segunda-feira, 8 de junho de 2026

Laços que nem a morte desfaz

Dedico estas palavras ao meu primo Francisco – o nosso Chico Alegria – ao seu filho Bili e à querida tia Ana, que mantém aceso o laço da nossa família. Que esta memória seja ponte, abraço e raiz.

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Há dias em que o passado regressa sem aviso, como quem bate à porta devagarinho mas com a força de uma vida inteira. Foi assim naquela tarde, pouco depois das três, quando o telemóvel vibrou e uma mensagem inesperada me chamou pelo nome que só a minha mãe e o meu primo Francisco usavam: Zéi.

“Sou o filho do Francisco, seu primo aqui do Brasil.”

O coração não me pediu licença. A emoção subiu-me aos olhos como quem reconhece, de repente, um rosto perdido no tempo. O Bili – o Abílio neto, o menino de quem o Chico me falava com orgulho – estava ali, do outro lado do oceano, a cumprir um gesto que só os filhos de boa cepa sabem cumprir: continuar o que o pai começou.

Mas a alegria do reencontro vinha misturada com a notícia que me tirou o chão: o Chico Alegria tinha partido. Partido cedo demais, sem me dar tempo para o abraço que prometemos um ao outro tantas vezes, como dois miúdos crescidos a sonhar com o regresso à terra onde tudo começou.

Respirei fundo. Dois minutos, talvez três, para recompor a voz. E então o Bili disse:

“A avó Ana gostaria de conversar com você.”

A tia Ana. Aquela mulher doce que conheci em 1981, quando veio a Castelo de Vide tratar de assuntos de família e nos encantou com a sua serenidade. A esposa do tio Abílio, o irmão mais novo do meu pai. A mãe do Chico. A matriarca que segurou a família quando a vida lhes levou o marido, e agora o filho único.

O Bili passou-lhe o telefone. E foi ela – com mais de 90 anos, com a sabedoria das mulheres que já viram tudo – quem me consolou a mim, quando devia ser eu a confortá-la a ela.

“Ele estava num grande sofrimento, meu filho. Temos de aceitar e conformar.”

Aquelas palavras ficaram-me gravadas como um abraço que atravessa o Atlântico. E percebi, naquele instante, que há laços que nem a morte desfaz. Laços que sobrevivem a seis décadas de distância, a oceanos, a silêncios, a vidas inteiras vividas em paralelo.

O Chico foi alegria até no nome. Foi entusiasmo, curiosidade, vontade de regressar à terra natal. Foi o primo que me reencontrou pela escrita, que me chamou “primo Zéi” com a ternura de quem recupera um pedaço da infância. Foi o homem que planeou voltar, que sonhou pisar de novo as ruas de Castelo de Vide, que me prometeu um abraço que a vida não deixou acontecer.

Mas deixou-nos algo maior: o gesto de procurar, de reencontrar, de reconstruir a ponte que o tempo não conseguiu destruir.

O Bili, com a sua mensagem simples e luminosa, continuou essa ponte. E a tia Ana, com a sua voz firme e doce, segurou-a com as duas mãos.

E eu, que fico deste lado do oceano, guardo agora esta saudade limpa, esta dor serena, esta gratidão profunda por ter pertencido – e ainda pertencer – a esta família espalhada pelo mundo, mas unida por dentro como só os Coelhos sabem ser.

Porque os amo a todos. Os que estão no Brasil, na Inglaterra e os que já estão no céu.

Laços assim não se quebram. Nem o tempo, nem a distância e nem sequer a morte lhes tocam verdadeiramente.

José Coelho

Foto: - A tia Ana Alvarrão Coelho, 94 anos de ternura, coragem e fé. Mãe do Chico Alegria, avó do Bili, guardiã dos laços que nem a morte desfaz.