traz memórias, cheiros, histórias que não sei de onde vêm. É um vento que não empurra, recorda.
E eu fico muitas vezes parado, a senti-lo. Não faço nada. Não digo nada. Só deixo que o vento me toque. E nesse toque, há sempre uma espécie de revelação silenciosa: a vida, quando abranda, mostra coisas que a pressa esconde.
O vento traz o cheiro da terra quente, o rumor das árvores que se inclinam, o som distante de um melro que não se deixa calar. Traz também qualquer coisa de infância, talvez o eco de verões longos, talvez o pó das estradas antigas, talvez o riso de gente que já não está. O vento, quando desce da serra, não traz apenas ar: traz tempo.
No seu exercício diário de caminhar pelo quintal, a marida passa muitas vezes ao meu lado com aquele passo discreto que não perturba nada. Ela sente o vento, mas não o comenta. Sabe que aquele momento é meu, que é ali que encontro uma espécie de equilíbrio que não se explica. O vento mexe-lhe o cabelo, levanta-lhe a blusa, mas ela segue, tranquila, como quem reconhece uma visita habitual.
Há dias em que o vento chega mais fresco. Outros em que chega morno, quase como um abraço. Mas nunca chega vazio. Traz sempre qualquer coisa: uma lembrança, uma sensação, uma pergunta, uma resposta. É como se a serra falasse, e o vento fosse a sua voz.
Sentado num banco de alvenaria da varanda do meu quintal, deixo que ele me envolva. A luz baixa, o silêncio cresce, a aldeia abranda. E eu sinto que aquele instante contém uma verdade que não se aprende em livros: a natureza não nos fala alto, fala-nos apenas quando estamos prontos para a ouvir.
O vento que desce da serra não é apenas fenómeno. É companhia. É mensagem. É memória. É a prova de que há forças no mundo que não se veem, mas que nos moldam. E eu encontro naquele sopro que atravessa o quintal, uma verdade que me acompanha: há ventos que não passam por nós; passam por dentro de nós.
Texto e foto