segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O dia em que o céu falou comigo

Hoje, enquanto escrevia estas linhas, a chuva começou a cair na Beirã com aquele peso antigo que reconheço desde criança. E, de repente, começaram também a soar trovões. Não aqueles trovões que me faziam tremer aos onze anos, sozinho no Monte Velho, com trinta e cinco ovelhas por companhia e o coração apertado de medo. Não. Estes são outros. Estes são trovões de testemunha, não de ameaça.
E foi nesse instante que me ouvi dizer, quase sem pensar:
“Hoje não estou sozinho com as ovelhas no Monte Velho.”
E não estou mesmo.
Aos onze anos, é-se ainda muito criança. E eu era. Mas a vida, naquela época, não perguntava se estávamos prontos. Mandava. E tínhamos de ir.
O Monte Velho era um mundo inteiro: o silêncio, o vento, o cheiro da terra seca, o balido das ovelhas, o céu enorme por cima de mim. E quando vinham trovoadas, vinham como monstros. Eu encolhia-me, tentava parecer homem, tentava ser forte, mas era só um rapazinho com medo.
Um pastor de palmo e meio, como costumo dizer.
Nunca falei disto com ninguém. Nem com o meu pai. Nem com a minha mãe. E sei – hoje sei – que eles também deviam sofrer.
Sofriam por me saberem ali, sofriam por não terem alternativa, sofriam porque o filho estava sozinho num ermo, a enfrentar um céu que às vezes parecia querer partir o mundo ao meio.
Mas a vida era dura. E não havia outra forma de sobreviver.
Guardei essa solidão durante décadas. Guardei como quem guarda uma pedra no bolso que pesa, mas não se fala dela. Até ontem. Ontem, ao escrever sobre esse menino-homem, ao recordar o Monte Velho, ao dar nome ao medo, ao reconhecer a solidão, algo em mim se abriu e chorei. Chorei a sério.
Chorei como quem finalmente pousa um peso que carregou demasiado tempo.
E hoje, quando o céu voltou a trovejar, não senti medo. Senti outra coisa: uma espécie de homenagem. Como se a própria natureza me dissesse: “Zé Coelho, chegaste até aqui. Venceste o que te assustava. Cresceste. Tornaste-te homem completo.”
E é verdade.
O menino do Monte Velho transformou-se num homem com raízes, com família, com tradições, com casas onde o lume acende sempre no dia de Todos-os-Santos.
Transformou-se num pai presente, num avô amado, num guardador de memórias, num homem que sabe cuidar da lareira, da terra, da lenha, da casa e dos seus.
Transformou-se num homem que já não teme o céu, porque aprendeu a viver debaixo dele. Hoje, quando os trovões se ouvem, não me encolho. Escuto. E reconheço-me. O menino que tinha medo das trovoadas cresceu.
E o homem que ele se tornou, já não teme o céu.
Texto e foto

domingo, 4 de outubro de 2026

Primeiras chuvas de Outono

As primeiras chuvas do Outono têm uma música própria e eu reconheço-a sempre. Não são violentas como as de Inverno, nem passageiras como as de Verão. São chuvas que ficam. Que entram na noite, que batem nas telhas com paciência, que acordam a madrugada com aquele cheiro que só existe aqui: cheiro a chão vivo, a promessa, a futuro.
Depois delas, tudo muda. A terra fica macia como pão acabado de amassar. As plantas levantam-se como quem agradece. Os pássaros retomam o canto com outra disposição. E eu, agricultor de domingo e de sempre, sinto que o ciclo recomeçou não porque alguém o diz, mas porque o sinto no corpo, no olhar, no modo como caminho pelo quintal.
Há uma paz especial na terra molhada. Uma paz que não se explica. Só se vive. Há quem siga o calendário. Eu sigo a terra.
O domingo não me impede de trabalhar quando ela chama. E o cansaço não me impede de escrever quando a alma pede. É essa fidelidade aos ritmos naturais que me liga profundamente ao lugar onde vivo e ao tempo que o molda.
Aprendi que o Outono não é apenas uma estação: é um estado de espírito. É o tempo em que tudo abranda, em que tudo se recolhe, em que tudo se prepara para o que vem a seguir.
E eu, que já vivi muitos outonos, reconheço-me nesse movimento: menos pressa, mais verdade; menos ruído, mais silêncio; menos urgência, mais sentido.
O Outono é para mim, um reencontro.
A terra reencontra a água. Eu reencontro o gesto antigo de preparar a terra para as sementeiras. Reencontro a calma que só aparece quando o corpo trabalhou e a alma assentou. Reencontro a memória dos que me ensinaram a olhar para o céu antes de decidir o que fazer no chão.
E reencontro esta prosa que nasce do meu dia, da chuva que finalmente caiu e desta vontade de escrever, como quem respira.
No fundo, reencontro-me a mim próprio, inteiro, sereno e completamente ligado ao que me importa.
Texto e foto

O vento que sabe o meu nome

Há silêncios que só a Beirã sabe fazer. Silêncios que começam no vento que passa pelos canchos como quem lê uma história que já não está escrita em lado nenhum.
Quando caminho por aqui, sinto que cada rajada sua traz consigo um recado: um aviso de que não estou sozinho, uma memória que não se perdeu, uma presença que não se explica.
O vento da Beirã não empurra: acaricia. Passa pelas oliveiras, pelas casas velhas, pelos muros de granito, e parece dizer-me que tudo o que vivi ainda está aqui, guardado, como se a própria terra tivesse decidido não me deixar esquecer.
E é nesse vento que encontro o meu silêncio. Um silêncio que não me pede para ser forte, nem para ser perfeito, nem para ser mais do que sou.
Pede-me apenas que pare. Que escute. Que deixe o coração pousar como quem pousa uma pedra no chão depois de a ter levado demasiado tempo na mão.
Então, no meio da manhã cinzenta, o vento torna-se oração. E Deus, sem pressa, sem palavras, sem ruído, senta-se ao meu lado porque conhece o meu nome desde sempre.
Texto e foto

Um caminho que fiz sozinho

Há momentos na vida em que o coração acredita que a comunidade é uma só voz, uma só vontade, uma só memória. Eu acreditei nisso quando decidi avançar com o projeto de candidatura à Junta de Freguesia da Beirã.
Não por ambição, não por vaidade, não por qualquer promessa de poder.
Acreditei, porque trazia comigo um sonho antigo, partilhado – pensava eu – por todos: o Ramal de Cáceres, a Estação, a vida que dali brotava para tantas famílias da nossa terra.
Acreditei com demasiada inocência que todos aqueles que tinham visto a sua vida mudar com o encerramento do ramal, reconheceriam naquele projeto uma espécie de reparação moral.
Uma forma de devolver a dignidade ao que nos foi tirado sem aviso, sem cuidado, sem respeito pela história da nossa aldeia e região. Mas a verdade chegou dura, como chegam sempre as verdades que não queremos ouvir.
Fiquei praticamente sozinho. Não porque o projeto fosse fraco. Não porque faltasse visão. Não porque faltasse trabalho. Fiquei sozinho porque não era do partido da malta quase toda.
E isso, na política pequena das terras pequenas, pesa mais do que a memória, mais do que a justiça, mais do que a verdade.
Preferiram apoiar a candidatura do partido político que decretou a desativação do Ramal de Cáceres. E eu que já por três vezes havia recusado convites do mesmo partido que dessa vez aceitei, vi-me sem apelo nem agravo a pagar o preço dessa minha inocência.
Doeu.
E doeu sobretudo porque algumas dessas pessoas eram amizades de toda a vida.
Realizámos um Fórum na antiga alfândega. Preparámos tudo com cuidado, com respeito, com esperança. Vieram autoridades dos governos de Espanha e de Portugal.
A sala de pequena dimensão encheu sim, mas sobretudo de malta da amiga, daqueles poucos que estavam do meu lado mesmo quando não era fácil estar, mas também alguns curiosos daqueles do “deixa lá ir ver o que os gajos vão dizer”.
Enquanto isso alguns e algumas que tinham perdido o trabalho com o encerramento das fronteiras pela adesão de Portugal ao Mercado Único Europeu e posteriormente pela desativação do Ramal de Cáceres, ficaram à espreita, a contarem por detrás da cortina um por um, quem para lá ia, ou entrava.
E disseram barbaridades sem nexo, falsidades, coisas que nunca foram faladas nem prometidas apenas para descredibilizarem o nosso projeto, para o ferirem e diminuírem.
Jogo sujo sem o mais leve resquício de honestidade. Não, mesmo na política, não vale, não pode valer tudo.
Nunca o nosso projeto falou em restaurar as ligações diárias da Beirã a Lisboa por comboio. O nosso projeto visava apenas fins turísticos – idênticos ao do Douro – visava só reativar, aos fins de semana, o Ramal de Cáceres desde Valência de Alcântara até Marvão-Beirã e Torre das Vargens, para ligação à Linha do Leste num circuito ferroviário que incluiria Portalegre, Elvas, Badajoz, Mérida e Cáceres.
Estava já garantido o comboio turístico para esse fim, cedido por Espanha.
Obviamente, os municípios de Marvão, Castelo de Vide, Nisa, Crato, Ponte de Sor, Portalegre e Elvas poderiam ser beneficiados com o afluxo de turistas, bastando para tal serem criadas infraestruturas rodoviárias e condições de transporte dos mesmos, das estações ferroviárias para os centros urbanos.
Foi duro.
Tão duro que ainda hoje, quando penso nisso, sinto o peso daquele silêncio que se instala quando percebemos que a lealdade e a amizade não são tão lineares como pensávamos.
Não ganhei a junta mas ganhei outra coisa: a dignidade de liderar a oposição até ao último dia de mandato. E nunca baixei a cabeça, perdi o respeito por quem ganhou ou ofendi fosse quem fosse.
Mas, sobretudo, fui leal à minha aldeia pela qual nunca deixei de lutar, até quando ela não me foi leal a mim.

José Coelho

sábado, 3 de outubro de 2026

Dedicatória

Neste sábado de quietude na Beirã, ao entrar na Igreja Paroquial de Nossa Senhora do Carmo, lembrei-me, como sempre, dos muitos Beiranenses que guardam esta devoção mesmo vivendo noutros países, noutros continentes, noutros caminhos da vida.

A fé, porém, não conhece distância. Por isso deixo aqui esta fotografia que fiz hoje 3 de Outubro de 2026, na Eucaristia Vespertina do Domingo XXVII do Tempo Comum, como quem acende uma pequena luz para todos os que gostariam de estar presentes.

Que ela vos leve um pouco da paz, da memória e da devoção que aqui se vivem, e vos recorde que a Beirã vos guarda sempre.

José Coelho

Bom fim de semana

A chuva da noite deixou-a lavada, fresca, quase luminosa. Foi o meu pai, António Coelho, quem a plantou, com aquela bondade tranquila que punha em tudo o que tocava.
Chamava-lhe “maçanica” e dizia que as suas azeitonas davam para britar, retalhar ou adoçar no pote de barro, como quem guarda o sabor da casa durante todo o ano.
Hoje, quando a vejo assim, já pintada, pronta e a dizer “colhe-me”, sinto que ele ainda está aqui: no brilho das folhas, no cheiro da terra molhada, na promessa de que a vida continua quando é bem cuidada.
Acarinho esta oliveira como ele a acarinhava. E cada azeitona é uma pequena bênção da sua querida memória.
José Coelho

O meu quintal é um espelho da minha alma

Há lugares que não precisam de grandeza para serem importantes. O meu quintal é um deles. Não tem monumentos, não tem paisagens épicas, não tem a imponência das serras que rodeiam a Beirã. Mas tem algo que nenhuma serra, por mais alta que seja, consegue oferecer: intimidade.
O meu quintal é o lugar onde a minha alma se revela sem pressa.
De manhã, quando saio para ver as plantas, há sempre um instante em que o mundo parece suspenso. O ar ainda fresco, o cheiro da terra húmida de orvalho, o silêncio que só é quebrado pelo canto da passarada, tudo isso cria uma espécie de espaço interior onde o pensamento se organiza.
Os limões novos ainda pequenos, parecem olhar para mim como quem pergunta: “Vais cuidar de nós hoje?” E eu cuido. Com a paciência que a terra exige, com a humildade de quem sabe que nada cresce por imposição.
Regar é um gesto simples, mas tem qualquer coisa de sagrado. A água cai devagar, infiltrando-se na terra como quem devolve vida ao que a pede. E enquanto rego, percebo que aquele movimento repetido, quase sempre igual, é uma forma de meditação.
A mente abranda. O corpo acompanha. O quintal torna-se espelho e eu vejo-me ali, refletido naquilo que cultivo.
Há dias em que as plantas parecem crescer mais. Outros em que parecem estagnar. E eu aprendo com elas que a vida também é assim: feita de avanços e pausas, de dias férteis e silenciosos, de momentos em que tudo floresce e outros em que nada parece acontecer.
A natureza não tem pressa e talvez seja isso que mais me ensina.
A Maria Manuela passa muitas vezes ao meu lado a estender roupa no estendal que eu fiz, mas sem interromper. Ela sabe que aquele espaço é mais do que terra. É refúgio. É lugar de pensamento. É o sítio onde encontro respostas que não encontro em livros, nem em conversas.
À tarde, quando o sol começa a descer, a luz muda. Fica mais dourada, mais oblíqua, mais suave. E o quintal transforma-se numa espécie de sala de estar ao ar livre.
Sentado num dos bancos de alvenaria da varanda, olho para as plantas, para o céu, para o movimento lento do vento, e sinto que ali, naquele pedaço de terra, a vida se torna compreensível.
O meu quintal não é apenas um espaço. É metáfora. É o lugar onde percebo que tudo o que cresce precisa de cuidado, de tempo, de silêncio. E que a alma, tal como as plantas, só floresce quando é regada com atenção.
Às vezes penso que, se alguém quisesse saber quem eu sou, bastava olhar para o meu quintal. Ali está a minha paciência. Ali está a minha memória. Ali está a minha forma de estar no mundo. Ali está o meu ritmo lento, constante, sereno.
O meu quintal é o meu espelho. E eu, que tantas vezes vivi entre urgências e compromissos, ali encontro naquele pedaço de terra, uma verdade que me acompanha: a alma sossega melhor quando tem raízes.

José Coelho