sexta-feira, 19 de junho de 2026

Um país que esquece quem o sustenta

Hoje foi um dia em que a política mostrou o seu lado mais sombrio, e, paradoxalmente, um dia de alívio.
O que esteve prestes a acontecer na Assembleia da República não era uma reforma: era um retrocesso de meio século, um golpe silencioso na dignidade de quem trabalha, um atentado à espinha dorsal do país.
Porque um país não cresce sacrificando quem o sustenta. Nunca cresceu. Nunca crescerá.
Vivemos num território onde a corrupção se tornou rotina, onde a justiça cambaleia como um velho edifício cheio de rachas, onde a burocracia é uma muralha que trava quem quer produzir.
E, no meio deste caos, o grande desígnio político era… alterar cento e tal artigos do Código do Trabalho. Como se o problema em Portugal fossem os trabalhadores e não o sistema que os esmaga.
Os números são conhecidos: somos dos que mais horas trabalham e dos que menos recebem em toda a União Europeia. É uma equação cruel, quase obscena.
Querem produtividade? Então olhem para onde dói: uma justiça lenta que arrasta empresas para o abismo, custos de produção que sufocam qualquer tentativa de crescer – combustíveis, eletricidade, gás, portagens – tudo mais caro do que devia ser num país que se quer competitivo.
Baixem estes fardos e verão o milagre: empresas mais sólidas, salários mais dignos, trabalhadores mais motivados. A produtividade não nasce do chicote; nasce das condições.
Mas há quem prefira o caminho fácil: cortar direitos, apertar quem já vive apertado, satisfazer a ganância de quem confunde lucro com exploração. Esses não são empresários, são oportunistas.
Os verdadeiros empresários são os que lutam ao lado dos seus trabalhadores, não contra eles. São os que passam noites em claro para garantir que ninguém fica sem pão na mesa. São os que sabem que uma empresa só é forte quando quem lá trabalha consegue viver com dignidade.
Hoje evitou-se um desastre. Mas o simples facto de ter sido preciso evitá-lo diz muito sobre o país que somos e sobre o país que ainda precisamos ser.
19. 06. 2026