sexta-feira, 13 de março de 2026

Bom fim de semana


Home Sweet Home - Beirã

Casa arrumada

A primeira foto na classe de Sargentos, no estágio em S. João da Madeira

No Dia da Guarda a 3 de Maio de 1986 num gesto implícito de público agradecimento, organizei no quartel um almoço convívio comemorativo da efeméride e para ele convidei de novo todas as entidades de todos os organismos públicos de Nisa, ao qual todos compareceram. Foi interessante ver a cara de espanto de alguns daqueles convidados que lá tinham ido em visita de cortesia oito ou nove meses antes.

O quartel estava um brinco. Restaurado, pintado de fresco e cheirando a asseio, nada tinha a ver com aquele outro bafiento em ruínas que tinham visto antes. Continuava obviamente a ser um edifício velho e a avisar quem de direito que tratasse urgentemente de providenciar um novo quartel, mas pelo menos agora tinha alguma dignidade.

Os dois comandantes, quer o oficial comandante da secção, quer o sargento que me antecedeu no comando do posto, não devem ter gostado da forma como em meia dúzia de meses se requalificara o velho edifício que, pela sua total indiferença, quase tinham deixado ruir, argumentando que os responsáveis pelo edifício eram a Guarda e o Governo, por isso deviam ser esses a preocuparem-se com isso, porque não tinham eles de andar a pedir favores à câmara municipal.

Nada disso me afetou. 

Eu previa que iria ter de passar ali um punhado de anos no comando do posto e resolvi as coisas à minha maneira, tendo agora os militares umas instalações velhas mas com um mínimo de dignidade, assim como a residência do comandante do posto, bem ao contrário deles, que só se tinham preocupado em manter minimamente decentes, os seus gabinetes.

Fiquei um dia a saber que o meu camarada sargento se referiu a mim, seu substituto,  sem imaginar que o senhor para quem estava a falar era um tio meu e lhe disse que eu era “um comuna”.

Continuava com o preconceito que o caracterizava, mas que nunca me intimidou. Cada vez que experimentou medir forças comigo querendo fazer uso da sua patente dois degraus acima da minha – eu era segundo-sargento e ele sargento-ajudante – teve sempre de recuar na atitude porque com a maior firmeza lhe fiz notar que tanta obrigação tinha eu de o respeitar a ele, como tinha ele de me respeitar a mim também. 

Assim acabou pura e simplesmente por desistir, quando percebeu que nunca levaria a melhor.

Entretanto e infelizmente para ele, foi acometido de uma doença incurável que lhe ditou uma aposentação precoce que não teve tempo de desfrutar, porque faleceu poucos meses depois.

Encontrei-o casualmente um dia em Lisboa no Centro Clínico da Guarda já muito debilitado e sinceramente condoeu-me vê-lo assim, porque apesar de me ter tratado tão injusta e incorretamente, nunca lhe desejei mal algum. Desejava tão só e apenas que fizesse a sua vida e me deixasse fazer a minha em paz.

No exato momento em que o vi dirigi-me imediatamente a ele para saber do seu estado de saúde e pude ver como os olhos se lhe humedeceram. Não sei se por se sentir doente, se surpreso com o meu gesto ao qual ele já não pôde responder porque tinha perdido definitivamente a voz – eu não sabia disso – e por esse motivo limitou-se a aceitar o meu cumprimento apontando para o enorme penso que lhe cobria na garganta o local da recente intervenção cirúrgica a que fora submetido para lhe retirarem um tumor maligno.

Recordo ainda a tristeza que eu próprio senti por vê-lo assim. Por essas e por outras, nunca deixo de pensar o quanto é incompreensível que andemos constantemente às turras uns com os outros quando a vida é tão imprevisível que de um momento para o outro toda a nossa força e energia, caem por terra. Duras lições que tenho aprendido pelo caminho da minha já longa vida e por isso procuro viver em paz com toda a gente que também queira viver em paz comigo. 

Detesto intrigas, ódios, desavenças e filhadeputices.

Em todo o meu percurso profissional desde o momento que ascendi à classe praças, depois à de Cabos e a seguir à de Sargentos, fiz sempre questão de pautar a minha conduta pelo respeito institucional para com toda a gente, quer da minha patente quer superiores hierárquicos ou subordinados, quer ainda as autoridades civis e administrativas, exigindo, do mesmo modo, ver também respeitados os meus direitos, perante fosse quem fosse.

Na minha função de comandante de posto nunca me acomodei no conforto do gabinete e nele permanecia apenas as horas necessárias ao despacho daqueles afazeres que eram de minha exclusiva responsabilidade. Porém, assim que os terminava, logo estava dentro de um jipe ou mesmo também a pé para alinhar com os cabos e os guardas no policiamento aos campos, às estradas, às aldeias e a outros sítios da área do posto que eram imensos e dispersos.

Nunca me julguei a omnipotente figura com direito de ficar no bem bom, enquanto os subordinados policiavam ao calor ou ao frio no exterior. Muito pelo contrário. Senti-me sempre e só apenas mais um, naquela excelente equipa de trinta e seis competentes profissionais. 

A única diferença, era a de ter de ser eu e apenas eu, a assumir a responsabilidade de planear os giros por forma a termos toda a área do posto vigiada e sob controlo, mas até nisso fui sempre ajudado pela excecional competência e lealdade de todo o efetivo que me transmitia as preciosas informações que discretamente iam recolhendo junto da população e eram meio caminho andado para um planeamento muito mais eficaz.

Éramos uma equipa e todos nunca fomos demais.

José Coelho in Histórias do Cota

quinta-feira, 12 de março de 2026

Obrigado, Vida



Ter um lugar para ir, é lar. Ter alguém para amar, é família.
Ter os dois, é bênção.

Necessidade vital


Na procura incessante da paz de espírito é fundamental aprendermos a ouvir o silêncio e a respeitar o nosso próprio ritmo. A verdadeira serenidade revela-se nos momentos em que nos aceitamos como somos e acolhemos as nossas fragilidades como fazendo parte de nós.
É nesse espaço de aceitação que a nossa força interior cresce e nos incentiva a enfrentarmos qualquer desafio, conferindo-nos mais resiliência.
Sermos gratos pelas pequenas coisas do nosso dia a dia, pode também melhorar a nossa percepção da realidade. Valorizar coisas simples como um simples momento de serenidade ou um gesto de carinho, ajuda-nos a construir uma sólida base de autoconfiança.
Ao cuidarmos do nosso equilíbrio emocional, tornar-nos-emos com toda a certeza mais capazes de lidar com as adversidades e de aproveitar as oportunidades que a vida nos oferece.
Priorizarmos a paz interior não é um luxo, mas uma necessidade vital. Ao fazermos escolhas conscientes, alinhadas com os nossos princípios e valores, abrimos espaço para uma vida mais autêntica e feliz, onde o amor-próprio e o respeito por nós próprios serão sempre a bússola que guiará cada um dos nossos passos.

terça-feira, 10 de março de 2026

Viver é aprender e às vezes dói


Quanto mais (sobre)vivo mais aprendo e certifico que a Vida é uma luta constante, uma incógnita permanente que nos obriga a espavilar, a arregaçar as mangas, a enfrentar obstáculos, a vencê-los com determinação e a aceitar o que é humanamente possível. E, ainda que esse possível fique muitas vezes aquém das nossas expectativas, vezes haverá também em que elas se excederão e nos irão surpreender pela positiva.
Sei do que falo, podem apostar.
Viver nem sempre é fácil. Para mim então, nunca foi. Sei hoje, sem sombra de dúvida, que nunca será. Aprendi a esperar, muito novo ainda, quando tinha de ficar sentado ao lume embrulhado num cobertor até que enxugasse a roupa que a minha mãe tinha lavado, porque só tinha aquela.
Aprendi que é preciso andar atento, cada vez que fiquei sem a cabeça um dos dedos dos pés por tropeçar nalguma pedra, porque andava descalço. Continuei a aprender que a solidariedade existe, quando, já rapazote, tinha de ler livros emprestados pelos meus amigos, porque a minha mãe não os podia comprar.
Aprendi ainda também existem prioridades, cada vez que não pude associar-me aos amigos da minha idade nos petiscos aos domingos na Sociedade Recreativa, apesar de, feitas as contas, "tocarem" só três escudos a cada um já incluídas as bebidas, porque a minha diminuta jorna semanal fazia falta à minha mãe para comprar pão.
A década de 50 do séc. XX foi para nascer e fazer a escola primária, a de 60 foi a de andar atrás do cu das ovelhas e das vacas do tio José Bonacho nos Pavios do Cabeço de Seixo, embrulhado em sacas de serapilheira que em vez de me resguardarem da chuva no inverno ficavam ensopadas como esponjas, pesadas como chumbo e molhavam ainda mais do que a chuva, porque nessa época ainda não havia as de plástico, bem mais leves e impermeáveis.
Depois, mesmo, mesmo, a findar os anos 60 e início da década de 70 foi a fase decisiva do resto da minha vida. Todo o futuro imediato, próximo e distante, ali se definiu. Do final de 1969 ao final de 1979 ingressei nas forças armadas como voluntário, fiz o curso de transmissões, fui promovido a cabo, fui à guerra, casei, fui pai, fui mineiro, entrei para a GNR.
O objetivo das minhas "pressas" é facilmente explicável. Queria deixar a vida dura do campo, das ovelhas, das vacas e as pedras do meu pai. Mas à época, sem o serviço militar resolvido, ninguém tinha hipótese. E eu queria ser, imaginem... carteiro! Vestir uma farda igual à do senhor João Sapage, - que Deus já lá tem - para andar de porta em porta a levar boas notícias. Foi por isso que decidi escalar aquele muro chamado tropa que me impedia de lá chegar.
Contra todas as expectativas que algumas vezes toldaram a minha esperança de voltar para casa são e salvo, voltei. Infelizmente (ou felizmente, não sei bem) o serviço militar resolvido não me abriu as tais portas dos CTT que tanto ambicionara alcançar.
A revolução dos cravos estava no auge quando aterrámos de novo no aeroporto da Portela a 9 de junho de 1974 depois daqueles longos 27 meses de sustos e receios. A revolução "fechara" qualquer possibilidade de ingresso em qualquer empresa civil ou do Estado porque a prioridade era o "povo está com o MFA".
Fiz à mesma os requerimentos, mas…
"Com os melhores cumprimentos lamentamos informar que não se encontra em curso a admissão de novos funcionários nesta empresa."
Sacrifício inútil? Talvez sim, talvez não. Sofri, é verdade. Mas também amadureci. Fiz-me o homem que hoje sou. Conheci o melhor e o pior que a Vida pode dar e ensinar a cada um de nós. Foi, grosso modo, o meu "doutoramento" sem direito a canudo. Duro, exigente, cheio de obstáculos que foi necessário contornar e vencer. Estava escrito que tinha de ser assim.
Dizia depois e se calhar com alguma razão, a minha família: - Se não tivesses ido voluntário, nem sequer ias à guerra...
Porque, entretanto, a revolução entregou África aos africanos e acabou a guerra colonial.
- Se...
Dizemos todos muitas vezes.
Mas eu pergunto.
Não será toda a nossa vida uma inevitável sucessão de “ses” que, mesmo doendo às vezes, nos moldam e ajudam não só a crescer, como também a aprender?

José Coelho

segunda-feira, 9 de março de 2026

Está decidido


Enquanto me importo, não vou embora. Mas se decidir ir embora, já deixei de me importar.

José Coelho

Decididamente

Decididamente, este já não é o meu velho e querido País. Aquele Portugal de gente alegre e genuína na sua maneiras de viver tão diferenciada quanto o eram as tradições usos e costumes de cada província e região. A alegria que sempre nos caracterizou, foi aos poucos sendo substituída por semblantes fechados em consequência de inúmeras e sucessivas preocupações. O desemprego no seu sobe e desce, a precaridade laboral e os seus baixos salários, as miseráveis pensões de reforma da esmagadora maioria dos pensionistas, o galopante custo de vida em contraciclo com os míseros aumentos salariais, as pandemias, as guerras, e, enfim, esta incerteza no dia de amanhã que permanentemente se abate sobre as nossas vidas.
Decididamente, e só não vê quem não quer, porque tem, ou teve, para si ou para algum dos seus, interesse, proveito ou lucro com as políticas que nas últimas décadas foram sendo despejadas a cachão sobre as nossas cabeças, principalmente os resistentes que teimamos em continuar a viver no interior do território luso, cada vez mais abandonado e sem os recursos necessários ao comum bem-estar, apesar de não ser também já muito famosa a situação daqueles que noutro tempo julgaram oportuno debandarem para o litoral ou para os grandes centros urbanos.
Decididamente, é aberrante termos de assistir ao desfilar de sucessivos escândalos públicos e indignidades sem tamanho, protagonizadas na sua esmagadora maioria por figuras públicas e de tal forma frequentes que acabamos por já nem fazer caso e encolher de ombros, como se todas essas aberrações fossem normais. Que sociedade é esta construída nas últimas décadas, onde alguns navegam em oceanos de dinheiro que se desconfia não ser de origem lícita, enquanto outros vivem no limiar da dignidade humana a "revoltearem" contentores do lixo pela calada da noite para conseguirem alguma coisa com que possam matar a fome?
Decididamente, não aceito e não entendo, que se atribuam pensões com menos de metade do valor do ordenado mínimo nacional, à maior parte das pessoas que se reformam atualmente, que trabalharam e descontaram uma vida inteira. Será que essas pessoas passam a comer só já metade do que comiam, a pagar apenas metade de renda da casa, ou deixam de necessitar de roupa, de calçado, de medicamentos, a partir do dia em que se reformam? Porque é que 40 anos de descontos ou mais, dão direito a tão pouco, mas aos políticos bastam 12 anos para terem chorudas subvenções vitalícias? Será que eles quando se reformam passam a comer o dobro e a pagar também o dobro pelas suas compras no supermercado?
Decididamente, nunca entendi nem entenderei os cortes na saúde para poupar na despesa dos orçamentos de estado, enquanto vi muitos milhares de milhões serem, sem qualquer dificuldade, injetados na banca para proteger os interesses dos seus acionistas.
Decididamente, tenho vergonha de haver nascido num país que tem parido gente capaz desta e de tantíssimas outras indignidades em nome de políticas com vista a um pretenso bem comum. Porque não poupam primeiro nas suas obscenas mordomias? Porque vivem os mentores destas decisões no luxo e conforto onde nada falta aos seus filhos, nem aos seus pais, nem aos seus afilhados ou padrinhos?
É esse o exemplo que dão?
Quem já viu um senhor ministro, um senhor deputado, um simples senhor secretario de estado, um CEO, um Administrador ou afins, na fila de espera da urgência de qualquer hospital público durante doze ou mais horas com uma pulseira de plástico enfiada num dos pulsos?
Decididamente, não era assim o meu País quando eu nasci, onde cresci e vivi a vida toda, trabalhei com dedicação e cumpri à letra as minhas obrigações fiscais, cívicas, profissionais e de cidadania, porque sempre me empenhei em ser honesto e íntegro por lealdade aos princípios e valores que do berço recebi. Será que os mentores destas iniquidades que definem e condicionam a vida de todos nós, alguma vez deles terão sequer ouvido falar?
José Coelho