sexta-feira, 26 de junho de 2026

A luz que permanece em mim

Às vezes dou por mim a esquecer coisas que sempre estiveram comigo. Pequenos detalhes, nomes que antes vinham sem esforço, palavras que sempre me acompanharam e que agora, de vez em quando, parecem esconder-se atrás de uma porta que não sei abrir.
E quando isso me acontece no ambão, com o microfone à frente, com a assembleia a olhar, com o salmo que cantei a vida inteira… a verdade é que o coração dispara. Sinto-o bater como se quisesse avisar-me que o tempo está a mudar de forma, em mim.
Mas mesmo assim, eu subo. Subo sempre. Porque há qualquer coisa que ainda sabe o caminho, mesmo quando a memória tropeça.
E, quando volto para o meu lugar, com o relógio no pulso a acender o alarme vermelho, e vejo aqueles números a subirem acima das 145 pulsações por minuto, sorrio por dentro. Não porque não tenha medo, porque tenho. Mas porque, apesar do medo, continuo a ser eu.
Continuo a ser luz para alguém. Continuo a ser presença. Continuo a ser voz.
A caminhar para os 75 sinto as capacidades a descerem devagar, como o sol que se põe sem pressa. Mas também sinto o aumentar de uma claridade que não depende da memória. Uma certeza que não se explica, mas que se reconhece.
Eu sei que deixei rasto. Sei que toquei vidas. Sei que fui abrigo, que fui companhia, que fui riso, que fui mão estendida. E isso ninguém me tira.
Mesmo quando me esqueço, há quem se lembre de mim. Não pelos factos, mas pelo que lhes despertei. Pelo que lhes dei sem perceber. Pelo que ficou gravado neles como uma marca suave, mas profunda.
E quando me sento em silêncio, quando deixo o mundo abrandar, sinto uma luz a pousar dentro de mim. Não é uma luz que brilha para fora, é uma luz que repousa. Uma luz que me diz: “a tua história continua, mesmo quando não a recordas”.
E então percebo que viver com inteireza é isto: é aceitar que nem tudo fica, mas o que fica é o que realmente importa.
A parte de mim que se fez amor, permanece. A parte de mim que tocou alguém, permanece. A parte de mim que iluminou um instante na vida de outra pessoa, permanece.
E essa parte… essa parte, ninguém me tira. Ninguém esquece. Nem eu.
Texto e foto