segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Memória e gratidão

Hoje semeei as favas da próxima primavera, como o meu pai me ensinou, repetindo gestos aprendidos há muitos anos.
Enquanto a enxada abria os regos, dei por mim a pensar que as sementes não eram a única coisa que estava a deitar à terra.
Ia também a memória dos ensinamentos recebidos, a paciência herdada dos mais velhos e o respeito por uma terra que nunca nos faltou.
As favas hão-de dar belas e saborosas vagens, prenhes de grãos tenros e nutritivos, quando chegar a primavera.
Mas os valores que as semearam nasceram muito antes, nas mãos de quem me ensinou a amar o trabalho, a simplicidade e a honestidade.
Não tenho mérito pelos valores que carrego. Tenho é gratidão por aqueles que, com tanto carinho, me ensinaram a ser autossuficiente.
Nesta tarde de Finados, depois de os ir visitar na sua última morada, trouxe-os comigo para que a sua memória me acompanhasse nesta tarefa.
Ao abrir cada rego, era como se voltasse a ouvir os seus conselhos e a sentir a presença discreta daqueles que tanto me ensinaram.
Beijinhos daqui até ao Céu, Pai António Coelho, Avô Zé Lourenço, tio Chico Lourenço, tio Joaquim Lourenço e tio Raimundo Lourenço.
Nunca vos esqueço.
Descansem em paz.
Vídeo Maria Coelho

domingo, 1 de novembro de 2026

Uma geração irrepetível

Somos da geração que não volta. Não porque tenha desaparecido de repente, mas porque o mundo que a moldou já não existe. Ficou para trás, guardado numa espécie de baú invisível onde vivem as memórias mais simples e, por isso mesmo, as mais preciosas.
Fomos crianças que iam para a escola a pé, mochila às costas, sem telemóveis, sem localizadores e sem relógios a contar cada minuto. Os nossos pais despediam-se à porta com um aviso rápido e uma confiança tranquila. E nós seguíamos caminho, conversando, correndo ou sonhando acordados, como se a estrada fosse uma extensão natural da nossa liberdade.
Ao chegar a casa, havia uma missão urgente: despachar os trabalhos escolares. Não porque fôssemos particularmente estudiosos, mas porque lá fora nos esperava a verdadeira aventura. A rua era o nosso parque temático, o nosso campo de jogos e o nosso ponto de encontro.
Brincávamos até o sol se esconder atrás dos telhados. Inventávamos mundos inteiros com quase nada. Um canto da praça transformava-se num castelo, um terreno vazio numa floresta misteriosa, uma simples bola em motivo suficiente para juntar meia dúzia de amigos durante horas.
Quando chegava o anoitecer, o esconde-esconde tornava-se ainda mais emocionante. As sombras ajudavam-nos a desaparecer e a imaginação fazia o resto. Não havia ecrãs a ocupar-nos o tempo. Havia ruas, árvores, gargalhadas e uma vontade inesgotável de estar juntos.
Fizemos bolos de lama que nunca foram para o forno, construímos brinquedos de papel e passámos tardes inteiras à beira de um lago ou de um ribeiro, convencidos de que não existia lugar melhor no mundo. E talvez não existisse mesmo.
Depois chegou a tecnologia, ainda tímida, como quem pede licença para entrar. O walkman parecia uma maravilha saída do futuro. As cassetes VHS traziam o cinema até à nossa sala. As disquetes guardavam os nossos primeiros trabalhos e as fotografias eram tiradas com parcimónia, porque cada disparo contava. Havia depois a espera pela revelação, uma ansiedade que os mais novos dificilmente compreenderão.
Lembro-me também de ver vizinhos de chave de fendas na mão, a ajustarem as antenas para que a imagem deixasse de dançar no ecrã. Crescemos a ver os nossos pais resolverem problemas com engenho, persistência e paciência. Sem darem conta, ensinavam-nos que quase tudo tem conserto quando não se desiste à primeira dificuldade.
E à noite, já deitados, ainda encontrávamos energia para rir baixinho debaixo dos lençóis, convencidos de que ninguém nos ouvia. Sonhávamos muito, dormíamos pouco e acordávamos sempre com a certeza de que mais um dia extraordinário nos esperava lá fora.
Hoje percebemos que tivemos o privilégio raro de viver entre dois mundos. Conhecemos o tempo do toque e assistimos ao nascimento do clique. Vivemos o analógico antes do digital. Guardámos cartas, fotografias e memórias em caixas de sapatos antes de passarmos a guardá-las em nuvens invisíveis.
Somos, talvez, a última geração que sabe exatamente o que significava esperar. Esperar pela fotografia revelada, pela carta que chegava pelo correio, pelo programa favorito na televisão ou simplesmente pelo amigo que aparecia à porta para chamar para brincar.
Por isso, quando olhamos para trás, não sentimos apenas nostalgia. Sentimos também gratidão.
A geração que fomos pode estar a desaparecer pouco a pouco, mas aquilo que viveu permanece intacto dentro de nós. E enquanto houver alguém para recordar esses dias com um sorriso nos lábios, ela nunca desaparecerá por completo.
Porque há gerações que passam.
E há gerações que ficam para sempre na memória.

Os que partiram vivem em nós

No Dia de Todos os Fiéis Defuntos, ou Dia de Finados, como o povo lhe chama com tão enternecida simplicidade a cada 2 de novembro, a saudade bate mais devagar à porta do coração.
É o dia em que muitas pessoas visitam os cemitérios, cuidam das campas dos seus familiares, acendem uma vela, colocam flores e permanecem alguns instantes em silêncio perante a memória daqueles que fizeram parte das suas vidas.
A ausência dói. Dói sempre.
Há lugares à mesa que ficaram vazios, vozes que já não ouvimos, abraços que gostaríamos de voltar a sentir nem que fosse por um instante.
Mas este dia não é apenas um dia de tristeza.
É também um dia de gratidão.
Gratidão pelos pais que nos ensinaram a caminhar, pelos avós que nos deixaram histórias e valores, pelos familiares e amigos que passaram pelas nossas vidas deixando nelas uma marca que o tempo não consegue apagar.
Porque há uma verdade que os anos confirmam: as pessoas podem partir, mas o amor que semearam permanece.
Permanece nas recordações que guardamos, nos ensinamentos que seguimos, nas palavras que repetimos sem dar conta, e até nos pequenos gestos que herdámos daqueles que já não estão fisicamente conosco.
A morte interrompe a presença, mas não apaga a ligação.
Quem amavamos pode ter partido deste mundo, mas nunca parte verdadeiramente do nosso coração.
Neste dia especial, elevemos uma oração por todos os que já concluíram a sua caminhada terrena, e peçamos a Deus que conforte aqueles para quem a saudade continua a ser uma companhia diária.
Que a memória dos nossos entes queridos seja sempre uma fonte de amor, de gratidão e esperança, porque enquanto houver alguém que os recorde com carinho, eles continuarão vivos dentro de nós.
As flores murcham, as velas apagam-se, os anos passam. Mas o amor por quem partiu encontra sempre maneira de permanecer.
As pessoas que amámos continuam a viver nas palavras que nos ensinaram, nos valores que nos transmitiram e nos gestos que repetimos sem sequer darmos por isso.

sábado, 31 de outubro de 2026

Gratidão

Os números passam. O que fica são as pessoas.

Cada visita representa alguém que me ofereceu alguns minutos do seu tempo. E isso vale mais do que qualquer estatística.

As mais de 10 800 visitas alcançadas neste mês de outubro constituem um recorde para o "Meu vício da escrita", mas o que verdadeiramente me alegra é saber que desse lado continuam a existir leitores, amigos e companheiros de viagem dispostos a caminhar comigo através das palavras.

A todos, o meu sincero obrigado.

José Coelho

Bom Fim de Semana e Dia dos Santos


À luz discreta de um candeeiro e no silêncio da noite, continua vivo o meu velho vício: ouvir a vida, recordá-la
e transformá-la em palavras.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Os Santinhos

Imagem gerada pelo Microsoft Copilot

Aproxima-se o Dia de Todos-os-Santos e, com ele, uma tradição antiga que felizmente ainda resiste em muitas aldeias e vilas do nosso país. Na minha região chamamos-lhe "pedir os Santinhos". Noutras terras é conhecido por "pedir o pão por Deus". O nome muda, mas a tradição é a mesma: grupos de crianças percorrem as ruas, batem às portas e recebem aquilo que cada família pode oferecer.
Lembro-me de outros tempos, quando as aldeias estavam cheias de vida e de crianças. Nessa altura, os Santinhos eram aguardados com alegria. Os mais pequenos saíam cedo de casa, de saco na mão, e percorriam as ruas numa animação contagiante.
Em Nisa, onde vivi e trabalhei durante alguns anos, ouvi muitas vezes os miúdos entoarem a antiga cantilena: "Ó senhora dê-me os santos/ por alma dos seus defuntos/ lá estarão na Santa Cruz/ para sempre amén Jesus."
Era muito mais do que um simples pedido de guloseimas. Havia ali uma ligação à memória dos que partiram, ao espírito de comunidade e à partilha entre vizinhos.
Hoje, porém, os tempos são outros.
As aldeias que outrora ecoavam com risos de crianças conhecem agora um silêncio diferente. Onde havia numerosas famílias, há casas fechadas. Onde havia berços, há saudades. Em muitas localidades do interior, há cem funerais por ano e apenas meia dúzia de baptizados.
A frase pode não ser uma estatística rigorosa, mas retrata uma realidade que todos reconhecemos. Mesmo assim, quem cá permanece continua a honrar a tradição.
Dias antes de Todos-os-Santos, muitas famílias começam a preparar aquilo que vão oferecer. Há quem faça bolinhos caseiros. Há quem guarde castanhas, nozes, avelãs, romãs ou maçãs. Outros compram rebuçados, chocolates ou pequenas guloseimas.
Muitas vezes, por detrás dessas ofertas simples, esconde-se uma generosidade que poucos imaginam.
Não são raras as situações em que pessoas de idade avançada, vivendo apenas da sua reforma, fazem questão de ir à mercearia comprar qualquer coisa para dar os Santinhos. Não porque lhes sobre dinheiro. Pelo contrário. Porque entendem que abrir a porta e partilhar o pouco que têm faz parte daquilo que sempre aprenderam.
Não dão o que lhes sobra.
Dão o que podem.
E, talvez por isso, custe tanto assistir a certas cenas.
Quem mantém viva esta tradição conhece bem a expressão de desilusão de algumas crianças quando recebem fruta, castanhas ou bolinhos em vez de moedas. Muitas já nem disfarçam aquilo que procuram. Querem dinheiro.
E no dia seguinte, junto dos contentores do lixo, surgem maçãs, castanhas, bolachas e outras ofertas ainda dentro dos sacos onde foram entregues com carinho.
É uma imagem que entristece.
Não pelo valor material daquilo que foi deitado fora. Uma maçã vale pouco. Um punhado de castanhas também.
O que tem valor é o gesto.
Porque cada uma daquelas ofertas representa alguém que pensou nos outros. Representa o cuidado de quem preparou e escolheu a melhor fruta, comprou os rebuçados ou acendeu o forno para fazer alguns bolinhos.
Quando esses presentes acabam abandonados no chão, não é apenas comida que se desperdiça. É uma manifestação de generosidade que fica sem resposta.
E a mesma tristeza nos invade quando vemos alimentos oferecidos em campanhas de solidariedade serem deitados fora. Quantas vezes aqueles produtos foram comprados por pessoas de poucos recursos? Quantas vezes representam um pequeno sacrifício de quem conhece bem as dificuldades da vida, mas ainda assim não consegue ficar indiferente às necessidades de quem tem menos?
Talvez seja por isso que os Santinhos continuam a ter significado. Não pelo que se recebe. Mas pelo que nos ensinam.
Ensinam que a partilha vale mais do que a abundância. Que a generosidade não depende da riqueza. Que um gesto simples pode transportar consigo uma enorme carga de humanidade. E recordam-nos uma verdade que nunca deveria cair no esquecimento: há ofertas cujo valor não está no que custam, mas no coração de quem as dá.
Enquanto houver quem abra a porta com um sorriso e um saco de castanhas na mão, enquanto houver quem faça questão de partilhar um pouco do que tem com os outros, a tradição dos Santinhos continuará viva.
Porque, no fundo, os Santinhos nunca foram um negócio.
Foram, e continuam a ser, uma lição de comunidade, de memória e de gratidão.

O último tocador dos sinos (republicação)

Desde 1958 que o Senhor do Sacrário e a Senhora do Carmo me veem a cirandar pela sua Casa na Beirã. Tinha apenas seis anos quando o reverendo pároco Joaquim Caetano me escolheu para seu acólito.
Havia dezenas de rapazes na aldeia. Contudo, entre tantos, o senhor padre escolheu-me a mim. Os meus pais receberam essa confiança como uma honra e eu procurei corresponder-lhe da melhor forma que sabia.
O sacristão que fui substituir já era um jovem adulto e pretendia dedicar-se a outras ocupações. Chamava-se António Sarzedas, conhecido por todos como "o António Sapateiro". Coube-lhe a tarefa de me ensinar os primeiros passos no altar: ajudar à missa, responder em latim às palavras do sacerdote e conhecer os gestos e rituais que então faziam parte da liturgia.
É curioso como a vida gosta de fechar círculos. O António Sarzedas de quem aqui falo, é o mesmo António Chambel que ainda hoje continua a acompanhar com amizade os meus escritos e a brindar-me com os seus generosos comentários. Foi ele quem me ensinou os primeiros passos no altar. Passaram mais de seis décadas, mas algumas ligações resistem ao tempo e continuam a merecer a mesma estima e gratidão.
Eu pouco compreendia do significado de muitas expressões, mas aprendi-as de cor. Ainda hoje recordo largos trechos da missa em latim, tais como o "dominus vobiscum" e "et spiritu tuo" que no nosso português é o atual "o Senhor esteja convosco" ao que respondemos "Ele está no meio de nós" - embora o "et spiritu tuo" queira dizer "e com o teu espírito" usado em Espanha.
Ainda sei entoar também, na sua totalidade em latim, o "Tantum Ergo Sacramentum" que se canta na adoração do Santíssimo.
Aprendi, como não podia deixar de ser, pela maestria impecável do António Sarzedas, a tocar os sinos. Havia toques diferentes para a missa, para os funerais, para os casamentos, para os batizados e para as procissões. Cada ocasião tinha a sua linguagem própria, escrita no ritmo e no som do bronze.
Desempenhei as funções de sacristão até concluir a instrução primária, em julho de 1962. No dia seguinte ao exame da quarta classe comecei a trabalhar, por vontade e necessidade da família. Passei a poder ir menos vezes à igreja, mas nunca deixei de entrar, sempre que a oportunidade surgia, para uma visita silenciosa ao Senhor do Sacrário e à Senhora do Carmo.
Ao longo da vida senti muitas vezes essa presença como um amparo. Senti-a particularmente durante os vinte e sete meses que passei em Angola. Regressei sem um arranhão, ao contrário de tantos camaradas que partiram comigo, mas não tiveram a mesma sorte.
Cada pessoa faz a sua leitura dos acontecimentos da vida. Eu faço a minha sem pretensão de convencer ninguém. Apenas sei dos momentos difíceis que enfrentei, das aflições que vivi e da forma como encontrei força para seguir em frente. Por isso acredito, profundamente, que a mão de Deus nunca deixou de me acompanhar.
Quando em novembro de 1993 regressei definitivamente à Beirã, voltei logo também ao serviço da minha paróquia. Desde então tenho procurado estar disponível para tudo aquilo que esteja ao meu alcance fazer.
Faço-o por gratidão, mas sobretudo por sentido de missão. Hoje somos cada vez menos os que atravessamos a porta da igreja para participar na Eucaristia. Há celebrações em que os fiéis presentes se contam pelos dedos das mãos. É uma realidade que não ignoro e me entristece.
Talvez não esteja longe o dia em que a nossa igreja deixe de ter carácter paroquial permanente e o Santíssimo deixe de habitar o Sacrário. Se esse dia chegar, custar-me-á muito. Porque, para mim, uma igreja sem a presença do Senhor sacramentado é uma casa vazia, mesmo que as paredes permaneçam de pé e as portas continuem abertas.
Hoje serei, provavelmente, o último dos tocadores de sinos que ainda conhece os antigos toques desta paróquia e das terras vizinhas. Sou também já o único salmista que prepara em casa, durante a semana, o que irá entoar na Eucaristia seguinte.
Não sou tenor, nem cantor, nem procuro qualquer destaque. Faço-o pelo amor que dedico à minha igreja, por respeito pela liturgia e para que, enquanto for possível, cada celebração continue a ser um momento de reflexão, recolhimento e paz para quem nela participa.
Até quando?
Até que Deus queira.

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Memórias que resistem ao tempo

Nasci no início da década de 50, exatamente a meio do século XX. O mundo estava destroçado por duas guerras mundiais e outra, civil, paredes meias com a nossa aldeia, e deixara rastos de sangue, medo e silêncio. Cresci entre gente que acudia aos fugitivos da morte: homens e mulheres que chegavam com o desespero nos bolsos das roupas rasgadas pelo infortúnio, trazendo apenas o corpo cansado e a esperança de sobreviver mais um dia.
A nossa gente tinha pouco para lhes dar – quase nada, na verdade. E o que havia, vinha da terra: o pão duro, a batata pequena, o azeite guardado como ouro, a sopa que se esticava para mais um prato quando era preciso ser repartido com quem chegava sem nada. Conheço histórias de terror, mas conheço também histórias de grandeza, daquelas que não se escrevem nos livros, mas ficam gravadas na memória de quem viu mãos pobres estenderem o seu pouco pão, a quem já não tinha sequer lágrimas.
Passado que vai já mais de um quarto do século XXI, olho para trás e reconheço que já começo a ser velho – não idoso – essa palavra estranha e maquilhada de um falso respeito. Velho, sim: palavra que representava outrora respeito, sabedoria, veneração, experiência. Velho como as pedras da Beirã, que guardam séculos de passos e ainda assim permanecem firmes.
Vejo o mundo recuar perigosamente àquela época em que nasci. Guerras absolutamente desnecessárias, loucos que se julgam Deus a governarem países armados, vidas destruídas por ambições que não cabem em nenhum coração humano. Vejo o clima em convulsão, talvez irreparável, como se a própria Terra estivesse cansada de nos avisar. Vejo… vejo… vejo… e cada “vejo” pesa como uma pedra que se acumula no peito.
Mas também vejo a memória dos que, não tendo quase nada, repartiam tudo. E pergunto-me se ainda seremos capazes dessa grandeza. Porque, apesar daquilo que vejo, continuo a acreditar que há uma centelha humana que resiste. Talvez porque cresci a observar gestos que hoje parecem impossíveis: mulheres que dividiam o pão em quatro para que ninguém ficasse sem migalha; homens que davam o casaco a quem chegava encharcado de medo; famílias que acolhiam desconhecidos como se fossem irmãos perdidos.
Essa grandeza de alma não era ensinada nas escolas, era vivida. Era a ética da sobrevivência partilhada, a moral dos que sabiam que só se atravessa a noite quando se caminha em conjunto. E pergunto-me se ainda guardamos essa memória no fundo da alma ou se a trocámos por distrações, ruídos, ecrãs, urgências que não salvam ninguém.
Vejo o mundo a correr para um abismo que reconheço demasiado bem. Guerras e ódios a alimentarem-se de nada. Líderes que confundem poder com divindade, como se a vida dos outros fosse apenas um número numa folha de cálculo. Vejo o clima a gritar, a Terra a estremecer, os rios a secarem, como se já tivessem desistido de nós.

Cada visão dessas é uma ferida a abrir-se devagar.
Contudo, ainda há mãos que se estendem; ainda há quem reparta o pouco que tem; ainda há quem resista à indiferença. Vejo jovens que procuram sentido; vejo velhos como eu que tentam transmitir o que aprenderam quando o mundo era pobre, mas não era vazio. Vejo que a esperança não desapareceu, apenas vive escondida atrás do barulho.
E talvez por isso escrevo. Porque escrever é a forma que encontrei de impedir que a memória se perca. É o meu modo de dizer ao mundo que, apesar de tudo, ainda acredito na grandeza humana que tenho testemunhado desde criança. Acredito que, mesmo rodeados de loucura, ainda somos capazes de gestos simples que salvam vidas.
Acredito que o futuro, por mais sombrio que pareça, pode ser iluminado por mãos que repartem o pão, como se fazia na minha terra, quando o século XX ainda era novo e eu também.
Estou a ficar velho como as pedras da minha terra, como os muros que viram fugitivos da guerra de Espanha esconderem-se atrás deles, como o silêncio que guardou segredos e gestos de compaixão. Mas, por estar a ficar velho, reconheço também sinais que muitos fingem não ver: o mundo a arder outra vez, a enlouquecer outra vez, a repetir os mesmos erros, a mesma história que jurou nunca mais repetir.
Por isso insisto em escrever. Porque escrever é resistir. Porque a escrita, quando é verdadeira, é a última forma de coragem. E porque, se o futuro nos falhar, que ao menos não nos falhe a memória.

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Estou ainda à espera de quê?

Chegado já para lá dos setenta, há uma pergunta que merece ser feita com sinceridade: estou ainda à espera de quê?
Esperei quase toda a vida.
Esperei que os filhos crescessem, que as contas ficassem pagas, que o trabalho abrandasse, que as responsabilidades diminuíssem. Esperei pelo momento certo para viajar, para aprender algo novo, para dizer certas palavras, para regressar a lugares que me ficaram na memória, para concretizar sonhos que fui guardando numa gaveta onde parecia haver tempo infinito.
Mas o tempo tem uma particularidade curiosa: nunca espera por nós.
Enquanto organizava a vida, a vida passava. Enquanto resolvia problemas, os anos iam-se somando. E um dia acordo e percebo que já caminhei mais estrada do que aquela que me falta percorrer.
Olhando para trás, encontro uma infindável lista de coisas adiadas. Contudo, talvez a pergunta mais importante não seja aquilo que não fiz. Talvez seja aquilo que ainda posso fazer.
Porque, enquanto houver manhãs para abrir a janela, caminhos para percorrer, livros para ler, amigos para abraçar, netos para ouvir e sonhos para tentar realizar, a vida continua a oferecer oportunidades.
Não temos poder para mudar uma única página do passado. Mas continuamos a ter a caneta na mão para escrever as próximas.
Há quem pense que a idade serve para desistir. Eu acredito exatamente no contrário. A idade serve para escolher melhor. Para perder menos tempo com o que não importa. Para valorizar mais os afetos, as experiências e a serenidade.
Talvez a coragem que nos faltou aos quarenta apareça aos setenta. Talvez a viagem adiada ainda possa ser feita. Talvez aquela conversa necessária ainda possa acontecer. Talvez aquele projeto esquecido mereça finalmente sair da gaveta.
A vida não pergunta quantos anos temos. Pergunta apenas se ainda estamos dispostos a viver os anos que temos.
Por isso, mais do que olhar para trás e contar os sonhos perdidos, talvez valha a pena olhar para a frente e perguntar:
Que sonho continua vivo dentro de mim?
E, sobretudo, do que estou eu ainda à espera para o viver?
Texto e foto de hoje

terça-feira, 27 de outubro de 2026

O poder secreto das palavras

As palavras têm uma força que raramente reconhecemos. Não porque sejam feitas de som ou de tinta, mas porque carregam dentro de si aquilo que somos, aquilo que tememos e aquilo que desejamos. Uma palavra pode ser ponte ou muro, bálsamo ou ferida, regresso ou despedida. E, no entanto, são tão leves que cabem na palma da mão.
Há palavras que chegam até nós como quem pousa um pássaro no ombro: suaves, inesperadas, quase sagradas. São aquelas que nos levantam quando o mundo pesa, que nos devolvem o fôlego quando a alma se encolhe. Uma frase dita no momento certo pode salvar um dia inteiro, pode reacender uma esperança que julgávamos extinta, pode abrir uma janela num quarto onde já não entrava luz.
Mas também há palavras que ferem. Palavras que ficam a ecoar durante anos, como um sino partido que insiste em tocar. São ditas num instante, mas permanecem como cicatrizes invisíveis. A vida ensinou-me que é preciso cuidado com elas, não por medo, mas por respeito. Porque cada palavra é uma semente: algumas florescem, outras queimam a terra onde caem.
E depois existem as palavras que não dizemos. As que guardamos por receio, por orgulho, por silêncio mal-entendido. Essas são talvez as mais poderosas, porque carregam tudo o que poderia ter sido: um abraço que não aconteceu, um perdão que não se ofereceu, uma verdade que ficou presa na garganta. O não dito também molda a vida, às vezes mais do que o que se diz.
As palavras têm ainda um poder secreto: o de nos revelar a nós próprios. Quando escrevemos, quando falamos, quando confidenciamos, percebemos que há coisas dentro de nós que só ganham forma quando passam pela linguagem. É como se a alma precisasse das palavras para se ver ao espelho. E, nesse reflexo, descobrimos medos antigos, forças inesperadas, memórias que julgávamos perdidas.
Talvez por isso a escrita seja tão parecida com rezar. Não no sentido religioso, mas no sentido íntimo: é um ato de recolhimento, de escuta, de entrega. Escrever é conversar com o que vive dentro de nós. E quando alguém lê ou escuta essa conversa, cria-se uma ponte invisível entre dois mundos. As palavras aproximam o que parecia distante, unem o que estava disperso, curam o que estava ferido.
O poder das palavras não está nelas, está em quem as usa. Está na intenção, na verdade, na coragem de dizer o que precisa ser dito e de calar o que não deve ser dito. Está na delicadeza de escolher a palavra certa, como quem escolhe a pedra exata para reparar um muro antigo.
As palavras são pequenas, mas o que fazem é imenso. E quando usadas com sinceridade, humildade e respeito, tornam-se luz.

Envelhecer: a coragem de aceitar o tempo

Envelhecer não é, de facto, uma tarefa fácil. É um caminho que nos obriga a abrandar o passo e a ajustar o ritmo ao novo compasso do corpo e da vida. Acima de tudo, é um exercício permanente de aceitação e coragem: aceitação para acolher com dignidade as mudanças que os anos trazem e coragem para deixar para trás os receios, os preconceitos e as inseguranças que tantas vezes acompanham essa caminhada.
Aprender a envelhecer é compreender que a vida possui um ciclo natural. É saber abrir as mãos para deixar partir quem precisa de seguir o seu caminho e, ao mesmo tempo, abrir os braços para abraçar aqueles que escolhem permanecer. Há nisso uma silenciosa lição de desapego, mas também uma extraordinária demonstração de força. Cada despedida e cada reencontro ajudam a moldar a pessoa mais frágil, mas também mais consciente, em que nos vamos transformando.
A maturidade traz consigo um convite raro: o de aprendermos a estar conosco próprios. A caminhar sem depender de ninguém, a despertar em silêncio, a suportar o peso dos dias menos bons e a encarar, sem fugir, o homem ou a mulher que nos observa do outro lado do espelho.
Envelhecer é aceitar serenamente que tudo tem um princípio e um fim. Os sonhos transformam-se, os amores mudam de forma e a própria vida segue inevitavelmente o seu curso.
Dos sofrimentos que nos marcaram permaneça apenas a certeza de os termos vencido. Dos erros que cometemos fique a sabedoria das lições aprendidas. E das dificuldades que enfrentámos conservemos apenas a memória dos momentos em que encontrámos forças para as superar.
Por isso, vale a pena agradecer cada ano vivido. Não porque a caminhada tenha sido sempre fácil, mas porque cada experiência, feliz ou dolorosa, nos tornou mais resistentes, mais experientes e, quem sabe, um pouco mais sábios.
Saber dizer adeus sem abandonar o que realmente importa. Recordar sem ficar prisioneiro do passado. Chorar quando for necessário, até que as lágrimas deem lugar a novos sorrisos, novos desejos e pequenas alegrias. Tudo isso faz parte da arte de envelhecer.
Porque envelhecer é, afinal, reconhecer que cada ruga, cada cicatriz e cada memória são testemunhos de uma vida verdadeiramente vivida. Não é um caminho simples, mas é um caminho rico em significado. Um caminho onde aprendemos a distinguir o essencial do acessório, a fazer as pazes com o tempo e a celebrar cada instante, até mesmo aqueles que chegam envoltos no silêncio.
Talvez seja esse o maior privilégio da idade: descobrir que a felicidade raramente está nas grandes conquistas e quase sempre nas pequenas coisas que o coração aprendeu, finalmente, a valorizar.

Memória e gratidão

H oje semeei as favas da próxima primavera, como o meu pai me ensinou, repetindo gestos aprendidos há muitos anos. Enquanto a enxada abria o...