domingo, 20 de setembro de 2026

A humildade como força

A humildade costuma ser confundida com fraqueza. Como se fosse uma espécie de apagamento, uma renúncia, uma forma de estar sempre um passo atrás. Mas quem vive com humildade verdadeira sabe que ela é, na realidade, uma das maiores forças que um ser humano pode ter.
Ser humilde não é diminuir-se. É não precisar de se engrandecer.
A humildade nasce da consciência tranquila de quem sabe quem é, de onde vem, o que vale, e não precisa de provar nada a ninguém. É uma força silenciosa, que não se exibe, mas que sustenta. É a coragem de reconhecer limites, de aprender com os outros, de ouvir antes de falar, de agradecer antes de exigir.
E há ainda outra coisa: a humildade aproxima. A vaidade afasta, cria distância, ergue muros. A humildade, pelo contrário, abre portas, cria pontes, permite que os outros se aproximem sem medo.
Um homem humilde não é aquele que se esconde. É aquele que não tem medo de ser visto como é.
E isso exige força para admitir erros, força para reconhecer méritos alheios, força para não transformar cada vitória numa bandeira, força para caminhar sem pisar ninguém.
A humildade é também liberdade: liberta-nos da necessidade de competir, de comparar, de provar. Quem é humilde vive mais leve, porque não carrega o peso das máscaras.
No fim, a humildade é uma força que não se impõe, revela-se. E quando se revela, ilumina.
Votos de uma excelente semana, pessoal.
Cuidem-se...

O lugar onde mora o silêncio

Há manhãs em que acordo antes do sol, não por obrigação, mas por um hábito antigo. A casa ainda dorme e eu caminho devagar para não perturbar esse descanso que só existe nos primeiros minutos do dia. A madeira estala como se respirasse, o relógio marca o tempo com uma paciência que já não se encontra nas pessoas e eu acendo a luz mais suave da cozinha, aquela que ilumina só o suficiente para não ferir a penumbra.
Nesse instante, chega o silêncio.
Não entra pela porta nem pela janela; instala-se. Senta-se ao meu lado como faziam os velhos amigos da Beirã quando íamos tomar café e conversar sem pressas. O silêncio tem essa delicadeza: não exige, não disputa espaço, não tenta convencer. Apenas existe, e, ao existir, permite que eu exista também.
Com o passar dos anos, percebi que o mundo foi ficando mais barulhento. As pessoas falam alto, as notícias atropelam-se, as urgências multiplicam-se. Tudo parece querer ocupar espaço, como se o ruído fosse prova de vida. Talvez por isso eu tenha começado a procurar o silêncio como quem procura abrigo.
Num mundo que tanto grita, o silêncio tornou-se o meu refúgio.
Todos os dias ao fim da tarde, saio para o quintal. A luz cai oblíqua sobre as pedras e o cheiro da terra quente mistura-se com o das folhas das figueira. Há sempre um momento em que o vento abranda e o mundo parece suspenso. Ali, o silêncio não é apenas som, é paisagem. É memória.
É aquilo que sobra quando o ruído se afasta.
E nesse espaço, começo a ouvir coisas que não escuto no tumulto: o eco das minhas próprias perguntas, a lembrança dos afetos que resistem, a voz discreta das coisas simples que sustentam a vida. O silêncio, afinal, funciona como um espelho. Mostra o que carregamos em excesso, o que já não nos serve, o que nos pesa sem necessidade.
Mostra também o que permanece: a ternura dos gestos pequenos, a fidelidade das rotinas, a luz que ainda mora nos lugares onde fomos felizes.
Recordo-me de uma tarde de outono, em que o meu pai me ensinou a ouvir o campo. “O silêncio é só a natureza a falar mais baixo”, disse-me ele, enquanto caminhávamos. Na altura não entendi. Hoje, percebo que ele me estava a ensinar a escutar aquilo que não tem som e que essa escuta é uma forma de sobrevivência.
O silêncio também me devolve a minha Manuela. Não a dos dias apressados, das tarefas, das conversas interrompidas, mas a do essencial, aquela que caminha ao meu lado há cinquenta anos. No silêncio, vejo-a como se fosse a primeira vez: o modo como pousa a mão na mesa, o jeito de ajeitar o cabelo, a serenidade com que olha o mundo.
Há amores que se revelam mais no silêncio do que na palavra.
E talvez seja por isso que, para mim, o silêncio se tornou uma forma de regresso. Não um afastamento do mundo, mas um reencontro comigo e com tudo o que me fez ser quem sou.
É ali, onde nada exige explicações, onde o tempo abranda, onde a alma respira sem vigilância, que encontro aquela verdade que o barulho tenta esconder: a de que viver é, muitas vezes, saber escutar o que não tem som.
O silêncio, afinal, é o lugar onde a vida se organiza. Onde o passado encontra o presente sem se atropelar. Onde a memória se ajeita. Onde o coração descansa. E, quando o mundo volta a gritar – porque volta sempre – é desse silêncio que tiro a força para continuar.
Tenham um excelente Domingo.

sábado, 19 de setembro de 2026

O impulso de escrever

Há dias em que acordo com a sensação de que o mundo me fala baixinho. Não é uma voz clara, nem urgente, é um murmúrio que vem da terra, das velhas paredes, do cheiro do café, do canto da passarada que anuncia o dia antes de eu abrir a janela.
É nesse instante que sinto essa inquietação a mexer cá dentro: aquela irresistível vontade de transformar o que vejo e ouço em palavras, como quem tenta guardar água numa concha.
Não sei se isto é vocação, destino ou apenas teimosia. Mas sei que, quando algo me encanta ou me fere, quando uma luz me toca ou uma lembrança me atravessa, nasce logo em mim o impulso de escrever.
É como se a vida me pedisse tradução e eu, obediente, me sentasse a escutá-la.
Escrever, para mim, é uma forma de conversar com o mundo. Não para o convencer de nada, mas para o acompanhar. Para lhe dizer: “Eu vi-te e senti-te, porque estou aqui.”
Mas talvez também para que os outros, ao lerem, reconheçam qualquer coisa sua nas minhas palavras: um gesto, uma sombra, uma saudade, um riso que lhes ficou por dentro.
Há quem escreva para deixar marca. Eu escrevo para não deixar que a vida me escape entre os dedos.
A Beirã ajuda-me, porque este lugar tem uma maneira própria de nos ensinar a olhar: o silêncio que não pesa, o calor que insiste fora de tempo, o outono que chega devagarinho, como quem pede licença.
Aqui, tudo parece pedir uma crónica, desde as pedra antigas que guardam muitas histórias, até ao vento que muda de direção sem avisar.
E eu, que não sei ficar indiferente ao que me rodeia, acabo sempre por transformar o que sinto, num texto. Não por vaidade, mas por necessidade.
Porque só escrevendo consigo dar forma ao que me inquieta e ao que me sossega. Porque só escrevendo encontro o meu lugar no mundo.
Talvez isto seja uma vocação: uma urgência mansa, uma fidelidade ao que me toca, uma vontade de existir com mais nitidez.
Foto Pedro Coelho

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Bom fim de semana

A paz conquista-se, não chega de repente. Não cai do céu como chuva inesperada. A paz é trabalho, é escolha, é disciplina. É algo que se constrói devagar, como quem levanta um muro: uma pedra hoje, outra amanhã, sempre com cuidado para que nada fique torto.

A paz que eu conquisto não vem dos outros, vem de mim. Vem do momento em que decido não responder à provocação. Vem da hora em que escolho o silêncio em vez da guerra. Vem da coragem de me afastar do que me magoa, mesmo quando isso me custa.

A paz não é passividade. A paz é força. É saber que posso reagir, mas escolho não o fazer porque a minha tranquilidade vale mais do que qualquer disputa.

A paz que conquisto nasce quando deixo de tentar controlar o que não depende de mim. Quando aceito que há pessoas que não vão mudar. Quando entendo que há situações que não merecem o meu desgaste.

Quando percebo que a minha energia é preciosa e não pode ser desperdiçada.

A paz também exige limites. Exige dizer “não”. Exige fechar portas que já não levam a lugar nenhum. Exige afastar quem chega sempre como tempestade e nunca como abrigo.

E, ao mesmo tempo, a paz é generosidade: é olhar para quem me feriu e já não sentir raiva; é lembrar o passado sem carregar o seu peso; é seguir em frente sem querer vingança.

A paz que conquisto é simples: é acordar e sentir que estou inteiro; é deitar-me sabendo que não traí a minha essência; é viver sem barulho dentro de mim.

A paz não é dada. A paz é conquistada. E eu conquisto-a todos os dias com silêncio, com limites, com escolhas, com calma.

Bom fim de semana, pessoal!

A lealdade nunca cansa

Há vidas que se fazem como se faz o pão: todos os dias, com as mesmas mãos, com a mesma paciência, com a mesma certeza de que o gesto vale mais do que qualquer palavra. A minha vida com a Maria Manuela é assim – uma massa que se foi amassando ao longo de cinquenta e cinco anos, com alegrias que levedaram e tristezas que também fizeram parte da receita.
Hoje ao olhar para esta fotografia na nossa cozinha, não vejo apenas dois rostos. Vejo tudo o que não se vê: as noites em que o silêncio foi companhia, as manhãs em que o cansaço não impediu o cuidado, as viagens longas, o alcatrão percorrido, as madrugadas antes da alvorada, os filhos que cresceram, as netas que nos reinventaram.
E vejo, sobretudo, a lealdade, essa palavra antiga que já quase ninguém usa porque exige mais do que o mundo está disposto a dar.
Vivemos numa época em que os sentimentos secaram como os rios no verão. As pessoas confundem facilidade com felicidade, confundem liberdade com abandono, confundem viver com deixar para trás.
Mas eu aprendi outra coisa: que a vida só tem sentido quando é partilhada, que a lealdade é uma forma de amor, e que cuidar é uma forma de agradecer o que se viveu.
Se algum dia a Maria Manuela precisar de cuidados que ultrapassem as minhas mãos, não será deixada num lugar qualquer, entregue ao acaso.
Não será afastada de mim para que eu “recupere” uma vida que nunca quis ter sem ela. Se ela tiver de ir para um Lar, iremos juntos, porque a lealdade não se suspende quando o corpo fraqueja; cumpre-se até ao fim da nossa vida.
Mesmo que os olhos dela deixem de me reconhecer, quero que a minha presença continue a ser o chão onde ela pousa. Quero ser o Zéi dela até ao último dia não por bondade, mas por coerência.
Porque a vida que construímos merece ser acompanhada até ao último capítulo, mesmo que esse capítulo seja escrito numa morada diferente.
Num tempo em que tantos corações se tornaram de pedra, eu escolho ser raiz. Num tempo em que tantos fogem, eu escolho ficar.
Num tempo em que tantos confundem amor com conveniência, eu escolho a fidelidade, essa forma silenciosa de heroísmo que não precisa de aplausos.
E se alguém perguntar porquê, a resposta é simples: porque ainda há quem seja capaz de ser leal até ao fim. E eu sou um desses.

À minha Luz

Mana,
Muitos caminhos fazem-se com os pés mas também há caminhos que se fazem com o coração. O teu, há já alguns anos, fez-se dos dois: primeiro deixaste a Beirã e depois deixaste Portugal, deixaste a tua casa, deixaste o cheiro das manhãs e foste reconstruir a vida em terras de Sua Majestade.
Mas nunca deixaste de ser daqui.
Nunca deixaste de ser nossa.
Tu e o António Martins partiram com coragem, não aquela coragem ruidosa, mas a coragem silenciosa de quem quer estar perto dos filhos, de quem quer abrir portas, de quem acredita que o mundo é maior do que a aldeia onde nasceu.
A Inglaterra acolheu-vos como quem abre uma porta sem perguntar a idade, apenas perguntando: “Sabem trabalhar?”.
Vocês sabiam. Sabiam tanto que mesmo reformados, continuam a ser chamados, continuam a ser precisos, continuam a ser úteis.
Isso diz muito de vocês.
Diz tudo.
E, apesar da distância, nunca deixaram de voltar. De dois em dois anos, como quem cumpre um ritual de amor. E, quando é preciso tratar de papéis, bancos, documentos, vêm uma vez por ano, porque a vida não se faz só de saudades, faz-se também de responsabilidades, de raízes, de coisas que só se resolvem cá.
Essas vindas são como pequenos regressos ao lar: chegam, pousam as malas, respiram o ar da Beirã, reencontram os cheiros, os rostos, os lugares que nunca se apagam.
E depois há esse teu mundo de agora, tão cheio, tão bonito: o Luís e a Cristina que convosco são a força da família; o Leonardo, que entrou na vossa vida como genro mas que é já parte da vossa história; e os três netos – o Gustavo, o Xavier e o Guilherme – que vos enchem a casa de risos, perguntas, desenhos, abraços, tudo aquilo que faz a vida valer a pena.
Imagino-te a olhar para eles com aquele olhar que sempre tiveste: firme, doce, atento, cheio de ternura. Tu foste sempre assim Luz, a irmã do meio que segurava pontas, que equilibrava lados, que trazia calma quando era preciso e força quando era necessário.
A irmã que sempre fez falta.
E eu sei, mana. Mesmo longe, mesmo ocupada, mesmo com a vida cheia, tu gostas de mim. Tu pensas em mim. Tu guardas-me no teu coração como eu te guardo no meu.
Por isso te escrevo estas linhas: para te dizer que também gosto muito de ti. Que te trago comigo. Que te celebro. Que te agradeço. Que a distância não apaga irmãos, só os torna mais nítidos, mais presentes, mais verdadeiros.
Chamas-te Maria da Luz. E és luz.
A minha Luz.
Cuida de ti também, enquanto cuidas de todos, como matriarca da família Coelho Martins.
Com grande carinho, o teu mano.

José Coelho

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

A encerrar o dia

Há dias que terminam como quem fecha uma porta devagar, sem ruído, deixando apenas o perfume do que foi vivido. O entardecer tem para mim esse dom antigo: transformar o quotidiano em contemplação, o gesto simples em rito, a rotina em memória.
A noite chega sempre com uma espécie de sabedoria. Não exige nada, não cobra nada, não apressa nada. Apenas pousa sobre as coisas, como um manto que recolhe o que ficou espalhado pelo dia.
E é nessa hora que o pensamento se torna mais claro. As preocupações perdem volume. Os ruídos interiores abrandam. A alma encontra o seu lugar.
O ser humano – qualquer um – é feito desta alternância entre luz e sombra, entre ação e repouso, entre o que se faz e o que se sente.
A escrita, que tanto me acompanha, é apenas o reflexo disso: uma forma de ordenar o mundo, de lhe dar sentido, de lhe devolver a dignidade que às vezes o dia lhe rouba.
Escrever, para mim, é no fundo regar a terra da memória. Cada frase é uma semente. Cada pausa é um silêncio fértil. Cada palavra é uma raiz que procura profundidade.
E tento escrever como quem caminha devagar, atento ao que a vida murmura. Não preciso de pressa, nem de artifícios. A minha escrita nasce da verdade, da experiência, da contemplação, da terra que cuido e das pessoas que estimo.
A noite, agora, está mais funda. Os sons diminuem. A terra repousa. E eu também.
É tempo de recolher o que o dia deixou: um gesto de amizade, uma palavra certa, um trabalho honesto, uma memória que se acendeu, um silêncio que me ensinou qualquer coisa.
O dia de amanhã virá com a sua própria luz, com novas tarefas, novas conversas, novas palavras. Mas hoje, agora, neste instante, basta-me sentir a paz que em mim se instala devagar, como se o mundo respirasse comigo.
Descansem, sonhem, sejam felizes. A noite é nossa amiga. E para mim, a escrita também.