domingo, 2 de agosto de 2026

Solpor (como diziam os antigos)

O sol desce devagar, como quem sabe que a terra precisa de um último afago antes de entrar na noite. A luz espalha-se pela planície da Beirã com a lentidão dos gestos antigos, aqueles que os homens da aldeia sempre tiveram quando trabalhavam a horta: nada era feito à pressa, tudo era feito com verdade.
Ali, onde o horizonte se acende em laranja e ouro, vejo o lugar onde o meu pai e o ti João Forte passavam os dias. A terra era o relógio deles. A sombra das árvores marcava as horas, o vento dizia quando era tempo de regar, e o silêncio ensinava a paciência.
Hoje, quando olho estes poentes, não estou apenas a ver o fim do dia – estou a ver o princípio de tudo o que me fez homem. Cada pôr do sol é uma chamada discreta, uma mão pousada no meu ombro, um “estamos aqui” dito sem voz.
Talvez seja por isso que não há um dia sequer em que não me lembre deles: porque o sol, ao descer, ilumina sempre o sítio onde guardei a minha infância. E a infância, nunca se perde – apenas muda de lugar dentro de nós.
Texto e foto

Crepúsculo

Mais um fim de dia em que o mundo parece suspenso, como se respirasse por mim. O sol desce devagar, sem pressa de se despedir e a sua luz espalha-se pelas paredes brancas como os lençóis que a minha mãe estendia ao vento.
Nestas horas, tudo o que sou se torna mais nítido: a terra, a memória, o silêncio.
Deambulo pelo quintal como quem revisita uma casa interior. O cheiro da hortelã, a sombra das oliveiras, o rumor das galinhas da vizinha Maria Bonacho que se ajeitam para a noite no galinheiro, tudo me reconhece, tudo me chama pelo nome.
Há uma fidelidade neste lugar que não existe em mais lado nenhum e que nunca me abandona, mesmo quando a minha mente se dispersa como uma gata vadia.
Hoje enquanto degustava uma fatia de melancia fresca e doce como açúcar, houve um instante em que o mundo se alinhou. A fruta soube-me como se fosse uma pequena epifania, a revelação simples de que a vida ainda sabe ser boa, mesmo quando tropeçamos nos nossos próprios pensamentos.
Ali encostado à bancada da cozinha, a luz filtrada pela cortina da janela a bater-me no rosto e um fio de sumo da melancia a escorrer-me pela mão.
A noite aproximava-se devagar, os canchais da Beirã tornam-se sombras altas, e o vento que desce da serra traz consigo histórias de pastores, de romarias, de mulheres que rezavam ao pé da lareira, de homens que guardavam a honra como se fosse um poço fundo.
Sou feito dessa matéria: de terra, de memória, de serviço, de cuidado. Sou feito de tardes em que a mente fica dispersa, mas também de outras em que ela regressa inteira, como a tal gata vadia a voltar ao colo do dono, depois de vaguear pelo mundo.
E eu escrevo.
Escrevo, porque há amizades que se constroem na palavra, e as palavras só nascem quando alguém que gosta de as escrever, lhes abre a porta.
Que o crepúsculo anoiteça serenamente. E que este texto chegue até vós leve como a mão que a minha companheira pousa sobre meus os ombros enquanto sussurra: “vamos para dentro, Zé, que a aragem já começa a arrefecer".

José Coelho

A todos os que passam pelo “Meu vício da escrita”

Hoje o contador ultrapassou a fasquia dos 150.000 visitantes. É um número grande, sim – mas maior ainda é o gesto de cada pessoa que aqui chega.

Agradeço aos que vêm porque gostam do que escrevo, porque encontram nestas palavras um eco das suas próprias memórias, das suas terras, das suas vidas.

Agradeço também aos que chegam apenas por ouvirem dizer, por curiosidade, por acaso – porque cada visita é uma porta que se abre, e eu recebo todos com o mesmo respeito.

E agradeço, sem ironia e sem reservas, aos que vêm com outras intenções que não as já citadas. Também eles fazem parte deste caminho: ajudam-me a manter a honestidade, a firmeza e a clareza com que escrevo. A presença deles lembra-me que a escrita é livre, e que quem publica deve saber permanecer inteiro.

A todos, sem exceção, deixo o meu obrigado. Que este espaço continue a ser encontro, memória e companhia, como a luz suave que cai sobre a Beirã ao fim da tarde.

José Coelho

Para quem gosta do que escrevo

Hoje partilho convosco este texto que me é muito querido. Fala da vida, da memória e do amor que permanece. Espero que vos inspire tanto quanto me inspirou a escrevê-lo.

A parte que ninguém esquece

Talvez um dia eu me esqueça. Dos nomes que hoje me chegam com nitidez, como se cada sílaba tivesse o peso de uma vida inteira. Dos lugares onde fui feliz sem saber que era felicidade; dos caminhos de terra onde deixei pegadas que o vento tratou de levar; dos portões que abri e fechei; dos bancos onde me sentei a ver o tempo passar, como quem observa um rio que nunca repete a mesma água. Dos porquês, das razões que me moveram, dos sonhos que me empurraram, das dores que me ensinaram a ser mais inteiro.

Talvez as minhas mãos já não saibam onde pousar. Talvez tremam, talvez procurem, talvez se tornem estrangeiras para mim. Mãos que outrora seguraram ferramentas, que colheram frutos, que ampararam vidas, que escreveram histórias, que tocaram rostos com a delicadeza de quem sabe que cada gesto pode ser o último.

Talvez os meus olhos vagueiem por rostos familiares sem encontrarem abrigo no reconhecimento. Talvez veja a minha gente como quem vê sombras ao fim do dia: formas que o coração conhece, mas a memória já não alcança.

Talvez eu não saiba mais quem sou. Talvez o meu nome se dissolva como um eco que se perde na serra. Talvez a minha história se torne um livro fechado que já não consigo abrir.

Mas, ainda assim, terá valido a pena.

Porque a história que vivemos não depende apenas das lembranças que guardamos. Ela mora também nos outros. Mora em quem ouviu o meu riso e se sentiu mais leve, como se o mundo tivesse ficado um pouco menos pesado. Mora em quem chorou comigo e descobriu que a dor partilhada é uma ponte que nos salva. Mora em quem toquei com presença, com cuidado, com verdade, essa verdade que não precisa de palavras, porque se reconhece no olhar, no silêncio, na forma como se fica ao lado de alguém mesmo quando não há nada a dizer.

Se um dia a lembrança me faltar, espero que o amor que dei permaneça. Porque o amor não se apaga. Não se perde. Não se desfaz. O amor é como água de nascente: mesmo quando não sabemos o nome da fonte, a água continua a correr.

E quando já não puder contar a minha própria história, que ela continue sendo contada por quem fui abrigo, por quem fui passagem, por quem me amou, mesmo quando eu já não soubesse mais o que era amor.

Que a minha vida sobreviva nos gestos que deixei, nas palavras que ofereci, nas mãos que segurei, nas portas que abri, nos silêncios que respeitei, nas presenças que mantive mesmo quando o mundo parecia desabar.

É por isso que vale a pena viver com inteireza. Porque, mesmo quando tudo se desfaz, mesmo quando o corpo falha, mesmo quando a memória se fecha, a parte de nós que se fez amor permanece.

Permanece como luz acesa numa casa antiga, como canto de ave ao amanhecer, como cheiro de terra molhada, como abraço que não se esquece.

E essa parte… essa parte ninguém esquece.

José Coelho

sábado, 1 de agosto de 2026

O lugar onde a melancolia se torna luz

Há um momento na vida em que começamos a perceber que a melancolia não é inimiga da alegria. É, antes, o seu reflexo mais profundo. A melancolia aparece quando olhamos para trás e vemos que aquilo que nos fez felizes já não está ali da mesma maneira.
Não desapareceu, apenas mudou de lugar.
A Francisca, com o seu voleibol, com as viagens, com as vitórias e derrotas que a vão moldando, está a aprender o mundo. Sei, com a serenidade de quem já viveu muito, que isso é bom. Que isso a faz crescer. Que isso a protege de ficar presa a uma infância eterna que não existe. Mas ao mesmo tempo, sinto aquele vazio suave, aquela falta que não dói como ferida, mas como ausência.
É o coração a dizer: “Foi tão bom enquanto durou.”
A Mariana, essa alma inquieta que me saiu ao jeito, corre atrás da vida como quem sabe que cada dia é uma oportunidade. Música, ginástica, fanfarra, rancho – ela é como um rio que não aceita ficar parado. E eu olho para ela com orgulho, porque vejo nela a minha própria energia, a minha própria vontade de estar onde a vida acontece. Mas também sinto a falta daquela menina que acampava aos pés da nossa cama.
É inevitável.
E é aqui que a melancolia se transforma em luz.
Porque a melancolia não é sinal de perda, é sinal de plenitude. Só sente melancolia quem viveu momentos tão bons que o coração não os quer deixar ir. Só sente melancolia quem amou com verdade. Só sente melancolia quem foi casa, quem foi porto, quem foi colo.
A sua bisavó Florinda, sábia sem letras, sabia isto: a vida não nos pertence, passa por nós. E as únicas coisas que podemos fazer é aceitar, agradecer e guardar.
Aceitar que o tempo voa. Agradecer o que ele nos deu. Guardar o que permanece.
E o que permanece não é a rotina, nem a presença diária, nem os colchões de campismo espalhados no chão. O que permanece é o vínculo. É o amor que ensinamos. É a memória que deixamos. É o riso que ainda ecoa. É o abraço que ainda aperta. É o respeito que elas têm por nós.
É a história que nunca se apaga.
A melancolia é apenas o lado noturno da alegria. E eu, que sei caminhar pelos campos silenciosos ao entardecer, sei também que a noite não é ausência de luz, é outra forma de a ver.
Texto (e foto do baú)

Bom fim de semana

Entre telhas antigas e o verde que nunca falha, a casa onde nasci ergue duas chaminés como sentinelas do tempo, guardando o que fui, o que sou, e o silêncio bom da Beirã.
Eu nasci neste bairro onde a serra parece chegar primeiro que o sol. Cresci entre paredes brancas e o cheiro da terra molhada depois da rega. A casa das duas chaminés foi sempre o meu norte, não apenas o lugar onde nasci, mas o lugar onde aprendi a ser.
Cada rua guarda passos meus, cada árvore conhece o meu silêncio, cada tarde tem um pedaço da minha infância. Aqui descobri que a vida se faz devagar, como quem colhe fruta madura ao fim da tarde.
Aqui aprendi a ouvir o vento, a cuidar da horta, a reconhecer o canto das aves do quintal. Aqui percebi que pertenço a este chão de uma forma que não se explica, sente-se.
E quando olho para esta fotografia do meu bairro, vejo mais do que casas: vejo a minha história inteira, erguida contra o céu azul e guardada por memórias que nunca deixaram de me chamar de volta.

Quando o tempo voa e deixa rasto

Há momentos na minha vida em que o tempo me parece um pássaro pousado na palma da mão: quieto, dócil, quase eterno. E há outros em que ele levanta voo sem aviso, deixando-me a olhar para o céu, tentando perceber quando foi que as asas se abriram. Talvez seja assim com o amor – chega devagar, cresce connosco, e um dia parte para crescer noutro lugar.
Durante anos, a Toca dos Coelhos foi o centro do mundo para as minhas netas. A Mariana, ainda pequena, vivia as férias como quem recebe um tesouro. No próprio dia em que a escola fechava, já tinha a mochila pronta, alinhada à porta, à espera do pai. Não queria perder tempo: vinha direta da escola para a nossa casa, como se aquele trajeto fosse o caminho mais curto para a felicidade.
Um ou dois dias depois chegava a Francisca, completando o ciclo que enchia a casa de luz. A Filipa, mais velha, ficava com a mãe, mas trazia sempre consigo aquela presença tranquila que não precisa de estar para ser sentida. E então começava a festa. Não uma festa organizada, mas uma festa vivida. Daquelas que não se planeiam, apenas acontecem.
Nem queriam dormir nos seus quartos. Preferiam acampar no nosso, como se o chão aos pés da cama fosse território sagrado. Colchões de campismo, risos abafados, histórias inventadas, conversas que só existem na infância. Aquelas noites eram eternas, ou pelo menos pareciam ser. E nós, eu e a Maria Manuela, éramos o centro desse pequeno universo onde tudo era permitido: rir, cantar, inventar, viver.
Mas o tempo… o tempo tem asas. E voa.
Hoje, a Francisca percorre o país com o voleibol, torneio após torneio, estrada após estrada. Tem novos amigos, novas prioridades, novos sonhos. Chega menos vezes, mas quando chega, traz aqueles abraços apertados que dizem tudo sem dizer nada: “Avô, continuo a gostar muito de ti, mas o mundo está a chamar por mim.”
E eu entendo. Porque amar também é saber deixar ir.
A Mariana, no outro lado da serra, já não é a menina que acampava aos pés da nossa cama. Cresceu, ganhou mundo, ganhou ritmo, ganhou vida própria. Para além das aulas, frequenta a Escola de Música Adágio em Portalegre duas vezes por semana, faz parte da classe de ginástica da escola, é membro ativo na fanfarra dos Bombeiros de Castelo de Vide a tocar caixa com ensaios semanais, e ainda agora aderiu ao Rancho Folclórico de Castelo de Vide.
Em resumo: não para. Vem muitas vezes, é verdade – almoços, jantares, encontros semanais – mas já não vem como quem chega para ficar. Vem como quem passa, como quem visita, como quem cresce.
E eu olho para elas e vejo o que sempre soube: o colo não é casa permanente, é ponto de partida.
Ainda ontem eram bebés. Hoje são mulheres em construção. E amanhã… amanhã serão memórias que me aquecem o peito.
Por isso digo aos pais, com a serenidade de quem já viu o tempo fazer das suas: “Vão metendo as barbas de molho. Também as vão ver irem embora. É só uma questão de tempo.”
E é verdade. O tempo não pede licença. Não pergunta se estamos prontos. Não espera que o coração se prepare.
O tempo voa. Mas deixa rasto.
Deixa o cheiro das férias antigas. Deixa o som das gargalhadas no quarto. Deixa a imagem dos colchões espalhados no chão. Deixa a memória das noites em que ninguém queria dormir porque viver era mais urgente. Deixa o toque dos abraços apertados. Deixa o eco das vozes que cresceram dentro da minha casa.
E, no fim, percebo que o tempo não leva tudo. Leva a presença, sim. Leva a rotina, leva a infância, leva a disponibilidade. Mas deixa o essencial: o amor que dei, o amor que recebi, o amor que permanece.
As minhas netas voaram do meu colo como todas as crianças fazem. Mas não voaram da minha história. Nem da minha memória. Nem daquilo que sou para elas.
Porque isso… isso o tempo não leva.
Nunca.
Francisca Coelho
Imagem.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Elegia à Terra que arde

Há dores que não se gritam. Ficam suspensas no ar, como o fumo que sobe devagar depois de tudo ter ardido. Hoje, essa dor é a da terra e a dos seres que nela viviam sem pedir nada, apenas queriam existir.
Cada incêndio é uma ferida aberta no mundo. Não é só a árvore que cai, nem só a sombra que desaparece. É o ninho que nunca mais será reconstruído, o olhar de um animal que corre até onde já não há saída, a vida pequena que não conhece maldade e, mesmo assim, é engolida pelo fogo.
Há um silêncio que fica depois das chamas. Um silêncio pesado, feito de ausência. Nele cabem os animais domésticos que não puderam fugir, os selvagens que tentaram, os que ficaram presos no destino que não escolheram.
E nós, que assistimos, ficamos com esta dor que não se explica. Porque sabemos que podia ter sido aqui, na nossa terra, na nossa horta, no nosso quintal, onde cada árvore tem nome, onde cada pássaro é vizinho, onde cada vida conta.
Não escrevo para acusar. A justiça não funciona com o impulso do coração. Escrevo porque a dor precisa de ser dita, para não se transformar em cinza dentro de nós.
Escrevo porque amar a natureza não é admirá-la de longe. É sentir o golpe quando ela cai. É perceber que cada vida perdida nos diminui um pouco. É saber que a terra não é cenário – é a nossa casa.
Inclino-me, em silêncio, perante todas as vidas que partiram. As grandes e as pequenas. As que vimos nas reportagens e as que ninguém filmou. As que tinham dono e as que só tinham o mundo.
Que a chuva abrace a terra ferida. Que o vento leve o fumo sem levar a memória. Que nós, humanos, aprendamos finalmente que proteger a natureza é proteger aquilo que, no fundo, sempre nos sustentou.
Porque o coração – o meu, o vosso, o de todos – sempre viveu nela.
Imagem da net

A casa onde mora a ternura

Há casas que não se medem pelas paredes, mas pela forma como acolhem quem chega. E há pessoas que são casas – não porque tenham portas ou janelas, mas porque guardam dentro de si uma ternura que não se anuncia, apenas se oferece.
A generosidade mora nessas casas invisíveis.
É uma luz que não se acende para ser vista, mas para que o outro não tropece na escuridão. É um gesto que não se explica, mas que se repete como quem sabe que o bem, para existir, precisa de constância.
E porque não gosto de me evidenciar, caminho pelo mundo com esse respeito silencioso por aqueles que têm o dom raro de se darem, sem se darem a conhecer. Observo-os como quem observa o voo de um pássaro: não para o aplaudir, mas para aprender com a sua direção.
A verdadeira generosidade é sempre discreta como a água que corre por baixo da terra alimentando raízes que ninguém vê, mas sustenta florestas inteiras.
Há mulheres e homens assim: que chegam devagar, que falam pouco, mas fazem muito. Que não se colocam no centro, mas que, sem querer, se tornam o eixo onde tudo se organiza.
Eles são a mão que segura o balde quando a água está pesada, o ombro que ampara sem perguntar, a palavra certa dita no momento em que o silêncio já não basta.
São aqueles que, quando partem, deixam o mundo mais habitável do que o encontraram.
E eu reconheço essa grandeza com pudor. Não me coloco ao lado deles, não me comparo, não me elogio. Apenas agradeço.
Quem sabe agradecer sem se engrandecer carrega dentro de si uma humildade que não se aprende nos livros, mas na vida vivida com verdade.
Este texto é dedicado a todas as mulheres e homens que possuem o dom de darem de si sem esperarem retorno, que não se evidenciam mas têm o raro talento de ver o brilho dos outros sem se aproximarem demasiado da luz.
Há nisso uma profunda beleza. A beleza que não se exibe, mas permanece. Como a casa onde mora a ternura.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Raízes de silêncio

Há momentos na vida em que o silêncio se adensa tanto que deixa de ser ausência: torna se matéria. Podemos quase pousar-lhe a mão, como quem toca numa parede antiga que guarda histórias. Nesse silêncio, percebemos que a vida não se explica, revela-se. Revela-se nos gestos que ninguém viu, nas palavras que nunca encontraram voz, nas memórias que regressam mesmo quando o corpo já não tem força para lhes abrir a porta.
Com o tempo aprendi que ele não é uma linha esticada entre o que fomos e o que seremos. O tempo é um círculo. E nesse círculo cabem as vozes dos nossos pais chamando-nos para dentro de casa ao anoitecer, o cheiro da terra molhada depois da chuva, o eco das nossas mãos a arrumar canetas sobre a secretária, como quem tenta alinhar também o que ficou desalinhado dentro da alma.
A profundidade não mora no pensamento. Mora no instante em que o pensamento se cala e o coração, finalmente, fala. É aí que descobrimos que a vida não nos pede grandeza: pede-nos verdade. A verdade humilde dos que amam sem fazer barulho. A verdade silenciosa dos que carregam responsabilidades que ninguém vê, mas que sustentam o mundo. A verdade dos que sabem que cada pessoa é uma história inteira feita de perdas, de pequenos milagres, de resistências que nunca foram celebradas.
E então percebemos que existir é uma espécie de oração contínua, mesmo para quem não reza. Uma oração feita de passos, de escolhas, de memórias que se tornam raízes. O que realmente importa não é o que conquistámos, mas o que permanecemos apesar das tempestades, das noites longas, das feridas que o tempo não fechou.
Profundidade é aceitar a fragilidade sem desistir de ser quem somos; é reconhecer que somos finitos, mas amar como se não fôssemos; é saber que o mundo muda, mas guardar dentro de nós aquilo que nunca deve mudar – a bondade, a lealdade, o silêncio que nos devolve ao essencial.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Escrever é o meu modo preferido de conversar

Há noites em que a minha casa parece respirar comigo. O silêncio não é ausência – é companhia. E eu, sentado na varanda do quintal, deixo que o ar fresco me conte aquilo que o dia não teve tempo de dizer.
O chão sob os meus pés guarda passos de décadas, memórias que não pedem licença para regressar. A penumbra desce sobre o quintal e sobre os regos da horta que reguei, ainda húmidos; as aves já recolheram e o rumor distante da natureza nunca abandona quem nela cresceu.
Há sempre um instante – breve, mas intenso – em que sinto que tudo o que fui, tudo o que fiz, tudo o que perdi e ganhei, cabe dentro deste aproximar da noite. Como se a vida, por um momento, se deixasse tocar.
A Maria Manuela está na sala dobrando a roupa que recolheu do estendal e arrumando-a num cesto para depois engomar. O Manel, o Pedro, as netas – todos eles são presenças que não precisam de estar para se sentirem. A Beirã tem esse dom: guarda as pessoas dentro dos corações, mesmo quando estão longe.
E eu escrevo, porque é o meu modo preferido de conversar com o mundo. Escrevo devagar, como quem colhe fruta madura ao fim da tarde. Escrevo porque a memória é uma casa que só se mantém de pé quando alguém acende a luz.
E quando a noite enfim se instala, mansa e inteira, deixo que o silêncio se estenda sobre tudo o que amo. Há uma paz antiga que desce sobre a casa, como se viesse da serra, como se viesse de muito antes de mim.
Penso na Maria Manuela, companheira de tantos anos, que arruma a roupa com a serenidade de quem sabe que cada gesto também é amor. Penso nos meus filhos e nas minhas netas que iluminam a nossa vida mesmo quando não estão aqui.
Penso nos amigos de sempre, nos que a vida me deu e nos que a vida me devolveu, e sinto que a noite os abraça a todos, um a um, como se chamasse cada nome em silêncio.
E desejo-lhes paz. Uma paz simples, daquelas que não fazem barulho: a paz de uma horta regada, de um quintal arrumado, de uma casa que respira com quem nela vive. A paz de saber que, apesar das distâncias e das ausências, há laços que não se desfazem.
Esta é também a hora em que o rouxinol de vez em quando me visita ao fim do dia. Imagino-o a pousar no bordo do balde de água que renovo todas as tardes, talvez porque alguém lhe contou que aqui encontraria sempre um lugar seguro. Talvez tenha sido uma rola, um melro ou um pardal – todos sabem reconhecer quem cuida deles.
Nessa confiança da passarada encontro também a confiança das pessoas que fazem parte da minha vida. Da família que me acompanha desde sempre, e dos amigos. Cada um deles, tal como o rouxinol, chega quando quer, pousa onde precisa e traz consigo a luz que me ilumina o dia.
A todos desejo uma noite serena. Uma noite que desça devagar, como a brisa que passa entre as oliveiras. Uma noite que traga descanso aos que trabalham, sossego aos que se inquietam e ternura aos que amam.
Que a tranquilidade encontre cada um onde estiver, que o silêncio lhes seja leve e que a madrugada os receba com esperança. Boa noite.

Negar as alterações climáticas é ignorar a ciência

Continuar a negar as alterações climáticas já não é apenas um erro intelectual: é um fator ativo de risco. É ignorar décadas de dados observacionais, milhares de artigos revistos por pares e medições que mostram, sem ambiguidade, que o planeta está a entrar numa era de incêndios extremos.
A narrativa do “sempre fez calor” não resiste a uma análise mínima das séries históricas. As ondas de calor atuais têm intensidade, duração e frequência estatisticamente anómalas. E culpar só a mão criminosa é cientificamente insuficiente: a ignição explica o início, mas não explica a violência.
Os incêndios de grande escala são sistemas físicos alimentados por três variáveis: ignição, combustível e condições meteorológicas. É neste último ponto que o colapso climático se torna decisivo. O aumento da temperatura média global reduz a humidade do solo, intensifica a evapotranspiração, e prolonga as secas severas.
Esses processos convertem ecossistemas inteiros em biomassa altamente inflamável, elevando o índice de perigo de incêndio para valores que ultrapassam os registos históricos.
A ciência documenta ainda a alteração dos padrões atmosféricos: ventos mais erráticos, ar mais seco, instabilidade térmica mais frequente. Tais condições favorecem incêndios de alta intensidade capazes de gerar pirocúmulos, pirotornados e colunas convectivas que criam microclimas próprios.
E quando isso acontece, o combate humano deixa de ser uma operação de contenção do fogo e passa a ser uma tentativa de sobrevivência.
A faísca provocada intencionalmente por mão humana pode iniciar o evento, mas é o reforço radiativo provocado pelas emissões de gases com efeito de estufa que determina a escala, a velocidade e a imprevisibilidade do desastre.
Ignorar este mecanismo físico é negar a realidade.
Tratar estes incêndios como incidentes isolados ou como meros crimes individuais é uma falha política grave. A evidência científica exige redução acelerada de emissões, transição energética, gestão inteligente do território, reforma dos sistemas alimentares e adaptação climática robusta.
Cada hectare queimado é um indicador empírico de que o sistema climático está a ultrapassar limites críticos e a normalização destes eventos não é apenas perigosa, é irracional. A ciência não deixa espaço para desculpas. Sem ação estrutural, a tendência é clara: mais incêndios, mais extremos, maior destruição.
Foto da net

Caminhar, sorrir, viver

Hoje acordei de ânimo mais tranquilo. Não porque a saudade tivesse diminuído, mas porque reconheci que o amor dos que já partiram não nos pede que fiquemos curvados.
Pede-nos que continuemos.
Nestes últimos dias deixei que a memória da minha mãe me tocasse fundo. Senti-me murcho, como uma planta que perde um pouco de sol. Mas hoje percebo que essa nostalgia é também uma forma de amor.
É o corpo a lembrar o que o coração nunca esquece.
Guardo a sua memória como quem guarda uma chama pequena, mas firme. Não para viver no passado, mas para iluminar o caminho à frente.
Ela e o meu pai, ensinaram-me a levantar a cara, a seguir adiante, a não me perder em tristezas que não constroem. E hoje faço exatamente isso: honro-os caminhando, sorrindo, vivendo.
A saudade fica comigo, mas não me prende. Acompanha-me como uma sombra boa, como presença silenciosa. E eu sigo inteiro, sereno, com a luz que eles deixaram acesa dentro de mim.
Hoje é dia de caminhar. Dia de respirar fundo. Dia de continuar o exemplo que recebi: viver com dignidade, com verdade, com a cara levantada.
PS:
Na foto não pareço lá muito animado, mas não é defeito, é feitio. Sou mesmo assim.

Uma vida que me acompanha

Nesta pequena montra repousa a minha vida fardada de 1969 a 2003, como quem pousa o chapéu depois de uma longa marcha.
À direita, o rapaz que partiu voluntário para Angola, levando mais coragem do que idade. À esquerda, o sargento em formação, já com o peso da responsabilidade a assentar nos ombros como uma segunda pele.
As quatro medalhas são as quatro moradas do meu caminho: Batalhão Nº3 de Évora, onde aprendi a disciplina; a Escola Prática, onde me fiz graduado; CIP/Portalegre, onde servi com o coração inteiro; e o velho Batalhão de Cavalaria 3871, que me levou à guerra e me ensinou a regressar.
Tudo junto – retratos, livros, metal e memória – são o eco de uma vida de serviço, camaradagem e honra.
Uma vida que ainda hoje me acompanha, como o cheiro da terra molhada depois da rega ao anoitecer.
Texto e foto