quarta-feira, 17 de junho de 2026

Fruto de gente boa

A grandeza não está nos grandes feitos, como muita gente pensa. A vida ensina, devagar, que a verdadeira força mora nas pequenas fidelidades: no cuidado diário, no respeito silencioso, na forma como tratamos quem nos rodeia.
Ser dedicado aos afetos não é fraqueza, é coragem. É escolher, todos os dias, ser presença, ser apoio, ser porto seguro. É saber que a família, os amigos, os vizinhos, os conterrâneos não são apenas pessoas: são raízes que nos seguram quando o mundo abana.
E quando amamos a nossa terra – a aldeia, o campo, o vento, a chuva, o sol – não é apenas nostalgia. É reconhecimento. É gratidão por tudo o que nos moldou e nos fez ser quem somos.
A dignidade, o respeito, a educação, a integridade de carácter… não se aprendem em discursos. Aprendem-se no berço, no exemplo, na vida vivida com verdade.
E por isso, quem agradece antes de adormecer não está a cumprir um ritual. Está a honrar a própria história.

Está a dizer ao mundo: “Sou fruto de gente boa e quero continuar a merecer essa herança.”
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Reflexão a encerrar o dia de ontem

Há dias que nos pedem mais do que parece possível. Dias que começam antes da madrugada acordar, que nos levam longe, que nos puxam pela memória, pelo corpo, pela coragem. E no fim, quando regressamos a casa, percebemos que não foi apenas cansaço, foi também caminho.
Ontem, cumpri esse caminho.
Há uma verdade simples que só quem vive muito entende: o corpo cansa, mas a alma cresce. Cresce no silêncio da estrada, cresce na espera dos consultórios, cresce na gratidão que se renova quando percebemos que a vida nos deu mais um ano, mais um capítulo, mais uma oportunidade de sermos nós mesmos.
A noite teve de inevitavelmente ser repouso. Deixei que ela me envolvesse devagar, como quem fecha um livro com cuidado, porque sabe que a história continua no dia seguinte.
E lembra-nos, cada ano, que aquilo que carregamos não é um peso, é uma prova. Prova que vencemos, que resistimos, que continuamos de pé, inteiros, lúcidos, gratos.
Descansei.
E hoje, quando a vida voltou a chamar por mim, como sempre, soube responder-lhe.
Grato a quem me enviou mensagens, cumprimentos amigos, apoio. Àqueles a quem o cansaço já não permitiu dar resposta, peço desculpa.
A nossa amizade, contudo, mantém-se inteira.
Sempre.
Um abraço, com estima.
José Coelho
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17. 06. 2026

Quando a Natureza nos diz: bem-vindo

Há regressos que não se planeiam, acontecem. Vêm ao nosso encontro como um gesto amigo, como um aceno silencioso de quem nos conhece desde sempre.
Hoje, ao fim do dia, foi a própria Natureza que me chamou pelo nome, quando parei na berma da estrada para guardar este instante de ouro.
O sol, já cansado - como eu vinha também - inclinava-se devagar sobre a colina da Broca, como um velho amigo que se despede sem pressa. A luz espalhava-se pelo campo com a delicadeza de quem estende um manto sobre os ombros de quem chega.
E eu, ali parado, fui testemunha deste abraço que só a terra sabe dar.
Esta fotografia que fiz quase a chegar a casa, não é apenas uma imagem – é pertença. É o momento exato em que o mundo me diz: “Já estás em casa".
As árvores não se moviam, mas acolheram-me. O vento não falava, mas reconheceu-me. E até o silêncio tinha o meu nome gravado na respiração da paisagem.
Há lugares que não são apenas geografia: são memória, raiz, promessa. E eu voltei ao meu, ao sítio onde o horizonte se deita devagar, onde o tempo não corre, onde cada pedra parece guardar histórias que só eu sei ouvir.
Regressar assim, foi um privilégio raro. Foi sentir que a vida, apesar das curvas e das poeiras do caminho, ainda sabe oferecer-nos estes pequenos milagres ao fim da tarde.
E eu, com o telemóvel na mão e o coração aberto, quis recebê-lo.
Porque a Natureza, essa minha amiga fiel, não me disse apenas: “bem-vindo”.
Disse-me algo maior: “Ainda és daqui. Ainda és meu.”
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Agradeço

Hoje, 16 de junho de 2026, celebro dez anos de algo que não se mede apenas em tempo: mede-se em vida. Há datas que não se esquecem porque marcam o antes e o depois – e esta é uma delas.
Agradeço à Vida, que me permitiu continuar o caminho. Agradeço a todas as Divindades do Universo, forças visíveis e invisíveis que me sustentaram quando o medo apertou.
Agradeço, com respeito profundo, ao distinto cirurgião Dr. João Varregoso e à excelente equipa do Hospital Lusíadas Lisboa, que hoje me recebeu pela décima vez para o meu check up anual.
Foi ali, há dez anos, que dele ouvi a frase que nenhum homem quer escutar: “Vamos ter de operar.” E foi ali também que encontrei competência, humanidade e a serenidade necessária para confiar.
Hoje, regressar àquele hospital não foi um peso, foi uma celebração. Dez anos de sucesso. Dez anos de qualidade de vida. Dez anos de gratidão silenciosa por tudo o que poderia ter sido diferente… mas não foi.
Ainda sou eu. E sou, talvez, um pouco mais: mais consciente, mais grato, mais atento ao milagre discreto de cada dia.
Deixo ainda uma palavra para todos os que hoje se confrontam com diagnósticos duros, inesperados, capazes de abalar o mais firme dos espíritos.
Sei bem o que é sentir o chão fugir debaixo dos pés, por instantes.
Mas também sei que a esperança é uma força real, concreta, que transforma destinos.
Acreditem: tudo é possível quando se junta a ciência, a fé – seja ela qual for – e a vontade profunda de continuar.
Nunca desistam. Nunca deixem de acreditar. A vida tem uma capacidade extraordinária de nos surpreender quando menos esperamos.
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Ainda sou eu

Há rotinas que um país nunca deveria impor aos seus cidadãos. Acordar às quatro da manhã, ainda com a noite inteira pousada sobre os ombros e percorrer 238 quilómetros até Lisboa para chegar a tempo de uma consulta marcada para as nove, não é uma escolha: é uma prova silenciosa da desigualdade.
Quem vive no interior conhece bem esta coreografia cansativa de preparar tudo na véspera, sair de casa muito antes do sol, enfrentar a estrada longa, chegar à capital já com metade do dia gasto e metade da energia consumida. E tudo isso para cumprir um direito básico: cuidar da saúde, acompanhar os seus, garantir que ninguém fica para trás.
É nesta distância – física, emocional e política – que se revela a verdadeira falha do país. Não é apenas a estrada que separa o interior de Lisboa; é a sensação de que a vida de uns, vale mais tempo, mais conforto, mais atenção, do que a vida de outros. E é a partir desta consciência, tantas vezes engolida em silêncio, que nasce a indignação justa que sustenta o texto que se segue.
Foi precisamente numa dessas madrugadas, igual a tantas outras, mas nunca fáceis, que o despertador o encontrou já acordado. Acordou antes de o ouvir. Não porque estivesse ansioso, mas porque o corpo, habituado a décadas de madrugadas, já não precisava de ser chamado. Eram quatro da manhã.
A casa estava mergulhada num silêncio espesso, daqueles que só existem quando o mundo ainda dorme. Levantou-se devagar, sentindo cada articulação como se fosse uma dobradiça antiga que precisava de ser persuadida a mexer-se. No espelho as rugas não o surpreenderam. Eram velhas conhecidas.
Cada uma contava uma história: o trabalho duro, as noites mal dormidas, as preocupações que nunca se dizem em voz alta, as perdas que o tempo impõe, as vitórias discretas que ninguém vê. Não havia vergonha delas. Havia dignidade.
Vestiu-se com calma, como quem se prepara para uma jornada que não escolheu, mas que aceita. A estrada esperava-o, longa, repetida, necessária. Duzentos e trinta e oito quilómetros para lá, outros tantos para cá. Uma rotina que já não impressionava ninguém, mas que exigia mais do corpo do que este tinha já para dar.
Saiu de casa quando o céu ainda era apenas uma sombra. O ar fresco da madrugada bateu-lhe no rosto, acordando-o por completo. Entrou no carro, ligou o motor, e a estrada abriu-se à sua frente como um corredor silencioso. Conduziu em silêncio, deixando que os pensamentos se arrumassem sozinhos. Não havia pressa. Havia apenas o dever.
Chegou ao destino ainda cedo. O edifício onde ia ser atendido tinha aquele cheiro característico dos sítios onde se trata do corpo: desinfetante, papel, metal, e uma certa ansiedade que paira sempre no ar. De guichet em guichet, de sala em sala, foi cumprindo o ritual. Entregava documentos, respondia a perguntas, esperava.
A espera era talvez a parte mais difícil, não pelo tempo, mas pela consciência de que cada minuto ali era mais um lembrete de que o corpo já não era o que fora. Ainda assim, não havia revolta. Havia apenas a serenidade de quem sabe que viver é também isto: cuidar das peças que se vão desgastando, aceitar que o tempo cobra, mas também oferece.
O almoço foi simples, quase apressado. Uma refeição sem história, tomada num daqueles sítios onde ninguém se demora. Depois, voltou para a estrada. A tarde já ia avançada e o percurso parecia mais longo no regresso. O corpo pesava, os olhos ardiam, mas havia uma força antiga que o empurrava para casa – uma força feita de hábito, de resiliência, de uma espécie de teimosia que só quem viveu muito, conhece.
Os quilómetros foram passando devagar. O sol começou a descer, tingindo o céu de cores que ele já vira milhares de vezes, mas que nunca deixavam de o comover. A vida, pensou, é feita destes pequenos instantes que ninguém regista, mas que ficam gravados na memória como fotografias silenciosas.
Quando finalmente chegou, dezoito horas depois de ter saído, sentiu o corpo desabar num cansaço profundo. Mas sentiu também outra coisa: uma leveza interior, uma espécie de paz que só existe quando se cumpre o que tem de ser feito. Não era heroísmo. Não era sacrifício. Era apenas a vida – a sua vida – vivida com decência.
E então, apesar do cansaço, sorriu. Um sorriso pequeno, quase imperceptível, mas verdadeiro.
Um sorriso que dizia:
“Ainda cá estou. Ainda caminho. Ainda sou eu.”

segunda-feira, 15 de junho de 2026

A serenidade aprende-se


Existirá sempre um momento na vida em que vamos deixar de procurar a serenidade fora de nós. Em que percebemos, finalmente, que ela não está no silêncio da aldeia, nem no canto das aves, nem no descanso depois de um dia cheio, embora tudo isso ajude.

A serenidade verdadeira nasce dentro de nós, num lugar que ninguém vê, mas que sustenta tudo o que somos. A serenidade não é ausência de problemas. É a capacidade de olhar para eles sem nos perdermos.

É saber que o mundo pode agitar-se, que as pessoas podem falhar, que o tempo pode levar o que amamos e, ainda assim, manter o coração firme, como uma árvore antiga que já enfrentou todas as estações.

A serenidade aprende-se.

Aprende-se com a idade, com as perdas, com os dias difíceis, com as noites em que o sono não chega. Aprende-se quando percebemos que não controlamos tudo e que não precisamos de controlar tudo.

Aprende-se quando deixamos de lutar contra a vida e começamos a caminhar com ela.

A serenidade é uma forma de sabedoria. É saber distinguir o que merece a nossa energia do que apenas merece o nosso silêncio. É compreender que nem todas as batalhas são nossas, que nem todas as palavras precisam de resposta, que nem todos os ruídos merecem atenção.

E, sobretudo, a serenidade é um gesto de confiança: confiança na vida, confiança no tempo, confiança em Deus, essa força discreta que nos acompanha desde o berço humilde, onde se aprenderam os valores que ainda hoje nos guiam.

Ser sereno não é ser indiferente. É sentir tudo, mas sem se deixar arrastar por nada. É cuidar dos outros sem se esquecer de si. É amar sem medo, porque sabe que o amor, quando é verdadeiro, não se perde.

A serenidade é, no fundo, a casa interior onde regressamos quando o mundo cansa. E quem a encontra, mesmo que por instantes, descobre que a vida tem um ritmo próprio mais lento, mais sábio, mais humano.

José Coelho
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Natal no Maiombe

Havia dias em que o Maiombe parecia não ter fim. A selva erguia-se à nossa volta como uma muralha viva, feita de sombras, cheiros húmidos e um rumor constante que nunca se calava. Era um mundo que engolia o horizonte e nos lembrava, a cada passo, que ali não mandávamos em nada.
Eu tinha vinte anos. Vinte apenas e já com a farda marcada pelo suor, a pele endurecida pelo medo e o coração cheio de uma saudade que não sabia explicar. A Beirã parecia tão longe que às vezes duvidava se ainda existia. Mas bastava fechar os olhos para ouvir a voz da minha mãe, o riso dos amigos no Largo da Fonte, o sino da igreja a marcar as horas como quem diz: “Ainda estás ligado a nós.”
Foi num desses dias que a RTP apareceu no aquartelamento. Uma câmara grande, pesada, que parecia deslocada naquele cenário de terra vermelha e árvores gigantes. Disseram-nos que iríamos gravar mensagens de Natal para as famílias. Eu ri-me. Natal ali? No meio daquele inferno verde e calor sufocante? Mas quando me chamaram, senti um aperto no peito.
Segurei o microfone com mãos que queriam parecer firmes. Atrás de mim, a floresta respirava. À frente, a lente fria esperava por mim. E eu, quase uma criança, tentei parecer homem.
Disse “Feliz Natal” com a voz mais segura que consegui. Mas dentro de mim, o que eu queria mesmo era voltar a casa, sentir o cheiro dos madeiros da Missa do Galo no adro da igreja, ouvir o meu pai dizer “o nosso Zéi está bem”, ver a minha mãe enxugar os olhos com o avental.
Naquele instante, percebi que a saudade não é ausência, é presença. É o que fica quando tudo o resto nos é tirado.
O Maiombe ensinou-me isso.
Ensinou-me o valor de um abraço que não se pode dar, de uma aldeia que continua a existir dentro de nós mesmo quando o mundo à volta se torna selva. Ensinou-me que a juventude é frágil, mas teimosa. E que, mesmo no meio da guerra, há sempre um fio de luz que insiste em sobreviver.
Hoje, quando olho para esta fotografia – o rapaz de vinte anos, o microfone na mão, o olhar ainda limpo – vejo alguém que não sabia o que o esperava, mas que nunca deixou de acreditar que voltaria.
E voltei.
Voltei para contar a história.
Voltei para honrar os que ficaram pelo caminho.
Voltei para dizer, com a serenidade que só o tempo dá, que os Natais no Maiombe foram os mais duros… e os mais verdadeiros da minha vida.

O silêncio que me criou

O silêncio fala comigo. Já falava, antes de eu saber escrever. Fui aprendendo cedo que ele não é ausência, é presença. Presença do vento a passar entre os carvalhos, presença das cotovias a riscar o céu, presença daquele murmúrio das folhas que parecia conhecer o meu nome melhor do que muita gente.
Aos onze anos, com os bolsos vazios, enquanto os outros rapazes juntavam moedas para um petisco, eu juntava passos pelos campos, levando comigo um livrito de cow-boys emprestado e a fiel companhia do meu amigo silêncio.
Era ali, no meio da natureza, que eu me sentia completo. O vento falava comigo como um irmão mais velho. As folhas dos sobreiros afagavam-me o rosto como a mão da minha mãe.
E eu, menino de poucas posses mas de mundo imenso, aprendi que a solidão podia ser casa, podia ser colo, podia ser bênção.
O silêncio ensinou-me a escutar antes de falar, a sentir antes de julgar e a ser antes de parecer. Foi ele que me deu esta serenidade que hoje carrego, esta forma de olhar a vida com a calma de quem já conversou longamente com a terra.
E talvez por isso escrevo: para voltar a esse menino que caminhava ao encontro do vento que me dizia verdades simples, para ouvir outra vez o murmúrio das folhas que nunca me mentiram.
Escrevo, porque o silêncio ainda me chama.
E eu, como sempre, respondo.
Mas há algo mais, algo que só se entende com o peso dos anos e a leveza da memória. O silêncio foi o meu primeiro mestre.
Foi ele que me ensinou que a pobreza não é falta, é escola. Que a solidão não é castigo, é caminho. Que a natureza não é cenário, é família.
Pelo silêncio dos campos aprendi a distinguir o som do vento bravo do vento manso, a reconhecer o humor das nuvens, a perceber quando a terra estava contente e quando estava cansada.
Aprendi a caminhar sem pressa, a olhar sem medo, a sentir sem vergonha.
E talvez seja por isso que, ainda hoje, quando o mundo me pesa, volto a ser aquele menino pastor que encontrava no silêncio tudo o que lhe faltava no bolso.
Volto a ser aquele Zéi de onze anos que sabia, sem saber que sabia, que a vida é muito mais simples do que parece.
O silêncio criou-me.
E continua a criar-me, cada vez que me sento para escrever.

domingo, 14 de junho de 2026

A arte de envelhecer com alma


Chega um momento na vida em que deixamos de correr atrás do tempo e começamos, finalmente, a caminhar ao lado dele. É aí que o envelhecer deixa de ser ameaça e passa a ser revelação.
O tempo não nos rouba, depura. Tira o excesso, o ruído, a pressa, a necessidade de provar seja o que for. E devolve-nos a essência: aquilo que realmente somos quando já não precisamos de máscaras.
Envelhecer é, antes de tudo, um ato de coragem. É aceitar que o corpo muda, que a força física abranda, que algumas dores se instalam como hóspedes permanentes. Mas é também descobrir que, por dentro, algo se torna mais firme, mais claro, mais luminoso.
A maturidade não é peso, é claridade. É saber distinguir o que importa do que apenas ocupa espaço. É aprender a dizer “não” sem culpa e “sim” sem medo. É perceber que a vida não se mede em anos, mas em consciência.
O tempo ensina-nos a olhar para trás sem amargura e para a frente sem ansiedade. Mostra-nos que cada perda abriu espaço para algo novo, que cada cicatriz guarda uma lição, que cada despedida nos aproximou mais de nós mesmos.
Envelhecer é, também, um privilégio. É ter vivido o suficiente para compreender que a serenidade vale mais do que a razão, que a paz vale mais do que a vitória, que o amor vale mais do que qualquer orgulho.
E há uma beleza profunda em chegar a esta fase da vida com o coração inteiro. Com a capacidade de se comover, de agradecer, de cuidar, de amar. Com a humildade de reconhecer fragilidades e a grandeza de continuar, apesar delas.
O tempo, quando bem vivido, não nos envelhece – amadurece-nos.
E quem envelhece com dignidade torna-se farol para os outros, mesmo sem perceber. Porque há uma luz especial em quem já atravessou tempestades e ainda assim escolhe a serenidade.
No fim, envelhecer é isto: aprender a ser leve por dentro, mesmo quando o corpo pesa. E agradecer – sempre – por cada dia que ainda nos é dado para amar, cuidar e honrar a história que nos trouxe até aqui.
Tenham um excelente domingo...
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sábado, 13 de junho de 2026

O silêncio onde a vida se revela

Dias existem em que a vida parece chamar-nos pelo nome. Não com estrondo, não com urgência, mas com aquela voz baixa que só se ouve quando se vive com atenção. E eu, que sempre fui homem de afetos e raízes, aprendi a escutar essa voz desde cedo.
Sou, por natureza, dedicado às pessoas. À família que me moldou, aos amigos que a vida me deu, aos vizinhos que fazem parte da minha respiração diária, aos conterrâneos que reconheço pelo olhar mesmo antes de saber o nome.
Não importa se são da minha freguesia, do concelho, do distrito ou de qualquer canto deste país que amo, porque todos pertencem a essa teia de humanidade que me sustenta.
Mas há um lugar onde tudo isto ganha corpo: a minha aldeia. A Beirã não é apenas o sítio onde moro, é o sítio onde existo. É o meu eixo, o meu chão, a minha memória viva.
Cada rua estreita, cada muro gasto, cada sombra de árvore parece guardar histórias que me antecedem e que me ultrapassam. E eu caminho por elas como quem percorre um livro que nunca acaba.
A natureza aqui não é cenário, é presença. O vento que passa tem recados antigos. A chuva traz consigo uma espécie de bênção. O sol, quando se deita sobre a Tapada da Rabela, parece dizer-me que ainda há beleza suficiente no mundo para justificar a esperança.
E os animais, as aves, as pequenas vidas que me visitam no quintal, lembram-me todos os dias que a simplicidade é uma forma de sabedoria. Mas nada disto seria possível sem o berço onde nasci. Um berço humilde, sim, mas cheio de honra.
Foi aqui, entre mãos calejadas e corações limpos, que aprendi o que é dignidade. Foi aqui que me ensinaram que o respeito não se exige, pratica-se. Que a educação não é um adorno, é uma postura. Que a integridade de carácter não se proclama, vive-se.
Esses valores foram-me dados como quem oferece água a um viajante: sem alarde, mas com necessidade. E moldaram-me para sempre. Hoje, já com muitos caminhos percorridos, percebo que tudo o que sou, o que sinto, o que defendo, o que agradeço, nasceu desse berço.
Nasceu da família honrada que Deus me deu. Nasceu da aldeia que me ensinou a olhar o mundo com humildade. Nasceu da natureza que me recorda, todos os dias, que a vida é maior do que nós.
Por tudo isso dou graças.
Não por ter muito, mas por ter o essencial. Dou graças pelos afetos que me acompanham, pelas pessoas que me rodeiam, pela paz que encontro nas pequenas coisas.
Dou graças por ainda sentir que pertenço a um lugar, a uma memória, a uma linhagem de gente boa que me antecedeu.
E dou graças, sobretudo, por saber que a vida, quando é vivida com verdade, devolve sempre aquilo que lhe damos:
Se semeamos dignidade, colhemos serenidade; se semeamos respeito, colhemos paz; se semeamos amor, colhemos sentido.
No fundo, talvez seja isso que procuro todos os dias: ser digno do berço que me moldou e do lugar que me acolhe.
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Onde a memória me leva

Quando escrevo, não estou a inventar nada. Estou apenas a seguir o rasto das minhas pegadas, aquelas que o tempo não conseguiu apagar. As minhas memórias não são ficções: são caminhos.
E cada vez que me sento a escrever, volto a percorrê-los como quem regressa a casa depois de uma longa viagem.
Vejo-me menino, chapéu na cabeça, um feto na mão, a tentar ficar sério para a fotografia. E vejo, ao meu lado, a Maria Manuela – tão pequena, tão atenta – a copiar-me o gesto, ao ir apanhar também um feto para ficar igual a mim na foto.
Na altura não percebi, mas hoje sei: há destinos que começam cedo, assim, num simples reflexo, num gesto repetido, numa vontade de partilhar o mesmo mundo.
Ali, naquela pedra, naquela tarde, já estávamos alinhados sem o sabermos.
E depois vêm as outras memórias, aquelas que me moldaram sem pedir licença. A voz da minha mãe, tão doce e tão firme, a ensinar-me que a bondade não se impõe, vive-se.
O meu pai, António Maria, a mostrar-me como se plantava um dente de alho, como se lia o vento, como se respeitava a terra.
A avó Amélia a rezar baixinho, como quem conversa com alguém que está mesmo ali ao lado.
As portas cá de casa fechadas só ao trinco, os passos dos contrabandistas na calada da noite, a aldeia inteira cúmplice, silenciosa, solidária.
E o quintal voltado para a Tapada da Rabela, onde o vento ainda hoje me chama pelo nome.
Nada disto é invenção. É o que ficou. É o que me acompanha.
Quando escrevo, não escrevo para me entristecer. Escrevo para agradecer.
A saudade que trago não pesa, ilumina-me. É uma saudade limpa, que me devolve o que fui e quem amei, que me lembra que vivi rodeado de gente boa, de gestos simples, de uma verdade que não se aprende nos livros.
Partilho estas memórias porque sei que quando as entrego, elas não se perdem, transformam-se. Tornam-se palavra, tornam-se história, tornam-se companhia.
E quando a minha mão lhes toca, não lhes muda a alma: apenas lhes dá a forma que eu próprio não sabia que era capaz de encontrar.
As minhas memórias são o meu país interior. E cada texto que escrevo é uma porta que se abre devagar, uma casa antiga onde ainda se ouvem passos, vozes, risos, rezas, despedidas e começos.
Escrever, para mim, é isto: seguir o caminho de volta ao menino de chapéu que segurava um feto na mão e reconhecer nele o homem que sou.
Nota:
Na foto estão a Maria Coelho e o José Coelho, entre os gaiatos.

Quando o sol se inclina

Existem momentos em que o mundo parece abrandar só para nos devolver ao nosso próprio ritmo. Tardes em que a luz entra pela casa com a delicadeza de quem conhece cada canto, cada sombra, cada memória que ali repousa. É uma luz que não invade - pousa. E ao pousar, revela o que a pressa esconde.
Nesses dias, não acontece nada de extraordinário. E, no entanto, é precisamente aí que a vida se mostra inteira: no silêncio que se instala, no ar que parece mais leve, no tempo que deixa de correr e começa a escutar.
Há uma idade em que deixamos de medir a vida pelos acontecimentos e começamos a medi-la pelas pausas. Pelas pequenas tréguas que o dia nos oferece. Pelos instantes em que o coração, finalmente, se senta.
A casa, nessas horas, torna-se quase um ser vivo. Respira comigo. Acompanha-me. Guarda-me. E eu percebo que não preciso de mais nada para me sentir inteiro: uma cadeira, uma janela, um silêncio que não magoa, e a certeza tranquila de que cheguei até aqui com dignidade.
Depois tarde inclina-se devagar, como quem se despede sem pressa. E eu inclino-me com ela – não por cansaço, mas por gratidão. Gratidão pelo que fui, pelo que sou, pelo que ainda serei.
Gratidão pelas pessoas que passaram, pelas que ficaram, pelas que a vida levou, mas a memória guardou. Gratidão por ter aprendido, finalmente, que a paz não se procura: cultiva-se.
E é então que percebo que esta quietude não é solidão, é pertença. Pertença a mim mesmo, ao meu tempo, ao meu caminho. Pertença à vida que construí com as minhas mãos, com as minhas escolhas, com a minha coragem silenciosa.
Quando o sol se inclina, eu inclino-me com ele. E nesse gesto simples, quase impercetível, há uma sabedoria que só os anos ensinam: a de que a vida, no fundo, é feita destes pequenos milagres que só se revelam quando estamos quietos o suficiente para os ver.
Bom fim de semana Família & Amizades, e até para quem não seja nem uma coisa, nem a outra...
__na Toca dos Coelhos - Beirã