Aos 07 de Março de 2015 nasceu este blogue que tal como o seu antecessor TocadosCoelhos pretende apenas ser um ponto de encontro e de entretenimento pautando-se sempre pelas regras da isenção, da boa educação e do civismo em geral. Sejam muito bem-vindos.
quarta-feira, 31 de maio de 2023
terça-feira, 30 de maio de 2023
(sobre)Vivi...
segunda-feira, 29 de maio de 2023
A verdadeira amizade é para sempre
domingo, 28 de maio de 2023
Ad Omnia Apt
Boa tarde, camaradas d’Armas no BCav3871 e meus estimados amigos. De coração cheio pelo nosso encontro de ontem em Alpalhão e depois de uma noite mal dormida - porque rever-vos a todos de novo, mexe muito, mesmo muito, comigo - quero aqui deixar algumas palavras de muita amizade, de muito apreço, de muito respeito e de consideração por todos vós.
Quando o camarada Torres ontem me
chamou para anunciar a todos vós quem seriam os organizadores do 50º
Aniversário do nosso regresso a casa no próximo ano, dei conta de alguns
comentários a interrogarem-se “quem é o Coelho?” e com razão, porque andei
desaparecido dos anteriores 47 convívios e só compareci pela primeira vez no
48º em Peniche, assim como ontem no 49º em Alpalhão.
Não para justificar, mas para
tentar explicar essa minha permanente ausência, publiquei em 31 de maio de 2022
nesta “nossa” Página FAMÍLIA FETOMAN um pequeno texto explicativo que alguns de
vós terão lido, outros provavelmente não e tem por título “Não é desculpa, é a
verdade”, entendo por isso não ser necessário voltar a repetir os mesmos
argumentos, deixando ao vosso critério acederem ou não a esse registo, se assim
o entenderem.
Fui assim ontem convidado a tomar
parte integrante na organização do 50º Aniversário em 2024 conjuntamente com o
Camarada do Pelotão das Transmissões da CCS Alberto Ramalho, convite que
aceitei sem hesitar, pronto a dar o meu melhor para que esse Dia Comemorativo seja
repleto do brilho e de toda a dignidade que merece na Casa-Mãe, o Regimento de
Cavalaria 3 em Estremoz.
A divisa do BCav3871 foi desde
1971, um dos principais incentivos na minha vida:
Ad Omnia Apti - Prontos para
tudo.
Ideias não faltarão, oxalá os
camaradas compareçam em força porque comemoraremos, 50 anos desta Amizade, desta
Fraternidade, mas, sobretudo, da Memória pelos que não voltaram connosco, pelos
que ainda estamos e pelos que tendo voltado connosco já não se encontram entre
nós.
Obrigado ao Adelino Torres pela
confiança que tudo farei por merecer, obrigado também à sua esposa pelo
incansável entusiasmo e sempre pronta colaboração, obrigado ao Fernando Pereira
e ao Manuel Lopes, espinhas dorsais desta fantástica união com meio século de
longevidade, obrigado ao Luís Pinto pela
excelência como ontem nos recebeu a todos na Tapada das Safras.
Propositadamente não fiz fotos,
porque estimo a todos e entendi não dar primazia a ninguém em especial. Família
é Família, do primeiro ao último e por isso todos merecem de igual modo a minha
enorme consideração.
Bem-hajam!
José Manuel
Lourenço Coelho
1º Cabo
Transmissões de Infª
CCS/BCav3871
Compromisso aceite e grato pela confiança
sexta-feira, 26 de maio de 2023
Aproveitando uma "aberta"...
Já choveu, já trovejou e agora que o sol espreitou, vamos lá aproveitar p'ra caminhar. Bora...
De festa em festa
quinta-feira, 25 de maio de 2023
Parabéns, Manel!
quarta-feira, 24 de maio de 2023
terça-feira, 23 de maio de 2023
Não é Alentejano quem quer
Palavra mágica que começa no
Além e termina no Tejo, o rio da portugalidade. O rio que divide e une Portugal
e que à semelhança do Homem Português, fugiu de Espanha à procura do mar.
O Alentejo molda o carácter de um homem. A
solidão e a quietude da planície dão-lhe a espiritualidade, a tranquilidade e a
paciência do monge; as amplitudes térmicas e a agressividade da charneca
dão-lhe a resistência física, a rusticidade, a coragem e o temperamento do guerreiro.
Não é alentejano quem quer. Ser alentejano não é um dote, é um dom. Não se
nasce alentejano, é-se alentejano.
Portugal nasceu no Norte mas foi no
Alentejo que se fez Homem. Guimarães é o berço da Nacionalidade, Évora é o
berço do Império Português. Não foi por acaso que D. João II se teve de
refugiar em Évora para descobrir a Índia. No meio das montanhas e das serras um
homem tem as vistas curtas; só no coração do Alentejo, um homem consegue ver ao
longe.
Mas foi preciso Bartolomeu Dias regressar
ao reino depois de dobrar o Cabo das Tormentas, sem conseguir chegar à Índia
para D. João II perceber que só o costado de um alentejano conseguia suportar
com o peso de um empreendimento daquele vulto. Aquilo que para o homem comum
fica muito longe, para um alentejano fica já ali. Para um alentejano não há
longe, nem distância porque só um alentejano percebe intuitivamente que a vida
não é uma corrida de velocidade, mas uma corrida de resistência onde a
tartaruga leva sempre a melhor sobre a lebre.
Foi, por esta razão, que D.
Manuel decidiu entregar a chefia da armada decisiva a Vasco da Gama. Mais de
dois anos no mar... E, quando regressou, ao perguntar-lhe se a Índia era longe,
Vasco da Gama respondeu: «Não, é já ali.». O fim do mundo, afinal, ficava ao
virar da esquina.
Para um alentejano, o caminho faz-se
caminhando e só é longe o sítio onde não se chega sem parar de andar. E Vasco
da Gama limitou-se a continuar a andar onde Bartolomeu Dias tinha parado. O
problema de Portugal é precisamente este: muitos Bartolomeu Dias e poucos Vasco
da Gama. Demasiada gente que não consegue terminar o que começa, que desiste
quando a glória está perto e o mais difícil já foi feito. Ou seja, muitos
portugueses e poucos alentejanos.
D. Nuno Álvares Pereira, aliás, já tinha
percebido isso. Caso contrário, não teria partido tão confiante para
Aljubarrota. D. Nuno sabia bem que uma batalha não se decide pela quantidade
mas pela qualidade dos combatentes. É certo que o Rei de Castela contava com um
poderoso exército composto por espanhóis e portugueses, mas o Mestre de Avis
tinha a vantagem de contar com meia-dúzia de alentejanos. Não se estranha,
assim, a resposta de D. Nuno aos seus irmãos, quando o tentaram convencer a
mudar de campo com o argumento da desproporção numérica: «Vocês são muitos? O
que é que isso interessa se os alentejanos estão do nosso lado?»
Mas os alentejanos não servem só as grandes
causas, nem servem só para as grandes guerras. Não há como um alentejano para
desfrutar plenamente dos mais simples prazeres da vida. Por isso, se diz que
Deus fez a mulher para ser a companheira do homem. Mas, depois, teve de fazer
os alentejanos para que as mulheres também tivessem algum prazer. Na cama e na
mesa, um alentejano nunca tem pressa. Daí a resposta de Eva a Adão quando este,
intrigado, lhe perguntou o que é que o alentejano tinha que ele não tinha: «Tem
tempo e tu tens pressa.» Quem anda sempre a correr, não chega a lado nenhum. E
muito menos ao coração de uma mulher. Andar a correr é um problema que os
alentejanos, graças a Deus, não têm. Até porque os alentejanos e o Alentejo
foram feitos ao sétimo dia, precisamente o dia que Deus tirou para descansar.
E até nas anedotas, os alentejanos revelam
a sua superioridade humana e intelectual. Os brancos contam anedotas dos
pretos, os brasileiros dos portugueses, os franceses dos argelinos... só os
alentejanos contam e inventam anedotas sobre si próprios. E divertem-se imenso
ao mesmo tempo que servem de espelho a quem as ouve.
Mas para que uma pessoa se ria de si
própria não basta ser ridícula porque ridículos todos somos. É necessário ter
sentido de humor. Só que isso é um extra só disponível nos seres humanos topo
de gama.
Não se confunda, no entanto, sentido de
humor com alarvice. O sentido de humor é um dom da inteligência; a alarvice é o
tique da gente bronca e mesquinha. Enquanto o alarve se diverte com as
desgraças alheias, quem tem sentido de humor ri-se de si próprio. Não há maior
honra do que ser objeto de uma boa gargalhada. O sentido de humor humaniza as
pessoas, enquanto a alarvice diminui-as. Se Hitler e Estaline se rissem de si
próprios, nunca teriam sido as bestas que foram.
E as anedotas alentejanas são autênticas
pérolas de humor: curtas, incisivas, inteligentes e desconcertantes, revelando
um sentido de observação, um sentido crítico e um poder de síntese notáveis.
Não resisto a contar a minha anedota
preferida. Num dia em que chovia muito, o revisor do comboio entrou numa
carruagem onde só havia um passageiro. Por sinal, um alentejano que estava todo
molhado, em virtude de estar sentado num lugar junto a uma janela aberta. «Ó
amigo, porque é que não fecha a janela?», perguntou-lhe o revisor.
«Isso queria eu, mas a janela está
estragada.», respondeu o alentejano. «Então porque é que não troca de lugar?»
«Eu trocar, trocava... Mas com quem?»
Como bom alentejano que me prezo de ser,
deixei o melhor para o fim. O Alentejo, como todos sabemos, é o único sítio do
mundo onde não é castigo uma pessoa ficar a pão e água. Água é aquilo por que
qualquer alentejano anseia. E o pão... Mas há melhor iguaria do que o pão
alentejano? O pão alentejano come-se com tudo e com nada. É aperitivo, refeição
e sobremesa. E é o único pão do mundo que não tem pressa de ser comido. É tão bom
no primeiro dia como no dia seguinte ou no fim da semana. Só quem come o pão
alentejano está habilitado para entender o mistério da fé. Comê-lo faz-nos
subir ao Céu!
É por tudo isto que, sempre que passeio
pela charneca numa noite quente de verão ou sinto no rosto o frio cortante das
manhãs de Inverno, dou graças a Deus por ser alentejano. Que maior bênção
poderia um homem almejar?
Vou mas éi comer a açorda que
tenho mais que fazer.
João Mário Caldeira - Professor de História
Angola, Março de 1972 - Junho de 1974
segunda-feira, 22 de maio de 2023
Em memória de um bom camarada e grande amigo
Todas as baixas do BCav3871 foram
dolorosas para os Cavaleiros do Maiombe. Todas. Porém houve uma delas que me
afetou muito particularmente. E nem sequer foi uma baixa em combate mas um
acidente de viação nas imediações de uma tranquila povoação chamada Dinge na
estrada que liga o Belize a Cabinda e relativamente afastada já da zona de
maior perigosidade na altura.
Como todos os seus antecessores foram sempre fazendo, também o Comando do nosso Batalhão quis ir melhorando as condições de conforto e de habitabilidade do aquartelamento para os seus militares. Para isso eram necessários materiais de construção, nomeadamente areias que se iam carregar a Lândana, uma pequena vila no litoral do enclave.
E foi numa dessas programadas viagens que me calhou, pela escala, o serviço de operador-rádio da coluna que iria escoltar as Berliet’s que transportariam a areia. Nenhuma patrulha ou escolta saía nunca à porta d’armas de qualquer quartel sem levar um operador de transmissões porque era esse o único elo possível de ligação à base, naquele cenário de permanentes conflitos.
Ao aperceber-se que ia haver uma saída para Lândana e que o operador de serviço à escolta era eu, o meu camarada e amigo Soldado Transmissões Luís Manuel Oliveira Borges, fazendo valer a boa amizade que nos unia, massacrou-me insistentemente a cabeça para o deixar ir no meu lugar.
Na vida civil o Borges era pescador da Afurada - Gaia. E a praia mais próxima do Belize ficava exatamente em Lândana, a cerca de 200 km. E naquele dia, não por minha expressa vontade mas pela escala de serviço, tocara-me a mim ser o operador-radio da coluna auto. As trocas de serviço eram permitidas em qualquer repartição, desde que por motivo justificado, depois de devidamente autorizadas.
O habitual era precisamente o contrário. Sendo eu o cabo mais antigo da equipa de Transmissões, era também quem ia muitas vezes de operador-rádio no lugar de qualquer um deles, pois éramos oito. Porque o camarada que estava escalado queria ir jogar futebol coisa que eu não apreciava, ou porque ia ser transmitido algum relato de jogo importante do Puto e a que eu também não ligava nada, ou por outra qualquer plausível razão, inúmeras vezes fui no lugar de todos eles, sem exceção.
E também assim, naquele dia, incapaz de ficar indiferente aos insistentes rogos do meu camarada pescador, até porque, sendo Alentejano raiano do lado oposto ao litoral português, gosto muito mais da serra do que do mar, lá fomos os dois ter com o nosso Alferes Amaral Dias que sem qualquer hesitação – como sempre, porque confiava em todos nós – autorizou imediatamente a troca de serviço.
E lá foi o camarada Borges matar
saudades do seu mar, tão contente, tão animado,
tão feliz! Em má hora o fez. Gravemente ferido quando a viatura em que seguia com
o radio capotou num aparatoso despiste nas imediações do Dinge, teve de ser
evacuado para Luanda por via aérea e dali para Lisboa. Não mais voltou ao
Maiombe e não mais nos voltámos a ver.
Consegui saber, anos mais tarde, que ele já não se encontrava entre nós, porque falecera de doença grave. Que descanse em paz na eterna glória.
Até hoje não compreendi as voltas que o destino de todos nós às vezes dá. O camarada Borges só queria matar saudades de algo que também amava. O oceano. Vê-lo, ouvi-lo, tocar-lhe, sentir o seu odor salgado, quiçá imaginando que a oito mil quilómetros de distância, na Afurada, os seus pais, algum dos seus três filhos ou a sua esposa, estariam também à beira-mar, com saudades iguais às que o atormentavam a ele…
José Coelho in Histórias do Cota
domingo, 21 de maio de 2023
Apanhados
sábado, 20 de maio de 2023
Boa noite, até amanhã. Fiquem bem...
"Que o amor cure. Que a vontade supere. Que a coragem resista. Que o medo desista. E que, apesar de tudo, a paz sempre prevaleça."
Tocam os sinos, na torre da igreja...
Eucaristia Vespertina da Ascensão do Senhor, seguida de Procissão das Velas em Honra da Virgem de Fátima, na Beirã. Venham daí...
Foto José Coelho - 20. 05. 2023
sexta-feira, 19 de maio de 2023
Recado
Amigo,
tu
que choras uma angústia qualquer
e
falas de coisas mansas como o luar
e
paradas
como
as águas de um lago adormecido,
acorda!
Deixa
de vez
as
margens do regato solitário
onde
te miras
como
se fosses a tua namorada.
Abandona
o jardim sem flores
desse
país inventado
onde
tu és o único habitante.
Deixa
os desejos sem rumo
de
barco ao deus-dará
e
esse ar de renúncia
às
coisas do mundo.
Acorda,
amigo,
liberta-te
dessa paz podre de milagre
que
existe
apenas
na tua imaginação.
Abre
os olhos e olha,
abre
os braços e luta!
Amigo,
antes
da morte vir
nasce
de vez para a vida.
Manuel
da Fonseca
Último dia de passeio
Canção Breve
quinta-feira, 18 de maio de 2023
Os melhores filhos + Os melhores amigos (do mundo)
Celebration
quarta-feira, 17 de maio de 2023
Piromania
Ainda mal tinha começado o Verão e já era o terceiro incêndio nas proximidades de Arêz, uma das freguesias do concelho e área do posto de Nisa. As pessoas andavam inquietas e murmuravam entre si apontando o dedo a determinado indivíduo que “por casualidade” era sempre o mesmo a dar o alarme, o que levantava a suspeita se não seria ele o pirómano, dado que, em qualquer deles, as causas eram indeterminadas e muito estranhas, não se coibindo os bombeiros de afirmar que aquilo era com toda a certeza fogo posto.
Dei indicações para que o indivíduo fosse discretamente
vigiado pelas patrulhas mas não se vislumbrava nada que pudesse confirmar as
nossas suspeitas. Porém não tardaram muitos dias para que a sirene do quartel
dos soldados da paz voltasse a fazer ouvir o seu apelo aflitivo porque havia
novo foco de incêndio em Arêz.
- Enquanto não engavetarmos o gajo isto nunca mais tem fim, refilava o graduado que nesse dia estava de comandante do piquete. Arrancaram ainda primeiro que os bombeiros com indicação de verificarem e se eventualmente o “tal” rapaz fosse visto nas proximidades do sinistro que o trouxessem com eles para eu ter uma “conversa particular” com ele.
Dito e feito.
Como sempre, a primeira pessoa que a patrulha encontrou já muito entretido a combater o fogo com um ramalho verde, foi o dito cujo. Cumprindo as minhas indicações a patrulha logo informou o indivíduo que teria de os acompanhar depois do fogo extinto pelos bombeiros que haviam entretanto chegado e em poucos minutos controlaram a situação. Porque naquele, como nos anteriores três focos de incêndio anteriores, os prejuízos se resumiam a algumas centenas de metros de pasto e umas quantas oliveiras ardidas.
A patrulha fez como lhe competia o inquérito sumário das causas do sinistro mas tal como nos anteriores não chegaram a nenhuma conclusão concreta na medida em que não havia vestígios de ninguém nas proximidades, nem queimadas de qualquer espécie e daí se concluía facilmente que alguém gostava de lume, ou de fumo, ou de ouvir as sirenes dos bombeiros a apitar e para isso se divertia à sucapa largando fogo aqui e além em sítios mais ou menos esconsos nas proximidades da povoação.
Deduzia-se por isso também que fosse quem fosse, era pessoa que se deslocava a pé desde lá.
Apesar de eu ter formada e quase certa a suspeita que seria mesmo aquele energúmeno, a verdade é que sem provas concretas nada feito. Não podia haver qualquer procedimento criminal tanto mais que os prejuízos eram de pouca monta. Quando muito poderia apenas ser invocado o alarme social que a situação andava a provocar na população.
Assim, depois de feito o seu trabalho no terreno, a patrulha fazendo-se acompanhar do suspeito regressou ao posto. Eu já conhecia bem a peça. De vista. Pela sua fama de traste mas não só. Assim que ele entrou no meu gabinete exclamei de súbito, para lhe não dar tempo de raciocinar muito e como se tivesse a certeza absoluta do que o estava a acusar:
- Ora cá temos então o homem que anda a atear fogo aos pastos de Arêz…
O gajo olhou para mim encavacado, mas não se desmanchou e logo negou. Qual quê! Ele até era muito boa pessoa e até era o primeiro sempre a acudir e a apagar os fogos e mais isto e mais aquilo.
Como eu já contava com isso não desarmei e continuando num tom muito seguro, retorqui:
- É verdade sim senhor. Ajuda sempre. Mas também sempre acontece uma coisa estranha! Você chega lá primeiro que a patrulha e que os bombeiros e não teria tempo de lá chegar indo a pé da aldeia como você vai!
Ia sendo!
O moço empalideceu ligeiramente, baralhou-se um pouco, mas de seguida recompôs-se de novo e respondeu-me com pouca convicção.
- Olhe, hoje, por exemplo eu estava a cagar debaixo de uma figueira quando vi o fumo ali perto e corri logo para lá. Por isso é que cheguei primeiro que a patrulha e os bombeiros…
- Ai sim? Que casualidade! Você vai cagar lá p’ra longe das casas para o cheiro não incomodar os seus vizinhos! Que gesto tão enternecedor...
E continuei:
- Muito bem, agora vai levar-me lá, ao sítio onde cagou, porque eu quero ver com os meus olhos a sua cagada debaixo da figueira, pois só assim me convenço…
Visivelmente aflito o gajo não desarmou todavia e com a maior cara de pau afirmou:
- Não vale a pena irmos lá, porque com tanta gente que por ali andou a apagar o fogo, já o devem ter pisado…
- Pois! Já calculava! Observei.
- Então, a escolha é sua. Quer lá ir mostrar-nos o cagalhão e provar que está a dizer a verdade, ou quer já confessar sem mais chatices, que você é que tem por lá andado a deitar fogo aos pastos?
O indivíduo hesitou, pensou e concluiu:
- Se eu confessasse uma coisa dessas ia parar à cadeia…
De parvo o tipo não tinha mesmo nada, como aliás quase todos os delinquentes. Vi que dali não ia conseguir tirar mais e não havia matéria suficiente para o constituir arguido e ser presente ao Ministério Público.
Mandei por isso sair quem estava no gabinete, porque, à falta de provas, só me restava a solução de uma “conversa particular” a sós.
E assim aconteceu.
Após essa conversa amigável que durou menos de dois minutos, adverti-o:
- Pode ir, caro amigo! Mas já sabe. Por cada fogo que haja em Arêz, você terá de vir sempre aqui “conversar” comigo. Estamos entendidos?
Foi remédio santo!
Não voltou a haver fogos em Arêz, nesse verão...
José Coelho in Histórias do Cota








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