Há dias em que o mundo parece abrandar só para nos devolver ao nosso próprio ritmo. Tardes em que a luz entra pela casa com a delicadeza de quem conhece cada canto, cada sombra, cada memória que ali repousa. É uma luz que não invade - pousa. E ao pousar, revela o que a pressa esconde.
Nesses dias, não acontece nada de extraordinário. E, no entanto, é precisamente aí que a vida se mostra inteira: no silêncio que se instala, no ar que parece mais leve, no tempo que deixa de correr e começa a escutar.
Há uma idade em que deixamos de medir a vida pelos acontecimentos e começamos a medi-la pelas pausas. Pelas pequenas tréguas que o dia nos oferece. Pelos instantes em que o coração, finalmente, se senta.
A casa, nessas horas, torna-se quase um ser vivo. Respira comigo. Acompanha-me. Guarda-me. E eu percebo que não preciso de mais nada para me sentir inteiro: uma cadeira, uma janela, um silêncio que não magoa, e a certeza tranquila de que cheguei até aqui com dignidade.
Depois tarde inclina-se devagar, como quem se despede sem pressa. E eu inclino-me com ela – não por cansaço, mas por gratidão. Gratidão pelo que fui, pelo que sou, pelo que ainda serei.
Gratidão pelas pessoas que passaram, pelas que ficaram, pelas que a vida levou, mas a memória guardou. Gratidão por ter aprendido, finalmente, que a paz não se procura: cultiva-se.
E é então que percebo que esta quietude não é solidão, é pertença. Pertença a mim mesmo, ao meu tempo, ao meu caminho. Pertença à vida que construí com as minhas mãos, com as minhas escolhas, com a minha coragem silenciosa.
Quando o sol se inclina, eu inclino-me com ele. E nesse gesto simples, quase impercetível, há uma sabedoria que só os anos ensinam: a de que a vida, no fundo, é feita destes pequenos milagres que só se revelam quando estamos quietos o suficiente para os ver.
Bom fim de semana Família & Amizades, e até para quem não seja nem uma coisa, nem a outra...
__na Toca dos Coelhos - Beirã