terça-feira, 5 de maio de 2026

O Amor constrói-se todos os dias porque amar não é um instante – é uma escolha contínua.

Há quem pense que o amor vive apenas do brilho do começo e da euforia dos primeiros dias. Mas a verdade é outra: o amor que dura é feito de pequenos gestos, de conversas que evitam silêncios frios, de reencontros depois de dias difíceis. É um caminho que se constrói passo a passo, mesmo quando o terreno é irregular.
Viver uma vida inteira ao lado de alguém nunca foi, nem nunca será, um caminho reto. Não é uma estrada asfaltada, previsível, com placas a indicar cada curva. É mais parecido com um trilho entre árvores: às vezes iluminado por frestas de sol, outras vezes coberto por sombras densas. Há raízes que nos fazem tropeçar, pedras que nos obrigam a abrandar e clareiras que nos devolvem o fôlego.
E, ainda assim, seguimos. Juntos ou aos tropeções, mas seguimos.
Há dias em que os passos se alinham naturalmente, como se os dois tivessem sido feitos para caminhar no mesmo ritmo. E há dias em que um caminha apenas para ir atrás do outro. É isso que quase ninguém diz: o amor não é sempre simétrico. Há momentos em que um carrega mais, outro menos. E está tudo bem, desde que ambos continuem a escolher o mesmo percurso.
O amor não vive eternamente das ilusões do início. Elas são belas, intensas, mas também frágeis. Com o tempo, silenciam-se como um eco que se afasta, e no lugar delas nasce algo mais profundo: a vontade de ficar. A vontade de construir, de reparar, de recomeçar quantas vezes forem necessárias.
Não se assustem se já não sentem a vibração do começo. O coração, quando aprende o ritmo do outro, fala noutra língua. Uma língua feita de gestos pequenos, quase invisíveis: um café sem ter sido pedido, uma mão que procura a outra no escuro, uma manta ajeitada sobre os ombros num dia frio. São detalhes que vistos de fora parecem nada, mas quem ama sabe que ali mora tudo.
Partilhar a vida também é saber conter o ímpeto. Nem toda a irritação precisa de voz. Nem toda a diferença de opinião é uma provocação. Há discussões que aproximam, porque revelam cuidado e desacordos que não afastam, porque revelam respeito. O problema nunca são as diferenças, mas as armas que escolhemos usar para lidar com elas.
Os verdadeiros inimigos do amor são silenciosos: o apego que esfria, o orgulho que endurece, a indiferença que apaga. É nesse frio lento, quase impercetível que o amor começa a extinguir-se. Não num grito, mas num afastamento suave, quase educado, que um dia se torna abismo.
Envelhecer juntos não assusta. O que assusta é mudar o físico, perder o brilho, deixar de agradar. Assusta a ideia de que o outro já não nos veja com os mesmos olhos. Mas o amor não precisa de permanecer igual para continuar verdadeiro. Se continuarmos a conversar, a olhar-nos, a procurar-nos, o vínculo não morre – transforma-se. Fica mais íntimo, mais maduro, mais real.
Menos fogo de artifício, mas mais chama que aquece.
Haverá dias pesados. Dias em que o cansaço fala mais alto do que a ternura. Dias em que não há paciência, nem conversa, nem brilho. E está tudo bem. O amor não se mede pela perfeição, mas pela decisão de continuar. Pela coragem de permanecer juntos, mesmo quando o encanto adormece.
E se um dia sentirem distância, não deixem que ela cresça. A distância alimenta-se do silêncio. Dêem o primeiro passo: um gesto, um olhar, uma memória acesa. Às vezes basta isso para reencontrar o caminho.
Não é magia. É escolha. É ternura. É a história que se escreve a dois, com falhas, com tropeços, com dias cinzentos. E com o tempo…

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Para ti, companheira dos meus últimos 55 anos (Parte 2)

Nestes dias que passaram, percebi mais uma vez aquilo que a vida me tem mostrado desde que te conheci: caminhar contigo é a maior sorte que já tive. O susto foi grande, as horas foram longas, e o coração andou apertado, mas tu estiveste sempre ali, firme na tua coragem silenciosa e eu ao teu lado, como sempre estive e sempre estarei.
Quando te vi sair daquele procedimento, ainda meio adormecida mas já a regressar para mim, senti o mundo a voltar ao lugar. E agora, já em casa, com o teu corpo a recuperar e o teu olhar a reencontrar a calma, sinto que atravessámos mais uma prova juntos, como tantas outras ao longo destes cinquenta e cinco anos.
Olho para ti e vejo a mesma força que me acompanha desde a juventude. Cuidar de ti não é um peso, nem um dever, é a continuação natural da vida que construímos, gesto a gesto, riso a riso, susto a susto. Somos feitos desta teimosia bonita de não largar a mão um do outro, mesmo quando o caminho treme.
Esta selfie que tirámos antes de entrares no hospital, a sorrir como se fôssemos para um baile, diz tudo sobre nós: enfrentamos o medo com humor, com ternura, com essa cumplicidade que só se constrói numa vida inteira partilhada.
Agora que a tempestade passou, fica a certeza que sempre nos guiou: somos um do outro, e isso basta para atravessar qualquer noite e celebrar cada manhã.
Beijinho do teu Zéi…

Corpus Christi

O dia mais santo do ano – segundo a ti Florinda Lourenço, Senhora Minha Mãe – era o Dia do Corpo de Deus. Tão santo que, dizia ela, muito séria e convicta, “até as folhas das oliveiras se cruzavam ao meio‑dia em ponto, a saudarem a Cruz de Cristo”. Nunca conheci mulher mais devota. E nunca me cansei de ouvir as suas crenças, quase sempre acompanhadas de algum “caso” que tinha acontecido a fulano ou beltrano por não respeitar tais preceitos.

Não podia ir à missa todos os domingos. Mãe de quatro filhos e esposa de um camponês, passava a semana inteira nos campos. Ao domingo o seu “dia de descanso” era limpar a casa, lavar a roupa de todos, coser um rasgão aqui, outro ali. Um descanso mais duro do que mondar o trigo, que mal lhe deixava tempo para si.

Compensou depois. Na última década da sua vida, já viúva e com os filhos criados, não faltou a um só domingo, a um só dia santo, a um só mês de Maria ou procissão. Ia a todas. Nunca frequentou qualquer catequese mas sabia rezar melhor do que muitas beatas. Sabia rezas para o pão crescer, para o pão cozer, para se levantar, para se deitar, para atravessar caminhos ermos. Sabia dezenas delas. Era uma sábia, a minha Florinda.

Nunca me esqueço dela, mas é nestes rituais que a sinto mais perto. Claro que as folhas das oliveiras não se cruzam. Mas ainda assim vou sempre ver. Não por acreditar no milagre, mas porque era crença da minha Mãe e isso aproxima‑me da sua memória.

Ai de quem ousasse dizer‑lhe que aquilo não era assim: “A gente, mesmo que nã acredite, nã deve dizer mal…”

Este ano, como sempre, irei espreitar as oliveiras do quintal. Ou melhor: irei visitar as memórias que ela cá me deixou. Cruz nenhuma verei. Apenas ramos viçosos, carregados de flores – o alentejano candeio. Assim chamavam os nossos antepassados camponeses aos cachos de flores que pendem das oliveiras nesta época. Era pelo aspeto desse “candeio” que previam se o ano seria farto em azeite.

Adoro os usos, os costumes e os falares da minha região. Do meu povo, na sua simplicidade, autenticidade e pureza. Gente humilde no trato, mas riquíssima em idoneidade. Assim é a minha terra. Assim eram os meus pais, os meus avós, todos os meus antepassados. Pessoas que não sabiam ler nem escrever, mas eram sábias e dignas. Aprenderam à custa das suas sacrificadas vidas e ensinaram‑nos mais do que muitas escolas.

Obrigado, Mãe.

Não quero – de modo algum – duvidar das tuas crenças, mas ainda não será este ano que verei as folhas das oliveiras em cruz, como tu acreditavas.

E voltarei a pensar: Qual será o meio‑dia verdadeiro? O de verão ou o de inverno? O solar ou o dos relógios?

Pois… Se calhar é isso.

Ainda nunca acertámos com o meio‑dia do Corpo de Deus. 

Quem sabe, um dia, acertemos...

(Com saudades tuas, minha Florinda.)

José Coelho

domingo, 3 de maio de 2026

A força que nos faz seguir em frente


A saudade é o que nos torna humanos. Ela é a lembrança do que fomos, do que tivemos e do que perdemos. Mas também é a força que nos faz seguir em frente, em busca do que ainda não encontrámos.

A saudade dói, mas é ela que nos lembra que amámos, que vivemos, que fomos felizes. Sem ela, seríamos apenas sombras de nós mesmos, perdidos em um presente vazio.”

– José Saramago

Foto Maria Coelho

A seguir o percurso dos pais e avós

O caminho faz-se, caminhando! Profissão de Fé da neta Mariana Coelho, na Igreja Paroquial de S. Salvador da Aramenha - Marvão.

Foto José Coelho
03. 05. 2026

Dia de todas as Mães

Que sorte tivemos, eu e as minhas irmãs, havermos merecido das mãos de Deus uma MÃE como tu, nossa estrelinha brilhante. Onde estiveres, descansa em paz. Beijinho doce de quem não te esquece dia nenhum da sua vida.
O teu Zéi.

Adulto antes do tempo

A gente muda. Muda tanto. E quase nunca por vontade própria – é a vida que nos empurra, que nos dobra, que nos obriga a reinventar o que pensávamos ser definitivo. São os tombos que nos arrancam a inocência, os abanões que nos tiram o chão, as certezas que se desfazem como pó entre os dedos, as injustiças vindas de quem menos esperaríamos, as ausências que deixam um eco que nunca mais se cala. Tudo isso abre fendas, desloca alicerces, derruba convicções que julgávamos eternas.
E então só há dois caminhos possíveis: ou o sofrimento nos tempera e solidifica, tornando-nos mais resistentes ao desassossego e mais seguros de nós, ou nos parte em fragmentos, deixando-nos frágeis, apáticos, conformados com uma nova ordem das coisas para a qual já não temos ânimo de lutar.
Na minha meninice e adolescência fui alguém muito distante do homem que hoje sou. Até ir para a tropa era um rapaz alegre, bem disposto, cheio de sonhos e de planos. Nem a humildade do meu camponês berço, nem a precaridade das minhas habilitações literárias me diminuíam a esperança de uma vida melhor. Eu queria ir à luta. Sabia, porém, que havia um obstáculo intransponível entre mim e o futuro que ambicionava – e esse obstáculo não era a pobreza, nem a pouca instrução.
Chamava-se tropa.
No final dos anos sessenta com a guerra de África no auge, ter o serviço militar resolvido era meio caminho para qualquer jovem tentar reinventar o seu destino. A idade da incorporação parecia ainda distante, até ao dia em que um Edital, afixado na vitrina da Junta de Freguesia da Beirã a convocar os mancebos apurados nas sortes de 1968. Aquele papel timbrado com o escudo da República acendeu em mim uma inquietação que já não mais me largou.
Provinciano e ingénuo que pouco saíra da minha aldeia, nada sabia de tropa, do mundo e muito menos de guerra. Mas decidi que era tempo de enfrentar aquele obstáculo que se erguia entre mim e o meu futuro. O Edital falava também da possibilidade de requerer incorporação voluntária – e isso bastou para me incendiar o espírito.
Com 17 anos recém cumpridos, pedi ao meu pai que me autorizasse a ir como voluntário. Naquele tempo só se era dono do próprio destino aos 21. Depois de vencer os protestos da tia Florinda que não compreendia a pressa do seu menino em ir sofrer para a tropa, lá fui com o meu pai – grande e inesquecível amigo – a Marvão, na “camioneta da carreira”, entregar os papéis que ele teve de assinar com o dedo, porque não sabia escrever.
Estávamos em meados de 1969.
Pouco depois chegou a convocatória para a Inspeção Médica no Regimento de Infantaria 16, em Évora. Fui apurado sem surpresa. Em maio do ano seguinte fiz a recruta no BC8 de Elvas, depois a especialidade de transmissões no BC5 em Campolide, onde as boas notas me valeram a promoção a 1.º Cabo.
Mal terminara a especialização quando fui mobilizado para o BCav3871. Passámos por Estremoz, por Santa Margarida, até embarcarmos num Boeing 747 rumo à guerra em Angola. O destino: Belize e as profundezas do Maiombe, no enclave de Cabinda – a floresta do povo fiote, do abacaxi doce, do pau-preto, do petróleo da americana Gulf Oil, do mini-mosquito miruim, das jiboias, dos gorilas, do calor sufocante e do cacimbo pegajoso.
A Zona de Ação do BCav3871 era atravessada por uma única estrada alcatroada, recém inaugurada, que ligava o Miconje a Cabinda. De ambos os lados, a segunda maior floresta do mundo: árvores colossais, mato denso, picadas pantanosas onde os Unimogs se atolavam e carreiros invisíveis onde os guerrilheiros do MPLA, da UPA ou da UNITA se escondiam, colocavam minas, armadilhas, emboscadas.
Ali, cada dia podia ser o último.
Aquele inferno na terra mudou para sempre o rapaz ingénuo que quis ser adulto antes do tempo e para isso vestiu a farda. Foi o alto preço pago pela minha sonhadora pressa de chegar ao futuro.
Felizmente os meus dois rapazes não tiveram de o conhecer…
Foto: Estúdio Cardinho Ramos.
Castelo de Vide -1968