Para que conste, esta minha fotografia foi deliberadamente feita agora mesmo para aqui ser ser colocada, dando a cara pelo que vou escrever e assinar, acerca do que penso e sinto, porque nunca me escondi ou esconderei sob pseudónimos ou outras subtis formas de cobarde anonimato.
Até à integração de Portugal na então CEE, a minha Beirã sempre foi uma aldeia linda e cheia de vida, trabalho e futuro, para centenas de pessoas, de onde ninguém precisava migrar ou emigrar, porque aqui e em tudo à volta havia trabalho para toda a gente.
Nasci nesta aldeia, freguesia e concelho e cá moro ainda setenta e quase quatro depois. Mas quem me dera não morar, porque é muito certo aquele ditado que diz que "penas que não se vêem, não se sentem". E ver morrer a minha terra antes de mim, é contranatura.
Fui aqui tão feliz no meio da maior humildade, tão mais feliz do que sou hoje no meio desta abundância podre que dá tudo a alguns e quase nada à maior parte.
A Beirã sempre foi maioritariamente rural porque 60% das pessoas eram camponeses. Porém, ironia do catano, éramos tão mais felizes! Qualquer gaiato assim que saía da escola com a 4ª classe feita ia trabalhar no dia seguinte como aconteceu comigo, para ajudar nas despesas da casa e para aprender a ser adulto.
Hoje, nesta liberdade que cada vez entendo menos por ver esquecidos todos os valores que aprendi na ditadura, ensinados pelos meus pais e avós apesar de analfabetos. Os filhos são hoje dependentes dos pais até aos 30 anos – alguns a vida toda – seja para acabarem os cursos superiores, seja por não quererem trabalhar e preferirem viver à pala dos velhos.
Proibiram-se os jovens de trabalhar enquanto menores por terem de fazer a escolaridade obrigatória e continuarem depois os estudos para engenheiros ou doutores e assim passarem os tais 30 anos – no mínimo – a expensas dos pais, mas que, depois de um montão de dinheiro por eles gasto, muitas vezes não fazem nem ideia onde aplicar a engenheirice ou doutorice a não ser que tenham algum padrinho que lhes arranje um tacho, preferencialmente na política.
Quando era jovem havia tantos perigos à espreita em todas as esquinas – nunca os vi, mas pronto – que não se podia falar ou escrever tudo o que a gente pensava como eu estou a fazer neste momento, porque ia logo preso. Mas havia respeito, educação, honestidade, princípios e valores que em nome da liberdade foram convenientemente passando de moda.
E deram lugar a esta nova forma de convivência em sociedade na qual para se ter sucesso é necessário fazer uso de malabarismos como a corrupção, o compadrio, o oportunismo, a falta de ética, a desonestidade, a falsidade e muitos outros argumentos sujos.
Os alunos respeitavam e os pais confiavam nos professores. Hoje os alunos batem-lhes e os pais movem-lhes processos por danos morais se ousarem proibir os seus meninos de, por exemplo, brincarem com o telemóvel numa aula.
Na minha aldeia havia tanta gente e tantas crianças que em vez de uma, havia duas escolas. Para ser ainda mais direto, havia cá de tudo. Ninguém precisava de sair daqui o ano inteiro para ter tudo quanto precisava para viver tranquilamente. Nem sequer faltava trabalho, desde cavar à enxada no campo até aos senhores doutores da alfândega da Estação.
Convido quem quiser vir ver o que temos cá hoje, o que o progresso da CEE trouxe à minha terra, à minha freguesia e ao meu concelho. Tudo o que eram postos de trabalho e atividades económicas desapareceu. Nem uma triste lojinha existe já para comprar um pacote de sal.
Porque, para vender uma garrafa de óleo, uma lata de feijão ou um quilo de açúcar nas aldeias do interior profundo, qualquer loja, tal como as de Lisboa ou Porto, tem de ter, entre outras obrigatoriedades, balcões e prateleiras de aço inoxidável e arcas frigoríficas.
É minha profunda convicção que os ilustres senhores governantes dos últimos 50 anos conseguiram dividir o meu país em várias classes, de um extremo ao outro. Oito para uns, oitenta para os outros, no que toca a direitos fundamentais. Existe hoje um país de 1ª classe para os privilegiados com chorudos ordenados e mordomias sem fim. Os CEO's, os Administradores e similares, e, obviamente, a classe política que tratou de legislar nesse sentido em sede própria e em seu próprio proveito.
Também os seus protegidos prosperam mais. Fortunas que vão surgindo ninguém sabe de onde, nem como. Muitas delas, dizem as más-línguas, foram conseguidas à custa de esquemas ardilosos que captam os milhões vindos de Bruxelas e só são acessíveis a um punhado de eleitos, mas sempre os mesmos.
Porém e porque são precisos votos, alguma da raia miúda também vai debicando aqui e ali pequenas migalhas, para, em tempo oportuno, não se esquecer de votar e de também angariar votos a quem lhas concedeu. Essa é a 2ª classe que mama daqui e dali porque é familiar, amigo, afilhado ou protegido de algum "colarinho branco".
A 3ª classe é para quem não passa ainda fome e tem uma vida assim assim, nem carne, nem peixe comámim, que usufruo de uma pensãozeca mais ou menos, apesar de o fisco ter inventado descontos tais que retém logo à cabeça um terço da mesma!
De 4ª classe em diante são a esmagadora maioria dos portugueses de hoje, infelizmente. Desemprego, pensões miseráveis, precaridade, dívidas, fome em muitas casas num desinteresse vergonhoso, ultrajante e indigno, de quem tem o poder de fazer mais e melhor por TODOS os Portugueses e não apenas por alguns, e, pior ainda, os tais mesmos de sempre.
Alguns, muitos mesmo e à semelhança dos anos 60 – como fez a minha irmã Maria da Luz e o meu cunhado António Zacarias – debandaram para o estrangeiro com filhos e netos.
Provavelmente muitos nunca mais voltarão a este país que a incompetência dos seus governantes tacitamente expulsou. Já não acreditam na democracia, na liberdade, no 25 de abril. Porque nada de bom trouxe às suas vidas. Hoje este país é uma pálida sombra daquilo que nos foi profusamente prometido em 1974.
Perseguiu-se e acossou-se tanta gente de todas as formas porque eram da pide, porque eram fascistas, porque eram cobras e lagartos. Hoje vemos, ouvimos e lemos, todos os dias, barbaridades cometidas em prejuízo de milhares de pessoas, desde falência de bancos a empresas que todos os dias engrossam o rol de famílias sem o seu ganha-pão, esquemas esquisitos de enriquecimento ilícito que lesaram e lesam ainda o erário público.
E ninguém é responsabilizado por isso!
É fácil pedir sacrifícios aos outros, quando se tem uma conta choruda no banco, automóvel e motorista por conta do estado, cama, mesa e roupa lavada, mais um ordenado de vários milhares de euros por mês. É fácil cortar no acesso aos cuidados de saúde de cidadãos maioritariamente carentes por velhice ou invalidez, quando se tem dinheiro para levar a família toda aos hospitais particulares onde são imediata e convenientemente atendidos.
É ainda também muito fácil falar de fome, quando se tem a barriga cheia. Sinto vergonha de ter nascido num país que gerou gente assim, porque tenho plena consciência de ter cumprido com dedicação e lealdade todos os meus deveres cívicos e profissionais. Durmo por isso todas as noites em paz comigo e com o mundo inteiro, mas sinto pena de ter ensinado os meus filhos a serem homens honestos, íntegros, sérios e decentes, porque sei que assim eles nunca se irão safar.
Quem não gostar, ponha no bordo do prato.