Viver em democracia é, por vezes, duro. E mais duro ainda é perceber certas interpretações da “nossa” democracia. Não me considero lerdo dos sentidos nem incapaz de entender a vida, mas confesso que percebo cada vez menos esta obsessão pelos direitos – direitos para cá, direitos para lá – quando, para cumprir alguns, atropelam-se outros tão ou mais essenciais: a ética, a saúde, o bem estar e a dignidade humana.
Pergunto-me: porque é que o direito reivindicativo há de valer mais do que qualquer outro?
Vemos greves em vários setores que, ao exercerem o seu direito, prejudicam milhares de pessoas que esperam meses – às vezes anos – por exames, cirurgias ou consultas. E, de repente, por causa de uma inesperada greve, ficam impedidas de exercer o seu próprio direito constitucional à saúde.
Quem vive em Lisboa, Porto ou Coimbra, ainda se desenrasca. Mas quem vive no fim do mundo, como eu, perde tudo: consultas, exames, transportes, dinheiro e paciência.
No tempo do António de Santa Comba morria-se por falta de assistência médica. No tempo da Santa Democracia morre-se, se preciso for, para que se cumpra o direito à greve.
Desde quando um aumento salarial é mais importante do que a saúde de quem precisa? Se nas Forças Armadas e de Segurança a greve é proibida por pôr em causa a soberania e a segurança, porque não se limita também o que põe em causa a vida e o bem estar de tantos?
Eu, por exemplo: diabético, com vigilância permanente, adenoma retirado e vigilância preventiva permanente também, insuficiência respiratória crónica herdada dos anos nas Minas da Panasqueira. Vivo de consulta em consulta, de exame em exame. Basta um deles falhar por motivo de greve para baralhar tudo o resto.
E ninguém responde por isso.
As reivindicações são justas? Muitas vezes são. Mas não deveriam nunca prejudicar terceiros, sobretudo no que toca à saúde.
Sou aposentado com 41 anos de descontos – 36 na Caixa Geral de Aposentações e 5 na Caixa Nacional de Pensões – pagos do meu bolso até ao último cêntimo por trabalho duro à chuva e ao sol desde os onze anos. E vejo, neste mesmo país, quem receba pensões e indemnizações obscenas por meia dúzia de anos de “altas” funções em sumptuosos gabinetes no ar condicionado.
E ainda tenho de ouvir governantes dizerem que é normal trabalhar até cada vez mais tarde para receber pensões cada vez mais baixas, quando muitos deles se aposentam na flor da idade com várias pensões acumuladas de milhares de euros.
É preciso ter lata.
Mas isto, dizem, é democracia. Para alguns, claro.
Cada tiro, cada melro.
As greves são cirurgicamente planeadas para causarem o máximo impacto: sextas-feiras, vésperas de feriados, pontes, natais, páscoas. O objetivo é pressionar o governo, custe o que custar. E a requisição civil, quando existe, muitas vezes não é cumprida.
Direitos, todos têm. Deveres, ninguém quer ter.
Vivi 22 anos em ditadura – não foi fácil. Vivo há 50 em democracia – também não tem sido grande coisa. Mudaram as moscas, mas a m***a ficou a mesma.
E, em muitas situações, não se notam grandes diferenças.
Tenho dito, dou a cara e assino por baixo.
