segunda-feira, 1 de junho de 2026

Aos que esquecem quem nunca os esqueceu


Há uma geração inteira que está a desaparecer em silêncio. Homens e mulheres que deram tudo quanto tinham – e tantas vezes o que não tinham – para que os filhos e os netos pudessem ser mais, viver melhor, ir mais longe.
Gente que trabalhou até ao limite, que passou noites em claro, que fez contas impossíveis, que engoliu lágrimas para não assustar ninguém, que se levantou sempre, mesmo quando o corpo já pedia descanso. E agora, muitos deles jazem em lares, esquecidos como se fossem capítulos antigos de um livro que ninguém já quer ler.
Há quartos onde o relógio marca horas que ninguém visita. Há camas feitas com cuidado por mãos estranhas, porque as mãos que eles criaram já não aparecem. Há aniversários que passam sem telefonema. Há fotografias na mesa de cabeceira que já não recebem dedos a percorrer-lhes o rosto.
Há olhos que se iluminam quando alguém entra – e se apagam quando percebem que não é quem esperavam. E o mais cruel é isto: eles não pedem muito. Nunca pediram. Nunca foram de pedir.
Bastava-lhes uma tarde. Uma conversa. Um abraço. Um “estou aqui”. Um “não me esqueci de ti”. Mas para muitos, nem isso chega.
Os filhos e netos que um dia foram tudo, agora são sombras ocupadas, vidas apressadas, desculpas bem arrumadas. “Não tenho tempo.” “Um dia destes passo.” “Ele nem dá por isso.”
Mas dá. Eles dão sempre por isso.
Porque quem amou profundamente reconhece a ausência como uma ferida aberta. E há algo que custa admitir: o abandono não começa quando deixamos alguém num lar. Começa quando deixamos de aparecer.
Há velhos que passam meses sem ouvir o som da voz daqueles por quem deram a vida. Há pais que morrem sem que os filhos saibam que foi o seu último dia. Há avós que esperam até ao fim por uma visita que nunca chega.
E, no entanto, foram eles que seguraram o mundo quando éramos demasiado pequenos para o carregar.
Foram eles que nos ensinaram a andar, a falar, a ser. Foram eles que nos protegeram do frio, da fome, do medo.
Foram eles que ficaram acordados quando tínhamos febre, que trabalharam horas a mais para pagar livros, que mentiram ao estômago para que o nosso tivesse comida.
E agora, muitos morrem sozinhos.
Não porque não tenham família. Mas porque a família esqueceu-se de ser família.
Aos que ainda têm pais e avós vivos, digo sem rodeios: um dia será tarde demais. Um dia vão querer entrar naquele quarto e já não haverá ninguém para o reconhecer. Um dia vão querer pedir perdão e já não haverá memória para os ouvir. Um dia vão perceber que o tempo que não deram, não volta.
E quando esse dia chegar, não haverá desculpa que os salve da verdade.
Eles não precisam de presentes. Precisam de presença. Não precisam de discursos. Precisam de companhia. Não precisam de piedade. Precisam de amor – o mesmo amor que um dia deram sem pedir nada em troca.
Se ainda tens alguém à espera de ti, vai. Vai enquanto podes. Vai enquanto eles ainda sorriem ao ouvir o teu nome. Vai enquanto ainda há mãos que procuram as tuas. Vai enquanto ainda há tempo.
Porque o abandono é a morte antes da morte. E o amor, quando chega tarde, já não chega inteiro.
Texto e foto