segunda-feira, 8 de junho de 2026

Mais um anoitecer sobre esta terra antiga

Há noites em que a alma se encosta ao peitoril da janela e fica ali, quieta, a olhar o mundo como quem olha um velho amigo que regressa cansado, mas fiel. O dia recolhe-se devagar, como um pastor que fecha o rebanho, e a luz vai-se deitando sobre os campos com a delicadeza de quem conhece cada sulco, cada pedra, cada sombra.
Lá fora, as espigas de centeio, já pesadas de grão, inclinam-se num gesto que parece reverência. Não é só o peso que as faz pender – é a memória da terra que as sustenta, a mesma terra que as viu nascer, crescer, amadurecer. Há nelas uma humildade antiga, como se soubessem que tudo o que sobe acaba por regressar ao chão que o alimentou.
O feno, recém-segado, exala um perfume que não pertence a nenhuma estação do calendário, mas a todas as estações da vida. É o cheiro de milhões de flores que cumpriram o seu destino e agora repousam, entregues ao sol que as seca e as transforma. Esse aroma mistura-se com o silêncio da tarde que morre, e juntos criam uma espécie de oração sem palavras.
E é então que a melancolia chega, não como tristeza, mas como reconhecimento. Reconhecimento que caminhamos sobre um chão que guarda mais séculos do que passos. Sob os nossos pés dormem antas que foram templos, menires que foram faróis de pedra, lagaretas onde mãos sem nome esmagaram azeitonas para alimentar famílias que já não existem.
Há restos de villas romanas na Herdade dos Pombais e na Herdade da Torre, mosaicos que o tempo tentou apagar mas que insistem em sobreviver, como se quisessem lembrar-nos que a história nunca se rende.
Tudo isto vive aqui, neste pedaço de mundo que a pressa moderna quase despovoou. Cinquenta anos de desatenção, de políticas cegas, de abandono lento e cruel. Mas a terra não esquece. A terra guarda. A terra espera.
Eu sou um dos que ainda a escutam.
Por isso a noite me fala. Por isso o campo me acompanha. Por isso sinto esta mistura de ternura e dor, de pertença e inquietação. Porque sei que este chão é mais do que paisagem: é herança, é testemunho, é raiz.
E quando a minha alma se encosta ao peitoril da janela, não está apenas a olhar o mundo, está a reconhecer-se nele. Está a ver-se refletida nas espigas que pendem, nos fenos que secam, nas pedras que guardam séculos. Está a perceber que também ela faz parte desta continuidade silenciosa, desta respiração antiga que atravessa gerações.
A noite cai, mas não apaga. A noite cobre, mas não esconde. A noite é o manto onde a memória repousa. E eu, que a contemplo, tento ser o guardião dessa memória.
Em Beirã, na Toca dos Coelhos.