segunda-feira, 30 de março de 2026

Sou, fui e serei, sempre assim


Falar sempre a verdade mesmo quando ela não nos favorece, não é para qualquer um. É preciso ter-se estaleca. Ou em português arcaico, tê-los no sítio. Ou ainda em português mais formal, ser possuidor de invioláveis valores e princípios.
Mas qual quê?
É tão mais fácil sacudir a água do capote, varrer a verdade para debaixo do tapete para ficar oculta, achar que aqueles a quem se mente são todos parvos, trouxas ou ingénuos. Ficar feliz e na mó de cima a julgar-se muito mais inteligente, mais desenrascado, mais...
Xico-esperto.
Que orgulho sinto de ter sido ensinado pelos meus humildes pais a não mentir, a assumir sempre as minhas responsabilidades, a não fazer a ninguém o que não quisesse que me fizessem a mim.
Que orgulho sinto agora em duplicado porque foram exatamente esses valores e princípios que ensinei aos meus dois filhos e ambos me concedem a suprema felicidade de serem dois seres humanos íntegros e leais como todos deveriam ser.
Não é porque a mentira, a falsidade, a conveniência e falta de vergonha na cara que nos rodeiam são praticadas de cima para baixo pelas hierarquias do poder, das instituições públicas ou particulares e noticiadas diária e profusamente nos Órgãos de Comunicação Social, que as faz estarem corretas.
Porque o certo é sempre certo mesmo que ninguém o pratique e o errado será sempre errado, mesmo quando todos o façam. Não há outra volta a dar. Por isso mesmo não há nada que mais me incomode e desagrade nesta vida, do que perceber que me estão a mentir.
Descaradamente e sem o menor pudor, algumas vezes. Se for um amigo, provavelmente perde a minha confiança e amizade definitivamente. Se for um familiar porque nunca deixará de o ser faça ele o que fizer, perderá a minha consideração e estima.
Afirmo-o tranquilamente porque nunca, jamais ou em tempo algum, usei de mentiras com a intenção de não assumir as minhas responsabilidades ou para ficar mais bem visto seja para quem for.
Nunca, jamais ou em tempo algum, o farei.
Sou assim. Fui sempre assim. Serei sempre assim. Quem gostar de retidão e honradez, seja bem-vindo. Quem não gostar, siga o seu caminho e vá em paz, que com ela eu fico também...

José Coelho 

domingo, 29 de março de 2026

Semana Santa 2026


 Igreja Paroquial de S. Tiago em Marvão. Aqui se irão concentrar as solenes celebrações da Semana Santa 2026, entre 29 de março a 5 de Abril. Ver o programa próprio, publicado na pág. Igrejas Abertas - Marvão do Facebook.

Com o passo certo

Ponte Pedonal Sobre o Rio Tâmega - Chaves

Foi em meados do verão de 71 que esta já longa caminhada teve início, quando, estando eu a prestar serviço militar em Elvas, ficámos noivos. Seguiu-se um longo período de ausência com a mobilização para a guerra em outubro desse mesmo ano e consequente embarque para Angola em março de 72, até ao regresso em junho de 74.

Aqui teve início outra complicada odisseia. A de encontrar um emprego estável para constituirmos a nossa família. Orfã de mãe desde julho de 71, vivia a noiva "de favor" em casa de uma irmã, tendo o noivo de imigrar para longe em busca do pão de cada dia. E foi nessas precárias condições - uma a viver em casa alheia, o outro a centenas de quilómetros de casa - que em 76 decidimos casar. 

Porque sim. 

E mais não digo.

Inconformada com a minha situação profissional tão longínqua e algo perigosa, não descansou a já então minha esposa e logo depois mãe do nosso primeiro filho enquanto não me convenceu a mudar de rumo. Teve, para essa sua vitória, a cumplicidade da sogra e senhora minha mãe que também não se conformava que "o seu Zéi "andesse" lá debaixo do chão como as toupeiras". 

- Nã morreste na guerra, vais morrer algum dia nesse malçoado buraco! 

Sentenciava prudentemente, cada vez que eu cá vinha. 

Conseguiram. Saí de um buraco escuro e lamacento para ingressar numa profissão nunca antes imaginada e cujas mentalidades na altura (1974/1979) eram mais bafientas e cheias de mofo que as galerias das minas onde labutara durante cinco felizes anos. Aguardava-me um sem fim de dificuldades, armadilhas, humilhações tendenciosas para me desmotivarem e fazerem desistir.

Não foram capazes. Ou melhor dizendo. Não tiveram tomates para isso. Pelas boas, sou capaz de dar a camisa. Pelas tortas, não admito que ninguém seja mais torto que eu. Em vez de desanimar e de desistir como eles queriam, agarrei-me às matérias com unhas e dentes e arranquei as melhores notas do curso do primeiro ao último teste. 

A seguir concorri ao curso de cabos e depois ao de sargentos.

Foi a resposta que me propus e empenhei dar, a quantos acharam que eu seria um alvo fácil de abater. 

E cheguei lá. Por mérito próprio.

A duras penas, mas cheguei. 

Na noite em que o Lusitânia-Comboio-Hotel me trouxe de Santa Apolónia para casa já com o Diploma de Encarte de Sargento da Guarda Nacional Republicana na pasta, chorei até o dia nascer abraçado à minha aflita companheira que não estava nada à espera de me ver assim e só sussurrava para me acalmar: 

- Pronto, pronto, não chores mais! 

Não tive ajudas nem favores de ninguém, a não ser a impagável ternura e paciência desta admirável mulher e mãe que ficou sozinha em casa a cuidar de dois meninos pequenos durante três longos e consecutivos anos - um do curso de cabos e dois do curso de sargentos - longe da nossa família e também sem ajudas nenhumas, porque eu chegava nas sextas-feiras à uma e meia da madrugada para voltar a partir nos domingos às seis e meia da tarde.

No fundo, terá sido também uma conquista sua, por ter sido ela que me meteu naquelas "alhadas" quando me convenceu a sair das Minas para entrar na GNR. Caminhamos por isso mesmo juntos, cúmplices e amigos, há já cinquenta e cinco anos. Nem tudo terão sido rosas, mas nem tudo foram também espinhos.

Como em todos os caminhos de todas e quaisquer vidas. 

Das nossas e das vossas.

Caminhar juntos é isso mesmo. Dias muito bons, dias assim-assim, e dias menos bons. Mas nesse caminho não se deve nunca parar. Nem desistir. Há que seguir caminhando, tentando vencer um a um, todos os obstáculos. 

Sempre!

Prestem agora um bocadinho mais de atenção à foto que ilustra este "escrito". Vamos, eu e a minha companheira a caminhar juntos, de costas para quem nos fotografou casualmente, por sua iniciativa e sem nós nos apercebermos, completamente descontraídos, tranquilos, em paz com a vida e com o mundo inteiro, sobre uma das pontes que une as duas margens do Rio Tâmega na Cidade de Chaves. 

A harmonia que nos acompanhava era de tal modo perfeita que... reparem bem... caminhávamos ao lado um do outro... com o passo certo! 

Pura casualidade? 

Talvez! 

Mas também há quem diga que... 

... nada acontece por acaso.

Será?

José Coelho

sábado, 28 de março de 2026

Uma pedra só, não faz parede

16 de julho - o único dia do ano em que a igreja se enche de fiéis
Sabendo que a meia dúzia de pessoas que costuma vir à missa só chega perto da hora, fui um bocadinho mais cedo para a igreja. Pude assim estar alguns minutos a sós com a Senhora do Carmo, com o Santíssimo no Sacrário e com as imagens que os acompanham na nave: a Rainha Santa Isabel, a Senhora de Fátima, São José com o Menino, o Menino Jesus de Praga, a Senhora da Conceição e, no baptistério, o velho São João Baptista que preside a todos os batizados nesta igreja desde 16 de julho de 1943 - e ao meu também há 74 anos - depois ao das minhas irmãs mais novas, ao dos meus filhos e mais recentemente ao das minhas netas.
Neste santo templo casaram os meus pais, casámos eu e as minhas irmãs, casaram também os meus filhos e uma sobrinha. É impossível não me sentir bem aqui. Para além de Casa de Deus e da Senhora do Carmo, é o lugar onde guardo algumas das memórias mais queridas da minha vida – como sucede com tantos Beiranenses que vivem longe mas continuam espiritualmente ligados a este espaço.
A devoção à Senhora do Carmo mantém-se viva e prova disso é a sua festa anual que continua a trazer gente de todos os cantos do mundo para onde a vida os levou depois do encerramento do velho e querido Ramal de Cáceres que os deixou sem o seu ganha-pão por cá.
Com o passar do tempo fui percebendo que a Beirã se ia esvaziando e que a Paróquia acompanhava esse movimento. Sem pessoas não há comunidade e a falta de presbíteros, embora importante, nunca foi tão decisiva como a diminuição dos fiéis. Os que por cá ficámos temos procurado manter viva a vida paroquial apesar das dificuldades agravadas pela morte inesperada do Padre Luís Marques que alterou tudo de forma profunda.
Se já éramos poucos aos domingos, aos sábados ficámos ainda menos. Há muitas celebrações - a maior parte delas - em que somos apenas seis ou sete.
É a realidade.
Foi sobre tudo isto que em silêncio refleti este sábado, antes de abrir as portas da igreja e preparar o ambão para as leituras. Os paramentos já estavam prontos na sacristia e as alfaias no altar, colocadas pela minha Maria Coelho que semana após semana assegura tudo isso que antes era tarefa dos acólitos.
A verdade é simples: sacrificando a missa dominical que passou a ser vespertina aos sábados, o Senhor da messe providenciou, um pastor e a forma possível para que a celebração continuasse.
Não é pois, a falta de padres que deixa vazia a igreja.
É a falta de pessoas.
E como dizia o meu pai, uma pedra só não faz parede.

O dia que decidimos deixar de explicar-nos


Chega um dia na vida em que compreendemos que o silêncio consegue ser mais sábio do que muitas palavras. Não se trata apenas de cansaço diante das repetidas tentativas de nos explicarmos, mas de maturidade para reconhecermos que nem sempre os outros estão dispostos a ouvir ou a compreender o que dizemos.
Com o tempo percebemos que, quem realmente quer entender o que vai no nosso coração, sente-o, porque a empatia fala mais alto do que muitas explicações. Só quem se dispõe a ouvir-nos com o coração e não apenas com os ouvidos consegue perceber além das palavras. Para esses, basta um olhar, um gesto, uma presença silenciosa.
Pelo contrário, quem não está aberto a compreender-nos nunca nos ouvirá, por mais que nos expliquemos, detalhemos ou insistamos. As palavras tornam-se vãs diante de corações fechados. E é justamente nesse momento que aprendemos a deixar de lado a necessidade de nos justificarmos, de procurar aprovação ou entendimento onde manifestamente eles não existem.
A maturidade ensina-nos que devemos respeitar os nossos limites e cuidar da nossa paz. A escolhermos com sabedoria onde investir a nossa energia emocional. Por isso, sabermos parar de nos explicarmos não é uma desistência, mas sim um sinal de crescimento e de respeito por nós próprios.
Em vez de insistirmos em ser compreendidos por todos, aprendemos a valorizar apenas quem realmente se importa e consegue captar o que sentimos, mesmo no silêncio. Assim seguimos em frente mais leves e mais certos de que o entendimento verdadeiro nasce do sentir, não apenas do ouvir.

Texto e foto

É já hoje


Não se esqueçam que nesta noite de sábado, 28 de março, para domingo, 29 de março de 2026, à 1h da manhã, os relógios adiantam para as 2h. Menos uma hora de sono, mas em troca, teremos mais tempo de luz solar para desfrutar dos dias mais longos. Os smartphones e outros dispositivos electrónicos atualizam automaticamente a hora.

Bom fim de semana


 Por vezes temos de esquecer o que sentimos,
para lembrar o que merecemos.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Sou, sempre fui e serei, assim

Falar sempre a verdade mesmo quando ela não nos favorece, não é para qualquer um. É preciso ter-se estaleca. Ou em português arcaico, tê-los no sítio. Ou ainda em português mais formal, ser possuidor de invioláveis valores e princípios.
Mas qual quê?
É tão mais fácil sacudir a água do capote, varrer a verdade para debaixo do tapete para ficar oculta, achar que aqueles a quem se mente são todos parvos, trouxas ou ingénuos. Ficar feliz e na mó de cima a julgar-se muito mais inteligente, mais desenrascado, mais...
Xico-esperto.
Que orgulho sinto de ter sido tão bem ensinado pelos meus humildes pais a não mentir, a assumir sempre as minhas responsabilidades, a não fazer a ninguém o que não quisesse que me fizessem a mim.
Que orgulho sinto agora em duplicado porque foram exatamente esses valores e princípios que ensinei aos meus dois filhos e ambos me concedem a suprema felicidade de serem dois seres humanos íntegros e leais como todos deveriam ser.
Não é porque a mentira, a falsidade, a conveniência e falta de vergonha na cara que nos rodeiam são praticadas de cima para baixo pelas hierarquias do poder, das instituições públicas ou particulares e noticiadas diária e profusamente nos Órgãos de Comunicação Social, que as faz estarem corretas.
Porque o certo é sempre certo mesmo que ninguém o pratique e o errado será sempre errado, mesmo quando todos o façam. Não há outra volta a dar. Por isso mesmo não há nada que mais me incomode e desagrade nesta vida, do que perceber que me estão a mentir.
Descaradamente e sem o menor pudor, algumas vezes. Se for um amigo, provavelmente perde a minha confiança e amizade definitivamente. Se for um familiar porque nunca deixará de o ser faça ele o que fizer, perderá a minha consideração e estima.
Afirmo-o tranquilamente porque nunca, jamais ou em tempo algum, usei de mentiras com a intenção de não assumir as minhas responsabilidades ou para ficar mais bem visto seja para quem for. E nunca, jamais ou em tempo algum, o farei.
Sou assim. Fui sempre assim. Serei sempre assim. Quem gostar de retidão e honradez, seja bem-vindo. Quem não gostar, siga o seu caminho e vá em paz, que com ela eu ficarei também...

quinta-feira, 26 de março de 2026

Fonte de felicidade


Aprendi que o mais alto grau de paz interior se consegue pela prática do amor e da compaixão. 
Quanto mais nos importamos com a felicidade do nosso semelhante, maior é o nosso bem-estar. 
Quando cultivamos sentimentos profundos e solidários pelos outros, ascendemos a um estado de serenidade tão real que ela se transforma na nossa principal fonte de felicidade.

Na minha agrária

Memórias que nunca esqueço


Dez de março de 1972. O dia em que fiz vinte anos. Almocei com os tios Francisca Coelho e Pedro Maniés (irmã e cunhado do meu pai) na sua bonita vivenda nos subúrbios de Luanda e passei o serão na casa de fados "O campino" em companhia do seu filho mais novo meu primo-irmão Augusto Coelho Maniés e sua esposa a fadista Fernanda Varela que fazia parte do elenco de artistas que ali atuavam todas as noites.

O ar pouco animado tão evidente no meu semblante devia-se decerto ao facto de ter chegado apenas há setenta e duas horas a Angola integrado num contingente militar de substituição de efetivos numa zona de guerra, e no dia seguinte ir embarcar com os restantes camaradas de armas do BCav3871 para o enclave de Cabinda com destino ao quartel do Belize nas profundezas do Maiombe.
Foi a primeira vez que entrei numa casa de fados. Foi também a primeira vez na minha vida que comi gambas e bebi uísque. Não apreciei lá muito, nem uma coisa nem a outra. Valeram-me as dicas dos primos para mergulhar as gambas num delicioso molho picante e acrescentar gelo com um gole de Coca-cola ao uísque, para melhorar o sabor.
Sabia lá eu, na minha humilde condição de camponês alentejano, que raio de bichos e bebida alcoólica eram aqueles!
Quem pudera ter hoje a inocência que tinha então, naquele longínquo dia. Tios e primos já partiram todos para a eternidade, mas apesar de tantas coisas boas e menos boas por que passei, continuo ainda aqui.
Tive a ventura de voltar para casa são e salvo passados uns longos vinte e sete meses, de conseguir erguer-me após cada tombo, de contornar cada obstáculo até os que, matreiramente, foram urdidos para me prejudicar.
Mas Deus é Pai, Justo, Amigo, Paciente e Protetor. Por isso nunca me canso de dar graças, plenamente convicto de que foi a Sua ajuda misericordiosa que fez de mim um vencedor. Louvado seja.
Foto que me fez o primo Augusto na Fortaleza de São Miguel em frente à baía de Luanda, fundada em 1575 por Paulo Dias de Novais. Foi a primeira estrutura defensiva portuguesa na região e marcou o início da construção da cidade de Luanda. Atualmente, funciona como Museu Nacional de História Militar.

Chegada a Nisa (2)


Numa resposta quase imediata, na semana seguinte uma equipa composta por pedreiros, carpinteiros e pintores, “assentaram praça” no quartel para começarem a restaurar o mais urgente. O telhado que metia água e em alguns sítios ameaçava ruir. Foram substituídas quase todas as traves e barrotes, bem como centenas de telhas partidas causadoras de infiltrações. Depois foi a cozinha que levou azulejos brancos nas paredes, um armário moderno e lavável, um lava louça inox e um chão de mosaicos, bem como uma adequada iluminação interior.

O velho, escuro e gordurento “buraco” sem quaisquer condições de higiene e salubridade transformou-se numa cozinha com um mínimo de condições por ser indispensável aos militares que eram de longe e ali tinham que confeccionar as suas refeições diariamente. E como estava ali mesmo ao lado, foi também completamente remodelado o posto de rádio que ficou muito mais digno e funcional. Depois, uma a uma, todas as dependências do velho edifício foram sendo restauradas a expensas exclusivas da câmara municipal de Nisa.

Adaptaram-se as divisões dentro do possível. Separou-se o posto da secção. Do lado direito ficou o gabinete do oficial comandante e a respetiva secretaria, do lado esquerdo o gabinete do plantão contíguo ao gabinete do comandante de posto.

Adaptou-se um velho compartimento em frente á arrecadação do material de guerra que conseguimos decorar usando para isso pouco mais que umas dezenas de rústicas tábuas costaneiras dos desperdícios da serração e cedidas gratuitamente que depois de devidamente aparadas dos lados e envernizadas fizeram uma acolhedora sala de convívio que servia simultaneamente para os dias de instrução semanal, com uma bonita lareira feita de raiz para aquecer o ambiente nos dias frios de inverno.

Construiu-se um corredor em tijolo para se poder atravessar todo o edifício sem ter de se passar pelo interior da caserna, a qual entretanto foi também restaurada, assim como a casa de banho anexa equipada com louças sanitárias novas, azulejos nas paredes e chuveiros com água quente.

O velho piso de tábuas partidas, habitat seguro de famílias inteiras de ratos, foi substituído por um bonito e funcional parquet de corticite lavável, que deu logo um aspeto digno e acolhedor àquele compartimento, local de resguardo e de repouso para quem ali permanecia dia e noite por motivo de ter a sua residência e família afastados de Nisa e por isso só podia ir visitar na folga semanal.

Era o mínimo dos mínimos que se lhes podia - e devia - conceder. Condições dignas, com higiene, conforto e privacidade adequadas.

Também a residência que me era destinada levou uma volta completa. A casa de banho só tinha uma sanita e um lavatório. Não tinha chuveiro nem banheira. Os meus antecessores deviam com certeza tomar banho num balde porque nem águas quentes canalizadas a residência possuía. Depois a instalação elétrica era do princípio do século, com aqueles tubos primitivos em chumbo a despegarem-se das paredes.

O único contributo da Guarda em toda aquela remodelação, eram os dois militares que, estando de piquete 24 horas consecutivas, vestiam um fato de zuarte para auxiliarem os mestres naquilo que fosse necessário, entre as oito e as cinco da tarde, assegurando eu com o meu motorista, tomarmos conta de todas as ocorrências que houvesse naquele período de tempo. Era fraco o contributo, mas o possível e de muito boa vontade.

Todo o efetivo se regozijava com as obras de restauro que tardavam em chegar. Por isso, voluntariamente, cada um se prontificava para fazer o que podia e sabia.

Os guardas eletricistas ajudavam os eletricistas, os guardas pedreiros auxiliavam os pedreiros, os guardas canalizadores idem idem, aspas aspas - porque os guardas são também grandes e competentes profissionais de todas essas especialidades que desempenhavam antes de ingressarem na guarda - e aqueles que nenhum desses ofícios sabiam davam serventia onde fosse preciso.

Seis meses depois o quartel de Nisa não parecia o mesmo, por fora e por dentro. A CMNisa reaproveitando e reciclando muitos materiais sobrantes de outras obras de restauro de edifícios públicos - traves, barrotes, telhas e outros materiais existentes no estaleiro municipal - mesmo assim investiu naquela reparação cerca de seiscentos contos.

Mas não só. Logo a seguir, o executivo municipal liderado nessa altura pelo Dr Basso, providenciou o local e a elaboração do projeto para ser construído de raiz um novo quartel e duas residências para acomodarem o oficial comandante do Destacamento e o comandante do posto, no Bairro da Cevadeira onde foi de facto construído poucos anos depois e funciona até hoje.

José Coelho in Histórias do Cota

Foto a tomar já café no novo mini-bar do posto que a Delta Cafés teve a gentileza de equipar para o pessoal que tinha de estar 24 horas de serviço no posto, sem poder sair.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Por isso é Natal a 25 de dezembro

Anunciação do Anjo 25 de Março:
Nascimento de Jesus 25 de Dezembro

Chegada a Nisa (1)


Quando cheguei a Nisa cedo me apercebi que as relações entre a Guarda e as restantes autoridades civis do concelho e comarca eram de um quase confronto e oposição mútuos. Os eleitos municipais eram liderados pela CDU, a coligação comunista que o meu antecessor odiava e hostilizava. Não havia por isso diálogo nem aquela colaboração e respeito mútuos que são normais entre todas as entidades públicas de qualquer concelho, seja qual for a cor política dos seus eleitos.

Não cabe à Guarda, nunca coube em tempo algum, hostilizar seja que entidade for, muito pelo contrário. Descobri ali, sem querer, que aquele “ódio” que o meu ilustre antecessor me devotara no alistamento e pelo qual tanto me infernizara a vida, era exatamente o mesmo que devotava ao presidente da câmara de Nisa desse tempo (1985) e à maior parte dos nisenses que pública e manifestamente votavam na CDU concedendo-lhe por isso vitorias sucessivas, em sucessivos atos eleitorais.
Como se não fosse já um problema bicudo, com as outras entidades civis infelizmente as coisas não estavam mais famosas em termos de relacionamento. Olhavam para nós de lado, com pouca simpatia e ainda menos espírito colaborante.
Longe de me deixar intimidar com aquele panorama, senti-me interiormente incentivado a mudar aquele estado de coisas até onde me fosse possível, ainda que com plena consciência de ir cutucar um ninho de vespas que iriam tentar ferrar-me pela ousadia. Sem nada dizer a ninguém porque sabia de antemão que não iria encontrar apoio interno por parte de quem deixara abandalhar aquilo tudo ao ponto em que se encontrava, tomei várias iniciativas que me pareciam prioritárias.
A primeira foi redigir um ofício timbrado e endereçá-lo a todas as entidades locais. Presidente da Câmara Municipal, Juiz de Direito da Comarca, Delegado do Ministério Público, Chefe da Secretaria do Tribunal, Chefe do Serviço de Finanças, Delegado de Saúde, Gerentes das entidades bancárias, Bombeiros Voluntários e demais entidades públicas, a todos me identificando como o novo comandante do posto de Nisa e solicitando autorização para pessoalmente me apresentar a todos eles para cumprimentar cada um dando-me a conhecer, ao mesmo tempo que manifestava a minha disponibilidade para uma estreita colaboração institucional dali em diante.
Foi uma pedrada no charco! E um sucesso inesperado com o qual nem eu próprio contava. Umas atrás das outras, todas as entidades me responderam quase no imediato, agradadas com a minha atitude e abrindo as portas dos seus gabinetes para me receberem e conhecerem. Parecia que toda a gente queria restabelecer a relação amigável e institucional que nunca deveria ter sido quebrada e posta em causa.
E lá fui eu visitá-los a todos, à vez. Sem subserviência, sem nunca deixar de evidenciar o prestígio da minha mui nobre instituição, a todos me apresentei com humildade, mas também com a dignidade que o meu novo cargo exigia. E de todos recebi palavras amigas, de incentivo e de boa amizade, em simultâneo com as felicitações pela minha iniciativa, seguidas sempre de um “conte conosco”.
O primeiro e mais importante passo estava dado. Mas muito mais havia para fazer e não cruzei os braços nem me deixei adormecer à sombra dos elogios. Pelo contrário, comecei a “sondar” quem poderia dar apoio para melhorar as condições de habitabilidade das velhas e decrépitas instalações. E para que percebessem a urgência em meter mãos à obra, nada melhor que convidar todas aquelas entidades a visitarem o posto para que pudessem verificar com os seus próprios olhos a indignidade que era viver naquele edifício e as precárias condições que oferecia a quem necessitava de ali trabalhar para manter a ordem, a paz e tranquilidade públicas para benefício de toda a comunidade.
Retribuí com a mesma abertura e cordialidade para com todas as entidades que não se fizeram rogadas e compareceram ao meu convite. E uma vez ali, sem quaisquer complexos, mostrei-lhes tudo aquilo a que chamavam pomposamente o quartel da GNR da vila de Nisa. Evidentemente todos ficaram surpreendidos com tão avançado estado de degradação do edifício que pela sua aparência exterior denunciava de facto alguma velhice, mas não tanto como a do seu interior.
Estando presente o senhor presidente da câmara municipal acompanhado de alguns dos vereadores, imediatamente apelei à sua sensibilidade para dentro daquilo que lhes fosse possível me ajudassem no restauro das divisões mais carenciadas que infelizmente eram quase todo o edifício, pois sem a sua ajuda isso não seria possível…
José Coelho in Histórias do Cota
Continua no capítulo (2)

Lavrada e alimentada a terra



Obrigado ao amigo Rui que nunca falha 

terça-feira, 24 de março de 2026

PRONTO!!!!!




Sejam-no, se puderem


Fazer o que se gosta, é liberdade. Gostar do que se faz, é felicidade. 

Sejam felizes, se puderem...

O que se não cuida, perde-se



Colhemos o que semeamos. É verdade. O tempo é a árvore que nos dará o fruto dos nossos gestos. Esse fruto será doce ou será amargo, conforme a ternura ou o azedume que deixarmos pelo caminho que formos lavrando, e virá sempre no tempo certo. O fruto dos nossos gestos nunca vem fora de época, sabe sempre quando o devemos provar.

Quem não cuidou, não pode esperar ser cuidado. Quem não foi capaz de apoiar, não pode esperar ser amparado. Quem não teve uma palavra para quem a aguardava, não pode esperar nada a não ser silêncio. Quem não soube estar perto, não pode esperar senão distância. Quem não soube abraçar, não pode esperar senão braços cruzados. Quem não soube estar presente, não pode esperar ser visitado. O amor não é uma obrigação. Não é algo só porque sim. Quem não valorizou, não pode esperar ter valor para quem ignorou.

Quem só foi capaz de agredir, não pode esperar carinho. Quem esperava poder humilhar contando que essa humilhação fosse esquecida, enganou-se. Às vezes, sim, o tempo enfraquece a memória, mas aquilo que o coração guarda nunca se perde. Para o bem e para o mal. Os corações nunca esquecem. Quem nunca mostrou disponibilidade, quem nunca esteve para o que desse e viesse, não pode esperar receber amor de volta. O amor só regressa a quem o soube dar, o amor só regressa de livre vontade. Ninguém ama à força.

 In lado.a.lado

sábado, 21 de março de 2026

Grato às minhas raízes

Foto - 21. 03. 2026 

Cada vez me orgulho mais de ter nascido filho de gente humilde, honesta e habituada a viver apenas com o essencial: pão na mesa, roupa no corpo e dignidade no coração. Os meus pais não tinham meios para me mandar para a universidade – e ainda bem. Assim cresci como um simples cidadão do mundo, livre de pretensões e fiel às minhas raízes.
Não ter uma licenciatura nunca me tornou menos atento ou menos capaz de compreender o mundo. A família da minha mãe tem grande parte das suas origens em Espanha, e eu nasci pouco depois de terminada a sua guerra civil, logo a seguir à Segunda Guerra Mundial. Eram tempos duros, marcados por conflitos que deixaram cicatrizes profundas.
Nas noites frias de inverno, à lareira, ouvi histórias de quem viveu o medo de perto. O nosso patrão, quando ia tratar do gado à Retorta, junto ao rio Sever, escutava tiros e gritos vindos do outro lado da fronteira. A família só descansava quando ele regressava são e salvo. E não era só isso: fugitivos surgiam na calada da noite, pedindo comida e ajuda. Quem pouco tinha, pouco dava, mas dava sempre – e eles desapareciam de novo na escuridão, carregando medos que só eles conheciam.
Foi neste ambiente difícil que nasci e comecei a minha vida. E foi também por causa desses tempos conturbados que surgiu o Ramal de Cáceres e a estação ferroviária da Beirã, para reforçar o comércio entre Portugal e Espanha. A aldeia, quase inexistente, cresceu com a chegada dos serviços e das pessoas que vinham trabalhar para a fronteira.
Com mais gente, foi preciso criar condições para viver: abriram-se hortas, pomares, olivais, searas. A terra era dura, cheia de granito, mas mesmo assim conseguia alimentar quem cá vivia. O que a agricultura não dava, era fornecido através de mercearias, tabernas, pensões, talhos, alfaiates, carpinteiros, barbeiros – um pequeno oásis neste concelho tão afastado de tudo.
Assim se viveu durante mais de cem anos, em paz e harmonia, até à chegada da União Europeia. Em vez dos benefícios prometidos, trouxe o declínio de muitos destes serviços e modos de vida porque a abertura das fronteiras matou os empregos em redor da estação que pouco depois encerrou totalmente pela desativação do Ramal de Cáceres determinada pelo governo de Passos Coelho, a todo o tráfego ferroviário de passageiros e mercadorias.
A frio. Com a mais completa e indesculpável indiferença pelo ganha-pão de centenas de pessoas que da noite para o dia viram as suas vidas ficarem de pantanas. Funcionários da estação, assentadores e cuidadores da via férrea, funcionários e funcionárias das passagens de nível, pessoal aduaneiro e da alfândega, guardas fiscais, em suma tudo o que gerava vida, movimento, economia e emprego. Uns atrás dos outros foram partindo, só ficou quem não quis – ou não podia – abandonar as suas casas. E os velhos já reformados.
E o comércio começou logo a definhar aos poucos, até desaparecer por completo, as casas começaram a suceder-se, umas após as outras, desabitadas e fechadas por todas as ruas.
Nunca fui militante de partido algum. A minha condição militar não o permitia e sempre cumpri essa regra. Por isso, na melhor fase da minha vida, a única participação política que pude exercer, foi votar – e talvez tenha sido o melhor.
Observando o que fizeram à minha terra e região, bem como a infindável sucessão de escândalos, corrupção, esquemas e abusos cometidos por quem deveria ser exemplo mas preferiu enriquecer à pala da política, sei que jamais eu permitiria que o meu nome e honra fossem enxovalhados pelo comportamento desajustado desses energúmenos, por mais doutores ou engenheiros que fossem.
Crimes de lesa pátria, ganância, compadrios, vergonha. Não é esse o caminho que sigo, nem aquele que me foi ensinado pela gente simples e séria que me criou. Acredito – e quero morrer acreditando – nos valores que eles me deixaram:
• O Bem Comum
• O Respeito por Todas as Pessoas
• A Dignidade Humana
• A Solidariedade acima de qualquer interesse
• A Integridade de Carácter