quinta-feira, 4 de junho de 2026

Histórias (giras) de contrabandistas da Beirã

Vejo-os perfeitamente:
Os guardas fiscais, de lanterna na mão, a correrem pelo montado, a praguejarem baixinho, a tropeçarem nas raízes das azinheiras, convencidos de que vão finalmente apanhar os malandros.
E de repente… silêncio.
Um silêncio tão fundo que até o vento parece parar para ouvir.
Os guardas olham em volta, farejam o ar, cansados, mas nada. Nem um passo. Nem um sussurro. Nem o estalar de um restolho.
Desistem. Resmungam. Voltam para trás.
E só muito depois, quando a noite já está madura e a lua parece cúmplice, é que os contrabandistas descem das azinheiras, devagarinho, como gatos satisfeitos.
Tinham estado ali o tempo todo. Mesmo por cima das cabeças dos guardas.
É impossível não rir ao imaginar um ataque de tosse mal contido, um espirro traidor, ou até um ramo a partir-se no momento errado.
Aquela mistura de perigo e comédia só existiu na vida real e nunca nos filmes.
E eu ri até às lágrimas ao ouvi-lo contar, na primeira pessoa, ao tio António Viegas – mais conhecido por ti Antónho Cascato, que Deus já lá tem – grandessíssimo amigo do meu pai, numa tarde descontraída na “casinha da má língua” da Beirã.
Porque estas histórias não são só engraçadas – são identidade, são carácter, são a alma e património da nossa fronteira.
Texto e foto