quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Os tombos ensinam-nos a levantar

Não sou e nunca fui dado à pieguice. A época em que nasci e me criei era tão dura e agreste que assim que aprendi a andar em pé, tive logo de aprender também a levantar-me sozinho cada vez que tropeçava e caía. Ninguém ia a correr dar-me mimo ou colo:
- Caíste? Levanta-te, filho!
Não era e nunca foi falta de amor de quem me trouxe ao mundo e me criou, pois deles o tive abundância a vida inteira. Era a sua forma sensata de me ensinarem que cair e levantar dos tombos era normal, por isso, do mesmo modo, normal era também ter de levantar-me sozinho.
Cresci, aprendi e formei-me nessa disciplina de uma forma tão sólida que me valeu para a vida toda. Tentei depois e acho que consegui transmitir aos meus filhos esses princípios essenciais à nossa sobrevivência num mundo tão complexo como é o nosso: levantar depois de cair, ser prudente para não tropeçar duas vezes na mesma pedra, evitar caminhos acidentados e pouco seguros.
Viver não é fácil, nem sequer para quem nada lhe falta. Há quem viva em abundância mas rodeado de solidão, de falta de amor e afetos. A vida é tão imprevisível que o melhor mesmo é estarmos atentos e preparados para o que der e vier. Basta às vezes olhar à nossa volta para o perceber.
A minha memória diz-me que quando eu andava descalço por não ter sapatos e tinha de esperar embrulhado num cobertor sentado ao lume que a minha roupa secasse para voltar a vesti-la porque só tinha aquela, havia por cá pessoas muito ricas que tinham tudo e grandes herdades com palácios onde viviam.
Hoje esses palácios estão em ruínas, porque os seus herdeiros não têm possibilidades de os conservar e manter. Ao contrário deles, com muitas poupanças e sacrifícios, eu consegui pagar até ao último cêntimo, projetar e transformar a humilde casinha em que nasci noutra bem maior, para nela caber a família inteira.
Por isso tudo o que escrevo ou digo, tem quase sempre a ver apenas comigo, com a minha família e com a minha experiência de vida. Não me interessa minimamente a vida de mais ninguém, assim como me estou literalmente nas tintas para aquilo que digam e pensem de mim, porque não lhes devo nada.
Obviamente os tombos que dei deixaram mazelas. Principalmente os que foram provocados por rasteiras cobardes que em vez de ferirem o corpo, feriram-me a alma. Mas em todas elas me levantei e segui teimosamente o meu caminho.
Hoje vivo tranquilo, em paz, e desengane-se quem pensar que pode de alguma forma perturbar essa tranquilidade. Ninguém tem pinta para isso.

José Coelho

O silêncio é um amigo

Há momentos em que o silêncio chega com uma mansidão antiga, como se soubesse exatamente quando faz falta. Envolve-me devagar, senta-se ao meu lado, e logo a memória vem também, com o passo de quem regressa a casa.
Não bate à porta. Não pede licença. Entra como um vizinho antigo que conhece os cantos, os cheiros, o modo como a luz cai na cozinha. E eu deixo.
O silêncio nunca incomoda. Aconchega.
E a memória começa o seu trabalho: traz-me rostos que já não encontro na rua, risos que o vento levou, cheiros que só a infância sabe guardar. Vejo a minha mãe a cantarolar enquanto acendia o lume da ceia. Ouço o chiar da porta. Sinto o fogo a estalar, como se tivesse algo para me dizer.
E percebo que tudo isso – o que vivi, o que perdi, o que ficou – continua dentro do meu coração. Não como peso, mas como raiz.
Aqui no meu Alentejo, o passado não se despede. Fica entranhado na terra, no silêncio, no corpo. Fica no modo como abrimos a porta, como pousamos o olhar, como caminhamos devagar para não assustar o tempo.
Tal como os sulcos da terra lavrada, também as memórias desenham caminhos dentro de mim. Umas chegam nítidas; outras, baças como fotografias antigas guardadas numa caixa de sapatos. Mas todas têm lugar. Todas me lembram que sou feito de instantes que me ficaram agarrados à pele.
E então entendo: este silêncio é um amigo discreto, quase tímido, que se senta comigo nos dias cinzentos e murmura: “Olha o que viveste. Olha o que te fez ser quem és.”
O passado não é um poço onde a alma se perde. É o campo onde se semeia o presente. E cada memória, boa ou dura, é uma pedra da calçada que me trouxe até aqui.
Por isso, quando a tarde cai e o dia se recolhe, deixo que o silêncio me abrace.
Não para me prender, mas para me lembrar que sou feito de tempo, de encontros, de despedidas, de risos que ainda ecoam.
Sou feito daquilo que permanece, mesmo quando já partiu.

José Coelho

O silêncio também pode ser casa

Durante muito tempo, o silêncio da Beirã pesou-me. Era um silêncio diferente daquele da infância, mais denso, mais vazio, mais cheio de ausências. As ruas sem gente, as janelas sem luzes acesas, os campos sem crianças a correr… tudo isso parecia dizer-me que o mundo tinha encolhido.
Mas um dia, sem aviso, percebi que o silêncio não era inimigo. Era espelho.
O que me doía não era a aldeia, era a minha forma de a ver. Eu procurava nela o bulício antigo, as vozes que já não voltam, o cheiro das cozinhas cheias, o fumo das chaminés ao fim da tarde. E porque não os encontrava, sofria.
Hoje, porém, aprendi outra coisa: o silêncio também pode ser casa.
É no silêncio que releio a minha vida. É no silêncio que encontro paz. É no silêncio que percebo que a Toca dos Coelhos não é apenas um lugar, é o símbolo de tudo o que construí com esforço honrado, com poupanças contadas, com tijolos pagos um a um e o apoio da “minha” Maria Manuela sempre ao meu lado.
O silêncio já não me rouba nada. Devolve-me.
Devolve-me ao homem que aprendeu a aceitar. Devolve-me ao avô que sabe que a vida continua nos filhos e nas netas. Devolve-me ao marido que descobriu que ainda há tempo para viajar, para ver o mundo, para viver com leveza.
O silêncio, afinal, não é ausência.
É espaço. É chão. É casa.

A luz antiga da minha casa

A minha cozinha fumeiro não é apenas uma divisão do quintal. É um pedaço vivo da minha história, da história dos meus pais e avós, da própria alma do Alentejo onde nasci e cresci. Sempre que entro nela, sinto que atravesso uma porta que me leva a tempos em que a vida era dura, simples e profundamente humana.
No meu Alto Alentejo, mesmo as casas pobres faziam a matança. Engordava-se o porco com os sobrantes das hortas e com as bolotas que nós, miúdos, íamos apanhar pelos caminhos. Era o porco que alimentava a família o ano inteiro, e por isso todas as casas tinham uma divisão ao lado da habitação para curar os enchidos: paios, morcelas, farinheiras, chouriços. Essa divisão chamava-se cozinha fumeiro. E era ali, no fumo lento e constante, que se guardava o sustento da casa.
As donas de casa, práticas e sábias, aproveitavam essa divisão para cozinharem durante todo o ano. Assim mantinham arrumada e limpa a cozinha principal, que em noventa por cento das casas era também a sala de visitas. O resto das divisões eram quartos para os ranchos de filhos que cada família tinha. A cozinha fumeiro era, portanto, o coração laborioso da casa: onde se cozinhava, onde se curava, onde se conversava, onde se vivia.
A minha cozinha fumeiro nasceu de um pedido do meu pai, o ti António Coelho. Quando remodelámos a Toca dos Coelhos, o quintal ficou cheio de sobras: telhas mouriscas, barrotes, tábuas, restos da casa antiga. Um dia, ele pôs-me a mão no ombro com aquela voz doce de quem pede rebuçados e disse: “Ó Zé… faz-me uma cozinha no quintal com chaminé como a que tínhamos na nossa casa.”
E eu fiz. Fiz com amor, com respeito, com a cumplicidade que sempre nos uniu. Fiz para lhe dar um lugar onde pudesse sentar-se no seu banquinho de madeira, atiçar o lume, aquecer-se e fumar o seu cigarrito como fazia na casa antiga.
Hoje, essa cozinha é também um pequeno altar de memórias. À esquerda da estanheira está a candeia de azeite da minha avó Amélia, que ela usou toda a vida na pequena sócha onde cozinhava. À direita, o candeeiro a petróleo que iluminou os serões da avó Amélia e do avô Zé Lourenço, luz sob a qual fiz os meus trabalhos da escola e li muitos dos livros que me formaram.
As minhas netas olham para essa luz com reverência quando a invernia corta a eletricidade, e eu lhes digo: “Olhem, filhas… o avô estudava à luz desse candeeiro.”
A estanheira, herdada da minha sogra, guarda os pratos de barro de São Pedro do Corval, pintados à mão, que comprei quando fui dar formação a Reguengos de Monsaraz. Cada peça tem uma história, uma origem, uma mão que a moldou. A arca de castanho, os alguidares da matança e as tábuas de tender o pão antes de o meter ao forno, eram da minha mãe.
Os dois banquinhos rústicos de madeira eram onde se sentavam ao lume o meu pai e o pai dele, o avô Faustino Coelho.
E assim, esta cozinha fumeiro é mais do que uma divisão. É a casa dentro da casa. É o lugar onde o passado continua aceso. É o sítio onde a luz antiga ainda vive, e onde eu, sempre que lá entro, sinto que volto a ser filho, neto, menino.
José Coelho

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Caminhos que me chamam pelo nome

Há caminhos que me chamam pelo nome. Não são estradas, não são trilhos, são direções interiores. São aqueles momentos em que sinto que ainda tenho mundo para andar, mesmo que os passos já não sejam tão rápidos como antes.
Saio de casa e olho a aldeia como quem olha um mapa antigo. Cada rua é uma história. Cada esquina é uma escolha. Cada sombra é uma memória que me acompanha como um cão fiel.
E enquanto caminho, percebo que não é o destino que importa, mas sim o movimento. É o gesto de avançar, mesmo devagar. É o corpo a dizer “ainda posso”. É a alma a responder “ainda quero”.
O caminho não me exige força, exige presença. Quer que eu o veja. Quer que eu o sinta. Quer que eu o respeite.
E eu respeito. Respeito o que já percorri. Respeito o que ainda falta. Respeito o que nunca vou percorrer, mas que vive dentro de mim como possibilidade.
Há dias em que o caminho me chama pelo nome para me lembrar de uma coisa simples: a vida não acabou, está a continuar. Continua nos gestos pequenos. Continua nas pessoas que amo. Continua na casa que respira comigo.
Continua na aldeia que me conhece desde sempre. Continua em mim, enquanto eu continuar a caminhar.
E nesses instantes sinto uma gratidão que não cabe em palavras, mas que cabe no passo seguinte.
José Coelho

Quando o dia me ensina a ser simples

Há dias em que a simplicidade me chama como quem chama um velho amigo. Não é uma voz, não é um gesto, é uma espécie de claridade que se instala dentro de mim e me diz que não preciso de mais nada além do que já tenho.
Acordo e sinto que o mundo está menos complicado. O café sabe ao que deve saber. O pão tem o peso certo na mão. A casa não exige nada de mim, apenas presença.
Saio para o quintal e vejo as plantas como quem vê pessoas. Cada uma com o seu ritmo, cada uma com a sua teimosia, cada uma com a sua maneira de pedir água. E enquanto rego, percebo que a vida é isto: cuidar do que cresce, aceitar o que não cresce, agradecer o que insiste em ficar.
A simplicidade não é pobreza, é riqueza sem barulho. É saber que o essencial cabe numa manhã. É perceber que a felicidade não está nos grandes acontecimentos, mas nos pequenos instantes que ninguém fotografa.
Ao longo do dia, o mundo tenta complicar-me. Telefonemas, notícias, preocupações que chegam sem serem convidadas. Mas há dias em que eu digo não. Não à pressa. Não ao ruído. Não ao excesso.
E nesse não, encontro um sim maior: o sim à vida que se vive devagar, o sim ao que realmente importa, o sim ao que me devolve ao meu centro.
Quando o dia me ensina a ser simples, eu aprendo. E aprendo sempre a mesma lição: a paz não está longe, está aqui, ao alcance da mão, dentro da casa, dentro da aldeia, dentro de mim.

José Coelho

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Aprendi a olhar para trás sem me perder

Há um momento na vida em que o passado deixa de ser peso e passa a ser chão. Não acontece de repente, é uma mudança lenta, quase imperceptível, como a luz que entra pela janela antes de o sol nascer.
Durante anos olhei para trás com uma mistura de saudade e dor, como quem revisitava uma casa onde faltavam vozes. Hoje, porém, aprendi a olhar, sem me perder.
O passado já não me prende, acompanha-me. A pobreza extrema, o trabalho duro, o silêncio das noites de inverno, tudo isso deixou marcas sim, mas marcas que não ferem.
São cicatrizes que contam histórias, não feridas abertas. E quando releio textos antigos, percebo que já não sou o mesmo homem que os escreveu.
Sou o mesmo, mas sendo outro.
A infância continua a ser o meu alicerce. Vejo-me a correr pelos campos, a ouvir o ribeiro da Cavalinha, a sentir o cheiro da sopa de legumes feita no lume de chão, mas já não olho para esses dias com a nostalgia pesada de quem perdeu algo.
Olho com gratidão. Olho com ternura. Olho com a certeza de que tudo o que fui me trouxe até aqui.
O passado deixou de ser um lugar onde eu ficava preso e agora é apenas um lugar onde passo devagar, com respeito, com amor, antes de seguir caminho.
E nesse gesto simples, encontro uma liberdade que não conhecia.

José Coelho