Mãos que me conhecem
Há gestos que não se inventam, nascem do tempo. As mãos da Maria Manuela pousadas nos meus ombros são um desses gestos: um instante que contém meio século de cumplicidade, de risos que se perderam no vento, de silêncios que se tornaram abrigo.
Ela toca-me como quem sabe o caminho. Não há pressa, nem cerimónia, apenas verdade. As suas mãos são memória e promessa, são o lugar onde o amor se faz simples, onde o quotidiano se transforma em eternidade.
Há quem procure o amor nas palavras, nós encontrámo-lo nos gestos. No modo como ela se aproxima, como me olha sem precisar de dizer nada, como me reconhece mesmo quando o mundo muda.
Essas mãos guardam o peso leve da vida partilhada: as manhãs em que o café tinha o sabor da esperança, as tardes em que o cansaço se tornava ternura, as noites em que bastava um toque para calar o medo.
E eu, quando sinto esses gestos, sei que não há solidão possível. Porque há uma presença que me acompanha, uma pureza que me devolve ao essencial, ao amor que não se exibe, mas permanece.
Nesta fotografia, há luz suficiente para ver o que importa: dois rostos serenos, duas vidas que se reconhecem. E nesse instante tudo se suspende, como se o tempo, por respeito, parasse para olhar.
As mãos dela sobre os meus ombros são o ponto final e o recomeço. São o sinal discreto que o amor, quando é verdadeiro, não envelhece – amadurece.
E continua a dizer, sem palavras: “Segue, que eu vou contigo.”
