Há textos que nascem como um sussurro e há outros que chegam como um abalo. Este nasceu de uma gota – uma gota de desconforto, de revolta, de lucidez – que, ao tocar na superfície da injustiça, se transformou num lago inteiro. Um lago profundo, como o Lago di Como que visitei recentemente, nos seus 425 metros de silêncio, de espanto e de verdade.
Porque há momentos em que não basta lamentar. É preciso parar, olhar, sentir e escrever. Escrever para que a indignação não se perca. Escrever para que a dignidade não se apague. Escrever para que ninguém possa dizer, amanhã, que não sabia.
Este texto é uma gota que se recusa a ser pequena. É um lago profundo que pede reflexão, e de tanta profundidade que exige respeito.
Então, cá vai…
Leiam devagar. Este texto não é urgente, é importante.
Há dias em que o país parece avançar a uma velocidade que não é humana. Corre, desliza, digitaliza, automatiza, e, no meio dessa pressa luminosa, esquece-se de olhar para trás.
E atrás… atrás estão aqueles que ergueram tudo isto com as mãos, com o corpo, com a vida inteira.
Hoje, para marcar uma consulta, é preciso um código. Para pedir uma certidão, é preciso um portal. Para pagar uma conta, é preciso uma aplicação. E para existir – imagine-se – é preciso um smartphone.
Mas quem construiu este país não foi quem sabe deslizar o dedo num ecrã. Foi quem sabia ler o céu para prever a chuva. Foi quem carregou sacos de cimento às costas. Foi quem lavou roupa no tanque, quem criou os filhos com o que havia, quem fez contas de cabeça, quem rezou baixinho para que o mês chegasse ao fim com dignidade.
E esses… esses agora são estrangeiros dentro da sua própria casa.
A modernidade transformou-se numa língua que não lhes pertence. E o mais cruel é isto: dizem-lhes que é simples, que é rápido, que é intuitivo – como se a dificuldade fosse culpa deles.
Como se o problema fosse a idade, e não o abandono.
Porque é abandono. Não lhe chamemos outra coisa.
Quando um idoso precisa de um filho para marcar uma consulta, perde autonomia. Quando precisa de um neto para aceder ao banco, perde privacidade. Quando precisa de um estranho para validar um documento, perde dignidade.
E um país que permite isto, não é moderno. É apenas cómodo. É apenas egoísta. É apenas cego para com a sua própria raiz.
A tecnologia deveria ser ponte – nunca muro.
Deveria aproximar – nunca excluir.
Deveria libertar – nunca humilhar.
Mas hoje, em 2026, criámos um sistema onde quem tem 70 anos é tratado como um intruso. Como alguém que atrasa a fila. Como alguém que “não percebe”. Como alguém que já não conta.
E no entanto… foram eles que contaram sempre. Foram eles que seguraram o país quando o país era só pedra e esperança. Foram eles que trabalharam sem férias, sem direitos, sem horários. Foram eles que fizeram de Portugal um lugar possível.
E agora, quando mais precisam, dizemos-lhes: “Desculpe, mas tem de instalar a aplicação.”
É aqui que a minha gota cai no oceano. Pequena, sim. Mas necessária.
Porque cada vez que alguém escreve, denuncia, levanta a voz, recusa esta normalidade absurda, o oceano mexe-se um milímetro.
E um milímetro… é o início de uma maré.
Porque...
A dignidade não é um QR code.
A cidadania não é uma password.
A velhice não é um erro de sistema.
E enquanto houver um idoso que não consegue aceder aos seus direitos porque o país decidiu que tudo deve caber num telemóvel, não somos modernos – somos vergonhosa e profundamente, injustos.
A minha gota está aqui. Pequena, mas inteira. E o oceano… o oceano já não será o mesmo depois dela. E se o oceano já não for o mesmo depois desta gota, então talvez – só talvez – ainda haja esperança de o fazer transbordar de justiça.
Texto
Foto
Nota: O Lago di Como é o mais profundo de Itália e um dos mais profundos de toda a Europa. E, por isso mesmo, do tamanho da minha indignação.
