quarta-feira, 31 de maio de 2023

terça-feira, 30 de maio de 2023

(sobre)Vivi...

 

Quanto mais (sobre)vivo mais aprendo e me certifico que a Vida é uma luta constante, uma incógnita permanente que nos obriga a espavilar, a arregaçar as mangas, a enfrentar obstáculos, a vencê-los com determinação e a aceitar o que for possível. E, ainda que esse possível fique muitas vezes aquém das nossas expectativas, vezes haverá também em que elas se excederão e nos irão surpreender pela positiva. Sei do que falo, podem apostar.

Viver não é fácil, julgo que para quase toda a gente. E para mim então, nunca foi. Sei hoje sem sombra de dúvida que nunca será. Aprendi a esperar, muito novo ainda, quando tinha de sentar-me ao lume embrulhado numa manta até que enxugasse a roupa que a minha mãe tinha lavado, porque só tinha aquela. Aprendi também como é preciso andar atento, cada vez que fiquei sem a cabeça de algum dos dedos dos pés ao tropeçar nalguma pedra, porque andava descalço. Continuei a aprender que a solidariedade existe quando, já rapazote, tinha que ler livros emprestados pelos meus amigos, porque a minha mãe não mos podia comprar.

Aprendi ainda também que a vida tem prioridades inultrapassáveis cada vez que não pude associar-me aos amigos da minha idade nos petiscos dos domingos na Sociedade do tio Joaquim Farinha, apesar de, feitas no fim as contas, "tocarem" só três ou quatro escudos a cada um, já incluídas as bebidas, porque a minha ainda que pequena jorna, fazia falta à minha mãe para comprar pão.

A década de 50 foi para nascer e fazer a escola primária, a de 60 foi a do ensino secundário atrás do cu das ovelhas e das vacas do tio José Bonacho nos Pavios do Cabeço de Seixo, embrulhado todo o inverno em sacas de serapilheira que em vez de resguardarem da chuva ficavam ensopadas como esponjas, pesadas como chumbo e a molharem ainda mais do que a chuva, porque nessa época ainda não tinha sido inventado o plástico, bem mais leve e impermeável.

Depois, mesmo mesmo a findar os anos 60 e princípio da década de 70, foi a fase decisiva do resto da minha vida.  Todo o futuro imediato, próximo e distante, ali se definiu. Do final de 1969 ao final de 1979 ingressei nas forças armadas como recruta voluntário, fiz o curso de transmissões de infantaria, fui promovido a cabo, fui à guerra, casei, fui pai, fui mineiro, entrei na GNR. 

O objetivo da minha "pressa" é facilmente explicável. Queria deixar a vida dura do campo e das pedras do meu pai. Mas à época, sem o serviço militar cumprido, não havia qualquer hipótese. E eu queria ser... Carteiro. Vestir uma farda igual à do senhor João Sapage, andar de porta em porta a levar boas notícias. E por isso decidi vencer o obstáculo que me impedia de lá chegar. E por isso fui.

Contra todas as expectativas que algumas vezes toldaram a minha esperança de voltar a casa são e salvo, voltei. Infelizmente (ou felizmente, não sei bem) o serviço militar resolvido não me abriu as tais portas dos Correios que eu ambicionara alcançar. A revolução dos cravos estava em pleno desenvolvimento quando aterrámos de novo no aeroporto da Portela em Junho de 1974, depois de uns longos 27 meses de sustos e medos. A revolução "fechara" a possibilidade de ingresso em qualquer empresa, fosse qual fosse.

"Com os melhores cumprimentos lamentamos informar que não se encontra em curso a admissão de novos funcionários nesta empresa."

Sacrifício inútil? Talvez sim, talvez não. Sofri bastante é verdade. Mas também amadureci. Fiz-me o homem que hoje sou. Conheci o melhor e o pior do que a Vida pode dar e ensinar a cada um de nós. Foi, grosso modo, o meu "doutoramento". Duro, exigente, cheio de obstáculos que foi necessário contornar e vencer. Estava escrito que tinha de ser assim. 

Dizia depois, se calhar com alguma razão, a minha família: 

- Se não te tivesses oferecido voluntário, nem sequer terias já ido "lá fora"...

Porque entretanto a revolução entregou África aos africanos e acabou com a guerra.

- Se... 

Diz a gente com frequência. Porém, é tão ambíguo qualquer Se...

A "nega" dos correios e depois da CP, empurraram-me para outras realidades nunca antes imaginadas. As Minas da Panasqueira. Algo que nunca poderia prever. Ser mineiro, para além de ser uma profissão longínqua e totalmente desconhecida para mim, era também quase tão perigosa como andar pelas picadas da floresta do Maiombe. 

Os acidentes de trabalho são um risco real e a ter sempre em conta. Acontecem quase sempre a centenas de metros de profundidade. Tanto assim que o meu "mestre" Zé Maria de Castelo de Vide, morreu esmagado debaixo de um liso que se soltou inesperadamente de uma abóbada já depois de eu ter ingressado na GNR.

A GNR que foi a minha "empreitada" seguinte fortemente pressionado pela família - mãe e esposa - porque, entretanto, eu tinha casado e já era pai do pequeno Manel: 

- Não morreste "lá fora" vais morrer debaixo do chão nessa porcaria de vida, dizia a Mãe Florinda, assustada com as más notícias que de vez em quando a comunicação social referia de alguns desses acidentes fatais. 

Por isso e mais para lhes fazer a vontade do que por convicção - jamais na minha vida teria equacionado voltar a vestir uma farda - lá fui ao Posto de Santo António das Areias inscrever-me para a GNR em Setembro de 1978 quando vim passar o meu mês de férias a casa. 

Fui imediatamente notificado em Outubro seguinte para ir prestar provas a Santa Bárbara em Lisboa em Novembro. 

E por invisíveis artes do destino já que nunca tive ajudas de ninguém fosse para o que fosse, passei nas provas e fui admitido, tendo-me sido logo entregue a guia de marcha para me apresentar em Portalegre dali a 3 meses para iniciar o curso de formação, 

Só não podia imaginar o "codilho" em que estava meter-me nem tudo aquilo que teria de enfrentar uma vez mais na minha vida, nem o quanto iria ter de cerrar os dentes para não dar largas à vontade infinita de mandar tudo e todos à puta que os pariu, para voltar novamente para as "minhas" Minas onde deixara as melhores pessoas que conheci neste mundo...

Mas esse "assunto" vai ficar para outra tarde de escrita. 

Até lá...

Beirã 30Mai'23
José Coelho

segunda-feira, 29 de maio de 2023

A verdadeira amizade é para sempre


Em amena cavaqueira na Tapada das Safras - Almoço-Convívio do 49º Aniversário do regresso a casa do BCav3871 - Cavaleiros do Maiombe, no dia 27.05.2023. Da esquerda para a direita da foto; Furriel Manuel Lourenço, Furriel Tito Caetano, Soldº Telmo Fonseca, Alferes Adelino Cardoso, Alferes Amaral Dias, 1º Cabo José Coelho e Furriel João Santos.

a quem agradeço!

domingo, 28 de maio de 2023

Ad Omnia Apt

Belize - Jardim da Messe de Oficiais - 1973

 

Boa tarde, camaradas d’Armas no BCav3871 e meus estimados amigos. De coração cheio pelo nosso encontro de ontem em Alpalhão e depois de uma noite mal dormida - porque rever-vos a todos de novo, mexe muito, mesmo muito, comigo - quero aqui deixar algumas palavras de muita amizade, de muito apreço, de muito respeito e de consideração por todos vós.

Quando o camarada Torres ontem me chamou para anunciar a todos vós quem seriam os organizadores do 50º Aniversário do nosso regresso a casa no próximo ano, dei conta de alguns comentários a interrogarem-se “quem é o Coelho?” e com razão, porque andei desaparecido dos anteriores 47 convívios e só compareci pela primeira vez no 48º em Peniche, assim como ontem no 49º em Alpalhão.

Não para justificar, mas para tentar explicar essa minha permanente ausência, publiquei em 31 de maio de 2022 nesta “nossa” Página FAMÍLIA FETOMAN um pequeno texto explicativo que alguns de vós terão lido, outros provavelmente não e tem por título “Não é desculpa, é a verdade”, entendo por isso não ser necessário voltar a repetir os mesmos argumentos, deixando ao vosso critério acederem ou não a esse registo, se assim o entenderem.

Fui assim ontem convidado a tomar parte integrante na organização do 50º Aniversário em 2024 conjuntamente com o Camarada do Pelotão das Transmissões da CCS Alberto Ramalho, convite que aceitei sem hesitar, pronto a dar o meu melhor para que esse Dia Comemorativo seja repleto do brilho e de toda a dignidade que merece na Casa-Mãe, o Regimento de Cavalaria 3 em Estremoz.

A divisa do BCav3871 foi desde 1971, um dos principais incentivos na minha vida:

Ad Omnia Apti - Prontos para tudo.

Ideias não faltarão, oxalá os camaradas compareçam em força porque comemoraremos, 50 anos desta Amizade, desta Fraternidade, mas, sobretudo, da Memória pelos que não voltaram connosco, pelos que ainda estamos e pelos que tendo voltado connosco já não se encontram entre nós.

Obrigado ao Adelino Torres pela confiança que tudo farei por merecer, obrigado também à sua esposa pelo incansável entusiasmo e sempre pronta colaboração, obrigado ao Fernando Pereira e ao Manuel Lopes, espinhas dorsais desta fantástica união com meio século de longevidade,  obrigado ao Luís Pinto pela excelência como ontem nos recebeu a todos na Tapada das Safras.

Propositadamente não fiz fotos, porque estimo a todos e entendi não dar primazia a ninguém em especial. Família é Família, do primeiro ao último e por isso todos merecem de igual modo a minha enorme consideração.

Bem-hajam!

José Manuel Lourenço Coelho

1º Cabo Transmissões de Infª

CCS/BCav3871

Compromisso aceite e grato pela confiança

Organizar, com o camarada Ramalho, o 50º Aniversário do Regresso do BCav3871  
Foto Graziela Torres, a quem agradeço também a partilha

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Aproveitando uma "aberta"...


Já choveu, já trovejou e agora que o sol espreitou, vamos lá aproveitar p'ra caminhar. Bora...

Selfie José Coelho
pela Voltinha do Ribeiro da Cavalinha - Beirã
- 26. 05. 2023

De festa em festa

17 de Maio - 18 º Aniversário da neta Filipa

21 de Maio - Primeira Comunhão da neta Mariana

24 de Maio - Caminhada dos Avós e Netos

25 de Maio - 46º Aniversário do Manel Coelho
27 de Maio - 49º Convívio do BCav3871 

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Parabéns, Manel!


Ontem, dia 24 de Maio estive aqui, na Caminhada dos Avós e Netos. E lembrei-me de ti nesta foto de 1980. O tempo voou e passados 46 anos lá estive de novo, mas desta vez a dar colinho à tua Mariana, minha querida netinha. A vida soma e segue. Ficam as memórias e a inevitável saudade. Parabéns, filho. 

quarta-feira, 24 de maio de 2023

terça-feira, 23 de maio de 2023

Não é Alentejano quem quer

Seara de centeio no Alto Alentejo - Foto José Coelho

Palavra mágica que começa no Além e termina no Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal e que à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar.

   

  O Alentejo molda o carácter de um homem. A solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a paciência do monge; as amplitudes térmicas e a agressividade da charneca dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o temperamento do guerreiro. Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se nasce alentejano, é-se alentejano.

  Portugal nasceu no Norte mas foi no Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade, Évora é o berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras um homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao longe.

  Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar ao reino depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para o homem comum fica muito longe, para um alentejano fica já ali. Para um alentejano não há longe, nem distância porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.

   Foi, por esta razão, que D. Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de dois anos no mar... E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe, Vasco da Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao virar da esquina.

    Para um alentejano, o caminho faz-se caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado. O problema de Portugal é precisamente este: muitos Bartolomeu Dias e poucos Vasco da Gama. Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos portugueses e poucos alentejanos.

    D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o Rei de Castela contava com um poderoso exército composto por espanhóis e portugueses, mas o Mestre de Avis tinha a vantagem de contar com meia-dúzia de alentejanos. Não se estranha, assim, a resposta de D. Nuno aos seus irmãos, quando o tentaram convencer a mudar de campo com o argumento da desproporção numérica: «Vocês são muitos? O que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?»

   Mas os alentejanos não servem só as grandes causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve de fazer os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer. Na cama e na mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este, intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não tinha: «Tem tempo e tu tens pressa.» Quem anda sempre a correr, não chega a lado nenhum. E muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é um problema que os alentejanos, graças a Deus, não têm. Até porque os alentejanos e o Alentejo foram feitos ao sétimo dia, precisamente o dia que Deus tirou para descansar.

  E até nas anedotas, os alentejanos revelam a sua superioridade humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos pretos, os brasileiros dos portugueses, os franceses dos argelinos... só os alentejanos contam e inventam anedotas sobre si próprios. E divertem-se imenso ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve.

    Mas para que uma pessoa se ria de si própria não basta ser ridícula porque ridículos todos somos. É necessário ter sentido de humor. Só que isso é um extra só disponível nos seres humanos topo de gama.

   Não se confunda, no entanto, sentido de humor com alarvice. O sentido de humor é um dom da inteligência; a alarvice é o tique da gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as desgraças alheias, quem tem sentido de humor ri-se de si próprio. Não há maior honra do que ser objeto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as pessoas, enquanto a alarvice diminui-as. Se Hitler e Estaline se rissem de si próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.

  E as anedotas alentejanas são autênticas pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelando um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis.

    Não resisto a contar a minha anedota preferida. Num dia em que chovia muito, o revisor do comboio entrou numa carruagem onde só havia um passageiro. Por sinal, um alentejano que estava todo molhado, em virtude de estar sentado num lugar junto a uma janela aberta. «Ó amigo, porque é que não fecha a janela?», perguntou-lhe o revisor.

    «Isso queria eu, mas a janela está estragada.», respondeu o alentejano. «Então porque é que não troca de lugar?» «Eu trocar, trocava... Mas com quem?»

  Como bom alentejano que me prezo de ser, deixei o melhor para o fim. O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que qualquer alentejano anseia. E o pão... Mas há melhor iguaria do que o pão alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim da semana. Só quem come o pão alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo faz-nos subir ao Céu!

    É por tudo isto que, sempre que passeio pela charneca numa noite quente de verão ou sinto no rosto o frio cortante das manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção poderia um homem almejar?

   Vou mas éi comer a açorda que tenho mais que fazer.

 

João Mário Caldeira - Professor de História 

Angola, Março de 1972 - Junho de 1974


Sempre por perto de mim há 50 anos, já russo pelo passar do tempo, desbotado e velhinho, o guião do BCav3871 que trouxe comigo de Angola.

- 23. 05. 2023

segunda-feira, 22 de maio de 2023

Em memória de um bom camarada e grande amigo

Foto no Belize junto ao Posto de Rádio

 

Todas as baixas do BCav3871 foram dolorosas para os Cavaleiros do Maiombe. Todas. Porém houve uma delas que me afetou muito particularmente. E nem sequer foi uma baixa em combate mas um acidente de viação nas imediações de uma tranquila povoação chamada Dinge na estrada que liga o Belize a Cabinda e relativamente afastada já da zona de maior perigosidade na altura.

Como todos os seus antecessores foram sempre fazendo, também o Comando do nosso Batalhão quis ir melhorando as condições de conforto e de habitabilidade do aquartelamento para os seus militares. Para isso eram necessários materiais de construção, nomeadamente areias que se iam carregar a Lândana, uma pequena vila no litoral do enclave.

E foi numa dessas programadas viagens que me calhou, pela escala, o serviço de operador-rádio da coluna que iria escoltar as Berliet’s que transportariam a areia. Nenhuma patrulha ou escolta saía nunca à porta d’armas de qualquer quartel sem levar um operador de transmissões porque era esse o único elo possível de ligação à base, naquele cenário de permanentes conflitos.

Ao aperceber-se que ia haver uma saída para Lândana e que o operador de serviço à escolta era eu, o meu camarada e amigo Soldado Transmissões Luís Manuel Oliveira Borges, fazendo valer a boa amizade que nos unia, massacrou-me insistentemente a cabeça para o deixar ir no meu lugar.

Na vida civil o Borges era pescador da Afurada - Gaia. E a praia mais próxima do Belize ficava exatamente em Lândana, a cerca de 200 km. E naquele dia, não por minha expressa vontade mas pela escala de serviço, tocara-me a mim ser o operador-radio da coluna auto. As trocas de serviço eram permitidas em qualquer repartição, desde que por motivo justificado, depois de devidamente autorizadas.

O habitual era precisamente o contrário. Sendo eu o cabo mais antigo da equipa de Transmissões, era também quem ia muitas vezes de operador-rádio no lugar de qualquer um deles, pois éramos oito. Porque o camarada que estava escalado queria ir jogar futebol coisa que eu não apreciava, ou porque ia ser transmitido algum relato de jogo importante do Puto e a que eu também não ligava nada, ou por outra qualquer plausível razão, inúmeras vezes fui no lugar de todos eles, sem exceção.

E também assim, naquele dia, incapaz de ficar indiferente aos insistentes rogos do meu camarada pescador, até porque, sendo Alentejano raiano do lado oposto ao litoral português, gosto muito mais da serra do que do mar, lá fomos os dois ter com o nosso Alferes Amaral Dias que sem qualquer hesitação – como sempre, porque confiava em todos nós – autorizou imediatamente a troca de serviço.

E lá foi o camarada Borges matar saudades do seu mar, tão contente, tão animado, tão feliz! Em má hora o fez. Gravemente ferido quando a viatura em que seguia com o radio capotou num aparatoso despiste nas imediações do Dinge, teve de ser evacuado para Luanda por via aérea e dali para Lisboa. Não mais voltou ao Maiombe e não mais nos voltámos a ver.

Consegui saber, anos mais tarde, que ele já não se encontrava entre nós, porque falecera de doença grave. Que descanse em paz na eterna glória. 

Até hoje não compreendi as voltas que o destino de todos nós às vezes dá. O camarada Borges só queria matar saudades de algo que também amava. O oceano. Vê-lo, ouvi-lo, tocar-lhe, sentir o seu odor salgado, quiçá imaginando que a oito mil quilómetros de distância, na Afurada, os seus pais, algum dos seus três filhos ou a sua esposa, estariam também à beira-mar, com saudades iguais às que o atormentavam a ele…

 

José Coelho in Histórias do Cota

domingo, 21 de maio de 2023

Apanhados


Em flagrante vício, no jardim de San Sebastián - Espanha. O Manuel Antunes ainda deu pela paparazzi a fotografar-nos mas a Clara Antunes e eu estávamos tão entretidos que bem podia cair um avião em cima de nós que nem dávamos por isso!
🤣🤣🤣
Paparazzi:
- 16. 05. 2023

sábado, 20 de maio de 2023

Boa noite, até amanhã. Fiquem bem...


 "Que o amor cure. Que a vontade supere. Que a coragem resista. Que o medo desista. E que, apesar de tudo, a paz sempre prevaleça."

Erica Gaião.
- 20. 05. 2023

Tocam os sinos, na torre da igreja...

Eucaristia Vespertina da Ascensão do Senhor, seguida de Procissão das Velas em Honra da Virgem de Fátima, na Beirã. Venham daí...

Foto José Coelho - 20. 05. 2023

— em Beirã

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Bom fim de semana

Recado

Foto Maria Coelho, a quem estava a fazer caretas - 17. 05. 2023

 

Amigo,

tu que choras uma angústia qualquer

e falas de coisas mansas como o luar

e paradas

como as águas de um lago adormecido,

acorda!

Deixa de vez

as margens do regato solitário

onde te miras

como se fosses a tua namorada.

Abandona o jardim sem flores

desse país inventado

onde tu és o único habitante.

Deixa os desejos sem rumo

de barco ao deus-dará

e esse ar de renúncia

às coisas do mundo.

Acorda, amigo,

liberta-te dessa paz podre de milagre

que existe

apenas na tua imaginação.

Abre os olhos e olha,

abre os braços e luta!

Amigo,

antes da morte vir

nasce de vez para a vida.

 

Manuel da Fonseca

Último dia de passeio


No restaurante em San Sebastian a aguardarmos que fosse servido o almoço antes do regresso a casa. Obrigado estimados amigos Clara e Manuel, Maria Antónia e António Maria! Foi uma viagem memorável que nunca mais esqueceremos. Um fraterno abraço para os quatro, e, quem sabe, até à próxima...

Foto batida por uma das colaboradoras do restaurante num dos telemoveis e a pedido do casal Marques, em 16. 05. 2023.

Canção Breve

Beirã, Maio de 2023 - Foto José Coelho

Tudo me prende à terra onde me dei :
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas.
Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança e o calor
de uns dedos com restos de ternura.
Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, 18 de maio de 2023

Os melhores filhos + Os melhores amigos (do mundo)

Foto "As Viagens do Zé Gargaté"


- Pai, tens algum compromisso entre 12 e 16 de Maio? Perguntou uma noite ao serão, pelo telefone, o filhote Manel Coelho.
- Em princípio, não… Respondi.
- Então não se comprometam com mais nada porque vão estar ocupados nesses cinco dias. Concluiu, sem dar mais qualquer explicação.
Poucos minutos depois, chega-me pelo WhatsApp no telemóvel, o seguinte recado:
“É com muito gosto que a rapaziada que mora na Escusa oferece esta prendinha aos “Chefes” da família Coelho que bem merecem (até merecem muito mais) e a informar que está tudo marcado e tratado. A saída será de Castelo de Vide, por isso vão fazendo as malas que quando houver mais indicações, aviso. Beijinhos”.
Mal refeito da surpresa, agradeci e informei a “patroa” que ficou radiante com a novidade, porque passeios é com ela! Eu sou muito mais caseiro, mais apegado ao meu cantinho sossegado e um pouco avesso a esses “reboliços”.
Mas fiquei feliz e obviamente grato “à rapaziada que mora na Escusa” pelo seu carinho e generosidade. E assim começou esta inesperada “aventura” que nos levou a Espanha, a Andorra e a França, num passeio memorável muito bem organizado por “As viagens do Zé Gargaté” de Castelo de Vide e em muito boa companhia.
Feitas as malas e chegado o dia da partida num confortável autocarro, assim que entrei na viatura tive logo a primeira grande alegria e surpresa! Os queridos amigos de toda a nossa vida, Clara e Manuel Antunes, os quais, para maior alegria ainda dos quatro, viajavam precisamente nos bancos ao lado dos nossos, no outro lado do corredor.
Foi espetacular e inesperadamente feliz o início da viagem, pois havia tanto tempo que não tínhamos oportunidade de estar juntos e conversar demoradamente, que estes cinco dias juntos eram a cereja no topo do bolo.
Mas não terminariam ali as surpresas! Na paragem seguinte em Alpalhão, aguardavam o autocarro para viajarem também conosco o António Maria Marques que vive há muitos anos no Entroncamento mas é nosso quinto – meu e do Manuel Antunes – e dos Barretos na nossa freguesia, com a sua esposa, a Maria Antónia, da Ranginha, amiga dos tempos de moça e da Celtex, da minha MariManuela!
Era impossível imaginar três quintos e esposas, todos conterrâneos e amigos, numa viagem aleatoriamente marcada pelos interessados a partir da Escusa, de Portalegre e do Entroncamento, sem saberem uns dos outros.
Bem se diz que o de tem de ser, tem muita força! Para além da excelência da viagem por uma rota escolhida pelo Zé Gargaté, esta “ajuntada” de seis bons amigos tornou-a numa alegria permanente que durou os cinco dias inteiros.
Nunca mais nos separámos a não ser à noite nos hotéis quando cada casal recolhia aos seus aposentos.
Pequenos-almoços, almoços e jantares sempre a seis, viagens e visitas sempre conjuntas numa harmonia de quase irmãos. Foi bonito e foi muito agradável. Muito, mesmo. Se tivesse sido planeado, provavelmente não teríamos conseguido esta harmonia e perfeição de programa.
Depois, bem, depois, foi ouro sobre azul. Uma viagem espetacular por lugares de sonho. E se foi muito gratificante conviver toda a viagem com estes amigos de infância, também toda a outra tripulação do autocarro eram cinco estrelas, gente amiga, divertida, do melhor.
Os dois motoristas cinco estrelas em profissionalismo e competência a proporcionarem-nos viagens tranquilas, confortáveis e seguras cem por cento.
O Zé Gargaté inquestionavelmente um organizador sempre disponível e incansável nas atenções para com toda a gente.
E o Rafael Silva – Rafa – como todos amigavelmente o apelidávamos, é um guia que merece não apenas cinco, mas dez estrelas também. Para todos, mesmo todos, o nosso muito sincero OBRIGADO.
Ficou muita vontade de irmos mais vezes, embora por motivos de saúde que é preciso resolver no bloco operatório provavelmente no corrente ano não nos deva ser possível. Contudo, após a recuperação e se tudo correr bem, provavelmente iremos “alinhar” em mais aventuras como a que acabámos de viver.
Até lá e…
Cuidem-se!

José Coelho e Maria Coelho 

Celebration

E lá fomos nós celebrar a maioridade da nossa Filipinha!
Selfie José Coelho com Maria Coelho - 17.05.2023

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Piromania

Imagem da net

 

Ainda mal tinha começado o Verão e já era o terceiro incêndio nas proximidades de Arêz, uma das freguesias do concelho e área do posto de Nisa. As pessoas andavam inquietas e murmuravam entre si apontando o dedo a determinado indivíduo que “por casualidade” era sempre o mesmo a dar o alarme, o que levantava a suspeita se não seria ele o pirómano, dado que, em qualquer deles, as causas eram indeterminadas e muito estranhas, não se coibindo os bombeiros de afirmar que aquilo era com toda a certeza fogo posto.

Dei indicações para que o indivíduo fosse discretamente vigiado pelas patrulhas mas não se vislumbrava nada que pudesse confirmar as nossas suspeitas. Porém não tardaram muitos dias para que a sirene do quartel dos soldados da paz voltasse a fazer ouvir o seu apelo aflitivo porque havia novo foco de incêndio em Arêz.

- Enquanto não engavetarmos o gajo isto nunca mais tem fim, refilava o graduado que nesse dia estava de comandante do piquete. Arrancaram ainda primeiro que os bombeiros com indicação de verificarem e se eventualmente o “tal” rapaz fosse visto nas proximidades do sinistro que o trouxessem com eles para eu ter uma “conversa particular” com ele.

Dito e feito.

Como sempre, a primeira pessoa que a patrulha encontrou já muito entretido a combater o fogo com um ramalho verde, foi o dito cujo. Cumprindo as minhas indicações a patrulha logo informou o indivíduo que teria de os acompanhar depois do fogo extinto pelos bombeiros que haviam entretanto chegado e em poucos minutos controlaram a situação. Porque naquele, como nos anteriores três focos de incêndio anteriores, os prejuízos se resumiam a algumas centenas de metros de pasto e umas quantas oliveiras ardidas.

A patrulha fez como lhe competia o inquérito sumário das causas do sinistro mas tal como nos anteriores não chegaram a nenhuma conclusão concreta na medida em que não havia vestígios de ninguém nas proximidades, nem queimadas de qualquer espécie e daí se concluía facilmente que alguém gostava de lume, ou de fumo, ou de ouvir as sirenes dos bombeiros a apitar e para isso se divertia à sucapa largando fogo aqui e além em sítios mais ou menos esconsos nas proximidades da povoação.

Deduzia-se por isso também que fosse quem fosse, era pessoa que se deslocava a pé desde lá.

Apesar de eu ter formada e quase certa a suspeita que seria mesmo aquele energúmeno, a verdade é que sem provas concretas nada feito. Não podia haver qualquer procedimento criminal tanto mais que os prejuízos eram de pouca monta. Quando muito poderia apenas ser invocado o alarme social que a situação andava a provocar na população.

Assim, depois de feito o seu trabalho no terreno, a patrulha fazendo-se acompanhar do suspeito regressou ao posto. Eu já conhecia bem a peça. De vista. Pela sua fama de traste mas não só. Assim que ele entrou no meu gabinete exclamei de súbito, para lhe não dar tempo de raciocinar muito e como se tivesse a certeza absoluta do que o estava a acusar:

- Ora cá temos então o homem que anda a atear fogo aos pastos de Arêz…

O gajo olhou para mim encavacado, mas não se desmanchou e logo negou. Qual quê! Ele até era muito boa pessoa e até era o primeiro sempre a acudir e a apagar os fogos e mais isto e mais aquilo.

Como eu já contava com isso não desarmei e continuando num tom muito seguro, retorqui:

- É verdade sim senhor. Ajuda sempre. Mas também sempre acontece uma coisa estranha! Você chega lá primeiro que a patrulha e que os bombeiros e não teria tempo de lá chegar indo a pé da aldeia como você vai!

Ia sendo!

O moço empalideceu ligeiramente, baralhou-se um pouco, mas de seguida recompôs-se de novo e respondeu-me com pouca convicção.

- Olhe, hoje, por exemplo eu estava a cagar debaixo de uma figueira quando vi o fumo ali perto e corri logo para lá. Por isso é que cheguei primeiro que a patrulha e os bombeiros…

- Ai sim? Que casualidade! Você vai cagar lá p’ra longe das casas para o cheiro não incomodar os seus vizinhos! Que gesto tão enternecedor...

E continuei:

- Muito bem, agora vai levar-me lá, ao sítio onde cagou, porque eu quero ver com os meus olhos a sua cagada debaixo da figueira, pois só assim me convenço…

Visivelmente aflito o gajo não desarmou todavia e com a maior cara de pau afirmou:

- Não vale a pena irmos lá, porque com tanta gente que por ali andou a apagar o fogo, já o devem ter pisado…

- Pois! Já calculava! Observei.

- Então, a escolha é sua. Quer lá ir mostrar-nos o cagalhão e provar que está a dizer a verdade, ou quer já confessar sem mais chatices, que você é que tem por lá andado a deitar fogo aos pastos?

O indivíduo hesitou, pensou e concluiu:

- Se eu confessasse uma coisa dessas ia parar à cadeia…

De parvo o tipo não tinha mesmo nada, como aliás quase todos os delinquentes. Vi que dali não ia conseguir tirar mais e não havia matéria suficiente para o constituir arguido e ser presente ao Ministério Público.

Mandei por isso sair quem estava no gabinete, porque, à falta de provas, só me restava a solução de uma “conversa particular” a sós.

E assim aconteceu.

Após essa conversa amigável que durou menos de dois minutos, adverti-o:

- Pode ir, caro amigo! Mas já sabe. Por cada fogo que haja em Arêz, você terá de vir sempre aqui “conversar” comigo. Estamos entendidos?

Foi remédio santo!

Não voltou a haver fogos em Arêz, nesse verão...

 

José Coelho in Histórias do Cota