É inevitável: quando o coração aprende a idade da alma, já não quer reboliço, quer é sossego. Já não procura multidões, procura verdade. Já não quer provar nada, quer apenas ser quem é.
Porque o tempo ensina que a paz não é luxo, é necessidade. E que a solidão vale mais do que uma companhia que nos fere.
Há batalhas que deixamos de travar não por desistência, mas por sabedoria, porque quem já decidiu não entender, não entenderá.
E então, devagar, tornamo-nos guardiões de nós mesmos. Aceitamos as nossas falhas como quem aceita cicatrizes que já não doem. Ao respeitarmos o que somos, aprendemos a respeitar o que os outros não conseguem ser.
E é nessa hora que percebemos que até a compaixão tem limites. Porque há quem, ferido, responda com agressividade à mão que o tenta erguer. Há quem confunda cuidado com obrigação, e amizade com porto de descarga.
E nós, por bondade, suportamos o que não devíamos suportar. Até que um dia o silêncio se torna a resposta mais justa. E então deixamos de alimentar razões, de explicar o que não querem ouvir, de justificar o que nunca será compreendido.
Respondemos com educação, mas não nos oferecemos. Mantemos a porta aberta, mas fechamos a ferida. E quem estava habituado ao nosso coração inquieta-se porque a nossa mudança já não o favorece.
Entramos sem cerimónia naquela decisão de deixarmos de nos importar, esse lugar secreto onde só entra quem já percebeu que a felicidade é simples, e que a leveza é uma forma de oração.
E assim seguimos, passo após passo, deixando cair o que nos pesa, libertando-nos do que nos prende, despedindo-nos do que escurece a nossa vida.
Porque tudo o que não é amor, cansa. E tudo o que não é verdade, cai. No fim, resta apenas um caminho limpo, um coração sereno, e a coragem de ser feliz sem pedir licença.
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