Não sou
homem de depressões. A minha expressão até pode às vezes sugerir sombras, mas
não carrego no coração nenhuma escuridão que me derrube. Carrego melancolia,
essa forma silenciosa de lucidez que observa o mundo sem filtros e não a
escondo, não a nego, não a temo. Ela é a minha forma de sentir fundo sem me
perder.
A minha
vida nunca foi simples. Nada me chegou por facilidade, nada me foi dado sem
esforço. Vivi cada conquista como quem atravessa terreno irregular: atento,
resistente, consciente de que cada passo tem peso. Os últimos anos foram os
mais duros, mas passaram. Não preciso de os enumerar para lhes reconhecer o
impacto. O que importa é que não me quebraram.
Continuar
é o meu modo de existir. Não por heroísmo, mas por coerência. Continuar não é
esquecer, nem fingir, nem anestesiar. Continuar é aceitar que a dor existe, que
a vida fere, que o tempo não apaga tudo, mas suaviza o suficiente para que o
próximo passo seja possível. E isso basta.
O silêncio
é o meu território de cura. Preciso de recolhimento, de introspeção, de estar
comigo. Não para me lamentar, mas para me reorganizar. Os nós que a vida aperta
não se desfazem em voz alta. Desatam-se na solidão, onde o pensamento respira e
a alma se recompõe.
Caminho
sozinho porque assim tem de ser. Não por orgulho, mas por verdade. Há dores que
não se explicam, há quedas que não se partilham, há feridas que não se exibem.
Entre tombos houve momentos felizes, sim, mas não suficientes para apagar o que
ficou gravado. A cura – se vier – será com o tempo. Até lá, avanço devagar, sem
pressa, sem ilusões, mas com firmeza.
Não me
alimento de frases feitas. “Uma pessoa morre quando deixa de sonhar.” Talvez.
Mas quem já foi esmagado pela vida sabe que há momentos em que sonhar é luxo,
acreditar é esforço e lutar é sobrevivência. E mesmo assim continuamos. Não por
glória, mas por necessidade.
Já estive
sem chão. Já me perguntei: “porquê eu”, “que sentido tem isto”, “o que fiz para
merecer”. Não encontrei respostas. E aprendi que a vida não responde a quem
pergunta de joelhos. A vida responde a quem se levanta, mesmo sem entender.
Não mexo
nas feridas. Não por medo, mas por sabedoria. O passado não precisa de ser
reaberto para ser reconhecido. Basta-me saber que existiu, que doeu, que marcou,
mas que não me parou.
Sou
melancólico, sim. Mas não sou derrotado. Sou alguém que continua. Alguém que
resiste. Alguém que se recusa a desaparecer dentro da própria dor.
Este é o
meu manifesto: Não dramatizo o que vivi. Não nego o que senti. Não fujo do que
sou. Caminho. Mesmo quando dói. Mesmo quando cansa. Mesmo quando não sei para
onde. Caminho porque viver é isso: avançar com as cicatrizes à mostra, a
melancolia ao lado e a dignidade inteira.
José Coelho
