Sempre ambicionei passar o resto da minha vida exatamente onde me encontro. Mas também nunca, nem pela mais remota hipótese podia imaginar que as coisas iam descambar desta forma e iria ficar por cá quase sozinho. Se é natural que a vida siga o seu ciclo geracional porque sempre assim foi, já não é, de todo, natural que esse ciclo, como aqui, se esteja a extinguir porque não nasce vida nova que venha substituir a que vai partindo.
Se em pouco mais de duas décadas tudo ficou desta maneira, como será daqui a outro tanto tempo? Há tempos fui com a minha companheira dar um passeio à Herdade do Pereiro e à Fadagosa, dois dos bonitos locais da nossa infância e juventude. Aquilo que vimos sem qualquer surpresa, é de tal modo deprimente e desolador que um de nós desabou em lágrimas. Não fui eu quem chorou, mas imaginei imediatamente que daqui a não muitos mais anos, na Beirã também haverá casas assim, em ruínas.
É só uma questão de tempo e oxalá me engane.
A única hipótese de nos sentirmos vivos e de ver alguma vida ou movimento é sairmos da Beirã com alguma regularidade. Por isso vamos até à cidade ou vila que elegemos na hora, de vez em quando. Mas até as vilas, até a cidade, já não são as mesmas. Pouca gente nas ruas e praças, porque a onda de abandono alastra um pouco por toda a parte. Na cidade e nas vilas mais próximas, como na minha aldeia, há também casas fechadas um pouco por todas as ruas.
Quem e como irá conseguir reverter esta situação?
Não consigo perceber por mais que tente. Porque é que há 50 anos sob a tão amaldiçoada ditadura havia gente por toda a parte, trabalho para todas as profissões e negócios, e ainda, apesar dos baixíssimos salários, muito mais oportunidades de trabalho do que existem agora na tão falada democracia que tudo trouxe em velocidade de cruzeiro mas ainda mais velozmente tudo tem ido levando, deixando milhares de pessoas desempregadas ciclicamente e uma geração inteira sem grandes perspetivas de futuro que por isso mesmo começou a emigrar em massa mais uma vez, repetindo-se o êxodo das décadas de 60/70 do século passado.
E o desfile imparável, infindável, de falcatruas públicas cometidas por quem deveria ser exemplo? E a impunidade de tantas e tantas dessas falcatruas já denunciadas e provadas, mas cuja culpa morre quase sempre solteira? E o compadrio, a corrupção vergonhosa, os arranjinhos em prejuízo da competência e do direito à igualdade de oportunidades? Será esta a vida, a sociedade, o futuro, que os nossos filhos e netos necessitam e merecem?
Quantos pais e avós vivem inquietos com as mesmíssimas interrogações que eu vivo? Todos nós fomos educados num tempo em que havia respeito pelas regras da vida e da ordem social. Para onde foram esses valores? Aposto que a maior percentagem de pessoas com a minha idade não é feliz com o estado a que as coisas chegaram. Já ninguém se sente seguro.
Os empregos de repente viram desemprego. As reformas descontadas uma vida inteira em vez de crescerem encolhem pela subida sistémica do custo de vida que de anual passou a mensal. Até as poupanças de uma vida de trabalho e sacrifícios podem inesperadamente desaparecer de um qualquer banco que também abre falência mercê da ganância e irresponsabilidade de quem os gere.
Algum de vocês entende tanta impunidade, tanta aldrabice, tanta irresponsabilidade, tanta falta de competência para devolver segurança, tranquilidade e paz de espírito a quem ama o seu país e nele sempre viveu, a ele deu sempre o seu melhor, e por fim, depois de uma vida inteira de luta, de trabalho e sacrifícios, nele queria, merecia e deveria envelhecer rodeado de paz, de respeito e de humana dignidade?
Não consigo entender e muito menos aceitar.
José Coelho