O outono sempre me acompanhou, mesmo quando eu ainda não sabia o nome das estações. Era a luz, ou talvez o silêncio. Ou aquele modo como o dia se despede devagar, como quem sabe que a noite não é inimiga, é apenas continuação.
Ainda criança já carregava esta melancolia que não vinha de tristeza. Vinha de solidão. Daquela solidão que não se escolhe, mas se aceita. Daquela solidão que molda, que afina, que ensina a ver o mundo com mais profundidade.
A minha mãe era o centro do meu mundo e o rosto que eu queria proteger, porque já então sentia tudo: a falta de dinheiro, a preocupação com o dia seguinte, o peso das contas, o silêncio das noites longas. Menino ainda, percebi tudo isso, antes de perceber outras coisas mais simples.
Quando lhe entregava a minha jorna, sentia-me grande. Não porque o dinheiro fosse muito, mas porque via no seu rosto algum alívio. Eu vivia para isso: para não a ver triste, para que não se afligisse, para que o mundo não lhe pesasse tanto. A minha melancolia começou não como dor, mas como responsabilidade, como amor.
O meu pai, o homem que lia o céu, era diferente. Falava pouco, mas dizia muito. Tinha aquele olhar de quem mede o tempo não pelo relógio, mas pela luz. Sabia quando a terra estava pronta para semear, quando a chuva vinha, quando o dia ia ser duro.
E eu seguia-o como se segue um mestre. Não porque ele me pedisse, mas porque eu precisava. Precisava daquela segurança silenciosa, daquela firmeza que não se exibia, daquela sabedoria que não se ensinava em palavras. Foi com ele que aprendi a olhar o céu antes de decidir o que fazer no chão. Ainda hoje faço isso.
Quando os meus filhos nasceram foram um outono que se tornou primavera: percebi que a minha vida tinha feito um círculo perfeito. Tudo o que me faltou a mim quis dar-lhes a eles. Não em excesso, mas em presença, em tempo, em companhia.
Eles nunca precisariam de inventar rebanhos com bolotas. Nunca precisariam de esperar pelo pôr do sol para voltarem para casa e terem a nossa companhia. Nunca precisariam de medir o dinheiro como quem mede o ar que falta. E isso, para mim, foi redenção. Foi cura.
Hoje, adulto há muito, continuo melancólico. Mas já não é aquela melancolia do medo e da solidão. É a melancolia da memória. Da gratidão. Da consciência. Vejo o pôr do sol e recordo o menino que passava os dias sozinho e chorava com medo das trovoadas, tão longe de casa com as ovelhas.
Vejo o outono e reconheço o rapaz que cresceu cedo demais. Vejo a terra molhada e reconheço o homem que teve de aprender a cuidar, antes de aprender a pedir. E percebo que esta melancolia nunca foi defeito. Foi casa. Foi abrigo. Foi identidade.
Os meus silêncios acompanham-me desde sempre. Silêncios do campo. Silêncios da alma. Silêncios da responsabilidade precoce. Silêncios da ternura que não se diz. Hoje, esses silêncios não me isolam, protegem-me. São o lugar onde descanso. Onde penso. Onde me reencontro.
E é por isso que o outono é a minha estação. Porque é silêncio. É profundidade. É melancolia boa. É verdade.




