quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Quando a minha Mãe ainda me reconhecia

Há memórias que não se contam para comover. Contam-se para acordar. Para iluminar. Para lembrar aos distraídos que a velhice não é um fim, é um capítulo que exige mais delicadeza do que força.
Eu tive a honra, e digo honra sem hesitar, de cuidar dos meus pais e dos meus avós até ao último dia. Não por obrigação. Não por dever. Mas porque era ali, naquele cuidado, que se revelava a verdade inteira do amor.
E houve um momento – desses que nos ficam gravados na pele – que ainda hoje me acompanha como uma espécie de bênção dolorosa.
A minha mãe vivia já mergulhada na demência. A doença tinha-lhe roubado quase tudo: a autonomia, a memória, a lógica dos gestos, a capacidade de colaborar. Mas não lhe tinha tirado a alma. Essa, resistia.
Havia dias em que ela se recusava a deixar-se tratar. Fechava-se, refilava, afastava as mãos, perdia-se num medo que não sabia explicar. E eu, exausto, impotente, sentia o peso do mundo nos braços.
Até que um dia, no meio daquela luta, chorei. Chorei abraçado a ela, como um filho que volta a ser pequeno. E balbuciei quase sem voz aquilo que me saía do fundo da alma:
– Perdoa-me, mãe… faço o que posso e não sei fazer melhor.
E foi então que aconteceu o impossível.
Perdida na nebulosidade da demência, ela entendeu o meu choro. Abraçou-me também. Chorou comigo. Acalmou. E deixou-se cuidar.
Ali, naquele instante, não estava a doença. Estava a mãe. A minha mãe inteira. A que me embalou, a que me protegeu, a que me conhecia para lá das palavras. A que, mesmo sem memória, ainda sabia quem eu era, não pelo nome, mas pelo coração.
E é por isso que digo, com a serenidade de quem o viveu: a dignidade não desaparece. Mesmo quando a lucidez se perde. Mesmo quando o corpo falha. Mesmo quando a mente se desfaz como papel molhado.
A dignidade permanece. Permanece no olhar. Permanece no toque. Permanece no amor que ainda reconhece o amor.
Cuidar de um velho não é um ato técnico. É um ato moral. É um espelho onde vemos quem somos. É o momento em que devolvemos – com juros – tudo o que recebemos.
E quem nunca viveu isto talvez não entenda. Mas quem viveu sabe: a velhice não é decadência. É verdade. É o lugar onde o amor se mostra sem adereços, sem máscaras, sem ilusões.
Eu sabia a mulher e mãe que tive. E sabia a mulher e mãe que ali estava agora. E amei-as às duas – a de antes e a de depois – com a mesma reverência.
Porque a dignidade não é negociável. E quando a respeitamos, mesmo no limite, mesmo na dor, mesmo na demência… iluminamos o mundo.

A Heravirgém e o milagre das estações

Há uma parede em Santo António das Areias que me acompanha como um velho segredo. No verão passo por ela quase sem dar por isso: está coberta de verde, discreta, fresca, como uma sombra que se encosta à rocha para fugir ao calor.
Mas quando chega o outono, a Heravirgém transforma-se diante de mim, e eu, que a conheço há tantos anos, fico sempre surpreendido como se fosse a primeira vez.
As folhas mudam devagar, primeiro um rubor tímido, depois um vermelho que se espalha como fogo manso. É uma combustão silenciosa, dessas que a natureza faz sem pedir testemunhas.
E eu paro.
Paro sempre. Porque há coisas que não se devem atravessar com pressa e esta trepadeira é uma delas.
A pedra e o saibro tornam-se altar e a Heravirgém, com o seu manto ardente, parece celebrar um rito antigo: o da despedida. O outono, ali, não é decadência, é revelação.
É o instante em que a natureza nos mostra que a beleza também vive na mudança, que o mundo é digno de louvor mesmo quando se prepara para adormecer.
Quando fotografei esta parede senti que estava a guardar mais do que uma imagem. Guardei um gesto da terra, uma respiração do tempo, uma lição que me acompanha: ver é diferente de olhar.
Olhar é passar; ver é permanecer.
E eu permaneço.
Permaneço sempre que passo, na Avenida Dr. Manuel Magro Machado onde a Heravirgém me recorda que a vida tem esta capacidade de se reinventar em silêncio, sem alarde, sem anúncio, apenas com cor.
Talvez seja por isso que gosto tanto do outono: porque nele encontro esta dignidade tranquila, esta nostalgia que não dói, esta promessa de que tudo o que muda pode ser belo.
E a Heravirgém, fiel ao seu destino, continuará a pintar o muro enquanto houver pedra para abraçar e luz para se despedir.
Texto e foto

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O outro lado da vedação


Há uma linha verde que separa o meu quintal do mato que se estende por três quilómetros de raia e solidão até Espanha. Não pretende ser muro nem fronteira, apenas uma discreta vedação erguida sobre a secular parede que divide a minha propriedade da Tapada da Rabela.

De um lado o nosso cuidado: os pratos com sobras de comida, as cascas de fruta em pedacinhos, o pão já duro, e a ternura que a Maria Manuela põe em tudo o que toca.

Do outro lado e mal anoitece, o rumor dos javalis, das raposas, dos ginetes e saca-rabos que pontualmente se apresentam, certos de que por aqui encontrarão sempre algum alimento.

Ouço-os chegar como quem escuta velhos vizinhos amigos. Os javalis farejam o ar com a solenidade, as raposas avançam com a tímida cautela de quem não quer assustar, os ginetes movem-se como sombras antigas da serra e os saca-rabos surgem e desaparecem como os segredos da noite.

E eu aqui, não como dono do quintal, mas como guardião de uma convivência que só existe onde o coração a sabe escutar.

A Maria Manuela – exatamente como já a minha mãe fazia – cumpre o seu ritual com a paciência de quem conhece o valor das pequenas coisas: parte, separa, distribui. E ao vê-la, lembro-me de como a Beirã foi sempre este lugar onde as fronteiras nunca serviram para separar, mas para lembrar que tudo o que vive tem direito ao seu espaço, ao seu silêncio, ao seu pedaço de mundo.

Talvez seja por isso que a vedação me inspira.

Cresci a ver a fronteira que se atravessava com coragem e silêncio, porque, mesmo ao cantinho da parede deste quintal, era o saltador da vereda para os homens que iam e vinham na noite com passos leves sobre a terra, no contrabando que era sobrevivência, risco, mas também cumplicidade.

E agora, tantos anos depois, são animais selvagens, perante a escassez de alimento que atravessam a sua própria fronteira, não para fugirem, mas porque confiam. Na Beirã até os bichos sabem que ainda há mãos amigas. Sabem que do lado de cá ninguém levanta muros, levanta gestos.

E nesses gestos a aldeia continua a respirar dia após dia, como se dissesse ao mundo: “Do outro lado das vedações também há vida, também há fome, também há necessidade de ajuda.”

Dou por mim a pensar que a minha vedação não separa nada, apenas recorda que o mundo é maior do que o nosso quintal e que a solidariedade, quando é verdadeira, passa sempre para o outro lado.

José Coelho
Texto e foto

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Crónicas da Beirã – O homem que sabia o tempo

Na minha infância, conheci pessoas que não precisavam de relógio para saberem as horas. Sempre houve na Beirã homens que liam o tempo como quem lê a terra, com uma precisão que não vinha de estudos, mas da vida.
Um desses homens era conhecido por todos, não só pelo nome, mas também pelo modo como caminhava. Era o meu Pai.
Caminhava devagar. Não por cansaço, mas por jeito. Era daqueles que acordava antes da luz, que sabia quando o vento ia virar, que distinguia o canto de cada ave como quem distingue vozes de família.
E tinha uma habilidade rara: sabia exatamente quando era tempo de fazer cada coisa. Tempo de semear. Tempo de regar. Tempo de esperar. Tempo de colher. Tempo de calar. Tempo de falar. Nunca se enganava.
Dizia que tinha aprendido tudo com o pai, que por sua vez aprenderam com o avô e que assim se passava o saber de mão para mão, de gesto para gesto, sem livros, sem teorias, sem discursos. Apenas vida.
Eu lembro-me de o ver muitas vezes à porta da casa, sentado num banco de madeira e a olhar o céu como quem conversava com ele. Não era um olhar de quem procurava sinais, era um olhar de quem reconhecia o que via. E quando eu lhe perguntava:
– Acha que amanhã chove?
Ele não respondia logo. Olhava para o horizonte, respirava fundo, e dizia:
– Amanhã, ao meio da manhã, pinga.
E pingava. Sempre.
Mas o que mais me impressionava não era a sua precisão, era a serenidade. Ele nunca se apressava. Nunca corria. Nunca parecia atrasado. Nunca parecia adiantado.
Estava sempre no tempo certo.
Um dia, perguntei-lhe também como é que ele sabia tudo aquilo. Sorriu-me, com aquele sorriso que só aparece em quem viveu muito sem se queixar, e respondeu:
– O tempo fala. A gente é que anda sempre a correr demais e sem tempo para o ouvir.
Fiquei com essa frase guardada como quem guarda uma chave antiga. E percebi que nela havia uma sabedoria que não se ensinava, revelava-se. Uma sabedoria que não se impunha, oferecia-se. Uma sabedoria que não se exibia, vivia-se.
Hoje continuo a morar na rua e na casa onde ele sempre morou, já não o vejo sentado no banco, mas vejo o tempo. E às vezes, quando o vento muda de repente, ainda me apanha a pensar:
“Ele teria sabido.”
E sorrio. Porque há pessoas que, mesmo depois de partirem, continuam a dizer-nos as horas.

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Nostalgia

Há dias em que a memória acorda antes de nós. Levanta-se devagar, espreguiça-se como um gato ao sol, e começa a puxar-nos pela mão para lugares onde já fomos felizes – ou onde acreditámos que a felicidade era uma coisa simples, quase doméstica, como o cheiro do pão quente ou o canto das rolas ao amanhecer.

Nestes dias, dou por mim a revisitar caminhos antigos. Vejo-me mais novo, mais leve, talvez mais distraído da vida, mas sempre atento às pequenas grandezas que o tempo teima em esconder. Recordo o largo da aldeia, as conversas demoradas à porta das casas, o riso fácil dos vizinhos que já partiram, e aquele silêncio bom das noites de verão, quando o mundo parecia caber inteiro dentro de um banco de madeira.

E lembro-me de mim – não o homem que sou agora, mas o rapaz que acreditava que tudo era para sempre. O rapaz humilde, de infância curta, que aos onze anos já sabia o peso do trabalho e a leveza dos sonhos. O rapaz que corria sem destino, que guardava segredos no bolso, que achava que os avós eram eternos e que o tempo era apenas uma palavra dita sem pensar.

Hoje, quando fecho os olhos, ainda consigo ouvir a voz da minha avó a chamar-me para dentro: “Ó Zé, olha que arrefece!”, como se o frio fosse uma ameaça e o colo dela um abrigo universal. E vejo o meu avô sentado no banco, a afiar a navalha com a paciência dos homens que sabem que a vida não se apressa.

Às vezes penso que foi ali que aprendi a ser quem sou: alguém que guarda, alguém que escuta, alguém que não tem pressa de partir, mesmo quando a vida me levou para longe, para quartéis, guerras e minas que me fizeram crescer depressa demais.

A nostalgia não dói. A nostalgia aquece. É uma manta velha que ainda cheira a casa.

E quando me deixo envolver por ela, sinto que tudo o que vivi continua aqui, não como sombra, mas como raiz. A infância pobre mas cheia de amor, o trabalho precoce, os anos de farda, a dureza das minas, a procura honesta de um lugar ao sol: tudo isso permanece como quem acende uma luz discreta dentro de nós.

Talvez seja isso envelhecer com serenidade: perceber que o passado não é um sítio onde se volta, mas um sítio que se traz conosco.

E eu trago-o. Trago tudo. Como quem carrega um tesouro que não se vê, mas que ilumina.

José Coelho

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Tempos que já não voltam

Havia noites em que o mundo cabia numa mesa pequena, duas cadeiras e o brilho inocente de quem ainda não sabia o peso das horas.
O vento trazia o cheiro das flores e das promessas, e nós, ingénuos, acreditávamos que tudo seria sempre assim leve, risonho, eterno.
Mas o tempo, esse mestre discreto, ensinou-nos que a eternidade vive apenas nas memórias. Hoje, ao olhar esta fotografia, sinto que o passado não se perdeu: repousa aqui, no sorriso da Francisca e da Mariana, intacto e luminoso como uma estrela antiga.
Foto das férias grandes de 2020

Tempo de enceleirar

Há gestos que são mais antigos do que as palavras. “Enceleirar” é um deles – este ritual de pendurar cebolas e alhos, como quem guardava o sol dentro da casa. Cada cabeça de alho, cada cebola dourada, trazia consigo o trabalho de meses e a memória de gerações que aprenderam a viver com o que a terra dava.

Noutros tempos, a vida não era fácil. O sustento vinha das mãos e da paciência. O que não se comprava na mercearia nascia nas hortas, e o que sobrava era guardado para o inverno, seco, limpo, protegido.

As “sobrecamas” tornavam-se celeiros suspensos, e o cheiro da lenha misturava-se ao das colheitas penduradas, num perfume de abundância modesta, mas digna.

Hoje, ao olhar estas tranças de cebolas e alhos, sinto que nelas repousa mais do que alimento: repousa a sabedoria dos que sabiam esperar, dos que semeavam em dobro para não faltar, dos que faziam da casa um abrigo contra o esquecimento.

É o outono que começa, entre a fartura das sementeiras e o murmúrio das recordações.
Porque “enceleirar” não é apenas conservar, é também lembrar.

Beirã, setembro de 2026

José Coelho