domingo, 10 de maio de 2026

A mesa que ainda nos espera


Houve um tempo, não tão distante quanto parece, em que a grande mesa da nossa sala de jantar ficava pequena para tanta vida. As oito cadeiras eram sempre poucas e era preciso acrescentar outras, improvisar lugares, abrir espaço onde já não havia. 

E, no entanto, cabíamos todos. 

Cabíamos sempre.

Lembro-me desse convívio como quem recorda um abraço antigo: quente, cheio, inteiro. Era ali, naquela mesa apertada, que a família respirava junta. E mesmo agora, sendo já menos os que se sentam comigo, um domingo sem família em casa deixa um silêncio que não é de paz, é de falta.

Não consigo, nem quero, deixar morrer a tradição que herdei do meu pai. Ele, que tinha tão pouco, parecia ter tudo quando nos via à volta da sua mesa. Os olhos dele brilhavam mais do que qualquer iguaria que se pudesse servir. 

A comida era simples - legumes da horta, frutos colhidos com as próprias mãos, aves do galinheiro, carnes do fumeiro - mas nunca foi isso que importou. 

O essencial era estarmos juntos. 

E isso bastava sempre.

Foi nesse cenário de simplicidade luminosa que aprendi o que realmente sustenta uma vida: o amor fraterno, a união, a presença. Foi ali que percebi que os valores não se ensinam, vivem-se. 

E quem aprende a amar os seus, aprende a amar o mundo.

Hoje, porém, o mundo mudou. Os pais trabalham os dois, as crianças crescem em instituições que cuidam, mas não acolhem como o colo dos avós. E os próprios avós acabam os seus dias longe da família, entregues a mãos que os tratam, mas não amam.

É a vida moderna, dizem. 

E talvez seja. 

Mas dói na mesma.

Por isso, enquanto puder, continuarei a fazer o que sempre vi fazer: abrir a porta, pôr a mesa, acender o lume, cozinhar os petiscos antigos que já poucos sabem preparar. Continuarei a chamar os meus, a reunir quem amo, a manter viva a chama que recebi do meu pai, essa chama que nunca se apagou dentro de mim.

Porque é assim que honro os que já partiram. 

É assim que abraço os que ainda tenho. 

É assim que permaneço fiel àquilo que me fez ser quem sou...

Tenham, se puderem, um tranquilo resto de fim de semana.

José Coelho