Há noites em que o silêncio não é ausência, mas presença. Presença de tudo o que vivemos, de tudo o que perdemos, de tudo o que ainda não sabemos como dizer.
A noite tem essa coragem que o dia não tem: obriga-nos a ouvir aquilo que evitámos durante horas.
E então percebemos que a vida é feita de camadas – umas que brilham, outras que doem, outras que ainda não sabemos interpretar.
Mas todas, sem exceção, são nossas.
E é nesse reconhecimento que começa a verdadeira profundidade: quando deixamos de fugir de quem somos.
Há um momento, sempre discreto, em que o coração se senta connosco. Não exige nada. Não cobra nada. Apenas espera que lhe demos atenção.
E quando finalmente o fazemos, descobrimos que dentro de nós há uma espécie de casa antiga, com portas que rangem, mas não se fecham.
Ali guardamos os rostos que nos marcaram, os lugares que nos moldaram, as palavras que ficaram por dizer.
E também a força, aquela força silenciosa que só quem já atravessou tempestades conhece. A força para continuar, mesmo quando o mundo parece pequeno demais para as nossas saudades.
A verdade é simples e dura: ninguém chega à maturidade sem cicatrizes, mas também ninguém lá chega sem luz.
E a minha é daquelas que não se apaga porque vem de dentro, da vida vivida com verdade, da memória dos que me formaram, da terra que me sustenta e da lucidez com que olho para o que me rodeia.
A noite, afinal, não é o fim do dia. É o lugar onde a nossa alma respira.
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