domingo, 28 de junho de 2026

A dignidade não se negocia

Na vida, tudo acontece no tempo que lhe pertence. Nem antes, nem depois. E por mais que tentemos antecipar o que aí vem, há sempre um instante que nos escapa, aquele em que o imprevisível decide entrar pela porta sem pedir licença.

Fui educado a acreditar que as pessoas são, como nós, bem‑intencionadas. A confiar primeiro, a duvidar só quando a vida obriga. É natural: quem cresce rodeado de exemplos firmes aprende a ver o mundo com olhos limpos. A minha família não tinha pergaminhos, mas tinha algo maior: princípios que se transmitiam sem discursos, apenas pelo modo de estar.

Bondade, honestidade, educação, respeito. Valores simples, mas tão exigentes que, quando vividos a sério, iluminam tudo à volta.

Ao longo do caminho encontrei de tudo. Do melhor, que felizmente foi muito; e do pior, que apesar de menos frequente, deixou marcas profundas. Não guardo rancores, só memórias arrumadas no sótão da alma, com pequenos marcadores para quando preciso reaprender a superar a dor.

Porque ela volta, sempre volta, com novos rostos e novas palavras, mas com o mesmo amargor antigo.

Há almas onde nada floresce. Não por culpa das sementes, mas pela aridez do terreno. Diplomas, títulos, erudição, nada disso corrige o que nasce torto no coração. E por mais que nos custe aceitar, há pessoas que não se deixam tocar pela bondade, nem pela educação, nem pelo respeito que para nós são invioláveis.

Ainda assim, não desisto. Acredito num mundo mais justo, mesmo sabendo que não o mudarei sozinho. As minhas capacidades podem não ser vastas, mas são verdadeiras. E são herança daqueles a quem devo tudo: os que me ensinaram que a dignidade humana não se negocia, vive‑se.

É isso que procuro fazer, todos os dias.

José Coelho