Há infâncias que se escrevem a giz, outras a carvão, e outras ainda com a tinta invisível da bondade alheia. A minha foi assim: pobre de posses, rica de gente. Cresci numa aldeia onde o vento corria livre pelas ruas de terra batida e onde as crianças, como pardais, saltavam de cancho em cancho sem medir distâncias nem diferenças. Éramos todos iguais no pó que nos sujava os pés, mas não éramos todos iguais no que levávamos no bolso. E, no entanto, nunca senti que isso me diminuísse, porque houve mãos que me levantaram antes que eu percebesse que podia cair.
Umas dessas mãos foram as da Batistinha. Filha única de um funcionário da alfândega, vinha sempre para a escola com o lanche bem embrulhado, como se fosse um pequeno tesouro. Eu, quase da classe dos mendigos, chegava muitas vezes sem nada. A fome, quando é de criança, não dói, humilha. Mas a Batistinha nunca me deixou sentir essa humilhação. Partilhava comigo metade do que tinha, sem cerimónia, sem pena, sem aquele olhar que pesa mais do que a fome. Era uma partilha natural, como se o mundo tivesse sido feito para ser dividido.
Um dia, o pai de um amigo meu - homem de princípios curtos e generosidade ainda mais curta - decidiu denunciar-nos. Como se o gesto dela fosse um crime. Como se a bondade fosse uma afronta. Mas a mãe da Batistinha, senhora de alma grande, não só não a repreendeu como começou a mandar lanche para dois. Não era esmola. Era respeito. Era a certeza de que nenhuma criança deve aprender cedo demais o que é a vergonha.
Essa senhora, que talvez já ninguém recorde, deixou em mim uma marca que não se apaga. Porque há gestos que não alimentam apenas o corpo. alimentam também a dignidade.
Outra presença luminosa da minha infância foi a Géninha. Filha de um polícia da antiga PIDE, vivia num mundo que, à primeira vista, parecia distante do meu. Mas a amizade não se faz de classes, nem de profissões dos pais, nem de ideologias. Faz-se de afinidades. E nós tínhamos essa. Brincávamos juntos, corríamos pelas ruas até a noite cair, e nunca senti da parte dela - nem dos pais - um único olhar de desconfiança. Pelo contrário: acarinhavam-me como se fosse um dos seus.
Num Natal, convidaram-me para almoçar com eles. Eu, menino pobre da aldeia, sentei-me à mesa de uma família de classe média alta sem sentir que estava a invadir território alheio. Ali, naquele dia, percebi que a verdadeira grandeza não está no que se tem, mas no que se dá.
Depois do 25 de Abril, nunca mais vi a Géninha. A vida separou-nos como separa tantas coisas. Mas um amigo comum trouxe-me um recado dela: Mandou-me um beijinho. E esse beijinho, cem por cento fraterno e enviado por palavras alheias, atravessou décadas intacto. Há afetos que sobrevivem ao tempo, às revoluções e ao silêncio.
Quando penso nesses anos, percebo que vivi num tempo em que a pobreza não era vergonha e a riqueza não era muro. Os mais abastados e os mais modestos coabitavam, conviviam, brincavam juntos. Não havia a menor sombra de preconceito. As ruas eram de todos, os risos eram de todos e a infância era um território comum onde ninguém era estrangeiro.
Hoje, quando olho para trás, vejo que a minha vida foi moldada por essas pessoas que me deram o que tinham: um lanche, um lugar à mesa, um beijo enviado por recado, um pedaço de dignidade. Foram elas que me ensinaram que a verdadeira riqueza está na generosidade. E que a pobreza, quando é acompanhada de afeto, não é miséria, é apenas um ponto de partida.
A Batistinha e a sua bondosa mãe, a Géninha e os seus pais, talvez nunca saibam o quanto me deram. Mas eu sei. E esta crónica é a minha forma de lhes agradecer. Porque há dívidas que não se pagam, honram-se.
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