terça-feira, 19 de maio de 2026

Um Portugal que respira mais devagar


Há um Portugal que nasce antes da luz, quando o silêncio ainda é dono do mundo e os montes respiram como gigantes adormecidos. É um Portugal que não cabe nos mapas, porque vive nas veias da terra, nas mãos que a lavram, nos olhos que a reconhecem. Aqui, onde tudo parece pequeno, o país é imenso.

É o Portugal dos humildes, dos que falam pouco mas dizem tudo, dos que conhecem o humor das estações e o nome secreto dos ventos. Aqui, a vida acende-se no lume da lareira, onde o fogo não aquece apenas, mas também abençoa. O fumo sobe das chaminés como um cântico que ninguém escreveu e todos sabem de cor.

O pão escuro cresce no forno de lenha como se tivesse alma. As sardinhas comem-se com os dedos, porque o sagrado não precisa de talheres. O vinho de talha corre do barro como se viesse do coração da terra, e cada gole é uma memória, uma história, um pedaço de quem fomos.

As festas seguem o calendário secreto da terra: a matança do porco que reúne famílias, o borrego e o cabrito que anunciam a Páscoa, as danças que atravessam gerações como rios subterrâneos que nunca secam. Cada aldeia tem o seu canto, a sua respiração própria, a sua maneira de dizer ao mundo: “Aqui ainda se vive.”

E este refrão repete-se, sempre que alguém chega, sempre que alguém parte. Dizem-no as pedras, dizem-no as sombras das oliveiras, dizem-no os velhos sentados à porta a ver o tempo passar sem pressa. É um refrão que não se aprende – herda-se.

Durante décadas, este Portugal rural alimentou o outro, o das cidades que correm sem destino, dos semáforos que mandam parar a vida, dos engarrafamentos que engolem horas, dos empregos que repetem dias iguais. E enquanto o país moderno se cansava de si, o país antigo continuava a erguer-se com a força de quem sabe que a pressa nunca fez crescer nada.

No interior, a música é outra. É feita de passos lentos, de histórias contadas à lareira que ficam a pairar no ar mesmo depois de ditas. É a música das raízes, a que nos chama pelo nome, a que nos lembra o que fomos e o que ainda somos. É a música que não se cala, mesmo quando o mundo faz barulho.

Há quem pense que o melhor está no “outro” Portugal, o das luzes, o das avenidas largas, o dos teatros e dos cafés apressados. Mas quem abandona as raízes abandona também o espelho onde se reconhecia. E não há maior pobreza do que perder o lugar onde a alma pousa.

Celebrar o Portugal rural é celebrar o que somos antes de sermos o que parecemos. É honrar o chão que nos fez, as vozes que nos ensinaram, as mãos que nos deram pão. É aceitar que, mesmo num mundo que corre depressa, há valores que não se podem deixar cair porque são eles que nos seguram, que nos dão nome, que nos dão casa.

E termino como comecei, devagar, no silêncio que guarda tudo. Que nunca deixemos de olhar para este Portugal com a reverência de quem olha para algo sagrado. Porque este país que respira devagar é o mesmo que nos sustenta, que nos chama, que nos espera sempre.

José Coelho

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Homenagem aos Meus

Há vidas que nos moldam desde o primeiro instante – vidas que chegam antes de qualquer palavra, que nos seguram antes de qualquer passo, que nos amam antes de sabermos merecer. Os meus pais, os meus avós e os meus tios foram essas vidas: presenças fundadoras, silenciosas e profundas, que me ensinaram a respirar o mundo com respeito, com cuidado e com ternura.
Eram de pequena estatura, os Coelhos do lado do meu pai e os Lourenços do lado da minha mãe – gente miúda no tamanho, mas gigante no coração. Havia neles uma doçura antiga, uma generosidade que não se explicava, apenas se sentia. Eram daqueles que, mesmo sendo pequenos, enchiam uma sala inteira com a sua presença. E talvez por isso, mesmo agora, continuam a parecer enormes dentro de mim.
Foram eles que me mostraram a firmeza que não fere e a ternura que não fraqueja. Com eles aprendi que a dignidade não depende da força do corpo, mas da força do caráter; que o amor não precisa de grandes discursos, apenas de pequenos gestos repetidos com a fidelidade de quem sabe que amar é um verbo diário. Eles ensinavam sem ensinar – bastava vê-los viver, bastava estar perto, bastava escutar o modo como tratavam os outros, como tratavam a vida.
Deram-me casa antes de eu saber o que era um lar. Deram-me proteção antes de eu conhecer o medo. Deram-me exemplo antes de eu compreender o valor de um exemplo. E deram-me, sobretudo, uma forma de estar no mundo: honesta, simples, inteira. Quando penso neles, penso sempre em mãos – mãos que seguravam, mãos que guiavam, mãos que faziam, mãos que cuidavam. Mãos que diziam tudo o que as palavras não diziam.
E quando o tempo – esse escultor paciente – lhes começou a levar o vigor, a audição, a agilidade, nunca lhes levou aquilo que mais os definia: a lucidez, a gratidão, a bondade, a forma silenciosa e profunda de amar. Havia neles uma serenidade antiga, uma aceitação que não era resignação, mas sabedoria. Como se soubessem que a vida é um ciclo e que cada fase tem a sua beleza, mesmo quando dói.
Vi-os envelhecer com a mesma dignidade com que viveram. Vi-os enfrentar a fragilidade sem perder a essência, como árvores antigas que, mesmo dobradas pelo vento, continuam a guardar a memória da sua força. E nos seus olhos encontrei tantas vezes um amor que não pedia nada, apenas reconhecia. Um amor que dizia, sem voz: “estamos aqui, ainda somos nós”. Esse olhar, mais do que qualquer palavra, foi sempre o meu porto seguro.
O meu pai, já perto do fim, pediu apenas para não morrer longe de casa. Não pediu milagres, não pediu mais tempo, não pediu nada que não fosse profundamente humano. Pediu presença. Pediu família. Pediu que o deixássemos partir como viveu: entre os seus. E esse pedido, tão simples e tão grande, ensinou-me mais sobre o amor do que qualquer livro, qualquer frase, qualquer filosofia.
A minha mãe partiu a segurar a minha mão, como quem fecha um ciclo que começou da mesma forma, com um toque que diz tudo o que as palavras não conseguem. Nesse instante, percebi que há despedidas que não são um fim, mas uma passagem. Que há silêncios que não são ausência, mas continuidade. Que há mãos que, mesmo quando deixam de apertar, nunca deixam de nos acompanhar.
Os meus avós, com a sua sabedoria antiga, e os meus tios, com a sua bondade discreta, completaram esta família que me fez quem sou. Cada um deles deixou em mim uma marca que não se apaga, uma memória que não se gasta, uma história que continua a respirar dentro de mim como uma luz que não se extingue, apenas muda de lugar.
Às vezes, quando estou sozinho, sinto-os ainda: no modo como arrumo a mesa, no modo como escuto alguém, no modo como abraço. Eles vivem nesses gestos.
Esta homenagem não é sobre o que fiz por eles nos seus últimos dias. Isso foi apenas a consequência natural do que eles fizeram por mim durante toda a sua vida. É sobre o amor que me deram, sobre a forma como viveram, sobre a dignidade com que partiram. É sobre a gratidão que fica quando o silêncio chega. É sobre a certeza profunda de ter sido amado. É sobre a honra imensa de ter sido filho, neto e sobrinho deles.
E é, acima de tudo, sobre a paz serena de saber que, enquanto eu viver, eles continuam vivos em mim – não como ausência, mas como presença que ilumina. Uma presença que me guia, que me sustém, que me recorda quem sou e de onde venho. Uma presença que me diz, todos os dias, mesmo sem voz: “segue, estamos contigo”.
Foto: A minha família materna quase toda nesta imagem, numa pescaria no Rio Sever. Coelhos, só eu e as minhas irmãs Adelina e Luz, porque a Joaquina ainda não tinha nascido.

Quando permitimos que nos desrespeitem

Quase sempre percebemos tarde demais que fomos nós que abrimos a porta ao desrespeito. Não porque o merecêssemos, mas porque acreditámos demais. Porque confiámos demais. Porque demos crédito a quem não merecia estar na nossa vida.
O desrespeito raramente começa de repente. Começa primeiro com uma piada que magoa, mas deixamos passar. Depois um limite que é ultrapassado, mas achamos que não vale a pena fazer caso. A seguir um gesto egoísta que justificamos com um “não deve ter percebido”.
E assim, sem darmos conta, vamos dando azo a que nos tratem pior a nós, do que nós tratamos os outros.
A verdade é dura, mas libertadora: ninguém nos desrespeita sem que, antes, tenhamos permitido isso um pouco. Não por fraqueza, mas por esperança. Por querermos acreditar que as pessoas que estimamos não nos farão mal. Por medo de as perdermos. Por querermos manter a paz, mesmo quando isso custa a nossa.
E quando percebemos que a pessoa não vale mesmo nada, dói. Dói porque a deceção mais profunda vem de alguém que achávamos que não seria capaz de nos magoar. Dói porque percebemos que demos o melhor de nós a quem só devolveu má paga. Dói porque vemos com uma clareza brutal, que só nós é que éramos o amigo, porque do outro lado nunca houve amizade nenhuma.
Mas há um lado luminoso nesta dor: ela ensina-nos a fechar portas que nunca deviam ter sido abertas. Ensina-nos a marcar limites. Ensina-nos a escolher melhor as pessoas, a eleger melhor as amizades e a sermos melhores conosco próprios.
Sobretudo ensina-nos que o respeito que aceitamos dos outros, começa, deve começar sempre, no respeito que temos por nós mesmos.
Quando finalmente percebemos isso, deixamos de aceitar migalhas. Deixamos de consentir faltas de consideração e de respeito. Deixamos de nos encolher para cabermos na vida de quem nunca se esforçou para caber na nossa.
E é nesse dia – exatamente nesse dia – que recuperamos algo que nunca devíamos ter perdido: a dignidade de sermos tratados como tratamos os outros e todos merecemos.

A vida inteira sob o abrigo do Seu manto


No sossego que se instalou nos meus dias, há um silêncio que às vezes pesa… e outras vezes me chama. É nesse chamamento que volto, quase instintivamente, aos pés da Senhora do Carmo.

Ali, diante do Seu olhar de Mãe - tão doce, tão paciente, tão meu - sinto-me outra vez menino. Sento-me devagar, como quem regressa a casa depois de uma longa viagem e deixo que o coração fale por mim.
Falo-Lhe das saudades, das perdas, das pequenas alegrias que ainda me acendem por dentro. E Ela escuta tudo, sem pressa, como sempre escutou desde que eu tinha seis anos e aprendi a servi-La neste chão que me moldou.
Às vezes não digo nada. Fico só ali, a deixar que as memórias me aconcheguem, que me devolvam quem fui e quem ainda sou. E nesse instante, tão simples e tão profundo, sinto que a minha vida inteira cabe no abrigo do Seu manto.
Texto e foto

A cancela cor-de-rosa

Sentado em cima de um cancho, olho a paisagem que se estende à minha frente, marcada pelo rio Sever que circunda toda a freguesia da Beirã até aos limites de Castelo de Vide, lá para os lados da Defesa. Visto daqui, tudo me é familiar: cada cancho, cada fisga entre as pedras, cada volta dos regatos e das ribeiras, cada anta escondida, cada fonte fresca, cada palheiro ou antiga habitação.
Até do outro lado do rio, em Espanha, conheço todo aquele casario branco: são as Gagas, onde o tio Joaquim, o irmão mais novo do meu avô Zé Lourenço, guardava um rebanho de cabras nessa "finca" e onde eu passava as férias grandes com os primos António e Joaquim que Deus já chamou. Resta-me apenas a saudade desses tempos, pois a ambos não posso abraçar.
O meu olhar repousa - inevitavelmente - nas ruínas da casa da avó Amélia e do avô-padrinho de quem herdei o nome. Ali, junto ao ribeiro da Cavalinha. Basta fechar os olhos para reconstruir mentalmente os dias maravilhosos vividos com aquelas duas santas criaturas. Na nossa honrada pobreza, éramos felizes sem o saber. A sopa de batatas feita na sertã e o seu refogado no pingo de toucinho, sabia melhor do que qualquer manjar moderno.
A avó Amélia sentada ao sol num tropeço de cortiça, costurava as roupas gastas enquanto o avô se dedicava a moldar com a navalha os bocados de cortiça bruta com que construía os seus pássaros. Lembro-me da cerejeira carregada de negras e doces cerejas ao lado da caseta, mas também da boa vizinhança: a guarda da passagem de nível, a ti Ana Galacho e o filho Zé Jaquim, o ti Zé Tomé com a sua família…
Gente de bem, que Deus tem na sua glória.
Hoje a casa é uma ruína, mas a cancela de ferro cor-de-rosa do pátio de acesso permanece lá, firme, embora inútil. O telhado ruiu, a cozinha foi vandalizada, as pedras da lareira desapareceram. Pouco importa ao mundo, mas a mim, que ali conheci a paz e a felicidade em tempos difíceis, importa-me muito. A casa fala-me de valores e de um tempo em que tão pouco se tinha, mas tudo se valorizava.
À direita na paisagem solitária, ergue-se a Murta, restaurada por quem também ama estas terras. Os canchos multiplicam-se até ao horizonte, bordejados por sobreiros, azinheiras, carvalhos e mato rasteiro. Por esses caminhos andei muitas vezes, com contrabando às costas, rumo à loja espanhola do Batão ou do Bravo. Levávamos ovos e outras miudezas, regressavamos com miganas, toucinho salgado, algum chocolatito barato de vez em quando.
Fui perseguido pelos guardas-fiscais – lembro-me do dia em que atirei um presente de aniversário para a namorada para detrás de uma parede ao ver o senhor Gonçalves e o senhor Correia à nossa espera. Fui apanhado, mas, talvez por compaixão, o senhor Gonçalves - muito boa pessoa - com um raspanete devolveu-me o embrulho:
“Leva lá isso à namorada, mas para a outra vez ficas sem ele, para não te armares em esperto…”.
São tantas e tão boas as recordações! Foram tempos duros sim, mas havia trabalho para todos, não se falava em desemprego e ninguém dependia de subsídios. O trabalho começava mal se acabava a quarta classe. Muita gente viveu e morreu por aqui, sem nunca ter saído da sua terra.
Se os nossos pais e avós cá voltassem, dificilmente reconheceriam este mundo novo tão mais vazio de valores e princípios, incapaz de proporcionar aquela felicidade simples de outrora. A humildade deles seria hoje impraticável por já não existir na maior parte dos corações.
Olhando para trás percebo agora que a nossa verdadeira riqueza eram as pessoas, os afetos, o trabalho honesto e a comunhão com a terra. As paisagens mudaram, as casas envelheceram, as pessoas estão diferentes, mas a memória de tudo o que conheci, continua inalterável como aquela cancela cor-de-rosa dos meus dias felizes.
Texto e foto

domingo, 17 de maio de 2026

É tempo de sermos comunidade

Ao longo dos anos, temos visto passar entre nós vários sacerdotes, homens de Deus que deram a vida ao serviço das nossas aldeias, das nossas famílias e da nossa fé. Recordamos com saudade o Padre Luís Ribeiro, que enfrentou a doença com coragem e partiu deixando um vazio no coração de todos nós.
Hoje temos o Padre Marcelino, presbítero extraordinário que aos 61 anos carrega às costas cinco paróquias e várias capelanias. Só ontem celebrou quatro missas, dois batizados, um funeral e ainda conduziu a procissão na nossa aldeia. Faz mais de sessenta quilómetros para vir ter conosco e voltar para Santiago de Urra, sem olhar ao número de pessoas que estão nos bancos da igreja. Se cinco ou cinquenta. Vem por quem estiver. Ponto.
Podia desculpar-se. Podia dizer que é demasiado trabalho. Podia reduzir celebrações. Podia pedir para espaçar missas de quinze em quinze dias. Mas não o faz. Porque é pastor. Porque é servidor. Porque é homem de fé. Porque é exemplo.
E por isso sinto com toda a verdade:
Não podemos deixá-lo sozinho. Não o deixemos sozinho. Não podemos permitir que o peso de tantas paróquias caia apenas sobre os ombros de um sacerdote e de meia dúzia de leigos. Não podemos continuar a ser espectadores da fé, aparecendo apenas quando a vida dói, quando há doença, quando há medo, quando precisamos de um milagre.
A fé não é um botão de emergência.
A fé é caminho, compromisso, presença.
E a paróquia é de todos nós.
Se o Padre Marcelino dá tudo, então nós também temos de dar alguma coisa. Se ele se entrega sem reservas, então nós também temos de nos disponibilizar. Se ele chega cansado mas presente, então nós também temos de estar presentes.
Não podemos continuar a dizer “faz falta” e depois ficar sentados. Não podemos elogiar quem serve e depois não nos oferecermos para ajudar. Não podemos esperar que a Igreja se mantenha viva se não formos nós a alimentá-la.
Por isso, deixo este apelo fraterno:
Vamos levantar-nos. Vamos participar. Vamos servir. Vamos aprender. Vamos ajudar. Vamos ser comunidade. Porque a paróquia não é do padre. A paróquia não é de alguns. A paróquia é nossa.
E se cada um de nós fizer um pouco, ninguém terá de fazer tudo.
Se cada um de nós der um passo, o caminho torna-se mais leve.
Se cada um de nós assumir a sua parte, o Padre Marcelino terá força para continuar a ser o pastor que tanto admiramos.
Que a Senhora do Carmo nossa Mãe e Protetora, nos inspire a sermos uma comunidade viva, generosa e comprometida e que Deus nos dê coragem para não deixarmos ninguém sozinho.
Nem o nosso padre, nem os nossos irmãos, nem a nossa fé. Com esperança, com união e com responsabilidade, sejamos uma comunidade que quer caminhar junta.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Bom fim de semana


Vimos deixar um abraço cheio de carinho à nossa família e às amizades que a vida nos deu.
Que o fim de semana vos traga descanso, serenidade e aqueles pequenos momentos que fazem bem à alma:
Um sorriso inesperado, uma conversa boa, um café demorado, um pôr do sol daqueles que nos lembra que a vida também sabe ser leve.
Que cada um de vós encontre o seu pedacinho de paz.

Bom fim de semana a todos.
15 de maio de 2026