segunda-feira, 21 de setembro de 2026

As nossas netas

Há alegrias que não se explicam – acontecem. As minhas netas são uma dessas alegrias. A Francisca, a Mariana e a Filipa chegam sempre como quem traz luz no bolso, como quem carrega no olhar uma espécie de futuro que se renova cada vez que entram pela porta da Toca dos Coelhos.
Quando elas chegam, a casa muda de respiração. O silêncio transforma-se em riso, a rotina transforma-se em movimento, a tarde transforma-se em promessa. É como se cada uma delas trouxesse uma estação diferente: a Francisca, a primavera; a Mariana, o verão; a Filipa, o outono doce que ainda guarda muito sol.
A Filipa tem aquele jeito atento, adulto, que observa tudo com uma maturidade que surpreende. Há nela uma serenidade que não é comum na idade, uma forma de estar que me lembra, às vezes, a minha própria juventude: discreta, mas firme; calma, mas presente. Quando ela fala, a casa escuta.
A Mariana é diferente. Tem aquele brilho nos olhos que anuncia aventura, aquele riso que se espalha pela sala como quem acende luzes invisíveis. É rápida, viva, cheia de pequenas ousadias que fazem da casa um lugar mais leve. A Mariana não entra, irrompe. E ao irromper, traz alegria.
A Francisca, já mais alta que eu e quase uma senhora, tem ainda aquele encanto que só as crianças guardam: o espanto fácil, a ternura espontânea, a confiança absoluta. Ela chega sempre com passos pequenos, mas com uma presença enorme. É a que me procura primeiro, a que me chama, a que me abraça sem pedir licença. E nesse abraço, há uma verdade que nenhuma palavra alcança.
Quando elas ficam cá a dormir, a casa transforma-se. Os quartos ganham vida, os corredores ganham som, a cozinha ganha movimento. Há mochilas, casacos, risos, histórias, perguntas, pequenos segredos. E eu, no meio de tudo sou um avô que não precisa de fazer nada para ser tudo.
A avó Manuela observa-as com aquele olhar de ternura que só as mulheres que sabem cuidar conseguem ter. Ela organiza, prepara, arruma, orienta, mas sempre com aquele sorriso que diz: “É bom tê-las aqui.” E eu sei que é mesmo bom. Porque a casa, com elas, não é apenas casa, é futuro.
Há momentos em que as três se juntam no quintal, a correr, a inventar jogos, a mexerem nas plantas. E eu fico ali, a olhar, com a serenidade que só os avós conhecem: a serenidade de quem vê a vida continuar. De quem percebe que tudo o que viveu, tudo o que construiu, tudo o que sofreu, tudo o que amou está ali, multiplicado, renovado e transformado em riso.
As netas não são apenas crianças. São continuidade. São raiz que avança. São memória que cresce. São o futuro a acontecer dentro da nossa casa.
E eu, que tantas vezes vivi entre estradas, urgências e compromissos, encontro nelas – na alegria que trazem – uma verdade que me acompanha: há amores que não se explicam; reconhecem-se no brilho dos olhos de uma criança que nos chama “avô”.

Crónicas da Beirã - O coelho da raia

Há histórias que não precisam de ser inventadas. Basta escutá-las. E quando nos chegam da boca de um amigo de infância, com aquele brilho nos olhos de quem revive o passado como se fosse agora, tornam-se ainda mais preciosas.
Esta é uma delas.
Naqueles tempos antigos da raia, quando a vida era dura e a mesa tinha muitos filhos à volta, havia homens que sabiam sobreviver com engenho, coragem e uma pontaria que não vinha dos livros. Um desses homens era o sogro do meu amigo – um homem bom, de muitos filhos, mãos calejadas e uma habilidade rara: caçava com pau.
Sim, com pau. Não era metáfora. Era necessidade.
Numa dessas idas a Espanha, a pé, como se fazia então, o meu amigo e o sogro levavam às costas umas coisitas. Nada de grande valor, mas o suficiente para trazerem de volta outras coisitas que alimentassem a família. Contrabando? Talvez. Mas na raia, contrabando era apenas outro nome para sobrevivência.
A certa altura, já no regresso, o sogro avistou um coelho pousado numa pedra. Olhou, mediu a distância, apanhou uma giesta, improvisou uma moca, e num gesto rápido, seco e certeiro, derrubou o bicho. “Já temos jantar”, disse, como quem anuncia uma bênção.
Voltaram a casa com as mochilas mais cheias do que tinham ido e ainda o coelho para a família. Tudo parecia ter corrido bem.
Dias depois, no matadouro onde o meu amigo trabalhava, aproximou-se dele um guarda fiscal. Homem bom, conhecido de todos, daqueles que sabiam distinguir a lei, da vida.
Com um sorriso discreto, perguntou-lhe:

– Então… e o coelhito, estava bom?
O meu amigo ficou sem fala.
– Qual coelho? – balbuciou, atrapalhado.
O guarda explicou. Eles tinham sido vigiados por uma patrulha da Guarda Fiscal. Tinham-nos visto à ida com as mochilas. Tinham-nos visto à volta. Tinham visto o coelho abatido à paulada. Tinham visto tudo.
Quatro infrações de uma vez: contrabando na ida, contrabando na volta, caça ilegal, e método proibido. Mas não fizeram nada. Esconderam-se. Deixaram-nos passar. Protegeram-nos. Porque sabiam da prole imensa que esperava em casa por comida. Porque conheciam o homem e a sua vida.
Porque entendiam que aquilo não era crime, era necessidade.
O meu amigo da infância contou-me isto com aquela emoção e respeito que só aparece quando a memória se mistura com gratidão. E eu fiquei a pensar que, na nossa raia, havia uma justiça que não cabia nos códigos: a justiça dos homens que conheciam a fome, a dignidade, e a coragem dos outros.
E é por isso que esta história cabe inteira nas Crónicas da Beirã.
Porque é verdadeira.
Porque é humana.
Porque é nossa.
Que a terra seja leve a esses dois bondosos Beiranenses: ao sogro do meu amigo da infância e também ao guarda fiscal, lá, onde já descansam em paz, não muito longe um do outro.

domingo, 20 de setembro de 2026

A humildade como força

A humildade costuma ser confundida com fraqueza. Como se fosse uma espécie de apagamento, uma renúncia, uma forma de estar sempre um passo atrás. Mas quem vive com humildade verdadeira sabe que ela é, na realidade, uma das maiores forças que um ser humano pode ter.
Ser humilde não é diminuir-se. É não precisar de se engrandecer.
A humildade nasce da consciência tranquila de quem sabe quem é, de onde vem, o que vale, e não precisa de provar nada a ninguém. É uma força silenciosa, que não se exibe, mas que sustenta. É a coragem de reconhecer limites, de aprender com os outros, de ouvir antes de falar, de agradecer antes de exigir.
E há ainda outra coisa: a humildade aproxima. A vaidade afasta, cria distância, ergue muros. A humildade, pelo contrário, abre portas, cria pontes, permite que os outros se aproximem sem medo.
Um homem humilde não é aquele que se esconde. É aquele que não tem medo de ser visto como é.
E isso exige força para admitir erros, força para reconhecer méritos alheios, força para não transformar cada vitória numa bandeira, força para caminhar sem pisar ninguém.
A humildade é também liberdade: liberta-nos da necessidade de competir, de comparar, de provar. Quem é humilde vive mais leve, porque não carrega o peso das máscaras.
No fim, a humildade é uma força que não se impõe, revela-se. E quando se revela, ilumina.
Votos de uma excelente semana, pessoal.
Cuidem-se...

O lugar onde mora o silêncio

Há manhãs em que acordo antes do sol, não por obrigação, mas por um hábito antigo. A casa ainda dorme e eu caminho devagar para não perturbar esse descanso que só existe nos primeiros minutos do dia. A madeira estala como se respirasse, o relógio marca o tempo com uma paciência que já não se encontra nas pessoas e eu acendo a luz mais suave da cozinha, aquela que ilumina só o suficiente para não ferir a penumbra.
Nesse instante, chega o silêncio.
Não entra pela porta nem pela janela; instala-se. Senta-se ao meu lado como faziam os velhos amigos da Beirã quando íamos tomar café e conversar sem pressas. O silêncio tem essa delicadeza: não exige, não disputa espaço, não tenta convencer. Apenas existe, e, ao existir, permite que eu exista também.
Com o passar dos anos, percebi que o mundo foi ficando mais barulhento. As pessoas falam alto, as notícias atropelam-se, as urgências multiplicam-se. Tudo parece querer ocupar espaço, como se o ruído fosse prova de vida. Talvez por isso eu tenha começado a procurar o silêncio como quem procura abrigo.
Num mundo que tanto grita, o silêncio tornou-se o meu refúgio.
Todos os dias ao fim da tarde, saio para o quintal. A luz cai oblíqua sobre as pedras e o cheiro da terra quente mistura-se com o das folhas das figueira. Há sempre um momento em que o vento abranda e o mundo parece suspenso. Ali, o silêncio não é apenas som, é paisagem. É memória.
É aquilo que sobra quando o ruído se afasta.
E nesse espaço, começo a ouvir coisas que não escuto no tumulto: o eco das minhas próprias perguntas, a lembrança dos afetos que resistem, a voz discreta das coisas simples que sustentam a vida. O silêncio, afinal, funciona como um espelho. Mostra o que carregamos em excesso, o que já não nos serve, o que nos pesa sem necessidade.
Mostra também o que permanece: a ternura dos gestos pequenos, a fidelidade das rotinas, a luz que ainda mora nos lugares onde fomos felizes.
Recordo-me de uma tarde de outono, em que o meu pai me ensinou a ouvir o campo. “O silêncio é só a natureza a falar mais baixo”, disse-me ele, enquanto caminhávamos. Na altura não entendi. Hoje, percebo que ele me estava a ensinar a escutar aquilo que não tem som e que essa escuta é uma forma de sobrevivência.
O silêncio também me devolve a minha Manuela. Não a dos dias apressados, das tarefas, das conversas interrompidas, mas a do essencial, aquela que caminha ao meu lado há cinquenta anos. No silêncio, vejo-a como se fosse a primeira vez: o modo como pousa a mão na mesa, o jeito de ajeitar o cabelo, a serenidade com que olha o mundo.
Há amores que se revelam mais no silêncio do que na palavra.
E talvez seja por isso que, para mim, o silêncio se tornou uma forma de regresso. Não um afastamento do mundo, mas um reencontro comigo e com tudo o que me fez ser quem sou.
É ali, onde nada exige explicações, onde o tempo abranda, onde a alma respira sem vigilância, que encontro aquela verdade que o barulho tenta esconder: a de que viver é, muitas vezes, saber escutar o que não tem som.
O silêncio, afinal, é o lugar onde a vida se organiza. Onde o passado encontra o presente sem se atropelar. Onde a memória se ajeita. Onde o coração descansa. E, quando o mundo volta a gritar – porque volta sempre – é desse silêncio que tiro a força para continuar.
Tenham um excelente Domingo.

sábado, 19 de setembro de 2026

O impulso de escrever

Há dias em que acordo com a sensação de que o mundo me fala baixinho. Não é uma voz clara, nem urgente, é um murmúrio que vem da terra, das velhas paredes, do cheiro do café, do canto da passarada que anuncia o dia antes de eu abrir a janela.
É nesse instante que sinto essa inquietação a mexer cá dentro: aquela irresistível vontade de transformar o que vejo e ouço em palavras, como quem tenta guardar água numa concha.
Não sei se isto é vocação, destino ou apenas teimosia. Mas sei que, quando algo me encanta ou me fere, quando uma luz me toca ou uma lembrança me atravessa, nasce logo em mim o impulso de escrever.
É como se a vida me pedisse tradução e eu, obediente, me sentasse a escutá-la.
Escrever, para mim, é uma forma de conversar com o mundo. Não para o convencer de nada, mas para o acompanhar. Para lhe dizer: “Eu vi-te e senti-te, porque estou aqui.”
Mas talvez também para que os outros, ao lerem, reconheçam qualquer coisa sua nas minhas palavras: um gesto, uma sombra, uma saudade, um riso que lhes ficou por dentro.
Há quem escreva para deixar marca. Eu escrevo para não deixar que a vida me escape entre os dedos.
A Beirã ajuda-me, porque este lugar tem uma maneira própria de nos ensinar a olhar: o silêncio que não pesa, o calor que insiste fora de tempo, o outono que chega devagarinho, como quem pede licença.
Aqui, tudo parece pedir uma crónica, desde as pedra antigas que guardam muitas histórias, até ao vento que muda de direção sem avisar.
E eu, que não sei ficar indiferente ao que me rodeia, acabo sempre por transformar o que sinto, num texto. Não por vaidade, mas por necessidade.
Porque só escrevendo consigo dar forma ao que me inquieta e ao que me sossega. Porque só escrevendo encontro o meu lugar no mundo.
Talvez isto seja uma vocação: uma urgência mansa, uma fidelidade ao que me toca, uma vontade de existir com mais nitidez.
Foto Pedro Coelho

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Bom fim de semana

A paz conquista-se, não chega de repente. Não cai do céu como chuva inesperada. A paz é trabalho, é escolha, é disciplina. É algo que se constrói devagar, como quem levanta um muro: uma pedra hoje, outra amanhã, sempre com cuidado para que nada fique torto.

A paz que eu conquisto não vem dos outros, vem de mim. Vem do momento em que decido não responder à provocação. Vem da hora em que escolho o silêncio em vez da guerra. Vem da coragem de me afastar do que me magoa, mesmo quando isso me custa.

A paz não é passividade. A paz é força. É saber que posso reagir, mas escolho não o fazer porque a minha tranquilidade vale mais do que qualquer disputa.

A paz que conquisto nasce quando deixo de tentar controlar o que não depende de mim. Quando aceito que há pessoas que não vão mudar. Quando entendo que há situações que não merecem o meu desgaste.

Quando percebo que a minha energia é preciosa e não pode ser desperdiçada.

A paz também exige limites. Exige dizer “não”. Exige fechar portas que já não levam a lugar nenhum. Exige afastar quem chega sempre como tempestade e nunca como abrigo.

E, ao mesmo tempo, a paz é generosidade: é olhar para quem me feriu e já não sentir raiva; é lembrar o passado sem carregar o seu peso; é seguir em frente sem querer vingança.

A paz que conquisto é simples: é acordar e sentir que estou inteiro; é deitar-me sabendo que não traí a minha essência; é viver sem barulho dentro de mim.

A paz não é dada. A paz é conquistada. E eu conquisto-a todos os dias com silêncio, com limites, com escolhas, com calma.

Bom fim de semana, pessoal!

A lealdade nunca cansa

Há vidas que se fazem como se faz o pão: todos os dias, com as mesmas mãos, com a mesma paciência, com a mesma certeza de que o gesto vale mais do que qualquer palavra. A minha vida com a Maria Manuela é assim – uma massa que se foi amassando ao longo de cinquenta e cinco anos, com alegrias que levedaram e tristezas que também fizeram parte da receita.
Hoje ao olhar para esta fotografia na nossa cozinha, não vejo apenas dois rostos. Vejo tudo o que não se vê: as noites em que o silêncio foi companhia, as manhãs em que o cansaço não impediu o cuidado, as viagens longas, o alcatrão percorrido, as madrugadas antes da alvorada, os filhos que cresceram, as netas que nos reinventaram.
E vejo, sobretudo, a lealdade, essa palavra antiga que já quase ninguém usa porque exige mais do que o mundo está disposto a dar.
Vivemos numa época em que os sentimentos secaram como os rios no verão. As pessoas confundem facilidade com felicidade, confundem liberdade com abandono, confundem viver com deixar para trás.
Mas eu aprendi outra coisa: que a vida só tem sentido quando é partilhada, que a lealdade é uma forma de amor, e que cuidar é uma forma de agradecer o que se viveu.
Se algum dia a Maria Manuela precisar de cuidados que ultrapassem as minhas mãos, não será deixada num lugar qualquer, entregue ao acaso.
Não será afastada de mim para que eu “recupere” uma vida que nunca quis ter sem ela. Se ela tiver de ir para um Lar, iremos juntos, porque a lealdade não se suspende quando o corpo fraqueja; cumpre-se até ao fim da nossa vida.
Mesmo que os olhos dela deixem de me reconhecer, quero que a minha presença continue a ser o chão onde ela pousa. Quero ser o Zéi dela até ao último dia não por bondade, mas por coerência.
Porque a vida que construímos merece ser acompanhada até ao último capítulo, mesmo que esse capítulo seja escrito numa morada diferente.
Num tempo em que tantos corações se tornaram de pedra, eu escolho ser raiz. Num tempo em que tantos fogem, eu escolho ficar.
Num tempo em que tantos confundem amor com conveniência, eu escolho a fidelidade, essa forma silenciosa de heroísmo que não precisa de aplausos.
E se alguém perguntar porquê, a resposta é simples: porque ainda há quem seja capaz de ser leal até ao fim. E eu sou um desses.