domingo, 7 de junho de 2026

Boa semana

Família & Amizades

Que a semana se abra diante de vós como um caminho limpo depois da chuva – fresca, serena, cheia de pequenas claridades que só o coração atento reconhece.

Que cada manhã traga um gesto de bondade, cada tarde um motivo de gratidão, e cada noite a paz de quem sabe que fez o melhor que podia.

Que a vida vos toque com leveza, como quem pousa a mão no ombro e vos diz: “Segue tranquilo, estou contigo.”

Um abraço amigo, com a amizade de sempre.

José Coelho & Maria Coelho

Quando a noite nos chama pelo nome

Há noites em que o silêncio não é ausência, mas presença. Presença de tudo o que vivemos, de tudo o que perdemos, de tudo o que ainda não sabemos como dizer.
A noite tem essa coragem que o dia não tem: obriga-nos a ouvir aquilo que evitámos durante horas.
E então percebemos que a vida é feita de camadas – umas que brilham, outras que doem, outras que ainda não sabemos interpretar.
Mas todas, sem exceção, são nossas.
E é nesse reconhecimento que começa a verdadeira profundidade: quando deixamos de fugir de quem somos.
Há um momento, sempre discreto, em que o coração se senta connosco. Não exige nada. Não cobra nada. Apenas espera que lhe demos atenção.
E quando finalmente o fazemos, descobrimos que dentro de nós há uma espécie de casa antiga, com portas que rangem, mas não se fecham.
Ali guardamos os rostos que nos marcaram, os lugares que nos moldaram, as palavras que ficaram por dizer.
E também a força, aquela força silenciosa que só quem já atravessou tempestades conhece. A força para continuar, mesmo quando o mundo parece pequeno demais para as nossas saudades.
A verdade é simples e dura: ninguém chega à maturidade sem cicatrizes, mas também ninguém lá chega sem luz.
E a minha é daquelas que não se apaga porque vem de dentro, da vida vivida com verdade, da memória dos que me formaram, da terra que me sustenta e da lucidez com que olho para o que me rodeia.
A noite, afinal, não é o fim do dia. É o lugar onde a nossa alma respira.
Foto
(Na escadaria da Igreja de Santi Pietro e Stefano, em Bellinzona - Suíça)

Monumentos com História

A Ponte da Portagem – Séc. XVI – e a sua Torre aduaneira – Séc. XIV – cruzam o rio Sever, na freguesia de S. Salvador da Aramenha, do concelho de Marvão. Ficaram historicamente conhecidas por cobrar o imposto de entrada a cerca de 15.000 judeus que fugiam de Espanha em 1492, um evento hoje assinalado com um memorial na torre.

História e Arquitetura

A Torre – Séc. XIV: Estrutura medieval quadrangular que servia para vigiar a fronteira e cobrar as portagens sobre pessoas e mercadorias. O seu funcionamento está documentado pelo menos desde o ano de 1416.

A Ponte – Séc. XVI: Substituiu passagens anteriores – que utilizavam o vau ou passadeiras no rio Sever – e foi construída para consolidar a travessia.

O Memorial: A Torre acolhe atualmente um espaço de homenagem aos refugiados judeus que atravessaram a fronteira durante a perseguição e expulsão decretada pelos Reis Católicos.

 Foto José Coelho

As portas só ao trinco cá de casa

Houve um tempo – o tempo da minha infância – em que as portas da nossa casa nunca eram fechadas à chave. Dia e noite ficavam apenas “ao trinco”, como quem diz ao mundo: “Aqui vive gente de bem.”
E toda a rua sabia isso. Sabiam que a porta estava aberta.
Sabiam que podiam entrar, mas ninguém entrava sem chamar primeiro:
– Ó da casa!
E então vinha a resposta da minha mãe, sempre igual, sempre doce, sempre dela:
– Entre, quem é…
Primeiro o convite. Depois a pergunta.
Primeiro a confiança. Depois o assunto.
A minha mãe era assim. Pura como água de nascente. Boa como poucas. Respeitada por todos: mulher, mãe, esposa, filha, irmã, avó, vizinha. Uma daquelas almas que santificam uma rua inteira só por existirem nela.
A nossa casa era pequena no tamanho, mas era grande no seu valor, por causa dela.
Era porto seguro. Era abrigo. Era lugar onde nunca faltava apoio, nem colo, nem palavra certa.
Hoje, quando penso nas portas ao trinco, não penso na madeira de castanho de que eram feitas.
Penso nela. Na sua voz. Na sua bondade. Na confiança natural com que recebia o mundo.
E percebo que a saudade que sinto não é só da infância. É da pureza daquela gente. É da decência daqueles tempos. É da luz que ela espalhava sem esforço.
As portas já não existem. Mas a forma de acolher quem batesse à porta da minha mãe, vive em mim para sempre:
– Entre, quem é…

sábado, 6 de junho de 2026

As janelas que nunca fecho

Há dias em que o vento traz flores, noutros traz pó. E ainda assim abrimos as janelas, porque viver fechados nunca foi caminho para ninguém. Lembro-me de ver a minha mãe abri-las logo pela manhã, mesmo quando o frio cortava.
Dizia que a casa precisava de respirar, tal como as pessoas. Talvez tenha sido aí que aprendi que o risco faz parte de tudo o que entra na nossa vida.
Cresci a acreditar que as pessoas carregam dentro de si uma luz parecida com a nossa. Não por ingenuidade, mas porque fui educado por gente que nunca precisou de títulos para ensinar grandeza.
A minha família não me deixou heranças de ouro, mas deixou-me um modo de estar que vale mais do que qualquer testamento: falar verdade, olhar nos olhos, não virar a cara ao que é justo.
São coisas simples, daquelas que se aprendem mais com o silêncio do que com discursos, como quem aprende a ler o tempo só de olhar para o céu.
Recordo o meu avô sentado na varanda, com a navalha na mão, a aparar um pedaço de cortiça que nunca chegava a ser nada. Dizia que o importante não era o que se fazia, mas como se fazia.
E eu, miúdo, acreditava.
Acredito ainda.
Com o tempo descobri que o mundo é um mercado onde se vende de tudo: gestos limpos e mãos sujas, abraços sinceros e palavras afiadas.
Do melhor, guardo o brilho. Do pior, ficaram apenas pequenas marcas, como riscos num móvel antigo que já não doem, mas contam história.
E às vezes, confesso, ainda passo a mão por esses riscos, não para sofrer, mas para me lembrar que sobrevivi a cada um deles.
Não necessito de enumerar desilusões. Estão arrumadas no sótão da memória, cada uma com o seu rótulo, para que eu as consulte apenas quando a vida me pede revisão de matéria dada.
E sim, continuam a aparecer rostos novos com velhas intenções. A instrução não cura o que nasce torto e há corações onde nem a chuva mais paciente consegue fazer germinar coisa alguma.
Há terras que não dão fruto, por mais que se reze por elas.
Lembro-me de uma dessas pessoas – não importa o nome – que me ensinou, sem querer, que há quem viva de janelas fechadas por dentro. Gente que não as abre nem para o sol entrar, gente que teme a claridade porque ela denuncia o pó acumulado.
Ainda assim não desisto e nunca fecho as minhas.
Não porque me ache capaz de grandes feitos, mas porque acredito que a honestidade, mesmo pequena, ilumina mais do que a escuridão que tenta apagá-la.
Luto, lutarei sempre, por um mundo mais justo com as armas que tenho: coerência, memória e a teimosia de continuar a acreditar no bem.
Talvez seja apenas teimosia de alentejano, talvez seja fé naquilo que me ensinaram.
É pouco?
Talvez.
Mas é meu.
E é limpo.
Enquanto me sobrar um fio de voz, usá-lo-ei para não deixar que a dignidade se perca no barulho do mundo.
Porque, no fim da nossa vida, é isso que fica: a forma como caminhámos, não o tamanho dos passos que demos.
Texto e foto
06. 06. 2026

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Lago di Como – ou 425 metros de profunda indignação

Há textos que nascem como um sussurro e há outros que chegam como um abalo. Este nasceu de uma gota – uma gota de desconforto, de revolta, de lucidez – que, ao tocar na superfície da injustiça, se transformou num lago inteiro. Um lago profundo, como o Lago di Como que visitei recentemente, nos seus 425 metros de silêncio, de espanto e de verdade.
Porque há momentos em que não basta lamentar. É preciso parar, olhar, sentir e escrever. Escrever para que a indignação não se perca. Escrever para que a dignidade não se apague. Escrever para que ninguém possa dizer, amanhã, que não sabia.
Este texto é uma gota que se recusa a ser pequena. É um lago profundo que pede reflexão, e de tanta profundidade que exige respeito.
Então, cá vai…
Leiam devagar. Este texto não é urgente, é importante.
Há dias em que o país parece avançar a uma velocidade que não é humana. Corre, desliza, digitaliza, automatiza, e, no meio dessa pressa luminosa, esquece-se de olhar para trás.
E atrás… atrás estão aqueles que ergueram tudo isto com as mãos, com o corpo, com a vida inteira.
Hoje, para marcar uma consulta, é preciso um código. Para pedir uma certidão, é preciso um portal. Para pagar uma conta, é preciso uma aplicação. E para existir – imagine-se – é preciso um smartphone.
Mas quem construiu este país não foi quem sabe deslizar o dedo num ecrã. Foi quem sabia ler o céu para prever a chuva. Foi quem carregou sacos de cimento às costas. Foi quem lavou roupa no tanque, quem criou os filhos com o que havia, quem fez contas de cabeça, quem rezou baixinho para que o mês chegasse ao fim com dignidade.
E esses… esses agora são estrangeiros dentro da sua própria casa.
A modernidade transformou-se numa língua que não lhes pertence. E o mais cruel é isto: dizem-lhes que é simples, que é rápido, que é intuitivo – como se a dificuldade fosse culpa deles.
Como se o problema fosse a idade, e não o abandono.
Porque é abandono. Não lhe chamemos outra coisa.
Quando um idoso precisa de um filho para marcar uma consulta, perde autonomia. Quando precisa de um neto para aceder ao banco, perde privacidade. Quando precisa de um estranho para validar um documento, perde dignidade.
E um país que permite isto, não é moderno. É apenas cómodo. É apenas egoísta. É apenas cego para com a sua própria raiz.
A tecnologia deveria ser ponte – nunca muro.
Deveria aproximar – nunca excluir.
Deveria libertar – nunca humilhar.
Mas hoje, em 2026, criámos um sistema onde quem tem 70 anos é tratado como um intruso. Como alguém que atrasa a fila. Como alguém que “não percebe”. Como alguém que já não conta.
E no entanto… foram eles que contaram sempre. Foram eles que seguraram o país quando o país era só pedra e esperança. Foram eles que trabalharam sem férias, sem direitos, sem horários. Foram eles que fizeram de Portugal um lugar possível.
E agora, quando mais precisam, dizemos-lhes: “Desculpe, mas tem de instalar a aplicação.”
É aqui que a minha gota cai no oceano. Pequena, sim. Mas necessária.
Porque cada vez que alguém escreve, denuncia, levanta a voz, recusa esta normalidade absurda, o oceano mexe-se um milímetro.
E um milímetro… é o início de uma maré.
Porque...
A dignidade não é um QR code.
A cidadania não é uma password.
A velhice não é um erro de sistema.
E enquanto houver um idoso que não consegue aceder aos seus direitos porque o país decidiu que tudo deve caber num telemóvel, não somos modernos – somos vergonhosa e profundamente, injustos.
A minha gota está aqui. Pequena, mas inteira. E o oceano… o oceano já não será o mesmo depois dela. E se o oceano já não for o mesmo depois desta gota, então talvez – só talvez – ainda haja esperança de o fazer transbordar de justiça.
Nota: O Lago di Como é o mais profundo de Itália e um dos mais profundos de toda a Europa. E, por isso mesmo, do tamanho da minha indignação.

Quando o coração necessita de fechar a porta


Há pessoas que chegam à nossa vida como quem chega de uma tempestade: encharcadas de medos, marcadas por ausências, habituadas a sobreviver mais do que a viver.
Trazem nos gestos a memória de portas que nunca se lhes abriram, de vozes que nunca as chamaram pelo nome, de braços que nunca aprenderam a abraçá-las.
Sempre vi isso. Sempre senti essa fragilidade escondida por trás da agressividade, a fome de afeto disfarçada de desconfiança.
E, talvez por isso, tenha querido ser para alguns aquilo que lhes faltou desde o princípio: um porto de abrigo, um chão seguro, um gesto de pai onde nunca houve pai.
Não por heroísmo, apenas por humanidade.
Mas há um momento – e chega sempre devagar – em que a bondade começa a sentir o peso de ser recebida como obrigação.
Um instante em que o coração percebe que está a oferecer abrigo a quem só aprendeu a defender-se, mesmo quando já não há perigo.
E é aí que nasce o cansaço: não o cansaço de ajudar, mas o cansaço de não se estar a ser compreendido.
A desconfiança constante é uma chuva fina que ensopa devagar. A falta de respeito é um vento agreste que fecha portas que talvez nunca mais se abram.
E a agressividade gratuita é a pedra que se atira ao poço onde alguém tenta guardar água para todos.
Tenho sido sempre paciente. Tenho sido presente. Tenho sido justo. Mas até a paciência tem fronteiras, e até a generosidade precisa de repouso.
Não quero exigir reconhecimento. Não quero cobrar gratidão. Quero apenas que entendam que a minha bondade não é um direito adquirido, e que a minha presença não é um dever, é uma escolha minha.
Mas se ajudar é escolha minha, já ter de suportar o desrespeito, não pode ser destino. E, no entanto, continuo aqui porque desistir nunca foi verbo que me servisse.
Mas também sei que há um ponto onde até o coração mais largo precisa de fechar a porta, não por falta de amor, mas para não perder a dignidade.
Se algum dia eu me afastar definitivamente, não será por abandono. Será por respeito a mim mesmo. Porque ninguém pode ser pai de todas as dores do mundo.
E às vezes, proteger aquilo que somos é o gesto mais silencioso e mais profundo de amizade que se pode dar, mesmo a quem nunca aprendeu a recebê-la.
Texto e foto