Houve um tempo, não tão distante quanto parece, em que a grande mesa da nossa sala de jantar ficava pequena para tanta vida. As oito cadeiras eram sempre poucas e era preciso acrescentar outras, improvisar lugares, abrir espaço onde já não havia.
E, no entanto, cabíamos todos.
Cabíamos sempre.
Lembro-me
desse convívio como quem recorda um abraço antigo: quente, cheio, inteiro. Era
ali, naquela mesa apertada, que a família respirava junta. E mesmo agora,
sendo já menos os que se sentam comigo, um domingo sem família em casa deixa um
silêncio que não é de paz, é de falta.
Não consigo, nem quero, deixar morrer a tradição que herdei do meu pai. Ele, que tinha tão pouco, parecia ter tudo quando nos via à volta da sua mesa. Os olhos dele brilhavam mais do que qualquer iguaria que se pudesse servir.
A comida era simples - legumes da horta, frutos colhidos com as próprias mãos, aves do galinheiro, carnes do fumeiro - mas nunca foi isso que importou.
O essencial era estarmos juntos.
E isso bastava sempre.
Foi nesse cenário de simplicidade luminosa que aprendi o que realmente sustenta uma vida: o amor fraterno, a união, a presença. Foi ali que percebi que os valores não se ensinam, vivem-se.
E quem aprende a amar os seus,
aprende a amar o mundo.
Hoje,
porém, o mundo mudou. Os pais trabalham os dois, as crianças crescem em
instituições que cuidam, mas não acolhem como o colo dos avós. E os próprios
avós acabam os seus dias longe da família, entregues a mãos que os tratam, mas não amam.
É a vida moderna, dizem.
E talvez seja.
Mas dói na mesma.
Por
isso, enquanto puder, continuarei a fazer o que sempre vi fazer: abrir a porta,
pôr a mesa, acender o lume, cozinhar os petiscos antigos que já poucos sabem
preparar. Continuarei a chamar os meus, a reunir quem amo, a manter viva a
chama que recebi do meu pai, essa chama que nunca se apagou dentro de mim.
Porque é assim que honro os que já partiram.
É assim que abraço os que ainda tenho.
É
assim que permaneço fiel àquilo que me fez ser quem sou...
Tenham, se puderem, um tranquilo resto de fim de semana.
José Coelho
