Há lugares que não se perdem, apenas mudam de forma. A casa dos meus avós já não tem telhado, mas ainda me cobre. Foi ali que aprendi o silêncio do campo, o rumor das árvores, o sentido da espera.
Por entre as açucenas que teimam em nascer todas as primaveras, reconheço o tempo que passou e o amor que ficou.
Foi naquele pedaço de terra que descobri o mundo. O cheiro da cortiça trabalhada pelas mãos do meu avô Zé Lourenço, a voz doce da avó Amélia a chamar-me ao cair da tarde, o quintal que era parque infantil, reino, abrigo.
Ali cresci sem dar por isso, como crescem as flores que ninguém planta mas que a terra insiste em devolver todos os anos, teimosas, fiéis, silenciosas.
Depois o tempo fez o que o tempo faz.
O avô partiu, a avó veio morar conosco, e a casa ficou entregue ao vento. Eu continuei a visitá-la, como quem visita uma ausência. Ia procurar paz, mas trazia sempre outra coisa: uma saudade funda, daquelas que se agarram ao peito e não pedem licença.
Com os anos, fui percebendo que cada ida me deixava mais triste. A casa já não era casa – era memória. E a memória, quando dói demais, pede que a deixemos repousar.
Há lugares que nos devolvem o que fomos, mas também nos mostram o que já não somos.
E isso custa.
As açucenas, porém, nunca desistiram. Há quarenta anos que rebentam da terra dura, mesmo no meio do mato que tomou conta de tudo.
Talvez sejam a última herança viva dos meus avós e a prova de que a beleza pode sobreviver ao abandono, que o amor pode florescer mesmo quando tudo o resto cai.
Hoje volto menos vezes.
Não por falta de amor, mas porque a minha alma regressa sempre de lá a chorar. E eu preciso aceitar: aquilo que ali existiu já não volta, aquele chão já não é meu, aquelas paredes já não são eles, e aquele menino que corria por ali já não sou eu.
Escrevo isto para fazer o luto que adiei. Para me despedir sem revolta. Para agradecer o que tive e deixar ir o que já não pode ser.
A casa caiu. Mas o que vivi ali continua de pé dentro de mim.
Texto e foto
